×

ATENÇÃO!

História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

O Espaço Criativo não se responsabiliza pelo conteúdo das histórias hospedadas na sessão restrita ou apontadas pelo(a) autor(a) como não próprias para pessoas sensíveis.

Garota S

Escrita porNatashia Kitamura
Revisada por Natashia Kitamura

Há características sobre Harvard que são verdadeiras e outras que são fictícias para melhor adaptação da história.
História inteiramente escrita por Natashia Kitamura.


Introdução

Tempo estimado de leitura: 24 minutos

— Hey, fique com a cama da janela, não consigo dormir com a claridade batendo em meu rosto.
0
Comente!x

  Foi assim minha primeira relação dentro da universidade, há dois anos. Kendra, minha colega de quarto até hoje é tão sociável quanto eu. Com seus olhos escuros e a pele muito branca, às vezes sinto que ela sente mais frio do que eu apenas por facilmente poder confundir seu tom de pele com a neve. Temos uma relação limitada e obrigatória porque dividimos um quarto. Geralmente dizem que os alunos de direito são mais tagarelas que o normal, mas a verdade é que todos só querem mostrar que são melhores. Principalmente em Harvard. Desde que entrei aqui, não encontrei muitas pessoas senão egocêntricos inteligentíssimos, podres de rico ou os dois. Não posso dizer que sou feliz estudando na melhor universidade do mundo. Harvard é boa quando se põe em questão os estudos e conhecimento, contudo, em relação às pessoas, não sou a melhor a dizer que tenho bons amigos.
0
Comente!x

  Me mudei para os Estados Unidos logo que recebi minha carta de aceitação de Harvard. A verdade é que queria sair da casa de meus pais para o mais longe que pudesse.
0
Comente!x

  Os dois são advogados. Sempre quiseram que eu seguisse suas carreiras e assim penso até hoje: se pais estão tão centrados em suas profissões e demonstram ser bons profissionais, qual a razão de você fazer algo diferente deles? Grande parte da dificuldade será anulada, como a falta de conhecimento básico ou experiência fundamental. Desde quando fiz quinze anos, tenho comparecido às reuniões com clientes ou jantares beneficentes. Tudo em prol da profissão e do meu futuro que eles achavam já estar decidido. Entretanto, foi com dezessete anos, no último ano do colegial que senti que estava prestes a explodir.
0
Comente!x

  Qualquer um que esteja no colegial ou tenha uma noção do que é o vestibular sabe o tamanho da pressão que os estudantes brasileiros têm para entrar em uma boa universidade. Meus pais sempre deram duas opções para mim: São Francisco ou trabalhe para pagar qualquer outra faculdade. É bastante óbvio que a SanFran é a melhor e mais privilegiada faculdade de direito do país. O número de inscrições anuais e a concorrência por uma vaga podem dizer o suficiente para aqueles que duvidarem. Sempre soube que conseguiria passar no vestibular, porque tenho um adorável dom de memória fotográfica, que me permite decorar e lembrar com rapidez todas as questões e matérias estudadas para o vestibular. Além disso, para um advogado, este é um dom que facilita na hora dos processos e das legislações; sem nem mesmo terminar a escola, eu já havia decorado metade das leis brasileiras conforme orientado por meus pais.
0
Comente!x

  Meus amigos diziam que minha vida era nada mais do que “perfeita”. Com o boletim repleto de notas azuis, dinheiro para pagar qualquer universidade do país, inteligência para estar segura de que não precisaria de uma segunda opção, pais preocupados com meu desempenho escolar e um namorado tão talentoso quanto eu, ninguém imaginaria que eu pudesse sair dos trilhos e ousar prestar uma prova a mais para a melhor universidade do mundo.
0
Comente!x

  A ideia surgiu quando eu completava o meu formulário de inscrição para o vestibular da São Francisco. Eu tinha quase duas semanas para preenchê-la, mas era óbvio que eu não deixaria para última hora, já que todas as noites, durante o jantar, meus pais surgiam com a questão de quando teriam de pagar o valor da inscrição. Com os olhos no papel ainda em branco, ouvi Lucas, um garoto da minha turma, perguntar como faria para realizar a inscrição da prova de Harvard. Atentamente, ouvi todas as orientações dadas pela psicóloga que cuidava dos testes vocacionais da escola e guardei em minha memória o procedimento que deveria ser feito pela internet. Assim que cheguei em casa, antes mesmo de almoçar, preenchi todo o formulário em inglês e o enviei sem pensar na reação que meus pais teriam.
0
Comente!x

  No dia da prova, dei a desculpa de que passaria o final de semana com minhas amigas para aproveitar as últimas semanas de aula antes de nos separarmos de vez pelas nossas carreiras. Peguei um táxi por não saber andar de transporte público e fui até o local da prova. Em minha cabeça, tudo o que eu queria era fugir de São Paulo e das ordens de meus pais em ter uma carreira perfeita. Assim que saí da prova, liguei para Gabriel, meu namorado de dois anos que cursava engenharia na Poli. Gabriel sempre foi, além de inteligente, bonito. Com seus cabelos de fios lisos e naturalmente loiros, os olhos caramelos e os lábios carnudos sempre chamaram a atenção das garotas da escola, inclusive eu. Infelizmente, porque sou tímida ou centrada o suficiente para não me distrair com problemas amorosos, nunca pensei na possibilidade de flertar ou trocar flertes com ele. Dessa maneira, no meio do primeiro ano, logo depois das férias de inverno, Gabriel veio em minha sala e me chamou para sair. Lembro-me de seus ombros largos tamparem o sol que batia na minha carteira, aquecendo sem grande sucesso, minhas mãos que estavam congeladas. O uniforme azul marinho e branco do colégio fazia-o parecer ainda maior; além disso, usava a roupa da Educação Física, fazendo dezenas de garotas enlouquecerem com a masculinidade exalando em minha frente. Ele foi direto quando disse que queria sair comigo e também não fez rodeios em me beijar durante o filme do cinema. Mesmo que os relacionamentos sejam feitos de troca de carinhos e palavras de afeto, eu e Gabriel sempre tivemos nossa própria maneira de nos amarmos sem exagerar em nossos toques. Encontrei com ele depois que fiz a prova de Harvard. Pedi para ele me buscar no shopping Pátio Higienópolis, que era perto do local onde fiz a prova. Demorou cerca de uma hora até avistá-lo subir as escadas rolantes com calma.
0
Comente!x

  Lembro-me muito bem o quanto havia me preparado para falar sobre a prova com Gabriel. Achei, por meio de matérias de revistas, filmes e conversas com minhas amigas que a reação natural dele seria de nervosismo. Por eu não ter confiado nele meu segredo, por não ter pedido sua opinião e, principalmente, por ter decidido sozinha ir para o outro lado do continente e deixa-lo aqui sozinho num relacionamento à distância. Elas inclusive comentaram do fato de Gabriel poder me trair sem que eu soubesse, mas é claro que ele não faria isso. Gabriel abomina a infidelidade tanto quanto meus pais abominam que eu siga outra carreira senão a de um advogado. Seus pais o tiveram muito cedo, uma gravidez não planejada; isso, de alguma maneira, afetou diretamente Gabriel, tornando-o uma pessoa que se prende em um relacionamento apenas para sentir que não seguirá o mesmo caminho de seus pais. Além dele preservar nossa relação sem cobiçar outras mulheres, ainda se preocupa com questões importantes em um relacionamento sério, como o dia que terá de me pedir em casamento depois de se sentir seguro economicamente. Quando o vi se sentar em minha frente depois de me dar um beijo estalado de cumprimento, desencostei minhas costas da cadeira, ficando em uma posição ereta, atitude que não passou despercebido por seus olhos. Ele me conhecia melhor que eu mesma. Manteve-se calado durante todos os minutos que falei sobre a prova, meus planos de ir embora para os Estados Unidos e a possibilidade de vivermos cinco anos separados. Quando terminei, Gabriel apenas olhava para mim sério e não disse nada até suspirar e balançar a cabeça:
0
Comente!x

  — Você está certa em procurar por algo melhor.
0
Comente!x

  Gabriel nunca gostou dos meus pais. Mesmo os respeitando e tendo uma visão clara de que queria possuir tanto poder quanto os dois na vida e na sociedade, ele nunca foi a favor da maneira que os dois me criavam. Felizmente, meus pais nunca tiveram a mesma opinião por Gabriel, caso contrário, eu estaria solteira ou noiva de algum indicado de seus amigos. Mesmo que meus pais sejam constantemente presentes fisicamente em minha vida, eles nunca fizeram questão de estarem presentes em meus momentos de glória ou alegria. Meus aniversários eram comemorados com um simples jantar em um bom restaurante e meus presentes eram nada mais do que cartões de parabéns ou um novo livro relacionado à advocacia. Mesmo que eu e Gabriel não fossemos um exemplo de casal de afeto, ele sempre teve sua própria maneira em se preocupar comigo, sendo uma delas, o fato de estar presente em minha vida. Gabriel foi a favor da minha ida à Harvard; disse que tinha certeza que eu conseguiria e que ele iria também se não fosse tão pobre a ponto de ter de trabalhar nos finais de semana para pagar sua moradia e condução. O dinheiro que recebe dos pais utiliza somente para pagar os gastos da faculdade e guardar o resto em sua poupança, porque não quer ter em mente que tudo em sua vida é dependido deles. Em seu aniversário, dou-lhe algo que possa lhe ajudar a viver melhor, como dinheiro, carro ou um novo colchão.
1
Comente!x

  Um mês depois me encontrei na lista de aprovados da São Francisco. A única pessoa que comemorou foi Gabriel. Me levou para jantar e então passamos o final de semana juntos; ter 48 horas inteiras para mim era uma dádiva, já que ele geralmente trabalhava 15 ou 16 horas por dia. Quando meus pais resolveram realizar minha matrícula na universidade, fingi estar doente para atrasarem dois dias até o resultado de Harvard.
0
Comente!x

  A resposta veio em forma de carta. Em casa, todas as cartas são recebidas por meu pai através de uma bandeja de prata trazida por Ilda, a empregada. Nós estávamos no café da manhã quando ela veio com o envelope branco enorme com a inicial de Harvard cravada na frente. Meu pai olhou para os dois lados, perguntando-se silenciosamente o que o levaria a receber uma carta daquelas. Minha mãe desviou sua atenção do chá e observou com atenção a reação de meu pai quando leu as primeiras palavras da minha carta de aceitação. Eu e ela nos mantivemos caladas enquanto os olhos do meu pai percorriam de um lado para o outro as letras que formavam as boas vindas ao curso de direito. Quando ele terminou a leitura, achei que fosse meu fim; provavelmente a doença que havia fingido nos dois últimos dias finalmente chegou em meu corpo e eu não estava preparada para ela. Engoli seco ao vê-lo passar o papel para minha mãe, que leu o conteúdo, séria.
0
Comente!x

  — Harvard? — meu pai disse, sem tocar em nada mais depois de entregue a carta às mãos de minha mãe. — Você quer estudar em Harvard?
0
Comente!x

  — Quero. — minha voz transpassava segurança, mas eu estava prestes a desabar. Meus pais sempre me ensinaram que passar uma imagem de firmeza e certeza fazia com que os juízes e opositores se sentissem intimidados e recuassem perante tamanha segurança. Contudo, meus pais eram melhores do que eu em analisar comportamento e sabiam que mesmo eu tendo feito uma prova às escondidas, quem ainda daria a última palavra eram eles.
0
Comente!x

  Ouvi a risada enorme de minha mãe; uma que nunca havia visto até então. Quando ela abaixou a carta para olhar para mim, pude entender que já estava decidido. Pelo pequeno sorriso que meu pai colocou em seus lábios, soube que consegui acrescentar nas duas opções que eles haviam me dado para escolher sobre meu futuro, uma nova: ir para Harvard.
0
Comente!x

  É claro que eu sabia que minha vida aqui não seria fácil. As pessoas do estrangeiro não são calorosas como os brasileiros e dividir o quarto com Kendra não foi a melhor coisa que me aconteceu desde quando cheguei no país. Meus pais, obviamente, tiraram uma semana de folga de seus clientes para me acompanharem até meu novo lar. Um quarto que era menor que o tamanho do meu banheiro na cobertura que morava em São Paulo e uma colega de quarto que passava muita maquiagem durante o dia inteiro. Meus pais não pareceram se preocupar com a companhia, apenas me disseram que era melhor que eu fizesse logo o cartão da biblioteca para passar minhas tardes livres estudando.
0
Comente!x

  Depois que nos despedimos no final do sétimo dia no país, não esperava que nunca mais fosse ver meus pais... Ou pelo menos pelos próximos dois anos e meio.
0
Comente!x

  Muita coisa aconteceu nos dois anos e meio que se passaram desde minha vinda para os Estados Unidos. A única coisa que posso seguramente garantir que não mudou, foi meu relacionamento com Gabriel e o fato de Kendra continuar sendo uma péssima colega de quarto. O Brasil sofreu um grande baque na economia, de modo que muitos milionários perderam grande parte de suas fortunas e estão entrando em problemas de processos. Meus pais deveriam estar ganhando mais dinheiro por serem advogados, mas parece que os processos estão voltados contra eles, que a cada vez mais perdem clientes por não conseguirem vencer no tribunal. O caso chegou a mim na última sexta-feira, quando eles, pela primeira vez, me ligaram para dizerem que era possível que eu tivesse de trancar Harvard até que eles conseguissem se estabilizar economicamente e voltar a pagar a faculdade.
0
Comente!x

  — Garanto os meses até Janeiro, contudo, depois disso, será difícil agregar o preço e os gastos em dólar com nossa situação financeira. — meu pai dizia. Ele era muito menos orgulhoso que minha mãe, que obviamente não diria nunca que estava passando por uma dificuldade com dinheiro. Em seu tom de voz, senti o cansaço e a derrota em ter de se remeter à vergonha de dizer à própria filha que não conseguirá cumprir com seu dever de pai e pagar os meus estudos.
0
Comente!x

  Não respondi nada. Não sabia o que dizer. Queria confortá-lo, mas nunca soube como fazer. Nunca precisei e nunca me ensinaram. As coisas são diferentes quando são com nossos pais. Apenas fiquei o ouvindo falar e então dizer que precisava sair para uma reunião com um de seus clientes. Achei que fosse desligar, algo que estava loucamente querendo fazer, entretanto, minha mãe me surpreendeu ao tomar conta do fone, dizendo:
0
Comente!x

  — Arranje um trabalho durante seu tempo livre.
0
Comente!x

  — O quê? — ela estava louca? Estudo em Harvard, uma universidade que não oferece programas de estágio, porque estamos loucos demais estudando para as provas finais. É claro que minha memória facilita minha vida em 50% durante as provas, mas isso não quer dizer que posso me dar ao luxo de diminuir minhas horas diárias de estudo. — Não posso fazer isso.
0
Comente!x

  — Não é questão de poder, %Emma%. É questão de ter. Seu pai... Ele não está raciocinando direito. Está se sentindo derrotado e isso está fazendo com que ele tome atitudes erradas. — pausou por alguns instantes e então voltou a falar: — Você não pode trancar a faculdade, sabe o quanto isso irá refletir em seu currículo? Arranje um trabalho enquanto é cedo e comece a juntar dinheiro. É para seu próprio bem. — e sem dizer para me cuidar ou que me ama, desligou o telefone.
0
Comente!x

  Não pude evitar ficar com raiva. Meus pais deveriam ter sido mais cautelosos com o dinheiro. São advogados, lidam com problemas assim todos os dias! Fizeram da minha vida, um mundo preto e branco somente para conseguir que eu realizasse suas vontades e agora que estou no caminho certo, agora que me acostumei, estragam tudo! Andei de um lado para o outro, chutei minha cama e senti uma dor imensa ao me lembrar que estava descalça. Realmente não queria ter essas reações, mas meu corpo não estava reagindo à minha razão e sim às minhas emoções. Não falei de meu problema para Gabriel; conhecendo-o bem, ele diria que eu fizesse o que minha mãe disse para eu fazer. Quer tanto quanto meus pais que eu me forme para trabalhar e conseguir meu próprio dinheiro.
0
Comente!x

  Agora, estou deitada em minha cama uma semana depois de ter recebido a ligação. Minha vontade de estudar está relativamente menor do que antes de saber da situação de minha família. Olho para o teto descascado, algo que só vi aqui já que em casa meus pais nunca deixaram aparecer qualquer defeito. Ouvi o barulho da chave destrancando a porta do quarto e então Kendra entrar:
0
Comente!x

  — Você parece uma ameba, jogada nessa cama. Não sabia que S passava mais que cinco minutos deitada na cama durante a tarde. — como sempre, anuncia sua chegada com um elogio. Em Harvard, as salas são nomeadas com letras do alfabeto. Meu ano tem salas de A a J. Os melhores alunos estão nas salas A e B. Cada vez que a letra do alfabeto muda, o nível dos alunos também muda, fazendo com que os alunos da sala J sejam considerados os piores do ano, pegando dependências em matérias e reprovando por falta. Entretanto, acima de todas as salas, há a sala S. S de Special. A sala dos prodígios. Constam nessa sala os 10 melhores alunos da turma inteira. As 10 melhores mentes, 10 melhores cabeças e, futuramente, os 10 melhores advogados do mundo. Alunos S têm recompensas que os alunos das salas A a J não têm, como bolsas de estudos e participações em Congressos importantes e caros. Como as salas, os alunos da sala S também são presenteados pela universidade de acordo com seus desempenhos, ou seja, o aluno número 1 ganha muito mais privilégios que o número 2, e assim por diante. Estou em quarto lugar; entrei na sala S ainda no primeiro semestre, logo no segundo mês e nunca mais saí. Minha colocação varia de quarto a sétimo, mas nunca chegue nos três primeiros colocados. A avaliação de todos os alunos é feita a cada quinze dias com provas de análise em que os professores criam. As provas são todas de um mesmo nível, difícil o suficiente até para os S. Assim, é bastante raro um aluno da sala C para baixo chegar na S depois do primeiro semestre de curso. Nestes dois anos e meio que estudei, apenas houve a troca de dois alunos S para uma sala A; um A e um B entraram em seus lugares. Com toda a dificuldade em manter nossas colocações e não perder nossos privilégios de S, como os dormitórios gratuitos para todos nós, é normal encontrarmos um alto nível de rivalidade entre dezenas de alunos na universidade.
0
Comente!x

  Viro meu rosto para Kendra, que olhou novamente para mim ao sentir meu olhar lhe seguir por onde ia dentro do quarto.
0
Comente!x

  — O que foi?
0
Comente!x

  — Como você consegue viver sem saber quanto dinheiro terá no mês seguinte? — as palavras saem sem serem filtradas antes. Geralmente tenho cautela em direcionar a palavra às pessoas, mas algo dentro de mim simplesmente decidiu desligar este filtro.
0
Comente!x

  Vi Kendra levantar sua sobrancelha tatuada. Disse-me em uma das noites que estava bêbada que ela havia depilado suas sobrancelhas com laser para em seguida tatuá-las e não ter de lidar com depilação escultural nunca mais. Um dinheiro que seria gasto em grande quantidade, mas uma vez só na vida. Na época, achei uma loucura, mas vendo agora, não me parece uma má ideia ter uma sobrancelha perfeita sem ter de mexer nela toda semana.
0
Comente!x

  — Você precisa pensar melhor antes de falar. As pessoas costumam se ofender ao serem indiretamente chamas de pobres.
0
Comente!x

  Ela tem razão. Indiretamente a chamei de pobre, um status social que ambas sabemos ser real. Mas como poderia julgá-la, se em breve estarei praticamente em condições até piores que as dela? Kendra costuma dizer verdades sobre sua vida quando está bêbada, fator que ocorre todos os finais de semana, a partir de sexta-feira de tarde e às vezes durante alguns dias da semana. Mesmo sendo uma aluna de direito, ela é muito mais relaxada que a maioria dos alunos; posso dizer que somos polos opostos. Enquanto ralho de estudar para manter minhas notas altas, ela apenas conta com sua qualidade de ser naturalmente inteligente. Nas aulas de jurisdição, é uma das melhores da sala sem nem mesmo abrir um livro. Poucas foram as vezes que a vi de cara nos estudos e mesmo assim, sua colocação nas notas nunca está inferior à média, por isso consegue se manter na E, uma sala mediana.
0
Comente!x

  — Desculpe. — foi o que decidi falar para demonstrar meu arrependimento em ter dito palavras da boca para fora.
0
Comente!x

  Nos mantivemos caladas por um longo tempo. Se não fosse tão normal, seria até constrangedor, mas eu e Kendra nunca nos falamos senão para necessidades pessoais de extrema urgência, como um absorvente interno ou o livro de direito penal para a prova de quinta-feira. Durante o tempo que ficamos caladas, a vi fazer o que viera até o quarto fazer; retirou sua camisa social que trajava para as aulas práticas de julgamento e a saia que ia da altura do umbigo até os joelhos, ficando somente com suas roupas de baixo pretas em minha frente. De vez em quando conseguia ver seu olhar em minha direção, como se quisesse se certificar que eu não estava mais a encarando.
0
Comente!x

  — O que foi? Até parece que você nunca viu meu corpo. Descobriu que sou gostosa?
0
Comente!x

  — Não. Não estou dando atenção à sua forma, apenas estou olhando sem intenção nenhuma. — explico, vendo-a soltar um riso nasal e colocar uma leggin preta com uma camiseta branca estampada com o logo de uma banda qualquer. — Não sabia que você se preocupava tanto com o corpo a ponto de utilizar a academia da universidade.
0
Comente!x

  — Eu não frequento estes tipos de lugares, é óbvio. — foi até a frente do espelho e passou a mexer no cabelo, finalmente decidindo prendê-lo em um coque frouxo. Desistiu de me ignorar e se voltou para mim, colocando a mão esquerda na cintura. — O que foi, afinal?
0
Comente!x

  — O quê?
0
Comente!x

  — Você nunca foi uma pessoa que fica à toa. Podemos não nos falar, mas continuamos dividindo um quarto. — bateu a mão livre na perna. — O que aconteceu? Tirou uma nota baixa?
0
Comente!x

  Talvez tenha sido seu tom irônico ou a tentativa de fazer pouco caso do interesse em minha vida. Pode ser que eu esteja muito desesperada em conversar sobre meus problemas com alguém que não fosse Gabriel ou meu diário. Tudo o que sei, é que surpreendentemente, minha boca falou novamente algo que minha mente disse para não falar:
0
Comente!x

  — Minha família está falida, minha mãe disse para eu arranjar um emprego aqui e não sei nem no que sou boa para tentar fazer o que me mandou.
0
Comente!x

  Kendra parece tão surpresa com minha confissão quanto eu. Não o fato de eu estar falida, mas sim por eu ter me aberto para ela, quando nestes dois anos e meio que passamos juntas dentro deste quarto, tudo o que fizemos foi ignorar a presença uma da outra.
0
Comente!x

  — Que droga. — foi o que ela falou. Mesmo sua sentença sendo limitada e sem intenção de se preocupar em me ajudar, seu tom de voz foi claro o suficiente para me fazer entender que ela estava, no mínimo, sentida com minha situação. — Quer dizer que terá que trancar?
0
Comente!x

  — Meu pai disse que consegue pagar até o final do semestre. Faltam quatro meses, mas mesmo assim, como poderei juntar grana para pagar os próximos dois anos?
0
Comente!x

  Kendra não me respondeu. É claro, o que ela tinha a ver com minha vida, afinal? Não sei nem por que estou me dando ao trabalho de desabafar com ela, quando é óbvio que ela não tem o menor interesse na minha vida pessoal, assim como não tenho na dela. Sempre fui indiferente com sua situação e nunca mostrei interesse em me esforçar em me aproximar dela durante o tempo desde quando nos conhecemos até agora. Foi exatamente por isso que me senti surpresa ao vê-la continuar nossa conversa:
0
Comente!x

  — Seja o que for, você não deve ficar aí parada se lamentando. Se fosse eu, estaria procurando algo para fazer.
0
Comente!x

  — Para você é fácil. — resmungo. — Tem tanta facilidade em se comunicar com as pessoas. Ser simpática e tudo mais não é o meu forte, sabe?
0
Comente!x

  — Claro que sei, moro com você faz dois anos e meio, lembra? — se sentou em sua cama para colocar os tênis de ginástica. Olhou em seu relógio de pulso e então procurou por sua mochila com os olhos, encontrando-o pendurado no cabideiro ao lado da porta do quarto. Se levantou, caminhando até à porta e então parou, hesitando alguns segundos e voltando até meu lado. — Se você quiser vir comigo, não garanto que será legal, mas pelo menos irá te distrair.
0
Comente!x

Introdução
0 0 votos
Classificação do artigo
Inscrever-se
Notificar de
guest

1 Comentário
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários
Ray Dias
  Gabriel nunca gostou dos meus pais. Mesmo os respeitando e tendo uma visão clara de que queria possuir tanto poder…" Leia mais »

Gabriel parece bom demais para ser verdade, eu fiquei querendo um desse.

Todos os comentários (19)
×

Comentários

Você não pode copiar o conteúdo desta página

1
0
Adoraria saber sua opinião, comente.x