Chapter XVII
Quando vi a terra engolindo o caixão de %Gustav% pensei que seria impossível relaxar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilamente. Previ que passaria horas e mais horas tentando pegar no sono e quando realmente eu conseguisse dormir tudo viraria um mar de pesadelos trágicos.
Nunca tive problemas com insônia. Pensei então que esse dia chegaria. Que enfim a época de trocar a noite pelo dia chegaria. Se isso realmente fosse acontecer, seria adiado pelo menos mais uma noite. Me aconcheguei em %Louise%, inalei aquele cheiro de pêssego e simplesmente apaguei. Sem sonhos trágicos, uma verdadeira noite dos deuses.
Acordei por volta de 8 da manhã com ela sutilmente encostando o cotovelo na minha boca. Pela primeira vez eu acordava do lado de %Louise%. Os cabelos estavam uma bagunça sem fim, os lábios meio secos e avermelhados por ter beijado o travesseiro a noite toda. Não queria acordá-la, eu poderia ficar admirando seus mamilos descobertos por mais um dia inteiro, mas, a garotinha despertou.
- Bom dia, dorminhoca.
- Dorminhoca, tá super cedo, %Fitzroy%. – seus olhos mal conseguiam ficar abertos.
- Não é que é cedo demais, você que é acostumada a acordar super tarde. – a palavra super saiu em um tom meio afeminado. Cheguei mais próximo, rocei meu nariz gelado no dela que parecia ter saído do forno de tão quente.
- Eu estudo de manha, ok? E você tá com bafo.
- Você também mocinha e nem por isso estou com nojinho. – fazia anos que não acordava ao lado de alguém e cerca de 22 anos que não acordava ao lado de uma mulher que ... eu gostava tanto.
- Não seja abusado, lenhador. Eu levanto agora e vou embora, hein? – além do fato de ser cheirosa, gostosa e linda, %Louise% sabia fazer uma manha como ninguém. Lá no fundo do meu coração eu amava uma gatinha manhosa.
- Ah é? Vai embora mesmo? Eu duvido, meu bem. – voltei a me deitar, cruzei os braços embaixo da minha cabeça e esperei o teatro começar.
- Duvida mesmo? Não me teste. – ela tinha aquele tom afetado fingido.
- Estou duvidando ainda, %Louise%. – a encarei com o sorriso mais cretino que poderia fazer. Ela parecia ficar cada vez mais irritada. Provocar a garota tinha se tornado um hobby muito gratificante. %Louise% nunca conseguia ignorar minhas ironias ou baixar o orgulho para passar por cima dos desafios e com isso nós íamos ao extremos.
A cara emburrada me divertia. %Louise% mal tinha acordado, o corpo ainda vacilava e o raciocínio estava extremamente lento. Se enrolou no lençol azul marinho e brigou com o próprio sistema nervoso por alguns segundos para conseguir se manter de pé. Então lá estava ela. As madeixas ainda embaraçadas, o rosto amassado, a cara de sono latente e uma expressão confusa de determinação.
- Esse é seu plano, sair lá no vento gelado vestida com um lençol e essa cara de toupeira?
- Não está frio, ok? – %Louise% parecia ter bebido umas 10 garrafas de vinho, nem mesmo bêbada sua voz sairia de forma tão lenta e mole.
- Está sim, garota. O sistema de aquecimento do quarto é ótimo, se abrir essa porta você vai se arrepender.
- Fica quieto, você fala demais, %Fitzroy%. – ela foi. Com a teimosia de sempre. Abriu a porta e deu um passo para fora, não precisou mais que isso. Voltou para o quarto tremendo, tentou aproximar o lençol do corpo para que pudesse aquecer-se mais. Menina besta. – Porra, que frio.
- Eu te avisei, sua tonta. Vem pra cá logo. Para com essa frescura de que vai embora. – me ajoelhei na cama e as cobertas me abandonaram. %Louise% ficou de frente e veio caminhando até mim. Aquele dedinho indicador traiçoeiro veio brincar de fazer desenhos meu tronco – Você nem sabe disfarçar.
- Eu não preciso mais disfarçar, preciso? – ela sorria daquele jeito moleca. Uma mulher que ainda estava crescendo e amadurecendo. Onde foi que eu meti minha piroca, ã? Deveria me apaixonar por uma pessoa pelo menos próximo da minha idade, não tão mais nova. Não que eu estivesse apaixonado, talvez alguma coisa mais forte estivesse surgindo. Mesmo assim, de alguma forma ainda parecia errado.
- Não, não precisa. – coloquei uma das mãos em sua cintura e a trouxe mais perto de mim. Testa com testa, nariz com nariz. – Mas você ainda fica com essa carinha de timidez enquanto toca em mim.
- E você ainda tá com bafo. – fez um biquinho torcido para mim.
- Sabe um jeito bom de acabar com esse bafo que tá te incomodando tanto?
- Escovando os dentes?
- Sim, também, mas eu estava pensando em outra coisa... – a deixa da minha fala foi eficientemente compreendida. Com a mão livre comecei a passear entre as coxas de %Louise% que começava a se entregar à mim mesmo com o bafo que tanto a incomodava.
- Que coisa, lenhador safado? – a garota passou os braços por meu pescoço e perguntou encarando o movimento da minha mão.
- Chupando xoxota. Boa ideia, não? – %Louise% mordeu os lábios e meu pau começou a querer ganhar vida. A mão que brincava com a carne dos glúteos decidiu mudar seu rumo, caminhou pela virilha, tocou os pelos finos e ousou separar os grandes lábios. Ai, que delícia. Aquele pedaço de tesão se contraindo nos meus dedos. – Só tem um probleminha aqui, %Louise%.
- Qual? – seus olhinhos estavam entre abertos, ela tinha dificuldade para respirar e se concentrar nos meus atos e gestos ao mesmo tempo.
- Ela não tá molhadinha daquele jeito gostoso.
- E como a gente resolve isso? – a pergunta não era maliciosa. O sono ainda afetava %Louise% que não conseguia pensar direito, ela queria me ajudar a resolver o impasse.
- Você não faz nada mocinha, eu faço. – a sentei na cama. Delicadamente joguei uma perna pra cada lado fazendo com que a garota ficasse arreganhadinha pra mim. A carne das nádegas de %Louise% sobravam pros lados me deixando doido de vontade pra morder aquela bunda – Agora você só me ouve, ok? – ela balançou a cabeça positivamente e se entregou às minhas palavras – Feche os olhos, %Louise% – ela bem poderia dormir devido o sono infeliz que queria dominá-la, mas eu não deixaria – Agora imagine que não nos vemos há muito tempo. Ficamos meses e mais meses sem se tocar, sem se beijar, sem nem ao menos ouvir a voz um do outro. Você está em casa, presa, sem poder sair. Está subindo pelas paredes, desesperada por mim.
- %Fitzroy%, isso é cruel. – %Louise% parecia um gatinho pedindo por leite quando falava.
- Disse pra ficar quietinha e só me ouvir, não disse?
- Disse.
- Então caladinha, por favor. Sei o que estou fazendo. – com cuidado fui com um dedo para a boca dela, se por acaso tentasse falar iria impedir – Você está lá com a bocetinha coçando de vontade, se masturbando o tempo inteiro pensando na gente. Então, de repente eu apareço no seu quarto. Me imagine só de calças jeans, com o botão aberto e o zíper baixo. Sabe o volume que você gosta de olhar? Imagine ele lá apontado firme pro lado e sufocado pelo jeans. Imagine meu peitoral suado pelo serviço, firme e forte do jeito que você gosta de tocar. – %Louise% respirava de um jeito confuso. Seu corpo começava a responder aos meus estímulos. Ela tinha uma mania deliciosa de rebolar de leve o quadril conforme se excitava. Eu adorava olhar aquela porra se mexendo de um lado pro outro, me deixava perdido na vida. – Como seria? Nós dois completamente malucos de desejo, com toneladas de tesão ali prontas para explodirem. Não daria nem tempo pra pensar. Eu voaria feito um lobo faminto pra cima de você, me imagine te prendendo de frente para a parede, com esse rabo empinado. – dei um tapa safado no pedaço de bunda que conseguia atingir e prossegui – Você estaria vestindo uma daquelas calcinhas pequenas que você gosta e uma das blusinhas de alça sem sutiã. Mas eu não teria paciência pra tirar toda essa porra do caminho. Eu iria rasgar sua calcinha, %Louise%. Só daria tempo de baixar minha calça e puxar meu pau pra fora. Não iria nem contar até 3, você só iria sentir eu te rasgando. Daí você ia começar a rebolar essa porra pra mim, rebolar essa bunda gostosa no meu caralho gemendo daquele jeito manhoso e gostoso que só você sabe. – %Louise% soltava uns gemidinhos baixos e discretos, suas arfadas eram mais longas e o contorcer do seu corpo dizia que a coisa estava funcionando. Passei a mão em sua entrada de novo e notei o inevitável, a magia estava acontecendo. Mas ela ainda não estava encharcada do jeito que eu queria – Agora, por mais que eu estivesse louco pra esporrar dentro de você, não seria assim. Iria parar de meter em você e grudar nos seus cabelos. Te fazer ficar de joelhos e com a boca aberta pra mim. Ah gatinha, esse lenhador aqui estaria doido de saudade de sentir sua boca. – usei o tato livre para brincar nos lábios dela. Passei o polegar pelo lábio inferior e segui o desenho até chegar no superior. Me abaixei e coloquei minha boca bem do lado do ouvido dela, quanto mais perto melhor seria – Sabe onde, %Louise%? No meu pau. Sua boquinha gulosa engolindo meu caralho. Eu sei que você também gosta, não é toa que geme igual uma putinha desesperada me chupando.
- %Fitzroy% ...
- Shi! Paciência, ainda não é sua vez. Se me interromper de novo, eu paro, entendido? – ela balançou a cabeça freneticamente e me olhou. Pedi com um sinal que voltasse a fechá-los e ela prontamente obedeceu – Ah %Louise%, eu não perderia a chance de foder essa boca e de te esporrar na sua cara. Aí você me olharia do seu jeito desesperado com medo de que eu te deixasse sem gozar. Mas você sabe que eu não faço isso, não sabe? Te jogaria no chão de qualquer jeito e abriria essas pernas do jeito que elas estão agora. E então eu iria te chupar e engolir essa sua boceta... Mas isso você não precisa imaginar, %Louise%. Olha pra mim – ela estava faminta por sexo. Se seus olhos pudessem soltar lava e chamas, provavelmente já teriam me queimado por inteiro.
- Me chupa logo, você tá me matando.
- Deixa eu ver... - abri espaço e meti um dedo lá dentro, fundo e com força. %Louise% soltou um grunhido alto e se desmontou na cama. Tirei o dedo dela e trouxe pra minha boca. Chupei meu dedo inteiro sentindo o gosto da garota – Agora sim. – Sorri. Era sensacional, o melhor molho do universo. Era daquele jeito que eu queria. Aquela xoxotinha totalmente molhada e melada – No ponto, %Louise%.
- E agora? – aquele lábio mordido sapeca significava algo que eu já sabia o que era, ela queria me ouvir dizer o que faria.
- A gente resolve esse meu problema do bafo. – fiz um carinho em sua bochecha e fiz o caminho para baixo. Tomei uma coxa para cada mão e enfiei minha cabeça no meio delas. %Louise% arfava cada vez mais rápido conforme eu me aproximava. Cansei de enrolar e fazer a espera ser longa demais. Minha língua foi da entrada de sua vagina até o topo do clítoris. O corpo de %Louise% oscilou e garota pareceu receber um choquei. Procurei os olhos dela que estavam fechados e fiquei encarando. Passei a fazer movimentos curtos com a ponta da língua em seu grelo e permaneci até ela olhar na minha direção. Espremi o olhar em sinal de que a porra ficaria séria.
Levei um dedo para seu grelinho e minha boca procurou explorar outro lugar. A bocetinha tão molhada precisava de alguém para dar conta daquela umidade e eu era a pessoa certa. Meti a língua no meio daquela carne melecada e provei do gosto dela. Ela passou a gemer mais intensamente, forçava movimentos de foda com o quadril. %Louise% passou a mão nos meus cabelos e puxou minha língua de volta para o grelinho duro. Eu queria dar conta da situação na parte mais baixa e apostei em uma jogada dupla. A penetrei com dois dedos e permaneci lambendo e mordiscando a parte de cima. %Louise% rebolava na minha cara se esfregando em mim. Gemia pedindo por mais e eu dei tudo que pude até senti-la gozando na minha boca. Aquele momento, o ápice do tesão se desmanchando na minha boca.
%Louise% se desmanchou na cama. A garota balbuciou algo estranho antes de mergulhar no sono novamente. Eu queria ouvi-la dizer o quão bom havia sido, mas, meu lado faternal percebeu que a pobrezinha precisava de um descanso depois de toda a coisa. A peguei no colo e ajeitei seu corpo na cama. A cobri com o lençol e coberta. Observei seu sono cheio de cansaço e senti vontade de congelar aquele momento. %Louise% tinha uma doçura incrível quando em situações como aquela. A garotinha impossível, safada e faminta por sexo se transforma em uma criatura doce.
Batidas na porta me despertaram do meu leve e romanticamente exagerado pensamento. Coloquei um casaco qualquer e abri a porta do quarto. Ouvi a voz de Nikolai me chamar. Me enchi de alegria subitamente até a preocupação voltar a me atormentar.
- Niko? Mas que porra! – Nikolai estava acabado. A cara suja, a boca extremamente machucada e com uma arma à tira colo.
- Acharam minha mulher e meu filho. – Nikolai parecia sério demais e completamente destruído.
- Fizeram algo com eles?
- Não. Foi o mesmo loiro maldito, o tal de Dolph Lundgren. Ele ofereceu 500 mil euros para que Alexia contasse meu paradeiro. Alexia rejeitou e ele foi embora. Foi aí que veio atrás de mim.
- E o que raios você faz aqui? – Nikolai respirou fundo, ele parecia com pressa.
- Eu não volto mais, %Fitzroy%. Vou pegar Alexia e meu filho e desaparecer nesse mundo. Vou deixar as coisas na sua mão. Me desculpe, amigo, eu queria te ajudar, mas eu preciso fazer o melhor pra proteger minha família. Faça o que você quiser, do jeito que quiser. A única coisa que te peço é que incendeie aquela casa o mais rápido possível, eles vão voltar.
- Nikolai, ainda não entendi qual seu problema com a casa. Por que raios você precisa queimar essa porra?
- Lenhador, meu querido lenhador. Já que estamos enfiados na merda, não custa nada se sujar mais um pouco. Assim que eu cheguei aqui fugido do Justice for Saint Mary percebi que teria de reunir todas as informações que possuía sobre eles e registrar em algum lugar. Eu ficaria velho, cansado e não lembraria de tudo mais. Por isso, aqueles papéis. Mas, papel fica velho, %Fitzroy%. Queima, molha, rasga. Por isso eu registrei o restante das coisas nas paredes da casa. Meu quarto, alguns outros cômodos, porão... Tem anotação cravada em madeira pra todo lado. Por isso eu preciso que aquilo queime e acabe, se alguém entrar lá... Vai dar uma porra de uma confusão do caralho. – fiquei puto. Quanto mais nessa história eu não sabia? Quem mais teria que morrer pra que eu descobrisse todo o necessário para acabar com a bosta do mistério?
- E você decide despejar esse caralho na minha cabeça só agora? Obrigado Niko!
- Não me julgue, tudo bem? Levei até onde deu, agora não dá mais. E se não se importa, posso trocar de roupa aqui?
- É claro que pode. – tive ade aceitar a derrota. Dei passagem pra ele e fechei a porta. Nikolai estava um caco em forma de homem, um lixo.
- Você dormiu em alguma trincheira? – Nikolai estava sentado no meu sofá. Quando ele tirou a camisa que vestia vi seu tronco todo machucado, com arranhões recentes e sinais de terra.
- Me encontrei com pessoas no caminho. Tive que fazer uma trilha meio clandestina e acabei entrando no meio de uma negociação de armas. Adivinha só quem se fudeu? Isso mesmo, os caras que tentaram me pegar. - Por isso é bom ser seu amigo, você se vira bem sozinho e eu não preciso me preocupar. Agora só um pouco que vou pegar umas roupas pra você. – entrei no quarto vagarosamente e procurei por algumas peças que poderiam ficar para sempre com Niko. Tentei não acordar %Louise%, mas quando percebi ela já estava na sala.
- Bom dia, Nikolai. – Niko virou-se para ela. Ele me viu na porta fazendo uma cara estranha e abriu aquele sorrisão safado para mim.
- Bom dia, %Louise%. Desculpe te acordar.
- Tudo bem, eu já estava acordada fazia um tempinho e com preguiça de levantar. – sai do quarto e entreguei as roupas na mão dele. %Louise% foi ao banheiro e eu fiquei ali com ele me julgando.
- Você não presta mesmo.
- Nem comece com o sermão. Pode parar por aí. – joguei o amontoado de calças, camisas e dois casacos nele - Aqui suas roupas, não seja mal agradecido.
- Não está mais aqui quem falou, mas você sabe que tá caidinho por essa menina.
- Eu vou tomar essas roupas de você...
- Tudo bem, tudo bem. – Nikolai se levantou rindo. Separou uma das camisas e virou-se de frente para a porta para vestir uma. O barulho de cacos de vidro ecoou pela sala. Olhei para a posição contrária e vi %Louise% estática e boquiaberta parada perto da minha televisão. O copo recém quebrado estava espalhado pelo chão e a água sendo absorvida pelo tapete.
- Você também tem essa tatuagem? – ela perguntou incrédula. Nikolai perdeu a forma descontraída e assumiu uma expressão de preocupação.
- Já viu isso em outra pessoa, %Louise%? – Niko se aproximou dela e sentou-se com sua recém ganhada camisa na minha mesa de centro. - Sim. O novo cardeal da Igreja, o Chielline, tem uma idêntica à sua. - O tal Chielline? O que você se agarrou? Ele tem essa merda? Mas que porra!
- Isso, %Fitzroy%, espalhe minha intimidade por aí. – a garota não gostou do comentário e fez cara de poucos amigos pra mim.
- %Louise%, foco. Isso é sério. Você tem certeza?
- Sim, Nikolai. Essa coisa que vocês têm é reconhecível em qualquer lugar. É uma tatuagem peculiar.
- Capeta, o Justice for Saint Mary está na cidade. %Fitzroy%, precisamos agilizar o nosso plano. Infelizmente, eu não posso ficar aqui até amanhã, mas, pelo menos por hoje, podemos organizar as ideias. Agora não é difícil de imaginar como %Gustav% morreu. Chame o %Carl% porque a porra ficou mais séria agora. E leve a garota embora. – Nikolai levantou-se procurando pelas chaves do carro em seu bolso. %Louise% me olhou completamente perdida e eu a abracei.
- Vamos, vou te levar pra casa. Vai ficar tudo bem. - %Louise% era a mais caótica mistura de medo e preocupação. Sua cabecinha parecia extremamente perdida e inerte à tanta nova informação. Mais que urgente eu teria que fazer algo à respeito.
xx
Se me perguntassem a definição de felicidade eu responderia sem precisar pensar muito que essa era Armand Marion. Seu humor estava abençoado desde que %Gustav% havia ido. Assim que saímos do velório e chegamos à privacidade de nossos aposentos Armand se transformou em uma explosão de empolgação.
Isso me preocupava e minhas preocupações precisavam ser camufladas. Com %Gustav% fora do caminho seria mais difícil controlar os ímpetos de Armand. Ele provavelmente exigiria ações imediatas da minha parte. Agora que possuía a planta da Igreja em mãos não demoraria para que ele descobrisse o inevitável: que o tesouro não mais estava na Igreja.
Eu estava longe de conseguir contato com Nikolai. Se para Marion a não presença de %Gustav% era uma santa benção, para mim era simplesmente um pedaço do inferno. O padre tinha sido uma benção e infelizmente, veio parar naquela Igreja no pior momento possível.
Algo havia despertado o monstro francês. Um algo sujo que fazia Marion agir na clandestinamente para tomar o tesouro. Até onde nossas fontes confiáveis do Justice sabiam, era para uma negociação milionária. Armand não tinha soltado maiores detalhes para mim e eu ainda me via perdido no escuro. Ao passo que descobrisse a verdade, a minha existência passava a ser comprometida. Com %Moore% indo para um lugar melhor, os planos precisariam ser agilizados.
Os objetivos se tornaram mais latentes. Eu precisava de algum manobra para encerrar o problema de uma vez por todas. Descobrir Nikolai e o paradeiro do tesouro era o mais importante naquele momento. Atrasar Armand em suas ideias também.
Entrei no quarto de Armand que lia a Bíblia sentado em sua poltrona. Sentei-me na ponta de sua cama e esperei até que fechasse o livro sagrado e procurasse por mim.
- O que foi, minha ovelha preferida?
- Vim perguntar se você tem algo em mente para mim ou se eu posso tirar um dia de folga. Ando cansado, Armand. – o cardeal sorriu colocando a Bíblia em um criado. Tomou um gole de vinho e levantou-se.
- Chielline, gostaria muito de te dar vários meses de férias. Mas você sabe que essa missão é de extrema importância e que não teremos mais apoio financeiro se demorarmos demais para realizá-la. Então, sim, preciso de você. – o sadismo da voz dele costumava me arrepiar até o último fio de alma assim que nos conhecemos, porém, depois de todo o tempo juntos nada mais causava efeito de espanto ou medo em mim.
- Estou todo à ouvidos, Armand.
- %Gustav% está fora do caminho, morto e enterrado. Graças ao bom Deus. O padre era boa alma, mas, se meteu onde não devia no momento menos propício. Eu sei que ele tinha uma missão aqui e fico feliz que tenha morrido a cumprindo. Farei o possível para que o nome de %Gustav% cresça ao lado dos santos nomes dos santos mártires da nossa Santa Mãe Igreja.
- Armand, algo me passou pela cabeça e talvez fora precipitado matar %Gustav%. – havia pensado em algumas coisas e fazia parte do plano soltar algumas pontas para Marion.
- O que seria exatamente?
- E se %Gustav% achou o tesouro e o escondeu por conta própria? E se o matando nós acabamos com as chances de encontrar o objeto? – Armand parou e olhou para o teto, procurou pensar por alguns segundos voltando a atenção para mim.
- Minha preocupação maior agora não é essa, embora seu argumento pareça plausível. Há outra ideia me perturbando, Chiello.
- E o que seria? – Armand aproximou-se de mim e sentou-se ao meu lado.
- %Gustav% parecia ter bons amigos por aqui, mais que isso, irmãos de vida. Eles não vão engolir essa morte, Chielline, eles vão procurar por respostas e não podemos permitir que eles as encontrem.
- Então?
- Então, querido Giorgio, quero que encontre os amigos do padre e se livre deles. - Armand era uma cobra experiente e terrivelmente inteligente. Seu raciocínio estava certíssimo. Não queria sujar mais minha mão de sangue, portanto, eu procuraria pelos amigos e pensaria em algo após isso. Pensando, lembrei-me do homem que %Gustav% apresentara para mim no dia de sua morte assim que o convidei para a missa. Eu já sabia por onde começar a procurar.
- Certo. Se isso é o que tenho a fazer é isso que farei. Darei uma volta pela cidade procurando por informações. Mais algo?
- Não, Chiello. Se preferir, pode começar pela manhã.
- Se me permite, prefiro procurar por algo agora, é um horário melhor para achar pessoas transitando pela cidade.
- Como quiser. – Armand sorriu para mim. Se pôs de pé de gentilmente e abriu a porta.
Me vi no corredor com o cérebro pegando fogo. Eram pensamentos caóticos se cruzando. Pela mãe de Jesus, eu não suportaria mais toda aquela história por mais tempo. Assim que cheguei à área comum avistei Manterfos. O jovem comia um pedaço de torta de pêssego mirando o horizonte pela janela.
- Boa tarde, Manterfos. – ao ouvir minha voz o garoto se sobressaltou. Derrubou o pequeno garfo de prata ao chão e virou-se me encarando com medo.
- Chielline!
- Sim, sou eu. – ri sem graça – O que houve?
- Nada. – recuperou o garfo perdido e voltou a olhar a paisagem.
- Manterfos, você está bem?
- É óbvio que não, não é cardeal? – o jeito que falava expressava a frustração por ter perdido um bom amigo – %Gustav% está morto e eu não pude impedi-lo.
- Sinto muito Manterfos, sei que fora uma perda enorme para você. mas, não pode se culpar. A culpa não é sua, não há nada que poderia fazer a respeito. – me aproximei do jovem e me coloquei ao seu lado. Abracei-o pelos ombros tocando nossas vestes.
- Eu gostaria como o inferno de ter feito algo, Chielline. – sua voz era formada por resquícios de vingança e ódio. Manterfos não parecia apenas entristecido, havia uma chama de rancor naquele menino.
- Não seja tolo, Manterfos. Você não teria como prever. Estou indo lá fora para dar uma volta, tomar um ar. Gostaria de ir comigo? – uma risada nasalada de escárnio fora solta.
- Dar uma volta? Não sou idiota, Chielline. Sou muito menos tonto do que imagina.
- O que está insinuando, garoto? – o discurso estava estranho demais.
- Não vou dar volta nenhuma e... eu poderia ter impedido.
- Poderia? – comecei a desconfiar. O garoto parecia querer me passar uma mensagem.
- Sim, eu poderia. E me poupe desse teatro, eu sei o que fez. – a adrenalina misturou-se ao meu sangue, fiquei agitado e extremamente ansioso. Uma falha desse tamanho não poderia ser aceita.
- Manterfos, não faça isso. Não tente ser o justiceiro dessa história, não quero ter que fazer nada à respeito.
- Ah, então vai me matar também? – o garoto desprendeu-se de mim e afastou. Agora estava cara a cara comigo com o diabo em seus olhos.
- Manterfos... Não faça isso. Você não sabe onde está se metendo.
- Pois me mate Chielline. Eu não me importo. Mas me mate aqui e agora, pois se eu pisar o pé lá fora, acabo em cinco minutos com essa palhaçada. – segurei em seu braço com força, ele tentou se desprender em vão.
- Manterfos, eu sei muito bem o que fiz, não seja estúpido. As coisas não são como você pensa.
- Tem alguma arma aí para você meter um tiro no meio da minha testa ou só mata com veneno em taças de vinho? – o filho da puta ... Como? Como ele havia visto? Como ele sabia? Estava tão puto comigo mesmo que minha vontade era de meter o tiro na minha testa, não na dele.
- Garoto, me escute. Eu envenenei sim o vinho de %Gustav%. Ele entrou naquela ambulância sim, por minha culpa. %Gustav% foi daqui para um lugar melhor, sim. Mas eu tenho um ótimo motivo para isso. Não ponha nada em risco por pura estupidez.
- Não sou otário, cardeal filho de uma puta. Você não vai me enganar, eu vou contar. Eu vou abrir a boca e você só vai me impedir se acabar com a minha vida agora. – eu precisava pensar rápido, na velocidade da luz. Seria impossível matá-lo naquele instante e mesmo que tivesse uma arma em mãos, não o faria. Eu não mataria mais uma formiga naquela cidade. Mas também não deixaria Manterfos escapar dali e por tudo a perder.
- Eu tenho uma proposta. – o garoto escarrou na minha cara. Ele não estava com medo algum. Se tivesse que morrer, morreria com o orgulho e a coragem em seu peito. Eu respeitava esse tipo de atitude.
- Não aceito nada vindo de ratos como você e Armand.
- Manterfos, pelo corpo de %Gustav%, me escute.
- Não ouse citar o nome dele. – as lágrimas começavam a aparecer em seus olhos. – Não fale de %Gustav%, uma boca imunda como a sua não pode e não tem o direito de citar o nome dele. Eu não aceito proposta nenhuma, não adianta tentar me comprar.
- Moleque, você está me forçando a fazer algo que não quero... – outra cusparada. Raio de menino! Me vi desesperado, alguma coisa teria que ser feita. Esmurrei-o então, sem dó e piedade. Vi em câmera lenta a cabeça de Manterfos fazendo uma trajetória pra trás e logo voltando à posição original. Sua boca sangrava e o mesmo sangue que escorria por seus lábios voou na minha cara novamente. – Me desculpe por isso – desferi outro e mais outro. Até que então Manterfos se desmontou em meus braços. Tirei sua jaqueta e limpei o sangue que havia sujado o chão. Tomei-o em meus braços e fui com ele para fora. Segui o caminho que levava para a antiga casa dos pobres. Parei ao topo da colina e abri a porta cuidadosamente. O coloquei sobre a mesa e usei o que podia para mantê-lo ali amarrado. Usei uma fita que encontrei nos armários abertos para tampar sua boca. Infelizmente, o ato violento e quase trágico seria catastroficamente necessário.