Capítulo Cinco
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O bar não estava lotado, mas tinha movimento o suficiente para criar um burburinho agradável. Luzes âmbar pendiam do teto, lançando sombras suaves sobre as mesas. Ao fundo, uma
playlist de jazz moderno preenchia o ambiente com um clima sofisticado, sem ser pretensioso.
Yuta guiou Zuri até uma mesa mais reservada, nos fundos, perto da janela embaçada pela umidade da noite. Johnny, a uma distância segura, ergueu o copo em cumprimento e se afastou com um sorrisinho malicioso.
— Ele sempre faz isso? — Zuri perguntou, sentando-se com postura ereta, os olhos percorrendo o ambiente antes de voltarem para Yuta.
—
O Johnny? Ele adora assistir de longe quando acha que algo interessante vai acontecer.
— E ele acha que algo vai acontecer?
— E você? — Yuta devolveu, arqueando uma sobrancelha. — Acha que algo vai acontecer?
Zuri apenas sorriu de canto, recostando-se com elegância na cadeira enquanto passava a mão pelos cabelos com um movimento leve demais para ser distraído.
Yuta pediu dois drinques e, por alguns segundos, observou-a em silêncio. Ela estava linda — mais do que ele lembrava, mais do que queria admitir. Mas o que mais chamava atenção nele era o jeito como Zuri mantinha a guarda erguida até enquanto sorria.
— Então... — ele começou, apoiando os cotovelos na mesa — encontro de quinta categoria?
Zuri rolou os olhos e soltou um suspiro.
— O sujeito falou de si mesmo por quarenta minutos sem respirar. Eu contei. Depois reclamou do valor do cardápio, disse que flores são desperdício de dinheiro e ainda tentou me convencer a assistir vídeos motivacionais com ele no fim da noite.
— Uau — Yuta respondeu, fazendo uma careta. — Ele realmente quis ser tudo o que uma mulher detesta.
— Ele conseguiu. Com louvor.
O garçom chegou com os drinques. Yuta ergueu o copo, e ela fez o mesmo.
— Ao anti encontro ruim perfeito — ele brindou.
— À trégua de uma hora — ela completou, antes de beber.
O primeiro gole foi o suficiente para aliviar um pouco da tensão que ainda restava nos ombros dela. E Yuta percebeu. Com habilidade silenciosa, foi diminuindo a distância entre os dois — não fisicamente, mas na conversa. Eles falaram sobre Tóquio, sobre música, sobre Zuri preferir livros a séries, e Yuta confessar que adora observar as pessoas nos bares como se estivesse lendo histórias que ninguém escreveu.
— E o que você acha que tá lendo agora? — Zuri perguntou, encarando-o com aquele olhar direto que fazia muita gente desviar. Mas não Yuta.
— Uma mulher que prefere manter o controle, mesmo quando tudo dentro dela quer se soltar um pouco.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Você acha que sabe muito de mim pra quem só me viu trabalhando numa floricultura duas vezes.
— Eu observei. Não sou cego. — Ele apoiou o queixo na mão, sem desviar os olhos dela. — E eu gosto de como você finge que não quer ser observada, mas no fundo sabe que tá chamando atenção. Porque você chama. E não é só pela beleza, Zuri.
Por um momento, o silêncio entre eles ficou denso. Carregado. A música ao fundo pareceu desaparecer por alguns segundos, como se o universo desse espaço para aquela tensão respirar.
Zuri não disse nada. Apenas desviou os olhos brevemente, como se aquilo a tivesse atingido mais do que gostaria. Depois, voltou a encará-lo, os lábios levemente entreabertos.
— Isso tudo é seu jeito de me conquistar?
— Não. — A resposta veio rápida. — É meu jeito de ser honesto. Mas se te conquistar for consequência... — ele deu um meio sorriso — eu não vou reclamar.
Ela soltou uma risada abafada, e pela primeira vez naquela noite, parecia realmente leve. Diferente da mulher que saiu batendo a porta do bar.
— Você tá indo bem, Yuta — disse, olhando para o copo. — Melhor do que eu esperava.
— Isso quer dizer que ganhei mais tempo?
Zuri levantou o olhar lentamente, e um sorrisinho perigoso apareceu no canto da boca.
— Isso quer dizer que... talvez a noite ainda não precise acabar.
Yuta se inclinou ligeiramente sobre a mesa, diminuindo a distância entre os dois.
— Então me diz onde termina.
Ela não respondeu. Mas os olhos dela baixaram rapidamente para a boca dele, antes de voltar aos olhos — e foi o suficiente para ele saber que estava no caminho certo.
A trégua de uma hora havia acabado. E o jogo, agora, era outro.
🌸🌸🌸
O tempo passou mais rápido do que Zuri imaginava. Quando deu por si, o bar já esvaziava e os garçons começavam a empilhar cadeiras discretamente. A conversa com Yuta tinha fluído fácil demais. E pior:
ele estava conseguindo arrancar risadas dela. Risinhos que vinham com facilidade e que, no fundo, ela tentava disfarçar com copos e silêncios.
Mas ele percebia. E gostava de ver isso acontecer.
— Parece que os garçons estão nos expulsando educadamente — ele disse, levantando da cadeira.
— Não estou acostumada a perder a noção do tempo com alguém — ela confessou, ajeitando a bolsa no ombro.
— Isso foi um elogio? — ele perguntou, abrindo a porta para ela sair.
— Foi o mais perto que você vai conseguir hoje.
— Eu aceito. Com gratidão.
Lá fora, o ar da noite estava morno, com o vento leve bagunçando os fios soltos do cabelo dela. Yuta andava ao lado, com as mãos nos bolsos e um olhar que, mesmo silencioso, era carregado de atenção.
— Me deixa te acompanhar até sua casa? — ele perguntou.
Zuri o encarou, decidindo em silêncio.
— Pode ser. Mas sem segundas intenções.
Yuta arqueou uma sobrancelha, fingindo inocência.
— Eu nem tinha pensado nisso… mas agora que você falou...
Ela estreitou os olhos, desconfiada.
— Tô brincando — ele disse, com um sorriso enviesado. — Palavra de escoteiro. Só quero prolongar uma noite boa com uma companhia melhor ainda.
Zuri tentou manter a pose séria, mas o canto dos lábios cedeu antes que pudesse conter o riso.
Durante o caminho, os dois andaram próximos o suficiente para que os ombros se tocassem às vezes. Ele não forçava nada. Nem mesmo o silêncio. Mas quando falava, era certeiro — como se conseguisse acessar partes dela que ela mesma protegia com muralhas invisíveis.
Chegaram ao prédio dela, e pararam diante da porta de entrada.
— Subir ou encerrar aqui? — ele perguntou, com a voz mais baixa, como se o espaço entre eles tivesse encolhido sem que percebessem.
Zuri hesitou. O olhar dele estava nos lábios dela agora. E o dela... já tinha feito o caminho de ida e volta algumas vezes naquela noite.
— Pode subir. — A voz dela saiu firme. — Pra mais uma bebida. Só isso.
— Eu sei respeitar limites — ele disse, já a acompanhando pela entrada.
— E sabe quebrá-los também, eu imagino.
— Só quando pedem pra eu quebrar.
O elevador parecia mais silencioso do que deveria. Os dois entraram e ficaram lado a lado, próximos demais para quem não se conhecia direito — longe demais para quem queria mais.
A tensão era física agora. Densa. A eletricidade entre eles preenchia o espaço sem esforço.
Quando chegaram ao andar dela, Zuri abriu a porta com naturalidade. O apartamento era limpo, com toques de personalidade aqui e ali: quadros, livros, aromas sutis. Nada fora do lugar. Nada improvisado.
— Pode ficar à vontade. — Ela tirou os sapatos com leveza. — Vou pegar algo pra beber.
Yuta ficou no centro da sala, observando os detalhes, até os olhos encontrarem uma foto dela com %Taeri% quando mais novas, rindo em frente a um jardim.
Ela voltou com dois copos e lhe entregou um.
— Whiskey? — ele perguntou, surpreso.
— Nem comecei — ela respondeu.
Yuta deu um gole e se aproximou um pouco mais. Agora, estavam a menos de um palmo de distância. O silêncio voltou, denso, íntimo. O tipo de silêncio que precede beijos ou decisões erradas. Ou as duas coisas.
Ele baixou os olhos para os lábios dela. E ela não desviou.
— Se você me beijar agora… — ela disse, a voz mais baixa do que nunca —
...pode não ser só um beijo. Yuta sorriu, e o sorriso era torto, perigoso.
— E se eu não te beijar agora, vou passar a noite toda arrependido.
Eles ficaram assim por alguns segundos. Tão perto. Tão prontos.
Mas, com um suspiro leve, Zuri recuou um passo.
Ele assentiu, respeitoso — mas com os olhos queimando.
E então ela sorriu de canto, meio provocadora, meio satisfeita.
Porque ambos sabiam: o quase beijo foi mais perigoso do que o beijo teria sido.
E a próxima vez… talvez não houvesse volta.
🌸🌸🌸
— Eu te dei folga hoje, se esqueceu? — %Taeri% colocou as mãos na cintura ao ver a irmã passar pela porta de vidro do escritório da floricultura.
Zuri piscou os olhos algumas vezes e mordeu o lábio inferior, juntando as mãos umas nas outras na frente do corpo. Ela se lembrava muito bem da
“folga” que a irmã havia dado a ela. Na verdade Zuri ajudava a irmã sempre que podia quando tinha folga de verdade do outro emprego, seu emprego fixo como auxiliar administrativa em um hospital. E bom naquela manhã ela estava de folga do hospital e de ajudar a irmã, já que havia comentado com ela que teria um encontro na noite anterior.
Só que agora, ela queria contar para a irmã que o encontro na verdade havia terminado de outro jeito, totalmente inesperado. E claro, ela queria alguns conselhos da irmã… mesmo que ela fosse a mais velha. Fazia sentido? Naquele momento fazia sim na cabeça de Zuri.
— Eu precisava de distrações querida irmã, e além do mais… — Zuri pausou, mordendo o lábio outra vez. — Preciso te contar umas coisas.
%Taeri% sorriu, de orelha a orelha, e então apontou com a mão para a cadeira vazia à sua frente na mesa do escritório.
— Como foi o encontro? É disso que quer falar, não é? — %Taeri% piscou para a irmã com um olho só.
Zuri encarou as próprias mãos outra vez, dessa vez entrelaçadas sobre a mesa do escritório da irmã.
— É exatamente sobre isso sim, só que aconteceu uma coisa totalmente inesperada.
— Não me diga que o rapaz te deu o bolo? — %Taeri% ergueu uma das mãos e delicadamente colocou sobre as da irmã.
Os olhos de %Taeri% se arregalaram levemente e ela inclinou a cabeça, tentando ler as emoções da irmã em seu semblante. O que só fez com que Zuri soltasse uma gargalhada de nervoso.
— É estranho falar dessas coisas com você… eu sou a mais velha!
Ela desviou o olhar, encarando a prateleira cheia de cadernos de pedidos e pastas etiquetadas atrás da irmã, como se buscasse ali alguma firmeza para a própria confusão. Por um instante, o silêncio pareceu pesar no ar — não por falta de intimidade, mas por falta de hábito.
Zuri sempre fora a responsável. A que sabia resolver tudo sozinha. A que evitava dramas, guardava opiniões, cuidava dos outros sem dar espaço para ser cuidada. Era a irmã mais velha. Aquela que não chorava, não tropeçava, não precisava de conselhos.
Ou, pelo menos, era isso que ela tentava fazer parecer.
— É como se… — ela começou, mexendo nos dedos entrelaçados sobre a mesa — eu tivesse que ser sempre a forte, sabe? A que já viveu mais, que sabe mais. E agora eu tô aqui... meio perdida por causa de um cara, querendo conselho de você... que cresceu me pedindo ajuda com tudo.
%Taeri% manteve o sorriso, mas suavizou o olhar. Ela entendia. Talvez melhor do que Zuri imaginava.
— Crescer não te impede de se sentir pequena às vezes — ela disse, com delicadeza. — E só porque você é a mais velha não significa que tem que saber de tudo. Às vezes, quem cuidou tanto também precisa ser cuidada, Zuri
Zuri respirou fundo, ainda tentando encontrar conforto naquela inversão de papeis. Era como estar em território novo — exposta, sem roteiro. Mas o olhar da irmã era acolhedor. E, de certa forma, aquilo a libertava um pouco.
— Eu só não tô acostumada... — ela murmurou. — A mostrar quando eu não tô no controle.
%Taeri% apertou com carinho as mãos dela.
— Talvez seja exatamente por isso que vale a pena falar. Me conta... o que foi que aconteceu?
Zuri assentiu, respirando fundo. Ainda era estranho. Mas também era bom.
Talvez, pela primeira vez em muito tempo, ela pudesse baixar a guarda.
E talvez, só talvez... isso não fosse tão assustador quanto parecia.
— O encontro foi péssimo! — Ela disse por fim. — O cara era um grande babaca que passou quarenta minutos falando só sobre si mesmo, reclamou do valor do cardápio, disse que flores são desperdício de dinheiro, e queria virar eu coach financeiro, acredita?
%Taeri% abriu a boca num completo ‘o’ e apertou as mãos da irmã embaixo da sua.
— Eu não acredito que ele teve a pachorra de dizer que flores são desperdício de dinheiro! Que idiota, Zuri!
Zuri balançou a cabeça deixando um sorrisinho de canto escapar, ela sabia que essa seria exatamente a parte que a irmã mais ficaria revoltada, assim como ela havia ficado.
— Sim! Aonde já se viu? Falar que flores ou qualquer coisa relacionada a natureza é um desperdício. Desperdício foi o tempo que eu gastei com ele, isso sim! Babaca!
Zuri revirou os olhos com força e depois respirou fundo.
— Você se levantou e foi embora, não é? Não me decepcione Zuri, você sempre foi minha heroína! Você não
dormiu com ele, né?
E ela sabia exatamente o que a irmã queria dizer com “dormiu”. Balançou a cabeça algumas vezes, com veemência, incrédula pela audácia da irmã, imaginar que ela
sequer beijaria um homem desses. — Eu nem conseguia olhar para ele direito sem meu estômago embrulhar, %Taeri%… quem dirá transar com um homem desses! Eu disse que estava me sentindo mal e que precisava ir embora, que remarcaremos o encontro. Lógico que não vou remarcar.
%Taeri% soltou o ar num suspiro dramático, levando uma das mãos ao peito como se Zuri tivesse acabado de salvá-la de um colapso nervoso.
— Graças a todos os céus, deuses e orquídeas sagradas, Zuri! Porque se você tivesse dado um beijo nesse traste, eu ia te obrigar a fazer um banho de descarrego com chá de lavanda, sal grosso e pétalas de alecrim!
Zuri caiu na risada, a cabeça jogada um pouco para trás, já se sentindo melhor só pela forma exagerada — e reconfortante — com que %Taeri% reagia.
— Você tá pior do que a nossa mãe com essas coisas! — ela disse, ainda rindo.
— Ué, alguém tem que manter o padrão espiritual da família — %Taeri% rebateu, com um olhar sério de mentirinha. — E você me prometeu que ia começar a filtrar melhor esses encontros. Já basta aquele cara
da aula de spinning… —
Meu Deus, nem me lembra! — Zuri fez uma careta. — Ele falava em terceira pessoa.
“O corpo do Haruto precisa de proteína.” %Taeri% bateu levemente a mão na testa, entre indignada e divertida.
— E agora esse
coach financeiro misógino anticerejeira? Você realmente atrai uma fauna interessante.
— O universo me odeia. Só pode.
— Não, o universo só tava esperando você sair do bar… — %Taeri% disse, de repente, estreitando os olhos. — Porque agora você vai me contar quem
você encontrou saindo de lá, com esse sorrisinho maroto no canto da boca desde que sentou aqui.
Zuri congelou por um segundo. O sorriso foi inevitável, e %Taeri% já estava vibrando.
—
Sabia! Você encontrou alguém! Quem era? Me conta! Era alguém bonito? Conhecido? Já beijaram?
— Calma! — Zuri ergueu as mãos, mas ria de novo. — Tá parecendo a Willow agora.
— Isso é um elogio! Anda, fala! — %Taeri% se ajeitou na cadeira, como quem se preparava para ouvir a melhor parte do dia.
Zuri soltou um suspiro, o sorriso ainda ali, tentando organizar na cabeça como colocaria em palavras algo que ainda estava se desenrolando — e, honestamente, a deixando mais confusa do que gostaria.
Mas uma coisa era certa: a noite dela não tinha terminado com frustração. Tinha ganhado uma reviravolta chamada
Yuta.
Zuri passou os dedos pelos cabelos, como se tentasse desembaraçar o pensamento junto com as mechas.
— Tá… eu tava saindo do bar, furiosa, pronta pra xingar até o chão. Aí… eu esbarrei com alguém.
—
Com quem? — %Taeri% apertou os olhos como se já estivesse adivinhando, se inclinando sobre a mesa.
—
Aaaaaah, eu sabia! — %Taeri% bateu as mãos na mesa, o rosto iluminado. — Eu sabia que tinha alguma coisa ali desde aquele jantar improvisado na loja. Ele te olha como quem quer desvendar todos os teus segredos e bagunçar tua vida inteira!
Zuri riu, envergonhada e um pouco irritada por estar tão transparente.
— Ele só me convidou pra tomar uma bebida, pra "melhorar a noite", segundo ele. Disse que eu precisava criar uma nova memória por cima da que eu queria apagar.
— Romântico e estratégico. Gênio.
— Tá bom, tá bom! Tô ouvindo, juro. Continue.
Zuri ajeitou-se na cadeira, agora brincando com a manga do casaco.
— Eu aceitei. Foi só uma hora. Conversamos, rimos, e… ele me fez esquecer totalmente aquele idiota do encontro. Ele é... leve. E direto. Sabe quando a pessoa fala com você como se já te conhecesse há anos?
%Taeri% sorriu, mais suave agora.
— Sei. Conheço esse tom na sua voz.
Zuri revirou os olhos, mas não negou.
— No fim da noite, ele me acompanhou até em casa. Aí... ficamos um tempão naquela coisa de silêncio cheio de coisa não dita. Aquele tipo de tensão que dá vontade de… enfim.
—
Vocês se beijaram? — %Taeri% perguntou, quase sussurrando, com os olhos brilhando de expectativa.
— Não. — Zuri respondeu, baixando os olhos. — Mas quase. Bem quase. Tipo… ele tava ali, sabe? Com a boca a milímetros. E eu também queria. Mas...
— Mas você não se sentiu pronta?
— Achei melhor guardar o momento. Talvez… talvez porque eu queria que o próximo não fosse só um impulso.
%Taeri% pegou a mão da irmã outra vez, dessa vez com ternura e orgulho no olhar.
— Você fez bem. Às vezes, segurar o impulso é mais íntimo do que se jogar de cara. E se ele entendeu isso... então o Yuta merece o crédito.
— Ele entendeu. Foi respeitoso. Mesmo com aquele sorrisinho de quem sabe que me tirou do eixo.
%Taeri% deu uma risada alta.
— Ele definitivamente
sabe, Zuri. E mais: ele não vai esquecer esse quase beijo. E nem você.
Zuri ficou em silêncio por um instante, mas o sorriso no rosto dela era pequeno e verdadeiro. E nos olhos, um brilho diferente. Um pouco assustado. Um pouco animado.
— Vamos ver o que acontece, né?
— Vamos ver — %Taeri% disse, empolgada. — Mas ó… se ele não te convidar pra sair de novo logo, eu mesma vou arrumar um delivery de flores e mandar com bilhete:
"Ela já tá afim, idiota. Anda." Zuri gargalhou. Alto, livre, como há muito tempo não fazia.
E ali, entre confissões e conselhos, ela soube que sim — alguma coisa dentro dela tinha começado a florescer também.
🌸🌸🌸
Zuri tomou o lugar da irmã no escritório, enquanto ela se preparava para abrir a loja. Quando fez, viu Willow e Nahye do lado de fora esperando a loja ser aberta, como todos os dias.
As três se cumprimentaram e logo Nahye e Willow seguiram para os fundos, para a parte reservada aos funcionários para guardarem seus pertences nos armários, enquanto %Taeri% terminava de abrir a floricultura e ajustar todas as coisas para começarem a receber os clientes.
Assim que as duas voltaram, rindo de algo que provavelmente Willow havia dito, elas pegaram seus aventais, vestindo-os logo em seguida e %Taeri% fez a mesma coisa.
— Vocês não vão acreditar no que aconteceu com a Zuri… — %Taeri% sussurrou para as outras duas, não querendo que a irmã ouvisse.
Willow e Nahye trocaram olhares, curiosas e então fizeram uma espécie de rodinha ao redor da chefe.
— O encontro de ontem foi um sucesso e ela está de ótimo humor?
Willow estreitou os olhos como se torcesse para ter acertado em cheio na especulação. %Taeri% balançou a cabeça meio que afirmando.
— Digamos que sim! Mas foi o Yuta quem fez o humor dela melhorar.
— O que? — Nahye levou as mãos à boca, tapando-a ao se dar conta que havia falado alto demais. — Um dos amigos bonitinhos do seu namorado?
%Taeri% arregalou os olhos sentindo as bochechas esquentarem com a pergunta despretensiosa de Nahye. Na verdade, com a espécie de “afirmação” na voz de que Doyoung era namorado dela…
— Ele não é meu namorado Nahye! — Ela riu baixo — E sim, esse Yuta mesmo.
— Ainda, né? Porque beijo já teve e você tá caidinha por ele que nós sabemos, chefa! — Willow piscou, divertida.
%Taeri% sentiu as bochechas esquentarem ainda mais.
Estava tão óbvio assim o quão encantada ela estava por Doyoung? Será que para ele era tão óbvio assim também? %Taeri% respirou fundo.
— Mas o que o Yuta tem haver com tudo isso? Não entendi nada! — Nahye voltou a conversa para o foco inicial.
— Foi assim… — %Taeri% foi interrompida por vozes já conhecidas demais.
Doyoung foi o primeiro a entrar, com aquele sorriso calmo e o olhar que sempre procurava %Taeri% primeiro, mesmo que o ambiente estivesse cheio. Em seguida vieram Jaehyun, Johnny e, por último, Yuta — que entrou com as mãos nos bolsos e o cabelo um pouco bagunçado, como se tivesse acordado e saído correndo… e ainda assim parecendo perigosamente charmoso.
— Bom dia! — Doyoung disse, animado, se aproximando do balcão. — Viemos buscar mais flores para o novo evento de sábado. E talvez roubar um pouco da boa energia dessa loja também.
%Taeri% sorriu, sentindo o estômago se contrair do jeito familiar que só acontecia quando ele aparecia assim, de surpresa.
— Que bom que vocês vieram! As cerejeiras novas chegaram ontem, e eu separei algumas mudas especiais.
— Sabia que a gente podia contar com você — disse Jaehyun, guiando Johnny até um dos expositores. — E eu tô querendo algumas flores extras pra minha casa também. Preciso de cor no meio de tanta madeira e concreto.
— E amor, né? Porque flor sem romance é só… decoração. — Johnny comentou, fazendo todos rirem, especialmente Willow, que mordeu o lábio tentando conter o riso.
Mas foi Yuta quem chamou mais atenção naquele momento. Ele não olhava para as prateleiras nem para as flores — seus olhos estavam fixos na porta do fundo do escritório.
— A Zuri tá aí? — ele perguntou com naturalidade, como quem pergunta onde fica o açúcar, mas com um leve brilho nos olhos.
%Taeri% cruzou os braços, com um sorrisinho de canto.
— Tá sim. Mas já aviso que ela não esperava visitas. E está no modo "não me encha".
— Ótimo — Yuta respondeu. — Eu sou excelente em encher.
Willow e Nahye tentaram disfarçar as risadas atrás de um buquê de hortênsias, enquanto %Taeri% revirava os olhos.
— Vai com calma, pelo amor das peônias, Yuta.
Doyoung se aproximou de %Taeri%, sorrindo discreto, como sempre fazia quando queria compartilhar o mundo só com ela.
— Você tá linda hoje — ele disse em voz baixa, quase só para ela.
%Taeri% piscou algumas vezes, sentindo as bochechas queimarem. Ela ia responder, mas foi interrompida de novo — dessa vez por passos.
Zuri apareceu na porta do escritório, com o cabelo preso em um coque apressado e uma prancheta nas mãos. Parou no meio do caminho ao ver quem estava ali.
Mais especificamente, ao ver
Yuta ali.
Ele sorriu de leve e levantou a mão numa espécie de cumprimento informal.
— Bom dia, Zuri. Já te atrapalhei hoje?
Ela arqueou uma sobrancelha, sem sorrir.
— Ainda não. Mas o dia tá só começando.
E voltou para dentro do escritório, como se nada tivesse acontecido.
Yuta olhou para as meninas, deu de ombros e seguiu atrás dela como quem está entrando num campo minado… por vontade própria.
— Eu vou ajudar com a lista de flores… e sobreviver ao julgamento.
Johnny assobiou baixinho, e Jaehyun murmurou para ninguém em particular:
%Taeri% só sorriu, observando o movimento com um calor novo no peito. Entre flores, provocações e esses encontros inesperados, ela sabia de uma coisa com certeza: a floricultura nunca mais seria um lugar calmo.
🌸🌸🌸
Zuri estava sentada à mesa com a prancheta nas mãos, anotando mentalmente as demandas da semana quando sentiu a presença dele antes mesmo de levantar os olhos.
— Você não desiste mesmo, né? — ela disse, sem olhá-lo diretamente.
— Não quando tô indo na direção certa — Yuta respondeu, encostando-se à lateral da porta, com os braços cruzados.
Ela levantou os olhos devagar, o olhar afiado como sempre.
— E o que te faz pensar que essa é a direção certa?
— O fato de você não ter me mandado embora ainda — ele deu um sorrisinho torto. — E também porque mesmo irritada, você tá me ouvindo.
Zuri o encarou por alguns segundos, como se decidisse se valia a pena jogar a prancheta nele ou simplesmente continuar escrevendo.
— Eu prefiro dizer... observador.
Ela respirou fundo e voltou a escrever, mas o canto da boca denunciava um traço de diversão.
— Você não veio ajudar com as flores?
— Vim. Mas flores são rápidas. Você é mais interessante.
Silêncio. Ela parou de escrever por um momento.
— E se eu disser que o que aconteceu aquela noite foi só uma coincidência?
Yuta se aproximou um pouco, agora de pé do outro lado da mesa, inclinado levemente.
— Então vou continuar aparecendo até virar rotina.
Zuri estreitou os olhos, mas o coração batia mais rápido. Ele a tirava do sério — e ao mesmo tempo, despertava algo que ela não queria nomear ainda.
— Uma hora você vai cansar.
— Ou uma hora você vai ceder.
Eles se encararam por mais alguns segundos. Ele sorrindo, ela tentando não sorrir.
— Pode pegar a lista de flores no mural. E depois volta pro salão, antes que eu jogue uma tesoura em você.
— Tá vendo? Já é quase carinho.
Yuta se afastou lentamente, ainda sorrindo. E mesmo que ela voltasse os olhos para a prancheta, o sorriso dele ficou na cabeça dela por muito mais tempo do que ela admitiria.
🌸🌸🌸
Enquanto Yuta voltava para o salão rindo sozinho e sendo recebido com zombarias silenciosas de Johnny, Doyoung se aproximou de %Taeri%, que ajeitava um arranjo no balcão.
— Ei — ele disse, com a voz baixa, como sempre fazia quando queria que fosse só entre eles. — Vai estar muito ocupada na hora do almoço?
%Taeri% o olhou, surpresa pela abordagem direta. O coração acelerou imediatamente.
Ele coçou a nuca, o sorriso tímido no canto da boca.
— Tava pensando... e se a gente fosse tomar um café? Só nós dois. Nada de parque, nada de amigos juntos. Só você e eu.
Ela piscou, sentindo as bochechas esquentarem — outra vez.
— Você tá me chamando pra um segundo encontro?
— Tô te chamando pra um café — ele disse, mas os olhos diziam muito mais. — Mas se quiser chamar de segundo encontro, não vou reclamar.
%Taeri% riu, mordendo o lábio, e assentiu.
— Me dá só meia hora pra deixar tudo organizado aqui… e eu sou toda sua.
Doyoung sorriu. Aquele sorriso leve, bonito, que ela estava começando a reconhecer como o sorriso que ele só usava com ela.
E então ele se afastou, voltando para junto dos amigos, enquanto %Taeri% sentia o mundo à sua volta girar um pouquinho mais devagar — só pra ela aproveitar aquele momento por mais tempo.
🌸🌸🌸
Enquanto todos estavam ocupados organizando as novas caixas de mudas para o evento, Nahye carregava um carrinho com vasos pequenos, com o avental já um pouco sujo de terra. Jaehyun notou, se aproximando devagar com um sorriso preguiçoso no rosto.
— Você sempre trabalha desse jeito… focada, concentrada… suja de terra — ele comentou, encostando no carrinho como se não estivesse ali só para observá-la.
Nahye ergueu os olhos, arqueando a sobrancelha.
— Isso é sua tentativa de elogio?
— É a minha tentativa de dizer que você fica bonita até coberta de terra. Só não achei a frase certa ainda.
Ela riu, mas virou o rosto, tentando disfarçar o leve rubor nas bochechas.
— Você devia ajudar ao invés de só comentar.
— Você devia me deixar te ajudar. Assim, quem sabe, a gente vira uma boa dupla.
— Isso parece uma cantada.
— Só se funcionar. Se não, é só boa vontade mesmo.
Nahye balançou a cabeça com um sorriso contido e empurrou o carrinho até o próximo setor. Mas, antes de ir, virou-se por cima do ombro:
— Tá esperando o quê, então? Anda, Jaehyun. Se quer provar que é boa dupla, começa carregando essas caixas.
Jaehyun sorriu, seguindo atrás dela com passos leves.
Ele já tinha aceitado o desafio — mesmo que ela ainda fingisse que não.
🌸🌸🌸
No outro lado da loja, Johnny estava agachado organizando algumas flores próximas à entrada. Willow surgiu por trás dele, segurando uma regadorazinha decorativa nas mãos.
— Você tá colocando essas suculentas no lugar errado — ela disse, olhando para o arranjo.
— Eu pensei em fazer algo diferente, tipo um caos artístico — ele respondeu, sem sequer virar. — Uma provocação botânica.
Willow bufou uma risadinha e agachou-se ao lado dele.
— Provocação botânica? Isso existe?
— Agora existe. E você é minha crítica mais exigente.
— É que eu gosto das coisas no lugar certo — ela disse, enquanto reorganizava alguns vasinhos.
Johnny a observava de lado. O rosto dela estava tão perto do dele que ele podia ver o brilho sutil na pele dela à luz suave do ambiente, os contornos bem definidos das maçãs do rosto, e a forma como os longos fios ondulados caíam com naturalidade sobre o ombro nu. O cabelo dela, dourado como mel queimado, parecia dançar a cada movimento leve que ela fazia.
Havia algo magnético nela — uma beleza firme, segura de si, que não pedia atenção, mas a atraía como se fosse inevitável.
Johnny engoliu seco, mas manteve o tom leve:
— Acho que acabei de perder a concentração totalmente.
Willow ergueu os olhos para ele, arqueando a sobrancelha com um sorriso provocador.
— Não me culpe pela sua distração, Johnny.
— Mas você é a única responsável — ele respondeu, num sussurro atrevido.
Ela apenas sorriu, voltando a organizar os vasos. Mas por dentro… estava longe de indiferente.
— E se eu quisesse encontrar meu lugar certo do seu lado? — ele soltou, num tom mais baixo, mais íntimo.
Willow congelou por um segundo, mas disfarçou revirando os olhos com um sorriso quase tímido.
— Johnny… você flerta até com as plantas. Isso não funciona comigo.
— Mas com você eu falo sério. — Ele disse, agora a encarando direto.
Willow parou, olhando-o por um segundo mais longo do que o necessário. Depois, se levantou com um pequeno sorriso provocador.
— Se continuar colocando as suculentas nos lugares errados, vou te deixar organizando tudo sozinho até o fim do dia.
— Então já posso bagunçar tudo de novo só pra te ter por perto?
Ela riu, se afastando, e Johnny apenas a seguiu com os olhos. Sabia que estava chegando devagar… mas estava chegando.
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Alguns minutos depois, com a loja em movimento e os amigos distraídos olhando as flores e rindo entre si, %Taeri% surgiu na porta dos fundos já sem o avental, segurando sua bolsa.
Doyoung, que estava encostado no balcão fingindo olhar um catálogo de sementes, ergueu os olhos e sorriu ao vê-la. Um sorriso pequeno.
— Pronta? — ele perguntou, com a voz baixa, quase gentil demais.
— Mais do que deveria — %Taeri% respondeu, caminhando até ele.
Eles saíram juntos, andando lado a lado pelas ruas tranquilas. O sol da manhã deixava a cidade com um brilho macio, e havia algo no silêncio entre eles que não era desconfortável — era cheio de expectativa boa.
O café que ele escolheu era simples, com janelas grandes e uma pequena varanda cheia de vasos pendurados. Quando sentaram-se um de frente para o outro, %Taeri% o observou por alguns segundos, até não conseguir mais segurar.
— Por que você me convidou hoje?
Doyoung a olhou com curiosidade, e depois pousou a xícara com calma no pires antes de responder.
— Porque eu queria te ver longe da floricultura. Longe dos outros. Só você. E eu.
Ela sentiu um frio na barriga, o tipo que a fazia desejar que o tempo desacelerasse um pouco.
— E o que você esperava desse café? — ela perguntou, brincando com a borda da própria xícara.
— Esperava isso — ele disse, apoiando os antebraços na mesa e se inclinando um pouco. — Você aqui. Me olhando desse jeito. E eu tentando fingir que não tô completamente envolvido.
%Taeri% sorriu, e pela primeira vez, não tentou esconder.
— Você é bom com as palavras, Doyoung.
— Não, eu só sou honesto com você.
O silêncio que veio depois foi diferente dos outros. Mais denso, mais cheio de significados.
Ela não respondeu. Apenas estendeu a mão sobre a mesa, deixando os dedos próximos dos dele — um convite silencioso.
Doyoung tocou a mão dela com delicadeza. Não apertou, não segurou. Só encostou.
Ele tocava os dedos dela com leveza, como quem tem medo de quebrar algo delicado demais. %Taeri% não afastou a mão. Pelo contrário. Deixou que os dedos se entrelaçassem com os dele, com a mesma tranquilidade de quem já sabia o que queria.
Eles não falavam. Não precisavam.
Do lado de fora, o sol atravessava a vidraça e se espalhava em feixes sobre a mesa entre eles, iluminando a pele de %Taeri% com uma suavidade que fazia o coração de Doyoung bater mais devagar — e mais fundo.
— Eu gosto de como você me faz sentir paz — ele disse, baixinho, como se estivesse contando um segredo. — Mas também gosto do jeito que você me desarma sem perceber.
%Taeri% sorriu, com o olhar pousado nos olhos dele.
— E eu gosto... de como você me olha. Como se estivesse me descobrindo aos poucos, e ainda assim... não fosse embora.
Ele se inclinou um pouco mais. As mãos ainda entrelaçadas. O mundo ao redor se dissolvendo devagar. O café, as flores, os risos da cidade — tudo ficou em segundo plano.
— Eu não quero ir embora de você, %Taeri%. Você quer que eu vá?
Ela não respondeu com palavras. Apenas se aproximou, devagar, como quem sabe que aquilo não era um impulso.
E então os lábios se encontraram, com uma calma que fazia o tempo desacelerar.
Dessa vez, o beijo não veio como surpresa.
Veio como confirmação. Não havia pressa, nem dúvida. Apenas o toque suave das bocas, o encaixe perfeito, o calor compartilhado. Doyoung levou a mão até o rosto dela, acariciando com o polegar a curva da bochecha enquanto a puxava levemente para mais perto, aprofundando o beijo com ternura.
O coração dela batia forte, mas não por insegurança.
Quando se afastaram, devagar, os olhos ainda fechados por um instante, ambos sabiam: aquele beijo não era só um começo... Era um florescer.
— Isso responde sua pergunta? — ele sussurrou.
— Responde... — ela respondeu, com um sorriso. — Mas agora quero a próxima.
Doyoung riu baixinho, encostando a testa na dela.
— Então acho que preciso de muitos cafés a dois pra responder todas.
E foi assim que a manhã terminou. Com um beijo que dizia mais do que qualquer plano. E a promessa silenciosa de que o amor, como as flores, sabia o tempo certo de brotar.