Capítulo 04
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Tony já tinha lido o mesmo parágrafo quatro vezes. O relatório repousava sobre a bancada do laboratório, aberto em um ponto manchado de café. As folhas impressas pelo sistema interno da S.H.I.E.L.D. exalavam aquele cheiro seco de tinta fresca misturado a algo mais antigo — como poeira de arquivo morto reativado à força.
Dez assassinatos, dez locais diferentes e dez modos de execução tão específicos, tão limpos — ou, talvez, tão meticulosamente violentos — que nem mesmo os analistas de comportamento do alto escalão tinham chegado a um consenso. Fury havia dito sobre isso quando entregou a pasta, mas o olhar dele carregava aquele incômodo peculiar: a desconfiança não era mais algo hipotético. Era quase obsessivo.
Tony esfregou o rosto com a palma da mão. Estava cansado, mas era o tipo de cansaço que não iria resolver bebendo mais café. Os hologramas ao fundo ainda flutuavam com previsões de público para a nova Stark Expo, listas de patrocinadores, maquetes virtuais dos pavilhões tecnológicos... e ali, no meio do brilho dos pavilhões projetados, o dossiê permanecia como uma rachadura no verniz.
As fotos vinham primeiro: os corpos das vítimas em preto e branco. Um deles era um ex-cientista com ligações nebulosas a programas de defesa no leste europeu; o outro, um ex-agente da antiga divisão soviética da S.H.I.E.L.D., supostamente aposentado na Polônia. O terceiro… bem, o terceiro estava irreconhecível, só sobraram dentes. A última era a ex instrutora da Sala Vermelha e a sua morte poética e simbólica.
Tony folheou as páginas seguintes, ignorando o cheiro de papel úmido. Mapas com marcações vermelhas, trechos de interceptações mal decifradas, e um resumo dos pontos em comum: ausência de câmeras ativas, nenhuma testemunha, e nenhuma reivindicação formal pelos atos.
— Profissional — murmurou, inclinando-se na cadeira giratória. — Mas não é nenhum mercenário contratado.
Quem quer que estivesse fazendo isso, não buscava notoriedade e nem dinheiro. Aquilo era um ataque pessoal contra todas aquelas pessoas, mas por quê? Tony conhecia esse tipo de motivação. Já tinha visto de perto, e, mais de uma vez, provocado.
“Você acha que são retaliações?”, Fury havia perguntado, horas antes, largando o arquivo sobre a mesa como quem entrega uma arma.
Tony riu sem humor. —
Eu sou o poster boy da retaliação, lembra? Mas agora, sozinho no laboratório, a pergunta ecoava diferente. Não como provocação — mas como semente. Ele não conhecia nenhum dos mortos, mas havia algo no conjunto de dados que o inquietava. Era como um código escondido sob a superfície: repetição sem padrão, um estilo sem assinatura, movimento sem rosto.
Ele levantou e cruzou a sala, acendendo uma projeção do mapa europeu sobre a parede lateral. Dez pontos brilhavam. Um na Hungria. Outro na Romênia. O terceiro no norte da Alemanha. O quarto era em Praga e assim por diante.
O formato não mostrava nada significativo, mas ele sabia que Fury não traria isso à tona se fosse apenas coincidência. E mesmo que o velho estivesse tentando plantar alguma paranoia — o que não seria surpresa —, ainda assim Tony sentia aquele arrepio incômodo de quando algo escapava pela fresta.
— Dez vítimas ligadas, direta ou indiretamente, à Hydra — falou em voz alta, como se as palavras ganhassem mais forma fora da cabeça. — Ninguém reivindicou. Sem digitais, sem áudio e sem padrão de armas. Só... carnificina.
Voltou até o arquivo e folheou mais adiante. Havia anotações sobre interferência deliberada em bancos de dados locais, como se alguém estivesse limpando os rastros no mesmo instante em que os criava. Não era amador, mas também não parecia parte de um plano maior — não do tipo “invasão global”, o que o deixou muito aliviado. Era como um ajuste de contas. Um por um.
Tony se encostou na bancada, braços cruzados, o olhar preso ao nada. A pasta continuava ali, aberta como se esperasse mais dele do que ele podia oferecer. Ele detestava lidar com pistas pela metade. Não havia contexto, nenhuma motivação óbvia. E, acima de tudo, nenhuma tecnologia de ponta usada — o que o deixava fora de sua zona de conforto. Aquilo era físico, cru e claramente intencional.
Ele suspirou e desligou a projeção da Expo por um instante. O silêncio pareceu aumentar e, pela primeira vez em dias, ele não pensava nos investidores, no público, nas inovações. Pensava nos mortos sem nome e em quem mais estaria na lista. Porque, se havia um padrão que ainda não tinham identificado, era provável que ainda não tivesse terminado.
Talvez Fury esperasse que ele enxergasse algo que os outros não viam. Talvez aquilo fosse só mais uma tentativa do velho de fazer Tony se envolver em assuntos que ele queria evitar. Mas, mesmo tentando racionalizar, havia algo no fundo da mente dele que não calava.
Dez mortos. Alvos com passado sujo e alguém os eliminando como se estivesse limpando o lixo. Ele passou a mão pelos cabelos e murmurou, para ninguém:
— Só espero que esse alguém esteja do nosso lado. Seja lá quem for.
Mas uma parte dele sabia que pessoas assim… raramente estavam.
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A chuva fina tamborilava contra os vidros da casa como se quisesse lembrar Tony de tudo que ele tentava esquecer. A luz azulada dos monitores criava um brilho suave nas paredes da torre que voltou a ser propriedade das Indústrias Stark, refletindo nos olhos cansados dele. O café, já frio, repousava ao lado de uma pilha de pastas que Nick Fury havia deixado dias antes. Ele não as tocava havia horas. O conteúdo era pesado, mas não era o motivo pelo qual ele não conseguia dormir naquela semana.
Era o calendário digital ao fundo, na lateral da mesa, que o deixava inquieto. Outubro. Faltavam poucos dias. Era sempre o trinta e um. A data sempre chegava com o peso de um soco no estômago. O mundo não sabia, ninguém além de Fury jamais soube — mas naquele dia, vinte e quatro anos antes, nascia sua filha.
Mesmo pensar o nome em silêncio parecia um exercício de dor voluntária. Tony passou a mão pelos olhos, massageando as têmporas, como se isso pudesse aliviar a tensão acumulada. Não podia. Nunca podia. A ausência dela era uma cicatriz que ele não expunha, mas que sangrava por dentro todos os anos, nesse exato período.
A lembrança vinha como flashes que ele mal teve tempo de aproveitar. Não havia momentos com ela, não havia risadas, primeiros passos, primeiras palavras. Só uma imagem antiga, tirada às pressas em preto e branco, e as informações escassas do que ocorreu após o atentado que tirou a vida dos pais dele. %Mavis% sumiu uma semana depois da tragédia. Sequestrada e nunca mais vista. Um bebê de quase dois meses levado como fumaça na noite. Fury cuidou para que a história morresse ali, para que a imprensa nunca soubesse e Tony concordou, mesmo que Elena tivesse repudiado a ideia — parte por proteção, parte por autopunição. A verdade era que ele nunca soube como lidar com aquilo. Nem depois de todos esses anos.
"
Você se enterra em projetos toda vez que essa data se aproxima", Nick dissera dias antes. Tony havia ignorado, ou fingido ignorar. Agora percebia que o velho tinha razão. A Stark Expo, com todo o seu brilho, tecnologia e expectativas de um futuro melhor, era apenas um disfarce. Uma armadura nova para esconder a rachadura antiga que %Mavis% havia deixado.
Levantou-se, andou pelo laboratório e parou diante de uma bancada onde um projeto inacabado repousava: uma nova interface de IA adaptável para próteses humanas. Coisa de gênio. Mas também algo para manter a mente ocupada. Nada que uma mente vazia fizesse com segurança perto daquela data.
Encostou os dedos no tampo da bancada. Fechou os olhos por um momento, e tudo que pôde imaginar foi o que poderia ter sido. Como ela seria agora? Teria herdado as feições da mãe? A impulsividade dele? Será que teria seguido os passos da família em engenharia? Ou teria escolhido algo totalmente oposto, só pra provocá-lo? Teria rido do fato de ele ser um Vingador? Chamado ele de velho? Ele nunca saberia.
E o pior era isso: o não saber. O não ter. O buraco permanente que nenhuma invenção era capaz de preencher.
Respirou fundo, tentando reprimir a onda de emoção que ameaçava transbordar. Estava sozinho, como sempre ficava nessa época. E mesmo assim, não gostava de baixar a guarda, não com facilidade. Talvez por isso nem tivesse contado a Pepper, nem a Steve, nem a ninguém. O segredo de %Mavis% era seu e era um que queimava, ano após ano, em silêncio.
Voltou à mesa, passou os olhos pelas pastas com registros de mortes recentes. Dez até agora. Todas com um padrão estranho: violência demais, motivação de menos. Fury suspeitava que houvesse mais de uma mente por trás — alguém com treinamento, com fúria no sangue. Mas Tony não conseguia se concentrar no mistério. Não ali, não agora. Seu pensamento voltava sempre para ela. A filha que o mundo nunca conheceu. A filha que
ele mal conheceu.
— Feliz aniversário adiantado, pequena — murmurou, sem voz, encarando o vazio da tela.
E pela primeira vez em muitos dias, ele permitiu que a dor viesse, mesmo que por um instante, porque fingir que ela não existia era mais fácil do que admitir que, todos os anos, naquele mesmo dia, tudo o que ele queria era poder dizer aquelas palavras olhando nos olhos dela.
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A cidade parecia respirar diferente naquela manhã.
Desde as primeiras luzes do dia, drones de filmagem cruzavam os céus como mosquitos metálicos e helicópteros sobrevoavam os arredores da área restrita da Expo, tentando captar qualquer ângulo privilegiado. A Stark Expo, mesmo em sua reformulação mais segura, ainda era um evento global. As redes de televisão anunciavam em tempo real a contagem regressiva para o início das apresentações, repórteres se acotovelavam diante dos portões, e especialistas discutiam nos painéis matinais sobre o que esperar da nova geração de tecnologia sustentável, segurança internacional, e avanços médicos — todos projetos prometidos na nova curadoria feita por Tony Stark.
Na Torre Stark, a antiga base operacional agora desativada desde que enfrentaram Ultron, as últimas instruções eram dadas entre corredores e laboratórios. No espaço onde a Expo estava organizada, os seguranças coordenavam posições, os engenheiros ajustavam sensores. Era um balé de tecnologia, com sincronização impecável e decibéis altos. O estacionamento lotava rápido, e as tendas de acesso digital acolhiam os convidados mais importantes — embaixadores, CEOs, cientistas, bilionários excêntricos. O mundo inteiro parecia querer um pedaço do que Stark estava prestes a mostrar.
E ele, no centro de tudo, caminhava com o rosto travado em uma máscara de eficiência.
Tony não usava a armadura. Estava de blazer escuro, camiseta preta e sapatos caros, como quem saiu para comprar outro conversível. Mas por trás da formalidade, os olhos dele varriam o espaço com vigilância. O andar era firme, mas não apressado e de tempos em tempos, ele checava um relógio que ele havia acoplado o sistema da Sexta-Feira no pulso, enquanto os assistentes se revezavam em torno dele, fazendo perguntas, entregando tablets, apontando problemas de última hora. Nenhum deles percebia a rigidez nos ombros ou a exaustão cuidadosamente escondida atrás das piadas automáticas.
Era o dia da Expo. O dia em que ele deveria celebrar, mostrar ao mundo que o legado Stark ainda respirava — que havia luz, avanço, solução. Mas por dentro, tudo soava abafado.
Desde que visitara o túmulo da filha dias antes, o tempo parecia girar em torno daquele vazio. Outubro tinha gosto de metal oxidado e o ar parecia mais denso. Ele não dizia nada a ninguém, é claro. Não para Rhodes, que insistia em checar o cronograma da força aérea. Nem para Natasha, que vigiava o perímetro com olhos treinados e muito menos para os convidados, que sorriam e apertavam sua mão como se esperassem um salvador. Tony estava no modo automático, movido por energéticos, responsabilidade e culpa.
— Temos vinte minutos até a primeira apresentação, senhor Stark — avisou uma jovem assistente, entregando a ele um microfone discreto.
Ele assentiu com um murmúrio, ajeitando o ponto eletrônico na orelha. Ao longe, o auditório de vidro e titânio já recebia os primeiros sons de aplausos ao anúncio da abertura. Ele veria tudo começar dos bastidores, como fazia sempre. Dava a entrada no momento exato. Dramaturgia era parte do show.
Mas naquele dia, tudo parecia deslocado.
A estrutura impecável da Expo contrasta com o que Tony sentia por dentro. Cada stand tecnológico, cada projeto de energia limpa, cada braço robótico curvo e cintilante o lembrava de porque fazia aquilo. Era para transformar, consertar e para dar sentido a tudo que não conseguiu proteger. E mesmo assim, nada disso apagava o vazio de uma perda que o mundo sequer sabia que existia.
Ele se aproximou da divisória de vidro que separava os bastidores do palco e olhou para a plateia e viu que havia crianças nas primeiras fileiras. Uma delas, com cerca de sete anos, tinha um boneco do Homem de Ferro nas mãos e usava uma tiara com luzes azuis, sorria para a câmera ao lado do pai. Era inevitável pensar em como teria sido se %Mavis% estivesse ali. Não aquela versão que o visitava nos pesadelos — fria, morta, pequena demais para entender o que lhe fora tirado, mas uma %Mavis% viva. Jovem, inteligente e criativa. Quem sabe até envolvida em algo da própria Expo. Quantos anos ela teria agora? Vinte e quatro. Velha o suficiente para apresentar um projeto próprio, talvez. A vida que nunca aconteceu latejava como uma nota desafinada no meio do espetáculo.
— Senhor Stark — a assistente reapareceu, tocando o ombro dele com cuidado —, estamos prontos. Sua entrada em três... dois...
Tony respirou fundo. Ajustou o colarinho e engatilhou o sorriso que o mundo conhecia tão bem.
Quando subiu no palco e a luz o atingiu, a ovação foi imediata. Fogos discretos subiram em arco por trás do telão, e o nome STARK EXPO 2015 brilhou em hologramas de ponta que dançavam no teto. A multidão gritava, aplaudia, vibrava. Ele ergueu uma das mãos, acenou, e soltou a primeira piada do script.
Mas por trás do carisma e da confiança, Tony Stark sabia exatamente o que aquele show significava: uma tentativa desesperada de continuar andando. Uma distração bem ensaiada. Uma mentira bonita.
O palco era uma obra-prima de engenharia e teatralidade. Telões se fundiam ao teto como véus de luz, exibindo gráficos em tempo real, imagens do espaço, dados interativos e o emblema cintilante das Indústrias Stark girando em rotação lenta. Atrás dele, a estrutura semicircular do auditório de vidro permitia que o céu nublado de fim de tarde compusesse o cenário — um lembrete de que, ali dentro, tecnologia desafiava até mesmo a natureza.
Tony permaneceu no centro, recebendo a ovação com o timing de quem já fizera isso mil vezes. O microfone preso ao colarinho captava sua respiração, e por um momento ele apenas observou a plateia. Diante dele, centenas de rostos — alguns conhecidos, outros completamente anônimos — o encaravam com expectativa. Todos queriam algo dele. Talvez fosse uma revelação ou um milagre. Um novo show.
— Boa noite — disse, sem precisar forçar a voz. — É... bom estar de volta.
A frase simples arrancou aplausos renovados, mas o tom era diferente. Mais sóbrio e menos piada. O público percebeu.
— A última vez que estive em um palco como esse, neste mesmo lugar cinco anos atrás — continuou, olhando de um lado ao outro —, havia drones tentando me matar, um vilão russo de cabelo feio e um pouquinho de caos. Mas, como sempre, sobrevivemos. Eu sobrevivi.
Risos podiam ser ouvidos de longe, era claramente alívio na plateia. Tony ainda era Tony.
— Só que dessa vez... não se trata de mim. — Ele deu um passo para o lado, acenando para o telão e a imagem mudou. Imagem de cidades, painéis solares, centros de pesquisa, braços robóticos e modelos de próteses automatizadas surgiram em sequência. — Hoje se trata de vocês, de nós. Daquilo que a gente pode construir quando não estamos ocupados... se destruindo.
A frase ressoou mais do que o esperado. Alguns olhares se cruzaram discretamente. Era impossível não pensar em Sokovia, nas consequências ainda frescas, nos escombros de decisões apressadas. Tony sabia disso e usava isso ao seu favor.
— Essa nova Stark Expo não é um desfile de brinquedos — continuou, o olhar agora mais firme. — É um convite para um recomeço. Um espaço para mentes brilhantes que não têm uma armadura de titânio ou uma fortuna herdada. Um espaço para inovação com propósito, responsabilidade e impacto real.
Aplausos, mais fortes dessa vez. O telão mostrava agora projetos de jovens cientistas, registros de protótipos desenvolvidos em escolas técnicas apoiadas pelas fundações Stark, pesquisas em nanomedicina, fontes de energia limpa para comunidades isoladas. A Expo não era só um espetáculo — era uma tentativa de redenção. Não dita, mas escancarada.
— Eu passei boa parte da minha vida tentando consertar as consequências de... mim mesmo. — A pausa foi breve, mas suficiente para ser sentida. — E acreditem, é um processo lento, mas estou aprendendo. E, bom... isso aqui é parte da lição.
Ele virou-se para um dos painéis laterais, onde uma mesa circular subia do chão, revelando o primeiro protótipo da noite: um gerador portátil de energia cinética para regiões sem acesso à eletricidade. Um artefato pequeno, funcional, com design elegante e acessível.
— Isso aqui pode alimentar uma casa por três dias com uma única carga gerada por movimento e não explode, prometo. Já é uma vitória.
A plateia riu. A leveza voltou por um instante.
Tony percorreu os próximos minutos alternando entre apresentações, demonstrações de protótipos, participações rápidas de engenheiros jovens que subiam ao palco com mãos trêmulas e olhos brilhando. Ele fazia perguntas, brincava, traduzia termos técnicos para o público leigo. Era, mais do que nunca, um showman com conteúdo. Mas em cada intervalo, havia uma pausa curta demais, um olhar perdido demais. Uma sombra que não vinha dos holofotes.
Porque ali, diante da multidão, Tony também falava com um fantasma.
Era com a filha que nunca viu crescer, com a jovem que, se estivesse viva, talvez estivesse sentada entre os palestrantes, ou entre os repórteres. Ou quem sabe ali, na plateia, ouvindo sem dizer nada. Ele encerraria a apresentação principal com um discurso preparado, claro. Mas, como sempre, acabou improvisando:
— Eu espero que essa Expo inspire vocês. Mas, mais do que isso, eu espero que ela incomode vocês. — O tom agora era sóbrio. — Que ela provoque, que ela faça cada um sair daqui pensando em como... deixar o mundo menos pior do que encontrou. Porque, acreditem, se eu consigo tentar... qualquer um consegue.
Aplausos, cada vez mais longos. Todos de pé.
Tony agradeceu, inclinando a cabeça, e deixou o palco em silêncio — dessa vez não teatral, mas emocional. Ao cruzar as cortinas, sentiu o impacto imediato: a respiração falhou, o peito pesou. O show estava feito e agora restava encarar o que havia por trás dele: uma ausência que nem mil tecnologias poderiam preencher.
Sentada na terceira fileira, à esquerda do palco, no ponto cego entre dois refletores. Um lugar escolhido com cautela, onde as luzes não ofuscavam, mas também não revelavam demais. Usava um vestido escuro, sem marca, sem identidade. Os cabelos soltos caíam como uma cortina sobre os ombros e, por detrás das lentes de um óculos comum, os olhos acompanhavam cada movimento de Tony com uma atenção fria, analítica, quase faminta — mas havia algo mais, algo íntimo e cortante por trás da rigidez com que mantinha as mãos no colo.
Ela não aplaudiu uma única vez, sequer sorriu. Não se emocionou com os discursos, nem com os protótipos, nem com os jovens gênios que subiram ao palco para agradecer pela oportunidade. Nada. Sua presença ali era como uma fenda no tecido daquela noite — imperceptível para todos os outros, mas um ruído ensurdecedor para o homem no centro da cena.
Do ponto de vista dela, ele era o mesmo e completamente diferente. A postura ainda era a de um pavão de ferro, o carisma intacto, o humor intacto. Mas havia algo em seus olhos que não se via nas câmeras, nos telões ou nas transmissões ao vivo: o peso. Não apenas o de Sokovia, ou o de Ultron, ou da armadura que nunca deixava de vestir, mas o de um nome. Um nome que ele nunca dissera em voz alta desde que o perdera.
Quando ele anunciou o encerramento da abertura da Expo e aplaudiu os colaboradores, a maioria da plateia se levantou, mas ela não. Continuou sentada, inerte, observando. E então aconteceu.
Tony virou-se para fazer o último aceno antes de deixar o palco e a viu. Por um instante que durou uma eternidade, seus olhos se prenderam àquela figura imóvel na terceira fileira. O rosto, o contorno da mandíbula, a curva do nariz e os olhos.
Foi a primeira palavra que atravessou sua mente, como um raio cortando o céu. Ele ficou paralisado, o sorriso morrendo nos lábios lentamente, o microfone ainda preso à gola da camisa. O ruído do auditório sumiu. As luzes, os aplausos, o burburinho — tudo desabou em um vazio absoluto. Seu coração acelerou, não por pânico, mas por uma lembrança tão profunda que parecia palpável, real. Tão real quanto o perfume de girassóis secos que ainda assombrava os corredores do antigo lar de infância.
Mas não era ela. Não podia ser.
Elena Stark estava morta desde 1992, enterrada ao lado de %Mavis%. Sepultada com uma cerimônia tão discreta quanto a dor de quem sobreviveu.
Mesmo assim, ele não conseguia desviar o olhar.
A mulher — ou a miragem — devolveu o olhar sem hesitar, sem surpresa e sem emoção. E foi isso que o devastou, porque Elena jamais teria aquele vazio nos olhos. Elena era riso fácil, abraço afetuoso, toque quente. Aquela mulher, não. Aquela era um reflexo cruel, sério e sem um pingo de ternura.
Quando o assistente de palco tocou seu ombro, chamando-o de volta à realidade, Tony piscou como se tivesse emergido debaixo d’água. Sua mão instintivamente apertou o microfone que já havia sido desligado e quis imediatamente descer do palco. Quis ir até ela, quis perguntar, exigir, confrontar. Mas quando seu olhar voltou à terceira fileira, a cadeira estava vazia.
Nada, nem um vestígio e nem mesmo o calor de um corpo recém-saído. E, naquele momento, Tony sentiu algo que odiava sentir: dúvida.
Talvez tivesse sido apenas uma falha da mente. Um lapso provocado pelo cansaço, pela exposição emocional, pelo peso do dia. Talvez seu subconsciente, atolado até o pescoço em lembranças, tivesse lhe pregado uma peça cruel. Mas a imagem permanecia vívida demais, nítida demais. E por mais que tentasse racionalizar, uma única frase se formava na parte de sua mente que ainda ousava acreditar no impossível:
Do lado de fora do auditório, entre a multidão que se dispersava, a mulher caminhava com calma, passos leves. A noite caía sobre o complexo da Expo como um lençol denso, e ela se misturava à multidão como uma partícula de poeira num vendaval. Ninguém a viu sair. Ninguém reparou. Mas ela soube que Tony viu.
E era exatamente isso que queria.