Chapter XIII
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O desespero pairava a cidade. A tragédia era o novo hino do local. Deus pareceu esquecer-se daquela cantinho da Suécia naquela manhã. Quando os primeiros engasgaram, o padre se assustou. Quando os primeiros cuspiram sangue, o padre clamou pelo Senhor em transtorno. Quando os primeiros agonizaram, o padre saiu correndo pedindo por socorro. Quando os primeiros morreram, o padre praticamente morrera junto.
O caos alastrou-se. Mas, aqueles pobres seres de alma e dinheiro não tinham a quem deixar. Eram sozinhos, sem família ou expectativa. Seu único clamor ao amanhecer era que pudessem subir a colina e ir desfrutar das refeições de %Gustav%. A Suécia era um país rico, mas, por brigas religiosas alguns católicos perderam suas posses e acabaram ali. Acabaram no único reduto do Vaticano naquele gélido país.
Assim que %Gustav% chegou e modificou suas vidas, elas pareciam ter alcançado um pedaço do céu. Pedaço do céu o qual iriam ter agora, seus corpos estavam jogados ao chão. O sangue que cuspiram ao beber o leite lhes pintou a pele, porém, sua alma santa e pura subia aos céus para o encontro do pai celestial. Infelizmente o paraíso era apenas para os mortos.
Para os vivos, o inferno subia à terra.
Há 40 anos eu morava ali e há 40 anos eu ainda achava irritantemente perturbador o sol nascer às 3 da manhã no verão. Por uma falha acabei deixando uma fresta na janela que permitiu a entrada de luz cedo demais. Quando olhei no relógio e me dei conta que ainda eram 5 da manhã eu quis matar alguém, odiava acordar cedo.
Joguei os ovos na frigideira e fui procurar por vinho. Sei que o normal seria beber leite, chá ou até mesmo um suco, mas eu preferia tomar vinho, principalmente nos momentos de mau humor. O vinho me aquecia, embora estivéssemos no verão e o verão ao sul fosse o mais quente do país graças à corrente do Golfo. As gemas foram lambuzadas com sal e embrulhadas com pão. Por mais simples que fosse, se eu precisasse apenas comer pão com ovo até o fim dos tempos não seria de todo ruim, apesar de não conseguir viver sem carne.
O sol estava um pouco mais forte naquele dia, a paisagem do lado de fora era mais amarelada com alguns tons de vermelho. Eu sentia falta da neve, gostava de olhar pela janela da cozinha e ver meu quintal todo coberto pela cor branca. Meu sanduíche estava pela metade quando mãos grosseiras martelaram minha porta. Olhei no relógio em cima da geladeira e ele me dizia que mal havia passado das 7 horas da manhã, mas que diabos?
Muitas coisas tinham mudado nos últimos tempos. Eu com meus bem vividos 40 anos estava envolvido com uma garotinha de 17. %Gustav% estava de volta à cidade, assim como Ana, e %Carl% era o mais novo corno separado do momento. Além do fato de eu receber mais visitas do que estava acostumado. Aquilo não era comum, pessoas batendo à minha porta com tanta frequência era realmente algo fora da rotina.
Deixei o sanduíche de ovo jogado em cima do prato e limpei minhas mãos na camiseta preta que tinha sido meu pijama naquela noite. A porra da mão não parava de bater na porta freneticamente. De repente, quando ainda estava cruzando a porta da cozinha reconheci a voz de %Gustav% desesperada, alta e atordoada. Corri até a porta, envolto por aquele clima trágico e ao abrir a mesma vi meu amigo padre de uma maneira que nunca me passou pela cabeça poder ser real.
Seus olhos mal pareciam verdes naquele mar vermelho que tomava conta de seus glóbulos oculares. As mãos que outrora batiam na madeira de entrada da minha casa tremiam como o chão no romper de um terremoto. Não há como descrever a situação dele senão dizer que %Gustav% estava tomado pelo pânico, sua alma estava fodida. Em um momento inesperado o padre se jogou nos meus braços chorando. Não sabia o que fazer, como reagir. Nenhum manual humano tinha instruções para aquela situação.
Com minha força que mal havia acordado o coloquei para dentro de casa fechando a porta. %Gustav% não se desgrudava de mim. As lágrimas dele molhavam meu ombro e seus soluços me arrepiavam por inteiro. Eu mal possuía fôlego para perguntar o que havia acontecido, para entender qual o motivo daquele desespero.
- %Gustav%, senta aqui, se acalma, tenta me explicar. – o coloquei sentado em meu sofá e o padre mal se movera. Ele parecia querer entrar em posição fetal.
- Eu... eu... eu não consigo. – eu já tinha visto %Gustav% chorar. Chorar de dor, pela namorada, por futebol e até mesmo de rir. Mas daquela maneira, com aquela intensidade, jamais. Me ajoelhei na frente dele e o fiz olhar para mim. Meus olhos marejaram, eu devo admitir. Ele estava sofrendo e ver meu amigo sofrer daquela maneira não era suportável para o meu ser. Por mais babaca filho da puta que eu fosse, eu era um ser humano com carinho e amor rondando meu peito.
- Respira fundo. Não sei o quê raios houve, mas não adianta deixar o pânico alastrar no seu corpo. Eu sou amigo, eu sou seu irmão, eu vou te ajudar. – %Gustav% segurou minhas mãos e as mesmas começaram a tremer no ritmo das dele. Ele não tinha toque ou firmeza em seus gestos. Agora era eu quem queria acabar em posição fetal.
%Gustav% fechou os olhos. Talvez ele estive rezando, orando, clamando piedade. Eu estava bufando, socando minha própria perna em nervosismo, aquele clima de mistério iria me matar a qualquer minuto.
- A casa dos pobres. – %Gustav% soltou, ainda de olhos fechados. Eu ia interrompê-lo, mas ele levantou a mão me impedindo. – A casa dos pobres foi invadida. As pessoas morreram, quem foi comer lá hoje morreu. Elas cuspiram sangue depois de beber o leite. Crianças caíram duras no chão sujas de sangue. Eu não pude fazer nada, nada. – o golpe foi fundo no meu estômago. Pessoas morreram? Sangue? Foi uma chacina?
- Alguém assassinou os pobres? Como assim? – perguntei em vão, meu amigo ainda de olhos fechados parecia querer sumir da realidade. – %Gustav%! – berrei o sacudindo. Ele pareceu finalmente acordar. Os olhos que choravam de tristeza agora pareciam inundados de raiva.
- Assassinato, %Fitzroy%. – %Moore% se pôs de pé andando pela sala. – Foi aquele maldito Armand. Eu sei que foi, envenenaram a porra do leite. Sei que fizeram isso, não sei como, quando e nem com o quê. Mas envenenaram o caralho do leite dos meus pobres. Eu amava aquela gente, eles eram parte de mim. Sangue do meu sangue e eles os tiraram de mim. Não foram todos que morreram, assim que os primeiros caíram ninguém mais bebeu ou comeu algo. Mas nada podia ser feito, em minutos todos estavam mortos e sujos de sangue no chão. – %Gustav% não deu pausa entre as palavras, ele falava e falava e falava e eu resolvi deixá-lo falar, o garoto precisava desabafar. – E quer saber a maior? Eu estava lá jogado no chão totalmente perdido e desesperado. As cozinhas estavam chorando, Manterfos saiu correndo pra pedir ajuda e os outros que estavam lá mal conseguiam se mexer tamanho o pânico. Então o bispo chegou acompanhado de Armand. Depois de muito trabalho, de tirar os corpos de lá, de chegar os bombeiros, a polícia e o diabo à 4 o bispo me chamou para uma reunião. Ele não estava normal, seu tom de voz era diferente. – ele deu uma pausa para soltar um sorriso escarnecido. – Armand jogou minhoca na cabeça dele, o bispo estava meio inerte. Ele disse que Armand o instruiu a me suspender da minha missão por uma semana. Que faria mal para mim ficar ali, que eu precisava de paz e sossego por alguns dias. Ele me tocou da igreja, disse que era o melhor pra mim, mas não. Esse não é o melhor pra mim, é o melhor praquele cardeal maldito. Armand deve estar morrendo de medo de que eu consiga provas contra ele e por isso ele me afastou, para deixar o caminho livro. Devo admitir, o cara é realmente brilhante.
- É assim que eu gosto de você, puto e falante. Mas vai com calma que você me deixou tonto falando tanta coisa sem dar espaço pra respirar. – pela primeira vez naquele momento conturbado ele riu.
- %Fitzroy%, envenenaram o leite daquela merda eu estou muito puto. E pra ajudar me tiraram de lá, não posso nem ao menos passar perto da igreja. E pra ajudar mais ainda, o bispo disse que me poria bem longe das investigações para não fazer mal a mim mesmo. Sério, você acha que a polícia local vai ter algum poder com Armand por perto?
- O que Armand tem a ver com a polícia? – se tinha uma coisa que eu estava naquele momento, era confuso.
- %Fitzroy%, o Estado sueco é laico, mas nós sabemos que a maioria é protestante. Você sabe da história de guerra civil religiosa envolvendo nossa região. Você sabe que as autoridades de fora tão pouco se fodendo se um católico morreu de câncer ou assassinato por aqui. A polícia local vai com toda força querer justiça para isso, mas eu duvido muito, mas muito mesmo, que o Armand vai deixar a Riks Krimina lPolisen sequer chegar perto daqui. O homem tem poder, o poder do Vaticano, que é uma baita duma influência.- %Gustav% parecia estar tremendamente incomodado com toda a situação. Qualquer um falaria “foda-se, são só sem-teto que ninguém se importa”. Mas o meu amigo, o meu padre não era qualquer um, ele era %Gustav% %Moore%. Uma santa pessoa a qual me inspirava nos meus momentos de ódio mortal pelo mundo.
- Ninguém vai sentir falta dos que morreram, vão jogar os corpos em qualquer buraco e Armand vai usar de sua influência para afastar polícia. Essa parte eu entendi, mas, e o povo daqui? E os católicos daqui, o que vão fazer com eles?
- Vão por todos dentro da Igreja, celebrar uma missa, falar um blah blah qualquer e pronto. Armand consegue manipular qualquer um. – odiava me sentir impotente, com todo meu tamanho e força, era uma bosta não poder fazer nada para resolver.
- E você, vai fazer o quê? – %Moore% se sentou novamente, seu sorriso de nervosismo estava cortando a porra do meu coração.
- Fui tocado da Igreja, mal tive tempo de pegar minhas coisas. Será que posso ficar por aqui? Sei que odeia visitas, mas...
- Nenhum “mas”. Cale a boca, o que você acha que eu sou pra recusar teto à você, seu merda?
- O %Fitzroy%? – os dois riram. Me sentei ao lado dele e o abracei. %Gustav% e %Carl% eram meus meninos e ninguém faria mal à eles e se veria longe da minha vingativa fúria.
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Finalmente o padrezinho de merda estava longe da minha batina. Por um momento pensei que seria difícil tirar o infeliz de dentro da Igreja, mas, nada que um bom serviçal e poucos gramas de la cantarella não resolvessem.
Quando ainda era menino a maldade não havia possuído meu peito. Eu esperava um mundo de justiça, paz e igualdade. Entretanto, a experiência me ensinou que há aqueles que devem morrer para que os certos possam viver em paz. Em todos os anos de Vaticano eu aprendi o que os homens de Deus deveriam ser capazes de fazer o possível e impossível para manter a integridade da nossa Santa Mãe Igreja.
Estudei por muitos anos a história de nossa Igreja e escolhi meu lado. Poder ser o homem mais importante do Justice for Saint Mary me mostrou que eu deveria ser capaz de pisar nos fracos para um futuro próspero. Sacrificar os miseráveis para que A Virgem Maria e seu filho estivessem sempre no controle e respeitados na terra.
Rodrigo Borgia, o Papa Alexander VI. Sua família era condenada por luxúria, usura e outros crimes. Seu sangue espanhol era desdenhado pelas famílias italianas mais tradicionais. Ele chegou à Roma com sua mulher e seus filhos bastardos para receber o escarro da sociedade dali. Eu era um estrangeiro em terras sagradas como ele. Mas, Rodrigo fez o que fora preciso para manter o controle e a Igreja. La Bella Farnese, uma de suas amantes comandou por algum tempo as finanças do Vaticano para impedir que os cardeais desviassem dinheiro. Seu filho, Cesare, o príncipe de Maquiavel, lutou com unhas, dentes, punhais, facas e seu fiel escudeiro Michelleto. Fora nesse ritmo incrédulo que a família conheceu o poder de la cantarella.
La Cantarella, uma variação mais efetiva do arsênico. Um veneno que na dose certa traz a maior certeza da vida, a morte. A família Borgia sabia muito bem do poder do veneno. Fora com eles que ganhei apreço pelo mesmo e seria com ele que eu resolveria meus problemas. Um passo havia sido dado, %Gustav% não seria mais um empecilho e finalmente eu teria livre acesso à Igreja para vasculhá-la atrás do meu precioso tesouro.
Embora tesouro fosse uma forma errada de se tratar do conteúdo do baú, chamá-lo assim era uma maneira de demonstrar carinho. Aquele baú talvez fosse um dos mais antigos de posse do Vaticano, fora conseguido em uma Cruzada no ano de 1096. Era uma peça talhada em madeira trancada com um enorme cadeado dourado. Na parte superior jazia um crucifixo banhado em ouro branco e alguns dizeres escritos em hebraico na cor vermelha.
Quando os documentos chegaram em minhas mãos não tive dúvida que por seu teor extremamente exorbitante, deveriam ser guardados naquele baú. Assim passei a missão aos soldados do Justice, que deveriam pô-los em segurança onde fosse melhor. Porém, por uma lei do grupo, de que os Cardeais de maior influência da Igreja não devem saber onde guardar os pertences para que se evitasse conflitos de interesses, nunca ficara sabendo onde haviam sido guardados.
Até que um homem, que trabalhava para outro homem de sangue nobre e exímia riqueza veio até mim oferecer seu preço pelo baú. Em um primeiro momento eu sorri em descaso, mas, com o passar das horas e de nossa conversa a proposta feita não poderia ser recusada. Eu venderia o baú, para o bem da Santa Igreja e ninguém ousaria ficar em meu caminho, nem ao menos, O Justice for Saint Mary. Com %Gustav% fora eu poderia revirar a Igreja e finalmente achar meu baú.
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Não era a primeira vez e com toda a certeza possível de ser medida, não seria a última. Matar não era mais uma aberração, um absurdo transcendental. Acontece com qualquer um quando é colocado em situações extremas. Você se acostuma e nem perde tempo remoendo aquilo. Faz parte do passado e o passado fica no passado.
Armand mal havia falado comigo naquele dia, mas seu humor estava incontrolavelmente, bom. O homem estava alegre, irremediavelmente feliz. Por um lado eu até me sentia bem por ele, felicidade seria algo bem vindo naquela Igreja. Se Armand sorria como uma besta, o bispo só faltava chorar como uma criança chateada. %Gustav% também parecia fazer falta, de um jeito estranho ele alegrava o lugar.
Eu o único ali que tinha uma visão diferente dos fatos. Armand estava completamente radiante pelo padre %Gustav% %Moore% estar bem longe dali e eu sabia muito bem o que aquilo queria dizer, o cardeal infernal teria todo a liberdade necessária para por a Igreja abaixo atrás do tesouro. O que era uma vergonha tamanha. Segundo os regulamentos do Justice, uma das faltas mais graves era a de trair o grupo para qualquer tipo de benefício próprio. Somada à essa, Armand parecia descumprir outra regra principal, a de agir pelas costas dos outros para encontrar qualquer objeto guardado pelos soldados.
Eu era um dos soldados do Justice, Cardeais mais novos e de menos influência que faziam o serviço braçal. Éramos nós que cobríamos as sujeiras da Igreja. Éramos nós que organizávamos os pertences preciosos do Vaticano e os guardávamos. Era de Armand e homens como ele a responsabilidade de resolver problemas administrativos, merdas burocráticas e coisas do gênero. Como bom soldado que era, não deixaria Armand completar seu plano e faria de tudo para cumprir o meu, encontrar Nikolai.
Nikolai, o único desertor do Justice for Saint Mary a ficar vivo por mais de 24 horas. Tinha se tornado uma lenda entre nós soldados, havia criado um chamariz de heroicidade em outros soldados que desejavam fazer o mesmo. Todos falharam miseravelmente. Conhecê-lo era até mesmo realizar um sonho quase adolescente de conhecer um símbolo de rebeldia. Entretanto, nós podemos até conseguir sair do Justice, o problema é que o Justice nunca sairá de nós. São lembranças demais e um símbolo que literalmente não sairia nunca de nossas peles. Uma enorme tatuagem nas costas. É até mesmo irônico tratar de tatuagens na Igreja Católica, mas em seu âmago, a religião católica ainda carregava muito de seu antigo paganismo.
Decidi que queria dar uma voltar. Conhecer a cidade, matar o tédio e cobiçar mulheres. Para não assustar a população resolvi me despir das vestes sagradas, fiz o melhor que pude com o que havia trazido. Um sapato social, calça preta também social, camisa preta e um enorme casado. O frio dali sabia ser pior que o da Itália.
Nem me preocupei em avisar Armand, sabia que ele estaria se divertindo por lá e não sentiria minha falta. Era uma sexta feira, ao descer a colina via o movimento de pessoas bem vestidas em clima de festa e a alegria, elas beberiam, trepariam e acordariam felizes no outro dia. Eu, teria que arrumar algo que minha religião permitisse.
Vi um casal se despedir com um nada discreto beijo e língua. A ruiva sorria e o homem claro de cabelos castanhos também. Era bom em analisar pessoas e inventar histórias para suas vidas e me distrair com isso. Continuei meu caminho que acabou se cruzando com o do homem claro de cabelos castanhos. Seus olhos pararam sobre mim um momento, ele pareceu não me reconhecer.
- Forasteiro? – perguntou, tinha um sorriso receptivo em seus lábios.
- Foi tão fácil perceber?
- A cidade é pequena, é fácil reconhecer um rosto desconhecido. %Carl% %Lindemann%. – seus olhos brilhavam de um jeito tão, doce. Estendeu sua mão com o mesmo sorriso de antes.
- Giorgio Chielline. Um italiano curtindo uns dias de férias do trabalho. – não seria naquele momento que iria revelar ser um cardeal.
- Italiano? Nunca conheci sua terra, dizem ser uma maravilha, cheia de história, monumentos e belas mulheres. Tudo isso confere?
- Tudo isso e mais um pouco, temperado com a típica latinidade quente de todo italiano. A gente realmente não presta. Também nunca tinha vindo para essas terras, o frio anda me assustando e o dia longo de mais também. Esperava mais frieza, ainda bem que encontrei um sueco mais caldo.
- Caldo? – %Carl% não parecia entender muito bem a língua italiana.
- Perdão, quente.
- Ah sim, quente. Isso quer dizer que sou simpático? Espero que sim.
- É exatamente isso. O que tem de bom para se fazer em uma sexta-feira por aqui?
- Depende do que você procura. – na real eu gostaria muito de foder alguém, mas não era o dia ideal. Talvez beber algo e comer um frango frito seria razoável.
- Comer, beber? Me surpreenda.
- Bem, há um restaurante típico por aqui perto da praia, acho que possa te agradar e te ajudar a conhecer a cidade. Te acompanharia se pudesse, mas tenho um amigo me esperando.
- Tudo bem, não se preocupe. Só me passe as coordenados, ficaria grato.
- Mas claro. Não é nada muito complicado. Pode continuar reto por aqui e virar à esquerda. Você vai ver dois hotéis de luxo, passe por eles e vire à direita, é só se guiar pelo som das ondas batendo nas rochas. Ele fica logo à frente ao reflexo da luz do farol. – certo, luz do farol. Que a pequena aventura valesse a pena.
- Certo, obrigada, %Carl%. Foi bom conhecer você, que possamos nos encontrar mais vezes. – fora minha vez de estender a mão.
- Também espero, bom passeio. – assim que soltamos as mãos, seguimos nossos caminhos.
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Sexta-feira à noite. Meus pais estavam se arrumando e falando alto demais. Os dois tinham muito mais vida social que eu, o que poderia ser bem frustrante às vezes. Todo final de semana eram jantares, bailes beneficentes, casamentos e mais eventos sociais. Quando pequena eu ia em todos eles. Os vestidos bufantes, tiaras de swarovski e outros apetrechos que me faziam parecer uma princesa. Então eu cresci e me tornei um pouco mais “rebelde”, por falta de termo melhor. Aos poucos aquelas festas se tornaram símbolo de comida boa grátis e já fazia algum tempo que eu resolvi abandonar tudo e deixar pra lá. Meus pais iam à todos sem mim e parecia melhor assim.
- Filha, estamos indo. Se cuide viu? – meu pai surgiu na porta me assustando de leve.
- Pai, já falei 20 vezes pra não chegar falando assim, me assusto toda santa vez. – ele riu da minha cara. Velho abusado.
- Perdão, mas o jeito que você pula da cadeira é engraçado. – eu o olhei com uma expressão de tédio mostrando a língua. – Sua mãe e eu voltamos amanhã, deixei dinheiro pra pizza em cima do aparador do corredor. Juízo hein.
- Pode ficar tranquilo, não vou trazer nenhum stripper pra casa. – meu pai iria falar mais algo, mas, minha mãe chegou na porta chamando a atenção com seu decotão.
- Traga alguém sim, seu pai com ciúmes de você é bem mais engraçado que seus sustos.
- Irina... – mamãe levantou os braços fingindo inocência.
- Beijos, filha, boa pizza. – os dois entraram no quarto e me espremeram em um abraço. Me senti até mesmo sufocada pelos peitos da minha mãe. Por mais criança que eu me sentisse naqueles momentos, tenho que admitir que aquela merda de abraço era bom demais.
Ligar para a pizzaria ou ir buscar? Coloquei um moletom, calça jeans e tênis e desci as escadas correndo, queria tomar um ar. Eu realmente gostava daquela cidade. Tudo bem que em toda viagem para Estocolmo ou outras capitais europeias eu surtava e enchi o saco do meu pai para que mudássemos. Todo aquele movimento, luzes, carros importados e pessoas vestindo as roupas mais caras do mundo me deixavam tentada e de acesa para a vida na capital. Mas, eu havia vivido bons momentos ali. Apesar de pequena e meio isolada do mundo, tudo de mais moderno era encontrado, todas as minhas vontade eram supridas.
As pessoas andavam de lá para cá, tinham que curtir a noite antes que a mesma acabasse, o que aconteceria por volta das 3 da manhã. Era bem estranho entrar na boate à meia noite e sair dali quatro horas com o sol iluminando tudo. Excentricidades da Suécia.
Finalmente cheguei à pizzaria e fui pra fila que se formava no balcão. O local estava mais cheio que o de costume, me senti sufocada por um momento. Encontrei um povo conhecido, uns meninos da minha sala, uns amigos dos meus pais. Foi então quando ouvi um assobio, olhei para trás e vi %Fitzroy% acenando. Fiquei incrédula por um tempo e reforcei o olhar para garantir que estava vendo demais. Uns segundos depois %Carl% entrou pela porta, uma ironia muito desnecessária do destino. Ele foi até mim sem dizer um “e aí?” sequer e me arrastou pelo braço. Ótimo, eu fazia parte da gangue deles agora.
- Come com a gente. É triste comer pizza na solidão em casa, vai por mim, já fiz muito isso. – %Carl% era um doce, um lindo, um fofo. Diferente do amigo que puxou a cadeira ao seu lado para eu me sentar.
- Seus pais foram para aqueles programas aristocratas? – %Fitzroy% ficava tão lindo e sensual de cachecol e sorrindo.
- E quando eles não vão? Só me resta torrar o dinheiro deles mesmo. – %Carl% começou a rir e %Fitzroy% me olhou, se fazendo de incrédulo.
- Mas é uma filhinha de papai mesmo. – eu poderia ter levado como ofensa e até levaria se logo depois ele não tivesse passado o braço pelo meu ombro. Quando dei por mim já estava tremendo em nervosismo.
- E aí, o que vamos pedir? – %Carl% segurava o cardápio muito bem concentrado.
- Eu voto em calabresa. – aquela seria minha pizza preferida até o fim do universo.
- Queijo e bacon. - respondeu o lenhador.
- Certo. – %Carl% chamou o garçom, fez o pedido e nós ficamos ali, jogando conversa sem sentido fora. Não demorou muito para a pizza chegar e eu simplesmente me jogar feito uma louca desvairada em cima da mesa.
- Por que Ana não veio? – lembrar de Ana me dava uma certa agonia. Ouvir %Fitzroy% falando no nome dela me deixava meio surtada.
- Os pais iam dar uma festa e ela não podia faltar. – foi só %Fitzroy% pronunciar o nome da ruiva que %Carl% se iluminou. Parecia haver uma fumaça rosa cintilantes em volta dele. A mulher tinha realmente conquistado o açougueiro. Eu meio que fechei a cara, a conversa não estava me agradando. %Fitzroy% encheu a boca de pizza e um pedaço de queijo escorreu pela boca dele. Por mais nojento que fosse, eu queria voar ali, lamber o queijo e beijar a boca dele. Ele estava mais gostoso que o normal, o homem cheirava à bacon.
- Falando nela, isso me lembra algo engraçado. – ele começou a rir. %Carl% e eu ficamos meio sem entender. O que ele estava pensando eu não sabia, só poderia afirmar que era alguma merda safada.
- Essa daqui. – apontou para mim. – Me viu com a Ana e achou que nós éramos namorados. – oh, que ótimo, agora ele iria espalhar isso para o mundo todo.
- O quê? Sério? – %Carl% olhou para mim e caiu numa longa gargalhada. Malditos.
- Ué, %Carl%, vi os dois grudados e ele disse pra mim que eram namorados. Queria que eu pensasse o quê?
- Mas, eu te disse na sua casa que... ah, foi por isso então. – %Carl% também começou a sorrir daquela forma irritante. Eu estava aos poucos perdendo o controle.
- Foi por isso então o quê? – %Fitzroy%, cale a boca e pare de ser curioso. Que inferno!
- Esses dias fui na casa dela preparar o jantar e comentei que estava saindo com a Ana. Ela fez uma cara meio estranha e pareceu ficar de mau-humor.
- Que sensacional. – %Fitzroy% e %Carl% estavam curtindo com a minha cara. De repente a pizza se tornou ruim. Senti vontade de vomitar o que havia comido, por que os dois não iam à merda?
- Claro, você me fala que tá saindo com a Ana e o %Fitzroy% também me fala a mesma coisa, vocês acham que eu sou retardada para achar que isso é normal? É no mínimo ridículo.
- Ridícula foi você morrendo de ciúmes. – %Fitzroy% me puxou mais para perto e sorriu convencido. Homem do diabo, tinha inventado aquela desculpinha. Um plano maquiavélico sustentado por uma mentira imbecil para me enciumar. Muito maduro da parte dele. Por Deus, como eu estava irritada. Quase peguei minha faca e taquei na testa dele.
- Ridículo é você arrumando esses joguinhos para brincar com a minha cara. Bem infantil da sua parte, seu otário.
- Não fica bravinha, foi divertido. Você realmente caiu feito uma patinha na história. Você precisava ver, %Carl%, ela ficou maluca. – respirei fundo. Eu não queria brigar, mas realmente estava tentada à encher a cara dele de tapas.
- Ciúmes é sinônimo de paixão, han?
- Eu não fiquei com ciúmes, %Carl%. – ah tá que eu realmente iria assumir aquilo ali publicamente.
- Ficou sim, não se faça de desentendida. - eu havia ficado com muito ciúmes. Qualquer um na mesma situação que eu também ficaria. O que estava me deixando emputecida era o fato de %Fitzroy% sempre dar um jeito de me fazer de idiota. Ele jogava sua masculinidade sobre mim como se fosse um poder heroico e se achava no direito de controlar minhas emoções. Ah não, eu não permitira que ele me usasse como quisesse, não para manipular meus pensamentos. Dar meu corpo à ele já era o suficiente, não daria minha alma.
- Do mesmo jeito que você ficou de ciúmes de mim com o Manterfos? – o sorriso da vitória ocupou meus lábios e o %Fitzroy% abusado deixou lugar para o %Fitzroy% ofendido.
- Ui, mandou bem, %Louise%. – %Carl% estava assistindo o show de camarote e estava se divertindo.
- Aquele coroinha? Ciúmes? Sério? – eu conhecia aquela expressão, ele estava puto. Isso, lenhador, fique puto.
- Sim, ciúmes daquele coroinha. Você sabe que ficou.
- Na verdade achei engraçado, você não soube escolher muito bem. Ele é um molecote que não sabe nada da vida. – ah sim, a conversa de sempre. %Fitzroy% sempre dava um jeito de insinuar que ele era o melhor homem do universo, que ninguém chegava aos seus pés. Eu ainda provaria para mim mesma que algum homem estava ao alcance dele.
- %Fitzroy%, isso realmente me parece ciúmes.
- %Carl%, simplesmente cale a boca. - o açougueiro assumiu uma posição defensiva e se calou. Ele sabia que o amigo ficava bem mais mal educado quando nervoso.
- Você não vai assumir mesmo, né? – eu o encarei e %Fitzroy% entendeu aquilo como um desafio.
- Você vai assumir o ciúmes pela Ana?
- Vou e você? – tinha pegado ele de surpresa. %Fitzroy% chegou a engasgar com a própria comida. Eu não iria levar aquele desaforo para casa.
- %Louise%, não me provoque ...
- Vai assumir ou não, frangote? – ok, nós parecíamos duas crianças de sete anos discutindo, mas convenhamos que não seria possível evitar aquilo.
- Fiquei. Pronto, fiquei. Satisfeita? – ele jogou os talheres em cima da mesa, visivelmente fora de si. Os objetos prateados fizeram barulho demais e as mesas do lado olharam. %Carl% se assustou e pediu calma. Parecia que a conversa tinha ido longe demais.
- Eu sei que ficou, discussão encerrada. Se bem que você é um babaca, pode assumir isso agora também.
- Só se você também assumir que é uma filhinha de papai arrogante e irresponsável, que tal? Que vai pra floresta se meter onde não foi chamada, que faz um monte de burradas, que age como se tivesse sete anos. E aí, se você assumir isso, eu assumo que sou babaca. – filho de uma puta. Tudo tinha ido longe demais. %Fitzroy% não tinha direito algum de me dizer aquilo, ele havia se aproveitado – e muito bem – de cada “burrada” minha. Se ele achava aquilo tão errado, o quão errado era o que ele fazia comigo? Comecei a raciocinar de um jeito desiquilibrado. Não queria sair por baixo e ainda ser humilhada e tratada com uma coisinha infantil na frente do %Carl% . Eu teria que apelar para alguma coisa, ele também tinha que ser desvalorizado.
- Só se você assumir que deu uns pegas na minha mãe. – a frase saiu rápida demais, ácida demais. %Carl% pela primeira vez na noite parecia chocado de um jeito ruim. Vomitei aquela merda, sem pensar nas consequências. Havia prometido para mim mesma que não tocaria naquele assunto cm ele, que manteria no passado. Entretanto não consegui controlar minha raiva, a revolta por ouvir aquelas palavras tão injustas. %Fitzroy% pareceu ficar sem reação. As palavras teimavam em não sair de sua boca e um semblante de culpa e mal entendimento fizeram-se presente no homem.
- %Louise%... eu...
- Eu vi, %Fitzroy%. Primeiro dia na minha casa, vocês passaram pela sala onde eu estava, mas não me viram. Então eu segui vocês e vi o beijo que deram na adega. O barulho que os fez voltar à realidade foi feito por mim. Quem é o irresponsável agora? – a testa enrugada transparecia o sentimento de impotência que ele parecia sentir. Eu o fiz sentir culpado e errado e era exatamente o que eu queria provocar. Ele não era um santo, um exemplo de perfeição e eu teria que provar para mim mesma que não poderia e deveria ser uma escrava do charme dele.
- Cara, isso ultrapassou os limites e você nunca me disse nada. – %Carl% parecia... não sei definir. %Fitzroy% continuava calado, sem o domínio das palavras e por mais egoísta que aquilo poderia parecer, sai enquanto estava por cima.
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Uma súbita vontade excêntrica tomou conta do meu corpo. O jantar fora ótimo, teria que encontrar o tal %Carl% e agradecê-lo pela dica, realmente espetacular. Percebi as pessoas indo em direção ao centro e aquele litoral mal recortado tornar-se cada vez mais vazio e frio.
As ondas estavam cada vez mais altas, o vento uivando e balançando meus cabelos. Tirei meus sapatos e os deixei em um canto. Sentir a areia escura molhada e gélida fizera bem para os meus pés. Estava tentando sentir minha alma e nada melhor que me por em extremo contato com a natureza. Enquanto caminhava algo dentro de mim pediu que tirasse meu casaco e o fiz prontamente. A mesma sensação dizia à minha mente que eu deveria sentir o vento rasgar meu tórax e por isso fiz minha camisa voar carregada pela revolta forma do ar.
Abri os braços e soltei um grito enfurecido. Porra, eu me sentia vivo.
Muitas vezes minha missão fazia com que eu me esquecesse do sentido da vida. Eu sempre me recusei a perder minha alma animalesca e sempre fazia o possível para que Deus não roubasse a essência pagã de dentro de mim.
Logo o frio já não me incomodava mais e a necessidade de algo mais voraz fazia-se presente. Parece que ao perceber isso, as divindades resolveram agir colocando algo no meu caminho. A garota da boca suculenta.
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AAAH! Como aquele homem me irritava. Com a mesma facilidade que ele me fazia gozar, ele também me dava nos nervos. Juro que não queria ter falado aquilo, não foi realmente a minha intenção. Mas, ele me provocou. Não era nenhuma santa que ficava engolindo desaforo ao Deus dará. E afinal, não disse nenhuma mentira. Ele tinha beijado minha mãe, não tinha? Por que todo esse stress maluco? Talvez tenha realmente sido uma sacanagem eu berrar isso na frente do %Carl%, mas, eles eram carne e unha. Como eu iria adivinhar que os dois não sabiam? Ah, que se foda. Estava cansada de gente que muda a personalidade de uma hora para outra.
Não queria voltar para casa, nem queria ir até à casa de alguma amiga, queria simplesmente sumir do mundo. E quando eu queria sumir do mundo naquelas proporções só um local era bom o suficiente para cumprir tal plano. A praia.
Não era como um litoral Caribenho. Não havia areia branca, águas cristalinas, palmeiras e essas coisas de praia, as quais eu não conhecia muito bem. Era uma típica praia nórdica. O mar era em um azul escuro profundo, a areia era mais acinzentada e cheia de musgos. As ondas eram revoltas e estouravam nos paredões de pedra, mal havia chances de se nadar por lá.
Fui me aproximando do local que costumava usar para pensar na vida. Mas algo na paisagem estava diferente. Hesitei em prosseguir meu caminho e fiquei ali parada feito um dois de paus. Um homem apenas de calça social preta estava parado com as mãos no bolso olhando o horizonte através do mar. Sem casaco, camisa ou sapato levando aquele vento gelado do inferno em seu peito. Os cabelos voavam por seu pescoço e uma enorme tatuagem em suas costas chamava a atenção. Apesar de eu não identificá-la. Perdi um tempo o admirando e não pude evitar disfarçar quando o mesmo se virou e olhou para mim. Me assustei, clara e obviamente.
O coração disparou e um leve desespero tomou conta de mim. Dei quatro passos para trás. Ele apenas sorriu e me chamou com a mão. O meu juízo se enfiou na areia e eu resolvi ir até ele. Caminhei vagarosamente até o desconhecido, a única coisa que pude deduzir é que não era da cidade. Se fosse, certamente reconheceria seu rosto.
Prestei mais atenção no estranho. Era tão alto como um titã e suas entradas pélvicas certamente pareciam a entrada do inferno. Os músculos tinham se definido em proporções que não seriam cabíveis de ignorância. Em seu rosto um sorriso, convidativo e curioso.
- Também veio admirar a natureza? – estávamos frente à frente. Tentava olhar em seus olhos enquanto fazia um esforço descomunal para não babar em seu abdômen.
- Pensar na vida. – suspirei, nervosa e tremendo.
- Sim, pensar na vida. Admito que olhar a revolta desse mar é realmente uma ferramenta útil para se pensar na vida. E se permite, está pensamento exatamente em que? – estava pensando em como %Fitzroy% era endiabrado, arrogante e infernal. Claro, não contaria aquilo à um desconhecido.
- Em como você não caiu morto ou com hipotermia por tomar esse vento horrendo. Estou com esse moletom super quente e estou morrendo de frio. Você é meio doido, não? – mais uma vez um homem gargalhava para mim naquela noite. Porém, aquela sim era uma gargalhada gostosa de se ouvir.
- Só sou meio resistente ao frio. Vejo que está tremendo, venha cá. – Ele abriu os braços me convidando subliminarmente. Caralho! Mil vezes caralho, aquele homem tinha que ser uma alucinação. Algum tipo de droga tinha sido posta na pizza, porque não era possível. Ele me hipnotizava, o tom da voz parecia como o da sereia que encantava marinheiros e os levava até a morte.
- Você é algum tipo de estuprador assassino sádico? – esperto, %Louise%. Porque com certeza se ele realmente for, é claro que ele responderá isso e te contará seus planos doentes.
- Pareço com um?
- Talvez sim. – estava assustada e receosa e mesmo que quisesse chegar mais perto, algo me dizia que não devia.
- Não farei nada que não quiser. Então, quer meu abraço ou não? – meu coração iria sair pelas minhas narinas. Eu sentia todo o meu corpo tremer como se uma britadeira agisse sobre ele. Queria correr e sair, sumir, ir embora. E então as palavras de %Fitzroy% ecoaram me trazendo à realidade. Eu era a menina sem juízo, mimada e irresponsável. Tinha feito todo o tipo de loucura por ele que só sabia jogar isso na minha cara quando conveniente. Ele não era melhor que ninguém, pelo contrário, era como humano com qualquer um. E se eu estava disposta a fazer todas as merdas possíveis em favor dele, também deveria fazer em favor dos outros. E naquele momento, o homem estranho e ameaçador parecia a escolha perfeita para que eu finalmente comprovasse para mim de uma vez por todas que %Fitzroy% não era o uma divindade suprema, um ode à perfeição com um pau enorme. Então eu o abracei.
- Não precisa tremer, minha linda. – %Louise%, ele é um maluco, um assassino procurado pela Interpol. Saia correndo, vá embora, grite por socorro... Não! Ele era uma delícia e eu não estava tremendo de medo ou frio, acho que talvez fosse excitação e... um pouquinho de frio.
- Não me machuque. – fechei meus olhos esperando pelo pior. Seria naquele dia e naquela hora, eu iria morrer, estava esperando o pior. Mas não, suas mãos geladas procuraram meu rosto. Fez com que eu o olhasse, fundo nos olhos verdes. Eu via em sua íris o desejo o queimando.
- Jamais te machucaria, jamais seria capaz de fazer algo contra você. Seria um pecado sem perdão. – o dedo macio correu meus lábios e eu fechei os olhos. Capeta, eu estava tão perdida. Queria me entregar à ele, porém, o medo me inibia. – Garotinha, é uma pena que eu não possa te profanar.
- Por que não? – minhas palavras saíram desesperadas e inconformadas. Por que não? Me profane, seu idiota. Se eu quisesse o contrário, teria ido embora.
- É mais complicado do que você possa entender. – ótimo, mas um me tratando como se eu fosse uma retardada.
- E se eu quiser ser profanada? – eu estava ali, entregue ao toque dele. Eu queria aquilo, ele não poderia me negar.
- Doeria fundo no meu peito te negar isso. – nossos corpos se aproximaram. Senti seu peito gélido e esculpido tocar minha boca. Minha respiração esquentava a área do corpo dele que estava à sua altura. Os meus lábios podiam sentir o gosto da sua carne. Céus! O frio foi pro caralho, a porra do meu corpo pegava fogo. Parece impossível, mas estava. Grudei minhas mãos nas suas costas. Ele arfou e seus músculos retesaram. Eu o vi morder os lábios, parecia se controlar para não ceder à vontade.
- Por que tanto mistério? – queria entender, saber seu nome, sua origem. Mas, ao mesmo tempo sentia que aquela áurea misteriosa deveria permanecer para que o sentido do momento não se perdesse.
- A vida é um mistério e nós só descobrimos o que tem pela frente, quando nos entregamos a ela. E você, vai se entregar à mim para me descobrir? – voltei a tremer ou comecei a tremer mais ainda.
- Eu...
- Shi! Quietinha. – as mãos que estavam rodeando meu rosto foram para a barra do moletom. Ele o tirou fora, sutilmente. O calor se intensificou, como se fosse possível. – Não vou te beijar, mas vou te levar ao máximo que puder. – uma regata branca de um tecido muito leve tampava minha barriga e seios. O homem grudou minha cintura e me trouxe ainda mais próximo de si. Tive que me por nas pontas do pé e ele abaixou-se um pouco, fizemos a manobra necessária para que nossas bocas ficassem enfim próximas. Não estava suportando o peso do meu próprio corpo e senti que iria desmoronar. Ele me projetou para o chão e me desmontei sobre a areia. O choque térmico quase me fritou, soltei um grunhido desconexo. As mãos dele me percorriam como se fosse uma preciosidade e eu me senti extremamente desejada. Sua respiração batia no meu pescoço, sua língua percorria meu queixo e canto dos meus lábios. Ele não iria me beijar e isso a era maior pena do universo. Seu corpo me provocava e aquela ereção... rondava de um jeito poeticamente desgraçado a minha barriga. – Consegue sentir isso? Nossos corpos estão gritando. – era tão diferente e arrebatador. Ele estava me destruindo de um jeito diferente. Era delicado e avassalador. Isso homem, me enlouquece. Tire aquele lenhador do meu sistema. – Eu sinto seu ventre queimando. - grudou meus cabelos e deixou a boca próxima demais da minha. – Eu sinto o meu membro pulsando. É a nossa alma pedindo contato, é o sentido animalesco clamando por aquilo que o transforma em tão único na nossa espécie. Você consegue sentir? – não conseguia responder. Eu arfava e gemia só em ouvir àquelas palavras e não tinha cérebro o suficiente para formar algo para responder. – Infelizmente eu sou um homem que não pode deixar o animal tomar forma, não pode deixar o instinto vencer. E isso é tão injusto. Mas eu posso cuidar do animal que há em você. Posso fazer você sentir o lobo feroz que há em você uivando em desespero pelo meu toque. – rápido demais. Minha regata foi para o alto, meus seios para fora com os mamilos petrificados. Ele os lambeu, mordeu e finalmente veio até a minha boca. A maré batia em nossos corpos e quando tentei passar a língua pelos lábios dele, ele recuou. – Disse que não posso te beijar, meu amor. – a frustração tomou conta de mim. Eu queria chorar. – Só posso te tocar. Mas hoje não é o dia para isso. – então ele subitamente parou. Subi meu tronco, tentei trazê-lo, mas ele simplesmente me abraçou. Nossos peitos roçaram e tranquilamente ele tentou me acalmar. Minha respiração voltou ao normal e ao perceber isso ele sorriu para mim. – Venha, daqui a pouco o sol irá nascer e você precisa estar em casa.