Capítulo 01
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O relógio marcava quatro e trinta e dois da manhã quando Tony Stark finalmente afastou o tablet da mesa. Os olhos queimavam — mais de cansaço do que de esforço — e os músculos da mandíbula denunciavam que ele havia passado tempo demais cerrando os dentes, perdido no próprio mundo. A sala de engenharia avançada, no subsolo do novo complexo dos Vingadores em Upstate New York, estava mergulhada num azul elétrico vindo de projeções tridimensionais, gráficos flutuando entre os dedos dele, fórmulas se sobrepondo, linhas de códigos fluindo com uma naturalidade quase irritante. Não era apenas trabalho. Era vício. Refúgio. Uma tentativa quase desesperada de manter o resto do mundo — e o que ele havia feito com esse mundo — em segundo plano.
Desde a batalha em Sokovia, Tony evitava discussões sobre propósito ou consequência. Deixava isso para Steve, que sempre tinha uma fala ensaiada sobre liberdade e responsabilidade. Ele preferia cálculos. Microestruturas vibráteis. Ajustes finos em armaduras que nunca pareciam suficientes. Se não estivesse revisando a compressão das novas botas do modelo Mark XLVII, estava testando um campo de contenção de energia que pudesse proteger civis caso, mais uma vez, as coisas saíssem do controle, porque elas
sempre saíam.
Rhodey tinha dito, algumas noites antes, que ele precisava dormir. Visão sugeriu meditação — como se uma mente como a de Tony Stark pudesse ser calada com respiração nasal e mantras. Steve, como sempre, não disse nada diretamente, mas o olhar dele carregava aquela cobrança disfarçada, aquele incômodo que ele fazia questão de não verbalizar. Tony conhecia esse jogo. E, como um bom jogador, escolhia o próprio campo de batalha. A oficina, com suas mesas cobertas por componentes e impressoras 3D rugindo baixinho ao fundo, era o único lugar onde ele ainda sentia que tinha algum senso de controle.
A ideia de reviver a Stark Expo surgiu como um lampejo no meio de uma madrugada insone. Ele estava mexendo em um protótipo de implante neural — que, se desse certo, jamais veria a luz do dia fora daquele laboratório, obviamente — quando se deu conta de que o mundo precisava de outra coisa. Esperança. Inovação. Uma pausa no ciclo interminável de destruição e reconstrução. A Expo seria um símbolo. Não dele, mas do que poderia ser feito quando cérebros brilhantes não fossem usados para criar armas, mas soluções. O legado dele precisava de algo novo. Algo que não envolvesse destruição ou justificativas.
Claro, a ideia foi recebida com ceticismo. Sam disse que era um risco expor tecnologia num evento público. Natasha permaneceu em silêncio, mas Tony percebeu o franzir sutil da testa dela. O único que pareceu genuinamente interessado fora Clint, que soltou um “
Isso seria muito interessante!” quando ouviu falar do projeto — mesmo que só tivesse entendido metade da explicação. Isso já bastava.
Ele deslizou o dedo sobre o painel da mesa, ativando a maquete digital do pavilhão central. A nova Stark Expo aconteceria em Nova York. Uma escolha estratégica, segundo Sexta-Feira — distante do centro das atenções em Washington, mas ainda suficientemente simbólica para causar impacto. Tony havia projetado a entrada principal com curvas futuristas e revestimento reflexivo, com painéis solares integrados e sistemas inteligentes de refrigeração. Tecnologia limpa e completamente sustentável. O tipo de coisa que Howard Stark, em sua visão antiquada de progresso, provavelmente teria considerado se não fosse as limitações da sua época. E talvez fosse essa a verdadeira motivação por trás de tudo: provar que era possível fazer diferente e que ele era diferente.
A projeção se expandiu. Salas de demonstração, painéis para jovens cientistas, áreas interativas para crianças. Um museu dedicado à história da engenharia — com destaque não para ele, mas para nomes esquecidos, mentes brilhantes que haviam contribuído anonimamente para avanços significativos. Tony deixou a própria figura como uma nota de rodapé. “Fundador da Nova Era”, talvez. Soava pretensioso, o que significava que era exatamente o tom certo.
Ele se recostou na cadeira, apoiando os cotovelos nos braços de metal e entrelaçando as mãos diante do rosto. Tinha esse hábito quando se perdia em pensamentos — um gesto quase inconsciente, como se estivesse se preparando para ouvir uma pergunta difícil. E ela sempre vinha. Não em palavras, mas no olhar de uma criança em Sokovia. No sangue escorrendo do canto da boca de Pietro Maximoff. No olhar devastado de Wanda. No jeito como Steve o evitava nos corredores. Em tudo que ele tentou consertar — e acabou quebrando ainda mais.
Mas agora, talvez, pudesse fazer algo diferente. Não para apagar o que houve. Isso era impossível. Mas para oferecer alguma espécie de balanço. A Stark Expo seria isso. Um novo começo, ou, no mínimo, uma distração convincente.
Sexta-Feira interrompeu o fluxo dos pensamentos com sua voz gentil, mas sempre direta:
— Senhor Stark, o diretor Fury está na entrada do hangar principal. Disse que é importante.
Tony suspirou. Claro que era. Com Fury, sempre era.
Ele se levantou, estalando os dedos e alongando as costas como um homem que havia passado horas demais mergulhado em algo maior do que ele podia admitir. Talvez fosse isso que o mantinha de pé: a ilusão de que, se construísse o suficiente, se inventasse o suficiente, poderia um dia corrigir o desequilíbrio que ajudou a causar. Ou, no mínimo, fazer o mundo acreditar que ele ainda estava tentando.
— Manda ele entrar — disse, ajustando o relógio no pulso e olhando para a projeção diante de si. O pavilhão central ainda brilhava com seus planos. — Mas avisa que se ele vier com papo de “estamos todos em perigo”, vou cobrar ingresso pra entrada na Expo.
Tony não olhou imediatamente quando a porta do laboratório se abriu. Ele pensou que fosse outra pessoa voltando com algum comentário atrasado ou sugestão logística enfadonha, mas o som dos passos — pausados, seguros, mais pesados que o usual — o fez erguer os olhos com uma expressão já meio irritada. Assim que viu o sobretudo escuro, o andar quase militar e o tapa-olho inconfundível, soltou um suspiro, como quem finalmente se rende ao inevitável.
— E eu achando que o laboratório estava livre de visitas teatrais hoje — comentou, sem disfarçar o sarcasmo. — A Sexta já tinha me avisado, não se preocupe com entradas teatrais.
Nick Fury parou no meio do cômodo, como se o ambiente todo já estivesse sob sua leitura. A forma como ele se movia nunca era só deslocamento — era avaliação. Olho varrendo cada canto, cada detalhe, como se procurasse sinais de algo escondido até mesmo em cabos desconectados.
— Não vim atrás de teatro, Stark. Vim atrás de bom senso.
Tony cruzou os braços e se encostou na bancada mais próxima, ainda segurando uma peça metálica manchada de graxa. A expressão em seu rosto oscilava entre o desinteresse e o cansaço mal disfarçado. Ele já tinha ouvido esse tom antes. Quando Fury usava palavras como "bom senso", era sinal de que algo muito ruim estava em andamento — ou prestes a cair no colo de alguém, preferencialmente o dele. Ainda que não fosse mais um Vingador, ainda prestava consultoria.
— Você sempre aparece quando tem alguma tragédia no forno. Qual é a da vez? Invasão alienígena? Inteligência artificial rebelde? Um clone malvado do Capitão América?
— Você anda lendo relatórios da S.H.I.E.L.D.? — Fury rebateu, seco.
— Não desde que descobri que a maioria deles envolvia gente tentando me matar ou usar meu DNA pra fabricar armas — Tony respondeu, largando a peça na bancada com mais força do que o necessário.
Fury avançou alguns passos, tirou um tablet de dentro do casaco e colocou sobre a mesa. A tela já exibia imagens perturbadoras: corpos, relatórios preliminares, fotos desfocadas de cenas de crime com padrões de ataque semelhantes. Tony não precisou tocar o dispositivo para entender o que Fury estava trazendo — ele conhecia aquele tipo de organização. Mortes aparentemente desconectadas, espalhadas por lugares diferentes da Europa e dos Estados Unidos, mas unidas por um tipo de brutalidade que não era algo visto todo dia.
— Isso não é coisa da S.H.I.E.L.D. — Tony disse após alguns segundos. — Não é operação, nem contraespionagem. Isso me parece o tipo de coisa que a Hydra faria.
— É, quase isso — Fury respondeu, sem rodeios. — Alguém está limpando o tabuleiro. Nove mortes confirmadas, todas ligadas direta ou indiretamente a células remanescentes da Hydra. Todos mortos em circunstâncias... consistentes. E a cada cena, a mesma assinatura dos assassinatos anteriores. Sem câmeras, sem testemunhas e zero rastros.
Tony analisou as imagens por mais um momento em silêncio. Os olhos passeando pelos rostos congelados nas telas, tentando puxar memórias, conexões, qualquer coisa que fizesse sentido. Mas o padrão era claro: alguém com treinamento avançado, acesso à informação sigilosa e, mais importante, uma motivação que ia muito além de ordens recebidas.
— E o que exatamente você quer de mim, Fury?
— Eu quero saber se tem alguma coisa nos seus arquivos, na sua cabeça, ou nas suas culpas que possa me dizer quem está fazendo isso.
Tony riu com uma nota amarga. Caminhou até a outra ponta da bancada, esfregando as mãos.
— Não sou mais parte da S.H.I.E.L.D., se é que algum dia fui. Eu me recusei a participar da nova divisão que vocês estão montando. E se alguém aí fora decidiu fazer justiça com as próprias mãos contra a Hydra, honestamente? Não me surpreende. Mas não é meu rastro que você tá seguindo.
Fury ficou em silêncio por um momento. Seu olhar não desviava.
— E se esse alguém não estiver só se vingando? E se estiver construindo algo em cima desses corpos? Uma rede ou um novo jogo. Uma nova Hydra, talvez. Ou algo pior?
Tony girou lentamente de volta para encará-lo. As olheiras estavam mais fundas do que de costume. O cansaço se manifestava em detalhes: no desalinho da barba, nos dedos sempre inquietos, nas respostas que pareciam vir com atraso. Mas os olhos ainda ardiam com aquela centelha antiga — a que acendia quando alguma coisa ameaçava escapar do controle dele.
— Se for isso, você não devia estar falando comigo. Deveria estar ativando a equipe.
— Eu estou tentando — Fury rebateu. — Mas metade da equipe está desmantelada, em suas casas ou ocupada limpando a bagunça de Sokovia. E a outra metade está... bem, você sabe. Pensando se vale a pena continuar chamando isso aqui de "time".
Tony abaixou os olhos para o tablet novamente. Um dos rostos na tela o fez franzir o cenho. Não porque conhecia a pessoa, mas pela sensação incômoda de familiaridade com o modo como havia morrido. Tinha algo naquela morte — não no corpo, mas no jeito como foi deixado — que o incomodava mais do que ele gostaria de admitir.
— Quer que eu entre nesse jogo, Fury? — perguntou, a voz mais baixa. — Vai ter que ser sincero comigo. Você sabe alguma coisa que não tá me dizendo?
Fury hesitou por uma fração de segundo apenas, mas Tony percebeu.
— Ainda não. Mas estou começando a suspeitar que isso aqui é mais do que parece. Alguém está apagando nomes da Hydra, mas também está deixando um rastro para nós. É como se quisesse que notássemos, mas só depois da última peça cair.
Tony encostou-se à bancada de novo e cruzou os braços. O olhar perdido em algum ponto indefinido do laboratório. Havia algo no ar, algo que se movia entre os ruídos abafados do passado recente e o peso dos escombros deixados pela guerra com Ultron. Algo que ainda não tinha nome, mas que já estava em ação.
— Então é melhor você correr, Nick — murmurou. — Porque seja lá quem está fazendo isso... não quer ser encontrado.
Fury assentiu uma vez. Em silêncio, recolheu o tablet, virou-se e foi embora, deixando apenas a porta se fechando atrás dele e o som abafado dos motores da mesa reativando os hologramas.
Tony ficou ali, sozinho. Como sempre.
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Em algum lugar da Áustria
O quarto cheirava a mofo e vício. Cortinas esfiapadas bloqueavam a luz da rua, mas deixavam passar o brilho alaranjado de um letreiro apagando e reacendendo ritmadamente, projetando sombras vacilantes nas paredes manchadas. Havia garrafas vazias espalhadas pelo chão, um cinzeiro transbordando de bitucas e jornais antigos empilhados em uma poltrona encardida. O único som audível era o ronco entrecortado do homem deitado na cama — corpulento, suando mesmo com o frio cortante do lado de fora.
Quando os olhos dele se abriram, não foi porque o sono terminara. Foi instinto. Medo. A sensação repentina de que algo estava errado.
A lâmpada da sala oscilou uma vez antes de se apagar completamente. Ele se ergueu com dificuldade, resmungando em alemão, olhos vasculhando o breu. Pegou o revólver que estava escondido sob o travesseiro, carregado com pressa e mantido ali como um escudo inútil contra os fantasmas que sabia que um dia viriam. Sempre vêm.
— Quem tá aí? — A voz saiu pastosa, tensa. — Se veio me roubar, vai sair daqui com chumbo no peito.
Nada respondeu, mas o silêncio já não era o mesmo de antes. Ele sabia. Não era mais o silêncio de um quarto vazio, mas sim o de uma presença que não viera ali por acaso. A pausa no ar antes do colapso.
Ele girou o corpo para a esquerda, apontando a arma em direção à porta do banheiro — mas ela já estava escancarada. Um segundo passo, desta vez, à direita. Mas não vinha de onde esperava. A respiração acelerou, os dedos suavam contra a coronha da arma e o batimento cardíaco se tornou o som mais alto do cômodo.
— Está na hora,
Herr Kraus.
Não porque não reconhecesse a voz — pelo contrário. Reconhecia. Mas o que paralisou seu corpo foi o fato de que ela pertencia a alguém que deveria estar morto há mais de vinte anos. Ou nunca ter sobrevivido à primeira missão. A arma caiu com um baque surdo no chão.
— E ainda assim, aqui estou.
Foi então que a figura surgiu atrás dele, como se tivesse se materializado da própria escuridão. Não havia máscara, mas o rosto permanecia na sombra. O que se via era o brilho nos olhos — algo entre ódio e controle absoluto. Uma raiva fria, afiada, mantida viva tempo demais para que perdesse a força.
Kraus tentou recuar, mas o corpo não respondeu. Os joelhos tremeram, o peito arfava. Não era um homem inocente, jamais fora. Carregava nas costas uma lista extensa de ordens dadas, execuções encobertas e crianças transformadas em armas. Sabia que morreria assim, mas não esperava que o fim chegasse com tanta teatralidade.
— Você não entende… nós fizemos o que precisávamos fazer. Era guerra. Guerra fria, guerra quente, guerra contra o tempo. Contra o futuro. Eu… eu só cumpri ordens.
A figura se aproximou devagar e sem pressa, exatamente como quem saboreia o medo da presa antes de matá-la.
— Não faz diferença. Não vim aqui pra ouvir você se lamentar.
O primeiro golpe veio com uma faca curva, curta, embebida em ferrugem. Rasgou o ombro de Kraus em um movimento seco, que o fez soltar um grito agudo, quase infantil. Tentou lutar, empurrar, mas foi derrubado contra a parede com força brutal. O corpo do homem se chocou contra o reboco podre e tombou de lado, engasgando com o próprio sangue.
A lâmina dançou pelo torso dele com crueldade. Rasgou pele, músculos, costelas. Cada corte era deliberado, infligido não para matar, mas para ferir e fazer arder. As mãos de Kraus se ergueram em vão, tentando conter a hemorragia que jorrava em pulsos vermelhos escuros.
— Pediu piedade? Quantas vezes eu pedi e você não ouviu?
Um novo corte, agora no rosto. Uma linha diagonal que dividiu a bochecha de cima a baixo, expondo dentes e ossos. Kraus gritava, engasgava, implorava por algo que nunca havia dado a ninguém.
A figura ajoelhou-se diante dele, com o rosto ainda fora da luz. Sangue respingava no chão, formando poças espessas que corriam para os cantos do quarto. Um som úmido e viscoso ecoava cada vez que a lâmina saía da carne. E, mesmo assim, havia conhecimento. Havia controle. Não era loucura, era cálculo.
— Você lembra da unidade de Kiev? — A voz dela soou mais baixa. — Lembra das meninas levadas? Lembra do que fez com elas?
Kraus chorava. O rosto inchado, o olho esquerdo virado para cima, a língua tentando formar palavras.
— Eu… eu… não fui eu. Foram os superiores. Eu só cuidava da triagem.
A resposta veio como um sussurro colérico:
— Mentir não vai te poupar da morte, Kraus. Você é um covarde até na hora de morrer... tão patético.
O último golpe foi direto no estômago, uma perfuração certeira e funda, feita com força e intenção. Ela empurrou a lâmina até o cabo, torceu levemente e o deixou ali, pendurado, enquanto ele convulsionava.
Ela observou o corpo até os espasmos cessarem. Até que o sangue se tornasse poça e o ar no quarto cheirasse a ferro oxidado e fezes. Então se ergueu, passou os dedos enluvados pelo queixo, limpou o rosto com um lenço de tecido branco — que logo ficou manchado de vermelho. Antes de sair, olhou para o cadáver e murmurou com desdém:
— O décimo foi pro inferno. Faltam quantos, mesmo?
A porta rangeu ao se fechar atrás dela. E mais uma vez, ela desapareceu sem deixar rastros.
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Bucareste, Romênia – Dois dias depois
O rádio da padaria na esquina chiava em volume baixo, transmitindo uma estação de notícias local em romeno com sotaque carregado. O padeiro nem prestava atenção — os dedos cobertos de farinha seguiam moldando a massa como fazia todas as manhãs. Mas do outro lado da rua, em uma pequena pensão de fachada esverdeada e goteiras reincidentes, uma televisão antiga transmitia a mesma notícia, só que desta vez com imagens. Estavam em todos os canais, em todos os idiomas.
Um homem aparecia deitado em um chão sujo, com o rosto borrado, mas o cenário era inconfundível. Sangue. Sangue em abundância, escorrendo pelas juntas do piso como tinta viva. Um repórter em voz alta e apressada falava em "execução cruel", “ligação com casos anteriores”, "modus operandi perturbador".
Sentado à mesa com uma tigela de mingau frio pela metade, Bucky Barnes observava. O vapor já havia desaparecido da comida havia tempo, mas ele não havia se dado ao trabalho de terminar. Os olhos estavam fixos no aparelho de tubo, emoldurados por olhares atentos e a barba por fazer. O cabelo, preso de qualquer jeito, pingava levemente da água do banho recente. Mas o olhar — o olhar estava seco e alerta. Parado como uma armadilha prestes a se fechar.
A câmera mostrava imagens do prédio em Linz, cercado por fitas amarelas e carros da polícia. Um policial, visivelmente abalado, dava uma declaração curta. “Nunca vi nada assim, nem em guerras. Nem em livros de horror.” As legendas passavam devagar, como se quisessem garantir que ninguém perdesse o impacto do que estava sendo dito.
“É o décimo caso desde Praga.” Bucky inclinou-se para a frente, a mandíbula tensa. Ele não precisava que dissessem em voz alta — ele sabia o que aquilo significava. Cada nova vítima era um uma pecinha removida. O tipo de morte… as marcas… a violência implacável — ele conhecia esse estilo. Conhecia bem demais.
A repórter continuava: “
As autoridades suspeitam de um assassino com treinamento militar avançado, possivelmente ex-KGB, dada a natureza ritualizada das execuções e o histórico das vítimas, todas ligadas a atividades clandestinas durante a Guerra Fria.”
Ele não reagiu de imediato, mas a mão esquerda tremia levemente sobre a mesa, a de carne e osso. A outra — fria, metálica, imóvel como uma estátua — repousava sobre a coxa, coberta pela luva que sempre usava. Sua respiração se tornou irregular, mas o rosto permaneceu impassível, como se toda a tempestade estivesse trancada por trás de um vidro grosso.
Uma última imagem surgiu na tela: a ficha de Franz Kraus, ex-diretor de operações logísticas da Stasi, suspeito de colaborar com células da Hydra antes do colapso da União Soviética. "Considerado morto para o mundo desde 1993." Agora, literalmente.
— Quem está fazendo isso…? — ele murmurou para si mesmo, sem esperar resposta.
Porque parte dele já sabia.
Havia um padrão nos alvos. Nomes que ele reconhecia, ou cujas histórias eram sussurradas pelos cantos escuros da Hydra. Gente que deveria estar enterrada no esquecimento, vivendo com nomes falsos, protegidos por anos de acordos sujos e corrupção internacional. Agora todos estavam sendo varridos, um a um.
Mas o que Bucky não compreendia, o que o corroía por dentro, era o
porquê.
Não era a S.H.I.E.L.D. — não operavam assim. Não era Fury. Ele era impiedoso, mas não sádico. Também não era a Natasha. Ela matava por necessidade, não por espetáculo. E, acima de tudo, havia algo nos detalhes — nos pequenos rituais ao redor das mortes — que trazia à tona memórias antigas. Treinamento. Tortura. Controle.
Armas fabricadas, como ele fora um dia.
Desligou a televisão com um estalo seco do controle remoto. A tela ficou preta, refletindo seu rosto cansado de forma distorcida. Ele se levantou, passou as mãos pelos cabelos e encarou a janela. A rua seguia tranquila, o sol filtrado pelas nuvens cinzentas. Mas havia uma urgência no ar, algo invisível se acumulando. Como eletricidade estática antes do trovão.
Se aquilo estava acontecendo, ele precisava descobrir quem era. E mais importante: o que essa pessoa queria, porque algo lhe dizia que, mesmo não sendo o alvo agora… poderia ser em breve. E, de algum modo, aquele massacre em série já tinha tudo a ver com ele.