Chapter XIX
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Três batidas compassadas na porta.
Tudo aconteceu em câmera lenta.
Na primeira %Carl% me olhou atônito. Me levantei e fui em direção à porta.
Na segunda %Carl% tentou me acalmar e eu o ignorei me levantando do sofá com toda a fúria engasgada.
Na terceira minha mão estava na maçaneta quase arrancando-a fora.
Não houve uma quarta. Ao abrir a porta dei de cara com %Louise% à minha frente, sorridente. Dei um beijo em sua testa e passei por ela. %Louise% virou para trás me chamando e eu a ignorei, não por maldade, mas, eu tinha algo a fazer.
Manterfos estava à minha direita, levemente preocupado. Ele iria vir até mim, mas estiquei meu braço em sua direção o obrigando a ficar longe. Meu objetivo era a terceira pessoa. O puto do cardeal.
Chielline era um mistério raivoso para mim. Encarei seus olhos calmos e o infeliz sorriu para mim. Minha vontade era decepar seu corpo com meu machado e depois tacar os restos para as bestas da floresta. Ele parecia estar vestido para alguma cerimônia importante. A roupa vermelha e branca, os adereços de ouro e a postura intrigante. A barba eximiamente bem feita, os cabelos castanhos, ondulados e na altura do ombro tão bem penteados que parecia ter ido ao salão antes de estar ali.
Mais alguns passos e eu estava frente a frente com ele. Era contraste. Eu puto e irritado. A cara uma bagunça, barba e cabelo em completo caos. A roupa amassada, um hálito infernal. Ele parecia uma bonequinha recém tirada da caixa.
- Promessa cumprida lenhador, já pode se acalmar. – as palavras entraram em meu ouvido como se fossem arame farpado. Abri o maior sorriso irônico que podia.
- Eu poderia elaborar um discurso, mas isso... – fechei o punho na altura do seu rosto –... É mais efetivo. – bem no meio do nariz do filho da puta. O sangue jorrou e %Carl% me berrou como se tentasse coibir o filho de uma fazer uma cagada. Qual é %Carl%, você está do meu lado ou não?
O Cardeal foi com as mãos ao nariz e abriu o sorriso dos infernos ao ver sangue sua mão. De algum jeito ele parecia gostar de tudo e minha vontade de destruir o rosto dele com as minhas mãos só aumentou.
- Quer saber? Eu já previa isso, tudo bem. Você é um homem comum e bravo com todo mundo. Se isso te faz sentir melhor, tudo bem, pode mandar mais um. – chacoalhou o corpo como se preparasse para uma luta de boxe. Nem pensei em analisar a frase. Fui com tudo pra cima de novo e meti a mão no estômago dele. A curvatura do corpo de Chielline foi perfeita. As mãos na barriga e o sorriso ainda lá, ele me convidava para continuar socando-o.
- Vamos lá, %Fitzroy%. Eu esperava mais de você. um braço dessa grossura deve conseguir um estrago maior. – toneladas de fúria e adrenalina tomaram o lugar do meu sangue. Corri na direção do desgraçado e o grudei pelo colarinho da batina. Cuspi na cara dele e o fitei possuído por algum demônio da guerra. Meu plano era um cruzado direto no maxilar. Eu iria arrebentar aqueles dentes brancos e fazê-lo engolir um por um, se tudo desse certo o maldito morreria engasgado pelo próprio sangue.
Mudanças de planos. %Louise% me cutucou e eu mudei a direção do olhar. Ela parecia tão calma, tão serena. Como raios a menina que passou a noite em cativeiro e teve uma arma na cabeça poderia estar tão tranquila? Que tipo de merda ela tinha comido? Era oficial, a pestinha não tinha juízo.
- Não precisa fazer isso, %Fitzroy%. Eu estou bem. – achei que a voz dela iria me acalmar. Mas, eu ainda precisava socar a cara do infeliz.
- %Louise%, agora não, por favor. – continuei encarando Chielline enquanto bufava feito um Cérbero faminto.
- Coisas de homem, %Louise%. Não se preocupe. – Manterfos se aproximou tirando-a de lá. Só eu e o cardeal novamente.
- Isso é por %Gustav%. Isso é por ter matado um irmão. Isso é por ter encostado essa sua mão em %Louise%. Isso é por ter tocado no corpo dela. Isso é por ter posto uma arma na cabeça dela. Isso é por você ser esse belo pedaço de merda. – só ouvi o estalo. O corpo do cardeal amoleceu na minha mão. O sangue vindo da boca manchou meu braço e minha camisa. O mais perturbador foi quando olhei para ele. A boca ensanguentada, os dentes avermelhados que infelizmente ficaram intactos. Intactos e formando o sorriso mais doente que eu já havia presenciado.
- Me desculpe por subestimar a força do teu braço. Essa porra sabe bater com força. – eu poderia continuar com os socos pela eternidade, mas coisas precisavam ser feitas. O soltei e o cardeal cambaleou escorando-se em uma árvore recuperando o ar.
- Vou ser legal e te dar um tempo para se recuperar. Quando conseguir voltar a respirar, pode me encontrar lá dentro.
- Sim, senhor. – Chielline fez uma saudação debochada e eu rumei minha casa. Passei por %Louise% grudando-a pelo braço e entrei em minha casa. %Carl% veio até mim querer falar algo, mas eu pedi um tempo. Antes de mais nada, joguei minha espingarda na mão dele.
- Se o filho da puta tentar qualquer coisa, você atira. Não precisa atirar pra matar, mas, pelo menos atira pra aleijar. Ouviu?
- %Fitzroy%...
- %Carl%, não ouse discutir. Não queira que eu aleije sua perna.
- Se aleijar minha perna conto pra todo mundo que você dormiu feito uma princesa no meu colo. E aí? – ele me olhou desafiador e eu não pude evitar rir.
- %Carl%, por favor. Não seja uma criança desobediente.
- Sim, meu lenhador. Aleijo a perna ou o braço?
- Deixo isso contigo, faça como achar melhor.
- O pinto. Vou alijar o pinto e a perna. – passei por %Carl% que apontava a espingarda na direção da porta. Arrastei %Louise% para o meu quarto. Cruzei a porra da porta num desespero súbito. A fechei sem piedade e um som estrondoso se fez. %Louise% iria falar qualquer coisa. Eu não queria a ouvir falar nada.
A garota se assustou quando a empurrei contra a parede. O movimento acabou saindo com força demais. Mas, eu não tinha culpa. Havia uma mistura de tensão, paixão e tesão me matando. O que seria de mim se ela não estivesse ali? Que raios seria da minha vida se algo tivesse dado errado e %Louise% simplesmente estivesse morta naquele instante? Eu seria um nada. Um resto vegetativo de um homem que um dia tentou amar alguém e fracassou. Fracassou novamente.
%Louise% estava lá. Com aquela carinha maldita que eu tanta amava. Ela já sabia. Ela já sentia. A safadinha sabia que eu estava pegando fogo, que meu pau estava completamente duro de vontade de meter no meio dela. Eu teria que me controlar muito para não fazê-la gritar feito uma maluca.
- Olha pra mim. – os olhinhos brilhavam. Seu rosto reluzia alguma coisa afrodisíaca que me deixava ainda mais louco. Por Deus, o que sentia por aquela menina nem ao menos tinha explicação. Não era só amor. Amor é uma coisa que as pessoas tentam explicar, vender, achar significados. Amor era muito pouco, quando alguém olha para o outro e diz “eu te amo” é a coisa mais vazia que existe. Eu tinha mais por ela. Eu tinha uma coisa estranha que queimava e parecia correr nas minhas veias. Eu necessitava dela, eu precisava de %Louise% perto de mim, dentro de mim, colada em mim.
Um impulso e meu corpo estava amassando o dela na parede, minhas mãos grudando seu corpo como se fosse argila a ser modelada. Eu queria sentir cada pedaço de sua linda existência. %Louise% tirava a sanidade de mim, conseguia fazer com que eu esquecesse os sentidos da vida, todos os medos. Conseguia despertar um %Fitzroy% ávido pelo prazer. Qualquer coisa que fosse perdia a intensidade e a importância quando eu estava ali preso nela.
- Eu não consigo lidar com a ideia de te perder, %Louise%. – senti meus olhos marejarem. Não era tristeza, nem nada do tipo. Fui possuído por um tipo de emoção. Daquelas eu não sabia descrever porque sentimentos definitivamente não eram meu forte. E não há necessidade de se descrever sentimentos, o que realmente importa é o que fazemos com ele. E ah, eu tinha muito a fazer com os meus. Muito mesmo. Mas, não faria tudo ali naquele instante.
- Eu estou aqui, %Fitzroy%, se acalme. Eu estou bem. – ali estava algo que eu ainda não conseguia entender, toda a maldita tranquilidade.
- Me explica, como diabos você está tão calma quando o filho de uma puta pôs uma arma na sua cabeça e te deixou uma noite toda em cativeiro? – só de idealizar a cena meus músculos tremiam.
- %Fitzroy%... não foi tão ruim quanto parece. Chielline não me fez mal e eu tive uma noite confortável, tudo bem? Não precisa odiá-lo. – expeli o gás carbônico das narinas como um dragão. A malditinha estava defendendo o cardeal e ainda por cima na minha cara.
- Você não vai ousar defendê-lo agora e na minha cara, certo? – ela sorriu, o sorrisinho endiabrado. %Louise% sabia que era puro ciúmes.
- Lenhador... – %Louise% mordeu os lábios e foi com suas mãos para a minha camisa. Desceu lentamente da gola da mesma, passando pela minha barriga até chegar no cós da calça. Tensionei-me por inteiro tentando manter a sanidade. -... você é a personificação da masculinidade quando está bravo e com ciúmes. Tão macho, tão gostoso. – a reação do meu corpo foi insana. Minhas mãos tremeram na cintura dela. Precisava fazer qualquer coisa para relaxar, qualquer coisa. A única implicação é que meu pênis não estivesse envolvido. Seria difícil escolher. Se eu beijasse %Louise% ou permitisse que o toque fosse além daquilo a situação se transformaria em um descomunal monte de merda.
- %Louise%, você pode me dar licença? – a garota me olhou estranhamente e soltou as mãos de mim. Fechei os olhos e tentei me concentrar. Precisava achar uma forma de resolver o impasse e descarregar a adrenalina. Por Deus, eu queria uma punheta. Em qualquer dia normal eu pegaria meu machado e descontaria tudo em algumas árvores. Em qualquer dia normal eu colocaria %Louise% no meu colo e a foderia até explodir em gozo. Eu não estava em um dia normal e eu precisava de controle. O problema era então que %Louise% e controle não combinavam na minha vida.
- Você tá bem? – ela se aproximou vagarosamente.
- Sim, eu só preciso me acalmar. – a vi morder os lábios e ficar na ponta dos pés.
- Não, safadinha, não desse jeito. Por favor, colabore. – eu parecia um pedaço de batata derrotado.
- Tudo bem. Um vinho então?
- Vinho é muito clássico. Cerveja é muito comum. Água é muito fraco. – olhei na direção da porta e segui por ela. %Carl% ainda estava lá posto na minha porta da frente apontando a espingarda para um Cardeal sentado na escada da varanda. Sentado e sorridente.
- Pode largar o turno de vigilante, %Carl%. Preciso de uma garrafa de vodka.
- Tem certeza? Estou realmente tentado a atirar na perna dele.
- Açougueiro, onde anda a hospitalidade? Você não parecia tão cruel no dia que me ensinou como chegar à praia.
- Naquele dia, você não tinha matado meu padre, desgraçado. – Chielline se pós de pé e caminhou até nós.
- Se os cavalheiros puderem esquecer o senso de vendetta por um segundo, seria bom. Precisamos conversar e é bom que seja rápido, pois, o tempo corre contra nós.
Manterfos cumpriu ordens de Giorgio e voltou à cidade. Ele estava fazendo o rapaz de refém, provavelmente. Manterfos era muito devoto de %Gustav% e simplesmente não se juntaria com o assassino do padre. Talvez, ele não soubesse da situação do assassinato e estivesse sendo enganado. Ou ainda, era um cretino, bastardo e maldito que trabalhava em disfarce todo o tempo para o Justice for Saint Mary, era realmente difícil de decidir.
Estávamos lá sentados à mesa. %Carl% balançava o copo vazio de um lado para o outro. %Louise% estava ao meu lado encarando o nada com uma previsível cara de tédio. Chielline era o único que parecia prestar atenção em mim. Seu olhar misterioso e abusado não desgrudava do meu rosto. Ele não tinha problemas em encarar os inimigos cara a cara, o que me fez presumir que o maldito já havia matado tantas pessoas à ponto de não se sentir mais intimidado.
- Certo, Cardeal. Agora é a sua vez de cumprir a parte do plano. Comece a falar. – fui incisivo e direto. Se tivesse que esperar mais um segundo que fosse, certamente eu o mataria.
- Presumo que você já sabe sobre o Justice for Saint Mary, certo? – suas sobrancelhas se arquearam esperando minha aprovação.
- Aqui vai o que eu sei. – preparei a goela, porque eu tinha muita, mas muita coisa pra dizer. - Nikolai era membro dessa bosta de grupo que você e mais outros merdas protegem e idolatram. Acontece que Nikolai, como ser humano decente que é, se revoltou com o que viu por lá. Ele estava participando de algum tipo de missão escondendo algum tipo de tesouro e escapou do Justice for Saint Mary vindo para cá. Ninguém do seu grupo conseguiu o encontrar depois, nem o tesouro. Nikolai deu o tesouro há um homem que estava jurado de morte, o homem enterrou a porra na floresta e ninguém nunca mais teve notícias do tesourou. Tudo corria bem até %Gustav% vir para cá e seu querido Cardeal Armand se sentir ameaçado por algo que nós não sabíamos. Não sabíamos até ontem, porque hoje, nós sabemos. – assim que terminei meu discurso pude ouvir uma gargalhada satisfeita de Chielline. As mãos que serviam tanto para matar como para pregar foram umas contra as outras. Ele bati palmas para mim.
- Bravo, %Fitzroy%. Bravo. Vocês se saíram muito melhor do que eu pensava.
- Filho de uma puta, se continuar com graça eu faço questão de passar meu cutelo na sua língua. – %Carl% explodiu. Eu nunca o vi com tanta raiva camuflada.
- %Carl%, se acalme. A gente precisa do bastardo falando, pode passar o cutelo em outro lugar, mas, não na língua.
- As madames vão continuar mesmo fofocando justo agora? – %Louise% se intrometeu demonstrando uma visível inquietação.
- Criança, não é por nada não, mas, por favor, não se meta. – %Carl% se arrependeu logo depois de falar, pôs a mão na boca em sinal de arrependimento. %Louise% bufou contrariada, mas, logo pareceu compreender o nervosismo do açougueiro.
- Posso continuar?
- Por favor. – pedi, ironicamente.
- Bem, Nikolai fazia parte de uma missão chamada Missão Real. O Justice possui sua hierarquia e tanto eu como Nikolai éramos soldados, pessoas responsáveis por guardar os pertences da Igreja. Nós éramos escalados em grupos para cumprir determinadas missões. Cada missão tratava de seu próprio pertence. Nikolai desertou no meio da Missão Real. A missão não foi cumprida e então ele fugiu para cá com o tesouro. Nunca mais foi achado e o assunto foi enterrado.
- Então me explique, por favor, em que ponto foi que o tesourou voltou a ter valor? Se a porra sumiu de lá e ficou tanto tempo fora, por que justo agora? – Chielline pareceu se empolgar com a pergunta.
- Eis a parte que vocês não sabiam. Quando Nikolai fugiu do grupo, todos os soldados ficaram malucos. Nunca ninguém havia fugido. A situação tornava-se pior, pois, nunca havia sumido um tesouro. Ninguém sabia como proceder. A situação poderia criar uma rachadura sem tamanho e irremediável no grupo. Então, os outros integrantes responsáveis pela missão decidiram por ocultar isso dos superiores. Em relatório oficial eles disseram que trouxeram o tesouro para cá e o esconderam na Igreja e que Nikolai não fora encontrado. – um meteoro caía em minha cabeça. Agora sim, tudo fazia sentido. Por isso Armand estava na cidade. Cardeal idiota, achava que seu plano estava perfeitamente sendo executado e que o tesouro estava ali todo o tempo. Por isso %Gustav% era um empecilho, ele era o muro que Armand teria que transpor para achar o maldito tesouro.
- O outro cardeal desgraçado veio para cá exatamente por isso. O infeliz tinha certeza que o tesouro estava aqui e por isso ele veio. %Gustav% chegou na hora errada, certo? – Chielline concordou com a cabeça como uma professora orgulhosa de seu aluno.
- O problema é que %Gustav% caiu como uma enorme pedra no caminho de Armand. Foi por isso que ele mandou aquela carta falando sobre matar e morrer pela Igreja para %Gustav%. Ele queria que o padre se encaixasse no esquema. Como %Gustav% não o fez, ele veio pessoalmente tratar dos negócios. – %Carl% terminou por deduzir.
- Pessoal, vocês podem ir mais devagar, por favor. Isso é bem confuso. – %Louise% se pronunciou me tirando do meu quase infindável coma.
- Qual parte está confusa, %Louise%? – Chielline indagou-a em um tom tão doce e compreensivo que quase me causou ânsia. Eles tinham intimidade. Isso estava quebrando meu corpo ao meio. A vontade súbita de esfolar aquele rosto bem cuidado na madeira áspera me invadiu de novo. Era a minha garotinha. Lembrar que ele pôs os dedos na bocetinha que eu gozava era a receita para foder comigo.
- A parte do tesouro. Por que esconder dinheiro desse jeito? Isso parece coisa de pirata.
- A pergunta é relevante, tendo em conta que o Vaticano tem o próprio banco e até onde eu sei, não há uma fiscalização em cima das finanças de São Pedro.
- Bom raciocínio, %Carl%. Você é bom nisso. – Chielline sorriu apontando o dedo indicador para %Carl% que sutilmente ficou sem graça. – Essa é outra parte que vocês não sabiam. Quando eu digo tesouro é porque estamos falando de algo com valor, mas não exatamente dinheiro. Estou falando de pertences, relíquias e coisas do gênero. – mas é claro, fazia todo o sentido. Levando em conta o histórico da Igreja, tudo era totalmente plausível. – Acompanhem comigo. A Igreja teve um histórico de dominação, guerras, lutas e todo o tipo de confusão. Cavaleiros templários viajaram para diversos lugares resgatando e roubando itens para a Igreja. Além das ofertas que a Igreja recebia e das indulgências que recebiam. Somado à isso, ela também era muito ameaçada na época. Ou seja, ela precisava se armar. Por isso havia um exército e homens prontos para ir à guerra. Mas, quando falamos de uma potência como o Vaticano e reis europeus lutando, dinheiro não é um problema. Nenhum deles lutava por dinheiro e sim por poder. Poder naquela época era mais que dinheiro. Você precisava de um trunfo contra seu inimigo. – o cardeal parecia algum tipo de professor de história, como um Indiana Jones. Era toda uma história caótica cheia de itens conspiratórios realmente interessantes. Por um instante a áurea de mistério me fez parar de odiá-lo.
- Certo, então, você está dizendo que o tesouro de Nikolai é na verdade é um objeto e não dinheiro? Tudo bem. Mas que raio de objeto é esse? – %Carl% era um ótimo investigador, seu raciocínio fluía melhor que o meu e naqueles momentos eu me sentia extremamente grato por tê-lo por perto.
- Aí a história se torna mais interessante. Em uma Cruzada no de 1096, vários cavaleiros templários trouxeram objetos de Jerusalém para o Vaticano. Esses itens eram baús cheios de ouro. O ouro foi levado e os baús que eram extremamente bonitos, bem talhados e raros foram deixados para nós. Quando algo realmente importante e grande chegava, os baús eram usados. Somente itens de extremamente importância eram guardados naqueles baús e apenas soldados mais experientes eram designados para missões desse tamanho. A Missão Real era uma delas. Esse tesouro não era um tesouro qualquer. Por isso o desespero de Armand em achá-lo. O problema é que não temos certeza ainda do porquê ele encasquetou justo com esse e justo agora. É por isso que estou aqui. – %Carl% me olhou com o sorriso da vitória estampado. Eu não pude evitar encarar o Cardeal com escárnio. Ali estava algo que nós sabíamos e ele não.
- Ah Chielline, mas que ironia...
- Vi pelo sorriso dos dois que estou perdendo algo nessa brincadeira. – Chielline pareceu afetado e visivelmente frustrado. Pela primeira vez no dia a guarda estava baixada.
- Aqui o acordo. Nós te dizemos se você nos explicar o porquê do teatro de ontem e de estar aqui. Temos um acordo?
- Certamente, lenhador, prossiga.
- Pois bem. – limpei a garganta me preparando para o grande trunfo. – Nosso querido %Carl% estava em seu açougue quando um homem loiro, incrivelmente alto e sueco foi até ele. O homem procurava por Nikolai. %Carl% estranhou e veio até mim contar. Eu me encontrei com Nikolai que estava se preparando para fugir. O próprio me contou que o homem foi à sua casa oferecendo-lhe dinheiro pelo tesouro. Nikolai recusou e se aprontou para fugir. Foi até sua esposa e filhos e ao chegar lá descobriu que o homem havia chegado antes. À ambos foi oferecido dinheiro pelo tesouro. Nikolai sumiu do mapa me deixando papéis e mais papéis e uma dúzia de documentos confusos. – Chielline não pode acreditar em minhas palavras. Seus olhos abriram mais que o normal e subitamente o cardeal socou a mesa soltando uma bufarada alta e nervosa. Fiquei sem entender por um momento até que ele resolveu se pronunciar.
- Você está me dizendo que eu vim da Itália até aqui para achar Nikolai e justamente um dia antes ele simplesmente some? Eu não posso acreditar. Filho de uma puta, maldito infeliz bom de brincar de esconde-esconde. Eu não consigo acreditar. – se eu era a personificação da masculinidade, Chielline certamente era a personificação da frustração.
- Ora, ora, Cardeal. Parece que seu infalível plano não contava com as probabilidades de erro. – %Carl% tinha um jeito especial de provocar pessoas.
- Desculpem eu me meter. – %Louise% alterou o volume de sua voz para que fosse ouvida e levantou as mãos sem sinal de “paz” – Mas ainda não entendi o que é esse tão falado tesouro. – Chielline respirou fundo e pareceu engolir muita saliva. Tudo para manter o controle não soltar uma resposta áspera para a garota.
- A Missão Real era realmente muito importante. Um trunfo gigante do Vaticano. Foi conquistado durante o reinado Tudor na Inglaterra. Uma confusão sem fim. Mary Tudor precisava de um dote alto para ter um bom casamento, a mãe, Catarina de Aragão rogou ao seu sobrinho Carlos V, Imperador de Roma que mandasse um bom valor. Carlos não hesitou e enviou moedas de ouro para sua prima. A questão fora questionada em Roma. Eis que então, Henrique VIII decide se aliar à França ao invés de Roma em uma guerra e a tensão entre Roma e Inglaterra aumenta. Quando Henrique VIII cria o Anglicanismo e se desfaz do catolicismo no país para conseguir seu divórcio, a Igreja urge em desespero. Ele é banido e excomungado. Porém isso não é o suficiente. Descobre-se então, que junto com o dinheiro, Carlos V havia também mandando alguns papéis e escrituras para a prima. Junto com esses papéis algumas sujeiras vão junto. A Igreja fica em polvorosa sem saber o que fazer. Acredita-se que por sua fé católica, Catarina nunca fora capaz de deixar as informações vazarem. A Igreja então se vê acuada e necessitava fazer algo. Alguns anos se passam, Henrique morre. Quando Mary assume o trono e tenta restaurar o catolicismo, a Igreja se acalma e esquece a Inglaterra por um tempo. Mas, logo depois, uma outra mulher assume o outro, Elizabeth. Elizabeth não era favorável ao governo da irmã e volta a fazer uma reforma no país. Novamente a ferida é cutucada. Fernando I tinha acabado de assumir o posto de Sacro Imperador e um dos seus principais objetivos era a luta contra os protestantes. Elizabeth era uma ameaça e a antiga tensão com a Inglaterra ressurgiu. A Igreja estava em desvantagem e precisava de algo. Foi aí então que um homem, que até hoje não teve sua identidade revelada, infiltrou-se na coroa à serviço de Roma. Lá, esse homem conseguiu evidências que provavam que a Rainha Elizabeth I era na verdade um homem. Ele voltou à Roma com os documentos, que foram postos no baú especial. Nikolai e os outros homens herdaram essa missão. Esse é o tesouro, conseguem perceber quão importante e valioso é isso?
- Por Deus, que sujeira. Que coisa incrível, louca e insana. – %Carl% estava em êxtase, %Louise% e eu parecíamos bem mais perdidos e aflitos.
- É, querido açougueiro. Uma sujeira enorme. Uma sujeira que deveria ser guardada e preservada. Quando Nikolai soltou o tesouro por aí, a sujeira tornou-se pó e ninguém foi capaz de achar um rastro. Mas pelo visto, alguém além de Armand ressuscitou o interesse pelo baú. E certamente, por dinheiro.
- E quem está tentando comprar? – %Louise% soltava perguntas aleatórias e até inocentes, que por sinal, faziam mais sentido que ela podia imaginar.
- Boa pergunta, garota. Eu queria realmente saber. – o Cardeal sorriu sem graça perante sua impotência.
- Deve ser alguém com muita grana, grana o suficiente para fazer os olhinhos de um homem extremamente poderoso e rico brilharem.
- Certamente, %Fitzroy%. Certamente.
- Agora, me diga uma coisa, Armand não sabe ainda sobre o paradeiro do tesouro? – perguntei, esperando compreender aquele enorme quebra cabeças.
- Não. – Chielline fez uma pausa para respirar fundo novamente. – Ele não sabe. Estou aqui desde o começo para distraí-lo. Armand decidiu para si que %Gustav% havia achado o tesouro na Igreja e tirado de lá. Ele precisava da Igreja vazia e por isso...
- Por isso? – eu sabia. A merda iria começar a ser despejada a qualquer momento. Aquela conversa não ficaria livre das crueldades que uma situação como tal necessitava. Era como uma guerra disfarçada.
- Por isso os mortos na casa dos pobres. Armand ordenou que eu os matasse para que %Gustav% pudesse ser afastado. – vi um lampejo de arrependimento queimar nos olhos de Chielline.
- Você matou todos aqueles pobres? Filho da puta! – %Louise% soltou sem pensar. A garota levantou-se e ficou lá, parada e estática olhando para ele que nem sequer soltou uma respiração como resposta. – Eu não consigo olhar pra sua cara. Eu confiei em você, seu sujo. Eu te defendi! Vou esperar lá na sala. – a menina saiu batendo os pés visivelmente chateada e irritada.
- Nunca se consegue enganar garotas por muito tempo. – sorri amarelo tentando não parecer um completo canalha. Mas, eu estava vibrando por dentro. Bem feito, Cardeal nojento! Ver %Louise% perdendo o encanto pelo cardeal gostosão e charlatão era realmente algo bom de se acontecer. Se eu a visse babando nele por mais algum tempo, certamente faria algo errado. Não era muito bom lidando com concorrência e ciúmes, eu ficava perdido, feito um tonto lutando contra meu ego gigante. Assistir cena e ouvir tudo aquilo sair da boca da garota serviu como remédio para a alma.
- Não precisa tentar disfarçar, %Fitzroy%. Sei que a garota é sua. Você já fez questão de por uma cerca de arame farpado em volta dela. Sem necessidade de inseguranças. – eu me sentia vitorioso. E uma vitória era tudo que eu precisava naquele momento.
- Sem querer interromper a guerra de egos aqui, mas a gente precisa continuar com isso logo, certo?
- Certo, meu açougueiro, mais que certo. Onde paramos?
- Paramos na parte onde o Cardeal divino mata os pobres. E sem querer ser abusado, mas como foi isso? Qual o procedimento de matança? Se não se importa, é claro. – Chielline pareceu meio incomodado, mas, não relutou em responder.
- A técnica é clássica e antiga. Remonta ao papado de Rodrigo Borgia. Envenenamento por cantarella. - O veneno à base de Arsênico? – %Carl% questionou como se fosse algum especialista forense.
- Exatamente, açougueiro.
- E a morte de %Gustav%, também foi coisa da mente macabra de Armand? – tocar no assunto me causou um desespero. Pensar em %Gustav% me deixava morto por dentro, com a alma apodrecendo. Meu padre, meu amado padre. Tão doce, tão gentil. Uma morte tão injusta. Nós tínhamos tantos planos juntos, tantas histórias e tanto carinho um pelo outro. Ainda não conseguia assimilar sua ausência do plano terrestre.
- Mesmo procedimento. – ele não nos encarou naquela resposta. Chielline tinha a mania de olhar fundo nos olhos do ouvinte quando dizia algo, não para intimidar, mas em sinal de que simplesmente não tinha medo. Foi somente naquela específica resposta que ele hesitou, como se houvesse remorso. Um remorso que ele não demonstrou em momento nenhum na conversa.
- Certo, e agora? %Gustav% morreu e o caminho ficou livre. Qual o próximo passo?
- É por isso que vim até vocês. Analisei as informações que tinha e juntei os pontos, percebi que tudo remontava à floresta. Felizmente estava certo. Vocês são minha esperança, porque Armand contatou um dos soldados da Missão Real. O bastardo se vendeu e aceitou vir até a cidade para auxiliar Armand. Ele provavelmente contará ao Cardeal sobre o sumiço do tesouro. Se isso acontecer, caboom meus amigos, a bomba explode e a guerra começa. – a partir dali Chielline passava a ficar mais nervoso. Parecia não ter ainda um plano cem por cento traçado.
- E por que precisa de nós?
- Não vou conseguir evitar esse caos sozinho. Manterfos me ajudou em partes. Eu precisava de Nikolai e quando cheguei até aqui achei vocês. Pensei que me levariam até a ele, mas, o desgraçado foi mais rápido. Preciso evitar de todas as formas que Armand descubra sobre o tesouro. Comecei uma lavagem cerebral nele, tentando fazê-lo ver que %Gustav% estava com o tesouro e que matá-lo fora um erro. Armand está começando a agir sem pensar e a se enfraquecer. – %Gustav% estava sendo usado numa estratégia de guerra. Sua alma era um peão no tabuleiro de uma suja disputa religiosa. Como aquilo doía! Eu faria qualquer coisa para honrá-lo.
- Nós podemos ajudar. Mas, ainda faltou me explicar a história do coroinha. – essa era uma das partes que me intrigavam de um jeito mais que curioso que propriamente vingativo.
- Me desculpe, %Fitzroy%, mas estamos sem tempo e essa história vai ter que esperar mais um pouco.
- Ok, tudo bem. Eu posso lidar com isso. Quanto ao nosso plano, consegue trazer Armand até a floresta? - estava decidido. Se %Gustav% estava morto eu deveria fazer algo para ele e por ele. Ele odiava Armand e detestaria que o Cardeal conseguisse cumprir seus objetivos. Meu padre lutou por isso até o fim e mesmo sem querer morreu como mártir. A guerra passou a ser minha também. – Consegue atrair Armand até a floresta?
- Consigo. Mas... – Chielline me olhou como uma coruja curiosa.
- Agora é você que precisa confiar em mim, Cardeal. Faça o que tem que fazer na cidade até a tarde. Irei armar o cerco aqui. Fico no aguardo para combinarmos o resto antes do anoitecer. Vamos fazer Armand pensar que %Gustav% escondeu o tesouro na casa de Nikolai. – ele pensou por um minuto. Hesitou e respirou fundo. Mirou o teto melancólico e finalmente voltou à mim em expressão positiva.
- Antes do pôr-do-sol enviou Manterfos para saber o restante das instruções. Tenho meus trunfos também, preciso agilizar isso. Foi bom negociar com vocês. – os três se levantaram. O cheiro de testosterona impregnou minha cozinha me deixando tonto. Seria aquilo, nosso peque no juízo final e minha vingança e redenção para a morte de %Gustav%.
X
- Vai levar ela junto? Você por um acaso bebeu escondido lenhador? Depois de tudo isso o mais prudente seria levar a garota pra casa dela, não acha? – fechei os olhos com força e dei socos gentis na minha própria testa.
- Eu sei, %Carl%, eu sei. Não preciso que você seja o gafanhoto do Pinóquio, tudo bem? Sem voz conselheira agora. – latejava na minha mente que %Louise% deveria voltar para a segurança da sua casa. O %Fitzroy% que eu conhecia por 40 anos nunca discordaria dessa ideia. Infelizmente, eu estava diferente. Dorme com juízo e acordei irresponsável. Meus valores começaram a mudar, minhas decisões agora eram influenciadas por sentimentos. Esse era o motivo pelo qual eu odiava sentimentos, eles te deixam estúpido. É uma ação inconsequente aqui e outra ali e de repente tudo se perde. Por mais que eu tentasse lutar contra o instinto passional, eu não conseguia vencê-lo. Eu não queria ficar longe dela. Ela precisava estar embaixo dos meus olhos para que eu pudesse evitar que algo mal acontecesse. Eu me responsabilizaria e me culparia eternamente por qualquer pequena coisinha que pudesse ocorrer com ela.
- %Fitzroy%, sei que é um momento difícil. A gente não tem tempo pra ficar discutindo essas coisinhas, esses pequenos detalhes. Quer levar %Louise%? Tudo bem, pode levar. Mas, eu juro amigo, se alguma coisa errada acontecer eu vou ser o primeiro a apontar o dedo na sua cara pra dizer que avisei.
- Você é um doce, %Carl%. O meu docinho. – mandei um beijo estalado para ele que me olhou sutilmente irritado. O olhar de sempre, aquela carinha danada que eu não sabia viver sem.
- O que faremos então? – questionou o açougueiro.
- Você vai até a casa de Nikolai. Comece a preparar o incêndio. Taque o diesel por toda a casa e em uma parte do perímetro dela. Você já foi pro exército ao contrário de mim, então deve saber com isso melhor que eu. Não sou experiente com fogo.
- Eu sei o que fazer. Pode deixar comigo. E quanto à você?
- Tenho que esperar por Manterfos, é ele que vai saber guiar Chielline até a casa. Não sei exatamente o que vamos fazer, como vamos proceder então eu espero do fundo do meu peito que tudo dê certo. – não ter controle. De tantas coisas na vida, não ter controle me deixava perdido no mundo como um filhote abandonado.
- Chielline disse ter um trunfo, o que será que é hein? O que seria capaz de desestabilizar Armand?
- Não faço ideia, meu %Carl%. Vamos ter que esperar pra ver. O importante é que Armand entre na casa. Com ele lá dentro nós fechamos a saída e deixamos o fogo tomar conta da situação.
- Isso vai ser traumático, não? Quer mesmo que %Louise% veja isso? – o irresponsável da vez era eu. Expor %Louise% àquela tamanha brutalidade era desnecessário. Eu iria repensar com carinho.
- Vou conversar com ela. Vá fazer sua parte, eu me viro por aqui.
- Tudo bem. Boa sorte para nós? – %Carl% se aproximou e abriu os braços.
- Boa sorte para nós. – abri também os meus e em um gesto de camaradagem nós nos abraçamos. os tapas nas costas foram mais fortes que o normal. Nosso abraço foi estranhamente intenso. Já que não sabíamos falar sobre o que sentíamos, nada melhor que mostrar. %Carl% sempre esteve lá por mim. Ele era o cara chato que me mostrava o certo. Ele era o resmungão que se sentia um fracassado mesmo sendo quase um herói. Ele era o zé bundão que eu mas amei na minha vida. Um irmão que não compartilhava o mesmo sangue. - Se cuida, peste. Quero você vivo.
- Eu vou viver muito pra te atazanar ainda, cortador de pau.
- Assim eu espero, minha carniça. – nós nos soltamos e sorrimos um para o outro. %Carl% juntou suas ferramentas e se foi. Me restava então lidar com %Louise%.
x
Escorei no batente da porta e a olhei. %Louise% tinha um bico enorme, típico de criança mimada que foi contrariada e não está feliz com a situação. Estava sentada no meu sofá, com as pernas cruzadas estilo “índio” e brincava de trocar aleatoriamente os canais da televisão. Um poço de petulância com uma bundinha boa de apertar.
- Hey garotinha. – %Louise% jogou o olhar na minha direção. Ela não parecia nada feliz em me ver e voltou a se concentrar na televisão. – Vai me ignorar, mesmo? – continuei ali escorado. Os braços cruzados e uma expressão sarrista.
- Vou. – se jogou no sofá bem descontraída e aumentou o volume da televisão.
- %Louise%, %Louise%... – sai da minha confortável posição e fui vagarosamente caminhando até o sofá. Ela procurou meu corpo com o canto dos olhos tentando disfarçar e voltou ao aparelho. Sentei me ao lado de seus pés que se recolheram quando meu corpo entrou em contato com eles.
- Que foi, %Fitzroy%? – ela desgrudou os olhos das cores da tela bufando. Aquela era minha garotinha abusada. A garotinha abusada que me enlouquecia.
- Não foi nada, tinha que ser alguma coisa? – eu estava segurando para não rir na cara dela, porque aquela ceninha realmente tinha uma certa graça.
- Vai ficar brincando com a minha paciência agora? – estreitou os olhos me julgando.
- Brincando com a sua paciência? Mas o que eu fiz? – dissimulei uma voz inocente e mais uma vez ela bufou visivelmente de saco cheio.
- Estou com um problema aqui, tudo bem? Dá um tempinho, por favor. – a fala foi um pouco mais agressiva. Fez um sorriso sujo e retornou à televisão.
- Tudo bem, você não quer ser incomodada e eu não vou te incomodar, princesinha. – vi %Louise% rolar os olhos com a provocação. – Também estou com um problema aqui. Excesso de adrenalina, sabe? – uma ideia maléfica surgiu na minha cabeça, e por Deus, ela era tentadora demais pra não ser realizada.
- Hm. – sua respiração era alta indicando uma visível falta de paciência, decidi ir frente e ver até onde ela iria com aquilo.
- É muita adrenalina, sabe? Essa história toda me deixou agitado, preciso relaxar. – %Louise% respirou um pouco mais fundo demonstrando nervosismo agindo exatamente do jeito que eu queria. – O sangue tá fervendo no meu corpo e é estranho me sentir assim. Eu poderia beber, sabe? Mas, não posso ficar bêbado agora. Poderia ir cortar madeira por aí, mas não posso sair de casa... – meu monólogo começou a demonstrar o que minha brilhante imaginação havia criado. Bati propositalmente minhas mãos em meu cinto fazendo um barulho que levemente assustou %Louise%. – O que eu posso fazer pra aliviar a tensão? O que um homem pode fazer pra aliviar sua tensão de um jeito simples, rápido e inofensivo? – devagar e com calma. Com toda a paciência comecei a desfivelar meu cinto. %Louise% me olhou de canto de olho, provavelmente para comprovar o que seus ouvidos tinham notado. – Acho que preciso de algo que também seja prazeroso. Juntar a fome com a vontade de comer? Acho que sim, acho que sim. – soltei a respiração e olhei para ela antes de descer meu zíper. Balancei a bunda no sofá para a calça jeans ficar mais confortável no meu corpo. %Louise% começou a tremer levemente a perna em sinal de mais nervosismo.
Decidi parar de falar, o silêncio a mataria mais aos poucos. Não estava com pressa, mas também não podia enrolar demais. Puxei ambos os lados da calça a puxando mais para baixo. Levantei o traseiro do sofá um momento para livrar espaço. Confortável. Fiquei até surpreso ao olhar para baixo. Achei que ia precisar de um pouco mais de esforço para ficar de pau duro. Mas só cogitar a ideia de provocar %Louise% daquela forma pareceu ser o suficiente.
Atritei minha mão contra a cueca e minha respiração saiu bem compassada e demorada. Fechei meus olhos ignorando o resto da casa, foquei em mim e nela. Infelizmente, surgiu o problema. Era impulso demais, meu tesão já estava meio descontrolado. Queria ir com calma, agindo aos poucos... Não foi possível. Sem cerimônia puxei meu pau para fora. Não tinha aquele contato com meu companheiro há alguns dias. Percebi %Louise% prendendo a respiração. A brincadeira seria divertida. Queria realmente saber quanto demoraria para ela ceder.
Quando desci a mão pela primeira vez um gemido grave saiu da minha garganta. Fechei os olhos sem perceber. A punheta foi acontecendo aos poucos. Deitei a cabeça para trás e abri mais as pernas. Comecei a exagerar nas expressões faciais de propósito, meus grunhidos ficaram mais descarados e roucos. A perna da garota começou a tremer com mais força e %Louise% mudou de posição se sentando. Eu percebia os movimentos e não pararia a masturbação até ela parar de frescura.
Levei minha mão até a boca e cuspi nela. Percebi %Louise% atentando ao movimento. Voltei para meu caralho extremamente duro e pulsante. Aquela estava sendo uma das melhores punhetas da minha vida. Intensifiquei os movimentos e a porra só ficava mais gostosa. Minha mão livre foi segurar meus cabelos e puxa-los para cima. Tentei ir mais rápido ainda e para deixar tudo mais excitante comecei a projetar movimentos de penetração na minha mão. Não é difícil de prever que com isso passei a gemer mais ainda.
Finalmente decidi olhar para o lado. %Louise% estava de boca aberta babando por mim. Quando encontrou meus olhos tentou disfarçar, porém, não conseguiu, estava vidrada em mim. Sorri vitorioso e voltei a fechar os olhos. Abri bem a boca e soltei um grunhido longo e demorado. Estava me preparando para dizer algo quando algo atingiu minha língua.
Até que enfim, safadinha. Ela enfiou sua língua na minha sem a menor cerimônia ou vergonha na cara. Depois disso tudo foi confuso. %Louise% começou a tirar a própria calça de qualquer jeito, sem parar de me beijar. Quando se livrou delas, deu um jeito na calcinha. %Louise% mal respirava, ela estava completamente desnorteada e descontrolada. Tentei até falar algo, mas, ela não deixou. Sua boca não desgrudava da minha e cada vez mais ela respirava com dificuldade como se o ar faltasse.
A garota tirou minhas as mãos do meu membro. A primeira reação foi tentar reclamar. Não foi necessário. Subitamente ela sentou em mim. Com tudo, sem piedade. De uma vez sua boceta engoliu meu pau. Levantei a mão e soquei o ar atrás de mim. Ela não soltava minha boca. E nem por um segundo sequer deixou de rebolar com toda a vontade do mundo. Grudei sua cintura e a ajudei a deixar o sobe e desce mais selvagem. %Louise% teve que interromper o beijo para poder respirar, senão morreria ali. Porra, que saudade de ouvir aquele gemido. Saudade de ver aquela boquinha mordida, de sentir minhas bola batendo naquela bunda. Desci uma mão para suas nádegas e estapeei sem dó. Ela vibrou no meu colo.
- Eu sabia que você não ia aguentar. Eu sabia.
- Você é um filho da puta, %Fitzroy%. – a fala era tão baixinha que eu mal pude ouvir.
- Não, eu sou um garoto brilhante. – não diferente dela eu também estava gemendo e grunhindo alto demais.
- Ah, %Fitzroy%. Me fode e cala a boca. – %Louise% queria ir mais rápido e mais fundo, só que suas pernas não estavam aguentando mais. Forcei meu corpo contra o dela e a guiei pra cair no sofá. Sai de sua bocetinha molhada por um momento para voltar com força de novo. Me encaixei no meio dela e trouxe uma de suas pernas para o meu ombro. Ótima posição para poder meter com toda a intensidade que eu e ela queríamos. %Louise% cerrou os olhos e gritou, sem medo de ser ouvida.
- Ei, olha pra mim. Olha pra mim. – ela tentava abrir os olhos, mas não conseguia. – Eu mandei olhar pra mim. – estapeei seu rosto com força moderada. Fiz minha cara de macho mandão e %Louise% se derreteu abrindo os olhos pra mim. – Você tá gostando assim? – ela balançou a cabeça fazendo que sim, na situação que estávamos não conseguia fazer mais que aquilo. – Então continua olhando pra mim, quero ver você gozar olhando pra mim, entendeu? – fui o mais rápido que pude. Bruto, animalesco, assim era o nosso sexo e era assim que eu amava ter %Louise%, dentro de mim, gemendo pra mim e gozando pra mim. Eu estava quase lá, me esforcei o máximo que podia para não esporrar dentro de %Louise% antes que tivesse um orgasmo. Para acelerar o processo molhei meu polegar e procurei por seu clítoris. Comecei a esfregar com força e de forma rápida, %Louise% berrou mais ainda.
- Vai, %Fitzroy%, vai ...
- Isso, goza pra mim. – meti mais, masturbei mais e foi lindo. %Louise% se contorcendo por inteira, soltando um grito animalesco na minha cara e simplesmente gozando em desespero enquanto abraçava meu pescoço pra si. Suas unhas marcaram meu pescoço tão forte fora o aperto. Minha vez chegou e eu deixei minha porra escorrer pelas pernas dela.
- Seu gostoso, você é muito cretino. – a voz de %Louise% ficava bem manhosa e lenta depois do orgasmo, um jeitinho muito fofo de me elogiar.
- Gostosa é você, minha putinha.
- Eu quero você me fodendo assim pra sempre. – a frase cortou meu estômago, tirei os cabelos que molhavam sua testa e a encarei sério.
- Se depender de mim, eu vou te foder assim todos os dias até o dia de eu morrer. - beijei sua testa e ela veio em abraçar, agora calma e tranquilamente.
xx
- Armand? – abri a porta sutilmente. Ele estava sorridente à frente do espelho ajeitando seu traje.
- Giorgio, que bom te ver. Ficou o dia todo fora. – eu sabia quando o cardeal estava sendo irônico comigo e naquele momento seu sorriso e palavras foram extremamente verdadeiros. Ponto para mim. - Estava ajeitando tudo com nosso visitante. – o plano corria bem, eu estava com o nervosismo me corroendo e não deixar transparecer estava difícil. – Já temos nosso ponto de encontro. Você vai se surpreender, nossas suspeitas foram confirmadas.
- Matamos o padre na hora errada, não é?
- Exatamente. – Armand desfez o sorriso e sentou-se em sua cama. Respirou fundo e afundou suas mãos em seu rosto de forma nostálgica.
- Tudo bem, não podemos chorar pelo passado. O que importa é que vamos pegar o tesouro hoje e partir para a redenção logo pela manhã. Mas, enfim, qual nosso ponto de encontro? – firmei a expressão para parecer coeso e confiante.
- Uma pequena casa de madeira no meio da floresta. Foi lá que %Gustav% escondeu o tesouro.
- Eu sabia que a porcaria não estava aqui. Devo te dizer, se o padre estivesse vivo, eu o parabenizaria por sua inteligência, ele foi eficiente. Pena, que se meteu no nosso caminho. – refletiu por mais um momento e voltou a atenção à mim. – Podemos partir?
- Claro, por favor. – mostrei-lhe o caminho e dei passagem. Armand rompeu a porta e eu fui logo atrás dela. Atrás de mim escondido em uma pilastra estava Manterfos. Soltei o sinal combinado e o garoto foi fazer o que tinha que fazer, tirar nosso coelho da cartola.
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O circo estava todo armado. Finalmente, aquele inferno acabaria. Foram incontáveis dias de problemas. Cada dia culminou para um fim insano. Minha vida tinha virado de ponta cabeça. Todo que eu havia imaginado e planejado caiu por terra. Uma avalanche de fatos doidos e insanos mudaram o rumo de tudo. %Gustav% estava morto, eu apaixonado por %Louise%, %Carl% quase noivo e Chielline ao meu lado me perguntando coisas sem parar.
- Me explica isso direito?
- Nikolai pediu que eu botasse fogo na casa. Ele tem trocentas anotações ali dentro, tem um monte de coisa escrita nas paredes. Segundo ele é perigoso deixar essa casa assim e então ele pediu que eu queimasse. – Chielline pôs a mão na cintura e olhou para o céu nervoso.
- Juro que estou me corroendo pra entrar lá e ler tudo, mas, não temos mais tempo. Vou ter que deixar essa passar. E te digo uma coisa, esse teu amigo Nikolai é um profissional na arte da estratégia. Virei fã do cara.
- Nikolai foi um parceiro e tanto. E veja só, que ironia, por causa da sua gente eu o perdi também, muito obrigado. – o cardeal revirou os olhos e eu abri meus braços em sinal de “não posso fazer nada”.
- Tudo bem, eu já entendi. Você me odeia, vai me ressentir pra sempre e tudo mais, será que podemos focar no plano agora? – um barulho de bota nas folhas chamou minha atenção e percebi que %Carl% juntava-se a nós.
- Pronto. – jogou os galões no chão e abriu um saco preto de lixo. – Joguei o diesel e ajeitei as coisas para o fogo. Qual o plano agora?
- Encontrei Herman e o obriguei a fazer um acordo comigo.
- Que tipo de acordo? – cruzei os braços esperando pela resposta do religioso.
- O tipo de acordo onde eu ameaço vazar os podres dele se ele ajudar Armand e não a mim. – Chielline piscou convencido. – E vá por mim, os podres dele são muito maiores que o dinheiro que Armand ofereceu.
- Então... – %Carl% ainda estava inquieto tentando ficar a par de tudo.
- Virei com Armand até aqui, nós encontraremos Herman. Manterfos está plantando um baú lá dentro agora mesmo, ele vai ficar no meio da sala para que Armand o vejo. Vamos entrar na casa, bater um papo, dar uma enrolada e tudo mais. Se bem conheço Armand ele vai cantar vitória antes da hora. Então eu irei dizer que preciso sair por ter percebido algo suspeito. Ficarei um tempo aqui fora e quando eu voltar pra lá, você começa a parte do fogo que não incendeia a casa, apenas o redor dela. Volto desesperado dizendo que há homens do Justice aqui e acuso Herman. Armand vai enlouquecer e vai ordenar que eu mate Herman. Vou fingir que rendi Herman e o levarei para os fundos. Armand vai sair louco atrás do baú, mas ele não vai mais estar lá. Manterfos vai entrar pela janela da frente e trazê-lo para fora. O resto, é surpresa. Quando for hora de por fogo em tudo, vou deixar você sabendo, %Carl%.– Chielline riu. O cardeal confiante, petulante e cheio de si estava de fora.
- Surpresa? – perguntei desconfiado.
- Surpresa, lenhador. E te digo, todos amam as minhas surpresas. Agora fiquem em seus postos, porque o espetáculo está prestes a começar. – Chielline nos reverenciou e saiu rumando a saída da floresta.
- o que esse diabinho vai aprontar, hein? – %Carl% me cutucou questionando.
- Não faço a mínima ideia, mas, o infeliz é bom e parece saber o que está fazendo.
- Vamos confiar que sim. – %Carl% deu dois tapas em meu ombro direito. Juntou seu saco de lixo cheio de galões e foi para seu lugar estratégico. %Louise% conversava com Manterfos e eu me aproximei.
- Sem querer ser grosseiro, mas o tempo para conversas acabou. Precisamos ficar prontos. – %Louise% me olhou sorridente e Manterfos pareceu me temer. Abaixou a cabeça em sinal de respeito e também tomou seu rumo.
- E nós, o que vamos fazer? – %Louise% não parecia sentir medo, essa facilidade dela de levar as coisas numa boa me assustava.
- Não está com medo? – a abracei pelos ombros e comecei a guiá-la por nosso caminho até nosso ponto de esconderijo.
- Não, na verdade estou meio que animada pra esse plano que mais parece coisa de filme.
- Você não tem jeito mesmo, né? – ri para ela que sorriu abertamente de volta para mim.
- Não e você sabe disso. – continuamos a sorrir que nem duas bestas alegres e caminhamos conversando até chegar ao nosso local. Ficaríamos logo à frente da casa, escondidos atrás de uma enorme árvore cheia de arbustos em volta, ninguém nos veria ali e nós poderíamos ver todo o movimento.
- Quero que saiba que nada vai dar errado, porque eu não vou deixar, ok? Você está comigo e eu vou te proteger. – era tão gostoso tê-la para mim, do meu lado, sorrindo pra mim. %Louise% segurou minha mão esquerda e a beijou. Tudo que eu mais queria é que o inferno acabasse para que a gente pudesse se ajeitar.
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Deixei Herman e Armand conversando em um café próximo à Igreja. Precisei ir à floresta ajeitar os últimos detalhes de tudo. O nervosismo estava comendo minhas entranhas. Ao mesmo tempo em que o fim parecia próximo e promissor, ele se mostrava distante. Ainda tínhamos uma longa hora até tudo enfim se concretizar.
- Olá garotos. – me aproximei sutilmente. Armand puxou uma cadeira para mim. Cristo, o homem sorria sem parar. Há anos eu não o via tão feliz e animado. Um pedaço de mim estava triste, dolorido. Armand foi alguém importante na minha vida por muito tempo. Passei anos ao seu lado em épocas em que ele era o único ser humano o qual eu tinha contato por meses. Armand Marion tinha me ensinado verdadeiras lições de vida e além disso, como matar um homem usando um cortador de queijo. Me senti uma puto traidor. Infelizmente, o Justice for Saint Mary era minha primeira prioridade. Eu nasci dentro daquele grupo, eu cresci por ele. Nada, nem mesmo Armand poderiam contrariar minha missão.
- Pedi um Capuccino com creme de baunilha para você, porque sei que é seu preferido. Ah, e sem canela. Sei que você odeia canela.
- Armand, é quase noite, nós precisamos ir. – não. Eu não tinha tempo para parar e tomar um cafezinho. A coisa precisava ser agilizada.
- Nem teime comigo, Giorgio. Hoje é um dia de festa, tome seu Capuccino e fique quieto.
- Tudo bem, tudo bem. Não vou te contrariar. – meus neurônios fritaram. Eu queria desesperadamente sair dali e ir pra floresta logo. Infelizmente, era sempre assim, quanto mais pressa, quanto mais desespero, mais empecilhos aparecem.
Engoli o Capuccino com pressa. Queimei minha língua, minha garganta e meu estômago. O formigamento na minha boca neutralizaria a minha ansiedade. Armand caminhava sem pressa. O tempo que ele demorou no balcão pagando a conta, saindo do café, andando conosco até floresta pareceu passar com uma velocidade quase nula.
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Floresta – Cerca de uma hora depois
O fogo subia em volta da casa. O vento jogava as lambaradas de um lado para outro e o laranja incandescente bailava frente ao meu rosto. %Louise% observava a cena vidrada, como uma criança que vê um leão no zoológico pela primeira vez. Já eu, estava muito mais perturbado. O calor era iminente a tensão extremamente grande.
Armand gritava Chielline e não recebia resposta. Meus músculos tremiam e eu parecia viver um pesadelo sem fim. Era tão agoniante olhar Armand cercado pelo fogo, em desespero. Eu via em seus olhos o medo. Então eu lembrei de %Gustav%. Eu não o vi em seu leito de morte. %Carl% estava lá, graças ao bom Deus. Meu padre também previu a morte, ele também sentiu medo. Seus olhos provavelmente tinham o mesmo brilho escuro que Armand possuía em seus olhos cinzas naquele momento. A partir daí eu deixei de ter pena dele. Aquele abutre dos infernos não merecia minha empatia.
Aquela cena em específico pareceu congelar. Marion travou na porta sem saber o que fazer. Seus olhos começaram a correr à sua volta e notou que algo havia sumido. O tesouro não estava mais ao seu redor. Suas mãos trêmulas foram aos seus curtos cabelos grisalhos.
- Chielline, Chielline. Giorgio, pelo amor de Deus, levaram o tesouro. – ele foi até saída e colocou sob o solo terroso. Olhou para os lados atordoado procurando por Chielline. Nada, ele estava sozinho com o fogo.
De repente, o homem mudou a postura. Em um lampejo rápido de tempo eu o vi arregalar os olhos e por um pé para trás. O brilho do medo intensificou-se em sua áurea tornando-se em desespero.
- Não, não é possível. Chielline, Chielline, Chielline. – Armand berrava pelo cardeal como uma criança que faminta. Fiquei confuso, passei a não entender mais nada. Eis então, que a vida se mostrou uma vadia. Uma vadia miserável e insana. Fora a minha vez de entrar em desespero e agonia. A euforia da confusão se apossou de mim quando ouvi aquelas palavras.
- Olá Armand, procurando por isso aqui? – eu conhecia aquela voz. O timbre era conhecido, o sotaque italiano misturando-se ao sueco também. Fechei os olhos e voltou a encarar a realidade de novo. Pensei estar sonhando, mas não. Era tudo verdade, uma enlouquecida verdade.
- Padre, você está morto. – Armand não sabia formular uma frase com mais de cinco palavras. Seu corpo o traiu e ele caiu sentado ao chão.
- Estou vivo Armand e com seu precioso tesouro em minhas mãos. - a partir dali, tudo fora um borrão confuso e Dantesco.