Capítulo 3
Ela estava extremamente envergonhada. Não sabia em que condições %Kōhshi% a flagrou. Certamente estava caída ao chão, desmaiada. %Li% olhava para as próprias pernas, com medo de encarar o rapaz.
- Você está realmente bem, %Li%? – Perguntou %Kōhshi%, novamente.
- Sim. Não se preocupe, %Kōhshi%. – Ela sorriu, sem graça. Tirando o irmão e o Brian, não está acostumada a receber tanta atenção vinda de um homem. Ainda mais de um homem como o %Asakawa%. Culturalmente, pessoas do %Japão% não são as melhores em dar atenção ou afeto a alguém.
- Agora me responda: por que não me respondeu durante todo esse tempo? Você ia dizer, mas não disse – ele a encarava, praticamente sem piscar. Ela mal conseguia olhar para ele.
- Achei que estivesse ocupado com a parceria com a Azumi – o tom da fala dela estava intensamente carregado de ciúme.
- Ah, então foi isso: os boatos te irritaram e você parou de falar comigo, sem ao menos perguntar se eram verdade? Hm... – Ele disse e sorriu, ela o olhou, séria, e então ele prosseguiu: - Eu não estou, nunca estive e nunca estarei namorando, ou seja lá o que, a Azumi – falou ele, em português muito claro, ainda encarando a moça.
- Hm... – Resmungou %Li% – Entendo, então quer dizer que vocês não “se pegaram” em nenhum momento? Vamos lá, %Kōhshi%, a Azumi tem uma voz de anjo, fininha, afinadinha, bem princesinha... isso não te atraiu em nenhum momento? Sei... conta outra, %Asakawa%! – Ela disse, debochada e o rapaz suspirou.
- Não é isso que me atrai numa mulher – disse, simplesmente.
- Hm, com certeza, não seria uma pessoa grossa e barulhenta, com uma voz grave até quando canta, assim como eu. Acertei? – Disse ela, levemente magoada. Ela ouviu, a vida inteira, que ela tem uma voz que “não é de mulher”, por ser grave. Tentou, algumas vezes, mudar sua voz, forçando para um tom menos grave, mas isso só lhe causou dores de garganta e uma inflamação nas cordas vocais, pelo tremendo esforço que ela fazia.
- Mais uma vez você está enganada a meu respeito, %Li% – falou ele e completou: - Vou te dizer duas coisas, ok?
- A primeira: é que você tem uma voz única. É a
sua voz. Eu adoro o jeito como você canta, é maravilhoso! A seg... – Ele ia falar, mas foi interrompido por ela.
- Ai, %Kōhshi%, você deve estar com problema de audição, porque...
- %Li%, por favor, não me interrompa – ela se calou, envergonhada.
E então, ele concluiu seu pensamento.
- A segunda: é que eu realmente gosto de você! Gosto muito, mais do que imaginei ser possível. E uma das coisas que mais me encanta em você, é justamente a sua voz e seu jeito gentil de ser. Sim, você
é gentil! E sua voz me deixa realmente louco, num bom sentido, claro – riu de leve e prosseguiu: - Eu realmente gosto de você, %Li%. Eu sei que moramos em continentes opostos geograficamente, temos vidas agitadas com as bandas, mas acho que podemos dar um jeito nisso. Eu quero saber se você sente algo por mim e se eu posso alimentar esse sentimento que tenho por você. – Ela ficou calada, pensativa, seus olhos arregalados transpareciam a total surpresa pelas palavras dele. Mais uma vez, %Kōhshi% estava sendo o avesso que um %japonês% normalmente é. Os homens não costumam demonstrar seus sentimentos. – O que me diz, %Li%? – Ele apertou de leve a mão dela, trazendo-a de volta. Só então ela notou que %Kōhshi% segurava sua mão durante todo esse tempo. Só agora ela sentiu o calor da mão do rapaz.
- %Kōhshi%, eu... eu realmente achei que você...
- Que eu estava namorando a Azumi, sei, mas não estou. E não, eu nunca “fiquei” com ela nem estive interessado.
- Ah, %Kōhshi%, não daria certo nós dois. Olha para mim?! – Ela soltou a mão dele e levantou da cama, o rapaz fez o mesmo. – Eu não combino com você, %Asakawa%! Não sou tão magrinha e delicada, olha só o meu jeito! Eu não sou tão boa assim como você diz, eu... – Impaciente, %Kōhshi% deu a volta na cama e a segurou pelos pulsos, jogando-a na cama – %Asakawa%! – Espantou-se ela.
- Me desculpe, %Li% – ele estava em cima dela, soltou os pulsos da moça, mas se manteve ali – Eu odeio te ouvir falar essas coisas de si mesma.
- São a verdade, %Kōhshi%...
- Não! São coisas que pessoas que
não te conhecem dizem e você acredita. E não existe isso de “combinar”, eu gosto de você, não me importa como você é fisicamente. Eu... – Ele suspirou, mais uma vez. Pensou se deveria dizer o que
realmente sentia por ela, mas preferiu ainda não dizer, por medo dela também acreditar. – Por que você não acredita em mim? – Diz ele, encarando a moça.
- Não sei... eu... – ela tentou explicar, mas no fundo ela queria acreditar que toda a paranoia que criou sobre o rapaz e a Azumi, não passou de uma doida história inventada pelo ciúme que ela sentia dele. Do ciúme que ela
sente dele.
- Nisso você acredita... – Ele se aproxima mais dela e lhe dá um beijo. Os lábios dela se contraíram, inicialmente, mas logo cederam ao beijo. %Kōhshi% achou aquele beijo melhor do que ele imaginou em seus delírios diários. – Acredita nisso? Acredita que eu realmente gosto de você? – Ofegante, ele pergunta e ela o encarava, sem jeito.
- Acredito – Ela diz, rendendo-se, finalmente, e sorrindo pela primeira vez, de alegria pelo momento. %Kōhshi% também sorri e deixa o peso de seu corpo cair sobre o dela. De repente, ele a puxa e troca de lugar com ela –
%Asakawa%! – Ela diz, rindo bobamente.
- Por que ainda me chama pelo sobrenome? Está parecendo que você é minha conterrânea.
- Não temos tanta intimidade ainda...
- Acabamos de nos beijar, eu estou no seu quarto, na sua cama e você está deitada em cima de mim. Quer mais intimidade que isso? – Pergunta ele e sorri malicioso – Se bem que...
- %Kōh%! Não pense besteira, seu bobo! – Ela diz e dá um leve tapa no peito dele.
-
%Kōh%... Hm, gosto quando me chama assim. – Sorriu, vaidoso.
- Gosta é? Está bem,
%Kōh%, podemos nos levantar agora?
- Aqui está tão bom, só mais cinco minutos, por favor – ele disse e fechou os olhos – Chega mais perto de mim, eu não mordo... – Ele a puxou para mais perto dele e apertou a cintura dela contra o próprio corpo. %Kōhshi% encostou seus lábios nos dela e eles se beijaram novamente – Eu te amo, %Li% – ele disse, num sussurro, quase que para si mesmo. %Li% abriu os olhos e o encarou. O sussurro foi suficientemente alto para que ela o ouvisse. Seus rostos a centímetros de distância. %Kōhshi% abriu os olhos e viu os dela o encarando.
- Você tem certeza disso, %Kōh%? Você...
- Tenho – respondeu, de imediato – Como nunca senti tão forte na vida.
Eu amo você, %Li% – ele disse, em %japonês%, e ela sorriu por entender o que ele disse e por
sentir que era verdade. Dessa vez, foi ela quem o beijou: na boca e por todo o rosto dele.
-
Eu te amo, %Kōh%! – Ela disse, no idioma dele, que sorriu vaidoso – Meu %japonês% lindo, eu sempre gostei de você. Sempre amei você bem antes da parceria com a Açor. Eu só não queria admitir. Me desculpa por te tratar indiferente nos últimos meses, me desculpa! – Ela disse, arrependida por sua atitude nos últimos meses perante ele. Sentiu-se envergonhada pela história que inventou em sua mente e se arrependeu de não ter perguntado ao rapaz o que realmente estava acontecendo.
- Ei, minha brasileira sexy! Está tudo bem. Eu te amo, sua boba – falou ele e deu-lhe outro beijo - ... Mesmo você tendo me chamado de “%japonês% cretino” – ele riu e ela arregalou os olhos.
- Vou matar o Brian! – %Li% disse, debatendo-se nos braços de %Kōhshi%.
- Ei, my sexy lady, deixa isso para lá. – Alisou as costas dela e falou num tom carinhoso. O que fez com que ela se acalmasse do pequeno surto que se formava.
- Você me acha sexy mesmo?
- Muito! Confesso que tem sido difícil para mim dormir. Meus pensamentos estão todos voltados para ti,
minha querida – %Li% corou, mas gostou de ouvir aquilo. Desta vez, ela quem sorriu vaidosa.
- Acho que os cinco minutos já se passaram, %Kōh% – falou, sem jeito.
- Já... estamos bastante atrasados para a gravação do clipe. – %Li% deu um salto da cama ao ouvir a frase.
- Meu Deus, é verdade! Temos que ir, %Kōh%, vamos, levanta! – Ela pegou o braço dele e o puxou, mas %Kōhshi% foi mais rápido e a puxou de volta para seus braços.
- Calma, %Silveira%! – Ele disse, sereno – Daqui a pouco nós vamos. Ainda nem tomamos o suco que o Brian, gentilmente, está fazendo para nós. Avisei que poderíamos nos atrasar, antes de entrar no seu apartamento. Relaxa um pouco, %Li%... Ei, o que houve, my baby? – Perguntou ele, de repente. %Li% estava com a mão na testa e os olhos fechados.
- Fiquei tonta de novo. Não como nada desde ontem de manhã – revelou ela. %Kōhshi% logo entendeu que poderia ser este o motivo dele e Brian a terem encontrado desmaiada mais cedo.
- %Li%! – Exclamou ele, preocupado – Você me disse que estava bem. Ai, %Li%, você tem que comer, mocinha linda que eu amo tanto – ela deu um meio sorriso.
- Eu sei, quando estou irritada, eu perco o apetite.
- Desculpe-me por isso. Sinto muito por ser o motivo de sua irritação. - ele disse cabisbaixo.
- %Kōh%, não faz essa carinha – %Kōhshi% fazia uma expressão extremamente fofa e sexy ao mesmo tempo. – Você não fez nada. Eu que imaginei coisas – disse ela, sorrindo e acariciando o rosto dele.
- Vamos nos esquecer disso, está bem? – Disse, abriu seu sorriso mais encantador. %Li% assentiu, feliz por tê-lo ao seu lado. Realmente, ela perdeu algum tempo, em suas paranoias, ao invés de estar ao lado do homem que ela ama.
%Kōhshi% foi para sala e deixou %Li% no quarto para tomar um banho e se refrescar. O rapaz foi ajudar Brian, que estava terminando o suco que prometeu fazer, aproveitou para preparar um lanche para que %Li% se alimentasse. Após comerem, os três foram para o estúdio e foram recebidos com muita bronca pelo atraso. Desculparam-se e se prepararam para a gravação. Em uma das salas da grande gravadora, que tomava todo aquele andar do prédio, já estava montado o cenário onde seriam gravadas as cenas do clipe do %Flow%. %Li% estava em um dos camarins se arrumando. A música é sobre um rapaz que quer conquistar o coração de uma moça e ele faz de tudo para chamar sua atenção. %Li% fará justamente este papel. No outro camarim, %Kōhshi% não aguentou esperar e contou para os amigos e companheiros de banda o que houve entre ele e a %Li%. Todos ficaram contentes e surpresos com a atitude dele, que normalmente não tem tanta coragem para chegar numa moça. Ele costuma escrever canções de amor para conquistar as pretendentes. Não esperavam essa coragem do amigo.
Alguns dias se passaram, após a gravação do primeiro clipe da primeira música em parceria das duas bandas. Os rapazes do %Flow% voltaram para o %Japão%. Os corações de %Li% e %Kōhshi% ficaram apertados pela distância, mas eles prometeram um para o outro que manteriam o contato via internet. Santa internet!
[...]
Maldita internet! - pensou %Kōhshi% ao ler a notícia. - NAMORANDO?! - berrou o rapaz. Os olhos saltando de raiva. Ele estava no estúdio com a banda, todos em volta não souberam o motivo do surto do rapaz. %Keigo% se aproximou dele e tocou seu braço.
_ O que houve, %Kōhshi%? - perguntou %Keigo%.
_ Ela tá namorando!! - repetiu ele aos gritos.
_ A %Li%! Olha essa merda! - ele empurrou o próprio celular no peito de %Keigo% que pegou o aparelho e leu por alto. Não entendeu nada, pois estava em português e ele ainda não lia muito bem.
_ O que diz aqui? Que a %Li% ta namorando você? - perguntou ele num tom ingênuo.
_ Diz que ela está namorando OUTRO CARA! - %Kōhshi% puxou o celular de volta e olhou para a foto que ilustrava a matéria. Com raiva, o rapaz arremessou o aparelho no chão.
_ %Kōhshi%! - espantou-se %Keigo%.
%Kōhshi% o ignorou e saiu da sala furioso, batendo as pernas como uma criança birrenta.