CAPÍTULO 3
— Eu não posso ir para um hospital, princesa.
No way! — %Johnny% balbuciou enquanto se escorava no muro gelado do beco em que eles agora se encontravam.
— Você está foragido por acaso? — %Yoonhee% continuou analisando a ferida que parecia não ser grave o suficiente para matá-lo, mas também não era tão superficial assim.
— Não é exatamente isso, mas meus negócios não me permitem ir para um hospital público e ir para a cadeia logo em seguida.
%Yoonhee% subiu os olhos para encontrar os dele fechados. Ele tinha o rosto contraído, provavelmente pela dor do ferimento. %Yoonhee% bufou e então se levantou.
— Ok, grandão. Então se segura em mim e vamos procurar uma pensão qualquer. Tenho tudo que preciso aqui na bolsa pra te fazer os primeiros socorros.
— Você vai mesmo ajudar um criminoso a sobreviver? Uau, você é uma caixinha de surpresas.
%Yoonhee% revirou os olhos com o tom provocativo usado pelo tal %Johnny%.
— Minha profissão não faz distinção, querido. Eu não posso simplesmente te deixar aqui para morrer, acredite em mim que eu até gostaria.
— Você é enfermeira? — %Johnny% sentiu ela passar os braços em volta de seus quadris, e ele tentou não jogar muito de seu peso sobre ela.
Começaram a caminhar, bem devagar. %Johnny% não queria machucá-la, e ela não queria piorar a situação dele.
— Sou médica. — %Yoonhee% respondeu a pergunta dele.
— Uau, a minha namorada tem uma profissão nobre! Médica. Uma caixinha de surpresas mesmo.
A voz dele saia ainda mais fraca a cada palavra, mas %Yoonhee% conseguia sentir que ele usava um tom entre irônico e admiração.
— Você precisa poupar energia, ainda mais que vamos caminhar sabe-se lá quantos quarteirões até uma pensão.
— Tem uma pensão, meio mequetrefe daqui há uma quadra. Acredito que eu consiga chegar até lá sem desmaiar.
As pernas de %Johnny% se moviam devagar, e ele cambaleava para lá e para cá, tornando difícil o trabalho de %Yoonhee% de não cambalear junto com ele.
— Você não consegue se manter estável até chegarmos à tal pensão? Eu não posso chegar com você nesse estado, vão querer chamar a polícia, achando que eu to carregando um cadáver…
%Johnny% deu um risada nasalada e tentou firmar o corpo, apertando a cintura dela com força.
%Yoonhee% sentiu as mãos firmes dele deslizarem rapidamente por seu corpo, enquanto ele tentava recuperar a postura.
— Prometo parecer vivo quando chegarmos.
☠️☠️☠️
— Preciso de um quarto, com urgência. Meu namorado bebeu demais, precisamos de um lugar para descansar.
%Yoonhee% ergueu colocou a mala no chão e com a mesma mão, estendeu o documento na direção do recepcionista que não tirou os olhos deles até pegar o documento das mãos dela. %Yoonhee% estava firme, firme até demais para alguém que carregava um homem daquele tamanho. A mente estava um turbilhão, se ele perdesse mais sangue poderia ser tarde demais, ela precisava estancar aquele sangramento para ontem.
%Johnny% tentava manter os olhos abertos, mas falhava miseravelmente quase todas as vezes.
— Você pode ser um pouco mais rápido? — %Yoonhee% umedeceu os lábios.
Logo o recepcionista começou a confirmar alguns dados, como telefone e endereço.
— Aqui, está, o quarto é aqui no térreo mesmo, número quatro.
%Yoonhee% pegou as chaves da mão dele com certa urgência e então se pôs a caminhar com %Johnny% em direção ao quarto de número quatro.
Quando abriu a porta, ela mal teve tempo de reparar em como o quarto era, aquilo não importava. Caminhou cambaleando com %Johnny% até a cama e o colocou com cuidado sobre os lençois.
Abriu a bolsa e retirou de lá a maletinha de primeiros socorros que carregava consigo para todo lado.
%Yoonhee% respirou fundo assim que a porta se fechou atrás deles. O silêncio do quarto foi quase ensurdecedor.
— Deita de lado — ordenou, já abrindo a maleta com movimentos rápidos e precisos. — Devagar.
%Johnny% obedeceu sem discutir, o corpo pesado afundando no colchão gasto. Um novo gemido escapou quando ele tentou se acomodar melhor, a mão indo instintivamente para a lateral do corpo.
— Não toca — ela disse de imediato, afastando os dedos dele com firmeza. — Confia em mim.
Ela calçou as luvas descartáveis, o olhar focado, distante de qualquer emoção que não fosse a urgência do agora. A médica havia assumido completamente o controle.
Com cuidado, ela abriu os botões da camisa que ele usava, afastou o tecido manchado do casaco e da camisa também, expondo o ferimento o suficiente para avaliá-lo. %Yoonhee% analisou a profundidade, a posição, o padrão da lesão. O sangue ainda escorria, mas não em jorro — um detalhe que fez seu peito aliviar apenas um pouco.
— Você teve sorte — murmurou. — Não atingiu nada vital. Mas isso não significa que está fora de perigo.
— Sorte é você aparecer no meu ônibus com canela em pó e diploma — ele respondeu fraco, tentando brincar.
— Fica acordado, %Johnny%. Olha pra mim.
Pegou a gaze e pressionou o local com firmeza calculada, sem crueldade, mas sem delicadeza excessiva. Ele arfou, os músculos se retesando.
— Respira — orientou. — Pelo nariz. Devagar.
O quarto parecia pequeno demais para a quantidade de tensão ali dentro. O cheiro de antisséptico logo se misturou ao ar abafado, e %Yoonhee% trabalhou em silêncio por alguns segundos, concentrada em estancar o sangramento antes que o cansaço dele virasse algo mais sério.
— Quem fez isso com você? — perguntou, sem levantar os olhos.
%Johnny% demorou a responder.
— Pessoas que não gostam quando você diz “não”.
Ela fez um som baixo, impaciente.
— Ótimo. Então tenta não desmaiar antes de me contar o resto da história.
Ele abriu os olhos com esforço, encarando o teto.
— Tá vendo? — murmurou. — Salvando criminosos… e ainda exigindo conversa.
%Yoonhee% terminou de reforçar o curativo, certificando-se de que estava firme o suficiente. Só então tirou as luvas e soltou o ar que parecia prender desde que entraram naquele quarto.
— Não confunde as coisas — disse, finalmente o encarando. — Eu não estou te salvando porque você merece. Estou te salvando porque
eu sou assim.
%Johnny% virou o rosto lentamente na direção dela, a expressão cansada… mas lúcida.
— Então espero sobreviver — respondeu baixo. — Porque acho que acabei de conhecer a pessoa mais perigosa dessa noite.
%Yoonhee% fechou a maleta com um clique seco.
— Dorme — ordenou. — Se acordar pior, eu vou saber. E se tentar fugir… também.
Ela se afastou um passo, o coração ainda acelerado.
Porque agora, além de um coração partido, ela tinha um homem ferido, um segredo… e uma noite que definitivamente ainda não tinha acabado.
☠️☠️☠️
%Johnny% sentia o peito subir e descer com pressa, a respiração ofegante, o coração batendo rápido. A dor invadiu o ferimento e ele levou a mão até o local, pressionando o mesmo. Latejava. Queimava.
Só aí então ele reparou que %Yoonhee% dormia pesadamente no sofá em frente a cama. %Johnny% se levantou devagar, com certa dificuldade, já que o curativo puxava para cima e para baixo, fazendo tudo latejar ainda mais.
Caminhou em direção à médica e então olhou para ela, dormindo.
%Johnny% parou a poucos passos do sofá.
Por um instante, ficou apenas observando. O rosto de %Yoonhee% estava relaxado de um jeito que ele não tinha visto antes — sem tensão, sem vigilância, sem aquela postura firme de quem precisava manter tudo sob controle. O braço pendia para fora do sofá, os dedos ainda sujos de resquícios de antisséptico seco.
Ela tinha adormecido ali. Exausta. Depois de tudo.
Algo apertou no peito dele — não dor, não exatamente. Um incômodo estranho, profundo demais para ser ignorado.
Com cuidado, %Johnny% se agachou ao lado dela, apoiando o peso mais na perna boa. O movimento fez o ferimento protestar outra vez, e ele cerrou os dentes, respirando fundo para não acordá-la.
— Você não faz ideia do tipo de problema que acabou de salvar… — murmurou, quase sem som.
A luz fraca do abajur recortava o rosto dela em sombras suaves. Ele hesitou, a mão pairando no ar por um segundo antes de pegá-la no colo, mesmo que a dor triplicasse.
%Yoonhee% acordou no mesmo instante, as mãos indo parar nos ombros dele. A respiração ofegante pelo susto provavelmente, ou pelo menos ele quis pensar assim.
O rosto dos dois a centímetros de distância, ela sentia a respiração calma dele, e ele sentia a respiração agitada dela.
— Você tá maluco? Vai arrebentar o ferimento por dentro, me põe no chão.
%Johnny% não obedeceu, caminhou com ela até a cama, ajeitando-a por lá de qualquer jeito.
— Eu durmo no sofá, você parece exausta.
— %Johnny%, você está ferido. Eu já dormi em lugares muito piores que esse, não seja teimoso.
— Engraçado, eu ouço isso com certa frequência.
Não hesitou em se deitar no lugar dela no sofá, puxando a manta pequena para cobrar parte do corpo.
Ouviu %Yoonhee% bufar alto.
— Me obedeça e deita logo aqui, podemos dormir os dois na cama.
— É verdade. Somos namorados, podemos dormir os dois na cama. Mas prefiro deixar você à vontade o suficiente para dormir a noite toda.
— Médicos não dormem nunca. A gente cochila. Você deve estar morrendo de dor, amanhã você precisa passar em uma farmácia e comprar os remédios que prescrevi.
— Alguém certamente vai conseguir para mim amanhã.
%Yoonhee% umedeceu os lábios, enquanto olhava para ele, a pergunta vindo mais rápido do que a boca poderia segurar:
%Johnny% deixou um sorriso amargo escapar dos lábios.
— Alguém que você não deveria ter salvado. Tenho certeza que nossos mundos não deveriam ter colidido senhorita %Yoonhee%.
— Mas colidiram, e eu salvei você duas vezes. Acho que me contar quem você é, é o mínimo que mereço.
— Acredite, você não vai gostar de saber quem eu sou. Volte a dormir, amanhã quando você tiver acordado, eu já desapareci.
%Johnny% tentou encerrar o assunto, mas percebeu que ela havia se levantado.
— Sendo assim, eu mesma vou embora. Não vou ficar dividindo quarto com um completo desconhecido.
%Johnny% se levantou da cama num pulo, num sobressalto, sem aviso. Os dois estavam cara a cara, %Johnny% levou a mão até o ferimento, soltando um gemido baixo.
— Não pode ficar fazendo essas estripulias. O ferimento está em processo de cicatrização. — %Yoonhee% bufou.
As mãos dela logo estavam desabotoando a camisa dele outra vez, e %Johnny% se viu como nunca antes totalmente indefeso, vulnerável e hipnotizado por ela.
— Você precisa de repouso. — %Yoonhee% levou os olhos e a mão até o curativo.
%Johnny% respirou fundo quando ela se aproximou mais. Perto demais.
O rosto dela estava a centímetros do seu, perto o suficiente para ele sentir o calor da pele, perto o suficiente para perceber que a respiração dela já não estava tão controlada quanto tentava parecer. Os olhos se encontraram — longos demais para serem apenas clínicos, intensos demais para serem ignorados.
O mundo pareceu encolher.
Por um segundo, %Johnny% esqueceu a dor. Esqueceu o beco, a faca, a fuga, o motivo de estar ali. A mão dele subiu devagar, quase por reflexo, parando a poucos centímetros do braço dela, como se pedir permissão fosse a única coisa que ainda sabia fazer direito.
%Yoonhee% sentiu o impulso antes mesmo de entender. O corpo inclinou levemente, a respiração presa no meio do caminho. Era absurdo. Perigoso. Inadequado.
Ela fechou os olhos por um instante — curto demais para ser coragem, longo demais para ser descuido.
Deu um passo para trás, rápido, como quem acorda de um sonho ruim.
— Não — disse, firme, mais para si mesma do que para ele. — Isso não vai acontecer.
%Johnny% engoliu em seco, a mão caindo de volta ao lado do corpo.
— Você está ferido — ela cortou, retomando a postura, a voz já protegida outra vez. — E eu estou emocionalmente exausta demais pra tomar decisões erradas.
O silêncio que se seguiu foi pesado, mas diferente. Não desconfortável. Necessário.
%Yoonhee% ajeitou o curativo com cuidado final e se afastou mais um pouco, cruzando os braços como se precisasse se ancorar em algo sólido.
— Dorme, %Johnny% — disse, mais baixa agora. — Amanhã… a gente lida com quem você é. E com quem eu vou ser depois dessa noite.
Ele assentiu devagar, sem provocação, sem ironia.
Porque naquele quase, ambos entenderam a mesma coisa:
E talvez fosse exatamente por isso que tinha significado tanto.
☠️☠️☠️