Chapter II
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Já era noite e eu e meus pais estávamos nos arrumando para ir até a missa. Nossa cidade era muito religiosa e as missas semanais eram um evento sacro e rigoroso. Como meu pai era filho de uma das mais tradicionais famílias e minha mãe sofria do mesmo mal, não podíamos faltar. Até por uma questão de obrigação, ou ficaríamos mal falados e isso não era bom pros negócios da família. Cidade pequena tem muita língua venenosa e olho mal intencionado pra cuidar da vida alheia. Desci as escadas e meus pais já estavam me esperando na sala e então, nós fomos de mãos dadas saindo de casa. Não era necessário andar de carro tendo em vista que a cidade era pequena, ou seja, as coisas eram todas próximas uma das outras. Sentamos no lugar costumeiro, era como se fosse um ritual sagrado e eu já estava ficando bem cansada daquilo tudo. Nós tínhamos de ir caminhando até nossos lugares dando com a mão para os conhecidos, dando beijinhos nas amigas peruas ricas da minha mãe, sendo cordial com os sócios do meu pai, enfim, era uma grande festival de coisas desnecessárias.
O bispo adentrou a catedral com seus coroinhas como de costume e assumiu seu lugar no púlpito. Não que eu fosse a garota mais cristã do mundo, mas tinha o costume de me confessar, tomar a hóstia e ir frequentemente à missa. Então eu sempre costumava prestar muita atenção nas palavras do bispo, ele tinha um ótimo discurso e sempre pregava palavras de conforto.
Diferentemente do de costume o bispo começou a missa com um discurso sobre mudanças, ele disse que nossa catedral estava passando por uma época de transição, que eles estavam purificando o santuário e nos oferecendo um novo tempo de paz e prosperidade. Minha mãe me olhou com uma carinha de curiosidade e pude perceber que todos na igreja estavam alvoroçados com tudo aquilo. Curiosos para saber sobre o que bispo estava falando. Então ele fez sinal para que alguém entrasse. Ok, seria só mais um padre novo na cidade, até perceber que aquela missa seria diferente de todas as outras, quando olhei para o altar. Percebi que o novo padre que rezaria a missa naquela noite não seria qualquer padre, era simplesmente um dos amigos que estavam com %Fitzroy% na taverna no dia anterior. Eu fiquei branca, transparente e muito incomodada em pensar que por algum momento eu fantasiei perversidades com ele, porque afinal, ele era um homem do Senhor e aquilo tudo não fazia sentido nenhum. Enquanto eu ficava pensando em como tudo parecia confuso, o novo padre da cidade começou a fazer sua apresentação, seu nome era %Gustav% %Moore%. Ele nos disse que tinha sido indicado pelo Vaticano para vir à nossa cidade. Ele faria o serviço de Deus ali e que o bispo o havia recebido com muito carinho e atenção.
Nossa cidade iniciaria um novo estilo de comunhão com Jesus Cristo. E eu estava completamente chocada no nome de Jesus, Amém.
xx
Já era noite e eu havia passado o dia inteiro pela floresta cortando lenha, meus braços estavam miseravalmente doendo e minhas pernas latejando. A parte triste da história é que meu vinho tinha acabado e aquele filho da puta açougueiro que se diz meu amigo simplesmente resolveu fechar seu comércio por a dor de corno dele ser maior que a coragem de ir trabalhar. Sendo assim, estava sentado em minha poltrona lendo o jornal local e me divertindo ao ler as notícias mais mequetrefes que o homem poderia imprimir em um papel até ter minha atenção tirada por três batidas fortes na porta. Não estava acostumado a receber visitar em minha casa, principalmente no período noturno e não pude evitar em ficar meio com o pé atrás de abrir a porta. Lentamente fechei meu jornal e o coloquei em cima da minha mesa de centro e fui vagarosamente caminhando até a porta para finalmente abrí-la. Dei de cara com %Gustav% %Moore%, meu velho amigo de batina.
- A que devo a honra da sua visita sagrada em minha casa? - perguntei fazendo sinal para que ele entrasse.
- Eu sei que você não é muito fã de visitas na sua casa e principalmente nesses horários, a não ser que sejam mulheres. Mas eu vim te fazer um convite e não aceitarei um não como resposta.
- E que tipo de convite seria esse? - perguntei o olhando com uma das sobrancelhas arqueadas.
- Hoje eu rezo minha primeira missa na catedral e eu queria que meu grande amigo %Fitzroy%, que foi o responsável por minha vinda até aqui estivesse presente. - ele me olhou com uma carinha de cachorro abandonado e eu não pude negar, ele era meu parceiro de velhos tempos, então eu tive que aceitar.
- E que horas que é o grande evento?
- Às 9h, ou seja, você tem meia hora pra se arrumar e chegar lá pontualmente. Eu tenho que voltar, pois o bispo ainda precisa conversar comigo, não me desaponte.
Assenti com cabeça e %Gustav% sorriu satisfeito saindo pela porta com pressa enquanto o vento batia em sua batina branca. Ele era meu amigo e apesar de não ser um visitante assíduo da Igreja não seria um sacrifício assistir a missa do meu mais velho amigo. Fui tomar um banho, procurar alguma vestimenta que não profanaria o santuário e fui finalmente para a missa. Assim que cheguei à cidade, fui rapidamente subindo o morro até chegar à igreja, %Gustav% tinha pedido para que eu não me atrasasse e uma vez na vida eu senti vontade de realmente chegar na hora em um compromisso religioso. Não que eu fosse um herege ou coisa do tipo, só não gostava de todo aquela ostentação e luxúria para entrar em contato com Deus. Se por acaso quisesse, eu poderia procurá-lo dentro da minha própria casa sem ter que ostentar uma batina banhada a ouro. Adentrei a igreja e procurei um banco bem perto da porta e afastado da grande multidão. Uma menininha sorridente veio me entregar um folheto e desejar boa noite. Sorri para ela em resposta e fiquei por ali de pernas cruzadas prestando atenção nas palavras do bispo.
Finalmente eu vi aquele conhecido penteado adentrando pelo corredor, pude perceber todo mundo fofocando e aquele povo tudo surpreso pelo novo padre, era um tanto quanto bonito demais para de se abster de prazeres carnais. Me surpreendeu saber que ele possuía um discurso tão bem estruturado e parecia uma pessoa tão centrada.
Eu era o único ali que conhecia o %Gustav% %Moore% beberrão, apaixonado pelas mulheres e viciado em competições de arco e flecha. Competições que ele abandonou depois que entrou para a igreja por sinal, parece que o papado tem algo contra vícios e coisas do tipo.
Fiquei por ali durante uma hora e meia, mais ou menos. Por mais estranho que possa parecer eu passei a admirar mais quem sabe usar as palavras bíblicas da maneira correta. De certa forma aquele sermão havia me tocado e eu sentia que seria velado por ele nos próximos dias. %Gustav% pregou sobre as tentações e citou algo dito por Martinho Lutero que eu jamais esqueceria e que me ajudaria a entrar nos eixos em relação as minhas próprias tentações.
Por fim a missa havia acabado, prolonguei minha estadia na Igreja. Uma pilastra me serviu de apoio enquanto esperava todo o pessoal sair para poder trocar umas palavras com meu padre. Pude ver a família %Martins% ao longe e fiz questão de desviar o rosto para que não me vissem.
%Louise% havia acabado de entrar na lista das minhas tentações mais ferrenhas. Eu deveria evitar que tudo passasse do limite, eu não poderia apenas entrar na vida de uma garotinha e pô-la de ponta cabeça para simplesmente depois sumir pro meio das árvores. Iria simplesmente comê-la por vontade de abusar, chupar, lamber e nada mais. Por mais ofensivo que fosse, era a minha verdade. Homens são assim, podem se apaixonar, mas, antes eles querem simplesmente comer pra sentir o tesão. Para meu azar, isso não era certo. Muito pelo contrário, era cretinagem demais e não seria eu o coroa malvado a quebrar o coração de %Louise%.
- Então, consegui converter a ovelha perdida? - me perguntou %Gustav% em sua batina cor de ouro.
- Não sei como responder essa pergunta cretina, fiquei devidamente tocado.
- Vai me ironizar dentro de território sagrado mesmo? - ele me fitou com uma cara de desdém.
- Estou falando sério, bicha. De alguma forma você mudou minha vida, não consigo expressar em palavras o que aconteceu aqui. - aquilo tinha sido uma espécie de crise de loucura, as palavras de Martinho Lutero rondavam minha cabeça sem parar, algo havia acontecido e eu não estava entendendo muito bem – Cara, eu não estou no meu juízo perfeito, preciso de álcool, quer me acompanhar?
- Infelizmente eu não posso %Fitzroy%, tenho que dormir cedo hoje para conseguir acordar inteiro amanhã para distribuir o café da manhã dos pobres. Mas, se quiser me procurar pela tarde amanhã, estarei livre.
- Tudo bem, vou dar uma passada no %Carl%, tem dias que não falo com ele e aquela criatura deve estar precisando de ajuda e bem, eu também estou precisando jogar conversa fora.
Nunca imaginei que assistir uma missa inteira pudesse fazer aquilo com uma pessoa, talvez seja esse o motivo das minhas fugas de tais compromissos divinos, era o medo de tudo fazer efeito em mim. Quando sai, senti os olhos de %Louise% me cravando. Ela estava com os pais e mais uns amigos sentados nos bancos de uma espécie de praça que havia logo antes das escadas da igreja. Eu apenas ignorei, apesar de perceber seu olhar ainda sobre mim. Não sei que diabos aquele pedaço diabólico de garota queria da minha pessoa. Apenas possuía a noção de que simplesmente não poderia correspondê-la. Eu costumava transar sem compromisso nenhum com as mulheres que encontrava pela vida, porém, nenhuma tinha idade para ser minha filha. Nenhuma delas possuía uma inocência tão perturbadora.
Finalmente cheguei no açougue e lá estava ele, meu amigo %Carl% em sua típica cara de tédio, com seu avental branco sujo de sangue. Um verdadeiro atentado à salubridade. O coitado estava tão enfiado na lama que pouco se fodia para a vigilância sanitária.
- Olá, minha carnificina ambulante.
- Boa noite, pica pau de xadrez.
- Você é tão divertido, %Carl%, eu fico assim, estupefato com tanta alegria. Mas, por favor, me veja uma dose generosa de vodka, eu quero esquecer que o mundo real existe.
- Nem chifrado foi e tá aí todo dolorido com a vida, eu estou quase enfiando meu braço no moedor de carne pra esquecer minha dor. - %Carl% amava tanto a mulher que eu sentia dores profundas no peito por ele. Era exatamente por isso que eu não queria me envolver. Sofrer novamente não era uma opção.
- %Carl%, provocações a parte e pelo tanto que eu gosto de você e considero nossa amizade, sai desse buraco. Sua mulher te traiu? Sim. Sua mulher te deixou com filhos pra criar e te trocou? Sim. Mas esquece, sai dessa, supera. Você pode superar isso, parar de feder fígado de porco e por um sorriso na cara. Viver sem essa tristeza te corroendo por dentro.
- Eu estou ferido cara. Eu ... eu fui machucado de verdade. Meu orgulho, meu ego, minha alma estão queimando. Nunca esperei que isso fosse acontecer, eu amo tanto aquela mulher que não posso controlar essa merda. - %Carl% socou forte o balcão e abriu um corte em sua mão. Eu gentilmente joguei a vodka do meu copo na ferida que sangrava levemente fazendo-o gemer com o ardor.
- Se liga, zé mané, continua vivo e em pé que eu preciso de um lugar confiável pra comprar pernil e vinho.
- Capitalista mercenário de uma figa. Agora me diga. Por que diabos a bebedeira de vodka em pleno meio de semana?
- Jesus tocou meu coração, sou uma ovelha convertida agora.
- Beleza, eu vou ali fechar minhas portas porque o mundo acabou de chegar ao fim pra mim. - eu realmente sabia que seria difícil levar aquele papo à sério.
- Estou falando sério, %Gustav% me chamou para ir à missa ouvir seu primeiro sermão e de alguma forma, o que ele disse penetrou minha mente e não me deixa em paz.
- E o que raios o padre gente fina te disse?
- Ele começou falando sobre as tentações da carne. No começo eu levei só como conversa fiada, mas, depois de um tempo, as coisas começaram a fazer sentido. Ele começou a falar sobre como nós podemos estragar a alma das pessoas quando fazemos canalhices com elas, como nós putrefazemos nossos próprios corpos com essa trepação desmedida e descontrolada. Falou sobre como nós devemos parar de desejar o perigoso, aquilo que parece errado. A gente se deixa envolver por aquela essência tão gostosa e excitante que beiramos cometer crimes para poder aproveitar.
- Sim, concordo com cada coisa dita. Minha mulher e eu somos um exemplo de como desejos da carne são ruins. Gostei desse seu %Gustav%, me avise quando ele for pregar de novo.
- Só que tem uma coisa, tudo isso me pegou de verdade por uma frase que ele citou de Martinho Lutero, conheço o sujeito só por nome, nunca havia escutado alguma de suas palavras.
- E que porra de citação miraculosa é essa que fez o mais incrédulos dos homens ceder a Jesus?
- “Não podemos impedir que um pássaro pousasse em nossas cabeças, mas podemos impedi-lo de fazer um ninho.” - É como se Deus fosse uma entidade tão sábia a ponto de não julgar suas criaturas por pensar em coisas pecaminosas, é como se fosse justo o suficiente por não condenar as mentes humanas por ficarem fantasiando obscenidades e coisas perigosas em suas cabeças. Elas até podem pensar, imaginar, fantasiar, só não podem cometê-las. Deus parecia agora um cara gente boa para mim.
Depois de passar horas e horas jogando conversa fora com %Carl% e depois de beber o suficiente para ficar com os reflexos meio lentos, fui caminhando para minha casa. Essa era a parte pela qual eu me arrependia de não ir de carro até a cidade. Demoraria mais do que eu desejava para chegar até meu humilde lar no meio da floresta. Fui então me adentrando no caminho já marcado na grama, sentindo o quanto a cabeça de um homem bêbado pode ficar pesada. Fazia um frio do caralho naquele horário pela floresta, mas, tanta vodka no corpo me fazia sentir um calor descomunal. Simplesmente me despi da minha camisa e camiseta. Fui aos poucos e muito lentamente me deslocando e às vezes, me escorando em alguns troncos de árvore. Estava progredindo muito bem, quando escutei um barulho de galho quebrando logo atrás de mim, eu podia estar bêbado e sem muita noção das coisas, só que aquele barulho era real demais para ser apenas alucinação alcoólica.
Eu não estava com forças na perna, mas como estava desarmado, sem carro e com os reflexos pior que merda, sai correndo e tirei força do fundo da terra pra fazer aquilo. Como conhecia aquele caminho como ninguém não foi assim tão difícil me guiar por ali. Conforme corria era possível sentir que havia uma presença me perseguindo. E por mais bêbado que estivesse eu sabia que aquilo era real. Não fiquei parado esperando pra ver o que iria acontecer, simplesmente continuei correndo e não muitos minutos depois eu vi minha luz da área acesa.
Foi um alívio tremendo saber que tinha chegado em casa. Mais que rapidamente entrei pela minha porta dos fundos. Peguei meu machado e fiquei a postos caso alguma coisa viesse atrás de mim. Fiquei observando pela janela por um tempo e como nada tinha dado o ar da graça, me relaxei, coloquei o machado de lado e desfivelei o cinto. Sentei no sofá e abri uma porra de uma garrafa de vinho de qualquer jeito e virei aquilo garganta abaixo. Com certeza aquela era a noite mais confusa da minha vida em muitos anos, tudo doía e aquela missa tinha acabado com a minha consciência.
Sentei em meu sofá, comecei a refletir sobre tudo isso. O vinho escorria pela minha boca deixando tudo uma meleca sem fim. Não fazia importância nenhuma mesmo, não era paranoico com limpeza. As coisas caminhavam bem até que, eu escutei batidas na porta. Por um momento eu ignorei achando que estivesse escutando demais, porém, os barulhos continuaram incessantes na minha porta. Perturbador, eu diria. Levantei do jeito que estava com a garrafa em mãos e fui para a porta, não importava quem fosse, eu iria meter a garrafa na cabeça sem dó.
Entretanto, quando abri a porcaria da porta, eu tive uma surpresa nunca antes imaginada. Só me dei conta quando estava com a garrafa prestes a bater na cabeça da pessoa sem dó nem piedade.
- %Fitzroy%, calma, abaixa isso! Sou eu! - reclamou %Louise% colocando as mãos sobre cabeça tentando se defender.
- Que diabos vocês está fazendo aqui, menina?! Uma hora dessas! Tá maluca? Drogada? Bêbada? - De duas uma, ou era artimanha de Deus ou do diabo.
- Eu… bem... é... eu. Olha, eu te vi na missa e fiquei com vontade de falar com você, mas você me ignorou e daí eu te segui. - ela me falou aquilo com a maior naturalidade do mundo, como se tudo aquilo fosse simples.
- Então é isso, você se enfia numa porra de uma floresta fechada em plena madrugada e segue um homem que não conhece direito até a casa dele? E se por um acaso seus pais percebem que você não está em casa? E se eu te acerto com essa garrafa na cabeça? E se eu simplesmente pego minha Winchester e meto bala na sua testa? Que tipo de merda se passou na sua cabeça? Não gosto de ser pego de surpreso, vai embora vai, me deixa em paz. - Era muita sacanagem com a minha cara. Eu decido agir com decência, faço um plano para evitar qualquer tipo de filha da putice e... tapa na minha cara. A menina simplesmente me persegue pela mata e aparece na minha casa como se fosse simplesmente normal e aceitável.
- Mas %Fitzroy%, por favor. Me deixa entrar, eu já andei esse caminho todo, você vai me mandar pra casa? - ela me olhou com uma carinha de coitada e inocente, que cortou meu coração fora.
- Nunca leu a história do João e da Maria? É perigoso demais ir entrando assim na casa de gente que você não conhece.
- Mas, eu te conheço, %Fitzroy%. Deixa eu entrar, tá frio aqui fora. - o que eu poderia fazer? O que Jesus faria? Deixaria a menina entrar e puta que pariu, aquilo iria foder com a minha cabeça.
%Louise% entrou e foi indo em direção ao sofá, pelo caminho foi observando os detalhes da minha casa, que por sinal, eram bem interessantes. Sentou acanhada, apertando a jaqueta preta de veludo em seu corpo.
- Frio? Eu te empresto um xale se você quiser.
- Não precisa, obrigada, eu só estou com resquícios do frio que passei lá fora.
xx
Estava dentro da casa dele, não tinha caído minha ficha ainda de que eu o havia seguido pela floresta mesmo sabendo que era extremamente perigoso. Criei culhões para bater na porta dele e me oferecer para entrar, realmente não estava me reconhecendo. A %Louise% %Martins% em sã consciência não faria isso, mas eu não estava no meu juízo normal. Principalmente depois de ver %Fitzroy% naquela situação ma-ra-vi-lho-sa. Ele estava com uma calça jeans grudada em suas pernas fortes, com o cinto desfivelado exibindo aquelas entradas tão seduzentes e o tronco desnudo com gotas de vinho escorrendo. Eu só pensava em por a boca ali e ficar bêbada daquele lenhador. Para meu azar ele simplesmente me veio com um sermão digno de pai de família e me mandou embora. Não seria fácil explicar para ele a razão de estar ali.
- Agora me responda seriamente, quê diabos você está fazendo aqui uma hora dessas? Onde diabos você enfiou seu juízo, no ouvido? - perguntou ele bebendo o resto do vinho e me encarando sério.
- Eu não sei, eu senti vontade de conversar. - o que mais eu poderia falar para ele? Aquilo não fazia sentido.
- Conversar? Eu vou passar sei lá quantos meses trabalhando na sua casa e você simplesmente faz uma burrice dessas sem tamanho por simples vontade de conversar? Você foi estúpida, %Louise%, estúpida. - as palavras dele realmente me fizeram refletir sobre o ocorrido, eu não deveria estar ali, ele nunca iria querer algo comigo, eu tinha que ir embora.
- Você não iria entender, eu não vou explicar. Vou embora. - me levantei, não sabia onde enfiar tanta vergonha.
- Vai embora coisa nenhuma! - me assustei com o berro, voltei a sentar no sofá. Os meus sentidos se perderam por um minuto. - Você não vai voltar praquela floresta até amanhã cedo. Pronto, estou mandando. Vai ficar aqui. - juro que fiquei assustada. A voz era tão alta e grave que qualquer um na cidade poderia ter ouvido.
- Você está me assustando, homem, você disse que foi estúpido eu vir aqui e agora não quer me deixar ir embora? É isso mesmo?
- Já foi uma estupidez tremenda me seguir. Você não pensou isso aqui. - fez um sinal com os dedos indicando algo pequeno - Não raciocinou o tamanho da merda que poderia ter dado. E ainda há mais, foi uma total estupidez me seguir, certo. Mas, seria mais ainda ir embora sozinha agora de madrugada, então já que tá aqui, aquieta seu facho.
Estava ouriçada e perturbada, meu ato fora totalmente incoerente e tanto eu como o lenhador estávamos completamente fora de nós com aquilo tudo.
- Eu ainda não engoli essa sua historinha barata, mas já que você não quer me contar a verdade, tudo bem. Estou muito cansado, precisando dormir e amanhã eu trabalho. Então eu vou arrumar a cama para você na sala. Preciso ir dormir. - eu não queria dormir, eu queria me aproximar dele. Só não sabia como. Me sentia extasiada demais pra pensar coisas que fizessem sentido.
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A infeliz estava ali, a minha mais atual tentação estava ali. Queria apenas cavar um buraco no chão e me enfiar para não ter que lidar com aquilo. Não sabia o que fazer com ela, o que falar para ela e mal estava entendendo porque tudo aquilo estava acontecendo. Não fazia sentido e era errado, completamente errado.
- %Fitzroy%, eu não estou com sono, mas pode ir dormir, eu fico aqui na sala assistindo televisão... se eu puder.
- Eu não vou te deixar sozinha aqui e simplesmente ir dormir, por favor. Não piore tudo. Meu Deus, eu preciso de vinho. - fui até a cristaleira e peguei mais uma garrafa de vinho, que era a última por sinal, teria que ir ao %Carl% completar meu estoque novamente no dia seguinte. Não tinha como ficar com aquilo vazio, meu vinho era meu sangue, minha vida.
- Olha... – dei uma golada na garrafa –... está tarde, está frio e eu estou muito cansado, vamos dormir, por favor. Estou confuso demais para ficar acordado.
- Você pode me dar um gole de vinho? Me acalma na hora de dormir. – ah, mas que cara de pau. Seu pedido foi tímido e meio sem jeito, não pude evitar um sorrisinho de leve.
- E você por um acaso tem idade para beber? - perguntei cruzando os braços e a encarando.
- Por favor, né, é só um golinho pequenininho de vinho, não vai me embebedar.
- Tudo bem, eu vou pegar uma taça pra você.
- Não, não precisa. Eu bebo do gargalo mesmo. - ela se aproximou de mim e pegou a garrafa da minha mão. Levou em direção à sua boca. Vi todo o movimento em câmera lenta, fiquei fitando aquela cena com total atenção. Pai Amado! O pássaro dos pensamentos sexuais começou a sobrevoar minha mente, me fazendo pensar o quanto aquela boquinha avermelhada e carnuda ficaria irresistível beijando minhas partes baixas. Ela terminou seu gole e devolveu a garrafa pra mim, limpando a sujeira de vinho que havia ficado em seus lábios com o braço. Ela me olhou e sorriu sem jeito. Me controlei para não agarrá-la pelos cabelos e puxá-la para mim com violência.
- Podemos dormir agora, %Louise%? - perguntei tirando meus sapatos.
- Eu tenho mesmo que dormir no quarto de hóspedes? E não quero dormir na sala, é muito grande para eu ficar aqui sozinha.
- Além do quarto de hóspedes e aqui, só há meu quarto. E eu acho que não é muito coerente que durmamos no mesmo cômodo. - eu estava sendo realmente ridículo. Mas, precisava evitar a merda.
- %Fitzroy%, não tem ninguém aqui pra ver onde diabos eu vou dormir, se é junto com você ou não.
- Então façamos assim, você dorme no quarto e eu durmo na sala, tudo bem? - ela me olhou de cara amarrada.
- Qual parte você não entendeu de que eu não quero dormir sozinha? Que saco, heim.
- Você está complicando as coisas garota, para de fazer isso.
- E por quê? Hein? Me responde? - ela estava começando a me tirar toda a razão.
- Olha - me aproximei mais dela – Não quero fazer coisas que vão gerar problemas e merdas depois, não sou o príncipe de ninguém e nem quero estragar vidas.
- Eu só queria, sei lá ... eu não sei o que eu quero, eu estou definitivamente confusa.
- Nem você sabe o que quer garota. Eu tenho idade pra ser seu pai, tenho 40 anos. Não faz o mínimo sentido.
- Para de ser assim. Me deixa fica perto de você. - Deus realmente queria me testar.
- Olha aqui, para com isso. Tira essas ideias inconvenientes da cabeça, eu não sou um garotinho apaixonado querendo me perder em aventuras. Sou um homem, uma porra de um homem. Um coroa e lenhador que gosta de se embebedar, não sou um mocinho bom exemplo, entendeu?
- É por isso que eu sinto tanta vontade de ficar perto de você. É essa sua coisa, esse seu jeito másculo que me tira do eixo. – ela foi caminhando até mim e espalmou as mãos geladas em meu peitoral. Ficou nas pontas dos pés para seus lábios ficarem perto dos meus – Por favor, me deixa ficar perto de você. - terminou a frase mordendo os próprios lábios, mostrando uma expressão tímida de desejo.
- Escuta, garota, chega. Você não entende as coisas, nem sabe o que está falando. Vamos dormir. - olhei para ela seriamente e pude ver em seus olhos certa agonia por eu não corresponder seu interesse. Se eu queria? Lógico que sim, apenas não podia. Não ali naquele momento.
Ela saiu dali e sentou-se no sofá. Eu a chamei para o quarto e ela foi me seguindo em silêncio. Ao adentrar o cômodo pedi para que ela deitasse em minha cama. Eu dormiria no chão mesmo, não fazia diferença àquela altura. %Louise% apenas deitou-se, se cobriu e disse um boa noite sem graça. Não pude fazer mais nada além de respondê-la. Aquilo seria mais difícil do que eu pensava.