Chapter VI
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A batina de pura seda da cor bege escorria pelo chão daquele corredor. As paredes de puro ouro, enfeitadas pelas mais belas pinturas que o mundo teve o prazer de conhecer lá estavam, aumentando o poder e o valor daquele local. As colunas imponentes e o teto celestial eram sua paisagem. Sua mitra estava pendurada em sua mão, caminhava por ali tranquilamente.
Sabia muito bem para qual lugar deveria ir e de que assunto trataria. Virou o corredor que dava caminho para a sala que era seu destino e desceu alguns degraus atingindo um nível mais baixo. E lá estava a porta pela qual deveria passar, imponente de uma madeira escura, folheada a ouro e com grandes alças de metal enferrujado.
Se aproximou da mesma dando três batidas fortes e pausadas, deu um passo para trás e se afastou esperando. Pouco demorou para que o dono daquele cômodo o atendesse e percebendo quem era, sorriu. O saudou com cumprimentos em latim e permitiu que o outro entrasse. Sua mesa de mármore branco estava cheia de livros e documentos, alguns antigos e outros recentes. A jarra de ferro estava repleta de vinho santo e uma taça de cristal ao lado continha água mineral. Sua enorme prateleira de livros que ocupava quase que todas as paredes do local estava bagunçada em partes e arrumada em outras. Pediu para que o outro se sentasse na cadeira à frente da porta, forrada de veludo nobre cor escarlate. Deu a volta na mesa e sentou em sua bela cadeira Luís XVI decorada com folhas de prata, bronze e betume da Judéia. A assento revestido por um tecido nobre de cor dourada reluzia com a luz do enorme candelabro de ouro que ostentava seu teto. Ambos se olharam, um pedindo por respostas e outro esperando para respondê-las.
- O Justice for Saint Mary me procurou. - disse o jovem de cabelos negros e voz grave.
- E o que eles têm para nós desta vez? - indagou o mais velho, um importante e muito, mas, muitíssimo importante cardeal.
- Parece-me que há mãos procurando por nossos velhos pertences. - o cardeal corou de raiva por um minuto e sua expressão de preocupação não poderia ser escondida.
- Como? Eles sabem quem são? Da onde vêm? O que querem?
- Eles não souberam me informar. - confessou, com o suor do nervosismo tomando suas têmporas. - Apenas descobriram que há alguém pagando por isso, mas não sabem quem efetuará o serviço. Os nomes do "submundo" não os conhecem e nem sabem de seu paradeiro. - o mais velho bufou e tomou um longo gole de seu vinho benzido pelo espírito santo.
- Eu não quero saber se o "submundo" os conhece ou não, quero nomes, quero uma solução, quero um basta. Os pagamos muito, muitíssimo bem para que não deixem essas coisas passar.
- Sinto muito, Vossa Santidade. Irei trabalhar para que tal problema se resolva o mais rápido possível. Agora se me permite, o que conseguimos em relação ao outro assunto? – o cardeal respirou fundo, tomando um pouco da água ao seu lado. Soltou um leve suspiro antes de responder.
- Já tenho um homem para o serviço, ele não imagina do que se trata, só recebeu ordens distorcidas para realizar algumas tarefas. Não temos certeza de onde estão localizados os nossos pertences tão antigos, pois o Justice for Saint Mary, apenas o guarda e não nos concede seu paradeiro. Porém, estou resolvendo isso, para que consigamos agir por suas costas. Medidas já foram tomadas, apenas precisamos de paciência.
- Mas, Vossa Santidade, se o Justice for Saint Mary descobrir que estamos agindo por mãos próprias, podemos sofrer sérias consequências, eles são extremamente perigosos.
- Perigosos? - riu, em desprezo. - Perigosos somos nós, somos nós. Fazemos todos caírem aos nossos pés e conseguimos apagar todas nossas gigantescas falhas. Fazendo tal coisa, apenas estamos nos protegendo como sempre fizemos. Ninguém neste mundo, conseguirá ter poder contra nós. Aquiete-se, tudo dará certo. - o mais jovem silenciou-se por um momento, acatando as palavras do cardeal, que agora, estava muito mais tranquilo.
- E o padre? O que faremos? Ele não é de nossa confiança.
- Sim, meu jovem, eu o sei. - suas mãos agora procuravam por seus óculos de leitura. Os colocou procurando por alguns papéis timbrados sobre a mesa e ao encontrar o de seu desejo, o entregou ao jovem. - A ida do mesmo para lá fora um equívoco brutal, porém, irremediável. Entretanto, já tenho planos para o próprio. Tome este envelope e faça com que chegue em suas mãos o mais rápido possível. - o jovem pegou o envelope e analisou sua textura. Sua cor era de um bege amarelado e o papel era alguma versão mais cara que o vergê. O selo vermelho do Vaticano estava lá e o remetente era o mais novo padre da Escandinávia.
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Três batidas na porta. %Gustav% se despertou de sua leitura do jornal e olhou para a mesma, parado lá estava um serviçal da igreja com um leve sorriso no rosto. "Bom dia. Correspondência." disse ele simpático. %Gustav% pediu que o mesmo deixasse o envelope sobre a poltrona no canto e lhe ofereceu alguns biscoitos de maizena cobertos com açúcar cristalizado. O rapaz agradeceu e pegou três em sua mão, parecia estar com fome.
%Gustav% lhe perguntou se estava com fome e o mesmo respondeu positivamente. Então o padre o instruiu à ir até a cozinha e conversar com Hagard, o cozinheiro. O rapaz agradeceu colocando um dos biscoitos na mão e partiu porta à fora.
%Gustav%, sorriu. Ficou mais alguns minutos lendo seu jornal e acabou se esquecendo da correspondência. Depois de tomar um gole de seu chá e comer mais alguns biscoitos levantou-se indo até a poltrona e olhou fixamente para o envelope. Lá estava o timbre do Vaticano, que o mesmo conhecia tão bem. Seus olhos se acenderam em curiosidade e o mesmo parecia intrigado. O papa sempre lhe mandava cartas, uma vez por mês, todo dia 15. Era dia 23, já havia recebido a carta do Papa daquele mês e retornado alguns dias depois, pelos cálculos, o mesmo ainda não deveria ter lido.
Outros assuntos chegavam por e-mail, sim, a cidade era pequena e simples, mas havia internet por aqueles cantos. O que raios estaria aquela carta fazendo ali?
Abrir. %Gustav% só descobriria ao abrir. Não muito depois e o selo vermelho estava num canto de sua mesa e o envelope aberto. O papel de cor envelhecida e textura rígida estava escrito em uma masculina grafia. O preto e alguns burrões sutis indicavam que a mesma havia sido escrita com tinteiro. %Moore% estranhou. Não conhecia aquela letra e ficou mais uma vez, intrigado. Caminhou pela sala procurando sua cadeira e sentou-se finalmente lendo a carta. Nela não havia nenhum tipo de identificação, timbre ou selo, apenas a escrita.
Vaticano, Itália.
"É com imenso prazer que lhe escrevo tal carta. É de nosso saber que estás realizando um serviço esplêndido em sua nova cidade. Ficamos felizes em sabê-lo, a Suécia precisa de mais fé católica, temos que nos fortificar neste mar de protestantismo e falsas crenças. Sendo assim, desta forma, caro %Gustav% %Moore%, eu, como portador do cargo que tenho, sendo Cardeal e muito ligado ao Cardeal Secretário de Estado, portador dos princípios católicos e defensor da Virgem Maria, lhe rogo que em suas próximas missas, leve à congregação uma mensagem mais pesada e incisiva. Quero lhe pedir, meu querido padre, que pregue sofre o calor e poder dos grandes mártires de nossa Igreja. De como morreram em nome de nossa causa e eliminaram os perigos que causavam à nossa Santidade. Leve esta mensagem à eles, os irradie com esse calor, com o calor da justiça e da verdade. Também pedi ao bispo que contribuísse com tal, creio que ele lhe cobrará isso e também se prontificará a lutar por nossa causa.
Um cordial abraço e desejos de uma boa semana. Que Deus nos abençoe e que a Virgem Maria esteja em nossa proteção."
Cardeal Armand Marion.
O padre releu o nome do destinatário várias vezes. Uma, duas, três... dez. "Cardeal Armand, como? Por quê?", ele pensou. Mas não poderia haver uma resposta sensata para aquilo. Cardeal Armand era um inimigo camuflado no vaticano. Sempre olhara %Gustav% com uma expressão desconfiada e sabia fazer seus "infernos" para que o sueco tivesse problemas por lá, por isso, não fazia sentido algum aquela carta.
Sua dúvida vagava entre falar ou não com o bispo sobre aquilo, mas, não houve muito tempo para pensar. Novamente bateram à sua porta e logo ele pôde ver o solidéu púrpura do Bispo. O olhar de felicidade do mesmo surgiu ao permitir que entrasse.
- Recebera as boas-novas, %Gustav%? Nós precisamos conversar. Permita-me sentar, temos coisas a tratar.
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Eram quase quatro horas da tarde e eu não havia feito nada o dia inteiro. Depois de ter ido até a casa de %Louise% e feito aquela tamanha besteira, estava recuperando minha vergonha cara. O que eu havia feito era muito grave, deveria de todas as formas ter evitado. Minha culpa só não era maior pelo fato de saber que %Louise% também possuía o mesmo desejo. A garota tinha me dado todos os sinais possíveis de que também queria aquilo. Afinal, o que poderia ter feito de tão errado?
Tudo! Essa era a resposta, estava tudo errado. A libertinagem com %Louise% e os infiltrados na floresta. Aquilo não saía da minha cabeça, não poderia sair. Nunca havia acontecido nada do tipo, nunca. Estranhos naquela cidade eram tão raros como ouro. Meu faro de caçador dizia que nada cheirava bem, algum tipo de tramoia cretina estava rolando pelas redondezas e era minha obrigação descobrir. Os olhos não viam, os ouvidos não ouviam, mas eu, %Fitzroy%, iria lidar com aquilo feito homem.
Depois de mexer com minha não muito habitual "faxina", se é que eu podia chamar aquilo de faxina, o tédio se instalou em meu corpo. Não tinha porra nenhuma para fazer então, resolvi que seria uma boa hora para cortar madeira. Peguei meu machado que ficava pendurado em cima da lareira e fui para meu quintal, brincar um pouco. Havia muita madeira rústica, árvores ainda com casca, folhas e pequenos galhos.
Tirei todas as folhas verdes e as coloquei em um barril de metal onde deixava as folhas para secarem e separei os galhos menores os amontando num canto. Usava-os para fogueiras e coisas do gênero. Depois de deixar tudo no devido jeito, posicionei um tronco enorme à minha frente. Apoiei meu coturno na base e machadei. Uma, duas, três, quatro, cinco vezes. E novamente e novamente e novamente. Meus músculos do braço vibravam, minha testa começava a suar e eu não sabia viver sem tal sensação. Nada melhor que usar meu machado na madeira para me tranquilizar.
Quando o cansaço me pegou e aquele tronco já estava todo despedaçado à minha frente, fui procurar por água. A garganta estava seca implorando por líquido. Ao virar de costas encontrei um %Gustav% %Moore% parado com aquele sorrisinho que só ele tinha.
- Virou rotina o padre mais cobiçado da cidade visitar meu humilde lar? - perguntei, colocando o machado com cuidado em cima de minha mesa, tirando minha camisa.
- Eu gosto daqui, %Fitzroy%. É calmo, tranquilo, tem um bom vento e eu posso tomar um pouco de vinho sem ser julgado. Me convide para entrar.
- Você é um cretininho, Padre %Moore%. - sorri sarcástico e o mesmo tomou minha frente entrando pela portas do fundo. Entrei logo atrás dele, abrindo a torneira e enchendo um copo de água para me saciar. Bebi uns quatro copos até recuperar o fôlego para falar.
- Quer vinho? - perguntei, já sabendo a resposta.
- Se você não se importar... - fui até minha adega pegando uma garrafa e duas taças. Logo estávamos servidos do rubro líquido do amor.
- Mas falando sério agora, %Fitzroy%. - colocou sua taça em cima da mesa da cozinha, puxando uma cadeira para se sentar. - Aconteceu algo muito estranho na Igreja hoje e eu tinha que lhe contar.
- Manda bala.
- Estava na minha sala pela manhã, quando o rapaz que entrega nossa correspondência me trouxe uma carta. Mas não era uma carta qualquer, era uma carta do vaticano. E eu estranhei totalmente aquilo. O Papa sempre me manda uma carta, que chega todo dia 15 e hoje é dia 23, certo? Não poderia ser outra carta dele. Então eu a abri e a li. E a carta estava assinada nada mais, nada menos que pelo meu principal "calo" no vaticano, Cardeal Armand. Uma peste dos infernos em forma de velho. - fiquei um pouco confuso, sem entender muita coisa.
- E o que dizia a carta?
- Bem, a carta me saudava de uma forma exagerada e eu diria até falsa. E a mensagem? É ridícula e não faz sentido nenhum, nenhum, %Fitzroy%, nenhum. Lá ele falava o quanto é importante nós preservamos e pregarmos a fé católica na Suécia, por termos tão poucos fiéis aqui e então ele me fez um pedido. E aqui mora a pior parte. Ele me pediu para fazer uma missa glorificando os mártires da Igreja Católica. Ele me pediu para falar para o povo que vai às missas o quanto esses homens foram importantes por morrerem e matarem em nome da Igreja. Isso é ridículo, %Fitzroy%, é bestial, é insano. Eu não posso fazer isso, mas... não tenho escolha. E ainda tem mais uma coisa, ele também mandou uma carta ao bispo, falando a mesma coisa só que de maneira mais "suave". O bispo veio até mim todo feliz e empolgado com a missa de hoje.
- Que diabos é isso, %Gustav%, não faz sentido algum. O cara te foder lá e mandar carta? Você não questionou com o bispo?
- Não, eu não posso questionar essas coisas. Aprendi que na Igreja você deve guardar tais coisas para você e apenas observar o que lhe parece estranho. O máximo que combinei com ele fora que, ele pregasse sobre os mártires e eu finalizasse a missa com a hóstia e essas coisas. Não vou falar isso para o povo ouvir, eu me recuso. Morrer e matar pela Igreja? Que diabo é isso?
Morrer e matar pela Igreja. Aquilo ficou martelando na minha cabeça, não podia ter ligação.
- E você acha que essa carta tem algo a ver com os estranhos rondando nossa região?
- Eu não sei o que pensar. - %Gustav% parecia derrotado. - É muita maluquice isso chegar às minhas mãos nesse momento, com essa mensagem tão forte logo após isso. Por isso vim até aqui. Sei que odeia a Igreja e que eu já te pedi na marra que fosse à missa, mas hoje é diferente. Preciso de você lá pra ser o meu terceiro e quarto olho, preciso que preste atenção nas pessoas e na igreja, preciso saber se isso é um sinal ou alguma artimanha. - eu não podia negar isso, podia? Afinal, era um grandíssimo amigo pedindo uma ajuda e por outro lado, eu teria chance de entender a merda que estava acontecendo.
- Você sabe que não te diria não. É óbvio que aceito e fico feliz que confie em mim para isso. Posso pedir ao %Carl% que também preste atenção nas coisas? Ele conhece o pessoal e sempre tem alguém indo até lá contar fofocas.
- É claro que pode, sinta-se à vontade. Confio em vocês e acho que somos os únicos que podemos entender essa porcaria. - sorrimos um para outro, assim como quando éramos crianças, quando estávamos prestes a aprontar alguma coisa que não devíamos. Seria mais que divertido do que eu esperava.
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Faltavam alguns minutos para missa começar pontualmente às 19 horas e 30 minutos. %Carl% estava comigo ao lado de fora da Igreja conversando algumas asneiras, seria bom de descontrair por algum tempo.
- Estou me sentindo um agente infiltrado, agora só falta a parte das gostosas na minha cama. - %Carl% falou, com seu tom hiperativo e engraçado.
- %Carl%, depois que sua mulher foi embora você nunca mais comeu ninguém? - ele me olhou atravessado, com as narinas indicando raiva, mas, rapidamente seu semblante mudou de forma mostrando um açougueiro triste e frustrado.
- Não há muitas mulheres por aqui, %Fitzroy%, e desde os tempos da escola eu namorei a mesma mulher e nunca mais tive outra em minha vida, não é tão fácil quanto parece. - ver meu amigo daquela forma era muito desprazeroso, me doía no peito de verdade. Eu daria um jeito naquilo, porém, depois da missa de hoje.
- Relaxe, meu bom pedaço de costela, seu amigo %Fitzroy% vai te ajudar. - dei uma piscadela irreverente e ele apenas me respondeu com um olhar desafiador.
- Eu duvido, %Fitzroy%, está devidamente desafiado.
- Oh, você está me desafiando? Me dê três dias pra ter uma mulher gemendo na tua cama, babe. - ele apenas riu e me chamou para entrar, o sino indicava que a missa iria começar.
Nós nos sentamos ao fundo, na última fileira, dali seria mais fácil visualizar todo o movimento. Para que nós dois não nos distraíssemos eu me sentei à esquerda e ele no último banco da direita, desta forma, nosso plano de visão seria maior. Os burburinhos das pessoas conversando se cessou quando os coroinhas adentraram ao local e sentaram-se em seus lugares, logo atrás vieram %Gustav% e o bispo. Podia-se ouvir como sempre as pessoas dizendo sobre como %Gustav% era bonito, jovem e querido.
Assim que o mais absoluto silêncio reinou o bispo posicionou-se atrás do altar e colocou algumas folhas sobre o mesmo, todas as pessoas também pegaram seus panfletos e iniciaram suas rezas. Respondiam ao bispo quando era hora e todo o cerimonial de uma missa. Quase uma hora se passou com toda aquela "ladainha" e nada de interessante acontecia. Eu estava sonolento e abrindo a boca com frequência, porém, quando o bispo proferiu pela última vez "o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo" e as pessoas se preparavam para o fim da missa ele lhes chamou atenção para algo especial. Finalmente, a hora da ação.
Foi então que ele começou a disparar todo o discurso que tirou a paz de %Gustav% naquela manhã, falando sobre como a força da Igreja Católica precisava aumentar e que principalmente na Suécia, um país de maioria protestante, o catolicismo precisava de cada vez mais fiéis dispostos a lutar por ele e fazer o mesmo crescer. Exaltou mártires como São Cosme, São Damião e tantos outros que morreram e mataram em nome da Igreja. As pessoas se empolgavam, dava para ver a animação que tomava conta dos fiéis naquele momento.
Meus ouvidos e olhos estavam atentos e os de %Carl% também pareciam estar. O bispo continuava seu discurso, dizendo que os membros daquela igreja deveriam se fazer ouvir. Deveriam levar o catolicismo consigo onde quer que fossem e deveriam não poupar esforços para isso, mesmo que tivessem de agir de maneira errônea. Foi então que eu senti alguém há poucos metros de minhas costas. Não queria ter que olhar para trás e perder a visão da minha dianteira. Fiz um sinal para que %Carl% olhasse. Rapidamente ele direcionou sua cabeça para minha traseira e olhou para mim novamente. Seus balbuciar dizia "é um coroinha".
Meu cérebro hesitou, o que diabos um coroinha fazia ali, naquele momento? Ele deveria estar juntamente com os outros ao lado de %Gustav%. Ao olhar impulsivamente para trás, percebi que não havia mais ninguém ali. Isso não podia ser normal, não podia ser coincidência. Me levantei do banco e sinalizei para %Carl% que sairia. Ele confirmou e buscou o olhar de %Gustav%, que ao me ver em pé lançou os olhos à porta. Ele havia percebido o mesmo que nós e sendo assim, eu sai.
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%Louise% estava sentada, quieta e calma ao lado de seus pais. A missa parecia estar ao fim e a mesma já se preparava para levantar, segurou a fofura de sua saia e levemente girou seu corpo para trás. Então, lá no fundo da igreja, na última fileira ela o viu. Os cabelos penteados para trás, o olhar cerrado e os botões da camisa social preta que deixavam os pelos do torso de %Fitzroy% levemente à mostra. Ela se sentiu arrepiar, por que ele estava indo à igreja com tanta frequência? Louise sentiu sua alma sair de seu corpo e ir ao lado de %Fitzroy% sentir sua pele.
Porém, seus pensamentos foram encerrados quando a mesma ouviu a voz do bispo pedindo atenção.
Ele começou a proferir um digno discurso de santa inquisição, moldado aos parâmetros medievais, glorificando os santos mártires da Igreja Católica. Ela não parecia entender muito bem aquilo, mas os mais velhos se empolgavam a escutar nomes que ela nunca havia ouvido. Não demorou para muito para a atenção dela se esvair, assim seus olhos voltaram a procurar pelo homem e os mesmos o viram de costas saindo pela porta.
Seu peito se retraiu e ela se sentiu mais fraca. Queria gritar para ele voltar, mas não podia. O que fazer naquele momento? Suas pernas queriam se levantar, ela queria correr atrás dele, mas, como?
"Mãe, preciso ir ao banheiro"
Não esperou seus pais a repreenderem, apenas levantou-se, andou o mais rápido que pode pelo corredor vendo %Fitzroy% logo mais à frente. Ela o iria seguir, mesmo que estivesse o desobedecendo e fosse punida mais tarde.
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Me escondi atrás de uma das pilastras da escadaria da igreja e observei o coroinha. Ele estava com sua batina puxada, para acelerar seu passo. Caminhava rapidamente, tentando não ser notado. A cidade estava vazia naquele momento, já era noite e praticamente todos estavam na missa. Era o momento perfeito para agir. Espreitei mais meus olhos tentando enxergá-lo quando a luminosidade já não era o suficiente para ver com clareza, mas, ainda pude vê-lo indo para a trilha que levava a floresta. "Filho de uma puta", pensei.
Infelizmente estava sem meu rifle, ou uma arma, ou um canivete sequer, mas mesmo assim, não seria um moleque que me faria ter medo. Como conhecia cada entrada da floresta, peguei um atalho próximo ao açougue do %Carl%. Comecei a correr para chegar à sua frente no caminho principal da mata. Fiquei escondido atrás de uma árvore menor esperando que ele passasse, não demorou muito para que seus passos sem coordenação se aproximassem e continuassem pelo caminho. Eu fui o seguindo entre as árvores, quando finalmente chegamos no fim da trilha. Ali havia uma pequena clareira que abria em vários trechos pequenos de terra, o resto era tudo mata fechada.
No primeiro trecho, havia árvores marcadas por corte de machado, era a trilha da minha casa. Assim que mudei para o local e não o conhecia, fiz as marcas para não me perder. Logo à frente, num minúsculo corredor de árvores menores ficava a "entrada" da mata fechada, do perigo iminente da floresta. Era se enfiando por meio dali que se chegava na casa de Nikolai, o único que dividia a floresta comigo. Não muito mais velho que eu, de cabelos grisalhos e excelente humor.
O moleque hesitou, pensou por alguns minutos e tirou sua batina, amarrando-a na cabeça. Esperto, pensei. Se entrasse ali vestido daquele jeito ele ficaria preso no primeiro galho. O mesmo ficou apenas de cueca, meias e sapatos. Quebrou uns galhos à sua frente e foi se enfiando no meio das árvores. Por que diabos ele iria para a casa de Nikolai? Não havia nada ali além da casa dele. Assim que o vi se perder entre as árvores, peguei o rumo da minha casa, sabia muito bem como chegar lá antes dele.
Menos de cinco minutos correndo, minha camisa estava suada, meu coturno cheio de terra e meu cabelo todo bagunçado. Fiquei à espreita antes da casa de meu companheiro e fiquei esperando o coroinha chegar. Eu ainda não tinha visto seu rosto, não sabia se o conhecia ou não, mas de qualquer forma, ele era um suspeito.
A criatura finalmente apareceu. Seus braços sangravam, seu abdômen magrelo estava todo arranhado e uma de suas canelas estava quase rasgada sangrando muito. Não pude evitar rir, afinal, essas pessoas achavam que podiam se enfiar na floresta e sair bem.
Ele ficou um tempo parado à espreita, suas mãos tremiam e ele parecia estar meio perdido, com o olhar desconexo. Desamarrou a batina da cabeça e a virou do avesso procurando por algo. Então o vi tirar um punhal brilhante de lá, o mesmo reluzia com o reflexo da lua. Ele tomou a coragem que lhe faltava e riu em escárnio antes de correr em direção a porta. Nesse momento sai correndo da onde estava e fui em sua direção, com meus passos longos não foi difícil alcançá-lo, o grudei pela boca com uma mão e com a outra busquei seu pulso. O garoto perdeu o equilíbrio do punhal e o derrubou. Assobiei, do modo característico para me comunicar com o Nikolai e em poucos segundos, lá estava ele de cueca e descalço, com um charuto na boca, segurando uma espingarda.
- Não atire, Nikolai, eu preciso saber o que o mocinho aqui quer e o motivo de estar aqui.
- Você quem manda, %Fitzroy%. - Nikolai veio em nossa direção, tirando seu charuto da boca.
- Ora, ora, veja se não é um cordeirinho de cristo vindo aqui pra me matar. - Nikolai pegou seu charuto, tragou, soltou uma baforada no garoto e jogou as cinzas em seu cabelo loiro.
- Eu não vou falar nada, seu porco imundo. - o adolescente, soltou um cuspe na cara de Nikolai, que apenas ria da situação.
Eu iria levá-lo para dentro, amarrá-lo talvez e obrigá-lo a falar. Porém, alguns passos me tiraram a atenção. Me virei ainda segurando o moleque. Foi aí que vi uma saia rodada cheia de frufrus. Os braços cruzados dela pressionavam os seios que apareciam de leve em sua blusa verde. Nesse deslize, o moleque escapou e a mesma soltou um grito. O bastardo tentou correr em direção à ela para fazer algo que eu não entendi muito bem. %Louise% ficou em choque parada, com as mãos levantadas. Tentei correr, mas não fora mais rápido que o tiro de Nikolai. O projétil atingiu as costas do moleque o fazendo cair no chão.
- Porra! - berrei chutando tudo que estava à minha frente.
- Calma, não acertei nenhuma parte vital, o moleque está vivo. Pegue a menina que eu o trago pra dentro.
Olhei para Louise e lá estava ela, com o semblante assustado e desesperado. Não queria ter que berrar, gritar ou até bater na cara dela, mas era impossível ficar calmo. Por que me desobedecer, por quê? A puxei pelo o braço e pedi que ficasse muda, até que nós dois pudéssemos conversar a sós.