Efeito Colateral


Escrita porJuliana M.
Editada por Natashia Kitamura


Capítulo 6 • %Ananya% e %Anthony%

Tempo estimado de leitura: 50 minutos

  %ANANYA%

  Duas semanas depois.
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  Faltavam exatamente setenta e duas horas para o fim de semana e ele estava longe de ser comum. Era o fim de semana do meu aniversário.
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  Diferente do que acontecia com a maioria das pessoas, a proximidade da data não me despertava ansiedade nem estresse. Pelo contrário: eu me sentia tomada por uma tranquilidade profunda. Tudo estava sob controle, quase rigorosamente. Cada detalhe fora minuciosamente planejado e negociado com meses de antecedência.
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  Mais uma vez, meu aniversário seria exatamente como eu esperava. Nem um grau a mais, nem um a menos.
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  O hotel na Ilha Sundar mantinha a mesma gerência desde o meu primeiro aniversário ali, o que garantia uma memória institucional impecável. A equipe inteira – da cozinha à governança – já conhecia o ritmo da dança. Além de contarmos com um planner dedicado, um profissional pago para suar cada detalhe de logística, decoração e cardápio, minha mãe fazia questão de inspecionar pessoalmente todas as etapas.
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  A única parte que realmente ficava sob minha responsabilidade era a lista de convidados. Eu mesma organizava a distribuição de quartos, passagens e horários de cada um. Como eu não tinha tantos amigos, a maior parte do trabalho envolvia, na verdade, meus primos.
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  Os poucos convidados que não pertenciam à família sempre ficavam em suítes, uma escolha prática, considerando que eu sabia que o único “conforto” que meus primos realmente exigiam era bebida e cigarro à disposição. No fim das contas, eu tinha plena consciência de que aceitariam dormir no chão, se fosse necessário, contanto que houvesse álcool por perto.
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  Fechei a pasta com divisórias, dando uma última olhada para garantir que todos os convidados tivessem suas passagens e as instruções sobre os quartos do hotel. A maioria já havia participado do meu aniversário em anos anteriores, então sabiam exatamente como se organizar. Depois de guardar a pasta na bolsa, olhei para o relógio e percebi que já estava mais do que na hora de ir para casa.
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  Franzi o cenho ao pegar o celular e notar a ligação perdida. Estive tão imersa na revisão final que não percebi o aparelho tocar. Retornei enquanto guardava os últimos objetos na bolsa.
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  – O que é isso que você me enviou por e-mail?
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  – Boa noite para você também, %Anthony%. São suas passagens. Lembra que eu disse que iríamos amanhã?
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  Não nos víamos pessoalmente havia duas semanas. Nosso contato se limitara a mensagens pontuais, como no dia em que precisei dos dados dele para comprar as passagens.
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  – E nós vamos de trem? – Perguntou, incrédulo, tentando decidir se eu estava brincando ou se falava sério.
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  – Sim.
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  – Por quê? De avião não dá nem uma hora. De trem são quase seis. – Ele parecia fazer cálculos mentais, tentando encontrar alguma lógica.
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  – É que eu não ando de avião.
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  – Você… espera. O quê? Você não anda de avião? Achei que todo rico andasse de avião.
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  – Não quando posso evitar. – Dei de ombros, já ajustando a bolsa no ombro, pronta para sair.
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  – Você tem medo?
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  – Pavor.
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  – Por quê?
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  – Precisa de um motivo?
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  – Bom… sim?
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  – Medo de cair. Ou de ficar no ar para sempre. Essas coisas. – Respondi de forma simples, até porque não era algo que eu soubesse explicar. Tranquei a porta do escritório, acenei para o segurança do andar e segui em direção ao elevador, sem acrescentar mais nada.
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  – Então por que você tem pavor de voar, eu sou obrigado a passar seis horas dentro de um trem?
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  A pergunta me fez parar. Fiquei imóvel por um segundo, sentindo um calor desconfortável subir pelo rosto.
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  Ele tinha razão.
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  Eu podia ir de trem. Ele não precisava me acompanhar. Havíamos concordado em ir como um casal, não em chegar juntos, nem em dividir cada deslocamento como se aquilo tivesse algum significado além do combinado. Eu só… tinha presumido. O que, exatamente? Nem eu sabia dizer.
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  Talvez eu tivesse confundido, por ele ser meu par naquele fim de semana, imaginei que dividiríamos tudo. Que, fosse de trem ou avião, ele estaria ao meu lado porque, ao menos naquele intervalo cuidadosamente delimitado, éramos “um casal”. Mas a verdade mais pura era que %Anthony% não era meu par. Não de verdade.
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  Ele estava desempenhando um papel. E eu?
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  – É… você tem razão. – Admiti, em voz baixa, sentindo o peso da própria lucidez. – Eu consigo uma passagem de avião pra você. Me desculpa, eu só pensei que… – Interrompi a frase a tempo. Não havia nada ali que precisasse ser dito em voz alta. – Vou mudar agora.
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  – Não, %Anya%. Não precisa gastar com isso. – Respondeu. – Só fiquei surpreso. Só isso.
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  – Tem certeza? – Insisti, já no automático. – Posso emitir agora mesmo. Você está certo… não é necessário que cheguemos juntos.
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  – Não se preocupe com isso. – Houve uma pausa curta. – Ouço o elevador. Você ainda está na empresa?
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  – Saindo agora.
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  – Melhor descansar, %Anya%. Vamos ter um fim de semana e tanto pela frente. – A voz dele mudou, imperceptivelmente mais baixa. – E, olha… você nunca foi minha namorada. Não sabe o quanto esse papel pode ser cansativo.
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  – Sinto informar, %Anthony%, – Sorri de lado. –, mas eu sou a melhor namorada que você poderia ter.
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  – Veremos. – O silêncio que se seguiu foi curto, ainda assim, eu permaneci parada por alguns segundos, o telefone junto ao ouvido, como se tivesse perdido o timing de alguma coisa que não sabia nomear. – Então… nos vemos amanhã.
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  – Sim. Amanhã. – Respondi rápido demais.
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  Desliguei antes que ele acrescentasse qualquer coisa.
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  Controle, %Anya%. Era só isso.
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  O trem sairia às nove da noite. Seis horas de percurso. Tempo suficiente para revisar mentalmente cada detalhe do fim de semana. Em que momento eu tinha começado a esperar mais do que o combinado?
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  Afastei o pensamento com a mesma disciplina que aplicava a qualquer variável inconveniente. “%Anthony% não é meu par. É só um acordo”, repeti a frase em silêncio, como um lembrete. Como uma correção de rota.
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– Ժ –

%ANTHONY%

  Na noite seguinte, me vi parado no centro de uma estação de trem em que nunca havia pisado antes. Quando adolescente, eu pegava o metrô todos os dias para ir à escola, mas aquilo ali parecia pertencer a um mundo completamente diferente. A estação era ampla, silenciosa e organizada, nada que lembrasse o caos das estações públicas que eu conhecia.
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  Apalpei o bolso do casaco em busca da passagem, procurando o número do portão. Tentando não parecer tão deslocado quanto me sentia, puxei as duas malas pesadas até o segurança mais próximo.
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  – Com licença, pode me informar onde fica esse portão? – Perguntei enquanto o homem alto analisava a passagem.
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  – O embarque VIP fica após o portão número três, senhor.
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  – VIP?
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  – Sim, senhor. Sua passagem é para os trens exclusivos, com cabine individual deluxe. – Explicou, solene, como se aquilo fosse absolutamente corriqueiro. – Posso acompanhá-lo até lá, se desejar.
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  Provavelmente imaginou que eu fosse o responsável por aquele gasto absurdo.
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  – Não, obrigado. Eu me viro.
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  Segui na direção indicada, mas o incômodo começou a se instalar antes mesmo de chegar ao tal portão. Não era só um trem mais sofisticado. Era outra classe social. Um universo paralelo.
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  As mulheres estavam impecáveis, maquiagem precisa, roupas que pareciam escolhidas para serem vistas. Os homens vestiam ternos e casacos claramente sob medida. Me arrepiei ao pensar que, por enquanto, eram apenas estranhos cruzando meu campo de visão. Mas, em breve, aquelas pessoas seriam os familiares e amigos de %Anya%.
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  Quando finalmente cheguei ao portão correto, não demorei a encontrá-la. %Anya% estava sentada em uma das poucas cadeiras estofadas. Usava um vestido preto e um casaco bege um pouco mais longo do que o necessário. O contraste fazia com que o comprimento do vestido parecesse ainda mais curto, deixando as pernas à mostra.
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  Levei menos de um segundo para perceber que passar seis horas naquele trem sem encará-las seria um desafio.
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  – Você está atrasado. – Ela disse assim que me viu.
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  – Boa noite, %Ananya%. – Ajustei as malas nas mãos. – Eu sequer sabia que existia um portão VIP.
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  – Eu costumava viajar nos trens comuns, mas passei tempo suficiente sobre trilhos para acabar ganhando um cartão fidelidade. Acredite ou não, gasto menos no VIP do que gastaria nos trens normais.
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  – Você fala como se não tivesse dinheiro para as duas opções.
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  – Tenho. – Ela se levantou, apanhou uma das malas do chão e empurrou outra na minha direção, sem qualquer cerimônia. – Mas só uma delas me garante lounge, restaurante e cabines individuais.
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  – De novo eu pergunto: como é ter tudo o que quer, %Anya%?
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  Suspirei enquanto recolhia a mala dela e a encaixava junto às minhas. Naquele ponto, eu já carregava três malas e uma mochila. Um nível de servidão que eu jamais imaginara atingir. Ela riu, obviamente satisfeita com a cena, e saiu caminhando à frente, equilibrando a bolsa em uma mão e a mala de rodinhas na outra.
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  E lá estava eu, logo atrás, feito um mordomo em um filme de comédia, transportando o que parecia ser a bagagem completa da família %Bhasin%, mas que, na prática, era apenas o guarda-roupa pessoal de %Ananya% %Bhasin%.
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  Após os procedimentos básicos, fomos conduzidos ao trem. O corredor era longo, silencioso e absurdamente sofisticado. Enquanto avançava, comecei a calcular mentalmente quanto tudo aquilo deveria custar. Provavelmente o suficiente para quitar todas as minhas dívidas e ainda sobrar para um carro usado.
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  – Teve problema para conseguir sair mais cedo? – Ela perguntou.
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  Como viajaríamos de trem, precisaríamos sair na quinta-feira, um dia antes de todo mundo. Mas Martinez ficou tão emocionado ao receber a ligação da própria %Ananya% pedindo minha liberação antecipada que quase me ofereceu um bônus. Tenho certeza de que, se ela tivesse pedido com um pouco mais de carinho, ele assinaria minha demissão sorrindo.
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  – Martinez quase chorou quando você ligou. Achei que fosse me dar férias só por causa disso.
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  – Me desculpa de novo por ter feito você vir de trem.
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  – Vai ser difícil, mas acho que consigo te perdoar. – Respondi, com uma dramaticidade ensaiada, parando diante da porta da cabine. – Meu Deus. Isso aqui é…
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  As palavras simplesmente desapareceram.
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  Eu esperava um espaço estreito, duas camas desconfortáveis e um cheiro suspeito. Em vez disso, encontrei uma cabine digna de suíte presidencial. As paredes em tons profundos de vermelho, detalhes dourados, uma cama de casal ocupando o centro como um trono. Um sofá de veludo no canto. Uma mesa de madeira escura com dois cardápios perfeitamente alinhados e uma cloche de prata no meio. Tudo brilhava demais para parecer real.
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  – Essa é a cabine? – Perguntei, ainda em choque. – Ou entramos sem querer na casa de alguém obscenamente rico?
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  Ela riu. E, naquele instante, pela primeira vez desde que essa loucura de namoro falso começou, eu me senti… perigosamente animado com aquele fim de semana.
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  – O trem faz algumas paradas, chegamos nas primeiras horas da manhã... – Explicou, entrando enquanto eu ainda permanecia parado na porta. – O que foi?
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  – Estou tentando entender como vou viver o resto da vida andando só de trem. – Entrei, arrastando a mala, os olhos correndo pelo teto e pelas paredes decoradas, absorvendo cada detalhe. – Acho que vou acabar tendo que dar o golpe da barriga em você.
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  – Boa sorte com isso. – Ela ironizou.
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  %Anya% estava de costas, ocupada em retirar o casaco com movimentos precisos, quase coreografados. Dobrou o tecido com cuidado excessivo e o apoiou sobre o sofá de veludo. Larguei as malas perto da parede, consciente demais de que, por maior que fosse, aquela cabine ainda nos manteria presos ali pelas próximas horas. Sozinhos.
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  %Anya% se virou por fim, apoiando o peso em uma perna só. O vestido preto caía perfeitamente, simples demais para aquele ambiente exagerado. Por um instante, nossos olhares se encontraram sem aviso. Sustentamos o contato um segundo a mais do que o necessário.
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  Ela foi a primeira a desviar, virando de costas para mim. Sentei na poltrona roxa e dourada, sem saber muito bem o que fazer em seguida. %Anya%, pelo contrário, parecia totalmente confortável naquele ambiente. Ela retirou os sapatos e foi até a mesa pequena encostada em um canto da cabine. %Anya% folheava o cardápio com paciência e atenção.
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  – Quer ir jantar? O restaurante daqui é ótimo. – Passou o cardápio e se voltou para o sofá, pegando o celular enquanto eu lia.
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  – Eu prefiro comer aqui, se não houver problemas.
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  Se aquilo era apenas o aperitivo da viagem, eu preferia nem imaginar o que o vagão-restaurante reservava. Era luxo demais concentrado em um só lugar e nós nem havíamos chegado ao destino final. %Anya% ergueu a cloche com naturalidade. No lugar da comida, havia um objeto: uma carta de vinhos encadernada em couro macio, com letras douradas em alto-relevo.
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  – Vai querer algo para beber?
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  – Um suco de morango. – Ela respondeu.
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  – Sem vinho? – Testei, dando uma espiada na carta.
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  O vinho mais barato da lista custava, com exatidão ofensiva, o meu salário. Não o mensal. O salário inteiro. Um valor que, naquele contexto, parecia perfeitamente razoável. Um insulto elegante a toda a minha lógica financeira.
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  Era óbvio que eu pediria um. E colocaria na conta dela.
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  – Você sabe que eu não bebo, %Anthony%. – Ela reforçou, como quem avisa pela centésima vez que não come glúten.
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  – É, eu sei. Só queria saber se isso já tinha mudado.
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  – Poucas coisas na minha vida mudam. Mas fique à vontade. – Ela fez um gesto suave com a mão, como se estivesse me concedendo acesso ao Olimpo. Aquilo tudo me dava uma certa aflição burguesa, mas quando %Anya% fazia, parecia quase... charmoso. – Também vou precisar trocar o cobertor. Sintético faz mal à minha pele.
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  E lá estava ela de novo. A lição constante, quase pedagógica, de sua riqueza obscena. Como se o universo tivesse sido calibrado para atender às exigências de %Ananya% %Bhasin%.
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  Após o jantar ser servido, ficamos um tempo ali, a conversa fluindo entre garfadas sobre os dias que nos aguardavam na ilha. %Anya%, com um entusiasmo contido, começou a desenhar o roteiro.
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  Sexta-feira: um jantar de boas-vindas oferecido pelos pais dela. "Algo formal", explicou. Sábado, o ápice: sua festa de aniversário, um evento que ela descreveu com a logística de um tratado internacional. Domingo, para descomprimir (ou para prolongar a agonia), um passeio de barco. Enquanto descrevia tudo, havia um brilho nos olhos, uma animação genuína, quase infantil, por cada detalhe. Apesar do tom despretensioso, era óbvio que cada minuto havia sido maquinado com cuidado.
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  – Minha família é… intensa. – Ela acrescentou, depois de um instante. – Muitos primos, poucos amigos de verdade. Pais que gostam de fingir que são protetores. E eu tenho uma tendência meio preocupante a fazer escolhas questionáveis no meu aniversário.
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  – Um talento. – Comentei e ela sorriu, breve.
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  – Então é melhor você estar preparado.
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  Levei a taça aos lábios, degustando o vinho com mais atenção do que precisava. Bom demais. Caro demais. Eu estava literalmente bebendo meu salário.
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  – E que tipo de casal nós vamos ser? – Perguntei, apoiando o cotovelo na mesa. – Preciso reativar minhas aulas de teatro da senhora Cayllo?
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  – Meu Deus, eu lembro dela! – %Anya% riu, de verdade. – Aquela que tinha o cabelo azul com…
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  – Pontas amarelas. – Completei.
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  – Isso! – Ela balançou a cabeça, divertida. – Ela dizia que emoção se sentia no diafragma, não na voz.
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  – Ela dizia muita coisa questionável.
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  O riso se dissipou aos poucos, como se ambos soubéssemos que aquilo era a última camada segura da conversa.
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  – Vamos só ser nós mesmos. – Ela disse, por fim. – É mais fácil. Somos amigos, afinal. Não? – Observei o jeito como ela esperava minha resposta sem me encarar diretamente.
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  Eu não era amigo da %Anya%. E, para ser franco, não tinha certeza se queria ser.
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  – Como era com seu último namorado? – Cortei, ignorando deliberadamente a pergunta dela.
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  – Bom… – Começou e a hesitação já dizia mais do que qualquer explicação. – A gente era carinhoso. Sem exageros. Também… eu e o Andreas não tínhamos química nenhuma.
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  – Ah, entendi. – Levei a taça aos lábios, mas não bebi. Mantive o vinho suspenso no ar enquanto sustentava o olhar dela por um segundo além do necessário.
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  Ela e Andreas não tinham química. Nenhuma. Certo.
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  Mas nós…
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  Era como brincar com fogo acreditando que dava para controlar a chama. Funcionava… até deixar de funcionar.
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  E, bem, não dava pra fingir que nada nunca tinha acontecido entre nós. Porque tinha. Uma vez. Uma única vez. E mesmo que tenha sido só uma rapidinha – impulsiva, escondida, quase criminosa – foi boa. Boa demais. Boa o suficiente para eu ainda pensar nela às vezes como quem lembra de um gol aos 45 do segundo tempo.
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  Engoli em seco, tentando empurrar o pensamento para algum lugar mais seguro.
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  – Só tem um detalhe técnico.
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  – Qual?
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  – O risco colateral. – Inclinei levemente a cabeça. – Da linha ficar tão borrada que nem a senhora Cayllo conseguiria dar um jeito nisso. – %Anya% me encarou como se estivesse diante de um quebra-cabeça que ainda não sabia se queria montar. Esperava que eu risse, que dissesse brincadeira, como de costume. – O que estou tentando dizer...
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  – Eu entendi, %Anthony%. – Me interrompeu. – Está falando sério? Acha mesmo que isso pode acontecer?
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  – Os filmes estão aí para provar que sim. – Dei de ombros, tentei disfarçar com um tom brincalhão.
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  Ela se inclinou levemente para a frente, estudando meu rosto, como se procurasse uma rachadura na postura.
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  – Você acredita em filmes. São literalmente feitos em estúdios de papelão e, adivinha só? Os atores são pagos. – Sussurrou, como quem entrega um segredo de Estado.
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  – Só porque é um filme não quer dizer que não aconteça na vida real. Titanic. O Lobo de Wall Street… – Citei só para provocar e consegui arrancar uma risada.
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  – Avatar? Alien vs. Predador? – %Anya% arqueou as sobrancelhas, desafiadora.
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  – Escolheu logo os mais realistas. Humanos azuis e alienígenas musculosos brigando entre si… brilhante. – Inclinei a cabeça, teatral. – Mas… estatisticamente falando, é impossível que algo parecido não tenha acontecido em algum canto do universo. A gente nunca sabe.
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  – %Anthony%, isso é literalmente ficção científica. – Ela balançou a cabeça, divertida. – Assim como em todas as comédias românticas. Mas, se você precisa de uma confirmação… – Ela acrescentou, com um sorriso pequeno, quase calculado. – Fica tranquilo, Romeu. Se acontecer, eu dou um jeito.
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  – Você sempre “dá um jeito”? Em tudo?
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  %Anya% sustentou meu olhar por um segundo longo demais antes de responder.
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  – Alguém precisa. – Deu de ombros. – Se eu não fizer, ninguém faz.
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  – Controlar não é o mesmo que evitar... – Murmurei, mais para mim do que para ela.
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  O trem seguiu pelos trilhos com um solavanco quase imperceptível e eu aproveitei o movimento para desviar do olhar atento dela. %Anya% inclinou a cabeça, como se estivesse me analisando de novo.
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  – Você está preocupado comigo ou com você, %Anthony%? – A pergunta me pegou desprevenido. Abri a boca para responder qualquer coisa espirituosa e leve, mas nada veio. %Anya% percebeu. – Relaxa. Isso aqui é só um fim de semana.
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  Assenti, forçando uma risada, tentando aliviar o clima. Funcionou o suficiente para que ela retomasse o discurso automático sobre horários, convidados e protocolos familiares.
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  Levantei os olhos por cima da armação dos óculos e da borda do copo bem a tempo de ver %Anya% se ajeitando na cama.
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  Ela se acomodou entre as almofadas com a naturalidade de quem já tinha decidido que dali não sairia tão cedo. O iPad repousava sobre as pernas dobradas, iluminando o rosto dela. Dei uma olhada rápida no relógio do pulso. Passava das onze.
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  Continuei recolhendo a mesa do jantar, empilhando os pratos com mais cuidado do que realmente era necessário.
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  – %Anthony%, você não precisa fazer isso. – Ela disse pela terceira vez naquela noite, sem nem tirar os olhos do iPad.
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  Ignorei o aviso com a dignidade de quem finge que não ouviu.
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  Levei os talheres até a bandeja, alinhei tudo, ajustei um guardanapo que já estava perfeitamente alinhado… tarefas completamente desnecessárias, mas surpreendentemente úteis.
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  Manter as mãos ocupadas ajudava a acompanhar o cenário sem pensar demais nele.
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  Quando terminei de organizar tudo, apoiei as mãos na mesa por um segundo e olhei de novo para o sofá. Eu já tinha testado antes. Um pedaço de papelão teria sido mais acolhedor.
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  Dormir ao lado de %Ananya% %Bhasin%.
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  Nem nos meus devaneios mais improváveis essa frase fazia sentido.
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  – Tem problema se eu dormir com você? – Perguntei, tentando soar casual. Ela não tirou os olhos do tablet. – Aquele sofá não tem estofado nenhum.
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  – Não. Fica à vontade.
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  Novamente, ela fez aquele gesto breve de mão, o mesmo de sempre. Só que, desta vez, na penumbra do quarto, com a cama entre nós e a pergunta ainda pairando no ar, aquilo não parecia um gesto de autoridade. Parecia um convite.
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  Talvez dormir ao lado dela não fosse uma boa ideia. Não era como se eu fosse um tarado ou qualquer coisa do tipo. Mas %Anya% tinha esse efeito estranho, uma capacidade quase irritante de me deixar atento demais às próprias reações. Cauteloso com pensamentos que, em circunstâncias normais, eu sequer teria.
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  E eu tinha provas disso.
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  Aquela noite. A bendita e maldita noite.
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  – Ér… pensando bem – Comecei, limpando a garganta –, eu posso ficar aqui mesmo. Não tem problema.
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  Ela levantou os olhos do tablet, o olhar desceu até a taça de vinho abandonada sobre a mesa… e então voltou para o meu rosto.
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  Me senti invadido. E, para meu próprio desgosto, levemente excitado.
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  – Como eu disse, eu não ligo, pode ficar à vontade. – %Anya% repetiu, prendendo os lábios no que parecia ser um sorriso discreto.
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  Por um segundo, me perguntei o que exatamente se passava pela cabeça dela. Mas, por instinto – ou autopreservação –, decidi não perguntar. %Anya% não era do tipo que se esquivava quando confrontada. E, sendo honesto comigo mesmo, eu não tinha certeza se estava pronto para ouvir a resposta.Parte inferior do formulário
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  – Eu fico no sofá. – Engoli o vinho de uma vez só, como se ele pudesse me anestesiar de alguma coisa que eu nem tinha coragem de nomear. Coloquei a taça vazia sobre a mesa, tentando parecer casual. – Por falar nisso… Como vai ser no hotel? A gente vai ficar junto?
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  – Não. Quartos separados. – Ela respondeu com naturalidade. – Minha família indiana ainda não está pronta para esse tipo de evolução cultural.
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  – Não foi sua prima que entrou em coma alcoólico no seu aniversário? A Nina mencionou algo.
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  – Maya. – Ela revirou os olhos.
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  – Coma alcoólico, tudo bem. Dormir com o namorado: ultrapassa os limites.
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  – Bem-vindo à família %Bhasin%. – Ironizou. – Prefiro evitar certos estresses.
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  – É por isso que você não bebe? – Perguntei. – Ou só evita na frente deles?
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  – Não gosto, não tenho o hábito. Todo ano, no meu aniversário, eu abro uma exceção. Só isso. – Ela fez uma pausa breve, pensativa, os olhos vagando por um segundo antes de voltar para mim. – A última vez que bebi fora disso foi… – Parou no meio da frase. – Foi com você.
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  – Comigo?! – Franzi a testa. Demorei uns dois segundos para minha memória fazer o trabalho dela. Quando finalmente encaixou, soltei um pequeno “ah”. – Ah. Aquele dia.
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  Primeiro ano de faculdade. Eu e Nina tínhamos organizado uma festa improvisada no nosso apartamento minúsculo, se é que “organizar” era a palavra certa. Na verdade, foi mais um monte de gente espremida num espaço que claramente não comportava aquele tanto de gente.
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  Nina ainda estava se recuperando da depressão naquela época. Qualquer pequena vitória já parecia motivo suficiente para comemorar. Existir já contava.
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  Eu só percebi horas depois que %Anya% também estava lá, quando entrei no meu quarto. Abri a porta e encontrei um tipo muito específico de caos: ela estava jogada na minha cama, atravessada no colchão, completamente apagada, bêbada demais até para perceber onde estava.
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  Eu também não estava exatamente sóbrio naquela noite. Então fiz o que qualquer pessoa razoavelmente prática faria: fechei a porta, deitei no lado oposto da cama e apaguei também.
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  No dia seguinte, ela acordou primeiro, pediu desculpa com uma cara meio constrangida, eu dei de ombros… e nunca mais falamos sobre aquilo.
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  – Pois é. Eu parei de beber depois disso.
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  – Por causa daquela noite? – Inclinei a cabeça.
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  – Não exatamente. – Explicou, calma. – Mais pela sensação. Não lembrar das coisas. Não ter controle.
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  – Engraçado… às vezes perder o controle faz sentido pra mim.
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  – Para mim, é um pesadelo. – Ela fez uma careta leve. – Mas sabe o que essa história prova?
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  – O quê?
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  – Que, tecnicamente, já dormimos juntos. – O sorriso que estampou o rosto dela era pura provocação. Fingi revirar os olhos. O que eu sentia, na verdade, era um calor subindo pela nuca. – Ant, pode vir pra cá. Eu nem me mexo. Prometo.
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  O jeito como ela disse isso, o sorrisinho contido, a voz mais baixa, como se estivesse me fazendo uma proposta inocente e perigosa ao mesmo tempo... Me fez questionar todos os motivos que me trouxeram até aqui.
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  – Vou ao banheiro. – Dei as costas, saindo do vagão a tempo de ouvir a risada baixa e provocativa de %Ananya%.
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  Depois de enrolar no banheiro mais do que o necessário – lavando o rosto, arrumando o cabelo que já estava arrumado e até lendo rótulos de shampoo que eram ofertados ali – percebi que não dava mais para adiar. Eu precisava voltar para a cabine.
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  Enquanto caminhava pelo corredor estreito, tentei me convencer de que eram só algumas horas. Só uma noite. Nada que eu já não tivesse vivido antes. Afinal, tecnicamente, já tinha dormido ao lado de %Anya% uma vez, embora nenhum de nós estivesse consciente o bastante para lembrar como foi.
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  Abri a porta da cabine tentando não fazer barulho. As luzes já estavam apagadas, dava para ver muito pouco, mas eu sabia onde ela estava. Evitei olhar na direção da cama. Fui direto para o sofá, que parecia ter sido projetado por alguém com ódio genuíno da coluna humana.
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  Virei de lado.
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  Depois de costas.
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  Depois de lado de novo.
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  Nada funcionava.
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  O joelho esbarrava no braço rígido do assento, a lombar começava a reclamar como se eu tivesse passado o dia inteiro carregando caixas, e o travesseiro continuava escorregando cada vez que eu tentava me ajeitar.
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  Soltei um suspiro longo, irritado demais para aquele silêncio quase solene da cabine. O tipo de suspiro que, em qualquer outro lugar, passaria despercebido, mas ali pareceu ecoar. Como uma confissão pública de fracasso.
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  – %Anthony%. – Murmurei alguma coisa indistinta, mais um ruído do que uma resposta, enquanto continuava tentando me ajeitar. – Vem pra cama.
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  – Mas… – Comecei, num reflexo automático, algo entre teimosia e um orgulho mal colocado.
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  – Agora.
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  O seu tom era firme. Autoritário o suficiente para ser ofensivo em qualquer outro contexto. Ali, no entanto, soou perigosamente… sedutor.
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  Respirei fundo, vencido antes mesmo de terminar o argumento. Peguei o cobertor e atravessei o espaço curto até a cama, cada passo desnecessariamente consciente. Deitei com cuidado excessivo, como se o colchão fosse um território minado. Ajustei o travesseiro, estiquei a coberta, alinhei o corpo. Tudo para evitar o inevitável: perceber que ela estava ali.
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  Meu corpo estava exausto depois de um dia inteiro de trabalho, de estresse acumulado, de sorrisos sociais e disfarces bem ensaiados. Tudo que eu queria, em teoria, era dormir. Mas no exato momento em que encostei a cabeça no travesseiro, meu sono evaporou.
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  – Sabe, você pode se mexer, se quiser…– Aconselhou. Eu não via seu rosto, mas pelo tom de sua voz, sabia que ela estava com aquele sorriso preso nos lábios.
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  – Não quero correr riscos. – Disparei, sem me importar em usar meus filtros de pensamento.
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  – Risco de quê? – Perguntou e foi a primeira vez que ouvi um leve vacilo em sua voz.
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  – Não temos um bom precedente. – O silêncio nos engoliu no ambiente e a tensão era palpável. – Da última vez, eu implorei que você me parasse e você não parou. – Antes de fazer uma besteira, decidi (com muito pesar) encerrar a comunicação. – Boa noite, %Anya%.
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  Apaguei naquela noite com uma rapidez quase ofensiva (especialmente depois de passar vários minutos garantindo, com toda a segurança do mundo, que não estava com sono nenhum). Mal me ajeitei no colchão e pronto: meu corpo simplesmente desligou a consciência sem pedir autorização.
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  O problema é que eu conhecia muito bem a reputação do meu sono.
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  Minha mãe reclamava desde sempre. Nina chegou a ameaçar me filmar uma vez, dizendo que precisava de provas. E mais de uma ex-namorada descreveu minhas noites usando termos muito técnicos, como “furacão noturno” ou “atividade sísmica moderada”.
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  Eu só queria ter lembrado de avisar a %Ananya%.
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  Acordei de forma abrupta, com um puxão firme nos cabelos.
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  – Devia ter te amarrado no sofá. – Ouvi o resmungo áspero, seguido pelo empurrão decidido de seus pés contra meu quadril, como se estivesse tentando remover um móvel mal posicionado.
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  Em algum momento da noite, eu tinha encurralado %Ananya% contra a parede. Minhas costas pressionavam as dela, como se meu subconsciente tivesse decidido transformá-la em parte da estrutura do quarto. O rosto dela estava perigosamente próximo do concreto gelado. E, considerando o estado do meu cabelo, ela já tinha perdido a paciência há alguns minutos.
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  – Hm. Foi mal. – Murmurei, sem abrir totalmente os olhos, já virando para o outro lado.
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  As horas previstas de viagem se estenderam até quase dez da manhã por causa de um atraso no itinerário (algo que eu só soube depois, já que passei boa parte do trajeto dormindo profundamente). Assim que coloquei os pés para fora do trem, a ansiedade que eu vinha tentando sufocar desde o início da viagem voltou com força total.
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  %Anya% avisou que seguiríamos de lancha até a ilha. O porto ficava a poucos minutos da estação e o trajeto curto foi suficiente para que a expectativa crescesse a cada passo. O cheiro salgado do mar já pairava no ar quando chegamos ao trapiche de madeira.
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  Ali, ela cumprimentou um senhor de idade, de pele bronzeada pelo sol e sorriso fácil, que nos aguardava em uma lancha de um vermelho vibrante. Com mochilas nas costas e malas nas mãos, embarcamos no pequeno veículo marítimo. Enquanto o Ankar – esse era o nome dele – conduzia a lancha com uma tranquilidade de quem faz aquilo a vida toda, eu fiquei só olhando em volta.
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  O mar oceânico se estendia num azul tão translúcido que parecia coberto por um véu de seda esticado. A luz do sol tocava a água com suavidade, espalhando reflexos dourados na superfície a cada ondulação. Era impossível não se impressionar.
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  À medida que nos aproximávamos da ilha Sundar, minha admiração só crescia. Nina sempre comentava sobre como aquele lugar parecia saído de um filme, mas vê-lo com os próprios olhos era outra coisa. Até peguei o celular e tirei umas fotos, sabendo que nenhuma delas ia chegar perto do que meus olhos estavam vendo.
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  A ilha era mesmo pequena. Dali de onde estávamos, dava para enxergar quase tudo: um contorno de areia clara, algumas formações rochosas surgindo do mar e, dominando a paisagem como se tivesse todo o direito de estar ali, o hotel.
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  A construção ocupava uma boa fatia da ilha, com uma arquitetura curiosa – metade refúgio rústico, metade revista de design –, madeira escura e, ao mesmo tempo, paredes inteiras de vidro refletindo o sol, varandas com guarda-corpos transparentes e linhas modernas demais para fingir simplicidade.
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  Sete andares de puro exagero.
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  E tudo conectado diretamente ao atracadouro, de modo que quem chegasse pelo mar praticamente desembarcava dentro do saguão.
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  – E aí? – %Anya% perguntou, com os olhos fixos em mim e um sorriso contido nos lábios, como quem esperava uma avaliação sincera.
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  – É espantoso. – Admiti. – Sério. É incrível, %Anya%. Isso… é de vocês?
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  Por um segundo, considerei seriamente a possibilidade de %Anya% simplesmente possuir a porra de uma ilha.
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  – O dono do hotel é amigo do meu pai. – Fez um gesto leve com a cabeça em direção à entrada. – Vamos. Vou ter que te apresentar pra todo mundo. Você sabe disso, né?
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  – Claro – Respondi, com a tranquilidade ensaiada de alguém que definitivamente não estava entrando em pânico. – Ossos do ofício.
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  Por dentro, no entanto, meu estômago estava executando acrobacias ilegais. Era a mesma sensação de entrar numa entrevista de emprego para a qual você não estudou… e ainda mentiu no currículo.
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  %Anya% entrelaçou os dedos nos meus.
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  Começamos a caminhar pelo caminho de pedras que levava até as portas de vidro do hotel, e foi nesse momento – com o som das ondas atrás de nós e aquele prédio absurdo crescendo à nossa frente – que uma percepção incômoda finalmente se acomodou na minha cabeça.
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  Eu era, de fato, o namorado de %Ananya% %Bhasin%. E estava prestes a atravessar a porta de entrada do universo intenso, barulhento e potencialmente caótico que era a família %Bhasin%.
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  Não chegamos lá sem obstáculos. Fomos parados algumas vezes por conhecidos dela – todos sorridentes, todos curiosos demais, todos me avaliando com aquele olhar rápido que tenta decidir se você é passageiro ou permanente – e só depois disso seguimos para os quartos.
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  Enquanto caminhávamos pelo corredor elegante, tentei organizar a cabeça.
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  A ideia era simples: tratar aquilo como trabalho. Mais uma missão, como tantas outras que eu já tinha executado com eficiência quase mecânica.
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  Funcionava em teoria. Na prática, cada janela que cruzávamos sabotava completamente o plano.
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  A água tinha aquele azul translúcido que parecia mentira de catálogo turístico. A luz da tarde batia como se alguém tivesse ajustado a iluminação do cenário. Era o tipo de ambiente que fazia você esquecer, por alguns minutos, qualquer plano mais complicado.
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  Foi ali que tomei uma decisão silenciosa.
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  Eu ia me divertir.
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  Quer dizer, sejamos honestos: eu estava hospedado em um hotel de luxo, numa ilha ridiculamente bonita, à beira-mar… e não estava pagando um centavo por isso. Tudo patrocinado por terceiros.
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  Recusar essa oportunidade seria quase ofensivo. Uma espécie de desrespeito ao investimento feito para me colocar ali.
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  Além disso – e esse argumento me pareceu muito convincente naquele momento – eu merecia.
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  Quando finalmente entrei na suíte, já não era o mesmo homem que tinha embarcado naquele trem horas antes. Alguma coisa tinha relaxado dentro de mim. Talvez fosse a brisa do mar. Talvez fosse o luxo descarado daquele lugar. Ou talvez fosse simplesmente o fato de que, pela primeira vez em muito tempo, eu estava permitindo a mim mesmo aproveitar o cenário.
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  De qualquer forma, uma coisa estava clara.
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  Eu estava oficialmente pronto para aproveitar tudo o que a ilha dos %Bhasin% tivesse a oferecer.
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  Inclusive as partes potencialmente perigosas.
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  Eu ainda estava absorvendo o cenário quando levei a mão à porta para fechá-la, mas parei ao ouvir passos decididos no corredor. Não precisei olhar. Eu já conhecia aquele ritmo.
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  – Ei. Tudo certo? – A voz de %Anya% surgiu na porta da suíte.
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  – Certo? – Abri os braços em um gesto amplo, quase teatral. – %Anya%, olha isso! – Apontei para a imensidão azul do outro lado do vidro. – Eu sinto que você acabou de me promover. Ou me colocou de férias antecipadas. Talvez as duas coisas.
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  Ela encostou o ombro no batente da porta e deixou escapar uma risada curta, claramente se divertindo com meu nível de empolgação.
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  – Que bom que você está bem instalado.
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  – “Bem instalado” é um eufemismo generoso.
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  – Ótimo. – Ela assentiu, satisfeita. – Porque eu vou dormir um pouco e depois a gente desce, pode ser?
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  – Dormir? – Voltei a encarar o mar, como se a paisagem pudesse desaparecer se eu parasse de vigiar. – Nem se eu quisesse.
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  – Diferente de você, – Ela retrucou, cruzando os braços. – que me usou de travesseiro humano a noite inteira, eu não dormi quase nada.
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  – Isso é uma acusação grave. – Lancei um olhar por cima do ombro.
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  – É um fato.. – Ela estreitou os olhos. – Preciso descansar, senão não chego viva até o fim do dia.
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  – Que exagero.
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  Não era. Eu sabia muito bem o quanto eu me espalhava quando dormia. Meu histórico era basicamente uma sequência de relatos alarmados e testemunhas indignadas.
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  – Por que você não desce e vai conhecer o hotel? – Sugeriu. – Acho que a Nina já deve estar por aí. Assim você já vai se ambientando.
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  A sugestão parecia inocente demais.
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  Estreitei os olhos.
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  – Você só quer escapar da obrigação de me apresentar oficialmente pra todo mundo.
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  Ela não perdeu nem meio segundo fingindo inocência.
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  – Amor… – Disse, com um tom doce demais para ser sincero. – Você me conhece tão bem. – A provocação veio acompanhada de um pequeno aceno de cabeça em direção ao teto. – Meu quarto é o único logo acima do seu. Se precisar de alguma coisa, é só subir.
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  Assim que ela saiu, decidi tomar um banho para relaxar o corpo da viagem. A água quente me devolveu uma parte da energia que eu nem percebia ter perdido. Vesti algo leve e confortável e mandei uma mensagem para a Nina. Ela respondeu quase imediatamente, avisando que já estava na piscina.
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  Fui até a varanda e procurei por ela lá embaixo. Não demorei a encontrá-la. Estava sentada à beira da piscina, ao lado de um cara alto demais para passar despercebido, com aquela postura relaxada de quem sabe exatamente onde está. Só podia ser o Andreas.
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  O ex da %Anya%. Atual da minha irmã.
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  Ótimo. Um almoço em família absolutamente promissor me aguardava.
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  Durante o trajeto até a área da piscina, eu tinha genuinamente acreditado que estava indo direto para um pesadelo social. Na minha cabeça, seria uma versão tropical dos jantares corporativos que eu era obrigado a frequentar. Mas, assim que entrei na área da piscina, fui praticamente engolido por um cenário que não tinha absolutamente nada a ver com o que eu tinha imaginado. O espaço estava lotado de gente – amigos, primos, conhecidos da %Anya% – todos jovens, bronzeados, espalhados em grupos barulhentos, rindo alto como se não existisse amanhã. A música vibrava nas caixas de som com intensidade suficiente para sugerir uma rave particular.
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  E havia fumaça. Muita fumaça.
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  – Eles são viciados em narguilé aqui. – Nina explicou, divertida, quando me aproximei com a expressão clara de alguém que tinha acabado de atravessar um portal dimensional aromatizado.
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  – Ok… isso é… diferente. – Murmurei, tentando processar a mistura de música alta, gente demais, fumaça demais e uma liberdade social que claramente não constava no meu roteiro mental.
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  – O que você achou que seria? – Nina zombou, arqueando uma sobrancelha. – Um baile bollywoodiano? Um evento de gala?
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  – Honestamente? Sim. Pensei exatamente nisso.
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  – Bom, espera só até todo mundo ficar bêbado e começar a dançar música indiana. – Comentou uma voz masculina ao lado dela, entrando na conversa com naturalidade demais. – A parte bollywoodiana vem no segundo ato. – Virei o rosto devagar e dei de cara com um sujeito alto, cabelo castanho escuro, sorriso cheio de dentes perfeitos. Ele estendeu a mão na minha direção. – E aí, cara. Sou o Andreas.
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  Forcei um sorriso educado, ignorando a pontada imediata de incômodo. Eu sabia exatamente quem ele era. O Andreas. Ex da %Anya%, atual da minha irmã. Um combo impressionante, capaz de dar nó em qualquer cérebro funcional. Basicamente, um walking red flag com um óculos de sol que custava mais do que o meu aluguel.
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  – Ah, é. Vocês não se conhecem. – Nina se adiantou, prática demais. – Esse é o %Anthony%, meu irmão.
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  – E você é o ex da minha namorada. – As palavras escaparam antes que meu filtro social tivesse qualquer chance de interferir. Não deu pra segurar. A oportunidade era perfeita e ele precisava ouvir aquilo.
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  O cara estava namorando a melhor amiga da ex, pelo amor de Deus.
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  – Depende de quem é sua namorada. – Respondeu, o sorriso continuou ali, mas o aperto de mão se tornou visivelmente mais firme.
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  – Você está literalmente no aniversário dela.
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  O olhar de Andreas oscilou entre mim e a Nina algumas vezes, o cenho se franzindo a cada nova tentativa de encaixar a informação. Ficou claro, em segundos, que minha irmã tinha convenientemente omitido esse detalhe da narrativa romântica.
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  – Então… acho que esqueci de mencionar isso. – Nina disse, fazendo um gesto vago com as mãos, como se estivesse falando sobre o clima ou o cardápio do almoço. – %Anya% e %Anthony%…
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  Ela simplesmente se sentou de volta na cadeira de praia, abandonando a frase no ar e o caos emocional na nossa conta.
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  – …juntos – Completei, por pura caridade narrativa.
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  – Ah. Que… legal, cara. Desejo felicidades.
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  A voz dele saiu tão automática que parecia lida direto de um teleprompter invisível. Andreas se sentou ao lado da Nina, que já estava distraída, olhando em volta, completamente alheia ao vinco de dúvida que se instalou na testa do próprio namorado.
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  Mas eu percebi.
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  Andreas tentava agir normalmente. Conversava com a Nina, ria no tempo certo, assentia como quem estava genuinamente interessado no que ela dizia. Mas havia um atraso mínimo em cada reação, uma fração de segundo a mais do que o natural. O tipo de detalhe que a maioria das pessoas ignoraria.
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  Mas eu não.
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  – Você vai ficar em pé aí julgando ou vai sentar? – Nina perguntou, sem nem olhar para mim, batendo com a mão na espreguiçadeira ao lado dela.
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  – Estou absorvendo o ambiente.
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  – Ele está avaliando o território. – Andreas comentou, num tom brincalhão.
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  – Algo assim. – Sorri de lado.
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  Tudo parecia casual à primeira vista – gente rindo, copos tilintando, crianças correndo entre as mesas, alguém discutindo animadamente perto do bar – mas havia uma lógica invisível organizando tudo aquilo. Pequenas órbitas sociais que se formavam e se desfaziam, conversas que mudavam de tom dependendo de quem se aproximava.
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  Uma informalidade do tipo que funciona muito bem… até alguém pisar na hierarquia errada.
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  – Você está analisando isso como se fosse uma cena de crime. – A voz de Andreas veio do meu lado, virei o rosto para ele. – Relaxa. A família da %Anya% pode ser... intensa. Mas ninguém aqui vai te devorar.
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  – Imagino que isso venha de experiência pessoal.
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  O comentário ficou suspenso entre nós por um instante, como uma bola que ninguém tinha certeza se devia rebater. Andreas levou o copo à boca, tomou um gole lento e olhou para a piscina antes de falar de novo.
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  – E você? – Perguntou. – Já tinha conhecido os %Bhasin% antes dessa viagem?
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  – Não. Estou tendo a experiência completa agora.
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  – Não é todo mundo que entra num ambiente como esse sem nenhum tipo de aviso prévio. – Comentou. – Corajoso.
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  – Ou inconsequente. – Murmurei, deixando o olhar vagar pela energia caótica que parecia pulsar em todo aquele lugar. – Ainda estou tentando decidir qual dos dois.
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Capítulo 6
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