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ATENÇÃO!

História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

O Espaço Criativo não se responsabiliza pelo conteúdo das histórias hospedadas na sessão restrita ou apontadas pelo(a) autor(a) como não próprias para pessoas sensíveis.

Iceburn

Escrita porSoldada
Revisada/Editada por Songfics

Capítulo único

Tempo estimado de leitura: 38 minutos

  UM EXALO TRÊMULO ESCAPOU POR ENTRE SEUS LÁBIOS, AO FECHAR SEUS OLHOS, TRATOU DE ABRI-LOS UM SEGUNDO DEPOIS, ATERRORIZADO.
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  O vento gélido fez pouco para aplacar a crescente ansiedade que tornava-o refém de seu próprio corpo. A sensação de hipersensibilidade em sua pele era incômoda, quase desconfortável, fazia com que arrepios descoordenados se espalhassem por sua pele, que estivesse consciente do toque áspero da jaqueta sobre seus ombros e braços, da maneira com que a blusa parecia agarrar-se contra seus músculos com mais intensidade do que deveria. Considerou fechar os olhos, o desespero para desligar aquela parte de sua mente, outrora iniciada como um pequeno desconforto, uma coceira insignificante, agora era tudo o que conseguia pensar, mas não queria ousar fechar os olhos. Se o fizesse, o que encontraria ali, outra vez, esperando-o se não os fantasmas que ainda o assombravam? Tivera trabalho o suficiente para compreender o tamanho da destruição que a Hydra havia feito consigo. Tivera tempo o suficiente para analisar e entender que suas ações, ainda que fosse ele a empunhar o gatilho, não lhe convinha culpa; como poderia? Ele não tinha autonomia, seu corpo era controlado como uma marionete, suas memórias foram apagadas com a violência necessária para que a única coisa que restasse fosse apenas o instinto e a violência. Ele havia sido treinado, de novo e de novo para acreditar que era apenas uma máquina, uma arma, e por vinte anos ele havia tentado lutar contra a programação. A lavagem cerebral que a Hydra o fez passar apenas funcionou em uma madrugada, quando Bucky estava cansado. Quando percebeu que não haveria como escapar, quando percebeu que já havia passado tempo o suficiente para ter certeza de que havia perdido tudo. Ele havia lutado, com todas suas forças, mas ninguém consegue lutar por tanto tempo. Nem mesmo Steve.
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  Inspirando fundo mais uma vez, o ar gélido nova-iorquino pareceu queimar o interior de suas narinas. O aroma ácido que misturava carbono queimado, sujeira a céu aberto, urina e até mesmo suor parecia espalhar-se por seus pulmões com uma vaga lembrança do que outrora fora. Ele lembrava-se da década de 40, mesmo que o carbono queimado fosse mais intenso ao escapar dos escapamentos dos carros que cruzavam as ruas com uma velocidade mediana, mesmo que a sujeira continuasse a mesma, e mesmo que a urina os acompanhasse como um fantasma projetando-se sobre seus ombros, deliberadamente, parecia mais limpo. Parecia nostálgico. Ou talvez, fosse apenas a época de festas aproximando-se outra vez. Suspirou pesado outra vez, apoiando as duas mãos contra o balcão de seu apartamento. Era pequeno, apertado, e inconveniente na maior parte do tempo, dava direto para seu vizinho, mas considerando que a maioria das pessoas que viviam naquele prédio eram pessoas com idades próximas a sua – talvez por vinte ou dez anos mais novos –, Bucky não poderia dizer que se incomodava. De certa forma, eram como um respiro momentâneo para um mundo que ele certamente apreciava, mas que ainda tinha dificuldade em acompanhar.
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  As sessões de terapia com Dr Raynor eram úteis, um incentivo para o caminho certo. Ele havia se dedicado nos últimos quatro meses sem perder uma sessão, estava cumprindo o acordo judicial com cuidado, estava determinado a não perder aquele voto de confiança de Steve, mas céus sabiam a dificuldade que era encarar aquele mundo sem a sombra dos pecados que carregava. Como era encarar o rosto daquelas pessoas sem ter a certeza de que a mancha de sangue que cobria suas mãos era maior e mais profunda do que suas unhas conseguiam arrancar. Considerava, por vezes, que apenas deveria aceitar seu destino como era. Se deveria desistir de tudo, e aceitar que daquele lugar sombrio não teria escapatória. Escorou os antebraços sobre o metal gélido, levemente umedecido pelo toque da chuva outonal que estava presa na calha do prédio e escorria para baixo quando chovia, levando seu braço normal em direção ao rosto, coçou, perdido em pensamentos, a barba por fazer que havia cultivado naquelas últimas semanas. Não por descuido, mas simplesmente porque não conseguia encontrar coragem o suficiente para encarar-se à frente do espelho. Estava fazendo o mínimo, cuidando de sua aparência para ficar apresentável para as sessões de terapia, mas nada além disso. Talvez estivesse realmente depressivo, considerou ligar para Steve, considerou pedir para que se encontrassem em algum lugar da cidade, certamente ele poderia contar com o melhor amigo, mas Steve Rogers ainda era o Nômade, e permaneceu como fugitivo por escolha própria.
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  Uma parte de Bucky, estava desesperada para juntar-se com o melhor amigo. Tornar-se parte do pequeno time de foragidos e agir por baixo dos panos; a outra, sabia que para começar a pensar em fazer qualquer coisa, primeiro, precisava certificar-se de que teria o perdão da corte americana, que seu passado como arma da Hydra estaria, ao menos, judicialmente controlado. E bem ali, ao fundo de sua mente, onde o nome familiar que ele se recusava a reconhecer, era a corrente necessária que o impedia de tomar quaisquer decisões drásticas. Afinal, ele havia sido o responsável por destruir a vida dela, havia sido o responsável por prendê-la, por torturá-la, e tentou inúmeras vezes matá-la. O projétil nunca pareceu encontrar o alvo, Bucky sabia disso, sabia que uma parte de si mesmo havia lutado para não o fazer, mas ainda assim, não era como se ela lembrasse também. A Hydra havia feito um excelente trabalho em colocá-la contra ele, e torná-lo o monstro de sua história, e por mais que Bucky sentisse uma necessidade desesperada de convencê-la de que ele não era, era pouco provável que %Anya% fosse escutá-lo.
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  %Anya%… sua %Anya%. Houve uma época, em meio às memórias esfumaçadas e distorcidas que a Hydra deixara para trás, como um cavalo de tróia para sua própria consciência, que ela havia sido algo próximo a isso para ele. Um porto-seguro. Uma âncora e uma boia, quando Barnes estivera a muito, muito tempo, à deriva. Talvez fosse por isso que se agarrasse tão desesperadamente aquela vã ideia. Aquela vã lembrança do que outrora fora. Sentia para além da tristeza e culpa, uma sensação de dever com ela. Ele a tinha matado, tentado matar inúmeras vezes, havia sido ele a agarrá-la pelos cabelos e arrastá-la de volta para a cela que a mantinham cativa. A Hydra havia tornado-a um objeto, pior, sabe-se lá o que fizeram, mas Bucky tinha certeza de que não era algo bom, se não, ela não o olharia com tanto ódio quanto o fazia. Em vãs esperançosas noites, Barnes deixava-se acreditar que talvez fosse algum aspecto da programação dela que tivesse distorcido suas memórias. Sabia que ela as tinha, tanto quanto ele tivera no passado; tentava convencer-se de que, uma vez que ela pudesse vê-lo realmente, que pudesse entender a culpa e a inevitabilidade de suas ações, como mesmo lutando não havia tido controle sobre nada de si para impedir-se das agressões que havia cometido contra ela, talvez, apenas talvez, pudesse convencê-la de dar uma chance a Shuri, uma chance para reprogramar e desfazer o estrago em sua mente.
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  Era estupidez, é claro, ele sabia, mas não conseguia deixar de esperar… mesmo que fosse completamente em vão. Ainda estava perdido em seus próprios pensamentos quando o miado característico de Alpine ecoou pela sua direita. Bucky bufou baixo, uma lufada de ar esbranquiçado erguendo-se por seu rosto obscurecido pela própria culpa e pesar pelo passado, ao voltar seus olhos azuis esverdeados na direção da gata. Era uma coisinha minúscula quando ele a encontrou, um mês atrás, enroscada entre os sacos de lixo e roendo com desespero o resto de uma coxa de frango descartada. Bucky não teria a trazido para seu apartamento. Considerando o inferno que abrangia sua mente e o peso dos pecados que carregava, tinha quase certeza de que seria uma péssima ideia trazer o filhote para dentro de casa; Alpine o seguiu mesmo assim. Era uma coisinha irritante e cabeça dura, Bucky tentou por dias tirá-la da soleira de sua porta, mas toda vez que preparava-se para sair do apartamento, Alpine se esgueirava pela abertura da porta e fazia-se confortável em seu tapete puído do escudo de Rogers – um presente enviesado que Sam Wilson havia lhe dado por despeito, e, por despeito, Bucky o mantivera da melhor forma possível. Ou então, esgueirava-se pela janela ao lado de sua sacada, e fazia sua cama improvisada entre uma caixa de sapato e um cobertor velho que Bucky sempre tentava lembrar-se de lavar, mas esquecia com frequência. Agora, o cobertor era um amontoado de pelos brancos e rasgos de unhas afiadas, era de Alpine, e ponto.
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  Foi Shuri quem disse a ele que talvez fosse uma boa ideia. Em uma de suas breves visitas, fosse apenas para atormentar ou apenas jogar conversa fora entre canecas de café forte demais para serem saudáveis, que Bucky ouviu com uma carranca ranzinza a jovem dizer que havia muitas pessoas que adotavam animais de apoio quando necessário. Não havia vergonha nenhuma naquilo; Bucky não havia respondido, não queria ter que dizer a jovem, de olhos brilhantes e risada contagiosa, que seu maior medo não era ter que lidar com o animalzinho, mas a probabilidade de que seria culpa dele caso o animal morresse. Bucky já carregava tantos corpos, não poderia carregar mais um, especialmente um tão frágil e inocente quanto a gatinha. Foi somente após uma noite de pesadelos, em meio a uma tempestade, que Bucky cedeu, ao perceber que a única coisa capaz de o tirar do torpor causado pelas memórias vividas que ressurgiram como espinhos afiados em sua pele, rasgando-a deliberadamente, mas certamente, que Bucky acolheu Alpine. Agora, a gata de pelagem fofa, branca, rostinho amassado, e olhos azuis, era uma bola de pelos gorda e mimada, que costumava sair pela manhã para uma volta pelo quarteirão, e então, retornava para casa, apenas para passar parte do dia destruindo as meias de Bucky, sapato, ou então dormindo em cima de sua cama como se lhe bem pertencesse.
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  Era um bom uso, no fim, já que ele ainda estava dormindo no chão, incapaz de aceitar a sensação de deitar-se sobre o colchão macio, sem ter a falsa impressão de que estava sendo suspenso pelos fios outra vez, dentro da câmara criogênica. Os olhos azuis esverdeados de Bucky acompanharam com uma ponta de preocupação, Alpine saltar de grade em grade até conseguir chegar a balaustrada da sacada de seu apartamento, caminhando com o rabo oscilando de um lado para o outro, parecendo satisfeita. Tinha algumas penas em sua pelagem, mas Bucky sabia perfeitamente que, sendo a criatura mimada que era, Alpine nunca caçaria comida, ela gostava de sachês caros que encontrava na 15th Avenue e peixe fresco – somente se fosse macio e Bucky retirasse as espinhas do peixe antes de entregar para ela. Era muito provável que Alpine só tivesse ficado na garagem do prédio, correndo atrás dos pombos, antes de decidir que era hora de voltar para casa, para comer.
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  – Já estava considerando ligar, pensei que fosse comer fora – Bucky murmurou, ranzinza como sempre, seu humor ainda suscetível ao próprio tormento pessoal, mas com uma nota mais gentil, doce ao observar os olhos grande e azuis da gata fixarem-se em seu rosto. Era quase como se ela pudesse entender que Bucky não estava tendo um bom momento. O focinho rosado agitou-se um pouco, como se captasse a fragrância de seu próprio medo antes de, manhosa, inclinar a cabeça em direção ao braço biônico, coberto pelas mangas longas de sua blusa de gola alta, buscando por carinho e atenção. Bucky bufou, um quase sorriso surgindo por seus lábios, ao alçar com cuidado a gata. Ele a segurou a frente de seu rosto, sentindo o rabo dela agitar-se de um lado para o outro antes de enroscar-se em seu pulso direito. Alpine boceja, deixando as presinhas expostas antes de lamber a ponta do nariz de Barnes, ronronando. Bucky estreitou os olhos, conhecia-a bem o suficiente para saber o que significava aquele gesto. – Sem peixe hoje, ordens do veterinário, interesseira – murmurou, antes de gentilmente alinhá-la contra seu peito, acariciando atrás da orelha penugenta, e as costas. Alpine pareceu satisfeita em ficar ali, o rostinho apoiado contra o antebraço de Bucky, fazendo-lhe companhia.
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  Era uma boa forma de controlar sua pulsação, o pânico crescente que o atingia todas as madrugadas mesmo quando tinha certeza de que tudo estava bem, de que estava seguro. Tenciona a mandíbula com um estalo, um pequeno músculo projetando-se por sua mandíbula angulosa, tentando focar apenas no ronronar da gata e no silêncio acelerado da rua. Podia ver os carros indo e vindo, sem parar, flashes de luzes avermelhadas e empalidecidas, podia ouvir conversas em algum ponto abaixo do prédio, risos de jovens bêbados voltando para casa, casais tendo finais de encontro e até mesmo uma ou outra criança tentando fugir da cama para brincar sem que seus pais percebessem – é claro que o fariam. A sensação de normalidade lhe caía mal, tinha um gosto amargo e sentia-se como não só não merecedor daquilo, como um estrangeiro. Bucky não se lembrava direito do que era ter uma vida normal. Do que era ter uma rotina, tarefas cotidianas básicas, e a preocupação simplória de mantê-la. Ele havia se acostumado com o estado de alerta, com a certeza de que alguém iria vir atrás dele, com o alvo em suas costas, que agora, tornava-se sua própria algema, prendendo-o no lugar, impossibilitando-o de caminhar para frente ou retornar para o passado. Alpine era a única coisa que poderia apoiar-se, mesmo que só estivesse assim tão carinhosa, porque desejasse comida.
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  Com um suspiro, Bucky soltou Alpine no assoalho de madeira quando a gata se empertigou, dois minutos depois, com o excesso de carinho, e então, caminhou para dentro. Fechou a sacada, puxou as cortinas, acendeu as luzes da sala de estar que dava diretamente para a cozinha, e então, tratou logo de abrir a lata com o atum que Alpine gostava de comer, junto com o sachê de comida para gato. Ignorou o miado imperativo, revirando os olhos, e se questionando como a gata poderia ser mimada daquele jeito – não que fosse assumir culpa alguma, ele não a mimara tanto assim. Estava na metade do processo quando sentiu seu celular vibrar no bolso de sua calça de moletom cinza escura. A princípio julgou que deveria ser apenas notificação de algum aplicativo que ele havia baixado pela curiosidade e então esquecido que estava ali, talvez fosse algum dos jogos que Shuri havia sugerido que ele tentasse, e que Bucky havia sequer passado do tutorial. Terminou de colocar a comida no potinho de metal de Alpine, misturando-a, ciente de que Alpine tinha a tendência de comer apenas o atum e ignorar o sachê se ele não misturasse a comida dela e a enganasse. Mas quando o celular continuou a vibrar, em uma clara indicação de ligação, Bucky uniu as sobrancelhas, repousando o pote à frente de Alpine, e então retirando seu celular do bolso, para verificar o que diabos poderia ter acontecido.
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  Uma ligação. O nome de Sam Wilson piscou na tela de seu aparelho, o fez apertar os lábios em uma linha rígida. Não atendeu, é claro, ele nunca atendia as ligações que eram feitas, ficou apenas ali, segurando o aparelho, esperando-o desligar para então puxar a barra de notificações para ler a mensagem. Não o fazia por mal, fazia por covardia, porventura, mesmo desespero. A ideia de oferecer espaço para alguém entrar nunca lhe soara segura, não depois de tudo o que havia passado. As chances de isso acabar mal, eram inúmeras. Um minuto depois, Bucky encontrou a notificação que procurava. Não são muitas, apenas duas mensagens; uma pergunta do porquê ele não havia atendido, e então, logo abaixo, algo que fez seu sangue gelar.
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  SAM WILSON: 8th Avenue com 44th Street. De novo. Vem rápido.
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  Praguejou entre dentes, o ruído afiado o suficiente para fazer com que Alpine saltasse no lugar, surpresa com a alteração de humor do dono, enfiou meio às pressas o aparelho de volta para o bolso de sua calça moletom, impaciente, disparando em direção a sala. Não precisou de muito tempo para localizar a jaqueta, seu boné preto e suas chaves, mesmo as botas que enfiou de qualquer jeito nos pés, eram de seu antigo uniforme militar, da Segunda Guerra Mundial. Um memento que Steve havia guardado para ele – a promessa de que um dia Bucky poderia voltar a ser quem era, mesmo que a vaga memória de quem fora, agora, não passasse disso. Mal deu-se ao trabalho de amarrar os cadarços, ou de verificar se os cabelos estavam no lugar. Havia os cortado no dia anterior, em um ímpeto desesperado para sentir-se mais como Bucky Barnes, do que Soldado Invernal, mas agora, com a certeza de que a veria, um desconforto começou a surgir em seu peito; e se ela o estranhar? E se o odiasse ainda mais porque havia cortado o cabelo? Ela só conhecia seu rosto como o Soldado Invernal, não como Bucky, e se isso fosse exatamente a gota d’água que faltava para que ela fosse embora de vez? E se ele a perdesse…?
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  Ajustou o boné outra vez em sua cabeça, disparando, encoberto pela noite, pelas ruas frígidas e umedecidas do outono de Nova York, ignorando a sensação térmica amena. A blusa de gola alta, de compressão ajudava-o a reter o calor, mas as calças de moletom haviam sido um erro ridículo para se cometer, mas não era igualmente como se Barnes estivesse esperando uma ligação no meio da madrugada de Sam; muito menos ter a ideia de que %Petrovych% estava com problemas, de novo. Ele não poderia abandoná-la, não como já havia feito anteriormente. Então ele focou em correr, saltando e desviando de alguns pedestres, latas de lixo e desviando de alguns carros até que finalmente chegasse ao local. Clube do Inferno¹, Bucky praguejou entre dentes, o ruído baixo, inaudível, mas visível com a lufada de ar que se projetou para fora de seus lábios ressecados, espiralando por seus olhos; considerou o que deveria fazer. Havia uma pequena chance de esbarrar com alguém que não deveria ali dentro, não eram apenas idiotas que se aventuravam pelo lugar, alguns mutantes também o frequentavam, mutantes estes que não possuíam uma ficha criminal limpa – considerando que ele ainda estava lutando pelo perdão judicial, era para além de um risco sua presença ali. Mas ele não iria dar as costas e deixar o lugar sem %Petrovych%. O que quer que tivesse acontecido, era sua responsabilidade.
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  Percebeu, com uma clareza certa, que estava fodido de qualquer forma. Sua hesitação não vinha pela possibilidade de violar o acordo que T’Challa havia conseguido para ele após todo o processo de quebra do código do Soldado Invernal, mas simplesmente porque não tinha certeza se queria ouvir o que %Petrovych% teria a dizer a ele desta vez. Não nesta noite; nunca acabava bem, nunca eram palavras simplórias, de ao menos dúvidas. Eram sempre acusações. E embora ele não a julgasse por as fazer, embora estivesse certo de que as merecia, a um certo limite, era igualmente, insuportável ouvi-la. %Anya% era a única que conseguia erguer o espelho que refletia o monstro que Bucky tentava fugir. Era sua vítima, afinal. Uma viva, a única que não havia afundado com o mar de corpos que carregava. Endireitou os ombros, movendo a mandíbula, impaciente. Empurrou o segurança para fora de seu caminho, sem meias palavras, não havia nada naquele lugar que iria impedi-lo de entrar, isto, era certo.
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  Teve certeza de que o segurança o xingou. Ouviu o comando para que ele voltasse antes que fosse obrigado a retirá-lo de lá, imperioso, retumbar pela entrada claustrofóbica, cheia de corpos se movendo e pessoas fedendo a desodorante vencido, suor e bebida alcoólica, atraindo a atenção alheia na direção de Barnes. Bucky inspirou fundo uma vez, tentando conter a frustração, e então, com uma expressão ameaçadora, voltou-se na direção do segurança, bastou um aperto de sua mão biônica no cano da arma do segurança, entortando-a, para silenciá-lo. Olhos arregalados, a percepção imediata de com quem estava lidando. Bucky voltou a andar, a mistura de aromas desconfortáveis, dissonantes o suficiente para parecerem grudar em sua própria pele, e por baixo de tudo isso, havia aquele familiar aroma metálico, pungente de sangue. O cenário caótico era insuportável. A noção de que o espaço que se encontrava poderia ocultar um ataque imediato, colocava-o em alerta; assim como fora treinado para ser invisível, sabia que não havia sido o único.
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  Um suspiro de alívio escapou por seus lábios entreabertos, sua respiração controlada, ainda pesada pela corrida, e pelo tormento que havia sido deixado ao fundo de sua mente. Retirou o celular do bolso de sua calça de moletom, esquecendo-se de que havia pegado o aparelho com seu braço biônico, e, quase acidentalmente, quebrou a tela do celular, antes de passá-lo para sua mão normal. Desbloqueou a tela, e então puxou outra vez a notificação de Sam, tentando retornar-lhe a ligação. Buscou com o olhar, preso em uma mistura de ansiedade crescente e frustração, pelo rosto do colega, mas não encontrou ninguém. Foi somente na segunda tentativa de retornar a ligação perdida de Sam, que seus olhos repousaram no segundo andar do lugar, para onde uma escadaria de metal tingida de preto levava em direção a área privada, reservada para os clientes que fumavam. Bucky apertou os lábios, guardando o aparelho novamente em seu bolso, antes de seguir em direção onde o amigo de Steve encontrava-se.
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  Subiu os degraus o mais rápido que conseguia, quase correndo até deparar-se com Wilson. Observou-o com os braços cruzados, havia olheiras profundas manchando sua expressão exausta, e uma carranca tão ranzinza quanto Bucky exibia. As sobrancelhas grossas unidas, e um olhar de preocupação fixo na figura encolhida no banco um pouco mais ao fundo; Bucky travou a mandíbula com um pouco mais de força, sabia que não deveria incomodar-se com a presença de Sam ali, mas enquanto tentava entender o plano geral de toda a situação, foi somente naquele momento, ao encarar o olhar preocupado de Sam, que Bucky percebeu algo que pareceu servir como combustível para inflamar sua frustração e seu próprio incômodo pessoal. Sam havia chegado ali antes dele, fosse porque estava junto com ela ou porque ela escolheu ligar primeiro para ele, não saberia dizer, mas essa percepção não aliviou o aperto crescente em seu coração.
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  – O que aconteceu? – Bucky questionou, tentando passar por Sam e dirigir-se na direção de onde %Petrovych% encontrava-se. Estava com raiva, sim, isso era nítido pela maneira com que os músculos de suas costas e ombros se tencionavam, mas era mais que isso, estava preocupado, aterrorizado até mesmo, pelo o que ela poderia ter feito consigo mesma dessa vez. Antes que Bucky pudesse dar um passo, todavia, Sam o impediu com um aperto firme. Bucky voltou-se, capturado pelo próprio instinto e alerta, confundindo-se com a realidade da situação e encontrando um inimigo no rosto do colega. O que restou do Soldado Invernal, dentro de si, gritou para que ele atacasse; o instinto programado, ainda vivo o suficiente para que compreendesse qualquer um que impedisse seus movimentos como uma ameaça. Já ele sentiu o gosto amargo da percepção traidora, que, mais uma vez, roubara-lhe o foco principal. Por mais que se esforçasse, Bucky tinha a estranha sensação de que não estava melhorando, parecia estar estagnado no lugar, pior, regredindo. – Sam… – ele começou a dizer, tentando encontrar palavras para justificar sua reação, mas Sam apenas negou com a cabeça, firme, não parecendo importar-se o suficiente para lidar com aquilo naquele momento, embora os olhos escuros estreitados do homem, revelassem muito de seu próprio incômodo.
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  – Não, só me escuta, cara – Sam cortou Bucky com um gesto de cabeça antes que ele pudesse dizer alguma coisa. A pressão em sua mandíbula travada aumentou um pouco mais, fazendo um pequeno músculo projetar-se com o gesto, mas ele não ousou dizer nada. Os lábios apertaram-se em uma linha fina, rígida, sem desviar do olhar do negro, sustentando-o com intensidade, e irritação crescente. Não saberia dizer se o negro o odiava, ou se o tolerava por causa de Steve, mas havia algo quase gentil e compreensivo no semblante de Sam. Wilson engoliu em seco, assentindo, mais para si mesmo do que para qualquer outra pessoa, ao dizer: – Não é o melhor momento. Para vocês dois… – Sam pausou, parecendo tentar encontrar as palavras corretas para usar. Bucky estreitou os olhos, sua frustração aumentando um pouco mais. – Liguei para você para que me ajudasse com o endereço dela, quando não atendeu, fui buscar uma outra forma de descobrir, questionar algum dos bartenders ou gerentes, não percebi que ela havia mandado a mensagem para você até alguns minutos atrás, se o tivesse feito teria avisado para você ficar… na sua… – Sam lançou um olhar significativo para Bucky, que puxou seu braço para trás. Dor pareceu surgir nos olhos de Bucky, que o obrigou a desviá-los imediatamente do semblante de Sam. A rejeição era mais dolorosa do que ele queria admitir, mas a frustração falava mais alto.
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Porque diabos então %Anya% havia mandado aquela mensagem? A troco do que? – Desculpa, cara, ela não parece… bem
  Piscou algumas vezes, tentando clarear seus próprios pensamentos e manter o foco, sem muita surpresa com as palavras de Sam. Ele não era a primeira pessoa a quem ela aparentemente recorria, e, ainda que fosse esperado, não pode deixar de sentir, em algum lugar dos pedaços fragmentados que restava em seu peito, do que outrora fora, uma pontada dolorosa ressurgir. Uma pressão formou-se por trás de seus olhos, a garganta pareceu arder, e os dentes cerraram-se com um pouco mais de força. Apoiou as duas mãos sobre seus quadris, as pontas dos dedos fincando-se na pele, lutando contra o impulso de deixar sua expressão desmoronar. Não soube dizer ao certo se era o vento outonal que entrava pelo espaço aberto, ou se era suas próprias dicotomias de emoções avassalando seu peito, mas sentiu-se, de repente, como se estivesse congelando.
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  – Por que você? – Bucky perguntou de súbito, sem conseguir conter o impulso. Algo ruim pareceu desenrolar-se pelos fragmentos espalhados no centro do peito de Barnes, algo quente e viscoso que parecia amortecer um pouco de sua racionalidade; ciúmes, porventura, ainda que não pudesse ser capaz de categorizá-lo com certeza. Ele lançou um olhar na direção de %Anastácia%, buscando pela resposta a sua pergunta silenciosa, mas deparou-se, como sempre, com a parede impenetrável de gelo e distância que ela sempre exibia quando estava perto dele, quando o via. Voltou então sua atenção para Sam, esperando que, ao menos, lhe oferecesse a dádiva de uma mentira.
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  Mas é claro que Sam jamais faria isso.
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  – Não complica as coisas cara – Sam tentou desviar do assunto, mas Bucky já havia perdido a paciência fazia um tempo. A expressão do moreno endureceu, os olhos pareceram escurecer com a raiva cuidadosamente controlada.
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  – Por que você, Sam? – pressionou, um tom de voz baixo, controlado.
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  – Sou o número de emergência dela, Bucky. Desde que Rogers passou o escudo – Sam respondeu por fim, com um suspiro pesado. Bucky inspirou fundo, sentindo a frustração aumentar. Steve havia decidido aquilo sem ao menos avisá-lo? – Olha, é temporário, só até você se resolver, e vocês dois resolverem… o que quer que seja isso – Sam tentou esclarecer, mas Bucky não estava ouvindo. Estava com raiva de Steve, por não ter lhe contado o que havia feito e por não confiar nele quando se tratava de %Petrovych%. Por ter escolhido Sam, um desconhecido, e não Bucky que a conhecia a tempo suficiente.
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  Ignorando Sam, voltou a linha de seu olhar para %Anya%, encarando-a com descrença. Ela havia deixado os braços caírem a frente de seus joelhos, os dedos estavam ensanguentados, a mandíbula delicada, tensionada com força, os olhos %prateados% queimando o rosto de Bucky. Havia tanto ódio ali, naquele mero olhar, que fez algo dentro do peito dele romper-se e contorcer-se, algo que Barnes ignorou. Se a ferida sequer havia sido cicatrizada, era mais uma vez exposta pela teimosia dos dois. Ela tinha cortes o suficiente por sua pele para evidenciar suas intenções ali; questionou-se qual teria sido sua intenção para mandar aquela mensagem. Ele desejou poder gritar com ela, exigir uma explicação, mas ao mesmo tempo, uma parte de si desejou apenas abraçá-la.
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  – Barnes, fica de fora dessa, desta vez, o que quer que você queira fazer, agora não é o momento, ela está instável, e você não parece estar muito melhor, dá um tempo, cara…
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  Mas Bucky ignorou. Sam praguejou baixo, voltando-se em direção de %Anya%, e como sal em uma ferida infeccionada, aberta a tempo demais, Bucky viu os dois se encararem, trocando um olhar silencioso, comunicando alguma coisa que Bucky não fazia parte. Mesmo que fosse injusto, era impossível para ele não sentir uma ponta de traição vinda de %Anastácia%. Que o odiasse, que o desprezasse, mas mantê-lo fora? Isso era cruel, mesmo para ela. %Anya% agitou a cabeça, silenciosa como um gato, e Sam suspirou pesado, frustrado, mas compreensivo. Quando Bucky forçou-se a andar na direção dela, Sam, desta vez, não o impediu, apenas deu as costas, jogando mãos para o ar, e murmurando alguma coisa sobre malucos e estar acabando com a cabeça dele.
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  Ele aproximou-se dela, cauteloso. Observou os pés descalços, ensanguentados, os olhos avermelhados, as pupilas dilatadas, as marcas do choro que ela parecia sempre tentar esconder com veemência. Tentar alcançá-la era como tentar tocar em um animal selvagem, ferido a muito tempo, ela iria morder no segundo que ele encostasse seus dedos em sua pele; que o fizesse, Bucky carregava cicatrizes o suficiente para não mais importar-se com ganhar uma nova.
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  – Veio me matar? – Não era o tom de acusação dela que o machucou, foram as palavras. Uma parte de Bucky quis gritar que não era ele, que não era sua culpa, mas tudo o que escapou de sua garganta foi um exalo trêmulo, quase frágil. %Anya% soltou um riso baixo, desprovido de quaisquer traços de humor, soou seco, distante, quase embargado, como se porventura estivesse à beira das lágrimas. Mas %Anya% %Petrovych%, sua %Anya%, não chorava. Era orgulhosa demais para isso. Os olhos %prateados%, acusadores, demoraram-se por um momento na mão biônica de Bucky, o que o fez escondê-la atrás de si por instinto, antes de voltar a encará-lo em seus olhos. Havia raiva ali, é claro, mas por trás de todo aquele ardor insuportável, por trás de toda a acusação direcionada a ele, havia também algo que estava quebrado para além do concerto. Algo que ele havia quebrado.
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  Por um longo momento, Bucky permaneceu preso em seu próprio silêncio, sem saber o que dizer.
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  – Não hoje – sussurrou por fim, as palavras em russo pareceram crescer em sua boca, estrangeiras demais para que se sentisse confortável, familiares demais para que pudesse esquecer-se de seu significado. Bucky hesitou, observando o tremor nas mãos delas, no quase riso que não tardou em transformar-se em uma careta silenciosa, de dor. – Aqui – foi tudo o que conseguiu dizer, retirando a jaqueta de seus ombros e então estendendo para ela. %Anya% encarou o gesto por um tempo, meio oscilante. Tinha certeza de que ela não iria aceitar o gesto, mas por fim, com certo alívio, ele a viu fechar os dedos sobre o couro resistente da peça, puxando-a em sua direção. Levou mais tempo do que deveria para vestir-se, mas quando o fez, Bucky indicou com o queixo na direção de seus pés descalços, considerando as possibilidades. – Consegue andar? – %Anya% assentiu, mas ele a conhecia bem o suficiente para saber que, quando entrava em algum estado propenso de crise, quando parecia vagar para longe de sua própria mente e perdia o controle de seu corpo, ela tendia a ficar travada, às vezes por horas, sem mover-se. Então sem mais palavras, sem avisos e ignorando a voz repleta de advertência de Sam, ele fez a única coisa que pensou ser adequada fazer; tomou-lhe em seus braços, com o cuidado de quem maneja uma peça de cristal, concentrando-se apenas em colocar um pé à frente do outro. Concentrando-se em tirá-la daquele lugar, como se, porventura, salvá-la, fosse a chave para salvar a si mesmo. As mentiras que contava para si mesmo, estavam começando a se tornarem mais e mais fáceis de acreditar, mas eram somente isso, mentiras.
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  Silêncio projetou-se sobre os dois como um manto sufocante e inescapável. O tecido outrora esbranquiçado que Bucky havia encontrado em seu banheiro, acabara avermelhado, com o sangue dela. O cheiro potente de álcool misturava-se com o aroma metálico do sangue. Bucky sentiu o peso em seus ombros triplicar, sentiu o medo de erguer seus olhos e encontraram-se com o ressentimento que se tornava tão familiar.
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  – O que estava planejando fazer, %Anya%? – Bucky sussurrou por fim, desesperado para quebrar o silêncio, para alcançá-la, por menor que fosse. Mesmo um centímetro seria melhor do que a distância que ela continuava a colocar entre os dois. Ela era a única que podia compreendê-lo, era a única que sabia exatamente o que havia acontecido, que havia vivido o mesmo. Os céus sabiam o quão corrosivo era aquele desespero, e, mesmo assim, Bucky não podia evitar. Se ela ao menos o escolhesse… %Anya% não o respondeu. – Qual era o objetivo? Morrer? O que ganha com isso?
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  %Anya% bufou, mas sua voz pareceu, pela primeira vez a trair, ao revelar-se surpreendentemente embargada.
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  – Você se importa agora, Barnes? – Ela questiona deliberadamente, o sotaque russo, pesado, distorce um pouco suas palavras, mas ela era clara, precisa, como uma navalha. Dolorosamente sincera. Bucky a encarou, seus olhos, marejados, queimando o rosto dela com ressentimento.
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  Por um longo momento, os dois apenas se encararam. Injúrias, feridas abertas, dor e acusações silenciosas pareceram pairar entre si. Mas nenhum ousou afastar o olhar. Pela primeira vez, encararam-se sem importar-se com mais nada. E Bucky percebeu, com um aperto aos fragmentos em seu peito, que ela continuava tão bela quanto suas memórias, esburacadas e enevoadas, a tinham gravado. Ela continuava sendo %Anya%, por baixo de todas aquelas cicatrizes, e dores, continuava sendo sua brilhante %Anya%. O porto seguro que ele ousara acreditar que havia encontrado enquanto a Hydra destruía aos poucos tudo o que lhe restava.
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  – Não é justo, %Anya%, você sabe que eu não… – Bucky começou a dizer, defensivo, sem ousar desviar seus olhos do dela. Petrovich o encarou, descrente, e a frustração de Bucky pareceu aumentar. Era simplesmente impossível não a machucar, céus sabiam o quanto ele estava tentando, mas era impossível! Quaisquer palavras que ousasse lhe dizer parecia apenas servir de motivo para afastá-la de si! Estava começando a ficar desesperado. – Me diz… – Bucky começou a dizer, errático, desesperado. As palavras morreram em sua garganta por uma fração de segundos, aprisionadas pela pressão das lágrimas que ameaçavam escorrer por sua face. Mas então, ele a encarou, quase febril. – Me diga como consertar isso, %Anya%, qualquer coisa! Farei! Só me diga! O que preciso fazer para que pare de me olhar assim…
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  – Me devolve minha vida! – Ela rosnou entre dentes, os olhos %prateados% incandescentes com as lágrimas que ela se recusava a deixar cair. Agora, escorriam livremente pelas maçãs do rosto altas, enrubescendo a pele.
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  – Não era eu, %Anastácia%! Nunca fui eu! Eu tentei! Deus sabe como tentei escapar deles, mas não consegui! – As palavras explodiram pelos lábios de Bucky, carregadas por uma mistura gritante de emoções que se restringiam a uma única origem: desespero. Uma súplica bruta por compreensão. Algo que %Anya%, aparentemente, jamais poderia lhe oferecer. Doía-lhe mais. – %Anya%, você precisa entender… por favor…!
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  – Entender?! – Ela ecoou as palavras dele, desacreditada, e Bucky fechou os olhos, encolhendo-se com a explosão que se seguiu. Não era o tom alto reverberando pelas paredes de seu apartamento que o incomodava, era a verdade inquestionável nas palavras dela que mais machucou. – Você me abandonou! Me traiu! Entender?! Você me destruiu, Barnes! – Bucky a encarou, uma súplica pairando por seus olhos azuis esverdeados, “pare, por favor pare” parecia querer dizer, mas ele não ousou interrompê-la, não desta vez. %Anya% soluçou, uma mistura de riso e desespero, antes de levar o antebraço em direção aos lábios, a fim de tentar se silenciar. Seus olhos %prateados% desviaram-se do rosto de Barnes. – E sabe o que é pior? Você foi salvo! Você está bem! Mas eu… James, eu… eu não tenho nada! Você tirou tudo de mim e está bem! Você foi salvo! Mas não tem ninguém… não tenho mais ninguém para me salvar… – Ela forçou um riso, mas com o choro mal contido, soa apenas um soluço embargado. E foi ali que Bucky a viu quebrar pela primeira vez. Sua garganta ardeu, como se estivesse descamada em carne viva, mas não houve palavra alguma que pudesse dizer para aliviar a situação, então Bucky apenas fez o que podia, ele a ouviu. – Odeio você, James. Eu te odeio tanto… – ela sussurrou, enterrando o rosto em suas mãos, e Bucky engoliu em seco, ainda sem saber o que dizer para ela. Ainda escolhendo apenas ouvi-la, por mais que lhe machucasse as palavras. – Mas odeio mais não conseguir te perdoar…
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  Bucky pigarrou, desviando os olhos e endireitando-se. Obrigou-se a afastar-se das lágrimas que projetavam-se ao redor de seus olhos, usando sua mão normal para limpar bruscamente o rosto antes que ela pudesse vê-las. Aquele não era seu momento, mas o dela.
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  – Eu sei – Bucky sussurrou, os cantos de seus lábios retorcidos para baixo, assentindo apenas para enfatizar sua compreensão. Pigarreou, tentando clarear sua voz, tentando deixá-la menos trêmula, mas firme e compreensível. – Vou deixar você… – Antes que Bucky pudesse terminar a frase, %Anya% agarrou seu pulso, dedos trêmulos e delicados fincando-se em sua pele, em um aperto de ferro.
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  – Não… – ela começou a dizer, mas em meio ao desespero, e a necessidade de expelir suas palavras o mais rápido que conseguia, sua língua enrola, desajeitada, engasga-se com as palavras. Bucky a encarou, sem saber como reagir ao gesto. Uma parte de si estava desesperada para tomar aquilo como uma pequena fagulha de esperança, já a outra, estava ciente de que era um desejo em vão; não havia ela acabado de dizer que não conseguia perdoá-lo? – Não consigo… – ela tentou dizer, mas as palavras faltaram-lhe como as dele. Bucky não precisava ouvir uma frase completa para entendê-la. Ele também não conseguia ficar sozinho, não naquela noite.
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  Por um longo momento, ele a encarou outra vez, apenas observando-a de fato. A fragilidade que a pele dela parecia adquirir sob a penumbra da lua e da meia luz acesa do corredor, a maneira com que os olhos %prateados% cintilavam, avermelhados e repletos de lágrimas, a solidão intrínseca ali, o desespero e a mágoa, e como ele, por um momento, desejou apenas tomá-la em seus braços e mantê-la ali. Bufou, amargo, tamanha ousadia entretida. Mas foi a súplica dela que o fez simplesmente aceitar. Ele também não queria ficar sozinho. Ele também não queria perder aquela última conexão com quem um dia havia sido, mesmo que fosse mera fabricação da Hydra para mantê-lo sob controle. Engoliu em seco, antes de balançar a cabeça deliberadamente.
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  – Ainda tenho uma garrafa de vodca na geladeira – Bucky disse por fim, indicando com a cabeça para que ela o seguisse de volta para a cozinha. – Se quiser, pelo menos quebra o gelo – Complementa, sem acrescentar ou retirar mais nada, deixando a escolha nas mãos dela. Desta vez, todavia, %Anya% o seguiu, envolta por um silêncio menos desconfortável. Era o suficiente, por hora.
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Fim

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