Insanity


Escrita porPâmela Sabrine
Revisada por Mariana


Capítulo 07

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

  Nossa mãe sorri, disfarçando a cena forçada que acabara de presenciar; ela, mais do que ninguém, sabia o quanto Bill não gostava de intromissões quando o assunto era seu casamento, e se a própria Kate dissera que estava tudo bem, era nisso que ela iria acreditar, mesmo contra sua vontade.
   – Então, ótimo, ligarei para Gert vir me ajudar, e você poderá descansar. – Disse ela.
   – Obrigada, mas prefiro ajudá-la. – Kate se afasta rapidamente de Bill como se quisesse livrar-se de sua presença.
   – Tudo bem, não se preocupe. – Ela agradece e logo volta sua atenção para mim, que apenas observo tudo de longe. Ainda não consigo me mexer e também não consigo falar, é como se estivesse assistindo toda a cena de outro lugar sem que ninguém notasse minha presença, sem que pudesse opinar... – Tom?
   Eu a olho, e ela sabe que estou completamente estranho, mas como explicar se nem eu mesmo tenho certeza de meu estado?
   Nunca mais vou misturar bebidas, nunca mais, repito mentalmente antes de começar a segui-la até a cozinha, mas logo me lembro de que não posso deixar Kate sozinha com Bill e fico a espreita na porta do corredor, esperando qualquer movimento dele.
   Kate continua afastando-se dele passo a passo, não parece querer fugir, apenas manter uma distancia segura.
   – Espero que não resolva ir embora meio ao jantar. – Ele a avisa enquanto leva suas mãos ao cabelo dela.
   – Na verdade, eu estava pensando em ir agora mesmo. – Ela responde, com sua voz um pouco instável.
   – Então esqueça. – Ele sussurra, embolando seus cabelos em sua mão, e imediatamente ela muda sua expressão.
   – Vai me bater se eu tentar ir? – Pergunta em tom vacilante.
   – Não.
   – Por que está agindo assim? – Ela vira o rosto, procurando por mim, e logo que me encontra posso ver sua expressão dolorida – O que está acontecendo com Tom?
   – Kate, olhe para mim. – Ele grita puxando seu cabelo.
   Lentamente, ela levantou a cabeça e olhou em seus olhos escuros.
   – Vá para o banho. – Bill a olha e sei que está com nojo de seus pensamentos. – Tire o cheiro dele do seu corpo e comporte-se na frente de todos. – Ele a avisa... – Não olhe para o Tom, não fale com ele, e, principalmente, não tente ir embora.
   – Você está louco. – Ela sussurra. – Por que está fazendo isso?
   – Não me subestime. – Ele grita olhando para os lados.
   – Não estou.
   – Se tentar fugir. – Aperta os braços dela com suas unhas em forma de aviso do que estava por vir. Tento dar um passo em direção a eles, mas isso só acontece em minha mente; meu corpo não anda e, como resposta, só consigo ouvir novamente aquele maldito bip, que agora sinalizava meus passos como um sensor. - Vou matar você. – Ele diz e em vez de largá-la, aperta-a ainda mais.
   Os olhos dela se encheram de lágrimas, e eu pude ver o medo nos mesmos, mas ainda assim ela não estava facilitando nada. Seu rosto, embora carregado de lágrimas, ainda era totalmente neutro, e eu não fazia ideia sobre o que ela estava pensando.
   Tudo que eu pensava era em por que Kate estava mentindo daquela forma. Se ele nos viu, ela não teria porque mentir, isso não me parecia ser a coisa certa a fazer. Mesmo que fosse doloroso para Bill eu falei a verdade, então por que ela não conseguia fazer o mesmo?
   Quando ele a largou, Kate limpou rapidamente seu rosto e passou apressada por mim, indo direto para a cozinha, onde minha mãe estava.
   – Posso ajudar? – Ela perguntou tentando manter suas lágrimas para si.
   – Você não caiu. – Mamãe se aproximou de Kate, jogando seu cabelo para o lado, tendo assim uma visão maior do corte em seu pescoço. - Não ficaria tão machucada apenas caindo.
   – Eu caí sobre a mesa. – Ela disse; era verdade, ela realmente havia caído; porém, não sozinha.
   – Foi ele? – Mamãe perguntou, assustando tanto Kate quanto a mim.
   – Quantas pessoas virão hoje? - Kate tentou ignorar sua pergunta virando-se em direção à mesa, começando a contar os pratos e talheres.
   – Tudo bem, você não quer contar. – Minha mãe colocou as mãos na cintura, como há muito tempo não fazia, e começou a caminhar em direção à sala. – Não acredito que ele fez isso. – Ela gritou.
   – Não, por favor. – Kate a impediu, segurando-a pelo braço. – Está tudo bem.
   – Sei que está mentindo. – Ela olhou para as mãos de Kate e logo as segurou, aquecendo-as com as suas. - Mas se não está pronta para se abrir, tudo bem. Sei que há alguma coisa errada. – Levou suas mãos até o rosto de Kate, impedindo que uma lágrima caísse. - Pode, pelo menos, se animar um pouco? Nunca vi você assim.
   – Vou ficar bem, Simone. – Kate sorriu e logo voltou a contar os pratos sobre a mesa.
   – Eu sei, sempre fica, mas seria ótimo se pudesse ficar mais do que apenas bem desta vez.
   Kate sorriu, mas não respondeu, e ao longe eu pude ver Bill as espiando. Mais do que isso, eu pude ouvi-lo se culpar por tê-la machucado... Imaginando a decepção e a agonia de nossos pais ao saber que tipo de pessoa ele havia se tornado... E imaginando que talvez o odiassem ainda mais depois que tudo isso acabasse.
   Mais tarde, quando tudo estava pronto, Kate voltou para o quarto e a acompanhei como um fantasma capaz de atravessar paredes. Não me importava, porque tudo que eu pensava era que devia protegê-la dele mesmo estando neste estado medíocre e desconhecido.
   Ela entrou e eu a segui, iria falar com ela, seria a hora certa. Mas, quando ela estava dentro do mesmo, a porta se fechou em meu rosto, e eu sabia que havia sido ele. Sabia, porque podia ouvir seus batimentos no mesmo compasso que os meus, e principalmente, podia ouvir seus pensamentos.
   Fiquei à espera que falasse qualquer coisa, mas as palavras continuavam a não fazer sentindo na cabeça dele.
   As palmas das minhas mãos estavam ficando suadas e, sem me importar com o que podia vir a acontecer, empurro a porta e entro, fechando-a novamente.
   Ele me encara com raiva; ela, com pena, mas ambos acabam me ignorando como se eu não estivesse ali.
   – Eu nunca quis machucar você. – Bill a agarrou pelo braço. – Não ontem, nem agora.
   – Você pode me bater, Bill. – Ela o desafiou pela primeira vez. – Nada me machucaria mais do que ver o jeito que me olha, e saber o que pensa de mim.
   – Por favor, para de mentir. – Ele grita, a atirando sobre a cama.
   – Não sei o que Tom disse a você. – Ela fala e eu a olho.
   – A verdade. O que você queria que eu tivesse dito? – Grito a olhando na cama, mas nem ela ou Bill parece se importar com minha presença, e muito menos com o que acabo de dizer.
   – Eu vi vocês dois juntos! – Ele grita enquanto se aproxima da cama.
   – Quando chegamos? – Ela tenta levantar da cama, mas ele a impede, ficando por cima de seu corpo. – Quando conversamos? Quando eu disse a ele que não poderia oferecer nada? – Kate grita, e eu juro, nunca havia visto ficar tão desesperada quanto agora.
   – Quando ele desejou você. – Bill começa a tocá-la por cima da roupa - Quando beijou você. – Ele toca seus lábios – Quando ele tocava você enquanto... – Parou de falar, avançando suas mãos ao pescoço dela, onde havia machucado noite anterior.
   – Está me machucando. – Ela diz assustada.
   – Foda-se, você fez isso! Você fez isso com a gente, você acabou com a nossa família. A culpa é sua, Kate. – Ele grita com ela, apertando-a com suas mãos e corpo.
   Isso me deixou sem saber o que fazer, já que me mover quando isso acontecia era impossível. Toda vez que ele parecia querer machucá-la, eu ficava preso como em um pesadelo sem fim.
   – Você está me enlouquecendo, por que você não para, não aguento mais ouvi-lo. – Ela chora sufocando embaixo dele. – Não vê o quanto está me machucando? É isso que você quer, Bill?
   – Você me machuca mais. – Posso ver suas mãos escorregando pelo pescoço de Kate enquanto ele chora. – Não posso dividir você com ele, se é isso que você quer... Não aceito a ideia de que não consiga ser feliz apenas comigo e que precise dormir com meu irmão para se sentir completa.
   – Por favor... Para! – Ela pediu a ele, empurrando-o para o chão.
   – Para de chorar, por que sempre faz que eu grite com você? – Bill levantou rapidamente e prensou contra a parede do quarto. - Como pode? Dormir com meu irmão em minha própria casa? – Ele começa a chorar junto com ela. - Como você pode dormir com ele em nossa cama?
   – Eu nunca faria isso com você. – Ela diz, obviamente mentindo, o que me deixa claramente nervoso. – Você está doente, por que insiste nisso?
   – Droga... – Ele se afasta e passa por mim. – Eu perdoaria você se me contasse a verdade, Kate.
   – Eu nunca menti pra você. – Ela se aproxima, tocando seu rosto. Está mentindo e tentando convencê-lo de que está louco.
   Eu sei, ele sabe... Porque também pode me ouvir, mesmo que não possamos nos comunicar verbalmente.
   – Não toque em mim... – Ele a empurra assim que me olha. – Eu odeio você... Eu odeio você. – Diz a ela em tom desesperador – Droga... Eu amo você, por que fez isso, por que você fez isso comigo?
   – Por favor, eu amo você, para com isso. – Ela se aproxima dele, soluçando.
   Por que ela está fazendo isso comigo? Por que estou assim? Enquanto meu irmão precisa de mim, tudo que eu consigo fazer é manipulá-lo através de sua mente.
   Por que não consigo me mexer? Por que esse maldito barulho não sai da minha cabeça?
   – Porque não, porra! – Eu grito comigo mesmo.
   – Eu deveria ter percebido quando você começou a ficar estranha... – Ele continuou olhando para ela com receio.
   – Kate? – Mamãe bateu à porta e eu agradeci mentalmente por isso. – Pode ajudar Gert?
   – Sim. – Kate respondeu, alinhando-se novamente.
   Acho que nem eu ou Bill neste momento fazíamos ideia de quem era essa pessoa à nossa frente...
   E então eu tentei imaginar Kate perdendo totalmente a linha, falando a verdade e contanto a todos o que realmente estava acontecendo conosco. Mas no fundo eu sabia que ela nunca faria isso, ela sempre seria alheia a tudo isso de alguma forma, mesmo que isso a afetasse.

Capítulo 07
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