Five Years Gone


Escrita porBagi Ferreira
Revisada por Lelen


Capítulo 05

Tempo estimado de leitura: 24 minutos

  O relógio marcava 04:17 da manhã quando Nick Fury chegou ao centro de inteligência improvisado em uma base subterrânea da S.H.I.E.L.D. nos arredores de Londres. Não dormia há dois dias. O paletó amarrotado, a postura carregada e o maxilar cerrado como quem mastiga pregos em silêncio. Os agentes sabiam o que aquilo significava. Ninguém ousou interromper quando ele atravessou o corredor principal e entrou na sala de análise sem dizer palavra.
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  Na tela, uma projeção azulada girava devagar: rostos, nomes, datas. Um mosaico de cadáveres e pontos vermelhos espalhados pela Europa como queimaduras. Cada imagem detalhava as circunstâncias de morte com mais brutalidade do que a anterior. Até mesmo para alguém como Fury, que já vira horrores demais para um homem só, havia algo pessoal naquela sequência.
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  — Senta. Me mostra do começo — ordenou, a voz rouca, fria, lançada no ar como chumbo.
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  O agente ao lado do painel, jovem e nervoso, engoliu em seco antes de tocar os comandos.
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  — Senhor... nós acreditávamos que alguns casos eram isolados. Mortes executadas com perícia, mas, nas últimas setenta e duas horas, conseguimos cruzar dados que estavam em arquivos civis, relatórios inconclusivos da Interpol e observações independentes de segurança privada. As conexões... são mais extensas do que imaginávamos.
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  As imagens passaram uma a uma: Paris, Berlim, Bucareste, Dublin, Oslo, Viena. Cada uma mostrava um cadáver em condições que desafiavam qualquer protocolo tático conhecido. Algumas cenas pareciam crimes passionais e outras, execuções limpas com rastros falsos deixados de propósito. Mas em todas havia uma assinatura quase imperceptível que, agora, começava a emergir sob a luz certa.
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  — Quantas? — Fury perguntou sem tirar o olho do rosto de uma das vítimas, um homem de cinquenta e poucos anos, ex-oficial soviético, com a garganta cortada de fora a fora no banheiro de um hotel luxuoso em Genebra.
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  — Onze, senhor. Talvez doze. Um corpo foi encontrado ontem à noite em Budapeste, mas ainda estamos aguardando confirmação do padrão.
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  Fury apertou os punhos. A mandíbula movia-se com lentidão, como se ponderasse esmagar cada sílaba antes que escapasse da boca.
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  — Isso não é caso isolado.
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  — Não, senhor. Há uma linha comum entre quase todos eles. Três têm histórico militar. Quatro trabalharam direta ou indiretamente com a KGB e cinco foram vinculados a organizações de fachada da antiga Hydra. A maioria deles teve conexões apagadas dos bancos de dados... alguém está apagando essas pessoas em tempo recorde.
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  — Está limpando a casa — completou Fury, como quem recita um epitáfio. — E está fazendo isso com intenção, não é só acerto de contas. Isso aqui é um manifesto.
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  O agente assentiu com um movimento contido.
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  — E há mais uma coisa... conseguimos recuperar parte de uma transmissão privada entre dois dos alvos, semanas antes de suas mortes. Foi criptografada e mal decodificada, mas uma palavra apareceu três vezes.
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  Ele tocou o painel. A palavra se projetou em letras grandes e hostis:
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  "Invernal."
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  Fury fechou o único olho com força por um instante. Invernal. Um nome que parecia arrastar a gravidade da sala com ele. Não era um projeto tão conhecido e não era uma sigla, mas era algo que mexia com ele e com a sua intuição. Aquela sensação conhecida de que o chão começava a ceder por debaixo dos pés.
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  — Já ouvi isso antes. Há muito tempo — murmurou.
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  — Senhor?
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  — Esquece. Continuem rastreando... quero cada passo dessas doze mortes cruzado com as coordenadas dos Vingadores, movimentações de grupos dissidentes, e tudo o que tiverem sobre ex-agentes da Sala Vermelha ou da Hydra que sumiram dos radares nos últimos vinte anos.
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  O jovem hesitou.
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  — Isso vai dar uma lista enorme, senhor.
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  — Então encolhe. Comece pelos que não deveriam estar mortos e os nomes enterrados com corpos que ninguém nunca achou. — Fury se levantou, pegou o casaco e ajeitou o coldre preso às costas. — Se essa coisa continuar do jeito que tá, não vai sobrar ninguém da velha guarda pra contar a história.
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  Quando ele saiu da sala, a tela ainda girava devagar, com os rostos dos mortos fundindo-se à sombra de uma figura que ninguém conseguia identificar. O nome "Invernal" cintilava sobre os arquivos como um epitáfio precoce.
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  E Nick Fury, pela primeira vez em muito tempo, sentiu que estava um passo atrás de um inimigo que não fazia exigências, não deixava bilhetes, e não queria nada além de apagar tudo — e todos — que tivessem alguma culpa no cartório. Não que todos tivessem sido algum dia inocentes.
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  O auditório seguia pulsando em tons de prata, hologramas e aplausos. A Stark Expo continuava em ritmo febril, com os visitantes ainda maravilhados pelos anúncios de tecnologia limpa, inteligência artificial aplicada à medicina, e os primeiros protótipos da "Tomorrownet" — um projeto pessoal que Tony vinha desenvolvendo em silêncio, como se pudesse curar o mundo com conectividade. Mas Tony não via mais nada. O palco sumira e a plateia se desmanchava em vultos indistintos. Tudo o que restava era o rosto.
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  Ele permanecia parado ao lado do púlpito iluminado, os olhos fixos em um ponto da multidão, o sorriso apagado e o microfone ainda aberto, captando o som abafado de sua respiração. Por um segundo — não mais que isso — ele juraria ter visto Elena. Não a mulher que enterrara décadas atrás. Não uma imagem velha do passado. Mas Elena ali, no agora. Com os mesmos olhos de safiras reluzentes e aquele ar reservado que ele aprendera a respeitar mais do que qualquer tecnologia ou arma que já criara.
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  A figura não estava mais lá. Talvez nunca tivesse estado.
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  Tony piscou, os músculos do rosto se contraíram involuntariamente, e uma pontada discreta se formou no fundo do crânio. Ele se virou para a lateral do palco, os olhos ainda varrendo o público como quem procura um erro de cálculo num código vital, mas não tinha nada. Apenas desconhecidos em trajes formais, crianças segurando balões da Expo, investidores com seus sorrisos treinados, mas nenhuma mulher de olhos azulados.
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  Rhodey se aproximou, subindo discretamente o degrau do palco pela lateral. Vestia o blazer escuro da Força Aérea com a mesma elegância prática de sempre.
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  — Tony, tá tudo certo? Você congelou ali por uns bons vinte segundos. Achei que ia dar tela azul.
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  Tony respirou fundo, virou-se devagar para o amigo, forçando uma expressão casual.
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  — Eu... achei que tinha visto alguém, mas deve ter sido só a luz. Ou sono, ou culpa reprimida. Você escolhe.
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  Rhodey arqueou uma sobrancelha.
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  — A culpa geralmente não veste salto e encara você com aquele olhar de tribunal.
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  Tony soltou um sorriso breve, mas os olhos continuavam vazios. Ele olhou novamente para a plateia, agora sendo guiada pelos telões para a próxima atração da feira, uma apresentação interativa da nova divisão de energia renovável das Indústrias Stark.
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  — Deixa pra lá. Eu só... achei que tinha visto a Elena.
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  Rhodey estreitou o olhar. O nome soou como uma nota fora da melodia. Poucos se lembravam de Elena, porém menos ainda ousavam mencioná-la. Tony não falava sobre ela há anos.
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  — Sua falecida esposa?
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  Tony assentiu, o cenho ainda tenso.
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  — Não faz sentido, eu sei. Mas era ela, ou... alguém muito parecida. Mesmo sorriso, mesmo jeito de olhar. Foi como levar um soco no estômago com os olhos abertos.
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  Rhodey cruzou os braços, analisando-o.
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  — Tony, você dormiu quantas horas essa semana?
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  — Defina "dormir" — rebateu ele, jogando o microfone sobre a bancada e afastando-se do púlpito. — Não foi real, eu sei disso. Mas alguma coisa em mim... não acredita.
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  Ele caminhou até o camarim improvisado nos bastidores da Expo, ignorando os cumprimentos dos funcionários, os pedidos de selfie, as perguntas sobre o futuro da energia global. Estava em outro tempo agora, em outro tipo de espaço. Um que não obedecia às leis da física, mas sim às da memória.
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  Ao fechar a porta, Tony se permitiu encostar-se à parede fria, os olhos no teto, os punhos cerrados. Era quase o fim de outubro e ela faria vinte e quatro anos.
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  Um borrão de lembranças fragmentadas o invadiu: a pequena caixa com o laço dourado que havia preparado, anos atrás, antes de tudo desmoronar; a imagem do berço vazio; o som que nunca veio. Nada havia sido poupado depois daquela noite; nenhuma certidão e nenhuma lápide pública, apenas aquela íntima e reservada. Apenas ele, Fury... e o tempo, que engolia as verdades como buracos negros.
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  Mas ver aquela mulher na plateia — mesmo que por um instante — tinha despertado algo que ele acreditava enterrado junto com o reator que um dia carregou no peito.
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  Se foi real... então alguém sabia. Alguém quis que ele visse.
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  Tony respirou fundo, apoiou as mãos na mesa e ligou o monitor diante de si. Digitou uma senha curta, quase instintiva. As câmeras da plateia se abriram em múltiplos ângulos, uma enxurrada de arquivos guardados em tempo real. Rostos, setores, passagens de calor, mas não havia sinal dela.
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  Era como se nunca tivesse existido.
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  — Paranoia — murmurou. — Ou provocação.
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  Ele não sabia qual das opções o apavorava mais. Passou as mãos pelo rosto como se aquilo pudesse apagar o que tinha visto, mas não era apenas o rosto da Elena. Era o olhar, os olhos da Elena e o mesmo azul gélido que ele via toda vez que fechava os próprios olhos, mesmo que ainda se recusasse a falar sobre ela.
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  O camarim estava silencioso, ou quase. Um dos monitores ainda exibia a transmissão atrasada da apresentação, a voz de Tony ecoando no fundo como um lembrete incômodo de que tudo havia saído perfeitamente — pelo menos, aos olhos do público.
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  Mas ele sabia a verdade.
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  Tony estava sentado na beira de uma bancada, os ombros caídos, a respiração curta. Tirara o paletó ainda no corredor, a gravata estava frouxa, e o colarinho da camisa se colava à pele suada do pescoço. O suor escorria pelas têmporas, apesar do ar-condicionado gelado. Sentia o batimento no fundo dos ouvidos e era uma pulsação abafada, descompassada, insistente.
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  Não era físico. Era outra coisa.
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  Ele levou a mão ao peito — reflexo antigo, mesmo sem o reator ali. Aquilo o perseguia mais do que qualquer marca visível. Os dedos tremiam. Tentou controlar a respiração, focando no velho exercício que aprendera na terapia. Inspira por quatro segundos. Segura. Expira por seis.
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  Mas não adiantava.
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  A imagem ainda queimava atrás das pálpebras: o vulto na plateia. O rosto, os olhos. Aqueles malditos olhos azuis. Sabia que não era ela, sabia disso. Mas ver aquele olhar atravessando a multidão o desarmou por dentro. E isso, somado à pressão do evento, ao dossiê do Fury, às imagens das vítimas estampadas nos jornais — como manchas em uma consciência que ele não sabia mais se conseguia limpar — tudo aquilo estava se tornando insuportável.
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  E além de tudo... havia o calendário. Trinta e um de outubro se aproximava... o aniversário. %Mavis% teria vinte e quatro anos.
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  Vinte e quatro. Uma mulher feita. Uma vida inteira que ele nunca poderia acompanhar de perto, nem ver crescer. Um luto que ninguém compartilhava e que ninguém reconhecia, porque, para o mundo, ela sequer existira. Não houve enterro oficial, nem notícias, nem condolências públicas. Apenas silêncio. O tipo de dor que ele enterrou junto com os documentos confidenciais. E Fury garantira isso. Proteção, ele dissera, discrição. Mas, no fundo, era só mais um segredo amargo acumulado no fundo da garganta.
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  Tony encarou o próprio reflexo na moldura metálica da tela à sua frente. As olheiras marcavam a pele, os olhos vermelhos de cansaço e algo mais fundo — exaustão emocional. Era como se o corpo inteiro gritasse por trégua, mas a mente se recusasse a parar.
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  Porque parar significava lembrar. E lembrar era o que doía mais.
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  Ele se levantou num impulso, cambaleando brevemente. Abriu a pequena geladeira embutida no canto da sala. Só havia água. Pegou uma garrafa, abriu, bebeu de um gole só. O gosto metálico do lacre ainda no gargalo arranhava a garganta, mas não importava. Era apenas mais um estímulo tentando desviá-lo do colapso iminente.
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  Passou a mão no rosto, depois nos cabelos. O gesto automático, desesperado, como se quisesse arrancar de si o peso do nome que carregava. Stark. Gênio, bilionário, filantropo e pai ausente. Viúvo de uma mulher que amara perdidamente e que havia perdido de forma precoce. Homem quebrado.
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  A Stark Expo deveria ser o ponto alto do ano, um recomeço. Progresso, inovação, legado.
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  Mas no fundo, era só distração. Uma cortina de fumaça para manter os olhos ocupados enquanto o peito afundava. Era o que fazia de melhor: ocultar a dor com luzes brilhantes e expectativas de futuro. Era isso que todos esperavam dele — que sorrisse, criasse, salvasse. Que nunca, jamais, parasse.
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  Mas ele estava parado agora. No meio de uma sala vazia, com o coração disparado e a alma estilhaçada. Pensou em Elena e em como ela teria rido daquela apresentação, com aquele jeito calmo e tão adorável que ele amava. Ela teria chamado de "teatro", dito que ele precisava dormir mais e salvar o mundo menos.
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  Pensou em %Mavis%, cujo nome que nunca dizia em voz alta. No bebê que segurou por tão pouco tempo e perdeu antes mesmo de aprender a ser pai. No túmulo onde deixava girassóis uma vez por ano, fingindo que aquilo bastava para manter a memória viva.
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  Mas agora… havia algo no ar, algo que deixava tudo mais pesado. Ele sabia que estava à beira. Do quê, exatamente, ainda não conseguia nomear, mas sentia o corpo inteiro avisando. E ainda assim, não conseguia parar.
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  Não podia.
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  A Stark Expo continuava. A plateia queria mais. O mundo exigia mais. E Tony Stark, como sempre, responderia, mesmo que estivesse ruindo por dentro.
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  As luzes da Expo ainda piscavam em tons de vermelho e dourado quando ela atravessou a multidão em retirada. Os últimos fogos de artifício explodiam no céu do Queens, refletindo nos arranha-céus como relâmpagos artificiais. Ela manteve o capuz baixo, os passos ligeiros, o ritmo constante. A maioria das pessoas a essa hora estava embriagada de euforia ou álcool — ou ambos. Ninguém reparou na mulher solitária que se afastava pelas ruas, já com outro destino em mente.
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  Ela não olhou para trás. O rosto do homem ainda queimava atrás dos olhos dela — aquele olhar perdido, estagnado, cheio de perguntas. Ela sabia que ele a reconheceria mesmo de longe. Mas ela também o viu e, por um segundo, o mundo pareceu hesitar, como se o próprio tempo tivesse engasgado.
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  Ela se afastou da área central da Expo e dobrou por um beco estreito, onde um carro preto a esperava, o motor roncando baixo. Entrou no banco de trás e passou instruções curtas para o motorista. O homem não disse uma palavra, apenas seguiu em direção ao estado de Nova York. Já passava da meia-noite e a estrada engolia o brilho da cidade até que tudo fosse trevas e faróis.
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  Ela passou as horas seguintes revisando os dados que havia coletado antes da Expo. Planos de construção, esquemas elétricos, rotas de segurança, horários de vigilância. O novo complexo dos Vingadores — afastado da agitação urbana, isolado o suficiente para parecer uma fortaleza, mas vulnerável em detalhes que um olhar atento saberia explorar. Tony Stark sempre se cercou de tecnologia de ponta, mas os erros dele nunca estiveram nos fios ou nos sensores. Estavam nas pessoas.
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  Ela mapeou os pontos de entrada: a cerca de contenção que circundava o terreno, os sensores de movimento, a blindagem do hangar. Dois acessos subterrâneos usados para entregas, um corredor lateral que ficava desativado durante a madrugada, quando os suprimentos não chegavam. Aquilo bastava.
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  Num galpão abandonado a poucos quilômetros do complexo, ela montou uma base improvisada. Havia armas desmontadas em cima da bancada, documentos espalhados, fotografias do local e dos principais membros ainda ativos — Tony Stark, James Rhodes, Wanda Maximoff, Sam Wilson. O restante... ou havia desaparecido ou se afastado. A equipe estava desmantelada, cansada, estilhaçada por dentro. A confiança era frágil. Perfeita.
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  Ela estudava as câmeras de segurança quando a imagem pausou num frame específico: Stark caminhando sozinho por um corredor interno, com um copo na mão. Ele olhava para o chão, a expressão ausente. O corpo carregava o peso de uma década de batalhas, falhas e perdas. O homem por trás da armadura era frágil, humano. E, portanto, passível de cair.
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  Ela ampliou o rosto na tela e encarou os olhos dele como se procurasse algo — talvez culpa, talvez arrependimento. Talvez só uma justificativa. A resposta não veio, como sempre.
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  Desligou os monitores, ajeitou as luvas de couro e pegou um tubo de ensaio lacrado de dentro de uma maleta. A substância ali dentro era incolor, inodora, mas a quantidade exata bastava para apagar qualquer pessoa em segundos. A próxima etapa exigiria mais do que força. Exigia controle, cálculo, sangue frio. Três ingredientes que ela havia aprendido a dominar cedo demais.
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  O relógio marcava 3h47 da manhã. Ela se levantou, alongou os ombros, pegou a jaqueta e escondeu o tubo sob o tecido. Na parede ao lado da porta, havia um mural com recortes de jornal. Alguns dos rostos já estavam riscados com tinta vermelha recente, enquanto outros já haviam sido riscados há muito tempo. Um novo nome seria riscado em breve.
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  Mas não ainda. Antes disso, ela precisava entrar na casa dele e ele nem sonhava com o que estava por vir.
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  O céu pesava como chumbo quando as luzes da casa se apagaram. O velho chalé afastado do centro urbano parecia respirar com dificuldade, como um corpo exaurido após décadas de segredos enterrados. As janelas estavam fechadas, as cortinas puxadas, e ainda assim a sensação de que algo espreitava do lado de fora fazia o ar tremer. O homem que vivia ali — um ex-instrutor da divisão tática soviética que depois vendera seus serviços para a Hydra e outros grupos menos oficiais — não era estranho ao medo. Mas aquela noite, havia algo diferente. E ele sabia.
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  O ranger da madeira sob os próprios passos o irritava enquanto descia as escadas com uma garrafa de vodka pela metade numa mão e um revólver velho na outra. Ele vivia sozinho desde os anos noventa, como todos os outros. As paredes da casa eram cobertas por livros empoeirados e lembranças de guerras que ninguém mais queria lembrar. Ele também não queria, mas às vezes elas vinham mesmo assim. Principalmente à noite.
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  Quando passou pela sala principal, a televisão estava ligada em estática. Ele não lembrava de tê-la ligado. Um chiado sutil preenchia o ambiente, e o copo que ele largara na mesa — cheio alguns minutos antes — agora estava derrubado, pingando devagar no tapete.
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  Foi quando ouviu o leve arrastar atrás dele, não era apressado. Quase... proposital, como se a autora estivesse apenas o provocando psicologicamente, tal como um jogo sádico. Ele se virou e não viu nada.
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  — Filha da puta — murmurou, apertando o cabo do revólver com os dedos trêmulos.
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  Não teve tempo de apontar.
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  Algo o atingiu por trás, um golpe seco na base da coluna que o fez cair de joelhos. A arma caiu no chão antes que ele sequer gritasse. Uma bota o chutou para frente, fazendo-o bater com a cara no assoalho.
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  Sangue espirrou do nariz quebrado.
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  Ele tentou se virar, mas uma mão forte o segurou pelo cabelo e o arrastou como se fosse um saco de ossos. Suas costas bateram contra a parede, os olhos arregalados tentando captar alguma coisa naquela figura coberta de preto, máscara sobre o rosto, os olhos ocultos na penumbra. Era magra, baixa — mas se movia como uma máquina de guerra, com uma frieza que o congelava por dentro.
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  — Você... você é uma deles — ele gaguejou, cuspindo sangue.
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  A voz dela veio baixa, quase entediada:
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  — Não. Eu sou só o que sobrou.
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  A lâmina brilhou no escuro antes de perfurar a coxa dele com força. O grito ecoou pelas paredes grossas da casa, o sangue jorrou, quente, sujando a madeira, manchando a bainha da arma que ela segurava. Ela torceu a lâmina antes de puxá-la, arrancando um urro agudo, quase animal.
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  Ela o deixou cair. Ele tentou rastejar, mas ela pisou nas costas dele com força, cravando a bota entre as omoplatas. O som de costelas estalando fez o estômago do homem virar, mas ela não parou. A lâmina veio de novo, agora rasgando-lhe o braço com um corte longo, destrutivo, abrindo pele e músculo como papel velho.
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  — Por favor... — Ele chorou. — Eu não sabia... não sabia quem eram... eram ordens...
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  Ela se ajoelhou ao lado dele, limpou a lâmina na camisa dele, e então aproximou os lábios do ouvido ensanguentado.
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  — Você sabia o que fazia comigo, sabia o que ensinava e o que te mandavam fazer, porque você obedecia. O engraçado é que... desculpas não salvaram ninguém.
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  Ele tentou falar mais uma vez, mas o golpe seguinte veio com brutalidade: a faca afundou no lado do pescoço, cortando veias, cartilagem, cordas vocais. O sangue espirrou com força, tingindo o teto, os móveis, o tapete. O corpo estremeceu por alguns segundos antes de se aquietar.
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  Ela ficou ali, ajoelhada, observando os olhos dele vidrarem. Só então retirou a faca e limpou o resto de sangue no rosto dele como se apagasse um nome de uma lista. Antes de sair, ela ligou a TV de novo, agora num canal de notícias. O som da repórter falava sobre um novo avanço na Stark Expo.
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Capítulo 05
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