Capítulo Sete
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Sinto um peso sair das minhas costas assim que %Trent% se retira do quarto, porém meu coração continua batendo de forma descompensada. Arrisco falar que eu não entendia muito bem aonde %Trent% queria chegar, ainda mais agora que ele e Payton não estavam mais juntos. Sendo bem sincera, senti que de certa forma ele estivesse usando um tom de flerte para falar comigo, embora eu tenha tido sucesso em ignorar isso. Acho que existia algo ali que falava muito sobre como %Trent% era, mas eu não queria dar bola pra isso, ainda mais pelo fato de saber que minha vida já estava uma merda completa sem o envolvimento dele, imagina como ficaria se me deixasse envolver?
— %Malia% — Escuto um leve bater na porta que me trás de volta para a realidade.
Era Betsy, a mãe dos meninos. Ela parecia ser uma pessoa incrível, e acolhedora, como eu podia muito bem distinguir pelo tom de voz que ela usava comigo.
— Sim? — Observo quando ela coloca a cabeça para dentro do quarto.
— O jantar já está quase pronto, que tal se juntar a nós? — Eu estava me sentindo um pouco tímida. Uma coisa era eu ficar na casa de Evie ou Zane, outra era eu ficar na casa de Tyler, afinal, fazia poucas semanas desde que o conheci, porém ele não era um completo desconhecido, certo? Afinal, o tio deles era sócio do meu pai, então não tinha perigo de eles me matarem e desovarem o meu corpo por ai.
— Claro. — Respondo sorrindo.
Desço as escadas ao lado de Betsy e logo sou surpreendida por um aroma delicioso.
Tento empurrar esses sentimentos de volta e não me deixar levar pela situação. As pessoas ao meu redor não tinham nada haver com o que eu passava e muito menos com o que eu sentia, e eu não gostaria de ser um fardo para ninguém, muito menos a garota que foi abandonada pelo seus pais e perdeu a família quando sua avó morreu.
Paro de repente, quando uma cena me prende. %Trent% aparece no meu campo de visão, encostado na parede, falando ao telefone e gesticulando muito. Era como se alguém estivesse irritando %Trent%, e ele fazendo de tudo para acabar com a pessoa.
A cena estava um pouco engraçada vista de fora, mas eu podia ver que coisas não estavam muito boas para o lado dele.
— Finalmente. — Tyler parecia feliz em me ver e eu apenas balancei a cabeça, desistindo de entender ele por completo. — Achei que você ia se trancar no quarto e ignorar todo mundo.
— Eu sou educada demais para fazer isso. — Reviro meus olhos.
— Você acha que ela iria perder uma das melhores comidas que ela já experimentou na vida?
Betsy que tinha ido até a cozinha aparece do nada e bate na cabeça de Tyler, me arrancando uma risada sincera. Era um pouco estranho ouvir o som da minha risada e principalmente, me sentir acolhida, pois, desde a morte da minha avó, eu não tinha me sentindo tão à vontade em um lugar. Ainda mais em um lugar desconhecido.
— Minha mãe tem razão. — %Trent% desencosta da parede e guarda o celular no bolso, se aproximando da gente.
— Vamos! Vamos. — Ela começa a nos guiar para a sala de jantar. A mesa já estava toda organizada e me sinto um pouco mal por não ter ajudado em nada.
— Isso parece incrível. — Nem parecia que Tyler e eu tínhamos acabado de comer, pois minha boca salivava.
— Hoje é seu dia de sorte, fiz o prato favorito de Tyler e um dos únicos que posso te dar certeza que deu certo.
Solto uma risadinha, apesar da idade ela parecia muito jovem, o que me deixa muito surpresa.
— Minha mãe faz tudo parecer muito simples. — Tyler resmunga enquanto se serve.
— Você sabe cozinhar, %Malia%?
Solto um gemido frustrado.
— E quem cozinhava para você?
A pergunta é feita com muita naturalidade, porém o peso que recai sobre mim é tão tenso que sinto minha garganta apertar rapidamente.
— Minha avó. — Em uma tentativa falha de responder, minha voz soa um pouco rouca.
Um silêncio desconfortável surge e eu me arrependo na hora. Não era culpa das pessoas que minha avó tinha morrido, e ninguém precisava andar sobre ovos comigo, afinal, era a minha vida, não a deles.
— Mãe! — Arregalo meus olhos quando escuto a voz de Tyler e %Trent%, os dois pareciam um pouco chocados com a pergunta da mãe deles, como se ela tivesse falado algo de errado.
— Mil desculpas. — Aos poucos vejo o olhar de Betsy mudando, primeiro eu acho que ela tinha ficado chocada com a repreensão dos seus filhos e isso acaba arrancando uma risada involuntária minha, depois seu olhar muda para o de uma pessoa arrependida.
— Não precisa se desculpar, Betsy. — Pisco para ela, tentando resgatar um ambiente agradável novamente.
— Como podemos ver, minha mãe não tem muito filtro. — Tyler é o primeiro a tentar quebrar o silêncio que voltou a se instalar entre nós. — Então irei tirar você de perto dela, troque de lugar comigo.
O único problema de trocar de lugar com Tyler, era que eu teria que sentar ao lado de %Trent%, e não sei se queria fazer isso no momento.
— Isso não é necessário. — Tento inutilmente argumentar com ele, porém o mesmo já estava me puxando da cadeira e me afastando de Betsy.
— Você sabe que eu ainda posso dar uma surra em você, não é mesmo?
Escuto Betsy resmungando mais um pouco, e agradeço mentalmente pelo clima estar voltando ao normal.
— Como podemos perceber, minha mãe está muito feliz sobre ter outra garota na casa. — %Trent% me encara profundamente e tento entender aonde ele queria chegar com isso tudo.
— Deve ser péssimo morar com dois garotos. — Penso um pouco em como a minha avó sofreu morando comigo, uma garota, então imagina para Betsy que vive com dois garotos que devem fazer o dobro de arte que eu fazia.
— Ainda bem que existem pessoas que me entendem. — Betsy parecia um pouco cansada, então apenas aceno com a cabeça.
— Quando você ver minha mãe irritada, aí você pode correr. — Olho para %Trent%, ele parecia um pouco sexy com o cabelo jogado todo para trás.
— Isso porque você testa todos os limites dela. — Tyler parecia satisfeito, e dava para perceber de certa forma que ele era o filho favorito.
— Então você é o garoto de ouro? — Provoquei um pouco, arqueando a sobrancelha e encarando Tyler.
— A perfeição é um dom. — Solto uma risada com a prepotência de Tyler.
— Você sabe que se eu fizesse um esforço, eu seria o cara de ouro. — %Trent% solta uma risada seca quando responde a provocação de Tyler, e apenas fico olhando de um para o outro, esperando a próxima resposta.
— O que você está fazendo aqui ainda? Não tinha uma festa para ir?
— Estou pensando se vale a pena ou não ir para essa festa. — %Trent% apoia o rosto em suas mãos.
— Isso quer dizer que você vai para a festa de Payton? — Ergo uma sobrancelha.
— Não é muito cedo para sentir ciúmes, boneca?
— Que tal você vir aqui calar? — Quando abro a boca para falar, somos interrompidos por Betsy.
— Gente… — Sua voz é arrastada, mas o tom era claro. — Não briguem.
— Quando terminarmos, o que você vai querer fazer? — Tyler muda de assunto, como se ele não tivesse semeado a discórdia antes.
— Não faço ideia. — Por mim eu me enfiaria debaixo das cobertas e dormiria até tarde, no entanto, tenho que lembrar que não estava em casa, e iria fazer o que estivesse ao meu alcance para ser educada.
— Então irei ensinar sobre futebol americano para você. — Ele fala, mas acho que meu olhar era bem explicativo. — Tudo bem… Relaxa. Estou brincando.
Eu não sabia muito bem até onde era tudo brincadeira e qual o momento que a verdade tomava conta das palavras de Tyler, afinal, ele era assim o tempo todo.
— Pera ai! — Acho que essa era a primeira vez que eu via %Trent% chocado com alguma coisa. — Você não conhece futebol americano? — Ele me perguntou, incrédulo demais. — Em que mundo você vive?
— Não curto muito, acho um jogo violento demais. — Dou de ombros. — Além de que, na minha antiga escola, lacrosse tinha mais destaque.
— Violento? Mal posso esperar para te apresentar rúgbi. Isso sim é violento, nós utilizamos proteção para jogar. — O encaro, com uma resposta na ponta da língua, porém seus olhos rapidamente se fixam nos meus, e seu sorriso torto faz com que eu fique muda por um instante.
— Não estou interessada. — Mantenho meu olhar.
— Talvez você só precise de uma pessoa como eu na sua vida. — Ele continua sussurrando, deixando sua voz rouca bem evidente.
— Ou talvez você só precise respeitar a decisão dos outros. — Escuto Tyler e Betsy rindo ao meu lado.
Por um momento o olhar de %Trent% muda, e isso é o suficiente para eu perceber que tanto ele, quanto eu estávamos entrando em um jogo perigoso demais para sair depois.
— Você já achou um trabalho? — Tyler muda de assunto.
— Ainda não, então estou pensando em dar alguma monitoria para alunos de fora da nossa escola. — Até porque eu tinha total ciência de que ninguém iria me escolher como tutora, não com Payton no meu pé o tempo todo.
— Então você é inteligente. — Reviro meus olhos. — Se isso serve de consolo, Payton não é. — O encaro novamente. Sei que minha irmã não é a melhor pessoa do mundo, mas também não é legal sair por aí comparando as pessoas como %Trent% está fazendo, o que me deixa um pouco irritada.
— Eu acho bom você levantar dessa mesa e tirar todos os pratos, além de lavar a louça. — Minha cabeça vira rapidamente e encaro Betsy, ela não parecia nada feliz. — Esse é o seu castigo por ficar comparando duas garotas. Você sabe que eu odeio isso. — Um sorriso involuntário surgiu em meus lábios, principalmente quando vejo %Trent% baixando a cabeça e fazendo exatamente o que a mãe dele pediu para ser feito.
— Desculpe se eu ofendi você, só queria falar que minhas notas não são tão boas assim, e que talvez você possa me ajudar. — Ele resmunga passando por mim.
— Não se preocupe, %Malia%. Meu irmão é assim mesmo.
Eu sabia que esse lance de comparações era chato, inclusive, eu já tinha feito isso entre Tyler e %Trent%, mesmo não achando certo, então para me redimir, me levanto e ajudo %Trent% a retirar os pratos da mesa.
— Meu filho é ruim em todas as matérias, se você puder ajudá-lo, eu ficaria muito feliz.
Não sei muito bem o que falar para ela nesse momento, então apenas aceno com a cabeça e me concentro em retirar a louça da mesa, levando para a cozinha em seguida.
— Então… O que você fazia na sua antiga escola? — %Trent% me pergunta enquanto lavava a louça.
— Prefere a verdade ou quer que eu minta? — Pergunto.
— A verdade, sempre. — Por um momento sinto que %Trent% estava me analisando através de seus olhos.
— Eu costumava fazer parte do teatro. — Solto uma risada ao perceber sua incredulidade.
— E por que não tentou entrar no teatro da nossa escola? — Ele me pergunta.
— Porque isso fez parte de uma vida que eu não tenho mais, e acredito que não seja mais o momento para mim. — Dou de ombros.
— Então você se sente perdida. — Prendo minha respiração.
— Talvez… Só acho que todos nós temos um pouco de escuridão conosco, alguns mais que outros.
— Isso é verdade, e a julgar por tudo o que você tem passado, acredito que você esteja lá, não é mesmo? No seu lado mais obscuro.
Fico chocada com a análise que ele faz, afinal, de certo modo %Trent% não está errado em falar essas coisas, pelo contrário. Automaticamente seguro minha mão machucada. Ela já estava melhor, porém ela era a lembrança do meu descontrole, da minha recaída. De certa forma, esses lapsos aparecem em momentos que estou bem, o que me deixa ainda mais irritada, porque esse sentimento não é uma escolha minha. E nada disso iria sumir da noite pro dia, especialmente porque Payton não iria permitir que isso acontecesse, pois ela tinha assumido a responsabilidade de acabar com a minha vida, seja ela social ou pessoal. Eu não gosto desse lance de rivalidade, e odeio comparações, porém chegamos em um momento que minha irmã fica espalhando um monte de coisas sobre a minha atual situação e um dos motivos de eu ter me mudado para a casa do pai dela, como se isso validasse o poder de Payton sobre o que fazer com a minha vida e claro sempre deixando claro que Axel é o pai dela, e não o meu.
A notícia de que eu não era bem vinda na casa dela correu solta pela escola e todo mundo me olhava como se eu fosse uma forasteira. Além de que espalhou para todos sobre como eu mendigava a atenção do pai dela, e quão problemática eu era. Na realidade essas coisas não me atingiram profundamente, mas tenho que admitir que eu fiquei muito chateada com a situação, pois as pessoas naquela escola me olham como se eu fosse louca, e isso feria meu ego de diferentes formas. Porém eu entendia o motivo de Payton estar fazendo isso. Ela era o tipo de garota que gostava de ter o controle de todos à sua volta.
— Eu me perdi quando minha avó morreu. — Era estranho eu estar me abrindo com alguém, e mais estranho ainda me abrir com o ex-namorado da minha irmã, que poderia voltar com ela a qualquer momento e falar sobre a minha vulnerabilidade com ela.
— Payton comentou algo do gênero com os amigos. — %Trent% dispara suas palavras em um tom baixo, me fazendo inclinar um pouco mais para perto de para entender o que ele falava. — E algumas outras coisas.
Reviro meus olhos, não é como se eu não tivesse escutado o burburinho das pessoas ao meu redor, porém escutar que existiam muito mais coisas que minha irmã estava falando por aí faz com que eu sinta um frio no estômago.
As pessoas não me conheciam, e minha personalidade estava sendo posta em xeque por alguém que não sabia nem um pouco sobre a minha realidade, e isso era muito chato, entretanto, era algo que eu já deveria esperar, ainda mais vindo de Payton.
— Não convivo muito com a minha irmã, mas o pouco que vi foi que ela quer acabar com a minha vida.
— Eu não posso prometer nada, mas se você quiser, posso ser seu porto seguro. — Tento ao máximo segurar minha risada, mas não consigo.
Bato com a mão na minha testa enquanto solto uma risada sincera, por um momento penso se Tyler e %Trent% não trocaram de lugar, porque impossível essas palavras estarem saindo da boca de %Trent%, não quando ele namorava com a minha irmã literalmente até ontem.
— Desculpe desapontá-lo, mas eu não preciso de nenhum porto seguro. — Continuei rindo.
Eu tive bastante tempo para pensar sobre a minha situação atual e a única certeza que eu tinha era que assim que me tornasse maior de idade, eu iria dar o pé dessa cidade, e o mais importante, para bem longe de Axel e sua família. Então me envolver demais com as pessoas não era uma opção, pois, muitas vezes, ao criar laços, você se sente confortável demais e com isso você acaba desistindo das suas ideias.
E eu não quero ser essa pessoa.
— Vou tentar respeitar sua decisão. — Observo %Trent% colocar a mão no coração e joga a cabeça para trás fazendo um som engraçado.
— Obrigada. — Eu não me via na obrigação de ter que explicar para ele meus motivos, então apenas dei de ombros e continuei secando a louça.
— Sabe de uma coisa, %Malia%? — Ele para de fazer o que estava fazendo, e o observo arrumando o cabelo calmamente que caia sobre seus olhos antes de me olhar. — Você pode achar que tem o controle supremo da sua vida aqui no presente, mas se lembre que você não sabe o que o futuro te reserva. — Sua voz soa lenta e rouca ao mesmo tempo, fazendo com que eu prendesse a minha respiração por um momento.
Vamos lá, tenho que admitir que tudo em %Trent% Baxter grita cuidado. E aparentemente ele sabia muito bem o que falar e principalmente, quando falar.
— Você é do tipo observador. — Chego a uma conclusão. — Por que me sinto intrigada com isso? — Sussurro a última parte como se não existisse mais ninguém ao meu redor.
— Ei… — Antes que eu pudesse ter uma resposta de %Trent%, Tyler entra na cozinha. — Parker ligou, disse pra você apressar sua bunda e ir para a festa.
Mesmo %Trent% falando que tinha terminado com Payton, era estranho saber que ele iria em uma festa que ela estava dando e, na realidade, era ainda mais estranho Betsy deixar seu filho ir sabendo que ele é menor de idade e vai beber, e pior ainda era saber que meu pai, a pessoa que tinha dito para eu não fazer merda, estar compactuando com uma festa regada de bebidas e menores de idade.
Eu não sou santa e já bebi muito nas festas que eu fui, então a minha única crítica aqui é saber que nossos pais estão liberando isso de uma forma tão normal.
— Festa da Payton? — Pergunto, batendo na mesma tecla, mas acho que meu tom de voz soa um pouco acusatório porque até os meninos ficam surpresos.
— Eu terminei com ela, mas isso não quer dizer que não posso participar das festas que ela dá. — Arregalo meus olhos com a indiferença de %Trent%.
— Isso parece ser tão contraditório. — Suspiro. — De todo modo, não fale que estou aqui.
— Relaxa, boneca. Seu segredo está bem guardado comigo. — O observando dando de ombros.
— Mais cedo ou mais tarde você irá ver como a mente do meu irmão funciona. — Tyler comenta, rindo da situação.
— Só não acho que as pessoas podem definir onde e quando eu devo fazer alguma coisa. — Fico surpresa com sua atitude, mas não falo nada.
— Você e Payton têm um relacionamento tóxico, admita. — Vejo os dois tendo uma leve discussão e resolvo não me meter
Como um clima pode mudar rapidamente do nada?
— Ty, você sabe muito bem o motivo do meu relacionamento com a Payton. — Sinto cheiro de confusão, e me senti bem curiosa para saber o tal motivo, porém eu não iria ser invasiva e perguntar.
— Por que você não vai se arrumar e Tyler e eu terminamos por aqui? — Me intrometo antes das coisas ficarem mais calorosas entre eles.
— Isso é um tom de preocupação em sua voz, boneca? — Reviro meus olhos com sua pergunta, mesmo que ele tenha a feito em tom de brincadeira, decido estabelecer limites entre a gente.
— Acredito que eu não tenha motivos para me preocupar com você. — Respondo rapidamente, o encarando nos olhos, para ele entender que eu não estava brincando.
— %Trent%, só vai. Não quero o Parker me irritando porque você não está lá. — Solto uma risada sincera ao ver Tyler empurrando %Trent% para a saída da cozinha.
— Tudo bem. Tudo bem. — %Trent% levanta as mãos em rendição, mas para em frente a saída da cozinha.— A gente se vê mais tarde, %Malia%. — Ele pisca para mim, e finjo estar tendo ânsia de vomito com sua atitude.
No primeiro momento que ele desapareceu da cozinha, voltei a secar o restante da louça que faltava. E sem que eu percebesse, Tyler se encosta na bancada e começa a me observar. Quando me dei conta do que ele estava fazendo, paro e coloco a mão na minha cintura, sustentando seu olhar.
— Meu irmão é complicado…
— Porém ele não é uma pessoa ruim… — Eu tinha pensando que voltar a secar a louça iria fazer Tyler mudar de assunto, no entanto eu me enganei. — Só que ele gosta de jogar com as pessoas e é péssimo em evitar encrencas. — Acho que entendi aonde Tyler queria chegar, por isso me pronuncio rapidamente.
— Quero deixar as coisas bem claras, eu não irei entrar em nenhum jogo com o seu irmão. — Eu estava convicta de que isso jamais aconteceria.
Mas Tyler parecia achar minhas palavras engraçadas, porque ele continuou rindo baixinho, em seguida me deixando sozinha.
Ficar sozinha por um momento tinha sido reconfortante, eu estava tão acostumada com o silêncio da minha casa, que estar em lugar com pessoas falando o tempo todo me deixavam um pouco tímida, porém eu não queria ser indelicada, então assim que eu termino de secar a louça, eu volto para a sala de estar. Observo um pouco calada a dinâmica de Betsy com seus filhos, filho na realidade, porque apenas Tyler estava na sala com ela quando voltei.
— Terminei a louça. — Eu não sabia muito bem como interromper os dois, então tento ser o mais sutil possível.
— Sente-se aqui, querida. — Faço o que Betsy pede e me sento ao seu lado.
Era tão estranho ver a dinâmica familiar deles, a mãe dos meninos parecia tão aberta, tão brincalhona que não parecia ser mãe, e sim irmã.
Arrisco dizer que de todas as mães que eu conheci, todas eram mais rígidas e controladoras, até mesmo as mães dos meus melhores amigos tinham algumas peculiares, então ver uma pessoa como ela agindo dessa forma com os filhos era novidade para mim.
— Eu irei dormir, porque amanhã tenho plantão. — Betsy anuncia, enquanto encara Tyler e eu. — Irei dar um voto de confiança para vocês dois. — Ela aponta para nós. — Não durmam tarde. — Por um momento a encaro, tentando entender o que ela queria falar com esse voto de confiança.
Tyler ao meu lado dá de ombros como se não fosse nada demais as palavras de sua mãe.
— Isso foi estranho. — Solto uma risada.
— Minha mãe falou isso só pra descontrair, ela confia em mim. — Ele parecia ainda mais relaxado que sua mãe.
— Ainda assim é estranho. — Balanço minha cabeça para dispersar meus pensamentos.
— Seria estranho se ela começasse a falar sobre proteção. — A careta que ele faz acaba me fazendo soltar uma risadinha.
— Você ganhou. — Relaxo um pouco. — O que vamos fazer agora? Estou zero sono.
— Podemos assistir alguma coisa. — Ele parecia animado.
— Desde que não seja nenhum filme de terror. — Dou de ombros.
— A pequena sereia? — Fiz beicinho, tentando convencê-lo de assistir comigo.
E foi assim que ao invés de assistirmos a qualquer outra coisa, estávamos os dois deitados no sofá assistindo um dos meus desenhos favoritos.