God Complex


Escrita porNobara
Revisada por Lelen


Sete

Tempo estimado de leitura: 16 minutos

  Ankeny, Iowa. 2006.

  O sol parecia arder mais em minha pele naquele dia. Os raios quentes achavam repouso sobre mim, bem como os olhares de pena e até mesmo de desconfiança dos Winchester. Odiava aquilo, mas não estava em posição de reclamar.
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  Estávamos todos reunidos na lanchonete, em um clima de velório. Ninguém falou nada, a não ser por Sam e %Verity%. Dean não parecia bravo, mas preocupado, e também não disse nada. Tampouco eu.
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  O lugar era aquecido, tinha cheiro de café e bacon. As atendentes estavam espalhadas pelo estabelecimento, recolhendo louças de mesas vazias ou prestando serviço aos pouquíssimos clientes presentes.
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  Havíamos escolhido uma mesa mais afastada e próxima de uma janela grande de vidro que se estendia na vertical. Eu e Dean permanecemos sentados, frente a frente, enquanto Sam dizia que era melhor ir diretamente ao balcão fazer o pedido. Claro que %Verity% teve que segui-lo, ela odiava lidar com tensões ou, pelo menos, sentir que estava no meio de uma.
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  Suspirei, desviando o olhar para Dean. Para minha surpresa, ele já estava me encarando. Não com raiva ou pesar, mas seus olhos carregavam um carinho fraterno.
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  — Eu te devo um pedido de desculpas — comecei a falar, observando Dean levantar a mão e balançar a cabeça, mas insisti: — Não, Dean, é sério. Peço desculpas por apontar uma arma na sua cara, foi indelicado.
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  Ele continuou me encarando, processando o que eu dizia.
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  — %Cassie%, escute — iniciou com um tom de voz cauteloso, mas ainda firme o suficiente para me manter atenta. — Eu não posso dizer que confio em você, porque apontou uma arma pra mim. Mas posso te dizer que eu entendo.
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  Assenti, reprimindo os lábios e sentindo a culpa me preencher.
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  Preencher, não consumir. Não mais.
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  — Eu sei como é ser tomado por pensamentos ruins, caminhar por uma corda bamba entre vida e morte...
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  Redenção e vilania.
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  — Não precisa se culpar tanto, menina — concluiu.
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  Respirei fundo, permitindo-me abrir um pequeno e breve sorriso. Dean sorriu de volta na mesma intensidade.
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  — Você é forte, acha que todo monstro merece uma bala no meio da cara — comentou o Winchester mais velho, se debruçando sobre a mesa. — Já vi caçador assim antes. Sabe o que aconteceu com ele? Tornou-se pior que os monstros que caçava.
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  Travei o maxilar com a tensão que me invadiu de súbito. Meu corpo parecia ter perdido a temperatura e o relato de Dean balançou meus tímpanos como se eu tivesse visto um fantasma. Pálida.
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  Olhei para Sam — na intenção de aliviar o peso — que estava de costas conversando com %Verity% e segurando o cardápio. Eles pareciam indecisos, o que me fez soltar uma risada baixa com a cara confusa que minha amiga estava fazendo. Ela me conhecia há anos e eu tinha certeza que estava em dúvida sobre o que eu gostaria de pedir para o café da manhã.
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  Voltei minha atenção a Dean.
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  — Essa vida é traiçoeira, %Cassie%. Um passo errado e não tem mais volta.
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  Eu sabia muito bem do que ele estava falando. Caso eu escolhesse matar Caroline, eu trilharia um caminho de ruína que não me permitiria voltar. Uma desumanização completa e irreversível e, consequentemente, uma iminente vilania.
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  Sam me salvou.
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  Naquele momento, minhas pálpebras relaxadas deram um salto, como se tivesse tido uma breve epifania. Um momento de súbita clareza. Ele me salvou do abismo de rancor e, o mais importante: eu me permiti ser salva.
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  Dean viu o brilho da compreensão em meus olhos e voltou a encostar-se na cadeira, com a expressão facial suave de quem cumpriu uma missão. Ele me fez entender o que eu não conseguia quando Sam me impediu.
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  Ele não queria salvar Caroline. Talvez quisesse, porque fazia parte de sua índole. Mas eu fui a maior preocupação dele.
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  — O que aconteceu com o tal caçador? Quem era ele? — Indaguei, com a curiosidade perceptível no tom de voz.
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  — Gordon Walker — respondeu todo despojado como se fosse uma história simples. — Ele era um caçador exímio. Rastreava e matava vampiros sem um pingo de hesitação.
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  Dean reprimiu os lábios em uma pausa, tornando visível certo arrependimento em seu olhar.
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  — O meu irmão foi sequestrado pelo grupo de Lenore, mas não pra servir de almoço. Eles pediram que Sam os ajudasse a escapar do maluco Walker. Então, ele me contou tudo.
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  Ele esperou, suspirou e retomou o fôlego. Dava para ver que ainda era difícil.
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  — Eu fui na onda do Gordon e fiquei contra o meu irmão. Foi como apontar uma arma na cara dele também — disse Dean enfim.
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  — Caroline mencionou essa tal de Lenore — comentei.
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  O Winchester assentiu e, antes que ele continuasse, olhei para Sam e %Verity% mais uma vez. Estavam demorando. Quando meu olhar os encontrou, vi os dois conversando ainda perto do balcão. Sam estava com a cabeça baixa, os lábios em linha fina, como fazia quando estava compadecido de algo, e %Verity% gesticulava exageradamente. Podia apostar que estavam tendo o mesmo tipo de conversa que eu e Dean.
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  — Exato. Lenore e cia não eram vampiros convencionais. Eles se recusavam a se alimentar de humanos — ele explicou, com as mãos inquietas em cima da mesa. — E eu me recusei a acreditar. Como a porra de um vampiro não vai beber sangue humano? Isso é impossível, eu pensava.
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  Naquele momento, eu percebi que era mais parecida com Dean do que imaginava.
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  — Gordon torturou Lenore quando tentou forçá-la a beber sangue humano. — Ele ergueu o olhar, abrindo um sorriso. — Aquela garota me impressionou. Conseguiu controlar os impulsos e, mesmo sentindo cada nervo do seu corpo implorando pelo sangue, ela não quebrou a promessa de que queria coexistir pacificamente com os humanos.
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  O que mais me intrigava não era a história em si, e sim não estar sendo tomada de sentimentos ruins ao ouvi-la. Sabia que não tinha encontrado totalmente minha paz, mas podia sentir seu cheiro. Estava mais próxima que nunca.
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  — Resumindo: raiva demais, e você acaba virando o monstro. Simples assim.
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  Balancei a perna embaixo da mesa. Queria ter ouvido aquilo antes. Sete anos atrás, talvez.
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  As coisas teriam sido diferentes, afinal?
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  — Mas Caroline... ela ainda matou pessoas, por isso eu não queria deixá-la viva — protestei com cautela, sem fazer parecer que estava remoendo o assunto.
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  Tinha decidido deixar Caroline ir. Não do estado ou do país, mas do meu coração.
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  — Ela já estava quebrada. Álcool, marido babaca... Ainda teve que lidar com um sanguessuga maldito — ele começou a refletir. — Difícil não ceder.
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  Ele estava certo. Nunca saberíamos os mínimos detalhes da história, do quão manipulador Frederich Walsh conseguia ser diante de sua esposa fragilizada emocionalmente, da perversidade de Erick em se aproveitar da dor da mulher e do seu próprio coração pesado.
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  Todavia, uma coisa havia ficado clara: Caroline foi transformada em monstro, mas não era um monstro de fato. Sua parte humana sobreviveu, mesmo diante dos horrores que passou e causou.
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  Antes que eu pensasse em responder, Sam e %Verity% chegaram com os pedidos em mãos. O básico do café da manhã para todos, mas para o Winchester mais velho, um hambúrguer duplo com muitas fritas. Tive que segurar a risada diante do olhar de inveja de %Verity% sobre Dean.
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  — Achei que tinham ido matar a vaca com essa demora toda — reclamou ele.
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  Sam lhe lançou um olhar reprovativo ao sentar-se ao seu lado, que logo se suavizou ao direcioná-lo para mim. Abriu um pequeno sorriso e eu sorri de volta.
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  — A nossa sorte é que o lugar não está tão cheio hoje. A atendente falou que isso aqui costuma ficar lotado — comentou %Verity%.
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  Peguei a salada que tinha sido feita para mim, com o olhar baixo e a pergunta que não queria calar.
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  — O que aconteceu com Caroline e o filho de Erick? — enfim, me pronunciei, atraindo a atenção deles.
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  Sam manteve o olhar compadecido e um tanto carinhoso. Ele sabia que fez a coisa certa e eu queria que ele pudesse ver que eu já tinha enxergado isso.
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  — Caroline e Andrew, o rapaz de Erick, se encontraram com Lenore. Eu fiz a ponte entre eles ontem mesmo, depois que deixamos vocês no hotel — revelou Sam.
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  Dean não estava mais participando da conversa, parecia concentrado demais no seu hambúrguer.
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  Eu não senti nada. Nem raiva, nem intrepidez movida por sede de vingança, nem arrependimento. Pelo contrário, parecia um alívio. Um peso a menos em meus ombros cansados.
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  %Verity% pareceu preocupada com o jeito que reagi, e pude ouvir um suspiro de alívio com a minha resposta.
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  — Ótimo — respondi finalmente, dando uma garfada nos ovos e bacon no meu prato.
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  Caroline teve seu desfecho, e a parte de mim que não concordava com isso já estava indo embora junto com ela. A %Cassie% que queria matá-la estava saindo de férias, levando consigo uma pequena bagagem de rancor e obstinação. Não sabia quando voltaria, mas queria aproveitar sua deixa.
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  O clima já não era mais de velório e todos nós já estávamos nos falando normalmente. Dean e %Verity% trocavam piadas sem graça, mas que, para eles, era como se estivessem fazendo o maior show de comédia stand up da cidade.
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  Sam me lançou um olhar divertido diante do entretenimento dos dois, que me arrancou uma risada baixa.
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  Não contive os sorrisos para o Winchester mais novo. Jamais conteria novamente.
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  Afinal, era grata por ele ter me feito enxergar.
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  Do lado de fora da lanchonete, Sam e eu estávamos próximos ao Impala de seu irmão, enquanto Dean e %Verity% cuidavam de pagar a conta dentro do estabelecimento. Minha amiga ia segurar o mais velho o tempo que podia, porque sabia que eu precisava pedir desculpas a Sam. Ela realmente me conhecia muito bem, porque talvez eu não conseguisse ter aquele momento com eles por perto.
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  Ele organizou alguns itens no porta malas do carro e eu o observei atentamente. Pude notar que minha respiração ficava pesada ao seu lado. Não porque sentia medo ou qualquer outra coisa negativa e sim porque... talvez o admirasse mais do que devia.
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  Gostava de Sam Winchester mais do que me era permitido nessa vida que levávamos. Um apreço confuso, mas cheio de gratidão.
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  Ele deitou a espingarda que servia de apoio para manter o porta malas aberto e, então, o fechou, trancando-o com as chaves e virando-se para mim. Ele estava sempre com um sorriso caloroso nos lábios, com um olhar gentil e as mãos sem saber onde se esconder.
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  Um sorriso meu se abriu.
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  — Você lutou bem, %Cassie% — disse ele.
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  — Sam, olha... — comecei, mas não sabia ao certo como prosseguir. — Eu quero te pedir desculpas por ter apontado a arma para você. Eu queria que soubesse que a situação me deixou assustada, mas que eu nunca teria apertado aquele gatilho.
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  Reprimi os lábios. Todos os meus motivos pareciam extremamente patéticos.
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  — Eu nunca precisei lidar com uma ocasião onde achava necessário me questionar se era certo ou não meter bala em um monstro — me expliquei, começando a gesticular de forma um tanto desesperada.
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  Queria o seu perdão. Iria até o inferno por isso se precisasse.
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  — Isso nunca mais irá acontecer de novo, eu...
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  Sam pousou a mão direita em meu rosto e deixou um beijo afetuoso em minha bochecha, calando completamente a minha boca. O maior não se afastou muito, e meu olhar estava congelado sobre ele. Então, os olhos intercalaram entre as íris gentis e os lábios rosados.
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  Meu coração acelerou no exato instante que senti o calor da mão de Sam.
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  Tum, tum, tum, tum.
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  Qualquer vampiro, a quilômetros de distância, ouviria o pulsar desesperado e afoito de meu pobre coração.
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  Entretanto, nada fiz. Nada podia fazer. Não naquele momento.
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  Ele pareceu entender, e se afastou. Seu sorriso não deixou seus lábios em momento algum. Fizera aquilo para que eu me acalmasse.
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  — Está tudo bem, %Cassie%. Eu já passei por isso um milhão de vezes, não foi a primeira vez que alguém aponta uma arma para mim — ele respondeu, rindo.
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  Suspirei aliviada.
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  — Então... nos vemos por aí, Sam Winchester?
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  Ele abaixou a cabeça por um breve momento, ainda sorrindo. Todavia, seu sorriso parecia triste. Ao menos, notei um vislumbre de tristeza no tom cor de rosa em seus lábios.
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  — Com certeza. Ainda existem muitos monstros por aí.
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  Assenti, carregando a mesma tristeza no sorriso.
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  Dean e %Verity% saíram da lanchonete, me tirando completamente dos devaneios que inundaram minha mente e dos pensamentos ansiosos sobre Sam Winchester.
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  Quando o verei novamente? Eu terei essa chance?
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  Puxei as chaves do Camaro e ergui a mão, acenando para Sam e me afastando em direção ao meu carro.
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  — Espera — pediu ele.
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  Eu parei no meio do caminho, e, mais uma vez, fui agraciada com aquele sorriso.
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  — Por favor, %Cassie%, se cuide.
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  Desejei ter forças para lhe pedir o mesmo, mas tudo o que conseguia pensar era em ficar ali.
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  Nenhuma outra despedida, além do enterro de Jake, tinha me afetado tanto a ponto de pensar que eu preferia levar um disparo de bala de prata a ficar sem ver aquele sorriso novamente.
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  Entretanto, de uma coisa eu sabia: se encontrasse Sam Winchester mais uma vez, não deixaria que partisse de novo.
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