Entre Dois Mundos


Escrita porNathara Sant'anna
Revisada por Natashia Kitamura


Capítulo Três

Tempo estimado de leitura: 18 minutos

  Eu sabia que as pessoas que ficaram para trás iriam compreender meus motivos para sair daquele lugar, porém eu não tinha certeza se Axel iria tolerar minha atitude. Não que eu ligasse muito para o que ele pensava, mas assim como Dorothy disse, eu teria que mais cedo ou mais tarde aprender a lidar com ele.
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  Depois de sair de lá, me sinto um pouco melhor. Minha respiração já havia voltado ao normal, e minha mão não estava mais dormente, sinal de que eu consegui recuperar meus sentidos. Talvez a pressão tenha sido muito grande para eu lidar, afinal ver minha avó dentro de um caixão nunca passou pela minha cabeça.
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  — %Malia%? — Eu estava de cabeça baixa, então não vejo quem está me chamando, apenas os pés da pessoa, e a julgar pelo par de sapatos que ela usava, a pessoa tinha muito dinheiro.
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  — Sim? — Ao levantar minha cabeça, encaro uma garota loira de olhos extremamente azuis me olhando. Parecia um pouco confuso para mim uma pessoa que eu nunca tenha visto na minha vida me cumprimentar, porém lembro momentaneamente das pessoas que estavam na casa da minha avó e que eu não tinha ideia de quem eram.
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  — Acertei, não é mesmo? — A garota continuava parada na minha frente, e passo a encará-la com mais atenção. — %Malia%… — Ela cruza os braços, e continua me encarando.
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  Um sinal de alerta brota na minha mente. Eu nunca tinha visto essa garota em toda a minha vida e era um pouco estranho ela saber quem eu era. Minha avó também nunca mencionou uma palavra sobre uma garota da minha idade, então talvez ela fosse apenas a neta de alguém que veio prestar suas condolências.
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  — Você é…? — Minha fala sai um pouco arrastada.
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  — A vida é engraçada né? — Seu sorriso é alinhado e seus dentes perfeitamente brancos. — Pode não parecer, mas eu sei muito sobre você, %Malia%.
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  — E como você saberia? — Pergunto.
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  — Sou Payton, filha de Paige e Axel… — Prendo minha respiração, era tudo o que eu precisava no momento, ter que lidar com a filha de Axel.
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  — Interessante, não sabia que ele tinha adotado alguém da minha idade. — Eu sabia que meu pai tinha se casado há quatro anos, e que desse casamento, ele tinha uma filha da minha idade. Automaticamente, presumo que ele tenha adotado a filha de sua esposa.
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  — De onde você tirou isso? — Payton não parecia muito feliz com o que eu tinha dito. — Eu sou filha de Axel e Paige. — Não entendo muito bem aonde ela queria chegar com essa afirmação, pois para mim não fazia sentido.
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  — Para você ser filha de Axel, ele teria que ter ficado com a minha mãe e a sua. — O entendimento vai caindo, até que me dou conta do inevitável.
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  — Na realidade, meu pai e minha mãe namoravam nessa época. — Tento absorver suas palavras. — Depois que eles tiveram uma briga, meu pai dormiu com sua mãe e o resto já sabemos. — Em nenhum momento ela se refere a Axel como nosso pai, apenas como o pai dela. — No fim eu sou a filha legítima do meu pai, enquanto você não passa de uma filha bastarda dele. — Suas palavras são atiradas sem piedade, e acabam sendo um balde de água fria.
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  — Minha avó… — Eu estava tão chocada que não conseguia formular nenhuma pergunta.
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  — Minha avó. — Payton frisa muito bem. — Sempre soube de mim. Ela participou de todos os momentos da minha vida, mas ainda sim estou chateada pelo fato dela ter passado mais tempo com você do que comigo. — Payton se senta ao meu lado.
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  — Como? — Tento puxar em minha memória qualquer indício dessa interação da minha avó com a família do meu pai, mas nada vem em mente.
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  — A vida da vovó não era apenas baseada em você. — Presto atenção em suas palavras. — Quando ela conseguia se livrar de você, a primeira pessoa que ela procurava era meu pai e minha mãe, vovó estava muito triste em não me ver crescer como ela queria.
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  — Não acha que você está sendo egoísta? — Pergunto.
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  — Egoísta? Eu? — Paige parecia chocada com a minha pergunta, mas ela não percebia que o tempo todo ela estava me diminuindo.
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  — Sim, você.
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  — Desculpe, %Malia%. Porém eu perdi de ter minha avó ao meu lado por sua casa.
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  Eu estava chocada. Cada palavra que saia da boca de Payton, minha irmã, parecia surreal. Eu não queria acreditar nessa história que ela me contou, no fundo eu acreditava que suas palavras pudessem estar sendo expostas dessa forma por conta do ciúme de saber que eu iria viver com sua família, mas à medida que eu a encarava, mas verdade eu via em suas palavras.
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  — Eu não tenho culpa se ela preferiu estar ao meu lado. — Me levanto, não querendo mais estar na companhia dela. — E outra, bastarda? Por que você acha isso? — Murmuro. Essa era uma palavra tão forte para ser dita que eu teria vergonha de sugerir que minha própria irmã era bastarda.
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  — Meu pai e minha mãe são casados, meu pai assumiu a responsabilidade dos atos dele e esteve ao lado da minha mãe e ao meu lado desde que eu nasci, e para você? O que sobrou? É o nome do meu pai que consta na sua certidão de nascimento? — Suas perguntas são como navalhas afiadas. — Você não sabe de nada, porque você não é importante para gente, muito menos faz parte da nossa família.
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  — Isso é um absurdo. — Eu tinha certeza de que cada palavra que saiu da boca de Payton era com o intuito de me magoar, e talvez ela tenha conseguido, eu só não daria o braço a torcer. — Não faz sentido o que você está falando.
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  Olhando com mais atenção para Payton, percebo que ela tinha muitas semelhanças com Axel, nosso pai.
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  — Você irá entender, mais cedo ou mais tarde, que nunca deveria ter nascido. — Ela se aproxima de mim. — Espero que você entenda que nem eu e nem minha mãe gostamos do fato de você ir morar com a gente, e estamos apenas aceitando isso por consideração a minha avó. — Engulo em seco, sentindo um nó se formar em minha garganta.
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  Nesse momento, com a adrenalina mais baixa do recente acontecimento, a raiva começa a subir dentro de mim. Minha avó sempre soube da filha de Axel e aparentemente conviveu com eles ao mesmo tempo em que me criava. Vovó que sempre soube da dor que sentia pela falta dos meus pais, escondeu de mim uma parte da minha vida.
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  — Eu não quero fazer parte da sua vida… — E eu realmente não queria, tudo o que eu mais desejava era ficar na minha cidade, cercada por pessoas que eu conhecia.
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  — Infelizmente para nós, você terá. — Payton parecia irritada. — Você pode fazer um favor para mim? — Fico chocada ao ouvir ela me pedir um favor, a garota desde o momento que chegou me metralhou de informações da qual não solicitei, e agora queria me pedir um favor? — Já que você irá permanecer calada irei considerar isso como um sim, só quero pedir que você não apareça mais na capela hoje, deixe que eu e minha mãe soframos um pouco a perda da minha avó e sogra dela, não queremos uma intrusa em um momento tão familiar. — Suas palavras eram calculadas e frias, elas carregam tanta frieza que me sinto levemente vulnerável. Ela se afasta, sem esperar minha resposta e caminha em direção à capela. De longe é possível ver duas pessoas nos encarando, e logo tenho a confirmação de ser Axel e Paige, a esposa dele. Os dois estavam esperando Payton se reunir com eles e isso me machuca profundamente. Essa cena era meu sonho, um sonho que nunca fui capaz de realizar. Meu pai, uma pessoa que sempre esperei ser presente na minha vida, estava ocupado demais sendo um pai para a minha irmã.
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  Tento não me aproximar da capela, eu estava me sentindo traída e não queria estar no mesmo ambiente que eles, não quando eu poderia ser humilhada novamente e escutar palavras das quais eu não estava preparada para ouvir. Por isso observo de longe as pessoas que iam chegando na capela. Eles pareciam felizes, o som das conversas paralelas era alto. E eu fico ali, parada, incapaz de lidar com as informações que Payton despejou em mim. Suas palavras martelavam em minha mente, “você não devia ter nascido”.
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  Meu pai encarava minha irmã com uma afeição que em nenhum momento me olhou, ele abre os braços para abraçá-la, um gesto tão natural vindo da parte dele que me atinge em cheio. O chão aos meus pais parecia desaparecer. Isso não era justo. Não era justo saber que meus irmãos recebiam tanto amor e carinho dos meus pais e enquanto tudo o que eu recebia era desprezo. Tudo o que eu tinha eram as memórias que criei com minha avó, e parecia que até isso querem tirar de mim.
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  Talvez eu tenha chamado a atenção das pessoas que estavam naquele local, pois Axel lança um olhar em minha direção, um olhar discreto, mas que indicava que apesar de eu estar ali, eu não fazia parte daquela família. Inconscientemente dou alguns passos para trás, tentando manter meu autocontrole. Meu corpo parecia se tornar mais pesado, e a adrenalina começa a se esvair.
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  Eu estava esgotada.
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  Eu precisava sair dali. Eu não era bem-vinda, mesmo sendo neta de Dona Camélia.
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  Solto um suspiro e dou meia volta. Decidida a voltar para a casa da minha avó e aproveitar os últimos momentos que teria naquele lugar. Enquanto ando, um misto de sentimentos como tristeza e raiva tomam conta de mim.
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  — %Malia%? — Escuto uma voz familiar me chamando.
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  Olho por cima do ombro e vejo Zane vindo em minha direção, seu olhar parecia preocupado. Fecho meus olhos, tudo o que eu não queria no momento era ter que lidar com Zane, mas novamente o destino parecia me odiar.
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  — Zane… — Eu não queria quebrar na frente dele.
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  — Tentei te ligar, mas a chamada estava caindo na caixa postal. — Ele se aproxima rapidamente e me abraça. — Como você está? — A pergunta era meio óbvia, e a resposta mais ainda, porém Zane nunca foi muito inteligente.
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  Apesar de não querer lidar com ele no momento, Zane era a pessoa mais próxima de um amigo que eu tinha no momento, então apenas balanço minha cabeça, não conseguindo encontrar palavras para descrever o que eu estava sentindo, e continuo o abraçando.
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  — %Malia%, você sabe que pode chorar, estou aqui. — Zane afaga minhas costas, mesmo assim minhas lágrimas insistem em não descer. — Sei que as coisas não estão boas no momento, falei com meus pais, você pode ficar um tempo na nossa casa até Evie chegar.
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  — Zane, eu vou embora. — Ele desfaz o abraço e me encara, um pouco chocado.
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  — Como assim?
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  — Axel apareceu. — Solto um suspiro. — Vou morar com ele.
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  — Isso é ótimo! Você sempre quis morar com seus pais. — Zane estava feliz, mas era porque ele não tinha ideia da humilhação que passei desde aquele momento.
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  — Eu preciso de um tempo. — Recobro minha força.
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  — Vou acompanhar você até em casa. — Zane começa a caminhar comigo novamente. Eu apenas aceito sua ajuda, e caminhamos lado a lado até chegar em casa. Zane parecia curioso, mas agradeço o fato dele não me fazer perguntas.
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  Paramos em frente à minha casa, e a observo um pouco mais, logo ela seria vendida e eu não sabia o que iria acontecer. Algumas casas ao redor que seguiram o mesmo destino de venda, foram demolidas e em seus lugares prédios foram erguidos, ou seja, talvez essa fosse a última vez que eu iria pisar nesse local.
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  — Quer que entre com você? — Zane quebra o silêncio e olha para mim.
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  — Acho que preciso fazer isso sozinha. — Forço um sorriso ao olhar para ele.
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  — Tudo bem… — Ele parecia hesitar um pouco. — Irei até a capela e logo volto. — Agradeço com um olhar. E logo caminho até a entrada da minha “casa”.
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  Abro a porta e entro. As pessoas que estavam por ali param de falar e começam a me encarar, novamente, pessoas que eu não tinha ideia de quem eram. Resolvo voltar a ignorar essas pessoas, e subo as escadas lentamente. Cada degrau parecia ser um obstáculo em meio aquele silêncio criado pelos desconhecidos.
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  Chegando no meu quarto, me sento na cama, e volto a encarar o nada. O dia de hoje tinha sido marcado por um turbilhão de emoções e eu podia sentir um peso avassalador alojado em meu peito, mas mesmo assim as lágrimas teimam em não cair, fazendo com que toda a angústia fique presa dentro de mim. Perdida no tempo, olho pela janela do meu quarto e percebo que o cinza do céu estava se tornando mais intenso, indicando que já estava ficando tarde. Meus dedos brincam com o lençol enquanto tento refletir sobre tudo o que aconteceu hoje. As palavras do meu pai, as palavras da minha irmã, tudo isso atormentando minha mente. Eu estava me sentindo perdida. Claro que eu sabia que existiam diversas formas de se lidar com o luto, porém a ausência de lágrimas me deixava com uma sensação de ingratidão, de culpa.
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  Escuto som de passos vindo do corredor, e logo alguém batendo na minha porta. Acreditando ser Zane, peço para a pessoa entrar.
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  — Payton? — Fico confusa ao vê-la parada na minha porta, ela não tinha pedido tempo para ficar com a minha avó?
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  Ela entra no quarto e fecha a porta, sem se importar em ser muito educada comigo.
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  — Sim, %Malia%. Sou eu. — A julgar pelo tom de sua voz, minha irmã parecia um tanto quanto arrependida.
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  — Pensei que você iria ficar na capela, velando o corpo da nossa avó. — Tento quebrar o silêncio que se formou.
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  — Sim... Mas durante o meu tempo na capela, percebi que tinha algo para te falar. — Seria muito inocente pensar que ela iria me pedir desculpas por tudo que ela falou antes?
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  — E o que seria, Payton? — Pergunto.
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  — Você roubou minha avó de mim. — Ela dá um passo se aproximando. — Em todos os momentos que ela esteve comigo, você deu um jeito de estragar. — Eu estava paralisada, chocada demais para falar alguma coisa. — %Malia%, você não pertence a minha família e eu irei fazer você se arrepender amargamente todos os dias por ter nascido.
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  O peso em meu peito se intensifica. Por que as pessoas estavam fazendo isso comigo? Por que ninguém conseguia respeitar minha dor, meu luto? Eu estava me sentindo tão cansada disso, e por mais que eu tentasse me manter sã até o dia acabar, eu podia sentir que tudo que eu estava guardando para mim até agora, estava começando a desmoronar.
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  De repente, todo o ar que demorei para conquistar, parecia ser sugado do meu quarto. Minhas mãos voltam a tremer e minha visão começa a embaçar, fazendo que eu me levante assustada da minha cama. Ando de um lado para o outro no meu quarto, sabendo que eu estava perdendo o controle mais uma vez. Minha cabeça estava uma bagunça, eu não sabia como direcionar meus pensamentos, e tudo piora quando eu paro na frente do espelho.
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  Ver minha imagem e a maneira que eu estava naquele momento, fazia eu sentir repulsa de mim mesma e sou tomada novamente por uma avalanche de sentimentos.
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  Meus pais não me amavam.
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  Minha avó se foi.
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  Eu era uma bastarda.
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  Uma intrusa.
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  Num lapso de raiva, dou um soco no espelho. O som do vidro se estilhaçando no chão, logo sinto uma dor aguda em minha mão. O que foi que eu fiz? Tento não me mexer muito, os cacos do espelho estavam espalhados pelo chão do meu quarto, e eu parecia tão quebrada quanto eles naquele momento.
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  — %Malia%! — Carter estava do outro lado do meu quarto, parado em frente a minha porta. — Não se mexa. — Balanço minha cabeça, as lágrimas finalmente surgindo.
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  — O que você fez? — Era perceptível a preocupação estampada em sua voz, mas eu continuava em choque, nenhuma palavra saia da minha boca.
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  Serei eternamente grata por Carter não esperar uma resposta minha, ele simplesmente atravessa meu quarto e me segura com firmeza, fazendo questão de tomar cuidado para eu não me machucar ainda mais.
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  Mas talvez o que ele não tinha ideia era de que eu já estava quebrada.
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  N/A: Prontos para algumas reviravoltas na vida da Malia? Já aviso com antecedência, não odeiem ela, mas se odiarem, odeiam com carinho haha.
  Então é isso, nos vemos nas próximas atts.

Capítulo Três
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