Chapter XVI
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Todos os músculos do meu corpo estavam confusos. Desde os estriados até os lisos. Minha biologia inteira estava errada.
A boca seca demais.
O coração rápido de menos.
Alguma coisa estava errada. O magnetismo da terra parecia estar anormal. As forças cósmicas não estavam do meu lado. O caminho para o púlpito nunca me pareceu tão longo, tão vagaroso. Cada pessoa sentada me parecia um vulto negro demoníaco. Por um momento eu senti que Deus não estava comigo.
Eu o amaldiçoei e logo depois pedi seu perdão. A confusão estava impregnada na minha alma de uma forma sombria. Subi ao púlpito e vi todas aquelas pessoas à minha frente. Cada olho, cada nariz, cada orelha, cada pedaço de existência parecia me julgar.
Então eu voltei a me lembrar que era uma missa de homenagem. Era um ritual simbólico de velas para reviver cada pessoa morta naquele trágico incidente. Alguns já deixavam as lágrimas correrem e outros continuavam com a expressão desdenhosa de quem só estava ali para não fazer feio perante à sociedade.
Respirei mais fundo. Mais e mais fundo. Fui até o poço do desconhecido procurar por ar e força. Nunca precisei de tanta coragem na vida.
- Queridos irmãos e presentes. A missa de hoje não é uma missa normal. Estamos todos aqui, neste dia hoje, para que possamos lembrar e homenagear a vida daqueles que foram inocentemente. Muitos deles não deixaram familiares, amigos ou qualquer pessoa que pudesse sentir sua falta. Isso me faz pensar em como o pecado é uma praga injusta em nosso mundo. Quantas pessoas inocentes já morreram em acidentes? Em tragédias sem fim? Morreram por mãos de outras pessoas. – o olhar de todos pairava de forma congelada em mim. Todas as atenções voltadas para mim. Era um show dos horrores e eu sentia que poderia vomitar à qualquer momento. – Irmãos, lembrem-se nesse momento porque é que precisamos daquele que habita as Santas alturas dos céus. Nós não somos nada além de pequeninas criaturas. Pequeninas criaturas vivendo na imensidão desse mundo. E esse mundo é cruel, sujo e violento. Se jogados aqui somos presas da morte, da tristeza. Se nosso Deus existe é para nos livrar desses males. E mesmo quando, irmãos, Deus parecer distante, parecer ter esquecido de vós, jamais esqueçam que ele sempre está à nossa volta. Até mesmo no sofrimento, até mesmo quando não parece possível. Quando queridos se vão nós pensamos no nosso sofrimento e talvez esqueçamos de pensar que fosse a hora certa. Mas, não a hora certa para nós e sim a hora certa para eles. Tudo na vida possui um propósito e quando chegamos ao fim da caminhada nós conseguimos perceber que apesar do sofrimento e da dor, coisas boas aconteceram. É por essas coisas boas que devemos agradecer todo o minuto. – minha voz estava engasgada. Um pressentimento horrível caía sobre mim. Manterfos procurava meu olhar à todo minuto. Ele parecia querer dizer algo, me alertar. Então eu desisti de lutar. Nada poderia impedir o futuro breve.
Eu me levantei e fui até ele. Manterfos era o coroinha que me acompanhava em toda santa missa com as hóstias. Em qualquer outra Igreja seriam os ministros, mas eu sentia algo especial por ele e gostava de sua companhia.
- %Gustav%...
- Manterfos, sei que quer me dizer algo. Eu consigo sentir, então me faça um favor. Não tente impedir, tudo bem?
- Mas, padre...
- Sem mas, é a única coisa que te peço. Você sabe que pode confiar em mim, não sabe?
- Sim, mas...
- Pois confie, Manterfos. Por favor. – ele relutaria mais se desse espaço. Então quebrei o protocolo. Tomei a hóstia em minha mão e o cálice. Se alguma coisa poderia me acalmar naquele momento, seria vinho. Caminhei novamente até o púlpito. Os olhares continuavam pregados em mim. Eu podia ouvir o burburinho das pessoas. Elas estavam confusas com minha ação. O bispo do outro lado pareceu me deixar em meu ritual particular. Chielline ao seu lado olhava com curiosidade e do outro lado, totalmente isolado, Armand sorria para mim.
- A hóstia e o suco de uva. As lembranças do sacrifício do filho de Deus. – eu não conseguia olhar para meus fiéis; então vi %Carl% lá no fundo sorrindo para mim. Retribui o sorriso e prossegui, ele me daria forças. – Em João 3:16 temos que Deus deu seu filho unigênito para que todo que Nelê crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Todos aqueles homens, mulheres e crianças estão em um lugar melhor, todos eles vivendo para sempre na glória de Deus.
Tomei a hóstia em minhas mãos. %Carl% ainda sorria. Com muita tranquilidade a coloquei em minha boca. Senti a textura derreter. O pão sem fermento e sem gosto. Minha garganta estava travada. Segurei o cálice com força. Com pressa o coloquei em meus lábios. O líquido me refrescou, todas as gotas molhando minha língua e lavando minha alma. – Assim como Deus nos disse em Apocalipse 2:10 ... – senti meu corpo amolecer. cada célula atrofiando-se aos poucos. Meus olhos vacilaram e minha voz parecia querer me abandonar. Sê fiel até a morte e dar-te-ei ... – eu não mais conseguia ver pessoas, apenas luzes e manchas coloridas. Meu pé vacilou para trás e me escorei no púlpito para manter o equilíbrio. Manterfos me chamou e veio até mim, com os braços fracos pedi para que se afastasse. -... a coroa da vida. - Minha traqueia travou, o oxigênio pareceu se esquecer de mim. Pelo o pouco que ainda podia sentir, percebi %Carl% correndo até mim. Não sei exatamente como, eram os reflexos do instinto de sobrevivência.
- %Gustav%... %Gustav%... o que houve? Respire, força! – %Carl% me segurou e deitou-me no chão. Sua voz era aflita. – Alguém chame uma ambulância, urgente! Pelo amor de Deus, chamem uma ambulância.
- %Carl%... não se preocupe.
- Cale a boca, padre, guarde energia. – %Carl% não entendia, minha vida já havia ido. Cada vez mais eu me sentia deslocado do plano terreno. Minha existência ia pouco a pouco se descolando dos meus ossos.
- %Carl%, me ouça, por favor. – o gosto de sangue atingiu meu paladar. Comecei a tossir, assim como os pobres mortos dias atrás.
- Fale, %Gustav%, fale ... – o açougueiro tinha a voz chorosa. As lágrimas dele escorreram no meu rosto.
- Foi bom ter te conhecido. – sorri do jeito que podia – Você é uma pessoa maravilhosa, um anjo do Senhor.
- Não fale assim, seu infeliz, se você morrer eu te mato.
- %Carl%, não seja tonto. – minha voz era cada vez mais fraca e rouca. Abri meus olhos e por um minuto o vi na minha frente. – Ora, %Carl%, não chore. Eu ainda preciso que cuide daquele lenhador pra mim.
- Você não vai morrer, me ouviu? Não vai. Aguenta firme. – tentei respondê-lo, mas não pude. O sangue tornou-se mais viscoso e contínuo na minha boca. Por um momento me afoguei naquele mar de saliva avermelhada. – %Gustav%! %Gustav%! Fica comigo! – %Carl% já gritava. Ele começou uma massagem cardíaca tentando me recuperar. A partir daí tudo tornou-se uma lembrança confusa. %Carl% gritava, Manterfos também. Ouvi a voz do bispo se aproximar pedindo para as pessoas saírem da frente. O barulho da ambulância, os enfermeiros. Me puseram na maca e alguém segurou minha mão. Não era mais %Carl%.
- Vou com você. – era a voz de Chielline – Eu vou com você. – ouvi o barulho das portas da ambulância se fechando. Abri os olhos mais uma vez resgatando o fim das forças e vi Girgio na minha frente. Tudo então fez sentido. A casa dos pobres... e agora era a minha vez, não? Teria que aceitar isso pelo bem de todos. – Eu estou com você. – foi a última coisa que ouvi naquele dia. E para sempre.
Eu não iria chorar, não ali.
Estava eu segurando a alça de metal na parte da frente. %Carl% ao meu lado direito e Viktor, pai de %Gustav%, à esquerda. Atrás estava Manterfos se acabando em lágrimas. Eu mal sentia o peso do caixão negro.
O caixão estava repleto de rosas brancas na parte superior. Acho que era o cheio das flores que foi capaz de me entorpecer e me dar forças para fazer aquele trajeto. O bispo rezava alguma coisa enquanto a mãe de %Gustav%, Katja, era acudida por outras pessoas por desmaiar novamente.
Mas ... eu não consegui.
Ao ver o caixão descendo ao solo... Ao ver a terra sendo jogada... Ao ver as flores sendo lançadas... Eu desabei. Não havia porte físico, orgulho ou masculinidade no mundo que pudesse impedir meus olhos de derrubar aquela água salgada.
%Carl% veio do meu lado. Sem me importar com nada eu o abracei. Ele devolveu o abraço e nós ficamos ali... sentindo. Eu me sentia culpado, mesmo sem ter culpa. Deveria ter feito algo. Prometi a mim mesmo que cuidaria de cada um dos meus amigos. O fel do fracasso preenchia meu paladar. Além do mais, %Gustav% só voltou à cidade porque eu o chamei. Sua volta o colocou em um fogo cruzado, no meio de uma confusão misteriosa. Sabia no meu interior que a morte dele tinha algo a ver com todo aquele problema.
Os pais de %Gustav% vieram ao nosso lado. Katja grudou meu rosto com suas mãos enrugadas. Os olhos verdes dela, tal quais o de %Gustav%, mostravam uma dor imensurável.
- %Fitzroy%, o nosso menino ...
- Eu sei, Katja, eu sei. Não precisa dizer nada. – logo Viktor se aproximou tomando a esposa para si. Limpou as lágrimas da amada e sorriu para mim.
- Ele não iria querer nos ver chorando. %Gustav% era tão feliz ... ele estava tão feliz depois de ter voltado para cá. Ele citou você e citou %Carl%, o novo amigo que tinha feito. Obrigado, %Fitzroy%, obrigada por fazer meu menino feliz enquanto ele estava aqui.
- Viktor, você não precisa me agradecer e você sabe disso. – o homem juntou-se a mim e a esposa. Ficamos ali em silêncio, um compartilhando da dor dos outros.
- %Fitzroy%, menino, eu preciso ir descansar. – Katja limpou os olhos com o milésimo lenço de papel – Viktor, por favor...
- Nos vemos antes de irmos. – Viktor despediu-se e partiu com a mulher apoiada em seus braços.
Fiquei parado olhando para o horizonte. O tempo estava cinzento, como se a própria natureza estivesse de luto. Minha carne inteira estava se remoendo, sangrando em tristeza. Não era justo, eu nunca conseguiria aceitar.
- %Fitzroy%. – %Carl% me chamou pegando em minha mão e nos distanciando da multidão – Sei que não é hora, mas devido a isso ... – apontou com os olhos para a cova recém coberta -... precisamos ir à sua casa conversar. Aconteceu algo muito perturbador e é por isso que disse que eu, você e ele precisávamos conversar. – se possível eu gostaria de guardar dias de luto. Me trancafiar em casa e esquecer o mundo. Eu poderia? Não. A morte da %Gustav% tinha sido uma tragédia inexplicável e que mais parecia armação do qualquer coisa. Precisava por meus demônios para fora e apenas %Carl% poderia me ouvir.
x
Liguei a televisão e deixei em um canal qualquer. Queria ouvir um barulho que pudesse me abster da realidade um pouco. %Carl% nem pediu autorização, enfiou a mão na porta da geladeira e pegou duas garrafas de cerveja. As duas para ele porque eu tomaria vinho, uma porra de uma garrafa inteira de vinho.
- Vai, %Carl%, conta logo. Estou cansado e não quero que isso dure a noite toda. - nem me dei o trabalho de sentar por achar que depois não teria as forças necessárias para levantar.
- Tudo bem. – %Carl% respirou fundo procurando inspiração. A boca de todo mundo estava sofrendo de demência temporária, era difícil processar as palavras. - O negócio é o seguinte, resumidamente, um cara chamado Dolph Lundgren foi até o açougue perguntar por um homem chamado Nikolai. - cuspi o vinho que estava na minha boca. A mancha bordô sujou minha toalha de mesa e eu ficaria bravo sobre isso depois.
- Mas que porra anda acontecendo nessa cidade? – chutei o pé da mesa como se tivesse chutando a cara do meu pior inimigo. Estava tão emputecido com a vida, com o destino, com tudo. – Uma pessoa acha Nikolai que é o melhor jogador de esconde-esconde do mundo, %Gustav% morre da maneira mais misteriosa e sem noção... %Carl%, mas que merda é essa? – meu maior desejo naquele momento é que alguém fosse capaz de aparecer na minha frente e dizer, %Fitzroy%, sente-se, vou te explicar tudo.
- E você acha que eu também não gostaria de saber? Olha para trás. Se lembre de todas as coisas que a gente conversou aqui. Não chegamos à uma conclusão sequer e tudo saiu dos eixos. Agora %Gustav% está morto e o que é que nós sabemos? Nada! – como eu queria ser um cavaleiro do apocalipse naquele momento. Acabaria com a existência humana e o próprio cosmos em dois palitos.
- O que você disse à ele, %Carl%?
- Mas ora, o que acha? Disse que não sabia quem era o sujeito. Você acha que eu iria entregar o esconderijo do Nikolai assim de bandeja?
- Só sei de uma coisa, meu querido açougueiro. – comecei a fazer uma retrospectiva. Juntei os cacos dos meus neurônios e os coloquei para funcionar. Analisei fato por fato e cheguei à uma lógica e clara conclusão. – %Gustav% caiu no meio do tornado de paraquedas. Se ele morreu dessa forma tão nojenta é porque nós realmente estamos por perto. E se há justiça nesse mundo, nós vamos chegar mais perto ainda. Não vai ser agora que eu vou desistir. – %Carl% se levantou me fitando sério. Levantou o braço na altura de seu tronco e me estendeu a mão.
- Então estamos juntos nessa, lenhador de araque? Cavando até o fim do universo para resolver esse caralho? – sua voz era contundente, estridente. Os olhos brilhavam emanando a sede por vingança e justiça.
- Estamos, minha carniça. – alcancei sua mão. Demos um aperto forte, devastador. Puxei %Carl% pela gola da camisa e beijei sua testa. Queria ter feito isso em %Gustav% antes que ele tivesse ido. Ele tinha o direito de saber o quanto eu o admirava e amava, o quanto ele tinha sido importante para mim.
- Antes que você morra, praga dos infernos, saiba que eu te amo. – finalmente aquelas bochecha raivosas se abriram para que a boca dele pudesse sorrir.
- Eu também te amo, zé caralho. – %Carl% deu uns tapinhas do lado esquerdo da minha face e se afastou procurando pelo resto da cerveja.
- Agora, %Carl%, vá pra casa e fica com as suas meninas e Ana. Elas devem estar assustadas. Vou até a casa de Nikolai para contar toda essa merda.
- Vou mesmo, antes que eu beba demais e esqueça o caminho de casa. – chegamos juntos à porta e aquele sentimento horrível de abandono tomou conta de mim, pela primeira vez em anos eu não sentia mais aquela vontade arrebatadora de ficar na solidão.
- Se acalme que a gente vai resolver tudo. – %Carl% me olhou uma última vez antes de apertar minha mão novamente. Assim que o vi sumir entre as árvores escorei-me na porta.
Vamos seu bosta, reaja.
Dei a volta na casa e cheguei à minha área de trabalho. Avistei meu machado cravado em um pedaço de madeira. Em virtude dos últimos acontecimentos me parecia plausível andar armado. Me lembrei do dia em que %Carl% me perguntou se eu ainda andava armado pela cidade, ele me alertou sobre pessoas estranhas rondando a floresta. Por um momento tomei precaução. Tentei ser cuidadoso e cuidar das coisas direito. Não durou muito tempo. Acabei deixando a chama da revolta apagar.
Veja só, minha falta de cuidado, minha falta de foco e comprometimento resultaram em catástrofe. O que eu havia feito de errado? Me preocupei em cuidar de %Louise%, me preocupei em fazê-la gozar. O que eu ganhei com isso? Tantas coisas que eu nem ao mesmo poderia contar nos dedos. O problema era que eu havia perdido %Gustav% na brincadeira e seria quase impossível tirar o peso disso das minhas costas.
Rumei em direção à casa de Nikolai. Tinha gente procurando por ele e a última coisa que nós precisávamos naquele momento era de outra pessoa morta. Quando me aproximava de sua pequena clareira tive que me perturbar. Fora uma reação automática ao que via.
- Nikolai? – meu chamado tinha sido muito mais um pedido de explicação que simplesmente chamar seu nome.
- %Fitzroy%. – o olhar do meu velho companheiro de floresta estava estampando o amargo da derrota.
- Você ficou sabendo? – me aproximei e o ajudei a por um pesado pacote envolto em couro na capota de sua caminhonete.
- Do padre? Sim. – colocou a mão em sua não definida cintura e mirou o chão. – Uma merda, não? Uma porra de uma merda, %Fitzroy%. Uma porra de uma merda injusta do caralho. Vê, eu estou puto.
- Ei, ei. Calma. Eu te conheço bem o suficiente para saber que não desmontaria acampamento só pela morte do padre, não é mesmo? Eu sei o que aconteceu.
- Me acharam, lenhador. Depois de todos esses anos, depois de tudo... alguns filhos da puta foram capazes de me achar. – enquanto eu exalava a mais pura depressão, Nikolai exalava a mais pura fúria.
- Exatamente isso que vim te falar, perguntaram por você no açougue. Vejo que foi tarde demais.
- O cara bateu na minha porta, %Fitzroy%. Na minha porta. Fui pego de surpresa, sem nenhum plano de escape. Estou tão puto e me julgue pelo meu egoísmo, mas a morte de %Gustav% mal mexeu comigo. Me pegaram de calças curtas aqui. E sabe o que mais? Me perguntando sobre o tesouro. – sua risada nasalada não possuía o mínimo teor de graça, era puro escárnio. – E sabe qual é a maior piada? Um filho de uma vadia chamado Dolph Lundgren, loiro, alto feito o diabo e com o sotaque sueco mais natural que já vi na minha vida, aparece na minha porta me oferecendo uma porra de uma maleta cheia de euros. Cheia de 1 milhão de euros. Consegue acreditar nisso? – eram informações demais para que eu pudesse processar.
- Nikolai, meu cérebro ficou mais travado do que estava. Me ajude a achar a lógica disso.
- Não tem lógica. Eu mal sabia o que responder. Nunca tinha pensando em o quê responder quando batessem na minha porta porque... eu nunca pensei que fossem bater na minha porta.
- E então?
- O que você acha? – apontou para sua caminhonete. Só então percebi o quanto a caminhonete estava cheia de malas, pacotes, utensílios e tranqueiras. – Estou picando a mula, lenhador.
- Niko... – minha voz trepidou. Outra perda? Um dia depois? Meus melhores amigos simplesmente... indo? E para longe de mim?
- %Fitzroy%, eu sei. Me desculpe. – Nikolai não era de abraçar, de demonstrar carinho. Ele era daquele jeito grosseiro, mas extremamente bondoso. – Mas, eu não posso. Se me acharam também vão achar minha mulher e meu filho. Não me perdoaria se algo acontecesse à eles, preciso partir. – estava tão fraco e perturbado. Mas não seria ali que eu desabaria. Retomei as rédeas do meu emocional.
- Resolve de lá que eu resolvo daqui? – ele sabia do que eu estava falando.
- É claro que sim. Disse ao loiro que eu não sabia onde a porra estava, o que é verdade. – ele pareceu não acreditar e eu não entrei em detalhes. O infeliz agradeceu a vazou fora. Duvido que ele fica sem aparecer por muito tempo. Agora vem aqui. – pegou um pacote que estava no chão e entregou nas minhas mãos. – Esses são todos os papéis, documentos e porcarias que eu tenho sobre esse tesouro. Pelo jeito, o tal cardeal não é o único procurando por ele. E nós temos que garantir que isso não caia em mãos erradas. E tome cuidado, eu pretendo voltar em breve para uma visita. – mais uma tonelada de responsabilidade se despejava nas minhas costas. Ótimo não? – E tem outro favor que eu preciso te pedir, não questione, tudo bem?
- Manda bala, nada vai me surpreender, não hoje.
- Deixei alguns litros de diesel no porão. É só entrar lá pelos fundos. Se eu não vier em sete dias, me ouça bem, ateie fogo na casa.
- Ok, disse que nada iria me surpreender, mas pelo visto eu me enganei. Que porra você está pensando, viado? – atear fogo na casa? Simplesmente riscar um fósforo e fazer uma fogueira gigante? Mas que raios!
- Essa casa tem história. Tentei tirar tudo que fosse importante daí de dentro, mas nunca se sabe. Não quero deixar rastros. Preciso de um plano B e esse é o meu. Sem questionamentos, pelo amor de Odin.
- Fogo na casa? Certo, eu posso lidar com mais isso. – minha massa encefálica estava derretendo. Como Nikolai mesmo havia dito, a porra tinhaa fodido de um jeito filho da puta.
- Agora eu preciso ir, confio em você. Se acharem esse tesouro, faça o que quiser com ele. Não me importo com essa coisa, quem eu queria foder eu já fodi.
Me despedi de Nikolai, do nosso jeito. Do nosso estranho jeito.
Vi sua caminhonete partir. Ficando cada vez mais e mais longe. Então ela sumiu do meu horizonte. E eu me vi sozinho, justo no único dia em todo aquele tempo em que eu estava morrendo por uma companhia.
Uma mistura meio incompreensível de dor, revolta, raiva e tristeza preencheu meu ser. Tudo se concentrou na minha mão direita. Lancei o machado ao ar. O vi em câmera lenta rotacionar até cravar-se em uma árvore. Caminhei até lá, retirei o machado e o enfiei de volta.
De novo e de novo.
Até minhas mãos quase sangrarem. Castiguei aquela árvore com minha ferramenta de corte como um bode expiatório. Eu não funcionava muito bem quando estava com raiva e infelizmente, precisaria de uma mente limpa e de um raciocínio cristalino para lidar com todos os problemas.
Por isso eu precisava descarregar todo resquício de raiva. Quase derrubei a árvore, parei os movimentos quando o machado caiu ao chão. Me abaixei para pegá-lo e só então percebi que não teria forças para levantar.
Minhas forças resolveram descansar. Fiquei jogado feito um cervo morto no chão. A respiração perdida e os olhos cedendo. Senti o salgado da lágrima na minha boca rachada. Ardeu. Ardeu ainda mais quando esfreguei a mão suja em minhas pálpebras em uma tentativa patética de estancar o choro.
Chore, %Fitzroy%. Chore agora porque você não poderá chorar amanhã.
Desmontei na grama rala. Soltei o urro mais perturbador que poderia tirar de mim. A garganta vibrava enquanto eu gritava em alto e bom som. Que todo o mundo pudesse me ouvir. Tomei o machado em minhas mãos e o levantei em direção dos céus. Foi aí que em deixei desabar.
Já chorava como uma criança recém-nascida. Já me debulhava em lágrimas como uma esposa abandonada no altar. Que se fodesse. %Gustav% merecia meus mais puros sentimentos. Estava exorcizando minha agonia e todos os demônios que poderiam me enfraquecer. Me deixei derrotar.
Então cessei o choro.
- %Gustav%, não importa onde você esteja, não vou te deixar sozinho. E eu vou matar o filho da puta que fez isso a você com minhas próprias mãos. – minha voz era uma ode à coragem. Abaixei o machado e me coloquei de pé. Olhei para todas aquelas árvores. Mirei cada uma daquelas folhas e jurei a cada pedaço de mim que eu iria até o inferno se fosse preciso.
Recolhi os papéis e parti em direção à minha casa. Sem pressa alguma. Tentei afastar os pensamentos ruins que me culpavam da morte do padre. A culpa por não tê-lo protegido, por não estar lá em seu fim. Eu me lembraria dos momentos alegres e felizes. Guardaria para mim suas virtudes, sua moral e seus conselhos.
Já estava bem próximo de casa quando vi %Louise% sentada à escada da minha varanda. Em qualquer dia normal eu a xingaria por ter saído de casa e por estar lá. Daria bronca por sua irresponsabilidade e a faria se sentir uma menina mimada. Mas não naquele dia. Tudo que eu precisava era de um carinho, de um abraço, de um ombro.
- Ei. – timidamente ela levantou os braços. Me sentei ao lado dela deixando o machado como peso para que os papéis não voassem.
- Fico feliz que tenha vindo. – a puxei para mim, abraçando-a pelos braços.
- Pensei que pelo menos hoje você entenderia minha visita. – seu sorriso era o mais tímido de todos. Muito provavelmente queria dizer algo para me confortar e não sabia como.
- Obrigado por ter vindo, não imagina o bem que isso está me fazendo.
- Eu sinto muito. – os olhinhos que costumavam ser tarados agora carregavam uma áurea de compaixão.
- Todos nós sentimos, %Louise%.
- Eu quase fui àquela missa, mas você sabe, o encamento. – parece que ali também morava um sentimento de culpa.
- Garota, a culpa não é sua. Nem ouse pensar nisso.
- Eu sei, eu sei. Mas fica aquele vazio, você deve saber.
- Ah, tenha certeza que eu sei. Agora vem, vamos entrar. – a ajudei a se levantar. %Louise% pegou os papéis e machado para mim e entramos em casa. - Fome?
- Não, mas fique à vontade. – fomos à cozinha e eu me servi do sanduíche mais mal feito e frio do universo.
- %Fitzroy%, essa comida tá com uma aparência horrível. O tomate está caindo fora do pão. – ela tinha aquele poder de me ajudar abstrair de tudo. Com %Louise% do meu lado eu via um novo mundo onde nem tudo precisava ser ruim.
- Agora você entende quando eu digo que não é responsável andar pela cidade à esmo? Quando não é seguro vir até aqui sozinha?
- Eu sempre soube, mas agora eu sei mais.
- %Gustav% morreu dentro da própria Igreja, imagine o que pode haver fora? – a expressão facial dela mudou. O modo tímido e até mesmo medroso passou a ser preocupado de um jeito que não me agradava.
- Você acha que foi assassinato? – a boca abriu-se em surpresa. A garota realmente se chocou com a possibilidade, inocente alma.
- Não agora, %Louise%, por favor.
- %Fitzroy%, não é possível.
- %Louise%, por favor. – aquela carinha que odiava ser contradita se fez presente. Minha voz saíra demasiadamente grosseira.
- Tudo bem, só queria saber se você estava bem. – ela se levantou em clima de despidida.
- Garota, nem ouse me deixar aqui sozinho. – virou-se de frente para mim com um sorriso vitorioso no rosto. Teria que aguentar crise de ego adolescente justo naquele dia.
- Precisa de mim? - os dedinhos foram enrolar o cabelo, vi uma risada danada tomar forma. %Louise% sabia fazer charme e manha quando queria.
- Não quero ficar sozinho. – as sementes de tomate escorriam na minha barba e minha cara de zé mané deveriam entregar meu espírito perdedor.
- O Senhor Solidão não quer ficar sozinho? Isso é interessante. – garota abusada, assim que me recuperasse eu daria um jeito naquela língua afiada.
- %Louise%, não hoje ...
- Tudo bem, me desculpe. E sim eu fico, já sai de casa com essa intenção.
- Então isso aqui foi só um teatrinho pra me fazer implorar? – a fitei de cara fechada. Estava triste por ter perdido %Gustav%, mas feliz por ter ganhado %Louise%.
- Não seja dramático. – ela voltou a mim e tirou o sanduíche da minha mão. Puxou a cadeira dando espaço para que se sentasse no meu colo. As mãos macias e cheirosas foram as minhas bochechas geladas. Fechei meus olhos com aquele toque doce que não era o que costumava ter de nenhuma mulher. – Obrigada por me deixar por perto.
- Você não precisa me agradecer, sua tonta. Se quiser pagar pela hospedagem é só lavar a louça. – senti o estalo na testa.
- Seu abusado! – %Louise% meteu um tapa desajeitado em mim que nem ao menos chegou doer.
- Agora vem, preciso de um banho e preciso de ajuda. – dei um jeito de pegá-la e meu colo e me levantei. A garota ria percebendo mina ideia pervertida. A levei direto para o banheiro. As mão delicadas foram prontamente me despir. Vagarosamente e de um jeito tão gostoso... Mas eu não estava exatamente o ser mais tarado do universo.
- Preciso de mais carinho que putaria hoje.
- Deixa comigo. – a boca se aproximou da minha e me deu um selinho leve, totalmente doce. Os lábios passaram a correr pelo meu rosto. Sexo pesado, a inflamação do tesão eram coisas simplesmente incríveis. Mas aquele toque tão angelical havia conquistado um espaço entre os meus desejos.
Me vi no box. %Louise% me aquecia mais que água. Ela estava à minha frente ensaboando meu peitoral. A garota parecia se divertir com a fortaleza muscular do lugar. Eu adorava deixá-la sem sentidos com o meu corpo. %Louise% descia as mãos, cada vez mais minha respiração se intensificava. Ela estava indo em direção dele. - Ei mocinha. Cuidado. – alertei levantando seu queixo para cima. Fiz com que olhasse para mim e a encarei sugestivo.
- Só uma punhetinha para você dormir relaxado. – %Louise% piscou sapeca. Seria idioticesse e das grandes da minha parte negar.
- Mas vai te que ser gostasa, hm?
- Está duvidando de mim? – pôs-se na ponta dos pés para alcançar minha boca. Ela mordeu meu lábio superior impedindo minha resposta. Quando dei por mim as mãos já acariciavam minhas bolas.
- Isso, gatinha, desse jeito.
- Você gosta do meu jeito? - o toque subiu para minha virilha. Percebi que ela ficaria enrolando, me provocando. Normalmente eu preferia assim, mas tendo em vista meu dia... eu queria gozar e apenas gozar naquela mão gostosa.
- Você está quase melhor que eu, sabia?
- Ah é? E o que falta pra ficar melhor? – puxei seu rosto pro meu. Peguei naqueles cabelos com vontade e grudei com força.
- Me fazer gozar logo. – soltei um sorriso pervertido que foi recebido com animação. Teria dito qualquer besteira a mais se não tivesse desaprendido a falar no momento surreal e majestoso em que aquela putinha manhosa de nome %Louise% pegou com toda a vontade do mundo no meu pau. Aquela porra tinha que ser só minha, ela tinha que fazer aquilo só para mim.
A coisa foi. %Louise% batendo a punheta mais deliciosa de todos os tempos enquanto mordia meu pescoço. Pedi para que fosse mais rápido e ela foi. Certeira como eu com meu machado. Joguei a cabeça para trás e escorei na parede. A outra mão dela foi meus testículos e o estímulo duplo fora a faísca que faltara. Estava eu ali, gozando nas mãos da minha menina.
- Eu adoro seu gosto. – %Louise% lambeu dedinho por dedinho. A puxei pelos cabelos ainda presos em mim e beijei sua boca da forma mais carinhosa e sincera que eu podia.
- E eu adoro você. – ela sorriu sem total graça e eu beijei o sorriso que eu mais queria do meu lado para o resto da minha vida.