Five Years Gone


Escrita porBagi Ferreira
Revisada por Lelen


Capítulo 03

Tempo estimado de leitura: 34 minutos

  Aos mortos que não esquecem
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  Aquela frase o perturbava há dias. Nick Fury não operava mais como antes. Desde a queda da S.H.I.E.L.D., seu nome fora varrido das planilhas oficiais. O mundo o considerava morto desde 2014, enterrado junto com os segredos da agência que ele mesmo comandava em sigilo. E, no entanto, ali estava ele, escondido nas margens do sistema, colhendo informações como um velho corvo que sobrevive de restos em meio aos escombros.
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  Seu esconderijo atual era um abrigo subterrâneo na costa de Baltimore, camuflado sob um antigo farol desativado. Não havia tecnologia de ponta nem painéis reluzentes. Apenas caixas de arquivos, rastreadores analógicos e um terminal criptografado — suficiente para um homem como ele operar sem ser notado. Fury nunca precisou de muito. Bastava uma pista, um fio solto que ele puxava até o novelo inteiro cair no chão.
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  Na tela diante dele, três nomes estavam destacados em vermelho, todos com histórico sujo. Todos ex-Hydra e todos mortos com uma brutalidade que ultrapassava o pragmatismo de um acerto de contas comum. Não eram execuções simples, eram punições. Castigos.
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  A pasta de investigação — que ele não compartilhara nem com a Hill — já somava mais de duzentas páginas. Mapas com rotas de fuga, identidades falsas desmascaradas, hábitos diários das vítimas, e o mais importante: datas. Cada assassinato fora calculado com semanas de distância. Havia método, isso era inegável. Mas também havia algo impulsivo. Os corpos não pareciam ter sido deixados com intenção de esconder, pelo contrário — cada cena parecia feita para ser encontrada, para ser estudada e lida como uma carta.
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  Fury se recostou na cadeira, os olhos desconfiados fixos numa imagem ampliada na tela. A vítima da Áustria, com parte do rosto arrancado, com perfurações por todo o corpo. A perícia local achou que era coisa de máfia. Eles não sabiam de nada.
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  Aquela não era uma mensagem para os mortos, era um aviso para os vivos. E Fury sabia o suficiente sobre vingança para reconhecer quando ela ultrapassava os limites da lógica. Ele já havia conversado com Tony, semanas antes, quando os corpos começaram a aparecer. Stark, como sempre, estava ocupado demais com holofotes, suas criações e a mais nova edição da Expo Stark, mas Fury conhecia aquele olhar — mesmo sob a armadura, o gênio bilionário carregava culpa demais para ignorar completamente o que estava acontecendo. E a verdade era: eles não sabiam o tamanho daquilo ainda.
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  Desde então, Fury permaneceu nas sombras, cavando. Não era a primeira vez que via um padrão assim emergir, mas sempre havia um nome, um rosto, um motivo evidente. Aqui, o rastro era mais profundo. Detalhes sutis que indicavam o nível daquela atrocidade toda. Um indicativo claro que o autor daqueles crimes ainda não estava pronto para se revelar.
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  Atravessou o bunker até um arquivo metálico e puxou uma gaveta com documentos classificados da antiga S.H.I.E.L.D. A maioria fora resgatada nos dias finais da agência, pouco antes do colapso completo. Fury os manteve longe de qualquer rede digital. Só papel, tinta e sua própria assinatura.
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  Puxou uma pasta marcada com o selo da Hydra. Nome do arquivo: FUGITIVOS CLASSIFICADOS – CASOS DORMENTES.
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  Folheou até encontrar uma página em específico. Anotou mentalmente o nome riscado ali. Mais um morto recentemente e mais um nome que era impossível de localizar. Ele conhecia aquela rede de proteção — era impossível alguém encontrar esses ex-agentes sem acesso direto aos arquivos internos da Hydra ou da S.H.I.E.L.D.
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  — Isso aqui não é trabalho de amador — murmurou, encostando os dedos no queixo. — E não é por dinheiro.
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  O rádio chiou baixinho atrás dele. Era um dos contatos na Suíça.
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  — Outro corpo. Zurique, ontem à noite. Ex-agente da Hydra, retirado da ativa desde 1994 e declarado morto há 7 anos. Foi encontrado com os olhos aberto, alguns dentes faltando, costelas quebradas, abdômen brutalmente rasgado e vários dedos quebrados. Nenhum sinal de arrombamento.
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  Fury não respondeu de imediato. A caneta em sua mão batia contra o tampo da mesa. Uma batida. Duas. Três. Parou e então falou, firme:
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  — Vê se algum nome nos registros de proteção cruzada bate com ele. Quero saber quem sabia que esse desgraçado ainda estava vivo e rastreie qualquer pessoa que entrou no país nos últimos sete dias com passaporte limpo demais.
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  — Entendido, senhor.
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  O rádio ficou mudo outra vez.
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  Fury cruzou os braços, encostando-se no canto do cômodo. Na parede, um quadro improvisado com os rostos das vítimas começava a formar um padrão conectados por linhas vermelhas. Cada foto representava uma execução. E no centro... um espaço vazio, aguardando pelo preenchimento.
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  Ele sabia que estava lidando com algo grande, mas também sabia que não podia agir cedo demais, não tão precipitado. Era um jogo de espera e Nick Fury era muito bom em esperar.
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  O metal gemeu sob o impacto do cotovelo. Mais uma vez. Outra. O saco de pancadas balançava pendurado por correntes presas ao teto de concreto, e a mulher diante dele não demonstrava cansaço. O corpo suado, o cabelo grudado à nuca, os nós dos dedos marcados de vermelho escuro — ela seguia em silêncio, soco após soco, chute após chute, com um foco que não aceitava hesitação ou falhas. Cada movimento era seco, violento. Não havia música e não havia distração. Apenas o som abafado de golpes pesados contra o couro grosso.
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  Ela girou o corpo, aplicou uma joelhada que estalou o saco contra as correntes, depois caiu em posição baixa, com a perna estendida. Uma varredura completa, um inimigo imaginário. Uma lembrança muito real.
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  A lâmpada pendurada no teto tremeluzia. O esconderijo era apertado, com paredes descascadas e cheiro de mofo antigo. O chão era sujo de poeira e marcas de sangue seco — não dela, mas dos testes anteriores. Havia armas empilhadas num canto: facas, pistolas desmontadas, cordas de aço, frascos. Cada objeto ali tinha uma história e todas terminavam em morte.
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  Ela voltou à posição ereta, respirando pela boca, os olhos fixos no vazio. Um pensamento atravessou o presente. E, como uma lâmina, o passado abriu caminho.
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  “— Malyshka, a postura está frouxa. Mantenha o calcanhar baixo.
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  — Sim, instrutora.
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  — De novo.
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  A menina tinha apenas nove anos. Os pés descalços tremiam sobre o cimento gelado. Os ossos doíam, e o sangue seco na camiseta deixava a pele grudenta, mas não era permitido descansar. Cada erro era corrigido com dor e cada falha era uma sentença.
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  — Você quer viver? — Anya perguntava, a voz fina como uma navalha.
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  — Quero.
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  — Então aja como se quisesse. De novo.”
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  Ela sacudiu a cabeça com um leve movimento, afastando a lembrança como quem escorraça um pensamento indesejado. Caminhou até a parede, onde havia desenhado linhas com carvão e tinta vermelha. Um percurso de treino — obstáculos improvisados, marcações no chão. Era ali que ela praticava as fugas, os giros, as escaladas. Cada trajeto era decorado e podia ser feito até mesmo se estivesse de olhos fechados, uma dádiva forçada depois de tê-lo feito por tantos anos.
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  Começou a correr em linha reta, os pés ritmados contra o chão, o corpo abaixando, rolando, erguendo-se com a facilidade de quem já havia feito esse tipo de coisa antes. Subiu pelas prateleiras, saltou entre colunas de concreto como uma criatura moldada para sobreviver. E, no meio do trajeto, outra lembrança cravou-se:
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  “— Mais rápido, Malyshka. Você morreu três vezes antes de terminar o percurso.
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  — Sim, instrutora.
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  — De novo.
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  Uma queda que resultou em um corte na testa. Sangue escorrendo nos olhos.
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  — Você não está aqui para brincar de amadora.
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  — Entendido.
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  — De novo.”
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  Ela caiu no chão do presente com os joelhos juntos e as mãos abertas, como se tivesse preparado um golpe que não aconteceu. O peito arfava, mas não pelo esforço. Era raiva. Uma raiva enraizada, morna, constante.
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  Levantou-se devagar, caminhando até o espelho rachado na parede. Encostou os dedos nos próprios ombros, depois deslizou as mãos até o pescoço. O olhar não era vaidoso — era cético e tático. Observava cada veia saltada, cada músculo tensionado, cada centímetro do próprio reflexo como se esperasse encontrar fraquezas. E então sussurrou, sem emoção:
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  — De novo.
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  Fechou os punhos e começou tudo outra vez. Golpes. Sequências. Derrubadas. O corpo agia, mas a mente voltava para aquele mesmo lugar, grudado nela de uma forma permanente.
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  “Havia outras garotas na Sala Vermelha. Meninas com olhos vidrados, pequenas demais para segurar uma arma, mas perigosas e letais como serpentes. Algumas choravam à noite, quando os instrutores sumiam. Outras apenas olhavam para o teto, em silêncio, como se já estivessem mortas. Ela aprendeu cedo que emoção era fraqueza. Chorou apenas uma vez, e pagou o preço.
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  — Você não é filha de ninguém.
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  — Eu sei.
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  — Você é um produto.
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  — Sim, instrutora.
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  Os nomes foram retirados, as lembranças também. O que restava era o que se podia usar. Matar. Envenenar. Desaparecer.”
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  No presente, ela se agachou no canto do abrigo e puxou uma caixa metálica. Lá dentro, pastas com anotações, esboços de plantas de edifícios, registros de vigilância e… uma nova foto. Um novo rosto.
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  Mas ela não olhou de imediato.
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  Sentou-se no chão de concreto, limpando o suor com a manga da blusa escura e respirou fundo. Estava em paz — uma paz disfuncional, cruel, mas sua. Aquela quietude depois de matar alguém, ou antes de matar alguém. Havia pouca diferença.
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  Pegou a foto e observou-a. O próximo da lista estava ali, mas ela ainda não decidiu se merecia uma faca, uma bala, ou veneno. Levantou-se, caminhando de volta ao centro do abrigo.
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  — De novo.
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  E começou a treinar outra vez.
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  O som seco dos impactos preenchia o galpão abandonado. A cada soco no saco de areia, os nós dos dedos dela se tingiam de vermelho. Luvas? Não. Ela queria sentir a carne rachar, queria a dor como uma velha amiga. Cada golpe era como um grito sufocado — e nenhum deles escapava dos lábios. O ar estava pesado, úmido, cheirando a ferrugem, suor e um leve traço de sangue. A luz tremeluzente da lâmpada pendurada acima dela balançava ao ritmo dos golpes, lançando sombras tortas nas paredes grafitadas do esconderijo.
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  Ela parou. O peito arfava, a cabeça latejava. E então, como um gatilho automático, a lembrança se impôs.
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  “— Malyshka — a voz sibilante atravessou o silêncio como um chicote. A garota — ainda jovem, magra demais, os olhos grandes como faróis no escuro — manteve a postura reta. — Você hesitou de novo. Na vida real, isso te mata.
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  A instrutora avançou, os saltos firmes contra o piso metálico da sala de treinamento. Anya. A mulher que cheirava a perfume caro e pólvora, seus dedos frios tocaram o queixo da garota, forçando-a a erguer o rosto.
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  — Olhe pra mim, Malyshka. Você acha que vai ter tempo de pensar antes de matar alguém?
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  A garota permaneceu em silêncio.
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  — O inimigo não espera. O mundo não espera. Então por que diabos você ainda espera?
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  E com um gesto brusco, a instrutora girou o rosto dela com um tapa rápido. Sem força o suficiente para ferir de verdade. Mas era o suficiente para marcar. Para humilhar.
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  — De novo — disse Anya, recuando. — Até que não pense mais. Só aja.”
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  De volta ao presente, a mulher deixou o saco de areia balançar como um cadáver suspenso. Os dedos latejavam. Ela os flexionou com lentidão, o sangue escorrendo entre as juntas abertas. Sujou o chão, mas ela ignorou.
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  Respirou fundo, indo até a mesa improvisada no canto do galpão. Mapas, foto, códigos riscados à caneta vermelha. O mural já não existia mais — destruído antes que pudesse se tornar prova —, mas o plano ainda vivia ali, em fragmentos, em instinto e em um ódio perigosamente mortal.
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  Acima de tudo, ela precisava estar pronta, porque Natasha Romanoff ainda respirava e isso a incomodava mais do que qualquer um dos dez cadáveres que deixou para trás.
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  Ela pegou a faca de treinamento. O peso era familiar, quase reconfortante. No canto da sala, um boneco de teste improvisado esperava por ela. A mulher se moveu, os pés descalços silenciosos no chão frio. Um passo. Dois. Giro. A lâmina cortou o ar, enterrando-se na “garganta” do boneco com força suficiente para derrubar a estrutura.
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  Ela ficou ali, encarando a figura caída. E mais uma vez, a lembrança veio.
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  “— Malyshka, qual é o seu propósito?
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  A resposta saiu sem hesitação, como o esperado.
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  — Obedecer. Eliminar. Sobreviver.
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  A instrutora sorriu. Era algo entre o frio e o mecânico.
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  — E quem você é?
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  — Sou um instrumento. Ninguém além disso.
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  — Boa garota.”
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  Mas agora, sozinha naquele galpão, cercada por memórias que fediam a pólvora e submissão, ela apertou os dedos ao redor do cabo da faca. O suficiente para que os nós ficassem brancos. Aquela resposta já não servia, não depois de tudo.
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  Ela havia sido nada além de um instrumento. Agora, era a mão que a empunhava a faca e, pela primeira vez, estava prestes a escolher o próximo alvo não por ordens — mas por vontade própria. Ela puxou o mapa, olhou as rotas, os horários. O plano de segurança, os compromissos da Expo.
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  O próximo movimento precisava ser calculado. Mas o fim… o fim sempre seria pessoal. E ela ainda não tinha terminado com Tony Stark.
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  O céu estava opaco, de um cinza que parecia permanente, como se o mundo inteiro estivesse preso num filtro melancólico. Todas as vezes era assim, como se fosse um sinal divino. Tony não se importava. Havia algo de reconfortante na falta de cor — fazia o girassol em sua mão parecer ainda mais deslocado. Ele o observou por um momento, os dedos girando o caule com lentidão, como se o próprio ato de segurá-lo fosse uma afronta à lógica.
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  Ele caminhava devagar entre as fileiras alinhadas do cemitério particular, os passos afundando levemente na grama úmida. O vento balançava as folhas com indiferença, e cada ruído parecia mais alto do que deveria. Quando chegou ao túmulo, parou. Não havia ninguém por perto — não havia há anos. Era um dos poucos lugares onde ele conseguia respirar… mesmo que doesse.
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  A lápide era simples, feita de mármore claro, sem adornos. Apenas um nome gravado com firmeza: %Mavis% Rose Stark. Abaixo, uma data de nascimento e uma data de morte. Duas datas separadas por menos de dois meses. Tony permaneceu ali, parado, encarando o nome que quase ninguém jamais conheceu. Nem a imprensa, nem os Vingadores e nem o mundo.
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  Ele havia feito questão disso.
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  Tony se agachou com certa dificuldade. O joelho doía de um antigo impacto que ele nunca tratou direito. Deixou o girassol repousar na base da lápide, o caule cruzado sobre a terra limpa.
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  — Eu sei, não é exatamente a flor mais comum pra um túmulo — murmurou, ajustando o casaco contra o vento. — Mas dizem que girassóis seguem a luz, mesmo quando ela se apaga.
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  Ficou em silêncio por alguns segundos. Os olhos fixos no nome gravado, o nome que ele mal teve tempo de pronunciar em voz alta.
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  — A Expo tá quase pronta — disse enfim. — Mais moderna, mais limpa, mais... Stark. Mas, se você visse, provavelmente acharia brega, se fosse adulta hoje. Ou chamaria de “desespero capitalista travestido de filantropia”, igual sua mãe fazia. A Elena nunca tinha papas na língua. E, honestamente? Foi uma das coisas que eu mais admirei nela.
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  O nome da mulher pesou no ar. Elena. Tony quase não falava sobre ela — nem com Pepper, nem com ninguém. Mas ali, com %Mavis%, ele se permitia.
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  — Ela era afiada e inteligente pra caramba. E te amava de um jeito que eu nunca entendi até tarde demais. Às vezes eu penso se eu teria conseguido te proteger melhor. E se tivesse ficado viva, talvez... talvez tudo fosse diferente.
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  O vento soprou com mais força. Um pássaro atravessou o céu sem pressa.
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  — Você teria odiado Ultron, só pra constar. Toda aquela coisa de inteligência artificial e controle global? Se você estivesse aqui, talvez teria sido um prato cheio pro seu sarcasmo. — Ele soltou um suspiro, e depois um sorriso curto. Triste. — Mas sei que teria resolvido metade das falhas do sistema em uma madrugada, se me desse uma chance.
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  Tony passou a mão pelo rosto, cansado. Os olhos não estavam vermelhos — não havia lágrimas. Estavam secos demais pra isso. Havia anos demais pra isso.
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  — Os Vingadores estão… diferentes. — A voz saiu baixa, arrastada. — A equipe tá meio quebrada. Steve e eu… bom, teve uma época que a gente foi exatamente melhores amigos, mas agora parece que estamos jogando em lados opostos e ainda nem teve uma partida.
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  Ele ficou em silêncio, apenas encarando o túmulo.
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  — Às vezes eu tento lembrar do seu rosto, mas era tão pequeno. Tão... indefeso. Dois meses, foi tudo o que tive. Dois meses. — Fez uma pausa. — E o resto foi só ausência. O berço vazio, o seu quarto vazio e as perguntas que eu não podia responder nem pra mim mesmo.
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  Ele inspirou fundo.
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  — A culpa é minha. Se eu tivesse descoberto antes, se tivesse prestado atenção… mas não. Eu tava ocupado demais sendo o bilionário, o gênio, o cara que tinha acabado de perder os pais e tinha uma empresa pra assumir. Enquanto isso, você foi... o que, hein? Escondida. Queimada das fotos. Ocultada até do luto.
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  O som do vento voltou a preencher o silêncio.
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  — Eu ainda sonho com você, às vezes. Não com você crescida, mas com o bebê. O que eu nunca segurei nos braços por tempo suficiente. — Ele passou a mão pelos cabelos. — E aí eu acordo com a sensação de que alguma coisa tá errada, como se você nunca tivesse ido embora de verdade. Será que eu tô ficando louco?
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  Ficou de pé, respirando devagar. O girassol tremia levemente com a brisa.
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  — Eu não vim buscar perdão e nem dar desculpas. Só queria que você soubesse que... — engoliu seco. — Que eu tento... todos os dias. Tento fazer valer alguma coisa.
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  Olhou uma última vez para a lápide.
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  — Onde quer que esteja... se estiver... espero que saiba disso.
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  Deu meia-volta e começou a andar. O girassol permaneceu ali, vivo e amarelo, contrastando contra o mármore frio. E quando Tony já estava longe demais para ouvir, uma leve batida soou entre as árvores. Um som quase humano.
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  Mas não havia ninguém lá.
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  Dias se passaram.
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  O frio crescente do outono se mesclava ao ruído metálico das estruturas sendo erguidas ao redor do novo pavilhão da Stark Expo. Caminhões passavam, guindastes giravam em seus eixos, e hologramas temporários tremeluziam no céu ainda nublado do estado de Nova York. No centro do caos produtivo, Tony caminhava com um tablet em mãos, concentrado demais para ouvir qualquer coisa além do próprio cérebro cuspindo ideias a mil por hora. Sua barba por fazer era a prova de que havia esquecido mais uma vez de parar por um espelho. Estava exausto, mas em movimento — e isso era tudo o que ele precisava.
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  — Eu disse que queria painéis solares no telhado, não uma estação de recarga do Tesla! — disparou, erguendo a voz para um engenheiro que o seguia, nervoso. — Eu sou o Stark. Eu penso grande e bonito.
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  Ele digitava algo frenético quando notou a figura parada na sombra de uma estrutura metálica incompleta. O sobretudo escuro, os óculos, o leve inclinar de cabeça. Tony respirou fundo, já esperando o sermão.
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  — De novo não, Fury… — disse, sem sequer parar de caminhar. — Se for mais uma bronca por causa da Expo, você pode deixar na caixa de sugestões. Eu ignoro todas elas.
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  Nick Fury caminhou ao lado dele, ignorando o tom ácido.
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  — O que você faria se eu dissesse que mais um corpo apareceu ontem à noite, em Zurique?
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  Tony parou por um instante. O tablet caiu ao lado da perna, como se o peso da notícia tivesse feito seus braços cederem. Ele ergueu os olhos para Fury com um cansaço genuíno, mas também com algo mais próximo da preocupação.
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  — Isso ainda tem a ver com aquela… sequência? — perguntou, escolhendo as palavras como quem anda sobre cacos de vidro.
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  — Mesmo modus operandi de antes: rápido e violento. Sem testemunhas, é claro. — Fury olhou ao redor, como se esperasse alguém escutando. — Estamos lidando com alguém treinado, Stark. Muito bem treinado e diria até... condicionado. Eu suponho que é pessoal. É sistemático e tem método... cada uma dessas mortes fazia parte de uma lista da Hydra.
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  Tony se virou, caminhando lentamente para longe da construção e puxando o agente com ele.
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  — Tá, digamos que essa pessoa tenha um plano. Que tipo de plano envolve estraçalhar meia dúzia de ex-agentes da Hydra na surdina, em três países diferentes, sem reivindicar nada? Não tem manifesto, não tem assinatura, não tem simbolozinho bonito na parede.
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  — Tem silêncio e tem eficiência, o que é pior.
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  Fury parou e encarou Tony por um momento, como se ainda estivesse escolhendo se devia ou não contar a próxima parte. Então soltou:
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  — A mais recente foi diferente. O corpo foi encontrado envenenado, não despedaçado, completamente imóvel, dentro da própria casa. Dessa vez, foi uma mulher. Alta patente dentro da antiga Sala Vermelha. Usava o nome falso de Anna Volkov.
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  Tony ergueu uma sobrancelha, lentamente.
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  — Sala Vermelha? Você tá dizendo que alguém tá caçando viúvas agora?
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  — Não qualquer viúva. Essa mulher treinava viúvas, aquelas das antigas. Dessas que você não encontra nem no fundo de arquivo morto da KGB. E foi encontrada morta com um sorrisinho amargo nos lábios. Literalmente.
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  Tony esfregou o rosto, exausto. Não havia dormido direito havia dias. A construção da Expo, os novos protocolos de segurança, as apresentações. Agora isso. O velho aperto no peito, embora sem reator, ainda sabia muito bem como voltar.
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  — Tá. O que você quer, Fury?
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  — Quero que você pare de fingir que esse problema não é seu. — O tom do diretor endureceu, mesmo sem elevar a voz. — Porque eu sei que você tem rastros, alguma coisa ou algum sinal. E mesmo que não tenha... essa Expo que você tanto adora vai estar cheia de nomes importantes, gente visada. Você não acha que isso pode virar o próximo alvo?
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  Tony suspirou. Encarou o céu cinzento por um instante antes de responder:
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  — Eu não sou mais o mesmo cara de anos atrás. Eu não tenho mais o reator, não tenho armaduras empilhadas em galpões como brinquedo. Eu tô tentando… fazer certo agora. Criar algo positivo, algo que inspire.
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  — E por isso mesmo é que você tem que abrir os olhos. — Fury deu um passo à frente. — Porque você acha que tá construindo um monumento, mas talvez esteja construindo um palco.
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  O silêncio que se seguiu foi denso. Tony não respondeu, apenas se virou, voltando para o canteiro de obras. Mas seus passos não tinham mais a mesma convicção de antes. E, pela primeira vez em dias, ele olhou para os andaimes altos da nova Stark Expo com um quê de desconfiança.
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  Fury não se moveu. Observava Stark de costas, como quem analisa o momento certo de dizer aquilo que vai doer. A hesitação não era típica dele, mas havia um tipo de cuidado específico quando se tratava de Tony. Não porque ele não pudesse suportar — mas porque, quando suportava, fazia isso da forma mais autodestrutiva possível.
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  — Você tem ido ao cemitério. — As palavras vieram em peso, ou uma constatação.
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  Tony parou, como se tivesse escutado algo que não queria, mas não se virou.
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  — Manhattan é cheia de túmulos. Qual deles exatamente você quer discutir?
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  — %Mavis% Stark.
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  Tony fechou os olhos. O maxilar travado e a mão direita se apertou ao redor do tablet até os nós dos dedos ficarem brancos.
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  — Você anda bem-informado.
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  — Eu ando informado o bastante pra saber que a Stark Expo não é sobre legado, é uma cortina de fumaça. Você faz isso todo ano. Mergulha em trabalho, se cerca de brilho, de metal, de esperança de um futuro melhor... justo na época do aniversário dela.
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  Tony se virou devagar. O olhar não tinha raiva, era bem pior do que isso: estava vazio.
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  — Você tá se escondendo — disse, direto, a voz firme como uma porta sendo trancada. — Debaixo de bilhões em tecnologia, luzes de palco e discursos inspiradores, mas não vai funcionar pra sempre.
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  — Fury, se isso for mais uma tentativa de me convencer a largar tudo pra resolver o mistério do psicopata europeu, economiza o fôlego. Eu tô ocupado tentando manter o mundo inteiro de pé com fita adesiva e sarcasmo. Do jeito que eu sei fazer.
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  Fury se aproximou. Um, dois passos. Depois falou com um tom que rareava o ar ao redor.
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  — Eu sei do que você tá tentando fugir.
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  Tony se virou devagar, os olhos cerrados em desconfiança.
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  — Ah, é? Ilumina meu dia.
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  — Eu sei que daqui a poucos dias é o aniversário dela e sei que, todo maldito ano, você arranja um jeito de não pensar nisso fingindo que tá salvando o mundo com um show de fogos.
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  Tony não respondeu de imediato. O peito inflava devagar, como se estivesse processando cada palavra com cuidado, mas sem conseguir evitar a pontada que atravessava sua garganta.
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  — Cuidado com o que você diz — murmurou, com os olhos fixos nele.
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  Fury continuou, implacável:
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  — Você acha que foi só você que perdeu, Stark? Eu tava lá. Fui o primeiro a chegar depois do enterro da %Mavis%. E fui o único que ficou ao seu lado quando você tomou a decisão mais difícil da sua vida.
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  Tony cerrou os punhos, mas não falou. O nome da menina, mesmo tantos anos depois, ainda tinha o poder de arrancar o ar de seus pulmões.
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  — Você lembra? — continuou Fury, a voz agora mais baixa. — Quando você olhou pra mim e disse: “Ela não vai ter nome, nem história. Quero que o mundo pense que ela nunca existiu.” E eu obedeci, fiz o que você pediu... apaguei cada traço da existência daquela criança dos registros, desde o nascimento até o desaparecimento. Só eu fiquei sabendo. Nem a S.H.I.E.L.D. inteira sabia o que aconteceu de verdade.
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  Tony virou o rosto, como se estivesse levando um soco. Os olhos marejados, mas firmes. A mandíbula travada, o orgulho ferido e a dor antiga convivendo no mesmo espaço apertado dentro do peito.
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  — Você não tinha o direito de trazer isso à tona — rosnou.
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  — Talvez não, mas a maneira como você tá agindo? Como anda distraído, irritado, dormindo menos ainda do que o habitual? Me diz que tá tudo bem. Vai. Olha na minha cara e me convence de que essa expo não é uma desculpa pra enterrar outra vez aquilo que nunca deixou de doer.
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  Tony mordeu a parte interna da bochecha, os olhos cravados no chão. Uma fissura atravessava o verniz da sua armadura emocional. Ele respirou fundo. Quando falou, foi num tom mais baixo:
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  — Ela teria vinte e quatro anos agora.
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  Fury assentiu. Um gesto sutil, mas pesado.
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  — E você ainda conversa com a lápide dela como se ela pudesse ouvir. Leva um girassol, fala da Expo, do que deu errado em Sokovia, do que você faria diferente se tivesse tido tempo. Eu sei disso porque mandei alguém te acompanhar. Discretamente.
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  Tony ergueu o olhar com um misto de raiva e surpresa.
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  — Você me seguiu?
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  — Eu te protegi, Stark. Do mundo, de você mesmo e de qualquer filho da puta que tentasse usar a existência da sua filha como arma contra você.
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  Houve um silêncio denso. Tony deu um passo atrás, passando a mão pelos cabelos com impaciência.
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  — E por que agora? Por que tá me falando isso tudo agora?
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  Fury estreitou os olhos.
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  — Porque esses assassinatos estão me tirando o sono. E porque, mesmo sem conexão clara, tem algo neles que me faz lembrar de você. De tudo que você perdeu e de tudo que poderia ter tido.
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  Tony ficou quieto por longos segundos, depois voltou os olhos para a projeção da Stark Expo, que ainda girava lentamente sobre a mesa. Tão cheio de promessas e tão irônico.
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  — A Expo é tudo que eu tenho — disse, por fim. — Se eu perder isso… não sobra mais nada.
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  Fury respirou fundo. Depois assentiu.
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  — Então não perca. Mas se algo… alguém… vier à tona nesse meio tempo, você vai precisar ser forte o bastante pra olhar no espelho e aguentar o que vir.
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  Tony encarou o amigo com uma expressão dura, mas derrotada.
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  — Ela era só um bebê. — murmurou. — Não sabia andar, não sabia falar.
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  Um silêncio que durou longos segundos, quase sufocante. Tony finalmente falou, a voz embargada:
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  — Eu fui ao cemitério porque não sei mais como fazer isso sem ela, sem esquecer dela. Porque todo ano, no dia do aniversário dela, eu fico imaginando quem ela teria se tornado. Uma cientista, uma engenheira. Talvez ela odiasse tecnologia ou talvez fosse parecida com a mãe. Elena era boa com gente.
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  Fury abaixou a cabeça por um instante, respeitoso, mas precisava trazê-lo de volta. Tony olhou para o chão, o mundo parecia ter se tornado menor, mais estreito.
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  — Eu não sei o que é pior. — disse, com a voz baixa. — Pensar que ela morreu…
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  Fury assentiu uma única vez.
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  — O aniversário dela é semana que vem, não é?
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  Tony apenas assentiu de volta.
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  — E mesmo assim, ela mudou tudo.
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  E com isso, Fury se virou e saiu, deixando Tony sozinho com seus projetos, sua culpa — e a ausência de uma menina que nunca teve chance de crescer.
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Capítulo 03
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Lelen

Eitaaa. Quem deu a certeza que a Mavis tava morta, senhor Stark?
E queria ver o passado com a Elena, quem foi ela na vida do Tony? Como a desgraça aconteceu no passado? E por que a moça tá querendo se vingar? Por que ela foi arrastada pra isso?

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