Forest on Fire


Escrita porForlly
Revisada por Mariana


Chapter IX

Tempo estimado de leitura: 26 minutos

  Meu quarto parecia o lugar mais solitário e terrível do mundo. Nenhum lugar do planeta onde eu não pudesse estar sendo beijada ou acariciada por %Fitzroy% fazia sentido. Eu queria aquele homem, eu desejava cada pedaço da existência dele. Era doente e sem sentido, eu sabia. Porém, aquela necessidade maluca me fazia ser a adolescente mais irresponsável do país. Irresponsabilidade que causava meus sumiços e por causa desses pequenos sumiços e desculpas mal dadas, meus pais me colocaram de castigo e dessa vez, nem Wilda poderia me ajudar.
   Eu simplesmente queria pular a janela e ir para a floresta. Queria me enfiar no meio daquelas árvores, me cortar naqueles galhos e invadir a casa do maldito lenhador gostoso. Entretanto, agora eu sentia medo. Sentia medo de ser perseguida, de ser atacada, de entrar em um fogo cruzado e acabar me machucando; e bem, %Fitzroy%, apesar de tudo, não parecia muito feliz com a minha presença ali. Eu não sabia o que sentia por ele, mas, sabia que precisava dele perto de mim, que o queria de um jeito doído e maluco. E o que ele sentia? Tesão e mais nada? Ele só estava me comendo porque eu era carne fresca e aquilo o deixava de pau duro. Essa era verdade, ele queria me proteger para se livrar da culpa de algo acontecer a mim e ele ser o responsável.
   Era bem idiota da minha parte achar que ele poderia, “gostar de mim”. Mas, %Fitzroy% era um homem, uma delícia de homem. O problema veio depois que transamos na floresta. Oh Céus, eu nunca tinha sido tão fodida como eu fui naquele dia. Nunca tinha sentido um pênis me rasgar daquele jeito. E eu queria mais, eu queria gemer mais e pedir que ele fodesse cada vez mais. Só que entre isso e caminhar até a casa dele, estava meu castigo. A porra do meu castigo, dado pela porra da minha mãe.
   Minha mãe sempre fora uma mulher de baixa índole para não dizer mais. Não apenas por ter ficado com %Fitzroy%, não foi o primeiro homem que ela levou para a adega para agarrar e muito menos o segundo ou o terceiro. Desde pequena eu a via trair meu pai, com vários homens. Desde o carteiro até o irmão do próprio. E a mula idiota que eu chamava de pai nunca enxergava ou fingia não enxergar. Meu pai era um cego apaixonado e dava a ela tudo que ela merecia e não merecia. E para se redimir ou fingir que era uma mulher de índole sua tática era por uma coleira em mim, me tratar como uma garotinha idiota, inocente e frígida.
   Estava eu de castigo, maldizendo minha mãe enquanto ouvia H.I.M, talvez a voz do Ville Valo pudesse me acalmar. Pensamento errado, pois ouvir Join me In Death ou Poison Girl não fazia o mínimo bem naquele momento. Resolvi me distrair, procurar algo para ver, ler, alguém para conversar. Horas se passaram e nada daquilo realmente conseguia me fazer parar de pensar em %Fitzroy% e seus músculos. Vi o dia virar noite e minha agonia só aumentar. Foi então que meus ouvidos entregaram que havia gente subindo as escadas, eu ouvia a voz do meu pai e de mais um homem... mais um homem. Era ele, eu tinha certeza que era, ele estava ali falando com o meu pai, mas, falando o quê?
   Só nesse momento eu me lembrei do fato dele ter dito que iria se demitir. Eu não levei aquela merda à sério em nenhum momento até saber que ele estava ali. Merda, %Fitzroy%, você precisa de dinheiro, eu preciso de móveis novos e preciso rebolar no seu pau. Filho de uma puta!
   Fui para a porta e fiquei ali, escondida e amuada tentando ouvir algo. Para minha sorte as vozes dos dois eram graves e mais altas que o necessário. Pude ouvir bem a conversa, cada parte dela. Meu pai perguntando a razão, %Fitzroy% dizendo que passava por problemas pessoais, meu pai oferecendo ajuda, %Fitzroy% dizendo que agradecia porém, que não precisava de ajuda, meu pai combinando um valor, %Fitzroy% aceitando-o, meu pai dizendo até logo e %Fitzroy% indo embora.
   Eu senti meus olhos lacrimejarem, dei as costas para a porta apesar de querer sair correndo escada abaixo atrás dele. Só que eu não podia mais fazer aquilo, não podia mais ser a menina inconsequente que ultrapassava as barreiras do bom senso para conseguir o que queria. Era minha lição, aprender a respeitar limites.
   Corri para a janela e o vi sair, passar pela fonte e caminhar para a descida. %Fitzroy% tinha os olhos cerrados, os punhos fechados e uma expressão de raiva. Ele falava sozinho algo impossível de deduzir, os cabelos dele estavam molhados e penteados para trás, a camisa xadrez preta estava dobrada até os cotovelos e eu podia ver um pequeno pedaço da cueca branca enquanto ele se movimentava.
   Minha vontade era gritar para que ele voltasse, gritar para que me esperasse. Eu iria pular a janela e correr para ele, implorar para que ficasse ali comigo e que me beijasse até nossos lábios sangrarem. E apesar da vontade que me consumia, eu não podia. Não mais, não de novo. E eu senti o salgado das lágrimas nos meus lábios secos, eu sentia a tristeza e o desespero tomar conta do meu corpo e fazer o sentimento de impotência circular pelas minhas veias. Eu queria aquele lenhador, eu precisava dele e teria que ficar sem. Não era justo, não era.
   O que eu mais almejava naquele momento era alguém para conversar. Precisava desabafar com alguém, contar tudo aquilo, extrapolar e por fora os meus sentimentos. E foi então que eu decidi para onde iria. Apenas coloquei uma calça jeans e um agasalho e abri a porta do meu quarto pisando com força no chão. Disse ao meu pai que estava indo me confessar, ele nem ao menos discordou, sorriu para mim e me deu um beijo na testa pedindo para que não demorasse. Minha mãe não estava em casa – como sempre – e eu simplesmente atravessei a porta como um foguete em direção à igreja.
  

xx

  Era quase noite, o bispo estava de viagem, tinha ido para Finlândia visitar uns parentes distantes que não via há muito tempo e eu tinha ficado com a responsabilidade abrir e fechar a igreja. Não que eu não gostasse do bispo, mas era realmente bom e libertador ficar por ali sem ninguém para controlar o que eu fazia. Sempre era possível beber vinho no meu quarto e tocar música não-sacra no enorme órgão que tínhamos. Estava me sentindo um verdadeiro músico quando consegui tocar sem erros Toccata et Fugue de Bach, o que seria algo impossível de se fazer se o bispo estivesse pelas redondezas. Era um grande sacrilégio para um padre ouvir, tocar e admirar música protestante.
   Estava sentado no banco forrado de veludo mostarda quando ouvi passos se aproximando, era dia de confissão e por mais que a noite estivesse caindo sempre havia algum “atrasado” procurando pelo perdão dos pecados. Fechei minha partitura e procurei pela pessoa, demorei a encontrar, pois a mesma se ajoelhou no altar com o cabelo tampando o rosto. Era uma garota e eu sabia muito bem seu nome, %Louise% %Martins%. Eu podia a ver balbuciar de olhos fechados, não sabia muito bem do que ela poderia estar pedindo perdão, talvez fosse por fornicar com %Fitzroy%.
   - %Louise%? – ela me olhou assustada e um leve sorriso envergonhado se formou em seu rosto. – Veio se confessar?
   - Sim, padre. Eu só não esperava encontra-lo por aqui. – ela estava muito sem graça, era possível sentir em sua voz, acho que o constrangimento por ter nos encontrado na casa do %Fitzroy% era grande. E eu reconheci sua voz e o jeitinho tímido de falar, era a mesma menina que vinha me pedir conselhos por sentir desejo sexual por um homem mais velho. As peças se encaixavam perfeitamente.
   - Eu sou o padre que escuta as confissões, acho que é um pouco tarde demais para se sentir envergonhada, %Louise%.
   - Você sabe meu nome? Sabe quem eu sou? – ela realmente estava espantada.
   - Todos na cidade conhecem você e seu pai, seria impossível não saber quem é você, principalmente depois de te encontrar na casa do %Fitzroy%. – não era minha intenção a envergonhar mais ainda, porém, a verdade precisava ser dita.
   - Então quer dizer que foi você, o melhor amigo do %Fitzroy%, que escutou toda aquela minha ladainha ridícula e suja? Deus me leva agora. – a garota se sentou no banco mais próximo escondendo o rosto entre as mãos e eu, só consegui rir me divertindo com aquilo. Ela sentia todas aquelas coisas, mas, se culpava por todas elas. A sociedade assim o faz, todos têm desejos carnais correndo em suas veias e os escondem sob mantas de perfeição e falsidade para parecerem pessoas normais.
   Fui vagarosamente me aproximando dela e sentei ao seu lado, o que eu menos queria naquele momento era perturbá-la e a fazer sair correndo, mais que um padre, eu era um homem de Deus. Não um cardeal mesquinho e hipócrita, eu era um homem bom com o real intuito de ajudar as ovelhas perdidas e os filhos pródigos do Senhor.
   - Minha querida, eu sou um padre, eu fiz um juramento perante o papa de que nunca e jamais contaria segredos que uma pessoa me contasse em confissão. Meu papel aqui não é te julgar, é te ajudar e se você veio até aqui em uma hora dessas é porque está com perturbações em sua cabeça. – meu tratamento com ela era terno, eu realmente queria ajudar aquela garota a se entender e compreender as coisas complicadas que sua cabeça confabulava.
   - Você e o %Fitzroy% são melhores amigos, é claro que uma hora ou outra todas as coisas que eu disse à você vão chegar aos ouvidos dele. – ela parecia muito angustiada, como se aqueles pensamentos e sentimentos machucassem sua jovem mente.
   - %Louise%, antes de ser um homem comum e amigo daquele lenhador, eu sou um servo de Deus, que fez juramentos e foi investido como tal. Não sou mais um adolescente que não controla os próprios hormônios, creia em mim quando eu digo que nunca contarei à ele o que nós conversamos e conversaremos. Confie em mim, posso ser um bom amigo.
   - Pode mesmo? Eu preciso desabafar com alguém e minhas amigas não me entenderiam.
   - E por que elas não te entenderiam?
   - Eu conheço minhas amigas, principalmente a Charlie. Eles vão falar que eu sou boba e não deveria me culpar por transar com ele e querer mais. Só que o %Fitzroy% é um homem bem mais velho que eu, que odeia gente no pé dele e atrapalhando sua rotina. Ele mora enfiado na floresta, odeia que qualquer um vá lá sem avisar e não parece estar nem um pouco interessado em manter algum tipo de relação, muito menos com uma pirralha sem experiência como eu. – era possível sentir verdade em tudo que ela dizia, a agonia da garota começava a e me contagiar.
   - E você consegue me dizer o que é que sente por ele? Eu conheço o homem, posso te ajudar.
   - Eu não sei explicar muito bem, padre. Não é um sentimento como amor ou paixão, mas, é uma porcaria de uma necessidade estranha. Eu nunca tinha o visto na vida e de repente eu percebi que meu corpo começou a se acender quando o via. Eu sempre fiquei com meninos da minha idade ou um pouco mais velhos, só que quando eu o vi pela primeira vez, com aquele porte físico imenso, cheio de músculos e barbado, fiquei completamente atraída. Até aí tudo bem, atração física por um homem, nada anormal. O problema é que eu comecei a cometer erros idiotas pra chamar a atenção dele, eu queria que ele me notasse, queria chamar a atenção. Mas eu só sou uma menina, uma adolescente besta. Então comecei a apelar fora do normal para que ele me notasse e quando nós finalmente nos beijamos e trocamos carícias mais pesadas a coisa ficou pior. Nunca tinha sido tocada daquela maneira, foi muito intenso, muito excitante e depois de provar uma vez, eu não consigo ficar sem. E me desculpe por falar assim, sei que você é padre e não se fala dentro da igreja sobre sexo.
   - Não se preocupe, comigo você pode falar sobre sexo que eu não irei te julgar, eu já fui adolescente e sei como as coisas funcionam. Nós temos impulsos muito confusos e uma coisa boba é capaz de acender um fogo descomunal em nossos corpos. E me perdoe a revolta, mas o puto do %Fitzroy% não me contou nada sobre isso. O infeliz escondeu tudo. – eu simplesmente queria soca-lo por esconder uma coisa dessas.
   - Mas era meio óbvio, não? Ele deve ter vergonha de contar para os amigos que fez sexo com uma pirralha inexperiente e boboca. – era até engraçado o jeito que ela falava de si mesma, ela se inferiorizava de um jeito inseguro, ainda não era uma mulher formada e não conseguia se gostar. Típico adolescente.
   - Eu não acho que seja por isso na verdade.
   - E por que mais seria? Qual o mérito em falar que transou com uma coisa sem graça feito eu? Quando ele poderia transar com qualquer mulher bonitona e gostosa e muito mais interessante que eu?
   - Eu acho que ele escondeu por medo de ser julgado por mim e pelo açougueiro. Porque sim, nós iríamos escorraçá-lo por levar uma menina como você para cama. Mas quando eu digo isso não estou te chamando de feia ou desinteressante, estou dizendo que você é realmente uma adolescente muito bonita e interessante, só que realmente jovem demais pra um homem como ele. Pode ter certeza que foi por isso.
   - Como você pode ter tanta certeza? – ela parecia realmente muito interessada em entender como a mente do homem mais confuso e misterioso da Suécia funcionava.
   - Eu conheço o amigo que tenho, temos uma amizade longa e forte desde os cinco anos de idade. O pai de %Fitzroy% morava em Estocolmo e quando sua esposa morreu de uma grave pneumonia ele se mudou para cá, para a casa do avô de %Fitzroy% que ficava próximo de onde hoje é sua casa. Eu morava vizinho do velho Krasic, o avô de %Fitzroy% e de Tatiana, sua avó. Nós nos conhecemos naquela época e seu avô nos levava para pescar e caçar na floresta, aos finais de semana ficávamos na casa de caça de Krasic, que por sinal, é a casa onde %Fitzroy% mora atualmente. Eu cresci com ele e sei muito bem o gosto dele por mulheres. Ele nunca foi mulherengo, por mais que as meninas se jogassem em cima dele. %Fitzroy% era muito seletivo e só ficava com aquelas que passavam em seu pequeno padrão de qualidade, sempre fora assim. Então se ele ficou com você, te protegeu e te levou para casa dele, o que é muito raro, é porque ele realmente se interessou. – %Louise% escutava minhas palavras com a maior atenção do mundo, parecia uma mentira tamanha saber detalhes da vida de %Fitzroy% que era um verdadeiro cofre trancado à senha e sete cadeados. Eu sabia que ele me mataria por contar isso a ela, mas isso seria um problema para cuidar mais tarde.
   - Então quer dizer que o %Fitzroy% teve mãe e pai e uma família normal? E o que aconteceu com eles? E por que ele é tão fechado?
   - %Fitzroy% teve a família mais normal do mundo, daquelas que comemoram o natal com ceias tradicionais e que cantam parabéns em todos os aniversários. Seus avós morreram de velhice e seu pai, depois de muito tempo cuidando dos pais por aqui voltou para Estocolmo, pois casou-se com uma outra mulher. Uma ótima mulher por sinal, os dois ainda estão vivos e moram por lá, %Fitzroy% os visita na época de natal todos os anos. Sei que parece impossível, mas ele faz isso. – estava achando a conversa muito divertida, sempre que possível era interessante destruir a muralha %Fitzroy% e mostrar para os outros que ele era um homem muito normal e que amava a família e se preocupava com a mesma. Ele só procurava se fechar e parecer ranzinza por puro orgulho e pose.
   - Eu nunca poderia imaginar uma coisa dessas, pelo menos não do %Fitzroy% que eu conheço. – %Louise% sorria, sorria muito. Sei que ela estava doida para vê-lo e jogar tudo isso na cara dele.
   - Poucos nesse país e nesse mundo conhecem o lenhador xarope como eu conheço. Acho que só eu, Carl e seu pai realmente conhecem sua verdadeira personalidade. Ele é bem fechado e misterioso porque é um zé mané que gosta de parecer independente e sozinho. Nunca foi de querer dar satisfação para os outros, mas era um verdadeiro filhinho do papai. E por conhecer muito bem aquele homem que você tanto admira é que eu vou te dar um conselho. – seus olhos se arregalaram para mim, ela queria muito, mas muito mesmo escutar o que eu tinha para dizer. E já que estava decidido a agir sobre ele por suas costas, resolvi fazer um serviço completo.
   - Escute bem e preste atenção nisso que vou lhe falar agora. %Fitzroy% odeia ter coisas fáceis, ele gosta do desafio, ele gosta de caçar. Uma presa fácil não o satisfaz, ele prefere que ela seja difícil e se torne algo complicado de se conquistar. Então faça um esforço e se afaste dele. Suma, desapareça, não dê recado e simplesmente finja que ele não exista. Eu conheço o homem, ele não vai suportar e vai vir atrás de você.
   - Mas e se eu fugir e ele nunca mais se lembrar de mim? E se isso for uma péssima ideia e nós dois nunca mais nos encontrarmos? Eu não quero de jeito nenhum que isso aconteça.
   - Confie em mim, eu o conheço demais e sei que isso pode funcionar. E ainda há mais uma coisa que pode deixar o homem maluco e acelerar esse processo.
   - O quê? – a curiosidade brilhava em seus olhinhos surpresos e cheios de esperança.
   - Saia com outro rapaz. – era simples e certeiro.
   - O quê?! – %Louise% se sobressaltou, falando alto e ficando em pé de frente para mim, a ideia realmente parecia bem idiota e infantil, mas era realmente muito eficiente.
   - Saia com outro rapaz, ele precisa ver que você não vai ficar sentada esperando a boa vontade dele, mude os ares, sei que o jovem não vai ser capaz de te provocar os mesmos arrepios que ele, mas é bom uma mudança de ares. – ela sorria nervosa, muito nervosa. Parecia gostar da ideia e parecia sentir um medo estranho de executá-la.
   - Eu quero, padre, eu quero chamar a atenção dele e até sair com outro cara, mas quem? Eu já fiquei com todos os meninos que me interessam de verdade nessa cidade. Sem querer parecer promíscua, é claro.
   - Não fique se preocupando com o que eu irei pensar, sou um padre bem liberal como você pôde perceber. E eu acho que posso te ajudar com isso. – sim, eu estava realmente me envolvendo demais na história e estava realmente empolgado com aquele plano.
   - Quem, padre? Fale logo antes que eu resolva mudar de ideia.
   - Manterfos? O conhece? Ele é um coroinha e eu sou seu tutor nas coisas da igreja. Ele é um rapaz de uma boa família e muito bonito, vive cheio de pretendentes. – quando citei o nome de Manterfos ela abriu um largo e interessado sorriso. Provavelmente conhecia-o e havia gostado da sugestão.
   - Sim, eu o conheço. Já o vi na missa e algumas vezes na escola, ele é mais velho que eu e... ele é realmente bonito. Minhas amigas vivem jogando charme pra ele, acho que pode ser legal. Só não sei como eu poderia me aproximar dele.
   - Ele sempre está comigo pela manhã e vai à Taverna nos finais de semana. Você e suas amigas poderiam combinar de ir para lá, você se arruma, faz essas coisas de mulher e eu dou um jeito de %Fitzroy% aparecer por lá e sentir vontade de matar o moleque, o que me diz? – se ela não aceitasse, eu iria ser o padre mais frustrado do planeta Terra.
   - Você não vai se meter em confusão por isso? - a garota mordia os lábios e suas mãos inquietas entregavam o seu nervosismo. Quem não se empolga com essas brincadeirinhas bobas e fúteis?
   - Não se preocupe comigo, se preocupe em seduzir o garoto. Você é muito bonita, %Louise%, tenho certeza que ele vai cair na sua. – eu sempre parecia um velho ridículo tentando ser descolado falando daquela maneira.
   - Tudo bem então, eu topo esse plano maluco. Espero de verdade que dê certo, estou confiando em você. Eu preciso parar no meio das pernas do %Fitzroy% de novo. – ela percebeu a “besteirinha” que tinha falado e prontamente tampou a boca.
   - Tente se controlar, ok? Eu sou gente boa e liberal, mas, também não preciso saber de detalhes. Se ele vier me contar algo, eu finjo que não sei de nada e vou evitar detalhes, ok?
   - Certo, combinado. Eu acho que está tarde demais e irei para casa, meu pai já deve estar preocupado. E muito obrigada, padre, muito obrigada mesmo. Eu não sei o que eu faria se você não estivesse disposto a me ajudar. Como eu posso te agradecer?
   - Primeiro, me chamo %Gustav%, e não de padre, portanto me chame pelo nome. E você não precisa me agradecer, já é um prêmio e tanto confabular contra %Fitzroy%, é a realização pessoal de uma antiga vingança.
   - Vingança?
   - Sim, vingança. Mas isso é história pra outro dia, pode ir embora. Realmente é tarde, eu vou te acompanhar até sua casa. – %Fitzroy% era um verdadeiro filho da puta quando queria e eu não iria me esquecer jamais de quando eu inocentemente cai na armadilha dele. Dei uns pegas em uma coroa “papa-anjo” que era mãe de um dos meus amigos e o lenhador safado fez questão de me fotografar em momentos meio tensos com a mulher no carro dela e depois mostrar as fotos pro nossos amigos. O garoto nunca mais olhou na minha cara, o marido da coroa quase me matou e a coroa nunca mais me deu mole, foi realmente algo frustrante.

xx

  Certo, aquela parecia a ideia mais estúpida de todos os tempos, porém, eu não tinha muitas escolhas e seria muita burrice da minha parte ignorar os conselhos e a ajuda de um amigo tão próximo de %Fitzroy%. Se ele tinha me proposto aquilo e me oferecido ajuda é porque realmente acreditava que podia dar certo. Seria interessante me arriscar, iria dar um pouco de adrenalina na minha vida confusa e eu poderia me distrair um pouco e focar minha mente em outro homem, mesmo que temporariamente.
   Cheguei em casa e meu pai estava assistindo algum filme do Dolph Lundgren na televisão, ele era o ator mais famoso e bem sucedido da Suécia e eu realmente gostava do cara, além de ser sueco, competente e bom ator, era um loiro super gostoso e atraente, mesmo beirando os 60 anos.
   - Estava preocupado, filha. Já são quase 10 horas da noite e você não aparecia. Sabe que não implico que saia, mas, é preciso cuidado mesmo com a cidade sendo pequena.
   - Eu sei, papai, me desculpe. A confissão demorou um pouco mais que o esperado, mas o padre me deu uma carona até aqui, não precisa se preocupar. – sentei ao lado do meu pai no sofá e ele me abraçou passando um braço pelas minhas costas. Eu amava meu pai, era o ser que eu mais amava no mundo. Infinitamente mais que a minha mãe, ele era bom, não era mesquinho, era humilde. Suas palavras eram verdadeiras e ele não era pilantra. Eram raros os momentos que nós tínhamos a sós daquele jeito, para fazer nossas besteiras de pai e filha que minha mãe tanto implicava.
   Meu maior sonho era que meu pai descobrisse as traições dela e mandasse a filha da puta embora.
   - Pra onde a mãe foi? Eu simplesmente chego em casa e ela não está, nem parece que tem filha. – perguntei, tentando por lenha na fogueira.
   - Ela foi viajar com as amigas peruas para fazer compras na Alemanha, conhece sua mãe, sabe que ela vai e volta quando bem entende. – ele parecia muito tranquilo e eu sentia vontade de abrir a cabeça dele e mexer uns fiozinhos para que ele caísse na realidade.
   - Você ainda fica bancando esses luxos dela? Ela nem se dá o trabalho de arrumar um emprego. – sim, estava bem emburrada e fazendo intriga, mas eu não me importava.
   - Isso é ciúmes? Ahn?
   - Não é ciúmes, pai, é injustiça. E eu não suporto injustiça. Você sempre trabalhou, deu duro, cuidou dos negócios do vovô e o que ela faz? Gasta tudo e me põe de castigo.
   - Eu já te tirei do seu castigo, %Louise%. Senão não teria saído de casa, então não abuse. E outra, sua mãe também é filha de pais ricos, ela gasta a herança dela. Eu nunca impliquei, não me importo, tenho dinheiro para bancar o luxo das duas sem me preocupar, quero ver minhas meninas felizes. – minha vontade era berrar ‘para de ser burro, pai, ela te trai, ela abre as pernas pra qualquer macho meter, abre o olho e larga ela.’ Só que a maldita parecia ter mel na buceta.
   - Você parece que não vê a realidade, pai. – eu não podia falar mais que isso, só cruzei os braços e fiquei com a cara amarrada.
   - Ei, olha aqui para mim. – me sentei de lado olhando para ele. Não consigo descrever a sensação de felicidade que eu sentia ao ver os olhos cheios de amor do meu pai. – Eu sei o que você quer dizer. Eu sei que você pensa que eu não sei, mas eu sei. Eu sei de tudo que sua mãe faz e já fez. Eu sei que ela me trai, me traiu e vai continuar me traindo. – ele falou aquilo numa simplicidade tão enorme, que meu queixou caiu no chão.
   - Como assim você sabe e nunca fez nada? – eu estava realmente chocada e passada.
   - Nós temos um casamento de negócios milionários, jamais seria um divórcio tranquilo e sossegado. Envolveria mil advogados, milhões de euros e muita dor de cabeça; eu então decidi não me incomodar. Eu amo a sua mãe, mas com o tempo eu percebi que ela não presta e não vai mudar. Então ela me trai, vive a vida do jeito que ela quer e eu, bem, não sou nenhum santo. Já trai sua mãe algumas vezes, não posso negar. Entenda que isso é uma coisa complicada e que essa bomba não pode estourar assim do nada. Nós dois somos felizes do jeito que estamos, dormimos juntos e temos uma vida sexual ativa. Escapamos quando podemos e queremos e, além disso, e mais que isso, eu tenho você. Não suportaria me separar e perder essa vida que eu tenho com a minha menina, minha menina que deveria viver sua vida de princesa e esquecer os problemas dos pais. – meu pai sorria, ele não estava sendo falso. Ele realmente falava a verdade naquilo tudo e eu, por mais que aquilo fosse confuso e até nojento, me sentia melhor por ele parecer realmente bem.
   - Bom, quem sou eu pra falar alguma coisa, né? Se você está bem e se sente feliz, é isso aí. Agora me desculpa, vou pro meu quarto porque isso foi um pouco demais pra minha cabeça. – meu pai sorriu e deu um beijo estalado na minha testa. Subi as escadas indo pro meu quarto.
   Depois de tomar um banho e por pijamas, estava deitada na cama com o notebook no colo. Ouvia Heartkiller do H.I.M pela milésima vez enquanto stalkeava as patricinhas da escola e conversava com Charlie no chat, ela e suas histórias idiotas que ninguém queria saber de verdade. Foi então que eu me lembrei da conversa com %Gustav%, se eu tinha aceitado seguir aquele conselho doente, que fizesse direito.
   Abri a barra de busca do Facebook e procurei por Manterfos. O primeiro perfil que apareceu na tela era de uma menina loira sem graça, com uma foto bem sem vergonha de perfil. Fazendo biquinho de batom rosa vestindo um decote imenso. Ridículo.
   Fui descendo até finalmente achar o maldito coroinha e não pude evitar abrir um sorriso bem cheio de perversidade. Lá estava o tal Manterfos, com uma foto bem tentadora no perfil. Os cabelos castanhos mal penteados, os olhos verdes brilhando, a boca semi-carnuda bem vermelha e um sorriso mal intencionado. Tentei ver suas outras fotos, mas só algumas aleatórias estavam liberadas. Criei coragem e o adicionei, se eu iria me jogar pra cima dele mesmo, era bom começar logo e nada melhor que um convite discreto de amizade no Facebook.
   Mandei uma mensagem com um simples smile e fiquei aguardando ele me adicionar, mas, já era tarde e eu estava sono. Resolvi me deitar e esperar o dia que viria, estava cheia de ideias na cabeça e precisava de roupas novas para sair no sábado. Tudo, por causa do maldito lenhador.

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