Entre a Honra e o Desejo

Escrita porRay Dias
Revisada por Lelen

Capítulo 2

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

  O salão parecia girar em torno dele, mas %Yujin% mal conseguia enxergar os lustres de cristal, os convidados sorridentes, as conversas vazias. Cada riso que ecoava era uma lembrança do que havia perdido, do que a família Park havia tirado dele. Ele se apoiou na borda de uma mesa lateral, a mão fechando-se sobre a taça de vinho como se quisesse esmagá-la, mas seu movimento foi contido, quase involuntário.
0
Comente!x

  — Então é nela que você anda gastando seu tempo? — A voz firme de Minjae fez %Yujin% estremecer.
0
Comente!x

  O primo estava atrás dele, mas não havia surpresa, apenas a habitual mistura de preocupação e censura que Minjae sempre exibia. %Yujin% suspirou, desviando os olhos de %Sooah%, que ainda sorria com um esforço quase doloroso ao lado da mãe.
0
Comente!x

  — Você não entende — murmurou, a voz tensa.
0
Comente!x

  — Entendo perfeitamente. — Minjae se aproximou, baixando o tom. — Ela é a filha do homem que destruiu o seu pai, %Yujin%. O que você vê nela te cega a ponto de esquecer a história inteira?
0
Comente!x

  %Yujin% apertou os olhos, sentindo o calor da raiva subir ao rosto. Lembranças antigas o revisitaram, como se a noite inteira estivesse sendo assombrada por fantasmas do passado. Lembrou-se das reuniões de negócios fracassadas, do pai, Seokjin, chegando em casa exausto, das noites em que a mãe dele chorava silenciosa no quarto da cozinha, escondendo o rosto para que ele e o primo, Minjae, não percebessem a própria fragilidade. Lembrou-se da humilhação, das portas que se fechavam, dos sonhos que se desmanchavam na noite do destino.
0
Comente!x

  — Eu nunca esqueci. — Ele respirou fundo, tentando controlar o nó na garganta. — Cada vez que olho para ela, lembro do que eles nos tiraram.
0
Comente!x

  Minjae permaneceu imóvel, a expressão rígida.
0
Comente!x

  — Então é exatamente por isso que você não pode se permitir nada com ela. — A voz do primo era firme, mas carregava uma nota de preocupação. — É perigoso demais, %Yujin%. Um passo em falso e tudo que restou da nossa família se complica ainda mais.
0
Comente!x

  %Yujin% fechou os punhos, sentindo a luta interna crescer dentro dele. Queria obedecer, queria cumprir a promessa de vingança que havia nutrido desde criança. Mas, ao mesmo tempo, a lembrança do sorriso de %Sooah% no jardim, do jeito como ela falava, das mãos delicadas que ele havia segurado por breves instantes… tudo isso se infiltrava em sua mente, enfraquecendo suas defesas.
0
Comente!x

  — Ela não é como eles. — A voz dele saiu baixa, quase um sussurro, mas carregada de uma intensidade que fez Minjae recuar.
0
Comente!x

  — É justamente isso que torna tudo mais perigoso! — respondeu o primo, firme. — Porque você vai querer protegê-la, %Yujin%. Vai querer lutar por ela. E, se fizer isso, arrisca perder o que restou de nós.
0
Comente!x

  %Yujin% soltou um riso curto, sem humor.
0
Comente!x

  — Você acha que não sei disso? Você acha que não sinto a guerra dentro de mim?
0
Comente!x

  Minjae permaneceu em silêncio, apenas observando o primo.
0
Comente!x

  %Yujin% respirou fundo, tentando organizar os pensamentos. A fumaça do cigarro que acendeu discretamente ao sair do salão subia preguiçosa, dançando contra o céu noturno. Ele observou as luzes da cidade refletidas nas gotas de chuva que começavam a cair sobre os carros estacionados.
0
Comente!x

  — Eu deveria odiá-la — murmurou. — Deveria enxergá-la como parte da família Park, inimiga da nossa honra…
0
Comente!x

  Ele tragou fundo o cigarro, fechando os olhos.
0
Comente!x

  — Mas não sei se consigo. — A voz saiu rouca, carregada de dor e frustração. — É como se algo estivesse nos levando de encontro um para o outro.
0
Comente!x

  %Yujin% abriu os olhos e olhou para o salão de novo. %Sooah% ainda estava cercada pelos pais, sorrindo para os convidados, mantendo a postura impecável. Mas ele conseguia ver, mesmo à distância, o peso em seus ombros, a luta silenciosa que ela travava para obedecer às regras da família. E naquele instante, %Yujin% percebeu que, por mais que odiasse a família dela, não podia odiar a mulher.
0
Comente!x

  — Eu não sei mais… — murmurou, deixando a fumaça escapar pelos lábios. — Eu não sei se consigo cumprir a promessa do meu pai.
0
Comente!x

  Minjae colocou a mão em seu ombro, firme.
0
Comente!x

  — Então tenha cuidado — disse. — Porque ela pode ser a única coisa capaz de te destruir e de te salvar ao mesmo tempo.
0
Comente!x

  %Yujin% olhou para o primo, sem responder. Sentia a tensão crescer dentro de si, mas também uma estranha esperança. Era perigoso demais. Mas a vontade de se aproximar dela crescia a cada segundo.
0
Comente!x

  E ali, sob o céu noturno, com a fumaça subindo e o peso do passado pressionando seu peito, %Yujin% compreendeu que um jogo que havia começado — e que, por mais que tentasse, nada mais seria simples.
0
Comente!x

  No passado, a família Han era uma das maiores concorrentes no ramo de construção civil. Han Seokjin, o pai de %Yujin%, tinha projetos grandiosos e uma reputação de empresário íntegro, mas que confiava demais. O pai de %Sooah%, Park Jonghyun, político influente e acionista oculto em várias empresas, teria manipulado contratos e usado sua influência para derrubar os Han, garantindo que os Park consolidassem monopólio no setor.
0
Comente!x

  Rumores diziam que não foi somente um jogo de negócios, mas uma manobra suja: documentos falsificados, sabotagem em licitações, uma aliança escusa entre políticos e empresários. O resultado foi devastador: os Han perderam quase tudo, e Seokjin morreu alguns anos depois, desgastado pela ruína e pelas dívidas. Para os Park, a vitória foi mais um passo na escalada de poder. Para os Han, foi uma cicatriz que nunca cicatrizou.
0
Comente!x

  De volta ao salão, %Yujin% apoiou a taça vazia na mesa e respirou fundo. Ele sentia a presença de %Sooah% do outro lado, como se houvesse um fio invisível os ligando. Um fio feito de tudo o que deveria separá-los.
0
Comente!x

  — Ela não pode ser nada para você — disse Minjae, em tom definitivo. — Lembre-se da nossa família. Lembre-se do que juramos.
0
Comente!x

  %Yujin% forçou um sorriso frio, mas seus olhos estavam sombrios.
0
Comente!x

  — Eu lembro. — Pausou. — Só não sei se consigo cumprir.
0
Comente!x

  Ele queria odiá-la. Precisava odiá-la. Mas cada vez que lembrava dos olhos dela no jardim, a raiva se confundia com um desejo ainda mais curioso.
0
Comente!x

• ENTRE • A • HONRA • E • O • DESEJO •

  Os dias seguintes foram um equilíbrio precário entre obrigação e rebeldia para %Sooah%. Cada manhã começava igual: acordar cedo, tomar café com a mãe que repetia, em tom firme, que nada poderia manchar a reputação da família, e enfrentar compromissos sociais que pareciam mais ensaios teatrais do que a realidade.
0
Comente!x

  Ela ia a eventos, assinava contratos sociais, sorria para políticos e empresários como se fosse só mais uma peça do tabuleiro. Mas, nos momentos isolados, %Sooah% se pegava lembrando de %Yujin%. O modo como ele a seduziu com poucas palavras aquela noite no jardim, o jeito sincero como falava sobre livros e o tempo agradável que passou ao lado dele, trancados em um veículo debaixo de chuva graças a uma carona qualquer. Cada memória queimava como brasa sob a máscara que ela precisava manter.
0
Comente!x

  Enquanto isso, %Yujin% mergulhava ainda mais nos negócios da família Han. Contratos, reuniões e planejamentos de recuperação consumiam-no durante o dia, mas à noite ele sentava sozinho no escritório, a cidade brilhando lá fora, e se lembrava de %Sooah%. Cada pensamento revisitava: o sorriso dela, os gestos pequenos que o haviam desarmado, a maneira como ela parecia genuinamente fora do alcance das intrigas da elite.
0
Comente!x

  Ele sabia que não podia se aproximar. O peso da promessa ao pai e a vingança que alimentava há anos eram forças que o puxavam para trás. Mas algo em %Sooah% o mantinha ligado, mesmo quando queria se afastar.
0
Comente!x

  E então vieram os sinais sutis, quase cruéis, de que o destino estava manipulando mesmo as coisas. No trabalho, %Yujin% começou a ser chamado para reuniões de negociação envolvendo empresas que a família Park controlava. Ele precisava interagir com representantes dos Park, e cada encontro acendia a tensão interna. %Sooah%, por sua vez, estava envolvida nesses eventos do lado da família, atuando como mediadora social ou acompanhando contratos. Eles se viam de longe, olhares furtivos atravessando a sala, o mesmo fogo silencioso que não podia ser ignorado.
0
Comente!x

  Na cidade, um café que %Sooah% frequentava se tornou ponto de encontro casual. %Yujin%, sem planejar, entrou no mesmo local várias vezes. Fosse para um encontro de negócios disfarçado de pausa, fosse por coincidência, como se o acaso brincasse com eles. Cada vez, um comentário rápido, um sorriso contido, ou o reconhecimento silencioso. Nos eventos sociais, outra gala beneficente trouxera ambos novamente ao mesmo salão, desta vez em posições oficiais opostas. A mãe de %Sooah% supervisionava cada passo, enquanto Minjae observava %Yujin%, lembrando-o de manter distância. Mas eles não conseguiam evitar os pequenos encontros de olhos, toques breves e sorrisos que desafiavam toda a lógica.
0
Comente!x

  Apesar de tentarem manter distância, o desejo entre eles crescia de forma inevitável. É fato, o proibido é sempre mais gostoso. Cada interação, por mínima que fosse, carregava tensão. Cada conversa era recheada de duplo sentido, provocações leves e sussurros que só eles podiam ouvir. A verdade é que ambos sequer se esforçaram para manterem distância. Mesmo ocasionalmente se esbarrando, eles poderiam evitar-se, no entanto, não quiseram. E assim, o romance secreto florescia, mesmo com a sombra das famílias e do passado a pressioná-los.
0
Comente!x

  %Sooah% começou a questionar sua própria obediência. Cada sorriso e gesto de cuidado de %Yujin%, mostrava que havia mais na vida do que seguir regras impostas. Ela descobriu que podia sentir, sem solicitar permissão, sem medo, mesmo que isso a colocasse em conflito com a família. %Yujin%, por outro lado, se via dividido. A vingança que alimentara por anos começava a se confundir com a paixão. Cada vez que ela surgia inesperadamente em sua rotina, a raiva diminuía, e o desejo de protegê-la aumentava, mesmo que isso o tornasse vulnerável.
0
Comente!x

  Os encontros escondidos de %Sooah% e %Yujin% se tornaram quase uma coreografia silenciosa. Um olhar ou visita aos pontos cegos nos corredores de um hotel corporativo, brunchs rápidos em um café escondido de Gangnam, trocas de mensagens discretas durante uma gala onde nenhum dos dois deveria sequer notar que o outro existia.
0
Comente!x

  Desde as aproximações não planejadas quanto àquelas propositalmente arranjadas, os dois percebiam que o interesse intensificava, uma gravidade nova surgia entre eles puxando-os para mais perto, mesmo quando tudo insistia em empurrá-los para longe. %Sooah% sentia isso no peito sempre que via %Yujin% levantar o olhar no meio de uma reunião e encontrá-la ao fundo, com o queixo erguido, lutando contra a postura que os Park exigiam dela. %Yujin% sentia isso nas mãos, toda vez que tocava nela fosse com desejo, ou com uma troca de papéis, um contrato a ser assinado, um aperto de mão que quase se tornava íntimo, ou ainda.
0
Comente!x

0 0 votos
Classificação do artigo
Inscrever-se
Notificar de
guest

0 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários
Todos os comentários (1)
×

Comentários

Você não pode copiar o conteúdo desta página

0
Adoraria saber sua opinião, comente.x