Chapter XVIII
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Acordei assustado. Minha testa suava frio e meu corpo inteiro se tensionou em um desconforto gigantesco. Deitei para um simples cochilo logo após o almoço. O cansaço físico e mental eram dignos de um homem que tivesse saído da guerra. Então em uma súbita sinapse mais acelerada voltei à realidade e acordei ali, completamente torto. Olhei no relógio e percebi que já eram mais de 4 da tarde. Que merda!
Levantei tonto e com um gosto horrível na boca. Fui ao banheiro e taquei várias mãozadas de água fria na cara. Me olhei no espelho e vi a bela bosta que estava. Minha olheira era funda, as rugas mais nítidas e minha barba era um emaranhado mal arrumado. Procurei pela espuma de barbear e navalha. Tentei consertar aquele terror e acabei demorando mais que o planejado.
Fui até cozinha, a fome começava a se alimentar da minha razão. Peguei os restos de calabresa, bacon e cebola e joguei na frigideira. A panela de arroz foi ao fogo e acabei refogando alguns legumes para diminuir o nível de colesterol do prato. Me servi de um copo de refrigerante e sentei-me a mesa. Enquanto comia mal podia deixar de pensar. Meu cérebro não me deixava em paz, estava em um poço sem fim de confusão.
Pelo que me parecia em uma miséria de dias eu teria que queimar uma casa, resolver meu relacionamento com uma garota que poderia ser minha filha, levantar informações sobre um grupo secreto católico, investigar a morte de %Gustav% e achar um tesouro.
Creiam em mim quando digo que era impossível manter a sanidade. Sentia a irritação me fazer perder o apetite. Raios! Não poderia desperdiçar aquele prato, a fome de lobo não me perdoaria por guardar o resto de bacon na geladeira. Me levantei e fui para a sala. Liguei a televisão e deixei no canal que passava Bloodsport. Jean Claude Van Damme e Bolo Yeung lutando a final da Kumitê. Não haveria coisa melhor para me distrair.
Terminei o almoço e fiquei no sofá. Jogado e largado. Tirei as meias e a camisa e me dei o direito de deitar com a pança cheia para cima. Provavelmente tiraria algum outro cochilo antes de ir para o açougue me encontrar com %Carl%.
Ele andava muito mais feliz, animado e bem comido. Ana parecia dar um verdadeiro chá de boceta no homem e as meninas dele adoravam a bailarina rebelde. Senti uma pontada de inveja, um relacionamento saudável, bem resolvido e acima de tudo estável. Isso era o que eles tinham. Seria bom para mim estar em um desses ou sozinho. Aquele meio termo conflituoso e embaralhado que %Louise% e eu tínhamos era de tirar a sanidade de qualquer um.
Lá no fundo eu já sabia. Nenhuma outra mulher despertava tesão e desejo em mim. %Louise% andava dominando meus pensamentos e já percebia que eu nutria um sentimento maior que prazer por aquela garotinha. Eu ainda me sentia sujo e culpado. O que um relacionamento daqueles queria dizer? Quando eu estivesse com 50 anos %Louise% ainda não teria chegado nos 30. Como isso iria acontecer? Quando é que ela olharia para mim e me veria um velho chato e simplesmente me trocaria por algum novão sarado e mais fogoso? Esse tipo de coisa me revirava o estômago.
Entre todas as coisas, esse era um medo recorrente que andava me perturbando. Além do mais, havia um mal maior. Os pais dela. Em algum momento eu teria que lustrar meus culhões e ir até lá. Sentar ao lado de Theodor e Irina e me assumir como o homem que era. Teria que dizer que estava comendo a filha deles e que gostaria de comê-la com a aprovação dos próprios. Cômico para não dizer ridículo. Um homem da minha idade e vivência pedindo uma garota em namoro para os próprios pais. Pior que isso, seria o correr o risco de ir pra cadeia, levar um tiro de Theodor ou ainda aguentar uma crise histérica de Irina por eu ter escolhido a filha. Eram muitos os cenários e nenhum deles parecia confortável.
Fora todo esse dilema, lá estava o problema maior de todos. Ainda bem que %Carl% estava comigo para ajudar, sozinho seria impossível agir. O Justice for Saint Mary estava oficialmente na cidade há dias. Mataram os pobres e mataram o meu padre. Como fazer as pestes vazar fora da cidade sem que nenhum mal mais acontecesse?
Achar o tesouro e dar na mão deles? Talvez, quem sabe. Não seria tão fácil. Mais pessoas procuravam por aquela bela porcaria e aí minha curiosidade berrante começava a abrir as asas. Que porra de tesouro era aquele? Eu mal sabia sobre o tal Justice. Precisaria ler os papéis que Nikolai deixou comigo e ir até a casa para descobrir que porcarias ele tinha talhado na parede. Ah, minha cabeça já latejava de tanto pensar.
Já caia em outro cochilo. Então o telefone tocou. O tri li lim insuportável ecoava pela sala e foi um sacrifício me por de pé. Cheguei até o quarto bocejando e tomei a porra na minha mão. - Alô. – mal humorado como sempre.
- Que voz de bicho papão, %Fitzroy%. – reconheci a pessoa no mesmo segundo que o primeiro fonema escapou de sua garganta. Uma coisa estranha me fez tremer.
- Você me tirou do meu cochilo, garota. Não é algo sensato a se fazer. – se fosse qualquer outra criatura do universo, humano ou não, eu iria xingar. Brigar, falar coisas estúpidas e desligar, mandar à merda. Mas, com ela eu não conseguia. No começo era mais fácil, esbravejar era simples e comê-la era difícil. Com o passar dos dias, tornou-se exatamente o oposto.
- Desculpa, mas é que, eu precisava falar uma coisa. – aquele jeitinho tímido de falar entregava que %Louise% aprontava.
- E que coisinha é essa, %Louise%? Aliás, Wilda te passou meu telefone não é? Não gosto, mas é mais sensato que vir até aqui.
- Tá vendo? Estou sendo mais responsável, seja legal comigo. – eu poderia imaginá-la sentada no sofá, com as pernas peladas para cima e mordendo os lábios enquanto fazia seu joguinho.
- Agora diga, fiquei curioso.
- Meus pais viajaram de novo e vão ficar cinco dias fora. E então eu pensei... – %Louise% deixou a ideia no ar e eu já sabia do que se tratava.
- Que minha casa é colônia de férias ou quem sabe um SPA de luxo ou até mesmo uma pousada hippie. %Louise%, nós já conversamos sobre isso, não? – eu a queria por perto. Eu a queria extremamente perto, o mais perto possível, mais preferivelmente comigo dentro dela.
- Mas, %Fitzroy%, pelo amor de Deus. Não seja tão neurótico. A Wilda concorda e aprova, ela gosta de você.
- Como assim? O que quer dizer com essa de que a Wilda aprova?
- Ela sabe de tudo, oras. Como você acha que ela cobre meus rastros e libera essas coisas?
- Como raios ela sabe de tudo?
- Tudo, lenhador tapado.
- Tudo, tudo?
- Tudo, tudo? O que tem demais?
- Olha, não vou ter essa conversa por telefone. – isso me assustava. Eu e %Louise% tínhamos um relacionamento perigoso e irresponsável. Os pais dela nem sonhavam com a coisa e se sonhassem, a merda seria grande. Comecei do jeito errado e queria terminar do jeito certo, mas %Louise% não colaborava. Por Wilda no meio podia fazer a mulher perder o emprego e a moral na casa. Eram problemas demais pra um homem só.
- Vai, me deixa ir praí. Por favor. – %Louise% e a mania de falar cheia de manha como se fosse uma gatinha querendo carinho. E no fim das contas, ela era uma gatinha querendo carinho. Respirei fundo, tão fundo que achei que ficaria preso no buraco. Meti a mão nos meus cabelos e deixei o fôlego escapar com violência. Eu não venceria aquela batalha moral de qualquer forma.
- Tudo bem. Mas, você não vem sozinha. %Carl% tem que vir aqui e nós precisamos resolver umas coisas. Eu passo no açougue e a gente passa aí e te trás, certo?
- Você é um doce, quando quer sabia? Obrigada, gatinho. – abri um sorriso nervoso e constrangido.
- Gatinho? Sério? Quantos anos eu tenho, 18?
- Gatão, então?
- Até daqui a pouco, %Louise%. – ouvi um barulho estalado de beijo do outro lado antes da mesma cair. A infeliz sabia que tinha poder sobre mim.
xx
Armand me olhou com aquele semblante sério. Aquele semblante tinha um significado e eu sabia qual era. Conhecia o homem melhor que todos até mesmo que ele mesmo em algumas situações.
- Nossa situação piorou, Chielline.
- Pode jogar sem medo Armand, diga o que houve. – ele cruzou as pernas apoiando a mão no queixo, pensativo.
- Eu soube disso um pouco antes de vir pra cá. Um contato de confiança me disse que outras pessoas procuravam pelo nosso tesouro. E você está a par da situação, só as pessoas da missão sabem onde ele está. Eu não sei, você não sabe e ninguém além daqueles sabem.
- O que quer dizer com isso?
- A pessoa que me procurou para conversarmos sobre o tesouro me deu um prazo. Acontece que por motivos pessoais ele precisou recolher esse prazo e eis a notícia ruim. Temos apenas mais dois dias. – vibrei internamente. Os planos de Armand indo à ruína. Maravilhoso.
- Dois dias? Santa Mãe de Deus. O que faremos?
- Primeira coisa. Achei que com %Gustav% longe nós poderíamos ter mais sucesso e pelo visto, me enganei. Mesmo com a planta e liberdade não achei essa porcaria, Giorgio. Não está aqui. – eu sabia que não estava. Sabia que a busca de Armand era vaga e nula e esperava desesperadamente que ele culpasse %Gustav% e não desconfiasse do ocorrido.
- Fomos meio inconsequentes. Talvez o padre achou o baú e acabou fazendo algo com ele.
- É uma opção. Mas agora não adianta lamentar pelo passado. Temos que manter o foco no presente. %Gustav% teve onde ficar quando saiu da Igreja. Ele tem amigos aqui. Vi um deles tentando salvá-lo na Igreja e o outro barbudo que ajudou com o caixão no enterro. Os dois são homens inteligentes, eu pude ver nos olhos deles. Eles não vão se contentar com a historia da morte de Gustav. – mais gente, Armand iria me pedir pra matar mais gente.
- E então, presumo eu, que você quer que eu também os elimine.
- Exatamente, meu caro companheiro. Precisamos de todos longe, temos dois dias pra achar o tesouro e sumir daqui. Deixei tudo muito mascarado quando viemos, mas é claro, o jogo é uma manobra comercial extremamente gigante, não só pelo dinheiro, mas pelo o que o homem pode me oferecer. E claro, suas férias sem fim e sossegadas regadas à luxo serão completamente arranjadas assim que terminamos. – Armand sorria. Ele realmente acreditava no sucesso da missão e se a mesma se sucedesse eu sabia que suas palavras a respeito das minhas férias seriam cumpridas.
- Já dei um jeito no coroinha. Vou arranjar o resto hoje mesmo. Mas, e quanto ao tesouro, não sei mais o que fazer. – lá estava a cara do escárnio estampada.
- Eu sou o cérebro Chielline. Já dei um jeito nisso.
- Um jeito? – Armand tinha um tom convencido que não me agradava.
- Alguém decidiu se vender, não é magico? – Armand descruzou as pernas e tomou uma postura mais casual. Tomou um gole de seu chá e aproximou-se de mim – Poder Chielline. Eu estou atrás desse tesouro, não só pelo dinheiro, mas sim, pelo poder. O dinheiro é apenas o meio pelo qual nós alcançamos o poder na sociedade atual. Todo homem deseja dinheiro pois, esse é o meio de obter poder. E quando se oferece poder e dinheiro a alguém, essa pessoa vai relutar contra sua moral, contra sua ética. Mas, no fim do dia, quando a cabeça relaxa sobre o travesseiro ela vai sentir a dúvida. E no primeiro raiar do sol, ela não vai resistir ao poder. – o diabo apressou em percorrer cada veia do meu corpo. Aquele velho magricela e maldito só podia estar de putaria com a minha cara.
- Armand, está tentando me dizer que alguém de dentro se vendeu para dizer o paradeiro do tesouro? Essa porra não estava dentro da Igreja?
- Pois é Chiello. Eu me perguntei isso quando corri cada buraco desse santuário e simplesmente não encontrei nada. Então me convenci de duas coisas. A primeira é que eu preciso ter certeza de que esse tesouro veio para cá e a segunda vem depois de confirmar a primeira. Parece complicado, mas, é simples. Se veio para cá e não está aqui, quer dizer que foi realmente um erro matar Gustav. O infeliz pode ter achado o baú e feito algo.- queria disfarçar a certeza que brilhava em meus olhos. Não estava ali, eu sabia que não. %Gustav% não tinha achado nada, pois, o tesouro nunca esteve na Igreja. Era um segredo que corroía minha habilidade de pensar.
- E como você negociou com essa pessoa?
- Resolvi usar o poder que tenho, afinal, ele serve para isso. – Marion ria sádico, mais típico dele que isso... impossível. – Contatei algumas pessoas no Vaticano que aceitaram analisar os arquivos e como num passe de mágica, Chielline, achei a missão desse nosso querido tesouro. A missão foi chamada Missão Real e nossos melhores homens foram postos nela. – uma das únicas vantagem que eu tinha caiu por terra. Os nomes soldados daquela missão eram trunfos os quais Armand não poderia ter conseguido. Maldito fosse o filho de uma vaca que colocou tudo no colo de Armand.
- Armand, pelo visto, mais de uma pessoa se vendeu nessa brincadeira. Vários foram os que descumpriram as normas para te ajudar. E se isso chegar nos ouvidos do conselho?
- Giorgio, Giorgio. Você sabe que isso não vai acontecer, não confia mais em mim?
- É claro que confio. – engoli em seco tentando parecer o mais tranquilo possível.
- Então, sem nervosismos desnecessários. Não te pus a par de nada disso antes, pois, quero você concentrado no que temos aqui. E essas pessoas que me cederam o arquivo nem imaginam que cometeram alguma infração contra o grupo. Apenas um se vendeu.
- E quem é então o salvador da nossa pátria?
- Quando peguei o arquivo com os nomes comecei a pensar. Me deparei com quatro pessoas, Erikssen Södberg, Herman Hellström, Marco Bergman e Nikolai Wallin. Dos quatro apenas um me era conhecido, Herman. Me lembro dele, ainda criança correndo pelo Vaticano quando enquanto o tio tratava de negócios. Bom rapaz, de boa família e de tradição. Sangue astuto, DNA guerreiro e esperto demais para negar uma proposta como a minha. Ele então aceitou me passar todas as informações sobre a missão. Porém, seu único pedido fora não tratar de nada por telefone e sim, pessoalmente. Ele chega aqui no dia de amanhã. – abri um sorriso que foi retribuído. Mas, não era felicidade, alegria ou satisfação. Era mais uma daquelas situações em que você está tão fodido que não consegui fazer outra coisa senão rir.
- Isso quer dizer que preciso matar todos até amanhã?
- Exatamente, amanhã pelo anoitecer nós resolvemos isso e voltamos para casa. – procurei no fundo da alma a força que precisava para descolar a bunda da cadeira.
- Até o anoitecer, tudo estará feito.
- Deus estará contigo, Chielline. E não se preocupe com nada além disso, eu e Herman cuidaremos do resto.
Minhas pernas desaprenderam à andar pelos corredores. Me encostei em uma bela pilastra de cor bronze e rezei para que o teto desabasse sobre mim. Estava tão cansado e cheio de tudo. Precisava urgentemente de uma estratégia. Tinha menos de vinte e quatro horas para resolver tudo e conquistar o sucesso em minha missão.
Então o caminho se acendeu aos meus olhos. %Carl% %Lindemann%, o homem que me mostrou o caminho para a praia segurou %Gustav% em seu colo enquanto o padre morria. %Fitzroy%, o homem de ombros largos e sorriso torto caminhava com %Gustav% quando o ofereci à missa. As únicas duas pessoas amigas de Gustav. A única esperança que me restava.
Caminhava devagar e desiludido. Cheguei à porta da Igreja e mirei o horizonte. As pessoas conversavam, caminhavam com suas sacolas. Os carros passavam, as vidas corriam e eu ali, preso e perdido. Rumei a escadaria para procurar um lugar mais tranquilo para pensar. Assim que desci o primeiro pé observei um movimento instigante. %Fitzroy% e %Carl%, juntos à porta de uma das mansões próximas à Igreja. Observei a cena curioso e finquei meus olhos no acontecimento. Minha respiração atingiu níveis desesperadores quando observei %Louise%, a garota da praia e da Igreja, aos braços de %Fitzroy%. Ele a abraçou e os três rumaram colina abaixo. Um fato que parecia mudar tudo.
Em momentos assim há sempre um estalo. Aquele chamariz que acende todo o seu raciocínio. %Louise% costumava se confessar com %Gustav% sobre um homem, sobre algum relacionamento perigoso e errado. Ali eu via tudo, exatamente na minha frente. Eles rumavam a entrada da floresta e naquele exato segundo eu tive a certeza, a certeza de que ir até lá era tudo que eu precisava para resolver meu problema. Corri desesperadamente até a casa dos pobres e chamei por Manterfos. O coroinha estava com a barba um pouco maior que o normal e um bigode fino adornava a parte baixa de seu nariz.
- Agora, criança. Tem de ser agora.
- Tem certeza?
- Absoluta, você vem comigo.
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Eu bocejava como um leão fatigado após comer uma zebra inteira. Mal conseguia andar, sentia meus olhos querendo fechar e aquela preguiça enorme se apossando da minha resistência. Apressei o passo e dei de cara com %Carl% baixando as portas do açougue.
- Boa tarde, minha donzela.
- E aí, castor de araque? – %Carl% terminou de chavear a porta e virou-se de frente para mim. – Nossa, você está um lixo, meu filho. – o olhar dele tinha piedade da minha aparência.
- Esse é o tratamento que ganho por te chamar de minha donzela? Sério? Você é terrível, %Carl%. – meu açougueiro bufou e veio até mim.
- Então, vamos? Preciso aproveitar esses dias para me concentrar nessa merda. Coloquei Ana e as meninas num avião rumo à Alemanha para não correr riscos.
- Sério? Essa foi uma boa ideia. Não podemos dar chance ao azar. Enfim, vamos. Só preciso passar em um lugar antes. – tentei ser o mais neutro possível, mas, %Carl% percebeu que eu parecia uma criança escondendo a arte.
- %Fitzroy%, você não me olhou nos olhos enquanto falava. Você faz isso quando mente ou esconde algo, onde diabos a gente tem que passar? – fechei os olhos e travei meus passos. Respirei fundo tomando coragem para assumir. Por mas que eu gostasse de %Louise% e a quisesse por perto, era um porre admitir isso para outras pessoas, mesmo os melhores amigos.
- Promete que não vai me passar um sermão?
- %Fitzroy%, perdeu a porra do juízo? – %Carl% alterou o tom de voz, sua fala tinha um volume mais intenso e suas mãos se mexiam de um lado para o outro.
- Ei, ei, ei, ei! Não fale comigo se eu fosse um idiota retardado que não mede as consequência das coisas. Você sabe muito bem que eu sou mais precavido daqui.
- %Fitzroy%, não seja esse tipo de gente. – %Carl% realmente parecia bravo comigo e até mesmo desapontado.
- Que tipo de gente, %Carl%? – dei dois passos longos para frente e girei meu corpo para ficar de frente com %Lindemann% e encarar sua cara chata.
- O tipo de gente que vê a porra do cisco no olho dos outros e não enxerga a trava de madeira nos próprios olhos.
- Não use parábolas bíblicas para me dar uma lição ou provar um ponto, não ouse, %Carl%. – eu entendi o que ele queria dizer. A todo tempo eu tentava manter a pose, o orgulho, o ego e principalmente o controle. Então, eu me metia com %Louise% em alguma situação perigosa e jogava a culpa nela como se eu não tivesse culpa também.
- Lenhador, sou seu amigo e quase um irmão e por isso eu me preocupo. Os tempos estão difíceis e até onde sabemos a garota se atracou com um integrante do Justice for Saint Mary. Isso é perigoso e extremamente complicado. Já pensou o tamanho da merda que pode dar? Então pense bem, se você quer mantê-la segura ou simplesmente a esqueça ou não tire ela do seu lado. Não existe lado pra meio termo. Me entendeu? – %Carl% falava mais baixo e sua postura era mais tranquila e apaziguada.
- Entendi o quer dizer. Só não me leve a mal, mas ela vai pra casa hoje. Tudo bem? Preciso saber que ela está segura e do meu lado. – eu parecia uma comadre arrependida com a voz doce e as mãos na cintura.
- Então me prometa que vai contar toda a história pra menina não ficar perdida e inerente à isso, sem saber o que está havendo. Ela precisa ficar ciente de tudo, ouviu? De tudo. E agora tire essa mão da cintura, porque isso não combina com você. – sorri e abracei %Carl%. Ele relutou no começo, mas, depois se entregou. %Lindemann% afagou meu cabelo e só por pura provocação eu beijei sua bochecha. Ele me chamou de “bicha” e eu ri, um risos verdadeiro. Não tinha vergonha de admitir que eu adorava meu açougueiro, meu eterno carnicento.
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%Carl%, %Louise% e eu. Ambos sentados à minha mesa com um prato de peixe cozido com legumes e batata. O cheiro dominava a casa toda e a fumaça tinha embaçado minhas janelas. Ficamos por um tempo em um maldito silêncio constrangedor. Eu definitivamente não queria ter aquela conversa com %Louise%. Queria protegê-la e mantê-la bem longe de problemas. Mas, no fim das contas, até aquele exato momento eu nunca tinha realmente colocado a garota longe de problemas. Eu era o responsável de, certa forma, pelas merdas que ela tinha feito. Carregar o peso não era fácil. %Gustav% morreu sendo um adulto consciente de seus atos, mas, %Louise% era apenas uma garotinha com a vida toda pela frente com o mínimo de juízo possível na cabeça. Por um momento eu perdi a fome.
- O que houve com vocês? Estão quietos e estranhos. – %Louise% falou cutucando o peixe com seu garfo enquanto encarava as batatas.
- Estamos apenas preocupados, %Louise%. Temos medo que no meio de tudo isso mais pessoas se machuquem. – %Carl% acabou por responder, pois, eu ainda procurava uma maneira de começar aquela conversa.
- Vocês poderiam me explicar tudo e parar de manter segredos. – agora ela tinha um tom de chateação bem nítido.
- %Louise%. – chamei e ela mirou seus olhos curiosos em mim – É meio complicado. Estou aqui pensando por onde começar e não sei.
- Pelo amor de Deus, %Fitzroy%. Eu não tenho mais 11 anos, é só começar pelo começo, mas que merda!
- Calma, mocinha. Muita calma, não é assim que as coisas se resolvem. – %Carl% parecia mais tranquilo em lidar com tudo aquilo, possivelmente pela experiência com suas filhas.
- Tudo bem, tudo bem. Mas, comecem logo por favor, meu peixe tá esfriando. – %Louise% voltou a encarar o prato e %Carl% me cutucou com o cotovelo. Respirei fundo e decidi agir feito macho.
- Bom, %Louise%, vai ser confuso, então não me interrompa, ok? – concordou com a cabeça fazendo careta e eu prossegui. – Um dia eu tive a ideia de chamar %Gustav% para vir para cá. Ele estava no Vaticano e aceitou minha proposta prontamente. Ele veio e nós tivemos momentos felizes. Eis que, %Gustav% se meteu em problemas. Como você sabe a nossa cidade é uma das únicas católicas no país e a única que mantém firme e a forte a fé no catolicismo. A Igreja tem poder por aqui e poder pelo mundo todo, afinal. Existe há séculos e eles não teriam chegado até aqui sem algumas estratégias.
- Santa Inquisição, por exemplo? – %Louise% me olhou com cara de tédio como se já soubesse de tudo aquilo.
- Santa Inquisição, por exemplo. Cavaleiros Templários e o diabo a quatro. Agora, por favor, me deixe continuar, ok?
- Ele perde a paciência fácil demais, não é? – %Carl% levantou-se resmungando para pegar mais comida.
- E fala comigo como se eu tivesse cinco anos de idade. %Fitzroy%, seja objetivo.
- Se os dois continuarem me enchendo o saco. – levantei o garfo cheio de comida e apontei para os dois patetas – Eu não falo mais porra nenhuma.
- Não seja uma mocinha afetada, %Fitzroy%.
- Se quiser comer de graça na minha casa é melhor calar a boca, %Carl%. – a situação já estava difícil e os dois ainda gostavam de brincar com a minha cara.
- Tudo bem, tudo bem. Pode continuar. – %Carl% colocou seu prato na mesa e levantou as mãos em sinal de derrota.
- Como eu dizia, %Gustav% chegou por aqui e depois de uns dias recebeu uma carta. Essa carta foi mandada por um homem chamado Armand Marion. – %Louise% largou o garfo e me olhou em choque, ela sabia de quem se tratava – Sim, sim, é o cardeal que está na Igreja e rezou missa e tudo. Silêncio, mocinha! – ela virou os olhos para mim e eu senti vontade de dar um tapa naquele rosto - Nessa carta Armand falava uma coisa muito estranha sobre matar pessoas em nome da Igreja assim como morrer por isso. %Gustav% achou estranho, veio falar conosco e Nikolai. Nikolai então nos contou que ele havia feito parte de um grupo secreto da Igreja Católica chamado Justice for Saint Mary. É tipo uma porra de uma seita, eles protegem bens católicos e resolvem confusões da Igreja. Nikolai fazia parte do grupo, mas depois de descobrir umas coisas ele resolveu abandonar e descumpriu severas guerras fugindo com um tesouro da Igreja. O maldito veio pra cá e escondeu a merda do tesouro na floresta.
- Tesouro? – ela perguntou impulsiva e logo depois cobriu a boca em sinal de desculpas.
- Eu não sei muito bem o que é ainda, por favor, me deixe continuar.
- Vai, %Fitzroy%, sem frescura. – mirei %Carl% com a cara brava e prossegui.
- A questão é a seguinte. O Cardeal Armand e o Cardeal Chielline, o querido cardeal que você fez o favor de dar uns pegas, vieram para cá pra levar esse tesouro de volta pra Itália. Eles não acharam Nikolai, nem o tesouro e como %Gustav% caiu de paraquedas no meio dos planos deles, o pobre acabou por morrer. Esses dias um homem veio aqui perguntando por Nikolai e aquele dia que você dormiu aqui e Nikolai veio, era pra falar que ele estava indo embora porque o mesmo homem que procurou por ele no açougue o achou oferecendo dinheiro pelo tesouro. Resumo? %Gustav% está morto por causa desse inferno, Nikolai foi embora me deixando pistas soltas, aquele coroinha que se suicidou não se encaixou na história ainda e há gente procurando pela porra do tesouro que eu ainda não sei o que é. Por isso %Louise%, %Carl% mandou Ana e as meninas para férias fora de época e é por isso %Louise%, que tento te manter longe da confusão. Estamos compreendidos?
- Devo admitir que estou confusa. É muita informação.
- Olha, eu sei que é complicado. Mas, não esquente a cabeça, %Carl% e eu vamos resolver isso. O próximo passo é ir até a casa do Nikolai. Ele disse que lá poderíamos encontrar respostas e além do mais ele deixou alguns papéis comigo que também dizem algumas coisas. Só quero que entenda que é uma confusão sem tamanho e todos corremos perigo. Portanto, por favor, colabore e não teime comigo, ok? – os olhinhos dela brilhavam. Era um brilho diferente, não de excitação ou tesão. Era mais como um medo misturado com euforia. Eu temia por mim, mas, muito mais por ela. Não poderia deixar um fio de cabelo daquela garota se perder.
- Não foi um bom dia para vir pra cá, né? – um sorriso amarelo surgiu em seu rosto.
- Definitivamente não foi, mas, como você já está aqui, vai com a gente pra lá.
- É melhor que ficar sozinha aqui, não? – %Carl% perguntou gentilmente, coisa que eu não sabia fazer.
- Tudo bem. Agora, vou por meu prato no micro-ondas que meu peixe já congelou. – %Louise% se levantou e eu não pude deixar de tarar suas nádegas coladas na calça esportiva da Adidas. Por um momento esqueci dos problemas da vida e foquei naquela bunda. Tão carnuda e chamativa, a vontade de beijar aquela parte e passar a língua por ali era inevitável. Tive que me manter melhor preso na cadeira quando pensei em quão bom poderia ser roçar meu pau ali. Meter no meio daquelas nádegas e foder bem gostoso seria impagável. Mas, tudo ao seu tempo e aquele não era o mais propenso para se pensar em sexo anal ao invés de sobrevivência.
O micro-ondas apitou três vezes e %Louise% voltou com seu prato esfumaçante para a mesa. %Carl% parecia bem tranquilo e eu era o único agoniado. Queria o mais rápido possível ir até a casa do Nikolai para entendera merda de uma vez por todas. O sentimento de impotência e falta de controle me matavam aos poucos. Minha cabeça queimava e um cansaço pesado atingia meu físico.
Terminamos de comer e %Carl% jogou toda a louça na pia. Eu não sabia como proceder, meu pensamento estava todo congelado. Eu deveria oferecer sobremesa ou simplesmente ir até lá logo de uma vez?
- Nós vamos lá agora ou fazer o que? – %Louise% questionou e eu olhei para %Carl% pedindo com meu bico tristonho que ele tomasse a decisão.
- Quanto mais cedo nós fizermos isso, melhor, não?
- Sim, então vamos logo. %Louise%, pegue um casaco meu para você no quarto porque esfriou.
- Tudo bem. – ela sorriu e saiu saltitante atravessando a porta.
- Estou com uma mau pressentimento, %Fitzroy%.
- Não, %Carl%, por favor, não agora. – eu pensei que ele estava tranquilo e em paz. Mas não, o filho da puta disfarçou bem na frente da garota. Ele queimava por dentro tal qual eu.
- Você acha que isso vai ser fácil? Que dois bostas como nós vamos simplesmente vencer essa sozinhos e com uma adolescente à tira colo?
- O que você quer que eu faça? Vamos simplesmente fugir da cidade, sumir e deixar a morte de %Gustav% ao cargo da justiça divina? – um sentimento de revolta me invadiu e eu senti vontade de quebrar a casa inteira. Eu sabia que era arriscado e que um plano daqueles provavelmente daria em merda. Mas, mesmo assim eu sentia que alguma coisa destoava e eu precisava descobrir o que era.
- Olha, não perca a cabeça. – %Carl% fechou os olhos pensando na melhor maneira de falar o que queria – Ela só não deveria estar aqui, entende? – eu sabia que não. %Louise% e eu nunca deveríamos ter nos conhecido. Era um erro gritante que me ensurdecia. Porém, naquele instante e perante a realidade eu não poderia apagar o passado. Ela estava ali e a situação não mudaria em um passe de mágica.
- Eu sei que não, mas, agora eu não tenho pra pensar em mais nada, simplesmente vamos logo antes que eu desista.
- Como quiser, campeão. – %Carl% passou por mim dando dois tapas em meu ombro. Logo depois guardou ambas em seus bolsos e partiu para a sala. Segui seu rastro e me deparei com %Louise% vestindo meu casaco xadrez preferido e meu chapéu de guaxinim. Ao me ver, sorriu bem nervosa. Parecia ter medo de que eu brigasse com ela pelo abuso. Lá no fundo eu senti vontade de arrancar a peça da cabeça dela porque eu realmente era ciumento com o chapéu. Só que... ela ficou tão estonteantemente linda com o Guaxinim adornando seus cabelos que a única reação que tive for rir.
- O chapéu caiu bem em você. – me aproximei dela e dei um peteleco em seu nariz.
- Obrigada, achei que você fosse me matar por tê-lo posto.
- Sorte a sua, a única vez que coloquei isso, %Fitzroy% quase atirou em mim. Você é especial, mesmo. – %Carl% se fez de ciumento e abriu a porta da sala caminhando em direção à varanda.
- Não seja a ex-namorada mal comida, %Carl%. – %Louise% eu também chegamos à varanda encarando as árvores sacolejando de um lado para o outro.
- Mal comida porque seu pinto é pequeno. – %Lindemann% pulou os degraus e tomou caminho à nossa frente rumando à casa de Nikolai.
- Mentira, seu pau é enorme. – %Louise% sussurrou em meu ouvido com a voz cheia de manha me fazendo sorrir safado.
- Eu sei, gatinha. – fomos pelo mesmo caminho de %Carl%, sumindo floresta a fora.
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A madeira do solado ruiu quando nós três entramos. Fui à frente pressionando o interruptor e tudo se iluminou. Foi um choque para mim, estava tudo vazio, nenhum móvel sequer, nada além das paredes, o chão e o teto. Havia me acostumado com a casa ao jeito de Nikolai e vê-la daquela maneira me fez ficar ainda mais assustado e preocupado. Eu estava com medo, há como anos não ficava. Pior que isso, temia morrer. Sempre achei que seria bom com relação à morte, acabei de me dar conta de eu ainda não estava pronto para morrer.
Indiquei o corredor que levava ao quarto. Mais uma luz acesa. A madeira escura estava coberta por alguns tecidos. %Carl% foi à frente os rasgando e várias anotações em cor preta brotaram aos nossos olhos. Era um emaranhado desgraçado de informações. Nada parecia fazer sentido.
- Mas que porra é essa, %Fitzroy%? – %Carl% me olhou completamente perdido.
- Não faço caralho de ideia alguma, o filho da mãe podia ter organizado melhor as coisas.
- E por que ele escreveu tudo isso aqui? – %Louise% perguntou indo em direção à parede próxima a janela tentando ler as palavras meio apagadas que ali estavam.
- Nikolai já não é nenhum mocinho, ficou com medo de ficar velho e esquecido. Por isso decidiu escrever tudo na parede porque segundo ele mesmo disse, papel amarela, rasga, molha... Enfim, ele achou mais seguro.
- Isso é meio excêntrico. – %Louise% parecia uma criança perdida olhando uma parede extremamente colorida.
- Nikolai é uma caixinha de surpresas. – eu tentava achar uma conexão entre aquelas informações. Porém, nada parecia se encaixar.
- Acho que ele escreveu tudo dessa forma de propósito. – %Carl% constatou tirando um tecido preto que cobria a parte de trás da porta.
- Como assim?
- Simples, lenhador. Nikolai quis dificultar a missão, se alguém o achasse e achasse tudo isso aqui – indicou as paredes com as mãos – Demoraria muito tempo para entenderem do que se tratava. – bati palmas para %Carl% que me mandou um dedo do meio.
- Não fique bravo, meu pitelzinho, isso realmente faz sentido e é uma constatação incrível.
- E os tais documentos que ele te deu? – questionou %Louise%.
- O que tem?
- E você já os leu? – neguei com a cabeça – Não seria melhor lê-los aqui para entender melhor? Às vezes lá tem alguma coisa, não sei. – tudo mundo parecia raciocinar melhor que eu. Queria entender que raios estava acontecendo comigo. A ideia de %Louise% era completamente plausível.
- Façamos o seguinte. Vamos entender um pouco do que está aqui, se for impossível eu busco os papeis. – ficamos ali, meticulosamente lendo e tentando juntar informações.
- Vamos tentar entender o sistema. O Justice for Saint Mary lida com vários participantes responsáveis por guardar tesouros, certo? – %Carl% era uma mente brilhante mal aproveitada – Se eles possuem tantas tarefas, precisam se organizar. Como a polícia, por exemplo, que dá um nome para cada caso. Então esse lance do Nikolai deve ter um nome e uma equipe.
- %Carl%, eu quero beijar sua testa. – me aproximei dele e o babaca me afastou – Não me negue amor, ingrato.
- Sem brincadeiras, vai trabalhar, caralho. – ri e voltei a ler.
- Olha isso, %Fitzroy%. – %Louise% me chamou e indicou algo que estava escrito em vermelho. As letras eram grossas, de forma e maiores que as outras. A escrita revelava algo chamado Missão Real.
- Missão Real? – soltei ao ar.
- Missão Real deve ser o nome do caso deles. Mas, por que real?
- Porque envolve algum rei? – %Louise% também tentava racionar.
- Será que roubaram algum tesouro real? – %Carl% veio com mais pergunta e aquilo estava me matando.
- Eu não acho que isso se trate de dinheiro, %Carl%.
- E se trata do quê?
- De algo que possui valor, mas não exatamente uma quantia de dinheiro? Por que o vaticano montaria uma organização pra guardar dinheiro?
- Ei, ei, ei. Estamos esquecendo de algo importante aqui. Nikolai nos disse que esse tesouro se tratava de um xodó da Igreja, se lembra? – %Carl% comentou e uma luz começou a piscar desesperadamente no meu cérebro.
- Sim, porra! Ele também disse que conseguiram isso na época do reinado de Henrique VIII e que eram informações. Informações contra a coroa Inglesa. É isso, %Carl%.
- Gente, vocês estão me deixando ainda mais confusa.
- %Louise%, não tente entender. – %Carl% alertou – Agora vem a parte confusa. Por que raios ficaram tanto tempo sem procurar por Nikolai e resolveram vir atrás disso justo agora?
- Aquela sueco veio atrás de Nikolai querendo comprar o tesouro. A Igreja deve ter descoberto algo e por isso acordaram agora.
- Porra, eu vou explodir. Pensem mais devagar. – %Louise% se sentou no chão com uma expressão tediosa.
- %Carl%, desça no porão. Nikolai disse ter mais coisas lá. Vou ver o que arranco daqui, senão conseguir nada vou em casar buscar os papéis.
- Certo, chefe. – %Carl% sumiu da minha vista e eu voltei minha atenção para %Louise%.
- Está cansada? – ela me olhou fazendo aquele biquinho impossível.
- %Fitzroy%, me desculpe. – %Louise% deu dois tapas no chão ao lado dela me convidando para sentar. Caminhei até ela e me pus ao seu lado.
- Pelo o que, garota?
- Eu insisti em vir para sua casa, sendo que você tinha essa merda toda pra resolver. Eu não fazia ideia, fui egoísta. Foi mal. – uma puta sacanagem. A voz doce, o olhar piedoso e os lábios mordidos não faziam bem para mim. %Louise% tirava minha concentração, me distanciava dos reais problemas.
- Não adianta chorar pelo leite derramado, não é mesmo? Agora você já está aqui. Afinal, você só veio porque eu concordei.
- A gente não consegue mais ficar um longe do outro, não é? – sorriu vermelha e sem graça. Eu não sabia o que fazer com minha cara. Era verdade. Ela queria vir até mim todo o tempo e eu não era mais capaz de negá-la isso, pois, eu a queria do meu lado.
- Estou fazendo um milhão de merdas por sua causa.
- Quem está sendo irresponsável agora, ã? – a garota me olhou, bem no fundo quase me cegando. Ela não deveria estar ali, não mesmo. Seu lugar era longe de mim, dentro de sua casa em segurança. Entretanto ,a minha racionalidade já não ganhava mais dos meus sentimentos e extintos. Não pensei muito. Puxei %Louise% pelo queixo com a maior rapidez que pude e grudei minha boca dela. Ela se assustou e saltou para trás com o corpo. Não pude evitar rir e ela acabou por me acompanhar. Sem falar nada, se jogou em mim. Os braços rodeando meus ombros e o nariz roçando o meu. Decidi que ficar quieto seria o melhor.
Fui com uma das mãos em sua nuca e apertei firme. Os cabelos da nuca dela se prenderam aos meus dedos e eu os puxei. %Louise% pendeu para trás com a boca aberta e eu joguei sua cabeça de lado. Arqueie para frente e fui com minha língua direto naquele pescoço suculento. Sentir o gosto de %Louise% na minha boca era impagável. Meu corpo todo enlouquecia e eu perdia a noção de tudo. Nada mais importava além de nós dois.
Queria arrancar um pedaço do pescoço de %Louise% para mim. Meus dentes pressionavam sua carne e seus leves gemidos me impulsionavam para mais. Ela lutou contra a força que fazia em seu pescoço e descontrolada de jogou na minha boca. A língua de %Louise% lambia meus lábios e a porra do tesão explodiu dentro de mim. Puta garota gostosa.
- %Fitzroy%, eu quero gozar. – ela falou bem baixinho na minha boca. Soltei uma gargalhada longa e alta – Que foi, seu idiota? – estapeou meu tronco se fazendo de afetada.
- No meio dessa porra toda e você quer gozar?
- Sim, eu quero. Aqui e agora. Essa história me excitou. – %Louise% moveu as pernas ficando sentada no meu colo. Oh céus! Ela começou a rebolar em mim e meu pau se acendeu, ficando cada vez maior e mais duro. Raio de menina.
- Rebolando desse jeito, quem vai gozar sou eu.
- Não antes de mim. – ela abriu o sorriso mais safado que eu já tinha visto e aumentou a pressão na minha ereção.
- Garota...
- Por favor, %Fitzroy%, não seja uma mocinha. – ela queria me vencer pelo desafio. Mal sabia ela que eu a queria fazer gozar desde que entramos na casa.
- E como você quer gozar, safadinha?
- Eu deixo você escolher. – se recolheu do meu colo e voltou ao chão. Abriu o casaco que vestia deixando o no chão. Tirou seu moletom junto com a camiseta deixando apenas sua barriga e o sutiã expostos. Eu a olhei entorpecido e totalmente excitado. %Louise% me perturbava, me desafiava e me deixava em situações terrivelmente cruéis.
- A gente não tem tempo, então direto ao ponto, ok? – %Louise% me chamou com o dedo e eu fui, bobo e entorpecido até ela.
A puxei para mim pelo sutiã e a garota se derreteu toda ao meu toque. %Louise% tentou me beijar e eu não permiti. Ela disse que deixaria eu escolher, não?
- Você deu poder de decisão para mim e eu já escolhi. – meu olhar pervertido e mal intencionado fez com que os pelos dela se arrepiassem.
- E o que eu vou ganhar? – %Louise% tinha voz mais rouca e excitada. Podia apostar que sua bocetinha já pingava por mim.
- Fiquei tarando essa porra dessa sua bunda a noite toda. – peguei o cós da calça e puxei sem cerimônias para baixo. Sua bunda ficou exposta e %Louise% soltou um “ai” bem safado. Espalmei minha mão na carne dela de uma forma que uma marca de dedos fosse inevitável. – Fica de quatro pra mim, vai. – %Louise% nem ao menos hesitou. Me soltou uma piscadela e virou-se. Abaixou a cabeça e pôs-se de quatro. Bem devagar ela empinou a bunda e deixou as pernas abertas me dando extrema visão. Seu cuzinho brilhava e sua boceta gritava por mim.
Me coloquei atrás dela. Meu rosto perto do seu e as mãos passeando por seu corpo. %Louise% tentou tirar o chapéu. Coloquei minha mão na dela não deixando-a de forma alguma tirar o meu guaxinim.
- Não, nem ouse. Eu tenho uma tara com esse chapéu, a senhorita vai continuar com ele.
- Você manda, %Fitzroy%. – %Louise% deu uma rebolada abusada e eu mordi a sua orelha.
- Vai ser rápido, ok? %Carl% vai me berrar daqui a pouco.
- Cala a boca e me dá um orgasmo logo. – seu rosto virou para o meu. Nós nos beijamos daquele jeito insano e perturbador. Uma chupação de língua indecente. Rápido e certeiro, você sabe o que fazer, %Fitzroy%.
Desci a mão que estava em suas costas para o meio das nádegas. %Louise% vibrava e se arrepiava. Molhei o dedo no caldinho que escorria em suas pernas e o lubrifiquei. Puxei a capinha do clitóris de %Louise% e o pressionei. A garota gemeu um pouco mais alto e com a mão livre eu tapei a boca dela. Não queria ser pego.
Passei a masturbá-la com precisão. Sem enrolações, eu teria tempo em casa para prolongar as preliminares e quase matar %Louise% do coração. A menina gemia na minha mão e rebolava cada vez mais a bunda gostosa. Seus movimentos pediam por meu pau metendo bem fundo. Um “me fode” acabou por sair abafado de sua boca.
- Me promete que vai ficar quietinha?
- Pelo amor, vai logo. Eu prometo.
- Meto meu caralho em você só em casa. Vai gozar nos meus dedos agora. – ela iria reclamar mas eu evitei. – Não discuta ou você fica sem nada.
Tinha que ser ligeiro e eficiente. Me ajoelhei bem atrás dela e %Louise% empinou mais ainda a porra da bunda rebolando de um lado para o outro. Eu quase, mas quase, baixei o zíper e meti ali sem dó. Não agora, não agora.
Abaixei-me e minha boca ficou na altura de seu clítoris. Fui com a mão para a entrada dela e posicionei dois dedos. Exatamente na hora em que lambi seu grelo eu meti os dois lá no fundo. %Louise% gritou e eu tirei a boca dela para morder sua bunda em sinal de repreensão. Para meu azar, ela pareceu gostar da mordida e gritou mais uma vez.
- Silêncio, porra.
- Vai logo, pelo amor de Deus.
Voltei a chupá-la enquanto a fodia com meus dedos. %Louise% se descontrolava cada vez mais e eu tinha certeza que %Carl% podia ouvir. Resolvi intensificar e meti mais um dedo. %Louise% se arqueou pedindo por mais e acelerei a velocidade da língua em sua bocetinha extremamente molhada. Ela rebolou mais, eu fui mais rápido e eis que o inevitável aconteceu. %Louise% travou o corpo, soltou aquele gemido mais prolongado e se desmontou. Eu continuei até sentir seu caldo escorrer na minha língua. Meu pau estava pulsando nas calças pedindo desesperadamente para gozar e não poder fazer nada para melhorar minha situação provavelmente me mataria.
Ajudei %Louise% a se vestir e ela ficou de pé, me abraçando.
- Você é foda quando quer.
- Sou foda sempre, garota. – beijei sua testa e voltei a olhar para frente. Encarei um %Carl% de cara feia.
- Vou fingir que não ouvi nada, ok? Achei coisas no porão, mas não consegui ligar os fatos. Vá buscar os papeis enquanto eu vomito.
- Drama queen. – %Louise% e eu passamos por %Carl% e fomos para a saída da casa.
O frio estava pior. O vento cortando minha nuca e sentia vontade de roubar o meu chapéu que enfeitava a cabeça de %Louise%. Caminhávamos tranquilamente e sem pressa. %Louise% grudada em meu braço fazendo carinho na mão e eu com o problema da ereção sendo resolvido pouco a pouco.
- Você precisa fazer um tour comigo pela floresta um dia desses.
- Espera esse problema todo passar e eu juro que te levo pra dar um bom passeio por aqui.
- Esse lugar é enorme. Só conheço a trilha pra sua casa e o caminho até aqui. Como conseguiu aprender tudo?
- Venho aqui desde que nasci, foi com o tempo.
- Daqui a pouco vai ficar velho e esquecer tudo. – ela mandou um beijinho para mim quando a encarei com a cara totalmente fechada.
- Te fiz gozar e é assim que você me retribui?
- Depois o %Carl% que é a drama queen, né? – dei um tapa na bunda dela que começou a ter um ataque de riso.
- Vem cá que eu vou te mostrar quem é a drama queen, %Louise%? – a garota se soltou de mim e correu um pouco a frente. Girou seu corpo ficando de frente o meu e começou a andar de marcha ré.
- Só vai me mostrar algo se conseguir me pegar.
- %Louise%... – não consegui adverti-la. Quando dei por mim %Louise% corria em direção à minha propriedade. Sua corrida era pomposa, %Louise% dava saltinhos no ar e ria. Dei à ela um tempo de vantagem e acelerei para alcançá-la. %Louise% sumiu por entre as árvores e eu jurei para mim mesmo que a garota seria punida na cama mais tarde.
Corri por cerca de três minutos e avistei minha varanda. A porta estava aberta e as luzes acesas.
- %Louise%, não brinque de esconde-esconde comigo, não tenho paciência. – nenhuma resposta. Entrei em casa procurando por ela e... nada. Um nervoso começou a me corroer e fiz o máximo de esforço possível para não entrar em pânico. Voltei para o lado de fora e meu coração subiu pela garganta. Minha respiração travou, o sistema nervoso perdeu as funções e eu senti minha vida se esvaindo aos poucos. %Louise% me encarou em desespero, tinha lágrimas correndo por seu rosto delicado e o medo fluindo por suas veias. %Carl% tinha me dito e eu sabia, mas, me neguei. Ela não deveria estar ali.
- Nenhum movimento brusco, lenhador. – reconheci o cidadão. Cardeal Chielline. O filho da puta tinha uma arma apontada na cabeça de %Louise% que não abria a boca para dizer uma palavra se quer.
- Cardeal dos infernos. Eu vou te matar, seu filho da puta.
- Não, não vai. – sua fala era séria e concentrada – Você não vai conseguir descobrir nada sobre Nikolai e o Justice for Saint Mary sem mim. – não sabia o que fazer e como fazer. Se eu errasse %Louise% levaria o tiro. O súbito pensamento me dava náuseas. Isso não era uma opção, %Louise% morta por um tiro não era uma possibilidade viável.
- Eu não sei do tesouro, seu bastardo imundo. Haja feito a porra do homem que é, solte a garota e resolva as coisas comigo.
- Me perdoe, %Fitzroy%. Mas não solto a garota agora de forma alguma, ela é a única chance que eu tenho de você me ajudar. – fiquei emputecido, louco de raiva. Me aproximei mais do dois de forma cautelosa soltando fogo pelas ventas.
- E quem disse que eu vou te ajudar com alguma merda, seu bosta?
- Eu estou dizendo. O que conseguiu descobrir? Nada, não é mesmo? Nikolai te deixou todas as pistas, mas, você não vai conseguir nada. Nikolai era um dos soldados da Missão Real que guardava um baú cheio de informações do reinado de Henrique VIII e sua filha Elizabeth.
- Conte-me algo que eu não saiba, porco dos infernos. – %Carl% estava longe, meu machado e arma completamente distantes de mim. Poderia esmurrar o Cardeal, mas, não correria o risco de %Louise% sofrer um arranhão sequer.
- Sei de muitas coisas que você não sabe. Uma delas é o porquê do coroinha ter chegado até a casa de Nikolai por exemplo. – abri a boca para falar algo e nada saiu. Aquilo me pegou de surpresa e eu não sabia mais o que fazer. Minha vontade era me desmontar no chão e chorar. – Sei também que Armand mandou-me matar todos vocês e que um integrante da mesma missão de Nikolai está vindo para cá pra achar essa porra de tesouro. Armand não vai achá-lo e vai botar essa porra de cidade abaixo, então acho que você não tem muitas opções.
- O que quer de mim? – eu negociaria? Meu cérebro mal pensava, não achava um caralho de solução que parecia coerente.
- Quero que entenda que tenho um plano, que sei o que estou fazendo e que preciso de acesso à casa de Nikolai e os documentos. Eu sei tudo, fiquei a noite toda aqui de tocaia escutando as conversas.
- Cardeal, por um acaso eu tenho cara de idiota? De burro? De demente mental?
- Muito pelo contrário, lenhador. – ele sorriu e eu fiquei com mais vontade de estourar seus dentes. Ele tinha beijado minha garota, tocado nela, posto aquele pinto podre pra fora na frente dela e agora tinha uma arma apontada para ela. Se eu tinha um arque inimigo no mundo certamente era ele. – Você é bem inteligente e vai me ajudar. %Louise% é minha garantia de que vai fazer tudo certo.
- Então fale logo, porra, o que quer de mim?
- Amanhã a pessoa que pode por tudo abaixo chega. Preciso me livrar dele e deixar o caminho livre. Tudo a cada amanhã, %Fitzroy%. Você me ajuda a finalizar meu plano e eu te garanto que a morte de %Gustav% e todos os seus problemas vão ter um final de feliz. - o oxigênio que respirava queimava minhas veias. Aquilo só podia ser um pesadelo, uma brincadeira diabólica sem graça. Queria fechar os olhos e abri-los e descobrir que tudo não passava de pura ilusão de ótica. Mas, não. Era a verdade, a mais doída verdade de todas.
- Qual minha garantia? – O Cardeal permaneceu em silêncio por alguns segundos. Esperava por algo que eu não sabia o que podia ser. Então, ouvi barulhos de passos se aproximando, me coloquei na defensiva encarando a minha esquerda e vi alguém se aproximar. Quando chegou mais próximo reconheci o garoto segurando um envelope de cor vermelha.
- Manterfos! – o garoto estava com a barba um pouco crescida, olheiras fundas e os lábios secos. – Garoto, desgraçado. Como pode?
- %Fitzroy%, confie em Chielline. Por favor.
- Cale a sua boca se não e eu enfio a mão nessa sua cara lavada, criança desgraçada.
- Meta a mão na cara dele que eu meto uma bala na cabeça dela. Pegue o envelope e fique quieto. – tomei o envelope da mão de Manterfos que parecia sereno e calmo. Que porra estava acontecendo com o mundo?
- O que tem aqui?
- Um mapa do tesouro. Divertido não?
- Um mapa do tesouro? Agora vamos brincar de ser piratas? – um sorriso nervoso fez-se em mim. Não podia acreditar, eu iria matar alguém.
- Esse é o único papel que nos indica onde o tesouro possivelmente está. Não te direi nada além disso. Esse papel é tudo que tenho e te dou ele como garantia. Amanhã cedo, estarei aqui. Garanta que o açougueiro estará aqui também. Vá até a casa de Nikolai e o coloque a par da situação. É hora de ir. – olhei para %Louise% e mal conseguia ficar de pé. A culpa, o sentimento de impotência nunca estiveram tão fortes em mim. As lágrimas dele se fizeram minhas. Eu faria qualquer loucura para salvá-la. A responsabilidade tinha sido minha, eu a tinha posto naquela porra e eu a tiraria dela.
- %Louise%, vai dar tudo certo, ok? Você vai ficar bem.
- Não vou fazer mal pra garota, %Fitzroy%. Suma daqui agora. Logo cedo estarei aqui. – Manterfos se afastou e Chielline com a arma anda na cabeça de %Louise% apontou o caminho. Tirei forças do fundo do meu âmago, usei toda a minha fúria como combustível para correr até a casa de Nikolai. Uma coisa eu poderia garantir, não sobraria pedra sobre pedra naquela cidade.
xx
Abri a porta da casa dos pobres e gentilmente pedi para que %Louise% entrasse. Ela estava nervosa e calada, profundamente confusa e chateada.
- Você é um filho de uma puta. Eu confiei em você, Chielline maldito. E confiei em você, Manterfos, moleque infeliz. – suas palavras eram como labaredas.
- Acha mesmo que eu concordaria com isso se fosse errado, %Louise%? Eu amava %Gustav% como se fosse meu pai. Se estou nisso é porque sei o que estou fazendo.
- Ah, me poupe. Se querem me matar, me matem logo.
- Ninguém vai morrer nessa história, %Louise%. – me aproximei dela e ela me esquivou dando socos no ar.
- %Gustav% foi o suficiente para você? Foi você, não foi? Tenho certeza que foi.
- Você não sabe de nada, %Louise%. Confie nele. – %Louise% não afastou Manterfos. Ele sentou-se sobre a mesa ficando de frente para ela que mantinha os braços cruzados e a expressão raivosa.
- %Gustav% está morto, Manterfos. Você está sendo enganado, agora é fácil fingir que nada aconteceu.
- Pois eu posso te garantir que está enganada, %Louise%. Eu jamais faria tudo o que fiz com você por pura calhordagem.
- Me desculpa, Cardeal. Mas eu não confio em você.
- Então, eu vou precisar fazer algo a respeito. – ela me olhou estranha e eu abri um sorriso. Tinha minha carta na manga, a mesma que usei para conquistar a confiança de Manterfos. Uma carta que tinha sido tirada do baralho, mas, que voltaria para ele no dia seguinte.
- Venha, nós vamos fazer uma visita a um amigo meu.
- Um amigo seu? Pelo amor de Deus, não me venha com mais mentiras.
- %Louise%, não seja boba. Você é inteligente e curiosa. – cheguei perto dela que dessa vez permitiu minha aproximação. – Você vai gostar, eu prometo.
- E por que seu amiguinho não pode vir aqui?
- Porque ele mora no cemitério, %Louise%. - a garota saltou em minha direção completamente transtornada.
- Essa brincadeira não tem a mínima graça, filho de uma mãe. Não brinque com a minha cara.
- São dois os tipos de mortos que moram no cemitério, %Louise%. Aqueles que não existem mais no plano terreno e aqueles que se escondem da sociedade. - ela me encarou parecendo confabular alguma coisa sombria.
- Chielline...
- Venha, meu amigo deve estar com saudades. - sorri e dei minhas costas. Manterfos abriu a porta e eu passei pela mesma. Sabia que %Louise% viria e nem uma arma seria necessária para forçá-la. Esperei poucos segundos e logo a vi ao meu lado.
- Vamos logo antes que eu me arrependa.
- Juro, você não vai se arrepender.
Cena extra
Minha cabeça rodava. Eu parecia estar em outra dimensão. Destruído por dentro e por fora. Odiava o presente. Odiava não ter controle, não entender os fatos. Muita informação no meu cérebro, dezenas de perguntas e uma miséria de respostas. Sentia-me inseguro e desprotegido. Sozinho e perdido. Normalmente o poder estava nas minhas mãos, qualquer coisa que precisasse ser resolvida, eu resolvia. Tudo estava em harmonia até que então... desmoronou. Meus sentimentos românticos e quase insuportáveis confrontando com mortes, dores e tragédia. A porra estava muito fodida.
%Louise% precisava de mim. %Carl% precisava de mim. E eu teria que estar lá por eles, outro peso como o de %Gustav% não seria suportável. Pensei muito antes de tomar aquela decisão. Nikolai havia deixado uma missão doente em minhas mãos. Eu e %Carl% combinamos que faríamos algumas coisas antes de atear fogo na casa dele.
Fui até meu quarto e me sentei no banco que estava em frente ao meu criado. Fechei os olhos e me dei o direito de ter medo. Há anos não me dava esse direito. Me lembrei então de uma proposta que meu pai havia feito assim que planejou se mudar. Eu neguei. Mais de uma vez. Neguei de todas as formas possíveis com todas as minhas forças. Queria viver em paz na floresta, sozinho e independente do mundo lá fora. Porém, tudo mudou. A opção não era mais válida e encarar a realidade se tornara necessário.
De repente e de uma vez todos os problemas que surgiram ... Repensei. Repensei e cheguei à conclusão que a melhor coisa seria aceitar a proposta. Tomei o telefone em mãos e disquei os números do meu pai. A ansiedade me matava aos poucos enquanto esperava alguém atender. Sabia o que aquilo iria representar, seria complicado.
- Alô. – era o velho, sorri sozinho.
- E aí, velhote.
- %Fitzroy%, que surpresa. Estávamos falando sobre você aqui. Que saudades, moleque.
- Estavam falando bem, eu espero.
- É claro que sim, você é nosso menino, tonto. Mas então, a que devo essa honra? – meu pai sabia o quanto eu odiava telefonar, sempre que o fazia era tratado com exagero.
- Andaram acontecendo umas coisas por aqui, pai. Não quero entrar em detalhes agora. Mas, eu estive pensando...
- E quer se mudar pra casa na cidade? Eu sabia, eu sabia que esse dia iria chegar. Amor, o %Fitzroy% vai pra cidade. – ouvi risos do outro lado da linha que me deixaram sem graça.
- Pai, não exagere, por favor.
- Mas é isso, não é? Você precisa da chave? Posso levar amanhã se quiser.
- Pai, calma. Respire e sim, eu quero ir pra casa. Mas eu me viro com a chave. Venha pra cá no fim do ano, não gaste sem necessidade.
- Tudo bem filhote, sem visitas surpresa ou fora de época. Mas fico extremamente feliz que queira ir pra lá. Sabia que um dia iria enjoar dessa casa velha. Lá você vai ter lareira, sauna, uma adega enorme e um forno à lenha maravilhoso. E claro, um lugar mais ajeitado para levar as moças. – meu pai era uma comédia, eu amava aquele danado.
- Menos, Aleksander, bem menos. Só quis avisar, pretendo fazer isso rápido. Tenho a chave, mas não a senha do alarme.
- Ah sim, o alarme. A senha é minha data de casamento com sua mãe, se lembra?
- Sim, pai, me lembro, obrigado. Acho que é isso.
- Tudo bem, garoto, fico feliz que tenha ligado. Quando se mudar me avise, quero saber se está tudo bem. Theodor vai gostar de ter vizinhos novamente, se o vir diga que mandei abraços. E se quiser conversar...
- Obrigado, pai. Eu ligo sim. Fique bem e não se preocupe comigo. Mande um beijo pra Abbie. Fique em paz.
- Tudo bem, filho. Juízo e fique com Deus. Até mais. – meu pai desligou e eu fiquei encarando o telefone. A antiga casa que morava era exatamente a casa vizinha de %Louise%. Quando me mudei para a floresta ela ainda era uma criancinha pequena. Se eu queria protegê-la e ficar por perto aquela seria melhor maneira. Voltaria a morar lá e abandonaria a floresta que um dia tinha sido um lugar abençoado. Me doía de um jeito filho da puta só a possibilidade me afastar dali. Agora que isso era uma realidade imutável, teria que me acostumar. Afinal de contas, do lado de Louise e mais perto da cidade, seria mais fácil evitar chamar atenção para a floresta. E claro, eu não descansaria até que voltasse a floresta voltasse a ser um ninho pacífico. Só não poderia meter os pés pelas mãos, meu pinto me daria problemas. Ele com certeza sentiria vontade de falar mais alto e a tentação de invadir o quarto da garota seria maior que qualquer coisa. Foco e disciplina teriam de ser meus maiores companheiros, mas... uma escapadinha não mataria ninguém.