Três
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Ankeny, Iowa. 2006.
O quarto de hotel alugado por Sam e Dean parecia muito mais apertado com o suspeito amarrado à uma cadeira no meio do cômodo. Frederich Walsh estava com a cabeça baixa, preocupado demais com sua própria insignificância e se colocando em risco para salvar criaturas que não mereciam redenção.
Ele estava intocado: os óculos fundo de garrafa no lugar, alguns fios de cabelo bagunçados — mas isso parecia ser comum para ele —, e o terno e gravata em perfeitas condições. Sua cabeça estava vermelha e ele parecia não conseguir respirar direito com tanto medo. Eu podia jurar que o desgraçado iria urinar ali mesmo. Era patético de dar pena.
— Poderia mandar todas essas informações para mim no e-mail que deixei no departamento, por gentileza? — perguntou %Verity% ao telefone, andando pacientemente de um lado para o outro no quarto. — Muito obrigada, xerife!
Dean estava sentado na beirada da cama, encarando Sam, que estava em pé do outro lado do quarto e encostado na parede. Eu estava ao seu lado, aguardando %Verity% executar o plano que havia dito que tinha em mente para fazer Frederich falar.
— Ele não disse nada ainda? — perguntei, olhando para Sam, que só negou com a cabeça.
O mais velho dos Winchester se levantou, aproximou-se do suspeito e soltou um suspiro.
— Ô, rapaz, quanto mais cedo você falar, melhor vai ser pra todo mundo — pediu em um tom de voz descontraído. — Por que você não nos dá logo o endereço dos vampiros? Nós sabemos que você sabe.
Enquanto Dean tentava intimidar o sr. Walsh, Sam me entregara um arquivo com o mapeamento das vítimas, contendo datas e possíveis ligações com o suspeito. Sabíamos que ele não era vampiro, pois os Winchester o haviam testado antes de chegarmos lá. Ele era humano. O que não sabíamos era o motivo de um humano trabalhar para vampiros.
Eu me aproximei do indivíduo, com os olhos fixos na papelada em minhas mãos, enquanto %Verity% ainda verificava seu celular e aguardava sabe-se-lá-o-que do xerife. Apesar disso, ela tinha uma carta na manga e talvez seu plano pudesse ser mais eficiente que amedrontar um cara tão patético como o que estava sentado à minha frente. Dean se aproximou de %Verity% e resolveu tomar conta da verificação e espera junto com ela, puxando assunto com minha amiga e deixando claro que desistiu de arrancar qualquer informação do cara. Era quase como se declarasse que ele não iria falar.
Sam se aproximou de mim, e essa proximidade me causou uma sensação estranha, mas boa, evidenciando a força na sua presença e alimentando meu sangue com doses leves de adrenalina só pelo fato de estar ao meu lado. Aquilo era amedrontador, pois eu sequer o conhecia. Não havia me sentido assim nem com Simon, nem quando ele estava tão próximo de mim a ponto de tocar seus lábios nos meus — o que aconteceu muitas vezes, e nem uma delas me trouxe essa sensação intempestiva que Sam proporcionava sem nenhum esforço.
Tentei afastar o meu foco disso, voltando minha atenção para Frederich.
— Amy Kiev, Riley Santiago... — li os nomes das vítimas, finalizando pela mais recente. — Florence Smith. Você consegue notar algum padrão ou ligação entre essas vítimas, Sam?
Minha indagação foi carregada de ironia. Era óbvio que eles conheciam Frederich Walsh e estiveram com ele antes de partirem dessa para a melhor. Sam cruzou os braços, fuzilando o suspeito com o olhar.
— A ligação aí é que Frederich Walsh foi a última pessoa que eles viram antes de morrer — respondeu o Winchester mais alto em um tom de voz contido, mas cheio de rancor.
O homem não demonstrava nada além de medo. Nem remorso, nem arrependimento. Apenas temia por sua própria pele. Parecia que, se falasse algo, iria pagar por isso, então mantinha-se quieto.
— A pergunta é: o que um cara tão patético como você tem a ver com isso? Por que não quer nos contar?
Ele pareceu ofendido por um momento e, quando ia abrir a boca para me retrucar, %Verity% pulou do outro lado da sala.
—
Yes, baby! Obrigada, xerife, você é demais! — exclamou, deixando Dean com um sorriso bobo nos lábios. — Eu puxei a ficha de Frederich Walsh na polícia.
Eles se aproximaram novamente.
— Sabiam que o nosso cara tem uma filha pequena? O nome dela é Patricia Walsh — começou Dean, cruzando os braços. Parecia até mania de Winchester.
— E o mais curioso é que a mãe de Patricia é dada como morta. Adivinhem como ela morreu... — %Verity% continuou, não nos dando tempo para formular palpites. — O legista afirmou que Caroline Walsh foi morta em um incêndio doméstico, então eles não enterraram corpo nenhum.
Ainda não tínhamos entendido onde ela queria chegar, mas Frederich olhava para ela com desespero, como se %Verity% estivesse destrinchando seu segredo mais sujo.
— Não, por favor... — pediu ele.
Fui rápida em tapar a boca dele com um pedaço de fita.
— Na noite em que Caroline morreu, ela supostamente descobriu a traição do marido com Amy Kiev, a secretária jovem e bonitinha do colégio em que ele trabalha — %Verity% deu continuidade e Frederich se contorcia na cadeira, dando gritos abafados pela fita e tentando se soltar da corda.
Dean deu um passo à frente, abrindo um sorriso presunçoso para o culpado.
— Então, desolada e de coração partido, Caroline acidentalmente iniciou um incêndio na cozinha enquanto Frederich estava voltando para casa — disse o Winchester mais velho. — Essa foi a versão que ele contou para a polícia, mas não foi isso que aconteceu. Não é, sr. Walsh?
Uma lâmpada pareceu ter acendido na cabeça de Sam e na minha.
— Ela não ficou em casa, ela saiu e foi atacada — sugeri, e pela reação de Walsh, eu tive certeza.
— Então Caroline foi transformada? — indagou Sam, ainda minimamente confuso.
Ele começou a chorar, abaixando a cabeça e sacudindo os ombros enquanto soluçava.
— Bingo! — exclamou %Verity%.
Dean arrancou a fita da boca do homem, dando-lhe oportunidade para se explicar e assim ele o fez, mesmo em prantos:
— Minha esposa viu meus e-mails com Amy... ela tinha problemas com álcool, estava tentando superar isso, mas eu estraguei tudo.
Ah, que bom que sabe, pensei.
— Caroline saiu de casa e foi para o Gary’s, que é o bar mais famoso da cidade. Me ligou depois de beber todas e foi assim que eu descobri que ela já sabia — ele se explicou, olhando para nós. — Então, eu fui correndo até lá. Ela me disse para encontrá-la, disse que estava com fome. Muita fome.
Frederich deu uma pausa, mas logo continuou.
— Quando cheguei ao bar, não a vi. Perguntei das garçonetes e de quem estava lá, e disseram que ela havia saído. Então, eu saí pela porta dos fundos e ouvi um barulho estranho perto da caçamba de lixo... — O que viria a seguir o destruía, pois Frederich apertava as pálpebras uma na outra com força, como se negasse a dura verdade. — Era Caroline banhada pelo sangue de Amy, que estava morta embaixo dela.
Respirei fundo. Tudo parecia se encaixar na minha cabeça. Pelo menos, boa parte da história.
— Seus olhos e dentes estavam diferentes, não é? — incentivou %Verity%, com um tom de voz compadecido.
Ele assentiu, olhando para ela na tentativa de evidenciar ainda mais seu sofrimento com a situação da esposa. Dean e Sam desviaram o olhar brevemente, como quem perde uma batalha. Houve silêncio no cômodo, mas eu não permiti que durasse muito. Aquele homem definitivamente não era uma vítima, e eu não deixaria que o tratassem como uma.
— Desembucha — exigi, ignorando completamente o teatro dele e apoiando as duas mãos nos braços da cadeira de Frederich, que me olhou assustado. — Sua mulher está assim por sua culpa, você causou seu próprio sofrimento e o dela. Agora sua filha cresce sem saber o que aconteceu com a mãe e pessoas inocentes estão morrendo, droga!
Ele engoliu o choro. Seu olhar denunciava que Frederich nunca havia enxergado a partir desse ponto de vista. Sua voz pareceu mais centrada quando voltou a se pronunciar:
Afastei-me dele, e foi a vez de Sam se aproximar com o seu jeito meigo e compreensivo como fez comigo daquela vez.
— Você pode fazer o que é certo, Frederich. Basta nos dizer onde podemos encontrar Caroline.
Ele assentiu e estava de prontidão a ajudar.
— Ela vive com outros... seja lá o que são essas coisas. Minha esposa disse que foi transformada por um homem que prometeu que cuidaria dela. Ele se chama Erick — comentou ele, suspirando. — Ele se aproveitou do coração partido de Caroline. Ela não gosta de matar, mas não consegue conter sua própria fome, então eu a ajudo a se alimentar. Sei que é errado, mas eu estava apavorado e com medo que ela chegasse em nossa filha também.
— Diante de tudo que eu fiz, também achei que era uma boa forma de me retratar com minha esposa — concluiu.
— Ótimo. Temos um vampiro melancólico formando uma família de corações partidos. Era tudo o que eu queria ouvir — reclamou %Verity%, e com razão. — Preciso urgentemente de uma cerveja.
Houve uma pausa, então Dean continuou:
— E esse tal de Erick, onde podemos encontra-lo?
Frederich assentiu novamente e nos deu um endereço, afirmando que foi a última localização que sua esposa lhe deu. Larguei os arquivos sobre a cama, passando a mão na cabeça e me afastando um pouco da cena. Sam reparou meu desconforto e chegou mais perto.
— Eu não acredito que ele vai sair ileso no final — respondi, reclamando de dor de cabeça em seguida.
Sam negou imediatamente, como se aquela ideia fosse inadmissível.
— Isso não vai acontecer. Frederich está fazendo o que é certo, mas ainda vai pagar pela dor que causou.
Então, pela primeira vez, sorri para Sam. Alguns caçadores não ligavam quando o sobrenatural saía de cena, mas ele também fazia o que era certo, mesmo que restassem apenas humanos no desfecho daquela história trágica. Sam, então, sorriu de volta.
— Caroline só sai quando está com muita fome — pontuou Walsh. — Já Erick, mora neste endereço. Porém...
O homem criou um clima de expectativa com a pausa.
— Ele está sequestrando pessoas para aumentar sua família. Gosta desde meninas jovens até mulheres mais maduras. Então ele vai à procura no lugar mais movimentado da cidade — concluiu.
%Verity% pegou as chaves do Camaro para reunir o armamento necessário no combate aos vampiros e Dean a seguiu, girando as chaves do seu belo Impala nos dedos. Eu me aproximei de Frederich, algemando o homem à cadeira para ter certeza que ele não escaparia caso se soltasse da corda, e podendo contemplar a indignação em sua face.
— O quê?! O que é isso? Eu concordei em ajudar — reclamou ele.
Sam abriu o mesmo sorriso de quando falou com Bobby pelo telefone de minha amiga. Como se também já tivesse visto o mesmo filme inúmeras vezes.
— Você ajudou, mas também precisa pagar pelos mortos e pelos sequestrados, que provavelmente já viraram vampiros e
terão que morrer — disse Sam, enfiando as mãos nos bolsos.
O canto dos meus lábios subiu em um sorriso breve de deleite ao saber que o culpado pagaria por seus crimes. Frederich se deu por vencido e aceitou os termos de condição.
Aquele breve momento me fez admirar ainda mais o Winchester em minha frente, que me olhou rapidamente com uma ternura um tanto descarada e tímida, porém breve. Ele se juntou a Dean e %Verity% quando voltaram e logo traçaram um plano. Fiquei apenas escutando, já que eu era a parte da dupla com %Verity% que executava e obedecia a comandos. Eu era o soldado perfeito, e %Verity% era a estrategista impecável.

O plano foi elaborado, atacaríamos no dia seguinte pela noite e nos dividimos em duas duplas mais óbvias possíveis: %Verity% e Dean e eu e Sam. Eu e Dean éramos parecidos, do tipo que atira primeiro e faz perguntas depois, então Sam defendeu que era uma péssima ideia irmos juntos. Eu tive que concordar. Então, %Verity% ficaria no bar do Gary tentando atrair Erick. Ela foi esperta: pegou as características do sujeito com Frederich e fez um retrato falado, pois o homem havia visto o vampiro deixar o bar na noite em que sua esposa foi transformada. Ela contou para Frederich o que Erick havia feito e confirmou quem era o sanguessuga. O sr. Walsh estava realmente disposto a pagar por seus pecados fazendo o que era certo.
Dean daria cobertura para %Verity% e eles cuidariam do patriarca da família sugadora de sangue. Eu e Sam atacaríamos no endereço dado por Frederich. Esperávamos encontrar algum sequestrado ainda sem ter sofrido transformação, mas as expectativas eram baixas. Quando tudo estava pronto para a execução, Sam e eu entregamos o sr. Walsh para a polícia, alegando que o homem tinha envolvimento com as mortes. Não precisamos de muitas provas, pois o próprio culpado confessou.
Quando tudo acabasse, ele ainda estaria mais seguro atrás das grades.
Ao cair da noite, %Verity% achou uma boa ideia sair para comprar a janta. Ela e Dean foram à lanchonete em seu Impala, alegando que pediriam para a viagem e que comer juntos no quarto de hotel seria mais seguro naquele momento. Sam concordou e continuou limpando suas armas, e eu, embebedando toda minha munição com sangue do homem morto, que é um veneno letal para os vampiros.
— %Cassie%, me conta — começou Sam, sem parar o que estava fazendo, mas fixando seus olhos curiosos em mim. — Como começou a caçar?
Uma pontada gelada e estridente atingiu meu peito ao ouvir a pergunta, e estaria ferrada se já não estivesse pronta para falar sobre o assunto. Joguei a bolsa com o armamento para o canto do quarto e me deitei na cama que supostamente estava sendo usada por Dean. Soltei um suspiro fundo e olhei para ele.
— Meu irmão morreu quando eu tinha acabado de completar vinte anos — desabafei, voltando a encarar o teto quando Sam me lançou um olhar compadecido. — Ele foi dado como suicida, mas eu e %Verity% nunca aceitamos isso. Ela amava muito meu irmão, eles namoravam desde o ensino médio e estavam planejando um casamento.
Podia ouvir o suspirar de Sam.
Abri um sorriso agradecido para ele, deitando-me de lado na cama e apoiando o cotovelo no travesseiro, bem como a cabeça na minha mão.
— Então, tivemos a nossa primeira experiência sobrenatural: o espírito furioso do meu próprio irmão, mas Bobby nos salvou — concluí, sem vontade alguma de me aprofundar naquele assunto. — Nós confiamos tanto nele que contamos tudo do começo ao fim. Quando Bobby deu a Jake o descanso que ele merecia, nós imploramos para que ele nos ajudasse a achar a coisa que o matou. Então, estamos aqui.
Sam soltou uma risada baixa e olhou para o revolver em mãos, terminando de montá-lo e o guardando.
— O Bobby é um baita figurão, mas... — Ele reprimiu os lábios por um breve momento, terminando de formular sua pergunta. — Conseguiram encontrar o que matou seu irmão?
— É complicado. Caso a gente consiga sobreviver aos vampiros, eu te conto.
Sorri, logo me levantando e indo até ele. Sam afastou-se para que eu pudesse me sentar ao seu lado, e resolvi de prontidão ajuda-lo com a missão de limpar suas armas.
— Mas e você, Sam? Como entrou para essa vida?
Ele comprimiu os lábios momentaneamente, como se o assunto fosse tão delicado para ele quanto era para mim.
— Minha mãe morreu quando eu era um bebê. Desde então, meu pai nos criou como soldados à procura do demônio que a matou — comentou, um pouco triste.
— E onde ele está agora? Seu pai.
— Ele morreu para salvar meu irmão. — Apesar da dor que carregava e tentava disfarçar, Sam sorriu. — O amor pela família sempre fez com que nós lutássemos pelo que é certo, e meu pai fez o que achou ser o certo.
As palavras dele me atingiram em cheio e trouxeram minha memória com Jake à tona. Pela primeira vez em anos, eu tive que comprimir os lábios com toda força para conter as lágrimas. Sam pareceu perceber, mas quando ia falar alguma coisa, a porta se abriu, revelando uma %Verity% e um Dean engasgados de tanto rir um com o outro, ambos segurando muitas sacolas cheias de hambúrgueres,
milk-shakes e batatas fritas.
Idiotas com o mesmo senso de humor. Não deixei Sam se aproximar demais de minhas memórias e resolvi levantar no instante em que os outros dois chegaram. Ele entendeu que eu estava cortando o assunto e, pela expressão em seu rosto, parecia concordar que era o melhor para ambos. Sam também não queria que eu ultrapassasse os limites.