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História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

O Espaço Criativo não se responsabiliza pelo conteúdo das histórias hospedadas na sessão restrita ou apontadas pelo(a) autor(a) como não próprias para pessoas sensíveis.

Garota S

Escrita porNatashia Kitamura
Revisada por Natashia Kitamura

Há características sobre Harvard que são verdadeiras e outras que são fictícias para melhor adaptação da história.
História inteiramente escrita por Natashia Kitamura.


Capítulo 4

Tempo estimado de leitura: 39 minutos

Não esperava que o clima fosse tão gelado durante a noite em Massachusetts. Abracei meu corpo enquanto andava na estrada que me levaria de volta para Cambridge; isso é, se eu chegar viva.
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  Não sei de onde surgiu a loucura de voltar a pé, mas até então, parece ser a melhor solução, já que não posso voltar atrás e esperar que alguém me desse uma carona. É bastante óbvio que ninguém me ajudaria, pelo simples fato de que %Ansel% não permite que eu me aproxime de ninguém, ou melhor, ninguém se aproxime de mim.
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  Sinto as lágrimas escorrerem pelas minhas bochechas e funguei o nariz. A voz de %Ansel% continuava a ecoar em minha mente, como se estivesse berrando.
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  “... Eu não preciso de vagabundas no meu negócio, lutei muito por ele para que mulheres desse tipo venham diminuir o nível do trabalho.”
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  Nunca imaginei que uma palavra tão usada comumente pela sociedade fosse me afetar tanto. Ouço e vejo o xingamento ‘vagabunda’ em tantos lugares: na internet, nos programas, nas novelas, até na sala de reuniões com os clientes dos meus pais... Mas nunca, jamais imaginei que poderia um dia ser chamada de uma. Estudei minha vida inteira, fui a primeira da sala e entrei em Harvard para chegar agora e ser chamada de “vagabunda”. Limpo mais uma vez as lágrimas que escorrem pelo meu rosto e olho para o céu, enxergando-a parcialmente por minha vista ainda estar borrada pelas lágrimas. Solto o ar que está preso em meus pulmões. Quem eu deveria odiar mais? Meus pais, por me colocarem nessa situação? Gabriel, por não estar ao meu lado para me consolar e ter me incentivado a procurar um trabalho? %Ansel%, por ter sido quem utilizou essa palavra repugnante para me descrever? Kendra, por me enganar a pedido de %Ansel%? Ou eu mesma, por ser estúpida suficiente para ouvir todos eles?
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  Olhei em meu relógio, que marcavam quase seis da manhã. Cada passo que dou mais perto de Cambridge me faz me sentir mais e mais estúpida. Chamei %Ansel% de idiota, mas pelo jeito, a idiota de verdade sou eu. Eu quem fui burra de ouvir as pessoas. Eu que achei que poderia me tornar mais sociável. Eu que tive esperança de fazer algo melhor que não fosse somente estudar. Mas aparentemente, a única coisa que sei fazer bem é estudar; até porque minha memória fotográfica me auxilia, caso contrário, seria completamente inútil.
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  — %Emma%, entre no carro. — ouvi sua voz falar ao meu lado. Olhei de relance e vi %Ansel% com sua SUV dirigindo devagar no acostamento, tentando acompanhar meus passos. O que ele espera? Que eu o obedeça? Que eu esqueça suas palavras? Que eu finja que nada aconteceu? Mesmo que eu quisesse, que minhas pernas e meus pés protestassem que eu pensasse mais neles, que tanto doíam por estar a mais de uma hora andando eu não cederia. Meu orgulho está tão ferido que mal consigo ouvir os sons dos carros passando em alta velocidade, ou que minha razão me dê socos no estômago por estar tão indefesa e aberta a ser morta ou estuprada no meio desse nada que estou.
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  %Ansel% acelerou e jogou o carro em minha frente, fechando meu caminho. Abracei meu corpo com mais força e comecei a dar a volta no carro; ouvi a porta se abrir e rapidamente meu corpo ser virado em sua direção.
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  — Você não está me ouvindo? — chacoalhou meu corpo, como se quisesse me fazer acordar. — Entre no carro.
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  — Eu já disse. — minha voz saiu fraca. — Me deixa em paz.
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  Me mexi, desconfortável, e senti suas mãos me largarem. Dei-lhe as costas mais uma vez e comecei a andar.
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  — Me desculpa! — ele gritou atrás de mim. — Pelo modo que falei. Eu estava com minha cabeça quente e acabei falando tudo o que me vinha à mente. — sua mão novamente agarrou meu braço, me impedindo de caminhar. O vento parecia mais forte agora, mesmo com o sol nascendo atrás de mim. — Se você quer se matar, arranje outra oportunidade. Não quero viver com peso na consciência.
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  — Claro. — falei, finalmente olhando em seus olhos. — É por isso que está aqui. Porque acha que se acontecer algo comigo, é porque eu fui embora depois do que você falou; mas veja só, eu iria embora de qualquer maneira, então não precisa se forçar a fazer isso.
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  — Você não vai chegar em Cambridge antes do meio dia. Estamos a duas horas e meia de lá de carro.
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  — Você não precisa se preocupar com isso. — ameacei começar a andar, mas ele não deixou. Suas mãos, ainda fortes, seguravam meus braços e a ausência de força me impedia de tentar me soltar. — Me solta.
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  — Não. — falou. — Não quero ter de falar palavras duras para você novamente, mas você está sendo irracional.
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  — Eu sei. Meu comportamento tem sido irracional desde um tempo atrás. — penso em como minha vida mudou depois que meus pais falaram sobre a falência deles. — Mas vou frisar mais uma vez: Você não...
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  — Eu tenho tudo a ver com a situação. Se você quer ser forte, então aguente o que as pessoas têm a dizer, mesmo que isso a machuque! Sabe quantas vezes irão te xingar durante uma sessão no tribunal ou em um fórum? A vida não é fácil, Sophia, e você tem de parar de achar que poderá ficar em seu mundinho de estudos e notas altas para sempre! Deus do céu, como pode ser tão teimosa?
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  Levanto meus olhos para %Ansel%. Gabriel já havia me falado isso antes. Ele também me chamou de teimosa quando insistia em algo que ele tentava me convencer. Também disse que meus pais me colocaram em um mundo onde só eles têm permissão de me dizer o que fazer. Finalmente senti minhas pernas falharem; se %Ansel% não estivesse tão próximo de mim para me segurar, eu provavelmente cairia de joelhos no chão. Não fiz barulho ao voltar a chorar, mas percebi que estou chorando porque senti muitas lágrimas saírem de meus olhos como se fizessem uma competição sobre quem chegaria mais rápido até o chão.
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  Não tentei me afastar de %Ansel% quando ele me abraçou em forma de consolo, tampouco briguei com ele quando senti suas mãos apoiarem minhas costas e minhas pernas, me levantando com facilidade e me levando para dentro de seu carro. Deixei que colocasse o cinto em mim e não ligou o som ou discutiu quando encostei minha cabeça no vidro da janela e fechei meus olhos, exausta.
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  Antes mesmo de acordar já conseguia sentir a dor dos músculos das minhas pernas me punirem por tê-los feito se esforçar tanto. Minhas mãos tocaram um colchão macio que não parecia ter fim. Espreguicei meu corpo sem querer abrir os olhos; até a razão me dar um tapa na cara. Não estou na minha cama, porque ela não é grande, nem macia como esta, tampouco possui travesseiros que afundam com o peso de minha cabeça e a coberta não é de plumas de ganso como a que está me cobrindo.
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  Abri os olhos e eles logo doeram com a claridade do sol que penetra o quarto sem vergonha. As cortinas estão abertas e os pássaros cantam do lado de fora. Olho pela extensão do quarto que não reconheço. Ele é enorme com as paredes brancas. Os móveis são em tons de marrom escuro e os detalhes, como maçanetas ou dobras são todas de aço. Forço meu corpo a se sentar, mas além de estar completamente dolorida, gosto dessa cama o suficiente para querer usufruí-la mais um pouco. Achei interessante o modo como uma janela ocupa praticamente uma parede inteira, dando uma visão panorâmica da vista afora; deitada, só consigo ver o céu azul e sem nuvens. Que horas são? Não deve ser de manhã mais. Virei meu corpo para o outro lado com dificuldade e a porta do banheiro aberta, onde pude só enxergar o box do chuveiro bastante afastado da entrada; imagino quão grande o banheiro é.
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  Assim, a porta que restou só pode ser a entrada e saída do quarto. Está fechada e não ouço nenhum ruído fora dela. Volto a deitar meu corpo para cima, observando o teto branco sem falhas. Fazia tempo que não me encontro em um cômodo tão pacífico. Uma saudade de meu quarto no Brasil surge; exceto pela janela, não é tão diferente desta. Também possuo uma cama de casal e também tenho um banheiro incluso, formando uma suíte. Em São Paulo o céu também é bonito na maioria dos dias, mas há bastante barulho de carros, pessoas falando e buzinas. Mesmo morando em um condomínio nos Jardins, morar em uma casa não muda nada o ambiente externo que vemos da cidade. São Paulo é uma cidade caótica, mas isso faz somente que eu não me sinta tão sozinha. Procuro ouvir algo que não fossem os pássaros, mas não consigo. De certo modo, a paz diminuiu um pouco, dando espaço à minha solidão. Ser filha única e ter pais conservadores sempre fez de mim uma pessoa antissocial. Não podia ir à casa das minhas amigas ou chama-las para me visitar. Não ia a muitas festas, nem saía para as noitadas. Mesmo mais velha, meus pais continuaram insistindo de que tais atividades não eram tão importantes quanto estudar para entrar na São Francisco.
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  Estudar. Me perder nos cálculos e nas histórias de pessoas que já estão mortas. Descobrir como funciona o corpo humano e saber como criar textos perfeitos. Sempre achei os estudos fascinantes, por isso, nunca protestei contra meus pais ou invejei minhas amigas quando elas saíam para as festas. Claro que queria viajar com elas ou participar dos programas noturnos; mas não o suficiente para odiar meus pais por terem tirado isso de mim. Na verdade, até a algumas semanas eu estava bastante feliz com a minha vida. Estudar, ser apta a falar sobre qualquer assunto com qualquer pessoa de qualquer idade, receber o meu diploma e poder voltar para o Brasil. Lá, prestaria a OAB e então iniciaria minha experiência como advogada. Quando tivesse dinheiro o suficiente, moraria com Gabriel e então um dia nos casaríamos e teríamos filhos. Uma vida tranquila e feliz.
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  Completamente diferente do que estou vivendo agora.
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  Viro meu corpo, arrastando um travesseiro para mais perto de mim de modo que pudesse abraça-lo. Fiquei encarando o chão encapetado; até ele parecia macio para se deitar. Por um segundo, gostaria que o mundo parasse para que eu pudesse continuar deitada, onde somente respirar fosse o suficiente para me manter viva. Suspiro ao lembrar que devo voltar para o campus e que não faço ideia de onde estou. Demoro alguns minutos para juntar força para me levantar e me arrastar até o banheiro, que é muito maior do que eu imaginava. Olho para a banheira que estava escondida atrás da porta e uma vontade imensa de enchê-la de água e espuma toma conta do ambiente. Dou-lhe as costas para tentar não prolongar meu sofrimento de não ter permissão de usá-la; assim, me deparo com meu reflexo no espelho e vejo o estado que me encontro. Meus cabelos parecem um ninho de pássaros recém-nascidos que não conseguem ficar parados, meus olhos estão tão inchados como as de um peixe japonês kingyo e meu rosto, pálido como a areia da praia. Minha roupa está amassada e fedendo tabaco. Com o sabão da pia, faço o que posso para melhorar minha imagem, mas não consigo fazer um milagre. Me retiro do banheiro o mais rápido possível, querendo fugir do meu reflexo. Vou até a janela a fim de enxergar melhor o lugar onde me encontro.
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  Eu deveria ter imaginado e não deveria abrir a boca em um ‘O’ gigante, demonstrando surpresa. Logo que cheguei à janela, reconheci a área externa da mansão de %Ansel%, onde aconteceu uma festa imensa há alguns dias. O lugar agora parecia muito melhor aos meus olhos; limpo e vazio. De repente, senti uma urgência em ir embora. Era verdade, eu deixei que %Ansel% me colocasse dentro de seu carro e acabei adormecendo durante o caminho de volta para Cambridge. Corro até meu casaco e no bolso encontro meu celular sem bateria. Fecho os olhos em pesar. Como posso ser tão burra? Olho para os lados sem saber o que fazer. Coloco meu tênis snickers e sigo para a porta; ao mesmo tempo, antes de tocar na maçaneta, a vi vir em minha direção, causando um grande estrago em meu rosto com relação à dor que senti. Caí de bunda no chão e ouvi a voz de %Ansel% preencher o quarto:
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  — Você está bem? — sua voz parecia preocupada. Abri meus olhos e através dos meus olhos lacrimejados, o vi agachado em minha frente. — Desculpe, acabei entrando sem bater, achei que ainda estivesse dormindo.
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  — Tudo bem. — falei, me levantando.
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  Ficamos parados um de frente para o outro; não sabia o que falar. Talvez agradecer pela carona? Por ter me dado um bom lugar para dormir? Não... Pode ser que ele ache que estou querendo me redimir por ter pedido demissão.
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  — Preparei o almoço. — ele falou, dando-me as costas e saindo corredor afora. Dei alguns passos para ver a direção que ele fez e o segui:
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  — Na verdade, eu vou embora. — vi seus pés pararem de andar no meio da escada.
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  — Você pode ir depois de comer.
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  — Não estou com fome, obrigada.
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  — Você sabe que estamos a mais de uma hora de seu dormitório, não é?
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  — Bem, sobre isso... Será que você poderia me emprestar seu telefone? Meu celular acabou a bateria e parece que ele não tem sinal aqui... Eu pago!
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  %Ansel% olhou para mim por mais alguns instantes, como se avaliasse a possibilidade de eu pagar uma ligação de menos de 10 minutos. Enfim, balançou a mão e apontou para uma das salas que havia no andar térreo. Depois, terminou de descer as escadas e sumiu de vista.
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  Desci devagar devido minhas pernas estarem doloridas ainda. Fui até o cômodo indicado e encontrei com facilidade o telefone. Liguei para a empresa de táxi cujo número decorei e eles me informaram que um carro chegaria em mais ou menos vinte a trinta minutos. Rezei para que dessa vez táxi venha mesmo e coloquei o telefone de volta na base. Com tempo de sobra até o táxi chegar, olhei ao meu redor. Agora que não havia som alto ou centenas de pessoas espalhadas, podia ver melhor o interior da mansão. Mesmo vivendo em um lugar de alto luxo em São Paulo, não posso comparar ao que é realmente esse lugar.
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  Se %Ansel% tinha tanto dinheiro assim, por que precisou de ajuda de um sócio para comprar um prédio naquele bairro isolado e claramente mais pobre que o centro da cidade? Caminhei pelo corredor onde ele sumiu e andei devagar, observando cada cômodo que passava por mim, até chegar a uma cozinha onde ele estava sentado em um banco em frente à uma bancada repleta de coisas para comer. Imediatamente meu estômago reclamou de fome, mas disse a ele que não tinha fome.
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  — Eu, hum, vou indo então. — falei da porta. Não queria ter de entrar e diminuir o espaço entre nós. — Obrigada por... Hum, pela carona.
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  Ele não respondeu. Continuou comendo e assistindo à TV, me ignorando. Soltei o ar, me lembrando com quem estava falando e balancei a cabeça, dando-lhe as costas e, agora mais rápido, fazendo o caminho de volta até o hall, onde encontrei a porta destrancada, pronta para me deixar ir embora e nunca mais olhar para %Ansel% novamente. Nunca mais me perder em seus olhos %azuis%. Nunca mais ser feita de boba ou humilhada.
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  Está tudo bem. Mesmo sem dinheiro, estou bem. Estou tranquila. Claro. Posso conseguir outro trabalho. Mesmo não ganhando a quantia que ganharia com ele ou não podendo conseguir bons empregos por não ser americana, eu tinha dinheiro na minha conta e conseguiria juntar mais para pagar mais um semestre da faculdade. Consigo me virar.
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  Quando sento no meio fio, já estou desesperada.
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  Resolvi não procurar um novo trabalho até a volta às aulas. Na verdade, meu psicológico me fez lembrar de tudo o que passei nos últimos dias e travou meu corpo de sair do meu quarto senão para ir ao vestuário feminino tomar banho ou comprar algo para comer.
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  Kendra chegou era quarta-feira. Usava roupas diferentes, mas não parecia ter tomado muitos banhos desde sábado. Seu cabelo estava oleoso e a pele mais bronzeada. Não falou comigo quando entrou, nem quando saiu para tomar banho, muito menos depois de voltar limpa. Soube que retornou quando senti o odor de flores do sabonete que usa. Espreguicei em minha cadeira; consegui me por em dia com os estudos que havia deixado de lado para ir à festa no sábado. Olho para o lado e a vejo me encarar séria enquanto enxuga os cabelos sentada em sua cama.
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  — Por que pediu demissão?
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  — Por que invadiu minha privacidade sem minha permissão e expôs para todo mundo?
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  Ela não respondeu. Tampouco pareceu se abalar com o fato que eu não deveria saber.
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  — Você sabe o quanto me esforcei para colocar você lá dentro?
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  — Porque você quis ou porque alguém pediu? — mais uma vez ela não respondeu minha pergunta.
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  — Você é uma egoísta mimada, %Emma%!
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  — Desculpe se eu não fico em um lugar onde me tratam mal e me chamam de vagabunda! — me levantei, sem querer, elevando meu tom de voz de modo que finalmente a surpreendi. — Eu não sou uma vagabunda! Eu não dou meu corpo para as pessoas para conseguir o que eu quero! Sabe o que eu passei naquela festa? Sabe o que eu tive de ouvir até finalmente sair de lá? Não, você não sabe! Porque você está enturmada, transando com seu querido sei lá o quê seu! Eu achei que você realmente quisesse ser minha amiga! — apontei para ela. — Saí do quarto no sábado à noite achando que finalmente havia conseguindo firmar um relacionamento com alguém! E então descubro que você foi mandada me convencer a ir até lá e que, além disso, mostrou todas as minhas coisas para eles, inclusive minha gaveta de lingeries! Me desculpe se eu não quero ter de olhar para todo mundo que sabe as cores das minhas calcinhas ou que acham que sou careta demais porque não transo com desconhecidos!
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  Sem olhar para trás, pego minha bolsa e saio do quarto.
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  Não sei o que está acontecendo comigo. De acordo com os estudos, nossos corpos mudam somente até os dezoito anos. Estou quase fazendo vinte e um e mesmo assim consigo me surpreender. Eu não costumo gritar com as pessoas ou retruca-las de modo grosseiro. Não sou uma pessoa irônica.
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  Desço as escadas da entrada dos dormitórios e vejo milhares de grupos de pessoas espalhadas pelo campus. Claro, era a semana da feira social e as pessoas aproveitavam o máximo que podiam do campus, a fim de juntarem inspiração e força de vontade para entrarem aqui no próximo semestre. Saio rapidamente do campus e vejo, do outro lado da rua, a SUV de Ace com ele à frente chupando um pirulito. Acenou para mim quando me viu e não pude ignorá-lo; de todas as pessoas que conheci daquele grupo, ele era o único a quem eu não poderia ignorar.
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  — Como vai, baixinha? — me deu um longo abraço. Ace cheirava a perfume francês e usava uma camiseta cinza por cima da jeans. — Está com fome?
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  — Muita. O que está fazendo aqui?
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  Ele abriu um sorriso. Ah.
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  Viro as costas para ele, que solta uma risada.
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  — Ah, baixinha, me dá uma chance! — correu até mim enquanto me afastava em passos pesados, nervosa. — Eu juro que não vim por ordem de ninguém.
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  Paro de andar e olho para ele.
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  — É verdade, eu apenas fiquei sabendo das coisas hoje de manhã e achei que deveria vir aqui bater um papo. Sem compromisso. — levantou a mão esquerda como se fizesse uma promessa na língua dos escoteiros.
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  — Sem me convencer a voltar?
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  — Bem...
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  — Tchau, Ace.
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  — Qual é, você sabe que eventualmente eu iria tentar alguma coisa, não sabe? Confia no careca aqui, baixinha! — apontou para sua cabeça que brilhava à luz do sol. Não pude evitar soltar uma risada e concordei. Precisava disso, rir mais.
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  Entrei em seu carro que tinha o mesmo odor de sábado; sua janela continuava quebrada, mas ele não parecia se importar.
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  — O que quer comer?
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  — Qualquer coisa saudável. — falei, vendo-o soltar uma risada e acelerar.
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  — Você quem manda!
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  Durante o caminho, Ace falou como havia sido a festa, que a propósito, ainda acontecia. Quando perguntei como eles conseguiam manter uma festa rolando tanto tempo, ele disse que as pessoas que participavam devem pagar um valor todos os dias para que o estoque e o aluguel do local fossem pagos. Além disso, eles recebiam patrocínios por %Ansel% e seu sócio terem contatos, então não era tão difícil assim. Paramos em frente a um restaurante no centro; ele parecia conhecer algumas dessas pessoas que cuidavam do carro e deixou uma nota de vinte para um, falando sobre a janela quebrada.
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  Depois de pedido uma salada e um grelhado, Ace apoiou as mãos em cima da mesa, cruzando seus dedos e abrindo seu sorriso branco brilhante.
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  — Como você está, baixinha?
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  — Bem. — respondi. — Estou com meus estudos em dia.
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  — Sei... Talvez eu me inspire em você para conseguir subir algumas salas, você sabe. B ou C... Falam que o tratamento muda neles.
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  — Deve mudar. — levantei meus ombros. Ele soltou uma gargalhada.
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  — Não seja má só porque está na S. Eu sei que vocês estão no topo do pedestal, mas para um E como eu, estar na B ou C é um evento muito importante.
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  — Espero que consiga. — falei, vendo-o continuar sorrindo. — De verdade, não estou sendo irônica. — concertei, vendo-o rir.
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  — Ta bem, ta bem. Veja, voltei hoje com Kendra, estou sóbrio e falei com %Ansel%, então eu meio que sei sobre tudo o que está rolando.
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  — Imaginei. — dei um gole no meu chá, vendo-o se mexer em sua cadeira.
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  — Você quer me contar a sua versão da história?
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  — Como você vê %Ansel% depois do que ele te falou?
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  — Insensível? Exagerado? Talvez... Homem? — rimos juntos.
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  — Então não acho que você saiba de alguma versão falsa. Ele me ofendeu, eu me cansei e pedi para sair.
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  — Achei que fosse mais forte, baixinha.
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  — Eu sou forte. Mas não gosto de viver em um ambiente onde as pessoas não gostam de mim ou me tratam mal.
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  — Mas ninguém senão %Ansel% te tratou mal.
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  — Ace. Ele é o chefe.
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  — É, faz sentido. — disse, pensativo. — Mas veja, %Emma%, você precisa da grana, ele precisa de ajuda. Faltam praticamente dois meses para nossa apresentação e nada começou a ser feito.
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  — Isso já não é mais problema meu, Ace. Além do mais, ele não pareceu se opor ao meu pedido. Não vou até ele revogar meu direito e parecer uma idiota.
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  — Parece até que estou falando com um casal recém-separado. — o ouvi resmungar. Levantei uma sobrancelha e ele riu sem graça. — Tudo bem. Você não vai voltar. Então o que você vai fazer?
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  — Procurar um novo emprego.
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  — Você sabe que Harvard não permite que os alunos trabalhem em lugares renomados sem obter um diploma, não é? Você não irá conseguir nada mais do que uma lanchonete classe baixa ou ficar na cozinha de um restaurante lavando louça e ganhando seis dólares a hora.
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  Fico calada. É claro que eu sei. É claro que eu sei que não vou conseguir nada igual, mas não quero mais me sentir pior do que já estou. Não quero sentir que não tenho escolha, quando eu tenho escolha.
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  — Baixinha, olha só. Sei que eu sou amigo de todos eles, mas veja bem, desde que você entrou para o grupo, se tornou minha amiga também. Então eu estou, sim, preocupado. Pode ser que você fique mal algumas vezes, mas na maioria nem ficará no mesmo ambiente.
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  Suspiro e desvio meu olhar do seu. Não quero ter de dizer não para Ace; mas não quero voltar. Na verdade, pode ser que eu queira, pelo dinheiro, mas meu orgulho está ferido demais para ter de passar por mais uma humilhação em pedir para %Ansel% reconsiderar meu contrato. Olho para o lado e, ao fundo, vejo sua figura entrar pela porta e parar assim que me vê sentada com Ace.
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  — Você o chamou. — falei. Ace olhou na direção que meus olhos apontavam e então voltou a olhar para mim. — Achei que de todo mundo, pelo menos você não me enganaria. — me levantei e ele me acompanhou.
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  — Tudo bem, eu te enganei! Mas não foi por mal! — parei para ver seu olhar de arrependimento. — Se te alivia, também enganei %Ansel% para vir até aqui.
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  — O quê?
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  Ace suspirou e abriu a boca para falar algo, mas foi impedido por %Ansel%:
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  — O que ela faz aqui?
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  — Sente, %Ans%.
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  — Não. Quero saber o que ela faz aqui. — apontou para mim, como se ele não suportasse a minha presença. Não vou negar que acho que ele não suporta mesmo, mas a recíproca é verdadeira.
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  — Se você se sentar, terei o prazer de explicar. — Ace apontou para uma cadeira entre ele e eu na mesa quadrada em que sentávamos. — Se não se importa, pedi o seu prato favorito, %Ans%.
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  — Comece a falar. — %Ansel% falou e Ace me obrigou a sentar de volta em meu lugar.
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  — Sabem que dia é hoje? Vinte e sete de Outubro. Para o dia 22 de dezembro faltam cinquenta e seis dias. Sabem por que eu sei? Porque meus alunos estão fazendo contagem regressiva; e sabem por que eles estão fazendo contagem regressiva? Porque nós, professores, prometemos aos nossos alunos que teríamos um grande evento e um palco para eles se apresentarem para seus amigos e familiares. Estão todos ensaiando de segunda a segunda, seja no estúdio ou fora dele para a apresentação. E o que nós vemos no prédio? Nada. Sim, porque ninguém começou a organizá-lo. — Ace olhou para %Ansel%, que desviou o olhar sentindo o peso de sua responsabilidade pesar. — Você disse que está com tudo sob controle, mas a cinquenta e seis dias da apresentação, não temos nem convites ou folders para distribuir. Por outro lado — olhou para mim. -, Harvard não é barata. Mesmo sendo uma S e ganhando privilégios, como o dormitório, manter-se lá não é fácil, não é somente estudar. Além disso, você não está entre os três primeiros, %Emma%, então quer dizer que você não tem desconto nenhum na sua mensalidade. Querendo ou não, são quase três mil dólares por mês e que eu me lembre, a moeda do Brasil não é em dólar, o real não é mais caro que nossa moeda americana e sua família está falida. — apertei meus lábios, querendo lhe dar um tapa na cara. — Sei que estou sendo duro com vocês, mas preciso que vocês abram os olhos para a realidade, ao invés de ficarem se preocupando em provocar e atingir um ao outro. Não são somente vocês que estão nessa jogada, há centenas de pessoas no meio disso. Se quisermos que todas aquelas pessoas que foram ou estão nas festas entrem para o estúdio, precisamos de um estúdio pronto. Se você quiser continuar em Harvard, nota alta não será o suficiente para isso, você precisa de dinheiro e a maneira mais rápida é trabalhando para o %Ansel%.
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  Nem eu, nem %Ansel% falamos nada. Ficamos calados, com o peso da realidade pairando em nossas costas. Ace tem razão. Estou sendo infantil. Kendra tinha razão quando disse que sou mimada. Não estou acostumada a ser criticada, por isso não sei lidar com as críticas. Apenas fujo. Fecho meus olhos me sentindo estúpida por ter enxergado depois que alguém jogou verdades em minha cara. Olho para %Ansel%, que parecia perdido em seus próprios pensamentos.
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  — Será que... — comecei a falar. — Bem, Ace tem razão, eu preciso mesmo do dinheiro. — falo baixo. Vejo %Ansel% me encarar.
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  — Você não pareceu se...
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  — %Ans%. — Ace o olhou, sério. Preferia ele sorrindo. Vi que seu humor é cativante independente de ser bom ou ruim. — Ela está deixando o orgulho dela de lado, será que você pode fazer o mesmo? Ou você já arranjou alguém como ela para nos ajudar?
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  O vi apertar os lábios. Claro que não havia. Deveria estar se divertindo nas festas durante todo esse tempo, comendo garotas que ele denomina serem “vagabundas” e bebendo tudo o que pode com seus patrocínios.
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  — Precisamos começar pelas salas de dança. Retirar todas as mesas e arranjar um lugar para deixa-las. — %Ansel% começou a falar, de modo que Ace abriu um sorriso. — Os espelhos também devem ser polidos. Faz tempo que alguém não...
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  — Espere! — levanto uma mão, vendo os dois olharem para mim. — Você não vai me pedir desculpas?
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  — Por que deveria?
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  — Por ter me xingado? Por ter me tratado mal?
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  — Você irá me pedir desculpas por ter sido rude comigo? Me chamado de idiota? — retrucou.
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  — Inacreditável. Inacreditável!
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  — %Emma%, deixe isso para lá... — Ace começou a falar, suplicante. — Vamos apenas focar no negócio, pode ser? Sem assuntos pessoais?
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  — Se ela conseguir, é claro. — %Ansel% comentou, me fazendo semicerrar os olhos. — Olhe só, eu posso conseguir alguém para ficar no seu lugar. Eu apenas não o fiz, porque me pediram.
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  Ace olhou para %Ansel% e então voltou a olhar para mim. Meus lábios tremiam. Mais uma vez humilhada. É isso. É por isso que os pobres não gostam dos ricos; é isso o que chamam de abuso de poder. Mal posso esperar para começar a atuar na minha área e processar cada um que vier tentar me humilhar.
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  Não disse mais nenhuma palavra, de modo a esclarecer que %Ansel% havia ganho a discussão. Cruzei meus braços e ouvi com o máximo de atenção que conseguia dar, mas não era muita já que não consigo suportar ouvir a voz de %Ansel% por muito tempo.
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  Depois do almoço, Ace seguiu o carro de %Ansel% até o estúdio, onde me deixou e disse que levaria o carro no mecânico para arrumar o vidro que %Ansel% quebrou no sábado passado. Assim que o vi ir embora, me senti ainda pior por estar sozinha com %Ansel%.
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  — Esta é a planta do prédio. — ele abriu um tubo e de dentro tirou uma enorme folha enrolada, esticando-a na mesa. — Este é o térreo. Se você quiser os outros andares, poderá pegar os outros tubos, está escrito em cada um a qual andar se refere. Minha ideia é que as salas e o térreo estejam prontos no dia da apresentação. Há várias coisas que precisam ser reformadas, mas não sei se dará tempo, então estipulei prioridades.
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  Pelo celular, anotava tudo calada. Não queria lhe dirigir a palavra. Não queria ter de questioná-lo, pois ele poderia me responder novamente com o abuso de seu poder.
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  — O primeiro andar será destinado à secretaria, escritórios, sala dos professores e de reuniões. Vamos focar toda a administração nele para que não haja problemas de comunicação depois. — apontou para um segundo tubo. — Aqui no térreo, vamos manter as aulas infantis e sala de apresentação. Há três cômodos deste lado que transformei em um para termos um grande salão. Conversei com alguns arquitetos e eles o planejaram assim. Quebrei as paredes e fiz o acabamento, mas ainda não há pintura. A lanchonete será no último andar; chamarei de Roof. Os pais de alguns alunos concordaram em pagar a mensalidade com os alimentos e bebidas, então não será difícil mantê-lo; apenas precisamos de pessoas para fazer os salgados e servir. Você está entendendo tudo?
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  — Estou.
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  — Não está com nenhuma dúvida?
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  — Não.
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  — Nem sobre qual material usar?
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  — Está escrito na legenda das plantas. — apontei, vendo-o perceber o mesmo.
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  — Bem... Os escritórios precisam ter um design moderno e descolado. As salas devem possuir pelo menos uma parede inteira espelhada para os alunos, além de lugares para as caixas de som; uma TV para cada sala e cortinas blackouts para os ensaios com roupas noturnas. As paredes já foram equipadas com materiais antissom, por isso não há com o que se preocupar. Tudo o que é relacionado à construção já foi feito. Os banheiros precisam somente ter os azulejos trocados e um design melhor. Vou cuidar da parte dos materiais de dança, já que você não deve ter muita noção do que deve ser comprado.
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  %Ansel% falou por mais um tempo sem parar novamente para perguntar se eu tinha alguma dúvida. Foi somente quando ele parou de falar e olhou para mim na esperança que eu lhe perguntasse algo, que abri minha boca:
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  — Como vou fazer os pagamentos?
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  — Alec me deu um cartão de crédito para fazer todos os pagamentos, mas há coisas que irei pagar do meu bolso mesmo. Além disso, há uma conta com os valores doados ou juntados das festas que fazemos. Poderemos gastar com conforto, desde que não haja exageros. Você deve fazer um documento com tudo o que gastar e seus valores para que eu possa aprovar e lhe dar o cartão para fazer os pagamentos. Se houver uma segunda mão de obra, tenho que saber quem entrará aqui e quanto tempo ficará.
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  — Tudo bem. — respondi e o aguardei me dispensar. Contudo, apenas suspirou e colocou os braços em cima da mesa, cruzando os dedos e se inclinando para falar:
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  — Eu sei que não começamos bem. Se está disposta a fazer o trabalho, teremos que nos dar melhor para haver uma comunicação melhor. Estou falando isso como dono desse estúdio, não como %Ansel%.
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  — Tudo bem, desde que você se desculpe por ter me chamado de vagabunda.
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  — Eu já me desculpei... — começou a falar, nervoso, mas, ao me ver indiferente, fechou os olhos e respirou fundo. — Me desculpe por ter me referido a você como vagabunda. Eu não quis dizer que você é uma, porque sei que não é. Satisfeita?
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  — É o que tenho para hoje. — falei, cruzando minha perna. Fiquei satisfeita ao vê-lo tentar se conter mais uma vez. — Posso começar por o que eu quiser, desde que seja da lista de prioridades?
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  — Sim. — sua voz parecia travada. Abri um pequeno sorriso por vê-lo bravo comigo. — Comece por onde quiser.
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  — Ok, então vou dar uma olhada nos cômodos priorizados. — peguei a planta do térreo e o bloco de caderno que ele me mostrou com a lista de prioridades e me retirei sem pedir permissão.
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  Quando voltei para o campus, Kendra não estava mais no quarto. Deve ter saído com seus amigos para voltar à festa. Trouxe a planta do andar térreo comigo e abri meu notebook, afim de ver lugares para comprar os móveis e materiais da reforma. Pela primeira vez desde minha vida passada, não pensei nos meus estudos ou nas notas que terei de manter nos testes de avaliação que virão na semana depois dessa imensa folga. Mantive a mim mesma acordada por várias horas, os olhos grudados no meu notebook; sem perceber, estava aguardando o carregamento de um vídeo do Youtube. O vídeo era uma gravação caseira de uma das apresentações do estúdio de dança. Logo que o som preencheu meu quarto, pude ver %Ansel% parado no meio de um palco improvisado. Ele não parecia se preocupar com a falta de estrutura do palco ou da iluminação; a música parecia estar boa no ambiente e as pessoas demonstravam sua ansiedade e animação em vê-lo dançar através de gritos, palmas e assobios.
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  Parecia um pássaro voando livre acima da selva. Um imenso pássaro, com asas largas e penas negras e brancas cobrindo sua extensão. Os olhos, fechados, completava a expressão sofrida da música dramática que tocava. Mesmo sozinho, não era necessário muito mais para satisfazer toda a performance. %Ansel% mexia seu corpo em um ritmo além do normal. A sensação era de estarmos somente eu, ele e a música. Quando pedi para reproduzir novamente o vídeo, pude perceber que as pessoas no vídeo mantinham-se caladas, provavelmente tendo a mesma sensação que eu. Abri a boca, chocada com sua delicadeza e na maneira como deslizava de um lado para o outro como um pássaro.
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  Continuei olhando para a tela mesmo depois da música ter finalizado e o vídeo parado. Eu nunca poderia imaginar que ele dançasse tão bem. Claro que sei que ele é bom ou ótimo, afinal, ninguém pior do que todos os dançarinos do estúdio seria qualificado para ser o líder; entretanto, o que vi no vídeo era algo próximo à perfeição. Não entendo muito de música e dança, mas ser leiga não justifica negar que ele é um ótimo dançarino. Uma pessoa que ama a dança. Que ama o que faz.
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  Aperto os lábios, sentindo uma ponta de inveja apertar meu peito. Amar o que faz. Olho para o lado, onde os post its coloridos e organizados por ordem de importância estavam intactos pela primeira vez por mais de um dia seguido. Jamais imaginei que elas fossem significar tão pouco agora. Suspirei e espreguicei meu corpo, tentando acordar daquele transe. Achei que ficaria perdida somente nos olhos %azuis% profundos de %Gemini%, mas me enganei. Solto uma breve risada, ligeiramente irritada comigo mesma; %Ansel%, de repente, se tornou uma pessoa interessante. Insuportável, mas interessante.
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Capítulo 4
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