Help! My brother has a band!

Escrita porRay Dias
Editada por Lelen

Capítulo 4 • Aceita, ou perde

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

  A casa ficou grande demais depois de alguns dias em que %Maya% se via sem Danny por ali.
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  Não era pelo silêncio. %Maya% sabia reconhecer o silêncio confortável, aquele que repousa. Aquilo era ausência. Uma ausência espalhada pelos cantos, infiltrada no sofá ainda marcado pelo peso de corpos dos amigos de Danny que não estavam mais ali, no chão onde os cabos haviam sido enrolados às pressas, no ar ainda vibrando com ecos de uma música interrompida.
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  %Maya% permaneceu sentada, os braços caídos ao lado do corpo, como se qualquer movimento pudesse fazer tudo desmoronar de vez. Havia algo profundamente injusto em perceber que, mesmo depois de tudo, a casa continuava de pé. Que o mundo não havia parado para acompanhar o colapso interno que se espalhava dentro dela.
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  Ela fechou os olhos. Viu Danny aos nove anos, sentado na beira da cama, perguntando se ela iria embora também. Viu-se prometendo que nunca faria aquilo. Viu-se falhando, mesmo quando acreditava estar fazendo tudo certo.
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  A segunda garrafa de vinho que jazia no armário intacta, agora vazia, estava onde ela a deixara. Não houve culpa ao servir mais uma taça, apenas um cansaço repetitivo. O líquido escuro desceu queimando, e dessa vez ela não se importou. O gosto amargo combinava com o que sentia.
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  Pela primeira vez, não tentou se convencer de que aquilo era um erro pontual. Era escolha. Pequena, talvez irrelevante, mas ainda assim escolha. O celular vibrou, e ela ignorou. Vibrou de novo.
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  Com um suspiro pesado, %Maya% esticou o braço e olhou a tela. Dougie. Ela demorou alguns segundos antes de atender.
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  — Chegamos do primeiro show. Deu tudo certo e ele está bem — foi a primeira coisa que ele disse, antes mesmo que ela pudesse falar. — Dormiu no sofá do Tom. Roncou o suficiente para irritar metade da casa.
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  %Maya% soltou um riso curto, que morreu antes de virar alívio.
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  — Obrigada.
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  — Você não precisa passar por isso sozinha, nem ser assim tão dramática.
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  — Eu sempre passei e sou dramática por natureza, você sabe.
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  — Não — Dougie corrigiu, com suavidade. — Você só se convenceu de que precisava lidar com tudo na sua vida sozinha.
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  Ela não respondeu. Não havia argumento que sustentasse suas defesas naquele momento.
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  Depois que desligou, a casa voltou a pulsar naquele vazio pesado. %Maya% caminhou até o quarto de Danny. Abriu a porta com cuidado, como se temesse encontrar alguém ali ou nada de mais. O quarto estava uma bagunça familiar. Roupas jogadas sobre a cadeira, partituras rabiscadas, pôsteres colados de forma torta. Ela passou os dedos pela cama desarrumada, sentando-se ali.
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  Quantas vezes havia entrado naquele quarto para recolher copos, desligar amplificadores imaginários, endireitar coisas que não pediam correção?
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  Ela nunca perguntara se ele queria aquela ordem. Sentiu os olhos arderem, mas não chorou. Não ainda.
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•  H E L P ! •  M Y •  B R O T H E R  • H A S •  A •  B A N D !  •

  O dia seguinte amanheceu lento e %Maya% não foi ao trabalho. Não avisou. Não justificou. Simplesmente ficou sentada à mesa da cozinha, observando a luz atravessar o vidro da janela e pousar em superfícies que sempre estiveram ali, mas que agora pareciam estranhas, deslocadas.
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  Quando a campainha tocou, ela quase não atendeu. Harry estava do outro lado.
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  Vestia jeans, camiseta simples, o cabelo ainda úmido, como se tivesse saído às pressas. Havia algo contido no jeito que ele a olhava, uma cautela que não combinava com a intensidade da noite que haviam dividido muitas noites atrás.
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  — Eu não devia estar aqui — ele disse.
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  — Não — ela concordou, abrindo a porta mesmo assim.
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  Eles ficaram em silêncio por alguns segundos, observando-se como dois desconhecidos que sabiam demais um sobre o outro.
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  — O Danny pediu para te dizer que ele está bem — Harry falou. — Que não quer te machucar. Só… viver.
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  — Eu sei — ela respondeu, embora não tivesse certeza.
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  Ele entrou. O ar entre eles era denso, carregado de algumas coisas não ditas. %Maya% apoiou-se na bancada, cruzando os braços, como se aquilo pudesse protegê-la.
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  — Aquilo do outro dia… — começou.
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  — Não precisa — Harry interrompeu. — Eu não vim por isso.
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  Ela ergueu o olhar, surpresa.
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  — Vim porque achei que você está se perdendo. Dougie ligou para a gente preocupado por você matar o trabalho, ao que entendi, você é certinha demais para isso. E aí… Danny pediu para eu vir. — ele continuou. — E, porque, apesar de tudo, você ainda é a pessoa que mais se importa com ele.
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  — Me importar não foi suficiente.
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  — Foi demais — ele corrigiu. — Amor em excesso também sufoca.
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  A frase encontrou um lugar sensível demais.
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  — Você acha que eu não sei disso? — %Maya% perguntou, a voz baixa. — Você acha que eu não acordo todos os dias com medo de ter feito tudo errado?
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  Harry se aproximou um passo.
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  — Eu acho que você nunca se permitiu ser só irmã.
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  Ela engoliu em seco.
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  — Se eu soltar, ele pode cair.
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  — E se você continuar segurando — Harry respondeu —, ele nunca vai aprender a ficar de pé.
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  Eles ficaram assim, próximos demais, sem se tocar.
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  — Isso não muda o que aconteceu entre a gente — %Maya% disse, quase num sussurro.
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  — Não — ele concordou. — Mas também não define.
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  — É… Talvez estejam todos certos mesmo. Estou tentando organizar as coisas aqui dentro. — Ela pontou o peito.
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  — Se precisar de ajuda, apesar da gente ser… Digo… Não precisa contar só com o Dougie, tá?
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  — Obrigada Harry.
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  Harry ficou apenas conversando com %Maya% por uma hora ali, coisas triviais, na tentativa de fazer a mulher sentir-se menos solitária com as decisões do irmão. Quando Harry foi embora, a casa não pareceu tão vazia quanto antes. Mas também, não cheia, somente menos hostil. %Maya% sentou-se outra vez no sofá, respirando fundo. Pela primeira vez desde que Danny saíra, ela não pensou em ligar, exigir, impor condições. Pensou em ouvir, pensou em esperar. Pensou, com medo e estranha curiosidade, em quem ela poderia ser se deixasse de tentar controlar tudo.
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  E essa, percebeu, talvez fosse a escolha mais difícil de todas.
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  Dias depois, %Maya% encontrou Tom na padaria da esquina numa manhã em que não havia planejado fazer absolutamente nada. Usava roupas comuns demais, cabelo preso de qualquer jeito, o rosto sem a armadura profissional.
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  Tom sorriu ao vê-la, genuinamente surpreso.
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  — %Maya% Jones! — Tom sorriu ao abordá-la saindo da fila do pão.
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  — Meu Deus! — %Maya% abriu a boca em choque, na verdade, constrangida por estar tão desarrumada — Tom. Er… Oi, bom dia.
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  — Você parece… real.
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  — Isso foi um elogio?
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  — Foi uma constatação. — ele respondeu, rindo. — Quer sentar? Acabei de pedir um café. Ou, podemos ir para a sua casa antes que seu pão esfrie.
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  — Você é um folgado. — %Maya% riu apontando o balcão da padaria — Vamos tomar um cafezinho aqui mesmo.
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  %Maya% e Tom conversaram sobre coisas pequenas. O pão que estava seco, o clima estranho da cidade... Nada importante. E ainda assim, tudo parecia carregado de significado.
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  — Escuta… Por quê me chamou para sentar aqui e conversar? A gente, meio que não tem muito assunto.
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  — É que você é paranoica, né, %Maya%.
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  — Eu, paranoica? — %Maya% apertou o olhar em julgamento.
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  — Não me leva a mal. Eu entendo. De verdade. Eu sei que tudo o que você quer é fazer as coisas do jeito certo, pra você e pro Danny.
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  — Hm… Tom, o algoz que influencia a rebeldia do meu irmão sendo um cara maduro?
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  — Não influencio a rebeldia dele. Só encorajo ele a fazer o que ele acha certo.
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  — É… — %Maya% concluiu — E qual a sua lição de moral para mim?
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  — Eu? Nenhuma. — Tom gargalhou.
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  — Você não vai tentar me consertar. — Ela disse de repente.
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  — Nem você pode impedir a si ou seu irmão de errar. — ele respondeu.
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  Ela percebeu, ali, que aquilo era novo. Não precisava ser forte. Nem vigilante. Nem responsável. Quando se despediram, Tom não tocou nela. Não insinuou nada. Apenas disse:
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  — Se precisar… estou por perto.
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  E pela primeira vez, isso soou como uma ação amigável e não uma provocação.
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Capítulo 4
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