Capítulo 02
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Mais um dia havia se passado, mais um dia sem poder conversar com meu irmão sobre o que estava sentindo, e esse seria outro dia como todos os outros. Claro, infelizmente eu não poderia fazer nada para mudá-lo.
Liguei para o Georg e marcamos de nos encontrarmos em sua nova casa, um lugar diferente, como ele próprio descreveu, um lugar para esquecer e se sentir livre de qualquer ameaça possível, e em nosso caso essa ameaça tinha o nome de paparazzi.
Demorei um pouco a conseguir encontrar o lugar certo, mas quando avistei aquela estranha casa velha de vidro eu comecei a crer que Georg havia achado o lugar perfeito para se esconder, mesmo que esse parecesse realmente estranho à primeira vista.
- Pensei que estivesse perdido. – Ele caminhou até mim, sorrindo.
- Também pensei. - Brinquei.
- E então? O que achou? – Viramo-nos os dois olhando atentamente para a casa.
- Ela é... – Não sabia o que dizer.
- Estranha? – Ele interrompeu.
- Eu diria que é meio fria – O olhei novamente e Georg sorria, ele estava realmente encantado com aquele monte de vidro e eu não fazia ideia do motivo.
Saímos em direção a casa, e tenho que dizer que a vista do interior me fazia mudar completamente de ideia.
O lago ao fundo completamente congelado refletia o inverno forte, mesmo assim conseguia ser incrível, mas o que tornava aquele lugar perfeito era o som, porque simplesmente não havia som, apenas o silêncio, aquele tipo de silêncio que te permite ouvir a própria respiração e que também te permite sonhar e voar para qualquer lugar que você queira, mas que para mim só havia um caminho... E esse caminho levava-me até Kate.
- Tom? – Olhei para o lado e Georg estava rindo, possivelmente de mim.
- Onde você estava? Parecia longe. – Ele parou por um instante de rir e então me olhou.
- Você vai achar que eu estou louco. - Respirei fundo enquanto procurava um cigarro em meu bolso.
- Quer me contar? – Ele foi receoso.
- Sim.
Ele balançou a cabeça, fazendo sinal para que fossemos até o lago. Caminhamos em silêncio até nos sentarmos à beira do mesmo.
- O que está acontecendo? Por que eu acharia que está louco? – Ele começou, quebrando o silêncio.
- Porque eu estou. – Completei depois de um minuto calado. – Eu estou... Gostando de uma pessoa. – Finalizei e ele riu me olhando.
- Isso é bom. Na verdade, isso é muito bom, não acho que seja uma loucura como você fala... - Georg falava animado, enquanto meu semblante continuava o mesmo.
- Você não entende – Dei alguns passos em direção ao lago e sem olhar para Georg completei em um tom praticamente inaudível consumido pelo choro. – Estou apaixonado por Kate.
O silêncio tomou conta do ambiente em que estávamos. Eu permaneci ali sentindo aquela lágrima quente escorrer por meu rosto gélido pelo frio que fazia, mas mesmo com o medo tomando conta de meu corpo, eu julgava ter feito certo ao desabafar com ele.
- Kate? Qual Kate? – Ele pareceu receoso em falar, mas em fim completou – Kate do Bill?
Ao ouvir seu nome acompanhado de meu irmão, como se fosse um só, meu corpo desabou e eu já não escondia que chorava, eu precisava disso e tinha certeza que Georg entenderia.
- Tom isso é... Bom, eu nem sei o que dizer – Concluiu confuso.
- Não é preciso, Georg, ouvir isso já é o bastante. - Falei tentando parecer mais calmo enquanto limpava meu rosto.
- O que pretende fazer? – Ele me olhava curioso.
- Não há o que fazer a não ser esquecer essa insanidade, mas é tão difícil. – Eu respirava fundo enquanto tentava achar as palavras pra descrever tudo o que eu sentia por Kate enquanto ele ouvia tudo calado, como se estivesse esperando o momento certo para ajudar ou simplesmente confortar, mas esse momento é claro, não existia.
- Eu tento esquecer, eu tento levar minha vida como sempre foi eu saio e tento me divertir, mas quando volto, ela está lá e sempre tão preocupada se eu estou bem e por que demorei tanto, e não é como se fosse uma cobrança e sim porque ela se importa comigo. – Desabafei.
- Eu não sei... Quer dizer, tudo que está me falando... Não está confundindo amor com proteção? – Tentou me alertar.
- Eu gostaria que assim fosse Georg, mas não é isso... Ontem estávamos sozinhos e ela me pediu para tocar sua música favorita, assim eu fiz. Então eu a convidei para dançar. – Por um instante fiquei receoso em contar.
- E o que há de mal em uma dança. Tom? – Perguntou confuso.
- Não há nada de mal em uma dança, mas eu não a chamei por ser gentil. – Afirmei sem querer.
- Eu não entendo... – Ele ficou ao meu lado e então virei meu rosto em sua direção, encontrando confusão em seu semblante.
- Eu estava... Droga... Estava excitado só de tê-la por perto e tudo o que eu queria era senti-la, seu corpo, seu cheiro, seu gosto. –Respirei fundo levando as mãos à cabeça.
- O que você fez, Tom? – Ele alterou-se assustado.
- Apenas dancei – Disse por fim e ele respirou fundo. - Eu jamais faria algo que pudesse magoar Bill, você sabe. – Conclui.
- Ainda bem... Por um momento eu pensei que vocês dois tivessem... – Gesticulou com as mãos.
- Não! – Afirmei - Não a Kate, ela jamais faria isso com ele... E eu sei disso, mas você jamais conseguiria entender. Ela... Me deixa louco, confuso, ela me deixa exatamente no estado em que você está me vendo agora... Indefeso. – Soltei minha respiração com pesar.
- Eu sinto muito que esteja acontecendo isso com você, mas eu te digo, Tom, você tem que sair de casa, tem que deixá-los, e não é uma escolha, você sabe. - Ele me alertou com razão.
- Eu já havia pensado nisso, mas o que falar ao Bill? – perguntei com medo de sua resposta.
- A verdade. – Ele concluiu.
Era o certo, era digno que eu fizesse o que Georg pedira, mas como? Como dizer ao meu irmão que eu desejava sua esposa, como dizer a ele que eu por várias vezes me toquei pensando em Kate. Isso me fazia lembrar de nossas conversar em que sempre confirmávamos que desistiríamos de uma garota caso o outro a quisesse, mas na realidade as coisas não funcionavam assim.
Parti da casa de Georg decidido a procurar um lugar para ficar, mas não decidido sobre contar a verdade. Cheguei em casa no início da tarde, abrindo a porta e jogando as chaves em cima do sofá, estranhando as várias peças de roupa atiradas pelo caminho que levava ao quarto de Bill e Kate.
Passou-me pela cabeça o que poderia estar acontecendo, e a mesma me dizia para ir para meu quarto e me trancar ignorando a cena, mas meu corpo me movia até à porta do quarto deles, e assim eu pude me perder na cena em minha frente, a mesma que eu tanto fantasiei... Mas nesta eu estava presente... Não havia Bill, não havia mentira, não havia pecado... Éramos apenas eu e Kate e o resto... Era apenas o resto.