Capítulo 03
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Meus olhos continuavam paralisados, presos em uma cena nunca vista, não desta forma, não em minha casa, e não com meu irmão e a mulher que eu tanto desejava, mas principalmente comigo os espiando por um espaço entre a porta... Sentia-me totalmente idiota, um adolescente descobrindo seus pais em pleno ato durante a madrugada, e mesmo assim me sentindo culpado, não conseguindo me mover.
Olhos vidrados, coração acelerado, mãos suando, se eu pudesse me descrever algum dia seria exatamente assim que o faria... Como um completo estranho amedrontado por ser pego no local errado. O espaço entreaberto era pequeno, mas era suficientemente bom para que pudesse ver tudo, ouvir... Praticamente sentir cada sussurro como se fosse meu, como se fosse para mim.
Os dois sentados à beira da cama, seu corpo encaixado ao dele, o suor em suas faces, meu irmão perdido em tamanha beleza e excitação, a forma como seu corpo se movia enquanto ele a tocava. Em completo delírio, era assim que me encontrava, querendo ir, mas perdido em um cenário completamente excitante... Levei minhas mãos à cabeça, tentando cobrir meus olhos e retomar minha sanidade para assim poder sair dali calmamente sem ser visto.
Caminhei até à sala tentando esquecer, tentando pensar em um jeito de sair, um jeito que não me levasse à verdade, não que eu não quisesse contar, eu realmente queria, mesmo sabendo que nada mudaria. A verdade não me traria Kate, a verdade traria tristeza para ambos os lados, e pensando nisso, eu preferia ficar com esse sentimento apenas para mim.
Encontrei por acaso uma garrafa de absinto que Bill e eu havíamos ganhado em uma viagem a Holanda, não conseguia lembrar dos motivos que levaram a estar fechada até agora, mas para mim aquele era o momento perfeito para acabar com isso, não seria desperdício ou egoísmo, eu estava precisando daquilo mais do que ele.
Cheguei ao meu quarto e tranquei a porta, só assim estaria livre para chorar sem ter que dar satisfações e aguentar o estranhamento de Bill perante aos fatos caso me visse com olhos inchado e completamente bêbado.
Abri a garrafa procurando por uma taça, sem muita sorte olhei novamente para a mesma e levei à boca, que se dane, eu não dividiria com ninguém mesmo, dividir... Essa palavra passeava demais em minha memória durante esses sete meses, embora não fosse minha vontade.
Senti o líquido descer por minha garganta queimando a mesma e lembrei do que o homem que tinha nos vendido havia descrito sobre ela, “Se beberem de mais terão alucinações”. Mais do que as que já tenho? Impossível.
Continuei bebendo até sentir sua última gota chegar à minha boca, e devo dizer aquela foi à última cor que eu vi em minha frente antes de sentir meu corpo desabando sobre o chão.
Acordei horas mais tarde com Bill gritando do lado de fora do meu quarto, olhei para o lado, procurado meu relógio, mas a única coisa que encontrei foi à garrafa vazia, que me fez lembrar o porquê de sentir minha cabeça estourando agora...
Levantei devagar chegando até à porta... Bill entrou rápido, me olhando.
- O que foi? – perguntei sem olhá-lo.
- Você bebeu toda a garrafa? – Perguntou incrédulo.
- Ah, desculpa não ter deixado pra você. – Debochei.
- Você está bêbado. – Gritou ele, jogando a garrafa longe.
- Sério? – Blasfemei.
- Estávamos preocupados com você... Kate veio chamá-lo para jantar, mas não respondeu... – Ele tornou a olhar para mim com seu semblante sério.
- Eu estava longe, se é que me entende. – Gargalhei e ele revirou os olhos.
- Vá tomar um banho, não quero que Kate veja você assim. – Respondeu rude.
- Não se preocupe, Kate não vai mais ver isso... Eu vou embora. – Virei-me a fim de não encará-lo, com medo de encontrar seus olhos.
- O que disse? – Perguntou falando alto.
- Eu vou embora! Dar um tempo... Entenda como quiser... - Murmurei tentando acabar com aquele olhar devastador sobre mim.
- Como assim dar um tempo, aqui é sua casa. – Sussurrou.
- Eu sei, mas eu preciso me divertir um pouco... - Disse enquanto levava a mão à cabeça, que parecia querer explodir... Olhei para Bill que parecia perdido ou à beira de um ataque – Ok, não comece a gritar... – Pedi tentando acalmá-lo - Georg comprou uma casa nova e quer dar umas festas, você sabe, ele quer esquecer a Sophie, e me chamou para ficar lá uns dias... – Finalizei.
- Uns dias? Quantos dias? – Ele perguntou meio inseguro.
- Eu não faço ideia... - Tentei ser o mais convincente que pude.