Efeito Colateral


Escrita porJuliana M.
Editada por Natashia Kitamura


Capítulo 5 • %Anthony%

Tempo estimado de leitura: 45 minutos

  Naquela semana, me empenhei em bater duas metas.
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  Focar em meu trabalho e contar para meu chefe que eu não estava mais namorando ninguém.
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  Pode parecer estranho que o término do meu relacionamento estivesse na minha lista de metas profissionais, mas isso era só mais um dia comum na minha vida. Na verdade, senti até que o destino estava me dando uma ajudinha quando fui chamado à sala de Davi Martinez logo depois do almoço.
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  – %Anthony%, fique à vontade. – Davi disse, fazendo um gesto vago com a mão, sem desgrudar os olhos da tela, naquele tom que nunca trazia qualquer sensação de alívio. – Você está dispensado pelo resto do dia.
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  Dispensado? Era isso? Eu estava sendo demitido?
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  Ele descobriu. Descobriu que eu não era namorado da %Anya% e agora estava me mandando embora por ser um mentiroso conveniente. Ó céus. E agora? Como eu ia pagar as contas? O aluguel? A faculdade da Nina? Eu ia ser processado? Preso?
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  – S-senhor… posso saber o motivo? – Perguntei, a voz carregada de pânico.
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  – Não se faça de desentendido.
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  Pronto. Fim de linha. Eu estava oficialmente ferrado.
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  – Senhor, eu… eu queria conversar sobre isso, mas… eu posso explicar… – Comecei, tropeçando nas próprias palavras, tentando ganhar alguns segundos de vida, até ser interrompido.
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  – Eu já falei com a Anjali. Você está liberado. Não sou louco de recusar um pedido daquela mulher. Ela é… assustadoramente persuasiva.
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  Anjali. A mãe da %Anya%.
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  Mas o que ela tinha a ver com aquilo? Por que estava falando com o Davi? E, mais importante ainda, o que exatamente ela queria comigo?
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  – A Anjali %Bhasin% ligou? – Perguntei, ainda incrédulo.
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  – Ligou. Vocês têm um almoço hoje, não têm? Tentei me convidar, mas ela foi bem direta: quer só você.
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  – Eu?!
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  E foi assim que acabei sentado sobre a tampa do vaso sanitário, trancado no banheiro, tentando escapar dos olhares irônicos e dos comentários atravessados que se espalhavam pelo escritório. Em algum momento, alguém resolveu divulgar que eu havia sido dispensado apenas para almoçar com a minha sogra.
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  E eu tinha quase certeza de que o fofoqueiro oficial era o próprio Davi Martinez, um homem que adorava ostentar relações que, no fim das contas, nem eram dele.
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  Eu encarava a tela do celular com uma intensidade quase obsessiva enquanto o som dos meus pés batendo contra o chão ecoava no pequeno espaço. Já fazia quase uma hora desde que enviei mensagens para %Anya% – todas carregadas de urgência –, mas o silêncio dela permanecia absoluto, me deixando ainda mais inquieto.
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  Soltei um suspiro frustrado, a espera estava me consumindo e o isolamento do banheiro só parecia aumentar a tensão. Não adiantava nada ficar ali, então decidi sair. Meus pensamentos estavam tão dispersos que nem percebi Victor encostado na pia, me observando com aquele olhar carregado de julgamento e curiosidade.
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  – Quase trinta minutos. – Disse, com os olhos semicerrados, como se tivesse calculado o tempo com precisão.
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  – Eu não estava fazendo nada. – Expliquei, levantando a mão em uma tentativa de justificar. – Só estava...
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  – Se escondendo? – Completou, sarcástico.
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  – É, estava tentando fugir de todo aquele alvoroço lá fora.
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  – Deixe de ser medroso e vamos. Tenho um trabalho pra você.
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  – Qualquer coisa. – Respondi, me levantando, mais por obrigação do que por vontade.
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  – Sério? Achei que você ia negar, já que foi dispensado para almoçar com sua sogrinha. – Ele debochou, cruzando os braços.
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  – Você já sabia? Veio tripudiar? Quer me fazer me sentir ainda mais envergonhado? – Retruquei, puxando um pedaço de lenço de papel e jogando contra ele.
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  – Claro que sabia. Ver sua cara de sofrimento é o que faz meu dia feliz. – Ele riu, desdenhando. – Qual o problema? Sua sogra é um monstro?
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  – Na verdade, eu... – Eu ia dizer que mal conhecia a mulher, mas fui interrompido pela porta do banheiro sendo aberta com força.
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  Suzi, a secretária do andar em que fui lotado, entrou sem cerimônias.
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  – %Campelli%, ligação para você no ramal cinco.
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  Eu queria que fosse algo relacionado ao trabalho. Algo complicado o suficiente para me ocupar o resto do dia, uma boa maneira de provar que essa história de "dispensa para o almoço" era uma completa besteira. Mas não era trabalho.
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  Bem, era algo ligado ao meu emprego, sim, mas não exatamente ao papel de advogado que eu desempenhava.
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  Recebi a ligação com surpresa, especialmente quando ouvi a voz de Anjali %Bhasin% do outro lado. Minha mente imediatamente entrou em alerta e eu passei os olhos pelo ambiente ao redor, checando se alguém estava prestando atenção na conversa. Ela falava com uma cordialidade que eu não esperava e que me deixou ainda mais desconfortável.
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  O convite para o almoço veio direto, sem rodeios. Minha reação foi uma mistura de espanto e constrangimento. Como eu poderia aceitar aquele convite sem antes entender o que estava acontecendo com %Ananya%? Ela ainda não havia respondido às minhas mensagens e algo estava definitivamente fora do lugar. O comportamento de Anjali só reforçava minha suspeita de que eu estava sendo levado a algo que não conseguia prever.
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  Minha primeira reação foi tentar recusar educadamente, usando o trabalho como desculpa. Falei que estava envolvido em um processo complicado, na esperança de ganhar algum tempo para entender o que estava se passando. A sensação de estar sendo empurrado para uma situação desconhecida pairava sobre mim, e eu sabia que precisava ser cuidadoso com cada palavra.
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  – Eu já falei com Martinez. Combine o local e horário com %Ananya%. Vejo você logo.
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  Ela desligou antes que eu pudesse falar mais alguma coisa. Encarei a tela do celular por alguns segundos, irritado, e apoiei a cabeça na mesa, fechando os olhos com força. Esse não era o acordo que eu tinha feito. Minha missão era simples: fingir ser o namorado dela na ilha e durante o aniversário, nada mais. Não tinha combinado nada que envolvesse almoços e encontros com a família.
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  Se eu soubesse que isso ia gerar tanto estresse, teria ficado longe de %Anya%, Davi Martinez e toda essa confusão.
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  Decidi tentar ligar novamente para %Anya%, mas, como antes, a ligação caiu direto na caixa postal. Sem resposta e sem opções imediatas, forcei-me a focar nos papéis acumulados na minha mesa. Enquanto tentava avançar no trabalho, a voz do meu chefe ecoou, interrompendo meus pensamentos.
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  – O que ainda está fazendo aqui? – O homem perguntou, desconfiado. – Eu já disse que você podia ir embora.
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  – Eu sei, eu só estou... – O toque de meu celular soou como música em meus ouvidos. No identificador de chamadas, a pessoas que ele mais procurava estava o ligando. – Com licença, %Anya% está me ligando, eu posso...?
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  – Mas é claro, mande um abraço para minha sobrinha. – Falou em voz alta enquanto se afastava, fazendo quase todos levantaram a cabeça e olharem para a nossa interação.
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  – %Anthony%?
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  – Finalmente, %Anya%! Pode me explicar que porra está acontecendo? Martinez está em cima de mim como um gavião, proibindo a todos de me dar trabalho. Sua mãe ligou e agora tudo está uma confusão aqui. – Procurei uma maneira de falar sem que ninguém me escutasse.
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  – É... Eu preciso da sua ajuda.
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  – O que aconteceu?
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  – Minha mãe está me enlouquecendo com uma ideia maluca de ir comer algo mais tarde. Então, a menos que você queira que ela apareça aí no seu trabalho em trinta minutos, é melhor concordar em ir ao restaurante Cirus.
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  – Quando?
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  – Agora. – Não me controlei e soltei um palavrão. – Eu juro que posso explicar melhor quando você chegar.
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  – É bom mesmo, tive uma merda de dia por conta disso.
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  Logo em seguida, eu já estava na rua, braço erguido num gesto automático para o primeiro táxi que visse. O fato de eu estar estranhamente calmo para alguém prestes a encenar a performance da sua vida para os pais da "namorada" era, em si, perturbador.
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  Eu me assustava com a facilidade com que a mentira agora se acomodava em mim, como um segundo casaco.
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  O táxi parou na frente do restaurante. Um daqueles lugares com nome francês e porta pesada de madeira, que anunciava preços proibitivos antes mesmo de você ver o cardápio. Anunciei meu nome à recepcionista. Ela sorriu, um sorriso polido e vazio, e me conduziu com passos silenciosos pelo salão.
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  Caminhei atrás dela, consciente de cada movimento, dos sussurros discretos, do tilintar de talheres. A mesa não estava num canto discreto, como eu secretamente esperava. Estava quase no centro da sala, um palco iluminado sob um lustre de cristal. Era um lugar para ser visto, não para conversar.
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  No caminho, meu rosto era uma máscara de seriedade. A fúria do dia ainda latejava nas minhas têmporas e nenhum véu de cortesia conseguiria disfarçá-la completamente. A ideia de passar uma hora sequer na presença da mulher que criou %Anya% – com toda aquela altivez e poder de destruição – me enchia de um desprezo tão visceral que quase doía. Eu não estava nervoso. Estava furioso. E nada, absolutamente nada, naquele ambiente de falsa elegância, me deixava confortável.
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  Não tinha certeza se sabia como lidar com mulheres como Anjali. Já tinha ouvido algumas histórias de Nina sobre a relação complicada entre %Anya% e sua mãe. E, ao vê-las de perto, a tensão era palpável.
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  Logo as avistei. Sentadas com uma elegância que parecia gravada na espinha, cada uma em seu próprio planeta de desconforto silencioso. Não trocavam palavras, nem olhares. As cabeças, baixas sobre as telas dos celulares, formavam um quadro de tensão contida. Meu estômago embrulhou. Eu não estava caminhando até uma mesa; estava entrando num campo minado social.
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  Quando entrei no campo de visão delas, %Anya% ergueu os olhos. Seu sorriso foi contido, um reflexo rápido e quase envergonhado. Não consegui corresponder. Meus músculos faciais estavam travados pelo cansaço e pela desconfiança. Limitei-me a um aceno seco de cabeça, sentindo o ar ao redor da mesa ficar mais denso, mais pesado.
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  Antes mesmo que %Anya% dissesse qualquer coisa, senti o olhar da mãe. Ele percorreu cada centímetro de mim sem pressa, sem disfarce, avaliando, medindo, decidindo. Anjali era uma mulher de presença incontestável. A semelhança com %Anya% era clara: o mesmo cabelo escuro, os mesmos traços precisos, a mesma beleza.
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  – Oi, Ant. Desculpe essa… surpresa. A minha mãe tem uma relação complicada com a palavra ‘não’. – %Anya% soltou uma risada curta, forçada, tentando desarmar a bomba que ela mesma trouxera.
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  – Infelizmente, parece que você aprendeu muito bem comigo a arte da insolência. – A mulher apenas inclinou a cabeça, um movimento estudado, e fixou em mim um sorriso que não chegava aos olhos. – Você deve ser %Anthony%. Faz muito tempo… você ainda usava uniforme escolar, não usava?
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  – Maa. – %Anya% fez uma cara de reprovação e lançou um olhar fulminante para a mãe. Ela parecia embaraçada, o que não ajudava a diminuir minha ansiedade.
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  – Você está totalmente certa. É um prazer revê-la, senhora %Bhasin%. – Cumprimentei, tentando ser simpático.
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  Ela fez uma pausa e, então, com um movimento fluido, erguia a mão em direção ao meu ombro e me tocou, com uma leveza quase condescendente: – Você é tão parecido com a nossa Nina. – O olhar dela era como um algoritmo em funcionamento, catalogando cada detalhe. – Você é idêntico a Anamelia, querido.
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  A menção da minha mãe me fez sentir uma mistura de melancolia e gratidão. Minha mãe tinha sido uma mulher admirável e ouvi-la ser mencionada por alguém tão distinto como Anjali foi, de certa forma, um elogio. Mesmo que fosse apenas uma observação superficial.
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  – É o melhor elogio que já recebi! – Respondi de maneira sincera. O simples fato de ser comparado à minha mãe era uma honra.
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  – Bom, vamos nos sentar. O que vão querer?
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  %Ananya% parecia tão desconfortável quanto eu, mas por razões muito diferentes. Sua mãe estava sendo... bem, Anjali. E eu estava me sentindo como um peixinho fora d'água, tentando me encaixar nesse mundo que, apesar de me parecer familiar em algumas partes, era intimidante em outras.
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  – Não sei. Já passou do horário de almoço e ainda é cedo demais para jantar. – %Anya% retrucou, a impaciência lapidando cada palavra. Soou como uma provocação precisa, daquelas impossíveis de ignorar. Anjali captou o recado de imediato. O olhar que lançou à filha era cortante como uma lâmina. – Onde está appa?
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  Anjali expirou devagar, um suspiro calculado, enquanto varria o restaurante com os olhos.
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  – Adit não poderá se juntar a nós hoje, infelizmente.
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  – É claro que irei.
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  A voz chegou antes do dono. Grave, firme, atravessou a tensão e a partiu ao meio. Todos nos viramos.
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  A presença de Adit %Bhasin% não permitia indiferença. Ele não apenas ocupava espaço, ele o expandia. Alto, imponente, parecia deslocar o ambiente ao redor, como se o restaurante tivesse sido obrigado a se ajustar à sua entrada.
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  Meu estômago se contraiu violentamente. Tentei congelar minha expressão, travar cada músculo do rosto. Ele se movia com a solenidade silenciosa de um patriarca.
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  Adit apareceu na cena como uma figura que parecia sair de uma história de máfia. Sua presença, marcada por um olhar severo e um semblante de poucos amigos, era o oposto da suavidade de sua esposa. Ele parecia medir todos ao seu redor com uma frieza desconcertante. A única coisa que me surpreendeu foi a forma como ele se dirigiu a mim, sem rodeios, mas com um toque de respeito.
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  – Peço desculpas pelo atraso. Negócios. Mas não deixaria de conhecê-lo. %Anthony%, estou certo? – Ele se aproximou, e o aperto de mão que se seguiu não pareceu um cumprimento, e sim, um teste.
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  – Sim, senhor. É um prazer, finalmente. – Minha voz soou mais estável do que eu esperava, mas a tensão nos meus ombros era de aço.
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  Anjali sorriu suavemente, tocando levemente no braço de seu esposo, como se quisesse atrair sua atenção.
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  – Querido, não sabia que viria.
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  – Achei prudente conhecer o homem que está envolvido em um relacionamento tão… célere com a minha filha única. – Ele destacou a palavra com um sorriso enviesado, quase elegante demais para esconder a provocação.
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  %Anya% reagiu de imediato, visivelmente desconfortável com o modo como ele se referiu a nós. A expressão fechou, os lábios se comprimiram.
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  – Célere? – Repetiu, seca.
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  – Com todo o respeito, senhor, – Comecei, escolhendo cada palavra com cuidado. – nos conhecemos há muito tempo. Para ser honesto.
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  – É verdade, querido. – Anjali interveio, num tom conciliador que soava mais estratégico do que gentil. – Eu me lembro do %Anthony% desde a época da escola.
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  Mas Adit não pareceu interessado em suavizações ou memórias compartilhadas.
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  – Diferente da minha esposa, eu não me lembro de você, rapaz. – Fez uma pausa deliberada, sustentando meu olhar como um desafio aberto. O silêncio se esticou.
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  – É uma pena que tenhamos nos cruzado tão pouco ao longo de todos esses anos em que você e %Anya% se conhecem.
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  – É mesmo. – Ele concluiu, com um meio sorriso cínico, como se tivesse aprovado meu jogo de cintura com as palavras. Então acrescentou, casual demais para ser inocente: – Teremos um fim de semana inteiro para corrigir isso, não teremos?
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  Ele estava certo. Eu teria um fim de semana inteiro com a família %Bhasin%. E poucas coisas na vida pareciam mais desconfortáveis do que essa certeza.
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  %Anya% permaneceu em silêncio por um momento, seus olhos fixos no prato à sua frente, como se tentasse se proteger da conversa tensa que se desenrolava. Adit, por sua vez, não tirava os olhos de mim, como se estivesse me estudando, procurando alguma falha em meu comportamento.
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  – Bom, já que estamos todos aqui, que tal começarmos o almoço? – Anjali sugeriu, tentando, talvez, aliviar a tensão, mas seu olhar ainda era aguçado, observando cada reação de Adit, de %Anya% e de mim.
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  O garçom chegou e começou a anotar os pedidos. %Anya% pediu algo simples, uma salada, claramente desconfortável com a situação e eu segui seu exemplo, optando por algo leve.
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  Enquanto a conversa avançava, minha mente girava em torno de um único pensamento: que diabos eu estava fazendo ali?
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  A noite caiu – e passou – mais rápido do que eu esperava. O clima esteve longe de ser confortável, mas todos à mesa eram adultos bem treinados na arte da civilidade. Educados. Contidos. O jantar seguiu seu curso entre frases polidas e silêncios estratégicos.
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  Pela parede de vidro, notei como a noite lá fora estava bonita. O céu, salpicado de estrelas, parecia cuidadosamente composto, quase irreal. Caminhei até a saída do restaurante com o olhar baixo, as mãos nos bolsos, pensando que, apesar da taça de vinho que custava o equivalente a um órgão vital, tudo o que eu realmente queria era a cerveja gelada me esperando na porta da geladeira.
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  – Bem, foi uma refeição deliciosa. Obrigada por terem conseguido um tempo para vir. – Anjali comentou com um sorriso caloroso enquanto seguíamos em direção ao estacionamento.
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  – Você literalmente nos obrigou... – %Anya% murmurou, com leve descrença na voz. O tom era casual, mas a provocação estava ali, intacta.
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  – E valeu a pena. – Anjali respondeu sem perder o sorriso. Num gesto aparentemente afetuoso, levou a mão ao cabelo da filha, recolhendo um fio rebelde e acomodando-o atrás da orelha.
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  Um gesto simples, carregado de significado. Carinho, sim, mas também domínio. Um lembrete silencioso de quem, no fim das contas, ainda ditava as regras naquela família.
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  – Obrigado pelo jantar, senhora. Foi muito agradável. – Tentei manter o tom correto.
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  – É bom mesmo que tenham gostado. Faremos novamente logo. – Adit interveio, sua voz grave quebrando o silêncio enquanto olhava para o relógio em seu pulso com a precisão de um homem que tem o controle de tudo ao seu redor.
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  – Vocês irão em carros separados?
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  Olhei para %Anya% antes de responder. A verdade era simples, quase banal e, ainda assim, pesada demais para ser dita ali.
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  Eu não tinha carro. Um detalhe pequeno, mas que parecia ganhar proporções estranhas quando pronunciado em voz alta, como se denunciasse mais do que apenas um meio de transporte.
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  – Eu não tenho carro.
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  Captei o instante exato em que Adit e Anjali trocaram olhares rápidos. Um segundo apenas. Surpresa, talvez. Um traço de julgamento, difícil de esconder. Mordi o lábio, contendo a vontade de rir da ironia da situação, ao mesmo tempo em que sentia o incômodo se instalar.
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  %Anya% percebeu. E sorriu como quem reconhece a tensão e decide se divertir com ela.
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  – Algum problema? – Perguntou, com uma provocação preguiçosa no tom, sem qualquer esforço para disfarçar o prazer que aquilo lhe causava.
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  Os dois negaram com a cabeça. Ainda assim, notei a falha mínima no sorriso contido de ambos, um deslize rápido, quase imperceptível. A compostura vacilou por um segundo.
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  – Bom, eu vou levá-lo para casa. – %Anya% continuou, naturalmente – e passar o caminho inteiro pedindo desculpas pelo dia de hoje.
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  – %Ananya%. – Adit advertiu, sua voz carregada de autoridade, mas %Anya%, desafiadora como sempre, não se importou nem um pouco. Ela deu de ombros, descomplicada e respondeu com a mesma descontração de antes.
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  – Certo, certo. Vejo vocês mais tarde. – Deu de ombros e acenou, leve, sem perder o sorriso.
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  Foi um detalhe, quase perdido no cansaço da despedida, que me prendeu. Apesar de ter passado o jantar inteiro cutucando os pais com uma ousadia que beirava a provocação, no momento final, %Anya% inclinou levemente a cabeça e os ombros num gesto rápido, uma reverência quase imperceptível.
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  Aquela dualidade era interessante. A maneira como ela, ao mesmo tempo, desafiava e respeitava os limites que seus pais impunham sobre ela dizia muito sobre a dinâmica dentro daquela casa.
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  Mentalmente, arquivei a cena. Perguntaria a %Anya% depois sobre aquele gesto específico. Talvez fosse algo que eu, como parte da farsa, também devesse reproduzir. O problema era o contexto.
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  A família %Bhasin% claramente preservava uma teia de tradições indianas com um zelo quase aristocrático e eu era um estrangeiro completo nesse território. Não queria, de forma alguma, parecer grosseiro ou ignorante. Mas, ao mesmo tempo, forçar uma reverência que não me era natural poderia soar como uma sátira vazia, um desrespeito ainda maior. O equilíbrio era tênue: mostrar o respeito esperado, sem parecer que estava tentando demais.
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  A mão de %Anya% se fechou em torno do meu braço, puxando-me suavemente. Ela andava mais rápido, como se quisesse se afastar da situação o mais rápido possível, o que fazia sentido.
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  – Ant, eu nem sei por onde começar. – %Anya% soltou um suspiro frustrado, sua voz carregada de uma leve impaciência enquanto se acomodava no banco do motorista.
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  Eu, por outro lado, estava apenas aliviado por finalmente estar dentro do carro dela. O jantar não fora exatamente terrível, mas estar na presença dos pais de %Anya%, especialmente sabendo que o motivo pelo qual eu estava ali era tão complicado, deixava a situação desconfortante.
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  Não que eu não soubesse lidar com pessoas difíceis ou influentes. Já tinha aprendido a navegar esse tipo de ambiente. Ainda assim, a tensão de ocupar o papel de namorado da herdeira %Bhasin% era um fardo específico, pesado de um jeito diferente. Eles carregavam poder, tradição, uma presença que exigia reverência.
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  E eu não estava ali por amor. Estava ali por um jogo muito mais sujo.
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  – Você pode começar indo para este endereço. – Falei, tomando a liberdade de alcançar a tela do GPS e digitar rapidamente o endereço do bar que eu costumava frequentar com Victor, antes mesmo que ela perguntasse.
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  Eu precisava daquele lugar. Do anonimato. Da cerveja barata. Do ruído baixo o suficiente para abafar pensamentos. Um espaço onde eu pudesse respirar sem performance, longe da formalidade sufocante daquela noite.
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  – Você vai me dever uma boa quantidade de cerveja. – Acrescentei, com um meio sorriso, já antecipando como aquilo poderia salvar o resto da noite.
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  – Vou? – %Anya% lançou um olhar de canto, arqueando a sobrancelha, curiosa, divertida, perfeitamente no controle.
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  – Vai. – Sustentei o olhar. – E sem reclamar. Deixei meus olhos acompanharem cada gesto dela ao volante, o foco calmo, a postura segura. Tentei ignorar o detalhe inconveniente de que ela ficava ainda mais atraente quando estava concentrada na estrada. – Nem por um segundo.
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 – Ժ –

  – E aí quando a reunião acabou, ela mandou mensagem, dizendo que iria até o seu escritório sozinha caso a gente não aparecesse hoje. – %Anya% terminou de contar os acontecimentos do dia enquanto comia asinhas de frango frito.
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  Eu até me envergonhava de ter levado a mulher para um bar beira de esquina com cerveja e frango frito, depois de termos saído de um restaurante que devia ter sabe-se lá quantas estrelas Michelin. Mas, para minha surpresa, %Anya% não parecia se incomodar. Pelo contrário, ela estava tão à vontade quanto se estivesse em casa.
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  Quando o garçom trouxe o prato de frango frito, ela não hesitou e pediu logo o seu, enquanto eu me servia com uma caneca de cerveja gelada, sentindo o sabor reconfortante do líquido descer pela garganta.
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  – Então, não fui eu que salvei você hoje. – Refleti, tentando dar uma leveza ao assunto enquanto levava o copo até a boca e sentia o alívio daquela cerveja simples e satisfatória. – Você que me salvou de passar pela experiência de conhecer minha sogra no meu ambiente de trabalho.
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  – Não é justificativa, Ant. Ela não tinha o direito.
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  – Achei que ela tentou nos ajudar diversas vezes hoje. Seu pai parecia mais irredutível. – Observei, tentando dar uma visão mais positiva da situação, mesmo sabendo que a dinâmica familiar deles estava longe de ser simples.
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  – Ela tem seus momentos... – %Anya% suspirou, claramente inconformada. – Mas não pense que isso irá passar em branco. Ela irá encontrar um jeito de usar isso contra nós dois em algum momento, eu tenho certeza.
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  – Pessoalmente, sua mãe não parece tão aterrorizante quanto você fala. – Eu comentei, tentando aliviar a tensão e, ao mesmo tempo, provocar um pouco de humor na conversa.
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  – Na frente de outras pessoas, ela não é mesmo. – %Anya% revelou, agora falando com mais firmeza, a dureza de suas palavras não deixando espaço para dúvidas. – Hoje mais cedo ela me perguntou quando eu iria “desistir dessa brincadeira sem graça”.
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  – Se referindo a quê? – Eu questionei, levantando uma sobrancelha, tentando entender melhor o contexto.
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  – Meu emprego. – Ela disse com uma ironia amarga, que deixou claro o quanto esse tipo de comentário a afetava. – Minha mãe não suporta a ideia de que eu goste de trabalhar e que prefira isso a ser uma herdeira em tempo integral.
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  Ponderei por um momento, refletindo sobre o que %Anya% acabara de dizer.
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  Como alguém, especialmente uma mãe, poderia se opor ao desejo de um filho de seguir seus próprios sonhos e fazer algo de significativo, em vez de seguir um caminho predefinido?
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  – É difícil imaginar uma mãe que não quer ver o filho bem-sucedido.
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  – Bem-sucedido, para ela, significa dinheiro e influência, só isso. – %Anya% falou, com uma dureza na voz que não deixava margem para dúvidas. – Dois mestrados em contabilidade, formação com honras e prêmios de inovação empresarial não significam nada para Anjali %Bhasin%.
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  Senti o peso das palavras dela e lamentei, genuinamente penalizado: – Que merda, %Anya%. – Dinheiro nunca foi tudo para mim e ouvir aquilo só reforçava a ideia. Uma lembrança vaga passou pela minha mente. – Eu lembro da sua formatura, Nina comentou sobre algo que sua mãe fez, mas não recordo o que exatamente.
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  – Não foi nada demais, ela apenas chegou atrasada e passou a cerimônia inteira de braços cruzados e feição entediada.
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  – Como você se sentiu? – Perguntei, genuinamente interessado em entender mais sobre o impacto disso nela.
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  %Anya% hesitou, seu olhar se perdendo por um momento, enquanto eu aguardava a resposta. Finalmente, ela falou, a voz mais suave, quase como se estivesse revivendo aquele momento.
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  – No início era difícil, mas aos poucos eu consegui me livrar das amarras da minha mãe e seu jeito desagradável quando se trata de mim. – Ela respirou fundo, pegando um copo de água rapidamente como se quisesse aliviar a sensação de peso que aquelas palavras causavam. – O maior ensinamento que eu tive nessa vida foi há anos, quando uma mulher muito inteligente e querida por mim disse que eu não devia pedir permissões para fazer ou ser o que eu quisesse.
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  – Nina? – Sugeri, apoiando a cabeça na mão direita e brincando com a caneca, já adivinhando quem poderia ser essa mulher que ela tanto admirava.
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  – Anamelia. – A resposta dela me pegou de surpresa. O nome da minha mãe sempre me fazia sorrir. Ouvir qualquer coisa sobre ela era sempre um acontecimento bom, e naquele momento, senti o calor das boas lembranças invadindo meu peito. Ela continuou, sem perceber o efeito que suas palavras estavam tendo em mim. – Ela disse isso quando minha mãe me obrigou a cortar os cabelos de novo. Eu tinha dezoito anos e, desde então, nunca mais cortei os cabelos quando minha mãe queria. Só quando eu quis. Pode parecer bobo ou infantil, mas até aquele momento, ninguém nunca tinha me dito isso com todas as letras.
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  – Minha amada mãe... – Eu suspirei com a lembrança. – Ela ainda me surpreende, incrível.
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  %Anya% sorriu levemente ao ouvir isso, sua expressão suavizando, mas não totalmente livre de um tom de saudade.
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  – “Você não deve pedir permissão para fazer o que quer da vida, especialmente com o seu corpo. Não corte seu cabelo, não dê à sua mãe esse poder.” – Ela repetiu as palavras de minha mãe com um tom de reverência, como se ainda estivesse tentando absorver todo o impacto delas. – Dezoito anos, Ant. Minha cabeça explodiu!
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  %Anya% riu levemente, balançando a cabeça em um gesto de incredulidade, como se ainda não acreditasse na profundidade daquele momento. Eu, por outro lado, estava completamente encantado com a forma como ela falava sobre isso, compartilhando algo tão pessoal e profundo.
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  – Minha mãe gostava de você. Nunca entendi direito quando ela dizia que você tinha coragem. Agora… começa a fazer sentido. – As palavras saíram enquanto eu tentava encaixar as peças.
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  %Anya% sorriu, um gesto suave e privado, e murmurou quase para o vácuo: – Eu a amava tanto…
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  Fiquei observando enquanto ela se perdia nas memórias. A melancolia em seu rosto era palpável, autêntica. Cada lembrança parecia trazer à superfície um peso que ela carregava consigo, visível na linha dos ombros, na suavidade desaparecida do olhar.
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  Por um instante, me perdi também. A ausência da minha mãe nunca foi leve. Foram anos de terapia para conseguir pronunciar o nome dela sem que as palavras se esfacelassem na garganta. Hoje, quando penso na mulher que foi o alicerce da minha vida, a dor deu lugar a algo mais sereno: uma saudade profunda e uma gratidão sem medida.
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  Mas eu sabia que nem todos navegam a perda pelo mesmo mapa. Para alguns, lembrar é reabrir a ferida. Talvez fosse isso que %Anya% sentia ao falar dela. A vontade de consolar foi um impulso físico. Meu braço moveu-se sob a mesa, buscando a mão dela… mas congelei no meio do caminho.
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  %Anya%, entretanto, parecia ter canalizado toda aquela energia emocional para uma tarefa metódica e, francamente, perturbadora. Diante dela, uma pilha de ossinhos de frango estava disposta com uma precisão quase geométrica, como os restos de algum ritual pagão. A quantidade era absurda. Quantos frangos haviam sido sacrificados por aquelas asinhas? Cinco? Seis?
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  – %Ananya%. – Puxei o prato para perto com um misto de horror e admiração. – Você devorou tudo isso agora? A gente acabou de jantar.
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  – Estão divinas. – Declarou, limpando o molho com o dorso da mão num gesto que contradizia todos os anos de etiqueta caríssima que os %Bhasin% certamente investiram nela.
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  – Você literalmente acabou de comer um banquete de três pratos!
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  – E agora estou comendo asinhas! – Ela espetou um último pedaço com o garfo.
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  – Você acabou de jantar!
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  – Eu gosto de asinhas de frango! – %Anya% respondeu, defensiva, como se a resposta fosse óbvia e ela não tivesse que se justificar.
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  Eu já tinha bebido duas canecas de cerveja e isso entorpeceu minha censura, liberando a observação que deveria ter ficado engasgada. E talvez fosse essa a razão pela qual, sem pensar muito, fiz um comentário que eu nem sabia ao certo de onde tinha vindo.
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  – Kiara odiava fritura, especialmente de frango. – Soltei, sem pensar.
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  – É claro que odiava. – %Anya% não pareceu se incomodar com a comparação, apenas revirou os olhos com uma leve risada. – Ela tenta negar, mas é %Bhasin% até a medula. Tem gostos duvidosos e ódios verdadeiros como todos nós.
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  – Quais são os seus ódios verdadeiros?
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  %Anya% pensou por um momento, mexendo no prato, mas não respondeu imediatamente.
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  – Homens.
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  – E gostos duvidosos?
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  Senti um arrepio percorrer meu corpo, mas não era pela brisa fresca da noite que entrava no ambiente. O que realmente me afetou foi o modo como %Anya% me olhou, seus olhos deslizando meticulosamente pelo meu rosto antes da resposta.
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  – Alguns homens também.
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  Sem saber muito bem o que fazer com aquela informação, decidi tentar desviar a atenção para algo mais leve.
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  – Bom, eu não sei muito sobre seus ex-namorados, mas... seu atual até que vale alguma coisa. – Falei, tentando brincar e ao mesmo tempo me proteger daquele olhar intenso dela.
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  – O tempo dirá. – A resposta veio tranquila, mas a maneira como ela disse isso fez meu estômago apertar. Por um segundo, desejei que ela nunca descobrisse que, no fundo, talvez eu não valesse grande coisa. – Por falar em ex... você tem algum problema com a Kiara? Tenho medo da minha mãe fazer o que ela faz de melhor e sair espalhando por aí que eu tenho um "novo namorado". Vai que essa história chega nos ouvidos da princesa má.
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  – Princesa má? – Repeti, um pouco confuso.
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  – Kiara. – Ela respondeu, sorrindo com um toque malicioso. – O quê? Tá achando que a princesa má sou eu?
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  – Não acho que ninguém seja malvado, %Anya%. – Respondi, mais sério dessa vez. – Isso aqui não é um conto de fadas, é vida real. E... eu e Kiara terminamos tem alguns meses. A gente nunca mais se falou, mas, pelo menos da minha parte, não ficou nenhum ressentimento.
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  – Espero que não. – O canudo de plástico amassou-se entre seus dentes, vítima daquela tensão que sempre surgia quando o assunto era Kiara. – A última coisa que preciso é mais drama com aquela maluca.
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  – %Anya%... – Meu aviso veio acompanhado de um leve movimento negativo da cabeça.
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  – Se for pra abrir o 'juridico Kiara', me dá um sinal agora. Pago suas bebidas e desapareço antes que você termine de piscar. – Ela ergueu as mãos em rendição dramática, os braceletes tilintando como pequenos sinos de advertência.
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  – Você está com ciúmes.
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  – Eu tenho uma lista extensa de sentimentos pela Kiara, %Anthony%. Ódio, raiva, desdém, nojo puro… – Seu garfo espetou a última batata-frita com uma violência que prometia vingança. – Mas ciúmes? Nem nas notas de rodapé. – O que ela murmurou em seguida, quase para o copo, quase me fez cuspir a cerveja: – A Kiara e aquele nariz perfeito do caralho.
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  – O… nariz?
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  – É perfeito demais. É uma ofensa. – Ela declarou, com uma expressão que era um terço inveja, um terço resignação e um terço pura fúria estética.
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  E, de fato, era. Kiara tinha aquela beleza que funcionava como um ímã social. Rosto delicado, traços finos e definidos como uma gravura e uma cabeleira de cachos que parecia ter seu próprio campo gravitacional.
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  Por anos, eu a considerei a mulher mais bonita com quem já estive. Mas, sendo honesto – brutalmente honesto –, se o que eu tinha com %Anya% fosse real, ela teria destronado a minha ex-namorada sem o menor problema.
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  – Maldito nariz colonial. – %Anya% resmungou de novo, apoiando o queixo na mão, os olhos fixos em algum ponto distante da parede.
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  – Colonial?! – Eu gargalhei de verdade dessa vez, a cabeça jogada para trás com a surpresa do improvável adjetivo.
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  – Você acha mesmo que aquele relevo veio do tio Kapur? Aquilo ali é herança americana pura. Você conheceu a mãe dela?
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  – Conheci. Era gentil, só que… sei lá. Sempre me pareceu uma mulher meio apagada. Triste.
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  – Pois é. Eu também sentia isso. Se eu fosse casada com aquele traste e tivesse uma filha como a Kiara, também andaria por aí com o brilho apagado.
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  – Falando nisso… onde está o pai dela agora? Nunca ouvi ninguém falar dele.
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  – Ele não comparece mais a nenhum evento, mesmo que seja convidado. Ela nunca contou o que aconteceu? – Neguei com a cabeça. – Bom, vou te contar porque ele, tecnicamente, também é minha família. E porque é um escândalo que todo mundo finge que esqueceu. O tio Kapur torrou quase tudo o que tinha com a mãe da Kiara. Festas, iates, apartamentos em capitais… a conta fechou em algo perto de trezentos milhões de dólares.
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  – Trezentos milhões? – Meu cérebro travou tentando visualizar uma pilha de dinheiro daquele tamanho, falhou e desistiu.
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  A verdade é que eu ainda me pegava, em momentos como esse, tentando entender como aquela mulher à minha frente, agora lambendo dedos gordurosos com um ar distraído, existia no mesmo planeta onde quantias como essa eram mencionadas entre uma garfada e outra.
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  – O tio desapareceu do mapa quando a mãe dela engravidou. Só ressurgiu quando Kiara já sabia andar e falar. Diz que foi por vergonha, mas ninguém na família comprou. Ele abandonou uma filha. Foi a família inteira que segurou a barra da “estrangeira” e da criança.
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  – E hoje… ele simplesmente sumiu de vez? – Perguntei, tentando processar o vácuo deixado por um homem com um poder de destruição financeira tão colossal.
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  – Talvez em Nova Delhi, talvez em Chicago. Ninguém confirma, ninguém pergunta. Os irmãos dele até devem saber, mas… é mais conveniente fingir que não. Ele dá menos trabalho sendo um fantasma.
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  Absorvi as informações em silêncio. Havia uma história de dor ali, sim, mas também de covardia calculada e de um pragmatismo familiar gelado. Kiara surgia como uma vítima óbvia, mas também como um produto moldado por essa ausência colossal e pelas expectativas silenciosas que a preencheram.
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  – Kiara deve ter sofrido muito com isso... – Soltei, com um tom mais suave, sem querer invadir a privacidade dela, mas tentando entender o impacto dessa ausência.
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  – Definitivamente contribuiu para a raiva que ela sente de todos os ricos do mundo. – %Anya% respondeu, mais séria do que antes.
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  Eu sentia que, por um momento, a distância entre nós diminuiu, mas também uma nova camada de complexidade surgiu.
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  – Você… – Comecei, quebrando o silêncio. A palavra saiu mais baixa do que eu esperava. – Você realmente não gosta dela?
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  %Anya% ergueu o olhar, como se a pergunta a tivesse alcançado de surpresa, ainda que não devesse. Demorou um segundo antes de responder.
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  – Eu tenho um certo… desgosto por hipocrisia. Todo mundo usa uma máscara. A Kiara tem a dela, a minha mãe tem a dela… eu também tenho a minha. – Ela fez uma pausa, os dedos girando o copo vazio num movimento lento e hipnótico. – A diferença é que eu não gosto de usar a minha. A Kiara, por outro lado… ela ama a dela. A máscara de boa menina.
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  %Anya% terminou o suco de morango e soltou um suspiro curto, quase imperceptível, como se carregasse o cansaço de conhecer os outros tão bem. Fiquei em silêncio, deixando aquela verdade amarga se depositar entre nós.
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  – Kiara? Boa menina? – Soltei um sorriso torto, divertido com a ideia absurda.
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  – Não foi exatamente essa a versão que ela te apresentou, foi? – %Anya% soltou uma risada leve. Franzi o cenho, tentando decifrar o código escondido na pergunta. Abri a boca para exigir uma explicação, mas ela já havia mudado de assunto com a agilidade de quem desarma uma bomba. – Então… você realmente acha que vamos conseguir convencer todo mundo de que estamos… juntos?
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  – Temos um grande plano? Você tem um roteiro, um cronograma, ou foi só um ‘vamos ver no que dá’? – Perguntei, a incredulidade vazando na minha voz.
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  – Olha pra mim, %Anthony% Você acha mesmo que eu sou do tipo que planeja essas coisas? Eu tive uma ideia. Uma ideia de merda, provavelmente. E eu fui com ela. Ponto. Não fiquei remoendo.
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  Soltei um riso breve, mais por nervosismo do que qualquer outra coisa. A situação era ridícula e nós dois sabíamos disso.
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  – Bom...Eu também não sou exatamente o cérebro das operações. Nunca fui o cara dos planos.
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  Nenhum de nós havia planejado o depois. O acordo era para ser simples, uma ponte temporária sobre águas turbulentas.
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  – Então… estamos oficialmente ferrados, é isso? – %Anya% suspirou, o garfo traçando círculos letárgicos no prato como se aquelas batatas fossem o último problema que lhe restava resolver no universo.
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  – Olha pelo lado positivo… se o navio vai afundar, que seja com um estoque generoso de asinhas de frango. Pelo menos um de nós vai partir com o estômago feliz.
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  Ela ergueu os olhos com uma lentidão teatral, as sobrancelhas se arqueando no ritmo exato de quem está calculando se vale a pena cometer um homicídio ali mesmo ou simplesmente desistir da espécie humana.
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  Por um segundo incômodo, tive certeza de que sairia dali coberto de ketchup. Então ela riu. Um riso curto, inesperado, genuíno o suficiente para desmontar a tensão.
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  – Você é patético.
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  – Mas vamos combinar… – Inclinei levemente a cabeça – um excelente namorado de mentira.
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  – É exatamente isso que me preocupa.
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  O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Ao contrário. Nos encaramos por um instante e, apesar do caos, do improviso e da mentira crescendo rápido demais… naquele segundo, tudo pareceu quase fácil.
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  E isso, talvez, fosse o detalhe mais perigoso de todos.
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Capítulo 5
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