God Complex


Escrita porNobara
Revisada por Lelen


Seis

Tempo estimado de leitura: 18 minutos

  A noite presenciava o confronto mortal contra os vampiros naquela casa. Eu corria atrás de Caroline como um caçador corre atrás de um veado ferido: havia acertado um golpe superficial no braço esquerdo da sanguessuga, com a lâmina embebida de sangue do homem morto. Ela estava fraca e o corte preciso ficou desenhado na diagonal em sua pele.
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  Caroline correu para longe.
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  Correu de mim em um combate unilateral. Foi para fora do porão, da casa e do cercado sem vida.
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  Ela continuava gritando que não queria me machucar e implorando por uma chance de recomeço.
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  Meu coração palpitava. Gotas de suor caíam de minha testa e eu podia sentir minha aorta pulsando fortemente. Caroline também conseguia ouvir. Minhas coxas e panturrilhas queimavam por causa da corrida intensa e sem pausa. Todos os meus músculos estavam tensionados.
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  Meus olhos não saíam da presa, mas minha mente não largava Jake.
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  — %Cassie%, espera! — Ouvi uma voz familiar de longe.
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  Era Sam.
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  Sua voz enfraqueceu momentaneamente meus movimentos, me fazendo parar de correr e virar em direção a ele. Estava ofegante.
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  Sam também havia parado de correr e segurava uma arma na mão, mas não tinha ninguém sob sua mira. Ao longe, eu podia ver os faróis do Impala de Dean. O Winchester mais velho e minha irmã, %Verity%, com certeza haviam acabado com a raça de Erick. Ela saiu do veículo e havia sangue em seu rosto, cabelo e roupas. Dean, por outro lado, parecia quase intacto, com exceção do cabelo loiro levemente bagunçado, o suor que fazia sua testa brilhar e o pequeno arranhão no canto da sobrancelha esquerda.
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  Eles quiseram se aproximar, mas Dean impediu %Verity% e ela pareceu concordar.
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  Droga, que distração.
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  Caroline deveria estar longe àquela altura.
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  No entanto, me surpreendi ao virar para vê-la. Ela estava caída sobre o gramado cinzento no quintal da casa, com a mão tampando o corte que fiz e a sua respiração ofegante, descompassada. Era como se tivesse se rendido.
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  Podia sentir o frenesi tomando conta de mim novamente. Era como se eu estivesse viciada na adrenalina que corria em minhas veias.
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  Não obstante, a realidade cruel que não queria enfrentar era justamente a de que eu não era tão diferente dos monstros que caçava. Não se tratava apenas de salvar pessoas e vingar a morte de meu irmão.
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  Eu sentia prazer em vê-los morrendo, implorando por suas vidas. O sangue do sobrenatural, quando tocava em minhas mãos, podia me causar um êxtase que outra sensação nenhuma podia me proporcionar.
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  Jake sabia disso. Sam estava começando a notar. Eu podia ver a possível decepção em seu olhar. Ele ainda não tinha percebido minha satisfação em acabar com os monstros, mas certamente reparou que eu ignorava o fato de Caroline ter sido uma pessoa inocente até semanas atrás.
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  Eu escolhia não ouvir sua humanidade quando implorava pela vida e chance de redenção, e isso fazia de mim um monstro. Negar sua dor era tão terrível quanto todos os crimes que Caroline cometeu sendo movida pelo instinto, medo e necessidade de sobrevivência.
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  Mas lá estava ela.
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  Caída no chão, olhando-me com o mesmo olhar de súplica de antes. Patética.
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  Meu lábio superior repuxou-se em uma expressão de nojo, ao mesmo tempo que erguia a mão que portava a faca em sua direção, preparando-me para o golpe final. Aquele acerto crítico que tiraria a vida de Caroline para sempre.
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  Eu seria o seu carrasco.
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  Ela fechou os olhos e lágrimas caíram incessantemente. Os ombros dela se sacudiam em um choro desesperado, mas ao mesmo tempo conformado com minha decisão.
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  Aquela mesma faca que parecia leve como uma pena para decepá-los, agora pesava tanto quanto uma bigorna. Eu precisava fazer o dobro de força para erguê-la, como se todo meu corpo canalizasse sua força total para o que estava prestes a acontecer.
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  Então Sam interveio. Sua destra forte e firme segurou meu pulso no mesmo instante que a força canalizada começou a executar o golpe. Seus dedos pressionavam levemente minha pele, mostrando que ele não tinha intenção alguma de me machucar. Seu toque durou pouco, o suficiente para Caroline abrir os olhos e para me atordoar por breves segundos.
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  Meu olhar enraivecido se suavizou ao encontrar com o de Sam. Ele se colocou entre mim e Caroline.
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  — Se quiser matá-la, vai ter que me matar também — disse ele.
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  — Sam! — repreendeu Dean, que desistiu da postura de observador e correu para perto.
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  Apesar da suavidade do meu olhar, a mão livre dirigia-se ao revólver em minha cintura. Eu o apontei para Dean imediatamente, fazendo-o parar e erguer as mãos, completamente surpreso com a cena.
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  Sam reprovou meu gesto e a aproximação do irmão mais velho, resmungando como sempre fazia, mas não abandonou sua posição. %Verity% parecia não acreditar no que estava vendo.
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  Tampouco eu acreditava.
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  Meu coração gritava por redenção, juntamente com Caroline. Entretanto, meu corpo ainda era movido pela raiva e sede de vingança. Meus músculos pareciam entender que nada daquilo parecia ser justo e agia de forma contrária a tudo que conversamos com Jake.
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  — Calma, mocinha — falou o mais velho, lentamente, como se eu fosse uma criança segurando uma arma.
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  Dean era esperto. Sua intenção não era de me acalmar ou de me fazer abaixar a arma, e sim de me distrair o suficiente para que pudesse sacar sua pistola contra mim também. Abri um sorriso desafiador com aquilo.
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  Ele era engraçado e eu gostava daquela qualidade no Winchester mais velho. Dean parecia ser um bom amigo, se não fosse aquela situação.
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  %Verity% foi rápida e sacou sua pistola logo em seguida, mirando na cabeça de Dean.
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  — Mais devagar aí, cowboy — falou a garota, atraindo rapidamente a atenção do homem à sua frente.
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  — Ô, gata, achei que a gente tava se dando bem — comentou ele, notavelmente indignado.
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  %Verity% deu risada, mas continuou com Dean sob sua mira.
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  — %Cassie% vem acima de qualquer coisa. Atire nela e você vai ser um homem morto.
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  Pude ouvir o suspiro de Sam e o gemido de dor de Caroline. Ela ainda estava no chão, enfraquecida pelo sangue do homem morto em sua ferida. Caso quisesse correr, não iria muito longe.
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  — %Cassie%, me escuta — pediu Sam.
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  — Manda ele se afastar — ordenei em resposta.
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  Sam reprimiu os lábios e lançou um olhar para Dean, pedindo implicitamente para que ele se afastasse. O irmão relutou, mas o fez: abaixou a arma e se afastou. %Verity% guardou a pistola.
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  Aquilo era entre mim, Caroline e agora, infelizmente, Sam.
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  Deve ser mal de Winchester, pensei, bancar o herói e se meter em questões morais alheias.
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  Eu não culpava Sam, só não queria que ele ficasse no meio do fogo cruzado em minha mente. Não queria atirar na sua cara, como falei que faria. Todavia, ele parecia não me dar escolha.
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  Apontei a mira do revólver em direção a ele. Bem no meio do rosto majestosamente desenhado de Sam. O meu olhar caloroso se tornou distante e gelado.
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  Como os de Jake, perto de sua morte.
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  Sam não pareceu surpreso, mas eu queria ouvir o que ele tinha a dizer. Atrás de mim, podia ouvir os murmúrios de preocupação de Dean e %Verity% tentando acalmá-lo com promessas falsas de que eu não atiraria em seu irmão.
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  — Por que isso, Sam? Se você não consegue terminar o trabalho, por que não me deixa fazê-lo? — indaguei com a sinceridade na voz.
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  Ele soltou outro suspiro pesado.
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  — Há algo sobre mim que você não sabe — começou ele. — Quando eu era um bebê, um demônio de olhos amarelos apareceu no meu quarto...
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  — Sammy, não! — gritou Dean, querendo proteger seu irmão.
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  Mas o Winchester mais novo ignorou, como se precisasse daquilo. Eu estava curiosa, assim como %Verity%. Tínhamos nossa sinergia.
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  — Ele me fez provar do seu sangue e, com isso, eu ganhei poderes psíquicos — explicou Sam.
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  Ergui a sobrancelha, pois não sabia onde ele queria chegar. O dedo no gatilho já havia relaxado e eu com certeza não atiraria naquele homem.
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  — Meus poderes envolvem premonições e provavelmente outras coisas que eu ainda não sei. Eu me recusei a aprimorá-los, porque me sinto uma aberração, %Cassie% — continuou. — Eu tenho sangue de demônio em mim, e talvez eu esteja destinado a coisas não muito boas por causa disso.
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  Ele deu uma pausa, como se tudo aquilo fosse muito difícil para ele. E era mesmo, assim como era difícil de processar cada informação, cada palavra dita.
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  — Então se vai matá-la, mate a mim também.
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  Sam ergueu os braços, finalizando sua deixa.
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  Desgraçado.
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  — Muito bem — falei.
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  Destravei o gatilho do revólver.
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  — Você disse que ela não ia atirar nele! — comentou Dean para %Verity%, ainda indignado.
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  O Winchester mais novo olhou para mim, bem nos olhos. Meu coração disparou, o sangue parecia ferver e, novamente, me deparei com as questões acerca de um deus impiedoso e complexado que habitava em meu âmago.
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  Eu não queria ser isso, não o queria como inquilino em meu coração. Eu, %Cassie% %Winters%, era tão humana quanto Sam Winchester. Quanto Caroline foi.
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  A adrenalina subiu na dosagem. O som do pulsar de meu coração era tão alto que Caroline tampou os ouvidos. Pareciam tambores incessantes para ela.
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  Tum, tum, tum, tum.
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  Abaixei a arma.
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  — Saia da minha frente, a briga não é com você — insisti, erguendo a faca novamente.
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  Avancei não para cima dele, mas para passar por ele.
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  Sem sucesso.
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  Sam me segurou enquanto eu tentava atingir Caroline atrás dele. O homem agarrou meu pulso mais uma vez, com delicadeza, enquanto me segurava nos braços para me conter. Apesar de seu toque ser carregado de ternura, Sam era forte e firme.
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  A raiva se transformou em lágrimas, soluços e ombros inquietos pelo desespero.
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  Estava cansada de ter o coração inundado de coisas ruins. Eu me sentia culpada, porque eu mesma alimentei sentimentos corrosivos.
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  — Não se culpe tanto, %Cassie% — sussurrou Sam, no timing perfeito. Como se pudesse ler minha mente.
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  Sua mão segurava meu pulso com tanta firmeza que acabei soltando a faca, podendo ouvir o barulho pesado contra o chão. Eu me debatia nos braços de Sam, que não perdeu a paciência nem por um segundo e, conforme eu perdia as forças, as dele faziam um esforço ainda maior para me segurar.
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  Ele se manteve firme. Como um refúgio.
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  Meu choro era dolorido, mas o perfume de Sam era suave.
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  Desisti de tentar me soltar, de lutar contra a redenção iminente. Eu queria abraçá-la.
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  Minhas mãos caíram sobre o peito de Sam, onde meu rosto se afundava nas roupas alheias. Ele apoiou o queixo sobre o topo da minha cabeça e, pela primeira vez em anos, eu me senti segura novamente.
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  Seu perfume era barato, sem dúvidas, porém, marcante. Ficaria na minha memória como o cheiro do Winchester mais novo pelo resto da vida. Gravado em meu coração como o aroma que o ajudou a se acalmar.
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  Eu podia visualizar o cheiro entrando em minha mente e dissipando a neblina densa do rancor e da raiva. Também podia ouvir os passos apressados para socorrer Caroline. Os passos de Dean e %Verity%.
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  Eles entenderam que Sam queria perdoá-la.
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  Meu coração ainda estava inquieto com aquela ideia, ainda não parecia justo. Mas era o certo a se fazer.
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  %Verity% me trouxe de volta para o quarto de hotel. Eu não troquei uma única palavra com ela ou com qualquer um dos Winchester. Ainda estava processando tudo que o aconteceu e lidando com a crise interna sem envolver ninguém.
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  Ela explicou aos rapazes sobre o meu comportamento de “bicho do mato”, como costumava falar, quando estávamos entrando no quarto, e eu pude ouvir a voz suave de Sam dizendo que esperava que eu ficasse bem.
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  Seu tom era carregado de preocupação e eu agradeci mentalmente por aquilo.
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  Tudo o que eu fiz pelo resto da noite foi tomar um bom banho e ponderar sobre o que aconteceu. Contudo, enquanto a água quente caía sobre meu corpo, aliviando a queimação da adrenalina e possível lesão nos músculos devido a força mal utilizada, eu pensei se era mesmo uma boa ideia continuar martelando as mesmas questões de novo e de novo durante quarenta minutos gastando água de hotel barato.
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  Eu me privei da própria maldade em minha mente, da tortura que me aguardava.
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  Hoje não, não mais. Nunca mais.
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  Sam foi gentil comigo e eu tinha muito pelo que me desculpar e agradecer. Seu gesto mostrou que eu poderia ser gentil comigo mesma e com os outros.
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  %Verity% não forçou conversa durante o resto da noite, fez o que sempre fez: respeitou meu espaço e me deixou dormir, apesar da preocupação que atormentava sua mente. Ela sabia das minhas questões, dos conflitos internos. Presenciou crises de raiva movidas pela cegueira da vingança inúmeras vezes.
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  Quando me deitei, ela me cobriu com o lençol quente e pesado da cama. O colchão era macio e o travesseiro afundava quando deitei minha cabeça.
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  O mundo pareceu ficar em silêncio naquele momento.
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  %Verity% colocou minhas madeixas loiras para trás.
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  — Está deixando-o crescer... — comentou ela sobre meu cabelo, o acariciando suavemente.
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  O carinho da minha melhor amiga me fez fechar os olhos e suspirar. Não havia notado que estava tão cansada.
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  Meu cabelo sempre foi curto, mas ela sabia o que significava o gesto de deixá-lo crescer. Eu queria redenção.
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  %Verity% se permitiu descansar depois daquela noite e, no outro dia, o peso parecia ter ido embora. Pelo menos, metade dele. Ainda tinha muita coisa para resolver.
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  Nós nos levantamos e arrumamos tudo para deixar o quarto de hotel. Minha amiga saiu para convidar os Winchester para um café da manhã na lanchonete da esquina enquanto eu terminava de organizar tudo.
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  Afinal, teríamos que nos despedir e eu, me desculpar com Sam e Dean.
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  O meu celular tocou, exibindo uma mensagem do xerife Winfield e logo chamando minha atenção.
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“Obrigado, agente Nicks e Jones, pela colaboração de vocês na resolução deste caso. O sr. Walsh teve seu julgamento finalizado e irá cumprir prisão perpétua na cadeia. Vocês ajudaram a tornar Ankeny mais segura novamente.”

  Um sorriso se formou em meus lábios, bem na hora que %Verity% apareceu no quarto.
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  — Vamos logo, %Cassie%! Tô com uma fome de cinco leões — resmungou ela.
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  Dei risada. Um sentimento de felicidade e gratidão repentino me inundou. Os olhos brilhavam e, de súbito, o dia pareceu mais bonito.
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  Jake sabia disso, porque foi a primeira vez em sete anos que me senti tão leve.
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