Capítulo Dezesseis
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Confesso que a tentação de abrir o diário da minha avó e ler o que estava escrito foi insuportável, principalmente na primeira noite. Mas, assim que Axel saiu de casa eu não consegui. Não por falta de coragem, mas por medo e também respeito pela minha avó. Por isso tomei a decisão de guardar aquele livro no fundo de uma gaveta, com roupas suficientes em cima para que eu esquecesse que ele estava ali.
Eventualmente eu esqueci, e me sentia mais leve.
Claro que outras coisas favoreceram esse alívio que eu sentia. E quando eu paro e penso, chego a conclusão de que tudo o que eu precisava era ter tido aquela discussão com Payton e jogado na cara dela tudo o que vinha me irritando. Pela primeira vez a vida não parecia tão ruim assim.
— Bom dia… — Cumprimento Summer, me jogando no banco ao seu lado. — Céus, o que aconteceu com você?
Parecia que um trator tinha passado por cima da minha amiga.
— Ressaca. — Ela murmurou enquanto enterra seu rosto na mochila. — Me diz que você tem alguma coisa doce por aí.
— Acho que eu tenho um chocolate, serve? — Ela balança a cabeça. Comecei a mexer na minha mochila para achar o bendito chocolate quando as engrenagens da minha mente trabalham mais rápido. — Espera! Por que você está de ressaca?
— Rhett chegou de viagem ontem. Ele passou na casa do meu irmão, os dois começaram a beber e, quando eu vi, tinha umas quarenta pessoas na minha casa para uma festa não programada. Acabei bebendo com eles. — Ela deu de ombros, fechando os olhos com força, como se apenas o simples ato de falar machucasse ela.
— E quem seria Rhett? — Perguntei, levemente perdida.
Summer soltou uma risada abafada, porque ela tinha enfiado sua cara na mochila novamente.
— Ele é o primo mais velho dos gêmeos e melhor amigo do meu irmão. Os dois têm a mesma idade.
Cruzei meus braços, tentando inutilmente puxar ele na minha memória.
— Então… O que ele faz da vida? Nunca escutei ninguém falar sobre ele. E olha que o Maddox é o assunto favorito de todo mundo aqui. — Eu estava começando a ficar curiosa.
— Ahh… Diferente do meu irmão, ele meio que largou a escola, e se tornou um surfista profissional. — Semicerrei os olhos.
Rhett… Surfista…Arregalo meus olhos automaticamente ao dar um rosto ao nome.
— Pera ai! Você está falando do Rhett Baxter? O cara que venceu o WSL ano passado? — Eu estava incrédula.
— Puta que pariu. — Soltei uma risada, atraindo alguns olhares do pessoal que passavam por nós. — Eu nunca liguei o sobrenome Baxter ao do %Trent% e Tyler. — Eu tinha sido genuinamente burra com isso.
— Isso sempre acontece. Os meninos não comentam muito sobre isso. — Summer levanta a cabeça para me encarar. — Tem muita gente que se aproxima apenas para tirar uma casquinha, então eu entendo eles manterem essa distância. A fofoca estava boa, boa demais para ser ignorada, mas quando meus olhos batem no meu relógio, o desespero toma conta de mim.
— Summer, o chocolate vai ter que esperar! A gente tá atrasada. — A ajudei a guardar suas coisas na mochila.
Saímos em disparada. O som dos nossos passos ecoando pelos corredores que já estavam começando a ficar vazios. Minha panturrilha gritava, pedindo socorro. Mas não podíamos parar. O prédio da aula de finanças ficava a dois blocos de distância e essa professora não tolerava atrasos.
— Não sei por que decidi vir hoje. Minha cabeça tá explodindo. — Summer resmungou ao meu lado, quase tropeçando no próprio cadarço. Eu ri, quase sem fôlego, mas acabo puxando ela para agilizarmos os passos, mal dando tempo dela amarrar o cadarço.
Conseguimos chegar na sala alguns minutos antes do sinal tocar e Summer praticamente desabou na primeira cadeira livre que ela achou.
— Viu, até que não foi tão ruim assim. — Sentei na cadeira que ficou livre.
— Acho que… Eu vou morrer. — Minha amiga resmungou novamente enquanto deitava a cabeça na mesa fria.
— Não vai, não. Relaxa. — Murmuro, enquanto procuro na minha bolsa o chocolate que prometi para ela. — Aqui. — Estendo a mão para que ela pudesse pegar.
— Isso que ainda é a primeira aula, estou ferrada hoje.
Ela pegou o chocolate da minha mão como se aquilo fosse a salvação dela e sorri, abrindo meu caderno para começar as minhas anotações.
O clima na sala estava um pouco estranho, mas barulhento que o normal. Algumas pessoas cochichavam, algumas dessas olhando diretamente para mim. Resolvi ignorar essa situação, pois não era a primeira vez que isso acontecia, e olhei para fora. O céu que antes estava azulado começava a tomar proporções acinzentadas, mostrando a virada do tempo de repente.
Uma sensação de desconforto tomou conta de mim assim que as primeiras gotas de chuva batem no vidro, me fazendo suspirar. Um trovão distante faz alguns alunos pararem suas anotações e levantarem a cabeça para ver o que estava acontecendo.
Outro trovão cai, mais perto, fazendo o vidro vibrar levemente.
Hoje seria um dia e tanto.
As horas seguintes passaram como um borrão, e felizmente o tempo abriu e o sol voltou a aparecer.
Quando finalmente chegou o intervalo, eu estava exausta e precisava de um minuto de silêncio. Summer tinha sumido em algum momento durante as trocas de aula, e então fui para o nosso esconderijo preferido.
— Sabia que iria encontrá-la aqui. — O susto faz com que eu dê um pulinho. %Trent% estava lá, encostado na parede, completamente relaxado.
— O que você está fazendo aqui? — Apoiei minha mão na cintura tentando me recuperar do susto.
— Aproveitando o meu intervalo? — Ele sorriu de lado.
— Você nunca vem até aqui, %Trent%. — Resmunguei, mas meu coração já estava batendo um pouco mais rápido.
— Desde que tivemos aquela conversa no meu quarto, você tem fugido de mim. — Engoli em seco, enquanto ele dá um passo à frente. Fazendo com que a distância segura que eu mantinha dele, encurtasse drasticamente.
— Corta essa… — Tentei sair antes dele se aproximar, mas solto um ar surpreso quando %Trent% me puxa pela cintura, me prendendo contra a parede. — %Trent%, que porra você pensa que está fazendo?
— Eu disse que te daria espaço. — Ele sussurra no meu ouvido. Sua respiração quente batendo em minha pele. — Mas nunca falei que desistiria. Eu quero você, %Malia%.
Fechei meus olhos por um segundo, sentindo o arrepio percorrer pelo meu corpo.
— E eu já te disse que vou embora. — Minha voz falhou.
— Vamos lá, %Malia%. Você realmente vai ignorar a química que nós temos? — %Trent% acaricia meu rosto. Fazendo com que meus sentimentos fiquem ainda mais confusos. — Acho que o que temos merece ser explorado. Mas novamente estou aqui, recuando. De novo. Porque eu respeito você.
Ele se afastou e eu fiquei ali, parada. Uma parte de mim queria correr para os braços dele, mas outra tinha medo de que isso se tornasse uma dependência, então optei por ficar onde estava.
Não tive muito tempo para raciocinar o que tinha acontecido, porque Summer apareceu correndo, seu rosto vermelho e os olhos arregalados.
— Me prometa que você não irá fazer nada. — Ok! Isso era o suficiente para saber que algo não estava certo.
— Summer, o que aconteceu? — Pergunto, tentando me manter calma.
— Então… — Ela me entrega um papel, e congelo. Meus olhos percorrem as letras impressas em negrito. O sangue sumindo do meu rosto.
“
%Malia% é uma pessoa muito engraçada e soberba. Ela finge ser uma pessoa inocente, mas cuidado! Ela já foi presa.” — Puta que pariu. — Amasso o papel em minhas mãos. — Eu vou matar a Payton.
Praticamente sai correndo dali com o papel amassado em minhas mãos. Acho que a nossa conversa não tinha surtido um efeito positivo.
Eu precisava encontrar minha irmã e acabar com isso de uma vez por todas.
Ela não tinha esse direito. — Onde você está indo, %Malia%? — %Trent% parecia confuso. Ele não tinha visto aquele papel, muito menos o que tinha escrito nele.
— Droga! %Malia%… — Summer gritava atrás de mim, enquanto resmungava para %Trent% segui-la.
Eu não parei. Mesmo com os protestos dos dois. Tudo o que eu sentia naquele momento era ódio.
Payton tinha sido mais baixa do que eu pensei, usando uma situação como essa para acabar comigo.
Nunca atravessei aquele pátio tão rápido na minha vida quanto hoje. Minha irmã, estava encostada nos armários vermelhos, perto do corredor, rindo de alguma coisa que suas amigas estavam falando. Aquela cena fez meu sangue subir ainda mais.
— Payton! — Meu berro chamou a atenção de todos que estavam ali, fazendo inclusive que alguns parassem para saber o que estava acontecendo. Ela levantou a cabeça e seus olhos encontraram os meus, um sinal claro de que não sentia remorso pelo que tinha feito. — Que porra você estava pensando quando imprimiu essa merda! — Joguei o papel que eu tinha amassado na cara dela.
— Eu disse que teria volta. — Ela respondeu, ajeitando o cabelo como se não tivesse tentado acabar com a minha vida. — As pessoas precisam saber que além de uma vadia, destruidora de lar, você também é uma criminosa.
Suas palavras me atingem como um clique. Eu a pressionei contra os armários que ela estava, o som do metal ecoando por todo o corredor.
— Isso te faz sentir melhor? — Praticamente berrei em sua cara. — Acorda para a vida, Payton.
Minha irmã dá um sorriso de lado, como se tivesse razão por tudo que ela tinha falado. Acho que foi aí que eu perdi o controle. Minha mão agindo por conta própria. O estalo do tapa que eu dei nela foi tão alto que até eu fiquei surpresa.
Minha irmã partiu para cima de mim, tapas, puxões de cabelo, tudo acontecia quase que ao mesmo tempo, e eu tentava dar o máximo de mim. Eu queria que ela sentisse dor, queria ensinar uma lição que nem nosso pai e nem a mãe dela foram capazes de ensinar.
— %Malia%, para! — A voz do %Trent% surgiu em meio a multidão, mas a raiva era a minha melhor arma.
Senti seus braços envolvendo minha cintura e em um momento eu estava chutando o ar, tentando fazer com que ele me soltasse e eu fosse para cima de Payton, que nesse momento estava sendo segurada por um dos jogadores do time de futebol
— Da próxima vez que você fizer qualquer coisa parecida, ou tentar fazer da minha vida um inferno, eu vou fazer a mesma coisa. Só que vai ser muito pior, eu estou no meu limite Payton, e aparentemente você ama passar por cima dele.
As palavras voam da minha boca, rápidas demais. E um sorriso brotou nos meus lábios assim que vejo seu rosto vermelho.
— Me solta, %Trent%. — Pedi. Suas mãos ainda me segurando fortemente, como se eu fosse capaz de avançar na minha irmã de repente.
— Não, até você me prometer que não vai fazer nada. — Ele sussurra no meu ouvido.
— Não vou bater nela, se esse é o seu medo. — Digo para %Trent%, enquanto encaro Tyler, em um pedido silencioso de ajuda.
— Você sabe que eu te amo como uma irmã, Lia. — Tyler disse. — Mas meu irmão tem razão. Você precisa se acalmar. — Ele levanta as mãos para cima, como se tivesse sido derrotado e se rendia.
— Eu vou bater nas suas bolas se você não me soltar %Trent%. — Resolvi partir para a violência.
Para minha surpresa, %Trent% não discutiu. Ele apenas começou a caminhar, me carregando para longe de toda essa bagunça, ignorando as pessoas que nos filmavam enquanto ele passava comigo no seu colo.
Foi nesse momento que minha adrenalina começou a baixar e o arrependimento começou a tomar conta do meu corpo.Eu tinha finalmente me deixado levar por todo o drama de Payton e acabei perdendo minha paciência e a consequência disso foi eu partir para cima dela.
— %Malia% — %Trent% tocou meu braço para chamar minha atenção — Você está bem?
— Estou… — Passei minhas mãos pelo rosto, sentindo uma súbita vontade de chorar. — Merda! Merda.
As lágrimas simplesmente escorrem pelo meu rosto.
— Ei… — %Trent% me abraça.
— Eu não devia ter batido nela. — Solucei. — Vocês tem noção de que Axel vai me matar?
— Não faça isso. — Ele se agacha na minha frente. — Você só se defendeu.
— Axel pode ser uma merda, mas essa merda não vai sobrar só pra você. — Tyler coloca uma mão no meu ombro, tentando me confortar. Eu não tinha percebido que ele nos seguiu.
— Eu amei que você colocou Payton no lugar dela. — Summer soltou uma risada, tentando quebrar o gelo. — O quê?
— Momento errado. — %Trent% e Tyler falam juntos.
— Ah, parem com isso! Vai me dizer que não foi bom? — Ela parou na minha frente, ignorando o olhar fulminante que os gêmeos davam para ela, e segurou minhas mãos. — %Malia%, olha para mim, está tudo bem. Tem alguém que você gostaria de falar? Alguém, sem sermos nós?
Respirei fundo, concordando.
— Sua melhor amiga? — %Trent% perguntou. — Ok, me dê seu celular.
Entreguei para ele, sem reclamar. Meus dedos ainda tremiam por conta da adrenalina, então apenas o segurei para liberar com o reconhecimento facial. Em poucos minutos %Trent% me devolveu o celular.
— %Malia%? O que houve? Aconteceu alguma coisa? — Ela parecia um pouco histérica do outro lado do telefone.
— Acabei de ter uma briga com a Payton. No meio da escola. — Minha voz saiu um pouco abafada por causa do choro.
— Ah merda… Quem ganhou? Por favor, me diga que foi você. — Soltei uma risada sincera desde o início dessa confusão.
— Talvez ela tenha apanhado um pouco mais que eu. — Suspirei, fechando os olhos. — Acho que irei precisar de um lugar para ficar depois de hoje. Tenho certeza que Axel irá me expulsar.
— Minha casa está sempre aberta para você, Lia. — Evie fala docemente, quase me fazendo chorar.
— Obrigada… Te amo. — Me despeço dela e desligo o celular sentindo o peso de três pares de olhos sobre mim.
— Eu sei que ela é sua melhor amiga, mas minha casa também estaria disponível se você precisasse. — Summer parecia um pouco chateada.
— Olha, vocês são demais, mas não quero arrastá-los para os meus problemas. — Expliquei.
— Que se foda! Eu nunca cheguei perto de ter amigas até você chegar. — Summer, bufou. Virando de costas e saindo dali.
— O que eu fiz? — Perguntei, perdida.
— Meio que você quebrou a confiança dela… Ao não confiar nela. — Tyler explicou. — Vou atrás dela para acalmar as coisas.
Ficamos apenas eu e %Trent% para trás.
— %Malia%… — %Trent% parecia chateado. — Eu adoro ver que você busca em Evie seu porto seguro, mas espero que você também possa nos incluir.
— É difícil, %Trent%. Estou tentando, juro. — Viro o rosto para o lado, envergonhada. — A propósito… Obrigada por ter me tirado de lá.
— Estou sempre a disposição Isso é se você não ameaçar chutar minhas bolas novamente. — Ele sorriu de lado, um sorriso que costumava me irritar no começo, mas que de certa forma me trazia paz.
— Eu não iria fazer isso... — Tento falar. Mas %Trent% se afasta de mim com um olhar cético. — Ok! Talvez eu fosse fazer isso. — Corrijo minha resposta bem a tempo do meu nome ser chamado pelo alto falante. — Acho que é isso. A hora da minha sentença..
— Não é como se você fosse expulsa da escola, %Malia%. No máximo suspensão ou uma detenção. — %Trent% tenta me acalmar.
— Posso até não ser expulsa da escola, mas que irei sofrer uma penalidade grave, isso eu tenho certeza.
Me levantei da mureta, me ajeitando. Meu corpo inteiro latejava, mas eu queria entrar naquela sala com todo o meu orgulho.
N/a: Hello! Hello!
SOCORRO! Gente, vocês não tem ideia do ranço que eu tenho da Payton toda vez que eu vejo o que ela faz com a Malia. Tipo? A gente sabe que a Malia não é santa, mas a irmã dela é o cão, né? kk.
Eu tava doida pra soltar essa cena da briga! Na primeira versão, os motivos foram um pouquinho diferentes... MAS, antes que vocês pensem que elas só brigam por causa de homem, tenho que vir aqui e defender as duas, porque não é bem assim. Na realidade existe uma profundidade bem maior do que o Trent nessa história toda, e acho que vocês já perceberam isso, né?
Viram que temos um novo rosto nesse capítulo? (Spoiler, ele é um dos meus personagens favoritos)
E me contem, o que acharam desse capítulo? Ansiosos para os próximos?
Ahhh, aproveitando também para avisar que temos uma história nova no site “Aquilo que nos favorece”. Se você gosta de segredos e intrigas, corre lá para acompanhar também!
Beijos e até a próxima att.