Chapter VIII
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Um senhor conversava com seu colega das ruas enquanto esperava na fila do café da manhã dos pobres. O assunto era sobre algo vago, algum tipo de artimanha para que o tempo passasse mais rápido e pudessem chegar logo na parte boa daquela manhã. Todos ansiavam ganhar algumas fatias de pão, leite ou suco, queijo, bolos e mais algum outro alimento saboroso que o bom padre %Gustav% fazia questão de servir. Se o vaticano e a Igreja tinham dinheiro e ouro de sobra, %Moore% fazia questão de gastá-lo da melhor maneira possível.
E lá estava %Gustav%, usando sua calça social preta e uma camisa branca. Conversava animadamente com as pessoas e as cozinheiras. Seu sorriso simpático estava sempre à mostra enquanto uma toquinha enfeitava seu cabelo.
O serviço naquela manhã estava mais corrido. Ele se sentia meio perdido pela quantidade de pessoas que ali estavam. Naquele dia não contava com ajuda de outros. Havia ninguém para ajudá-lo. “Onde diabos estava Manterfos?” pensou ele colocando leite na caneca para uma criança loira de lindos olhos verdes e sorriso torto. Ele costumava ser seu ajudante todos os dias para servir as refeições e agora fazia dias e mais dias que o seu único ajudante não aparecia.
O mais estranho é que ele não costumava fazer essas coisas, estava sempre presente e caso não pudesse ir até a casa em algum dia, sempre avisava com mais antecedência que o necessário. Isso perturbava a mente de %Gustav% de certo modo, com tantas coisas estranhas acontecendo esse tipo de comportamento peculiar de Manterfos o preocupava.
Foi então enquanto o Padre cortava os pães que viu a cabelereira castanha de Manterfos adentrar a pequena porta. Ele sorriu, sentia falta de seu companheiro.
- Padre %Gustav%. – disse sorrindo procurando por uma toquinha para por nos cabelos.
- Manterfos, o que houve? Você nunca some sem me avisar!
- Perdão, padre, tive uma viagem um treinamento de emergência no Vaticano. – O radar do padre apitou.
- Treinamento de emergência? - era muito suspeito.
- Sim Padre, o bispo não te avisou? – Manterfos continuava em seu tom inocente. %Gustav% decidiu silenciar-se para não levantar faíscas desnecessárias naquele momento.
- Avisou sim. – mentiu – Eu acabei de me esquecendo. Mas, será que poderia me cobrir aqui até terminar? Preciso sair para resolver uns problemas.
- Claro, Padre %Gustav%, pode ir em paz que eu cuido das coisas por aqui.
%Gustav% saiu dali, descendo o morro da Igreja e caminhou até o açougue. Lá se encontraria %Carl% para irem à casa de %Fitzroy% ter uma séria conversa. Conforme andava muitas pessoas paravam o padre pedindo por benção ou para dar um saudoso bom dia. Simpático como era sorria para todos conversando sempre animadoramente e dando a devida atenção. Alguns segundos depois estava na frente do açougue, notou que o mesmo estava fechado e %Carl% estava do lado de fora do mesmo vestindo um jeans, camisa de manga comprida preta e coturno da mesma cor. Os cabelos mal penteados e molhados caiam bem em sua expressão rude, porém, benévola.
- Bom dia, %Carl%. – disse %Gustav% se aproximando do companheiro dando um aperto de mão.
- Bom dia, padre mais popular de toda a Suécia, vamos?
- Mais popular de toda a Suécia? Não seja exagerado, %Carl%, o catolicismo nem é popular nesse país. – o que era verdade e muito verdade. Poderíamos dizer que quase 90% do país era todo protestante, a coisa mais difícil era encontrar padres e uma missa para se frequentar.
- Mas, nessa cidade perdida no pecado é, então, por favor, não discuta. Ok? – %Gustav% apenas concordou rindo da impaciência de %Carl%. Ambos foram caminhando para chegar até a floresta. A mesma possuía várias entradas, porém, apenas uma era aberta e segura o suficiente para as pessoas “normais” da cidade. %Fitzroy% e Nikolai eram os únicos que conheciam a floresta de “cabo a rabo”. Sendo assim foram contornando a margem da floresta até chegarem próximos a subida do morro que dava para a Igreja, viraram à esquerda e enfim chegaram na pequena clareira que ia se adentrando até a floresta. Seguiram o caminho já conhecido e caminharam por 20 minutos até avistarem a varanda de %Fitzroy%.
Subiram a pequena escada que dava acesso à porta e %Gustav% deu três fortes batidas na porta – o que era uma espécie de código entre eles – e não muito depois %Fitzroy% e uma de suas camisas xadrez estavam ali os chamando para entrar.
- Já vou avisando que não tenho café, apenas vinho e cerveja. – Falou %Fitzroy% sendo seguido pelos amigos.
- Vinho pra mim e acho que cerveja para o %Carl%, certo?
- Certíssimo, padre.
%Fitzroy% serviu os amigos e nesse meio tempo Nikolai apareceu entrando pela porta da cozinha carregando consigo uma adaga enorme e brilhante.
- Caralho, Nikolai, pra que andar com essa porra de adaga? – um %Fitzroy% assustado e inconformado perguntou retirando o enorme objeto cortante da mão do amigo.
- Tem muita gente querendo me matar nessa cidade, se precaver nunca é demais. – Nikolai também sentou-se à mesa puxando uma garrafa de cerveja para si.
- Bem, afinal, por que motivos estamos todos juntos aqui? – indagou %Gustav% preenchendo sua taça com mais vinho.
- Nikolai disse que tinha coisas para nos contar, então resolvi reunir todo mundo aqui. Então, meu querido Nikolai, já pode começar a falar. – o sueco mais velho respirou fundo e começou a contar-lhes.
- Eu nasci aqui mesmo nessa cidade há 53 anos, meus pais eram de Estocolmo e se mudaram para cá assim que minha mãe engravidou. Eles queriam um recanto de paz e de preferência católico, pois essa era a religião da minha família e ser católico em um mar de protestantes não é uma boa coisa. Os dois conseguiram asilo aqui mesmo e alugaram uma mansão daquelas próximas ao morro e foi ali que nasci. Quando completei 16 anos e estava com alguns amigos na missa minha mãe veio até mim para me dizer que meu pai voltaria para Estocolmo para resolver negócios e nós ficaríamos ali por mais um tempo. Eis que um belo dia alguns anos depois disso, um grupo radical de protestantes invadiu a cidade ateando fogo na Igreja. Tocaram o terror por aqui ameaçando a todos nós senão abandonássemos a fé católica. – Nikolai parou por um minuto. Seu semblante era triste e sofrido. Parecia se lembrar de tempos terríveis. - Minha mãe, aterrorizada, ligou para o meu pai e pediu ajuda. Mal sabia eu como meu pai poderia nos ajudar. – Nikolai deu uma pausa bebendo um pouco de sua cerveja.
- E como ele poderia ajudar a cidade? – perguntou um %Carl% muito curioso.
- Como éramos poucos católicos, todos entre nós nos conhecíamos e éramos bem unidos. Dentre esse número de católicos alguns mantinham contato com outros da mesma religião pela Europa. Foi então nessa época que eu conheci um grupo chamado Justice for Saint Mary.
- Justice for Saint Mary? – desta vez %Gustav% questionou. – Eu já ouvi esse nome no Vaticano, mas, sempre era tratado como alguma lenda, ficção. Não é como se existisse de verdade.
- Pois é, padre, esse grupo é um dos segredos mais perturbadores do Vaticano. Foi formado no século V logo quando Carlos Magno tomou o poder do Império Romano e a hegemonia católica começou a surgir em nosso continente. Foram eles por trás da santa Inquisição, porém, o grupo acabou se desmanchando no século XII, pois a Igreja se iludiu achando que não seriam mais necessários. Porém, quando Henrique VIII trouxe todos aqueles problemas para a Igreja quando quis desesperamente se separar de Catarina de Aragão para casar-se com Ana Bolena e criou a Igreja Anglicana, o Vaticano sentiu que precisava voltar em peso com o Justice. Assim ele foi crescendo nas sombras e atingiu seu ápice na contra-reforma de Lutero e Calvino. Países como Alemanha e a própria Suécia que optaram pelo protestantismo foram constantemente atacados por eles. E eis que nessa ocasião que contei quem livrou nossa cidade dos ataques protestantes foram os próprios do Justice for Saint Mary.
- E onde diabos esses caras ficam e o que isso tem a ver com a gente? – %Fitzroy% questionou impaciente.
- %Fitzroy%, calma, você vai ver que no fim tudo faz sentido. – Nikolai deu uma piscadela sarcástica em %Fitzroy%, que bufou. - Meu pai conhecia um dos integrantes do grupo, um dos cabeças por sinal, e prometeu a ele que conseguiria recrutar novas pessoas para o grupo se nos ajudassem. E eles ajudaram, fizeram um cerco na cidade, mataram gente e expulsaram os protestantes daqui. Desde então o catolicismo foi ficando mais forte por aqui. Pessoas das cidades vizinhas vinham para cá e o número de fiéis cresceu muito. E então meu pai teve que cumprir a promessa, ele recrutou quase 50 novos membros e no meio deles, estava eu.
- Você? Você entrou pro Justice for Saint Marry? Eu não acredito. – os olhos de %Gustav% brilhavam, para ele o grupo era apenas uma lenda e agora estava ao lado de um integrante.
- Sim, padre, eu entrei. E em pouco tempo graças à minha dedicação eu estava no meio dos mais poderosos. Descobri que o grupo era mais que uma proteção do catolicismo. Eles eram, e ainda são, uma espécia de FBI do Vaticano. Eles têm posse de todos os tesouros do vaticano e a proteção dos mesmos é reponsabilidade deles. Eles investigam, agem, matam em nome da Igreja Católica e da Virgem Maria. São uns loucos fanáticos que recebem ótimos salários. Foi aí que me deram meu serviço mais importante, eu seria o protetor chefe de um dos “xodós” da Igreja.
- Xodó? A porra da Igreja tem alguns pertences que são considerados xodós? Que bela merda. – comentou o lenhador.
- A coisa é um pouco pior do que parece. Esse “xodó” chegou na mão da Igreja no século XVI quando infiltrados católicos na Inglaterra entraram em contatos com os mais altos secretários de Henrique e compraram informações valiosíssimas contra a coroa Ingles que havia ficado com alguns documentos católicos no país por causa da rainha Catarina de Aragão. Essa porcaria veio cair na minha mão para que eu fosse o responsável por guardá-lo. A responsabilidade era toda do grupo de guardar esses objetos e deixar o paradeiro dos mesmos só entre o grupo, sem que o Vaticano tivesse conhecimento. Isso era e é uma das principais regras. Mas, em um fatídico dia uma coisa perturbadora aconteceu e eu acabei fazendo uma merda enorme.
- O que aconteceu? O que você fez? Ai, eu ‘tô nervoso. – %Carl% escutava a história com tanto furor, que parecia assistir um filme.
- Por estar em um patamar mais alto eu comecei a saber de coisas e... essas coisas não eram nada interessantes. – Nikolai respirou fundo como se a mera lembrança o desestabilisasse. - Descobri inúmeras crueldades feitas pela igreja católica, mentiras, tiranias e absurdos que não merecem ser citados. E eu me revoltei. Nessa altura meus pais já não estavam mais entre nós e eu não devia satisfação a eles no grupo e sendo assim, depois de me desapontar e ficar alguns meses em dúvida eu decidi largar o grupo. Mas, um membro não pode simplesmente sair do grupo, você sabe demais e não pode ficar livre do nada, normalmente integrantes só saem depois de mortos. Ou seja, eu tive que fugir. Aí é que entra a merda.
- Pois prossiga, que eu vou morrer senão não souber logo o final da história. – o padre parecia se alimentar do furor do passado de Nikolai.
- Fiquei tão puto depois de descobrir que a igreja estava envolvida com uma pedofilia desgraçada na Itália que eu roubei o tesouro e trouxe ele comigo.
Todos ficaram perplexos por um minuto, sem entender tentando raciocinar em suas cabeças o tamanho daquela encrenca.
- Você roubou um tesouro de posse católica da mão de um grupo religioso extremista e assassino? – %Fitzroy% perguntou com um sorriso de satisfação enorme nos lábios. Nikolai sorriu nervoso.
- Sim, eu roubei e eles vieram atrás de mim. Porém não sabiam da floresta, não sabiam que meus pais tinham uma casa aqui no meio e que eu tinha me mudado pra cá. Ficaram que nem uns loucos me procurando e não tinham sinal e a porra do tesouro estava no meu sofá. Eu precisava me livrar dele, um deles até conseguiu chegar aqui, mas eu o matei. Então eu tive uma ideia pra me livrar da porcaria do tesouro. Eu era conhecido de um cara que cometeu alguns crimes pesados e estava jurado de morte por uma facção criminosa. Ele estava aqui em uma espécie de “condicional” e morreria em menos de três dias. Então eu fui até ele e contei o ocorrido e nós combinamos que ele iria pegar o tesouro e iria enterrá-lo em alguma parte da floresta.
- E no fim das contas, o que aconteceu?
- Bem, o que aconteceu, meu querido padre, é que o sujeito enterrou o tesouro sabe-se Deus onde e morreu dois dias após isso. Resumindo, a merda do tesouro está enterrado por aqui em algum lugar e o fato do coroinha ter ido até minha casa me fez pensar que o Justice for Saint Mary resolveu se lembrar de mim.
Por um momento todos ficaram calados pensando. Era muita informação para um dia só, ou até, para um ano só. Ainda havia algumas pontas soltas, algumas coisas que não conseguiam compreender. O que diabos era esse tesouro? O que isso tinha a ver com o coroinha e a morte?
- Nikolai, agora eu preciso que você pense e recupere um nome em sua memória: Cardeal Armand Marion. – %Gustav% era o mais, como podemos dizer, o mais inquieto. Por fazer parte da igreja e saber de algumas coisas o seu cérebro trabalhava numa sequência louca de sinapses tentando conflitar suas informações.
- Cardeal Armand... esse nome não me é estranho, mas, eu não consigo ligar o rosto à pessoa.
- Tem algum nome que você consegue pensar? Se lembra de alguém, da fisionomia de alguém? – o padre estava inquieto, chegou a abrir suas abotoaduras e seu cabelo caía suado em sua testa.
- Eu me lembro que o Cardeal que sempre falava conosco era chamado de Luís e ele sempre estava conosco nas reuniões sagradas, nas missas. A batina dele era bem pesada e dourada. Ele tinha um sotaque francês muito carregado. Sabe, essas missas eram rituais complexos e os sermões sempre eram sobre mártires da Igreja e assuntos macabros. O Cardeal ficava sentado em uma cadeira enorme folheada à ouro, usando uma coroa de ouro puro que parecia um sol. – Nikolai estava meio nervoso, lembrava como podia do que sabia, entretanto, sua memória tinha se tornado vaga com o caminhar dos anos.
- Sol? Quem diabos usa uma coroa de sol na cabeça? Que coisa brega. – disse %Fitzroy% levantando-se para pegar mais uma cerveja.
- Eu posso não ser o mais inteligente por aqui, mas se alguém usa um sol na cabeça numa situação dessas é pra mostrar imponência, pra mostrar que está brilhando acima dos outros. – proferiu %Carl% chamando a atenção dos demais.
- Faz sentido, %Carl%, ele era o Cardeal supremo, todos o reverenciavam como se fosse um rei. – quando Nikolai disse a palavra “rei” %Gustav% saltou da cadeira ficando em pé como se tivesse tido a ideia mais brilhante do século.
- Isso, isso mesmo, ele se comportava como um rei e qual rei tinha como símbolo o sol? – perguntou para os outros esperando por uma resposta.
- Luís XIV da França, Luís XIV da França era o rei sol. – %Carl% respondeu a pergunta soltando um sorriso enorme ao perceber que acompanhava o raciocínio do padre.
- E se ele era o rei sol, o rei Luis XIV da França e ainda mais, se ele tinha um sotaque francês é porque o mesmo tem um sentimento patriota por ele, sendo assim nós podemos dizer que ele é francês. E o único Cardeal de extrema influência no Vaticano, que sempre esteve por dentro e por cima de qualquer assunto e fazia questão de desmentir qualquer rumor sobre o Justice, era ele, o maldito Cardeal Armand Marion. Maldito seja esse filho de uma boa puta.
- Ei, se acalma padre, o senhor não pode sair falando palavrões assim. – %Fitzroy% falou fazendo biquinho para o amigo.
- Vai tomar no cu, cortador de graveto. – lançou o padre sentando-se de volta à mesa.
- E o que te fez pensar no nome desse Cardeal? – questionou Nikolai direcionando-se para %Gustav%.
- Ele é o meu maior desafeto dentro do Vaticano, o velho é uma peste, uma múmia maldita que está no Vaticano há anos e anos manipulando tudo que ele pode. Ele costuma criar discípulos, é como se fizesse uma lavagem cerebral no pessoal por lá. E eu, bem eu sou do meio do contra e nunca fui com a cara dele, o que fez com que ele criasse ódio por mim tentando sempre me prejudicar. E essa semana uma maldita carta dele chegou para mim, uma carta falsa e nojenta me pedindo para fazer uma missa falando sobre os mártires da Igreja. Ele adora essa conversa de mártir, de induzir gente a matar pela igreja. Tenho certeza que foi isso que acendeu a mente do coroinha que veio parar na sua casa.
- Afinal, só eu aqui ainda estou me perguntando o que diabos o Justice for Saint Mary, o Cardeal, o tesouro e o coroinha tem a ver um com o outro? – perguntou um %Fitzroy% já nervoso e totalmente impaciente com aquela conversa confusa.
- Bom, eu conheço um pouco mais da Igreja antes do %Gustav% vir pra cá do que vocês. – falou %Carl% olhando para %Fitzroy% e Nikolai. – Acontece que o bispo daqui foi chutado para que o novo bispo viesse, todo mundo ficou em choque com isso porque todos amavam o bispo. E o novo bispo chegou mandando todos os padres embora e trazendo um bando de órfão que nunca ninguém viu na vida pra ser coroinha. Se tudo isso que o Nikolai disse é verdade, pode ser que o tal Justice tenha trazido pessoas já treinadas ou já estimuladas pra cá por causa desse maldito tesouro.
- Tudo isso que você disse faz extremo sentido, %Carl%. – concordou Nikolai.
- Tá, vamos assumir que foi isso mesmo. Por que o maldito coroinha iria saber onde procurar o Nikolai e que deveria procurar justo pelo Nikolai? – perguntou mais uma vez o inquieto lenhador.
- Eu não sei, %Fitzroy%, é difícil pensar nisso. Se foi realmente o maldito grupo que mandou todo esse povo pra cá, já deve ter sido com a intenção de caçar o Nikolai. – %Gustav% era o mais preocupado, começava a pensar em possibilidades que o enojavam.
- E por que agora? E por que depois de tantos anos? Porra, faz quase 20 anos que eu sumi com esse tesouro, nunca ninguém me achou ou veio atrás de mim, por que agora? – Nikolai deu um soco na mesa, derrubando sua garrafa de cerveja no chão fazendo uma pequena poça do líquido no chão.
- Ei, velho maldito, cuidado com meu chão. – %Fitzroy% resmungou se levantando para pegar um pano.
- E se eles acharam o Nikolai por causa de você, %Gustav%? – %Carl% indagou sensato e firme no que falava.
- Por minha causa?
- Sim. Você veio para cá porque o %Fitzroy% te ligou e o Papa mandou uma carta de recomendação de última hora. Então isso quer dizer que você vir para cá não estava no plano deles. Então o Cardeal te manda uma carta tentando te comprar e alguém de dentro da Igreja começa a te perseguir e te vigiar e percebe que você veio até a floresta. Não seria muito difícil depois disso achar a casa do Nikolai. – %Gustav% passou a mão nervoso pelos cabelos, %Carl% estava certo e ele não conseguia acreditar nisso.
- Nossa, meu açougueiro, pra um bundão cortador de carne você está muito espertinho hoje. – zombou %Fitzroy% dando um beslicão em sua bochecha.
- Cala boca, castor de araque, ou eu meto essa garrafa nessa coisa peluda que você chama de bunda. – %Fitzroy% deu um peteleco no amigo voltando à sua cadeira com um sorrisinho escarnicento nos lábios.
- Que tudo isso que vocês disseram seja verdade, por que se lembraram do tesouro agora? – perguntou %Fitzroy% mais uma vez.
- Não dá pra saber, esses caras do Justice são uns doidos, nós vamos ter que ficar ligados em tudo agora e pensar muito bem antes de dar um passo nessa cidade. Se tudo isso é verdade, tem gente nos vigiando e isso não é nada bom. – Nikolai afirmou, levantando-se, pegou seu casaco e sua adaga preparando-se para sair.
- Eu vou para casa contactar umas pessoas, vocês pensem em algo para se protegerem, a gente conversa uma outra hora. – eles se despediram e os três amigos ficaram se olhando.
- Afinal, o coroinha que morreu, será que se suicidou exatamente para proteger a missão? – questionou %Carl%.
- Provavelmente. Merda! Eu odeio não saber das coisas que acontecem aqui. – resmungou o lenhador.
- Olha, agora eu vou ter que tomar muito cuidado na Igreja e evitar que nos encontremos aqui na floresta. %Carl%, você que conhece bastante gente e conversa com todo mundo tente se informar. Eu vou tentar achar o maldito infiltrado que anda me vigiando e você, %Fitzroy%, prepara a espingarda, porque vai rolar tiro nessa merda. – %Gustav% também se levantou, ele precisava voltar para a Igreja pois já havia saído há muito tempo de lá.
- Deixa comigo, %Gustav%, ninguém vai mexer e atentar contra a vida dos meus amigos. – %Fitzroy% falou também se levantando sendo seguido por %Carl%. Eles foram caminhando em direção à porta conversando agora sobre besteiras quaisquers até verem uma menina descabelada e com uma enorme cara de sono sair do quarto do %Fitzroy%.
- Mas que caralho? – perguntou %Carl% olhando para %Louise%, que vestia uma camiseta branca de %Fitzroy% que era dez vezes maior que ela. O lenhador respirou fundo, coçando a própria cabeça em nervosismo.
- Essa é a %Louise%. – respondeu tentando evitar o contato ocular com os amigos.
- Sim, %Fitzroy%, a gente sabe quem é. %Louise% %Martins%, filha de um dos homens mais ricos da cidade e uma criança. Que lindo da sua parte. – completou %Gustav% o olhando em indignação.
- Vocês me acordaram, estavam falando alto demais. – reclamou ela bocejando.
- Desculpa, %Louise%, nós já estamos indo embora. Não queríamos incomodar. – respondeu %Carl% ironizando deixando um %Fitzroy% muito incomodado.
- Agora tudo faz sentido. – %Gustav% proferiu arregalando os olhos ao cair na risada.
- O que faz sentido? – indagou %Fitzroy% extremamente bravo no momento.
- Depois eu te conto, se vier ao caso, é sigilo da Igreja. Passar bem, companheiro, e vê se põe juízo nessa cabeça. – %Gustav% saiu abrindo a porta, %Carl% deu um tapa safado no ombro do lenhador que lhe mandou um dedo do meio e o açougueiro também saiu por afora.
- Vem cá, %Louise%, vamos comer alguma coisa. E você precisa voltar pra casa urgentemente, já passou da hora do almoço. – a garota foi andando em passos lentos para a cozinha sendo guiada por %Fitzroy%, que devia uma boa explicação para os amigos que ele deixaria para mais tarde, para bem mais tarde.
- Meus pais acham que eu estou na casa da Charllie, não tem problema.
- E como diabos eles sabem? – respondeu %Fitzroy% caçando as coisas na geladeira.
- Celular, %Fitzroy%, é um meio de comunicação muito usado pelas pessoas, você deveria ter um.
- Não, obrigado. Não gosto de conversar pelo telefone. – ele serviu a mesa com alguns biscoitos, meio bolo de nozes e um refrigerante.
- Deixa eu aproveitar para tomar refrigerante que em casa meus pais ficam me regulando.
- Aproveita mesmo, porque isso de você tomar café da manhã aqui e dormir aqui não vai acontecer todo dia. – %Fitzroy% se opoiou em seu balcão cheio de nervosismo e meio perturbado, sabia que estava se enfiando em um buraco fundo tanto com a menina tanto com os problemas da floresta.
- Tem como a gente conversar sobre isso depois? – ela perguntou manhosa, com a boca suja de creme branco. %Fitzroy% a encarou com a expressão brava e ela fez biquinho tentando convencê-lo.
- Tenho que por minhas ideias no lugar, você não tem noção de como as coisas são complicadas nessa vida. E outra, vou pedir demissão da sua casa. – ela o olhou assustada, sua boca abria e apenas um som de resmungo saía dela.
- Como assim, pedir demissão? Você está bêbado?
- Só estou sendo coerente. Você ainda precisa aprender o que é isso.