Capítulo 4 • %Ananya%
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Apesar de cansada dos afazeres diurnos, a noite trouxe uma leveza inesperada. Mesmo com a pressão evidente que pairava sobre mim e %Anthony% – e as perguntas incisivas de Nina, que quase me tiraram do sério –, no fim, tudo acabou fluindo melhor do que eu imaginava. Depois do interrogatório velado e dos olhares curiosos, a noite se revelou agradável.
Dirigi com calma até em casa e, ao chegar, encontrei meus pais sentados à mesa de jantar, cada um concentrado em seu próprio tablet, com uma agenda estrategicamente posicionada ao lado.
Sempre tive um orgulho imenso da inteligência do meu pai, da rapidez de raciocínio, da precisão com que lidava com a gestão e tomava decisões. Minha mãe, por outro lado… ela era uma engrenagem perfeita quando o assunto era organização. Números, planilhas, sistemas... tudo parecia se alinhar naturalmente sob o comando dela.
Às vezes, eu me pegava imaginando quanto de seu potencial extraordinário ficava inexplorado, simplesmente porque ela não tinha o menor interesse em ser uma mulher de negócios. Mas essa era sua escolha. E, embora suas ambições seguissem um rumo completamente oposto ao meu, eu precisava respeitar sua decisão de viver exatamente como desejava: como uma
rich lady autêntica, elegante e mergulhada no luxo.
– Organizando algumas coisas da ilha. O proprietário ligou pedindo planilhas atualizadas, e também estamos adiantando alguns pagamentos… – contou a Maa, sem sequer erguer os olhos das telas. Todos pareciam imersos nos preparativos finais, e eu amava aquilo, amava a forma como se dedicavam a mim, por mim. Fazia tudo valer a pena. – Vamos na quinta de manhã. Quero deixar o salão de jantar organizado antes da chegada dos funcionários. E você?
– Vamos tentar ir na quinta à noite, depois do expediente. – Expliquei, já me afastando em direção ao meu quarto.
Eu quase tinha escapado quando uma pergunta inesperada me fez parar no meio do corredor, o corpo inteiro enrijecendo.
– “A gente?” – Minha mãe repetiu, sem desviar os olhos da tela do notebook.
Meu pai, ao contrário, largou a agenda imediatamente e me encarou, sobrancelhas arqueadas, atento demais.
Respirei fundo, dei meia-volta e parei diante dos dois, tentando parecer tranquila, embora o receio de uma reação negativa estivesse evidente em cada músculo do meu corpo.
– Eu e o %Anthony%. – Respondi, esforçando-me para soar casual, como se fosse um detalhe irrelevante. Não era. E eles sabiam.
Minha mãe finalmente desviou o olhar da tela. Fechou o notebook com cuidado, tirou os óculos e os colocou sobre a mesa, ao lado da agenda.
Pronto. Ela tinha tirado os óculos.
– Quem é %Anthony%,
djan? – Perguntou, o cenho franzido.
– Ah, o advogado. – Ela voltou a abaixar a cabeça, mas a atenção de meu pai permaneceu em mim. Seus olhos me observavam sabiamente e eu sabia que ele já estava desconfiado da minha feição ansiosa.
– E por que você vai com ele? – Questionou, desconfiado, me olhando como se já soubesse a resposta. Travei no lugar, não consegui responder. A falta de uma réplica fez até minha mãe levantar a cabeça e desviar o olhar do tablet. – %Ananya%. – Ele me chamou novamente, mais sério.
– Vocês estão juntos? – Anjali perguntou, e eu assenti, estranhamente nervosa. – E por que você não contou antes? – Ela insistiu.
– É algo novo. – Foi tudo o que consegui dizer.
– Ele é um bom rapaz. – Minha mãe comentou, tocando o braço de meu pai, que me olhava taciturno. – Embora quase não o vejamos em todos esses anos que Nina vive aqui.
– É que ele é um pouco… Eu também não sabia que… enfim. – Tentei explicar, mas meu balbucio se transformou em várias frases inacabadas.
– Por que é a primeira vez que estamos ouvindo falar dele? – Meu pai perguntou, sério.
– Como eu disse, é algo novo. E não é a primeira vez, mamãe já o conhecia. Não é,
Maa?
Torci para que, ao menos naquela vez, ela ficasse ao meu lado.
–
Are, djan. É a primeira vez que você fala dele. – Ela confirmou e pude notar o quanto ela queria me ajudar, mas a falta de relação com %Anthony% em todos esses anos deixava margem para dúvidas.
– Não queremos apressar nada. Depois de Andreas, eu não sabia nem se queria estar com alguém novamente. – Disfarcei, mexendo no celular.– O Andreas também vai, não é? – perguntou, sem disfarçar a preocupação. – Você acha mesmo prudente…?
– Não. Não acho. – Cortei, antes que ela terminasse. Um sorriso raso e forçado me escapou. – Se fosse por mim, ele estaria em outro continente. Mas…
– Não há "mas". – A mão dela se ergueu, palma para mim, como a parar o trânsito. – Os Buppha são nossos amigos. O convite não é negociável.
– E você,
beta? – Meu pai interveio, baixando os óculos na ponta do nariz. O olhar era direto, cirúrgico. – Consegue lidar com isso?
– "Lidar" é o verbo certo. Não é confortável, mas eu lido. Aliás… tem mais um detalhe. – Encostei-me na moldura da porta, os braços cruzados. – Andreas e Nina estão juntos agora. E está tudo bem, eu juro. Só preciso que ninguém… crie um clima. A Nina está constrangida o suficiente.
– E deveria estar. Ela está com o seu namorado! – Anjali disparou, afiada como sempre.
– Mãe! – Protestei, de imediato. – O Andreas não é mais meu namorado. Agora eu estou com o irmão dela. Só peço civilidade.
Meu pai ignorou o aparte, os dedos batendo levemente na capa da agenda.
– E esse irmão… Quando teremos o prazer?
– Na ilha, papai. Está tudo combinado.
– Combinado demais, parece. – Ele se inclinou para frente, o cotovelo apoiado no joelho. – Prefiro um jantar aqui antes. A sós. Quero conhecer o homem antes de dividir o teto com ele.
Era previsível. O problema é que eu não fazia a menor ideia de como convencer %Anthony% a aceitar um jantar com meus pais. Aquilo definitivamente não fazia parte do acordo.
– Papai, além de %Anthony% estar ocupado, eu também estou cheia de trabalho. Aliás… ele trabalha justamente no escritório do tio Davi.
– Davi, aquele fútil? – Maa fez uma careta de puro desprezo, como se tivesse sentido um gosto amargo.
– Sim. E acreditem, ele faz a vida de %Anthony% um inferno! Ninguém me contou, eu vi com meus próprios olhos. O homem é misógino, machista e até homofóbico com o Ant. Eu não entendo como pode ser tão horrível com os funcionários e com a nossa família se porta como um príncipe.
–
Madhu, as pessoas se transformam em coisas inimagináveis quando têm interesses em jogo. – Papai disse, a voz grave carregada de uma resignação que eu detestava. – Seu tio Davi é ambicioso. Não duvido que ele infernize o rapaz. Eu já vi o jeito como ele trata as pessoas que trabalham com ele, realmente terrível.
– Então por que ainda o convidamos? – A raiva subiu como um calor no meu pescoço só de pensar naquele homem respirando o mesmo ar que nós na ilha.
– Por causa do seu tio-avô, %Anya%. Ele insiste. – Anjali explicou, e depois, com o olhar fixo no marido, acrescentou: – Por mim, ele já teria sido riscado de todos os nossos círculos.
– Anjali. – Ele advertiu, num tom baixo que pedia trégua.
– Querido, ele não é seu amigo. Você sabe melhor do que ninguém. – Ela não cedeu e os dois mergulharam naquele debate antigo e circular: o motivo de ainda tolerarem a presença do tio Davi em tudo o que era evento familiar.
Pensei em soltar a bomba ali mesmo, contar da proposta indecente que aquele homem tinha feito ao %Anthony%. Mas engoli as palavras. Era uma moeda de troca valiosa, a ser usada no momento exato. Deixei os dois ali, presos na espiral daquela discussão que nunca levava a lugar nenhum, e recuei em silêncio em direção ao meu quarto.
Enquanto subia as escadas em direção ao que, com firme propriedade, eu chamava de
meu andar, não consegui conter um sorriso ao imaginar a reação de %Anthony% ao descobrir que teria de encarar meus pais à mesa de jantar. Ele surtaria. Completamente.
Peguei o celular da bolsa ainda no corredor e digitei, sem hesitar:
Acabei de anunciar sua existência aos meus pais. Considero isso um ponto de não retorno. A resposta dele veio em menos de três minutos e o tom me arrancou uma risada baixa, quase íntima.
Por um segundo genuíno, esqueci que "conhecer os pais" era uma variável nessa equação. Ainda dá pra dizer que você tem um namorado imaginário? Sorri para a tela, os dedos voando sobre o teclado com uma leveza que eu mesma não sentia.
Vou preparar um contrato com cláusula de indenização por danos emocionais. Algo me diz que você vai tentar fugir mais de uma vez... – Ժ –
Eu amava meu trabalho. Acordar cedo, ter uma rotina, até mesmo as horas extras. Tudo isso me dava um senso de propósito e controle tangível. Mas se havia um ritual que me esvaziava por completo, era a reunião mensal do conselho de sócios do Grupo %Bhasin%.
Era uma cerimônia de humilhação meticulosamente coreografada. Eu entrava sempre um minuto atrasada – um ato de rebeldia tão pequeno quanto inútil – e sentia imediatamente o peso dos olhares se voltando:
Lá vem a princesa herdeira. Ethan, meu "co-diretor" apenas no papel, tinha o dom sobrenatural de se fazer invisível justo nessas horas. Eu era deixada sozinha para enfrentar os tubarões, todos famintos para provar que o sangue %Bhasin% nas minhas veias não me tornava digna do cargo que meu pai insistia em empurrar goela abaixo.
Meus saltos arrastaram-se pelo assoalho de carvalho polido, aquele que meu avô escolhera pessoalmente na fundação da empresa. Cada passo ecoava no silêncio do corredor vazio como a contagem regressiva para o meu suplício mensal.
Encontrei Ethan em seu escritório, imerso em relatórios e no seu terceiro café do dia.
– Dois dias de folga. – Ofereci, arrebatando a xícara de suas mãos antes que pudesse reagir.
– Quatro dias, então. – Insisti, e minha voz soou mais desesperada do que eu pretendia.
– %Ananya%, nem comece. – Ele resmungou, recuperando a xícara com um movimento fluido de quem já tinha anos de prática naquele nosso ritual particular.
– Ethan, eu não aguento mais! – Minhas unhas cravaram-se na beirada de sua mesa. – É um teatro grotesco onde sou a estrela principal e a piada pronta.
Cinco dias. E eu pago seu almoço por um mês inteiro.
Ele finalmente me encarou, os cantos da boca tremendo levemente de um humor que não ousava se mostrar por completo.
– Eles suspiraram
aliviados quando você chegou atrasada na última terça. Seu pai quase me decapitou com um olhar quando tentei cobrir sua ausência no mês passado. Você acha que eu vou arriscar de novo?
Joguei a cabeça para trás com um gemido dramático. Sabia que ele estava certo.
– Você não entende. – Murmurei, olhando para o retrato de Adit %Bhasin% na parede.
Apesar de ter deixado o cargo de diretor geral há alguns anos, meu pai ainda era uma presença constante no Conselho e não faltava a nenhuma reunião. Ele sempre tinha uma opinião sobre cada movimento, e seus olhos, sempre afiados, seguiam meus passos de perto.
Para ele, minha presença ali não era apenas uma formalidade, mas uma maneira de acompanhar minha evolução no cargo. Ele esperava ansiosamente o dia em que eu deixaria de ser apenas chefe de setor e me tornaria uma diretora executiva séria e renomada.
Mas, a verdade era que eu tinha outros planos. Eu não planejava sair do meu cargo tão cedo.
– Argh! Odeio quando você faz isso.
– Faço o quê? – Ethan levantou a cabeça, me olhando confuso, claramente ignorante de qual crime havia cometido.
– Me lembra que eu sou apenas uma filha do nepotismo.
Ethan adorava me chamar assim quando estava com raiva ou, mais frequentemente, quando queria se divertir às minhas custas.
– Coitadinha de você. – Murmurou, irônico, dando de ombros. – %Anya%, você reclama demais.
– Você não tem ideia de quanto eu me contenho.
Fomos interrompidos por batidas firmes na porta e, em seguida, pela entrada inesperada de Adit %Bhasin% na sala individual de Ethan. Sua presença imponente fez com que nos levantássemos automaticamente, em respeito ao homem que, com sua postura sempre assertiva, cruzou a porta e nos cumprimentou com um simples aceno de cabeça.
– Senhor, bom dia. – Ethan falou de forma cortês, como se estivesse se curvando ao imperador romano.
Eu, por outro lado, senti uma vontade imensa de lançar-lhe um olhar sarcástico. Ele nunca se esforçava para ser tão formal comigo.
– Papa, estamos atrasados? – Perguntei, lançando um olhar para o relógio, mas na verdade, só queria desviar do olhar de Adit. Sua presença sempre tinha o efeito de fazer minha ansiedade crescer uns 10 níveis.
– Não. Fui até sua sala e seu secretário de quinze anos me disse que você estava aqui. Estão se preparando? – Questionou, com uma calma que só ele sabia manter. Eu e Ethan nos entreolhamos, cúmplices na vergonha.
Não tínhamos nada preparado. O setor de finanças era sempre o último a se organizar e eu já começava a temer pela nossa sobrevivência nesse Conselho.
– Estamos... tentando. – Ethan respondeu, com uma leve risada nervosa. – O senhor gostaria de algo? – Ethan perguntou, tentando ser educado, mas já dando sinais de que não estava nada confortável com a situação.
– Na verdade, sim, Ethan. – Adit disse com um tom firme, como quem anuncia que vai fazer um pedido irrecusável. Eu engoli em seco, já sabendo que o mundo como eu conhecia ia virar de cabeça para baixo. Meu pai nunca usava o primeiro nome de Ethan dessa maneira. – Queria saber se você pode dispensar %Ananya% da reunião hoje. – Ele falou, como se fosse um pedido totalmente normal.
– Se... eu posso...? – Ethan gaguejou, claramente sem entender direito o que estava acontecendo. Ele, como eu, não estava acostumado com essa abordagem tão... casual.
– Primeiro, ele não é meu chefe, papa. – Interrompi, tentando ser firme, mas com uma pontinha de ironia, porque, vamos combinar, a situação estava ficando um pouco ridícula. Eu sabia que ele adorava impor respeito, mas já estava demais para mim. – Segundo... Por quê? Você sempre me obriga a participar dessas reuniões. – Curiosa, e um pouco desconfiada, me virei para ele.
– Sua mãe precisa de você hoje. Ela está esperando lá embaixo. – Adit explicou, com aquela calma inabalável que ele tinha. Olhou para Ethan novamente, como se a decisão já estivesse tomada, e todos nós tivéssemos que seguir à risca. – Você se importa?
Senti minha boca se abrindo levemente. O homem realmente estava pedindo minha dispensa do trabalho...para o Ethan?!
– De forma alguma, senhor.
– Mas espera, aconteceu alguma coisa? Mamãe está bem? – Perguntei novamente, murmurando baixo.
– Sim, ela apenas... precisa de você para resolver algumas coisas. – O homem pigarreou no meio da frase.
Foi quando eu tive a certeza de que tinha algo de estranho naquela história de dispensa.
– Não vejo necessidade de falar sobre sua vida pessoal aqui. – Falou, categórico, como se estivesse lidando com uma questão de segurança nacional.
– Minha vida pe... Anh, ok. Eu vou, er... – Olhei em volta, confusa, como se estivesse procurando um mapa para me guiar na situação. – O senhor pode esperar lá fora? Eu e Ethan precisamos alinhar algumas ideias antes da reunião.
– Sem problemas, só não demore, sabe como Anjali fica irritada quando você se atrasa. Vou me dirigindo para o auditório. Ethan, vejo você lá.
Assim que Adit saiu, a tensão na sala foi tão palpável que eu quase podia ver a forma física dela flutuando no ar.
Não era só o estresse do dia, mas também aquele olhar. Um olhar compartilhado entre mim e Ethan, carregado de desespero, como se estivéssemos na beira de um abismo emocional e profissional. Eu estava realmente perdida. O que meu pai queria com isso? Ele nunca agiria de forma tão inesperada. E mais, por que pedir para eu ser dispensada justamente agora, no meio de um dia de caos corporativo?
– %Anya%, o que foi que você fez? – Ethan exclamou, sua frustração transbordando enquanto se levantava abruptamente da cadeira. – E pior, o que eu vou fazer?!
Eu olhei para ele, tentando encontrar uma resposta, mas tudo o que encontrei foi um mar de confusão. Eu estava atônita, tentando manter uma aparência de controle.
– Calma, nós vamos... – Comecei a falar, tentando me convencer de que daria tudo certo.
– Calma? – Ele me cortou, a voz agora um fio tenso de pânico. – Seu pai te baniu da reunião e não temos nada preparado! Vou ter que me apresentar sozinho! E sua mãe…
– Minha mãe o quê? – A pergunta saiu mais aguda do que eu pretendia. Algo frio e pesado se instalou no meu estômago.
– Ela te odeia. – A frase foi solta com uma precisão cirúrgica, cada sílaba perfurando o ar como uma agulha de gelo. Antes que o golpe sequer terminasse de doer, ele continuou, sem piedade: – %Ananya%, não finja. Você sabe que eu sei.
Ethan sabia, é claro. Ele fora testemunha silenciosa de um dos nossos piores combates. Estávamos na minha sala, ele diante de mim absorto em um relatório, quando Anjali irrompeu, um furacão de fúria e desprezo. E eu, é claro, retribuí na mesma moeda.
Palavrões nunca soaram tão elegantes quanto naquela discussão. Ainda assim, o que veio depois foi o que realmente deixou marcas. Desde então, nunca mais tocamos no assunto. Mas, naquele instante, ficou dolorosamente claro que Ethan não havia esquecido.
– Eu não fiz nada! Tenho sido perfeita! – Soltei, a defesa soando frágil até para meus próprios ouvidos. – Ethan, pelo amor de Deus, o que eu faço?
– O que EU faço, %Ananya%?! – Ele explodiu, as mãos se agitando no ar como pássaros presos. – Não temos porra nenhuma para apresentar! E se você acha que deixo você ir sozinha por medo do seu pai, está louca. Eu só não tenho estômago para engolir a humilhação mensal que você parece adorar saborear.
– Ei! Você faz isso de propósito? Você é insuportável!
– %Anya%, FOCA! – Ele bateu a mão aberta na própria testa, os nervos visíveis sob a pele. – Pelo que eu começo?
– Aqui… toma, minhas anotações. – Estendi os papéis, a mão trêmula. – Mistura com as suas e reza para dar em algo. – A frase foi cortada pela vibração surda e insistente do celular no meu bolso. Olhei rapidamente, esperando um milagre em forma de mensagem. Era de minha mãe.
%Ananya%, estou no saguão. Não se atrase. – E o que mais? %Anya%? – Ethan me olhou, ainda em pânico.
– Minha mãe está me apressando. – Disse, tentando me acalmar. Ele balançou a cabeça, claramente não se importando com os meus problemas familiares. – Não use o projetor, fale rápido, diga que vai enviar os relatórios por e-mail e tente responder todas as perguntas.
– Perguntas? Eles fazem muitas perguntas? – Ele perguntou, com um olhar receoso.
– Bom, comigo sim. Mas a verdade é que parece que só me testam, como se eu fosse a única que estivesse em uma constante entrevista de emprego.
A memória das reuniões anteriores me invadiu. Sempre sentia como se estivesse sendo observada, com cada palavra minha sendo avaliada, como se qualquer deslize fosse uma falha em minha competência.
Mais uma vez, o celular vibrou. Um frisson gelado subiu pela minha nuca.
E avise seu namorado que o almoço é conosco.
– O que foi? – a voz de Ethan, já abafada pela distância.
– Espera, e EU? O que eu faço? – Sua pergunta ecoou atrás de mim, um grito de pânico diante do colapso profissional iminente.
– Não se preocupe, volto a tempo. Iremos juntos. – Joguei a promessa pelo ombro, já disparando pela porta. Meus saltos quase falharam no piso liso, mas não diminui o passo até o elevador.
Se minha mãe achava que podia me arrancar do trabalho para atender seus caprichos, estava redondamente enganada. O som das minhas botas ecoava pelos corredores vazios enquanto minha mente trabalhava a mil, e eu não estava disposta a ceder. Não mais. Não para ela.
Ao entrar no saguão, meu olhar varreu o ambiente até encontrá-la. Anjali estava sentada na poltrona mais distante, como um trono improvisado. Ela era uma mulher que transformara a idade em uma afirmação de poder. Nenhum Botox, nenhum procedimento que negasse o tempo. Cada linha no seu rosto era uma conquista, cada fio de cabelo grisalho na sua negra e impecável semi-presa, uma insígnia. Minha mãe nunca quis parecer jovem, ela queria era parecer intocável.
– Maa, o que você está fazendo aqui?
– Você fugiu de casa tão cedo que me roubou o prazer de comunicar nossos planos. – Ela se ergueu, suave e fatal, e estendeu a mão não para um abraço, mas para ajustar um fio do meu cabelo que, suspeito, nem estava fora do lugar.
Um desconforto sutil percorreu meu corpo quando ela deslizou os dedos pelos fios soltos do meu cabelo. Minha mãe sempre parecia encontrar algo a corrigir. Um ajuste na roupa, um comentário sobre o penteado, uma observação disfarçada de cuidado. Podia soar como bobagem, mas eu não me lembrava de um único dia em que ela não tivesse criticado, ainda que de forma velada, as minhas escolhas. Era como se nunca fosse suficiente. Cada detalhe da minha aparência, cada decisão que eu tomava, passava inevitavelmente pelo crivo do seu julgamento constante.
Eu não podia evitar a sensação de que, apesar de todo o amor que ela me dava, havia sempre uma necessidade implícita de me moldar ao que ela achava certo.
– Nossos planos? Nós temos planos? – Indaguei, desconfiada, assistindo pelo vidro espelhado a mulher prender os meus fios de cabelo solto ao coque baixo.
– Sim, vamos almoçar com %Anthony% hoje. Esse é o nome de seu namorado, não é? – Abri a boca, surpresa.
– E de onde você tirou isso? – Cruzei os braços, tentando conter a irritação que começava a se apoderar do meu corpo.
– Eu posso falar com Martinez se ele estiver muito ocupado. Davi não se negaria a dispensá-lo para um almoço. – Sugere. – Posso pedir como um favor e...
– Não. Mãe, você não pode chegar aqui achando que vamos mudar todos os nossos planos do dia para aderir os seus. Tenho muito o que fazer hoje, tenho uma reunião importante daqui a pouco e…
– Eu já falei com seu pai. Por que você acha que ele a dispensou? Ele também está interessado em conhecer o rapaz. E como ele não está disponível, eu faria as honras até que eles possam se encontrar pessoalmente.
– Papa não está disponível pois está trabalhando, assim como eu. Por que você acha que eu posso ser facilmente dispensada e ele não? – Disparei, já conseguindo enxergar onde aquela discussão iria parar.
– Eu não disse isso. – Ela suspirou, impaciente. – Só acho que você tem coisas mais importantes para…
– Nada é mais importante do que meu trabalho. Achei que já tivesse deixado isso claro. – Emiti, firmemente.
– E eu achei que a essa altura do campeonato você já teria desistido dessa brincadeira sem graça.
Fiquei em silêncio por uns segundos, olhando a feição impaciente de minha mãe. Respirei fundo, passando a mão nos cabelos e olhando para os lados, esperando profundamente que ninguém estivesse prestando atenção nas besteiras que ela falava.
– E eu achei que você já teria entendido e aceitado que levo meu trabalho a sério. Todos aqui levam e me respeitam, não entendo como você não consegue enxergar isso.
– %Anya%. – Ergueu uma mão, me silenciando apenas esse gesto.
Respirei fundo, olhando em volta. Não valia a pena prolongar a discussão ali, com todos os olhos voltados para nós. Qualquer movimento em falso e logo estariam falando. Eu sabia disso melhor do que ninguém, então escolhi não alimentar mais uma fofoca sobre meu nome.
– Vou subir agora. Tenho uma reunião urgente. – Mantive o olhar fixo nela, a voz firme. – Se quiser esperar, podemos nos ver depois. Agora, não saio daqui.
– Agora não, Maa. – Virei-me de uma vez e marchei em direção ao elevador.
Sempre foi um combate desgastante, lidar com a audácia absoluta de Anjali. Até os dezenove anos, eu engolia seu julgamento e suas regras sem mastigar, com a resignação de quem acha que o amor tem gosto de obediência. Até o dia em que apareci aos prantos na casa da Nina, o coração em frangalhos, porque minha mãe decidira que meu cabelo precisava ser cortado. "Ficará mais elegante", dissera ela. "Mais fotogênico para as sessões da próxima semana."
Foi a primeira vez que me neguei. Sua reação foi um espetáculo de crueldade fria: petulante, mimada, ingrata.
Ao ver a cena de Nina me abraçando e consolando, sua mãe Anamelia se sentou ao nosso lado, estendeu um lenço para mim e disse simplesmente: “Você não deve pedir permissão para fazer o que quer da vida, especialmente com o seu corpo. Não corte seu cabelo, não de a sua mãe esse poder”.
Não cortei o cabelo. E, desde aquele dia, nossa casa se tornou um campo de batalha silencioso, onde a trégua nunca durava mais que quatorze dias.
Dentro do elevador, o ar parecia rarefeito. Respirava fundo, tentando expelir a raiva que fermentava no peito. Era sempre assim. Ela reduzia meu trabalho a um hobby, um capricho de menina rica. "Brincando de executiva", era seu refrão favorito. Como se minha vida fosse uma boneca que ela pudesse vestir e despir à vontade.
Para Anjali, eu seria sempre mais valiosa como ornamento social do que como construtora de algo que fosse meu.
Caminhei até a sala de Ethan, que já estava vazia. Imaginei que ele já estava a caminho da reunião e segui até o auditório também.
Assim que cruzei a porta, senti o peso coletivo de todos os olhares se voltando para mim. Os mesmos rostos entrincheirados em suas mesas de mogno, os mesmos sorrisos finos que eram mais armadilhas do que cumprimentos.
A timidez, aquela velha inimiga, tentou me engolir. Baixei os olhos, alisei a saia amassada num gesto automático de insegurança, e avancei em direção a Ethan.
– Tudo certo? – Sussurrei, sem olhar para ele.
– Ainda não começaram. Quer dar uma olhada nas minhas anotações? – Ele me passou uma pilha de papéis, sua voz um murmúrio no meu ouvido.
Assenti, agarrando-me aos documentos como a um salva-vidas. “Concentre-se”, ordenei a mim mesma. A raiva contra minha mãe ainda tremia dentro de mim, mas eu me recusava a deixá-la entrar naquela sala.
Enquanto tentava decifrar a caligrafia apressada de Ethan e trocávamos sussurros táticos, senti, mais do que vi, meu pai se acomodar na cadeira ao meu lado direito. O gesto de Ethan não tinha sido cortesia, era o reconhecimento tácito de uma hierarquia. E eu não queria estar ao lado daquela hierarquia. Naquele momento, Adit era apenas uma extensão de Anjali, outro mestre no jogo de xadrez que eu estava cansada de jogar.
– %Anya%. – A voz dele, um sussurro áspero, cortou o ar entre nós. – Eu disse que você não precisava vir. Poderíamos ter…
– Nunca mais faça isso. – Cortei suas palavras, os olhos colados às cifras dançantes no papel, minha voz mais gelada do que eu pretendia.
Ignorei-o. Virei-me completamente para Ethan, mergulhando numa discussão forçada sobre margens de lucro e projeções trimestrais, qualquer coisa para criar uma barreira de ruído profissional entre mim e o homem ao meu lado.
Não trocamos mais uma única sílaba até o final.
Eu e Ethan despejamos tanto esforço mental naquele desempenho – atuando como uma dupla perfeitamente sintonizada, como se tivéssemos ensaiado aquele script a vida inteira – que, quando finalmente nos arrastamos de volta para a nossa sala, o cansaço era de uma guerra, não de uma reunião. Três horas haviam nos esvaziado por completo.
– Finalmente terminou – Ethan praticamente despencou no sofá da minha sala, soltando a gravata com um gesto cansado. – Até que nos saímos bem.
– Concordo – Respondi. – De agora em diante, você está oficialmente convocado a me acompanhar em todas as reuniões do Conselho – Completei, procurando o celular no bolso, onde havia permanecido esquecido pelas últimas horas.
– Não se anima. Foi só hoje.
– Tarde demais – Retruquei. – Agora que sei que você só não aparece nessas reuniões por comodismo, não vou deixar você faltar de novo.
Liguei o celular, dando de cara com várias notificações com o nome de %Anthony%. Sete mensagens e três ligações. Joguei meu corpo na cadeira, suspirando exausta. Aquele desespero de %Anthony% tinha nome e sobrenome e eu sabia disso.
Por que diabos sua mãe está me ligando????
%Anya%, sua mãe falou com Martinez
Ele acaba de me ligar e me mandou tirar o resto do dia de folga, disse que eu tinha um compromisso com você
%Anya%, atende esse celular!!!
Suspirei, apertei as têmporas, sentindo minha cabeça começar a pesar e despontar em uma provável enxaqueca.
– O que foi? – Ouvi Ethan perguntar.
– Vou brigar com meus pais agora, você pode me dar licença? – Pedi, apontando para a porta.
– Ah, os desafios de ser filha do nepotismo... – Zombou, se levantando e indo em direção a porta. Peguei um calendário de papel de cima da mesa e não pensei duas vezes antes de jogar em direção a Ethan, que deu uma rápida corrida para fugir do objeto. – Não me culpe por sua sina, %Ananya%. – Gargalhou, saindo pela porta.
Balancei a cabeça, prendendo o riso nos lábios. Eu sempre achava a gargalhada de Ethan engraçada, mas não o deixava notar que eu também sempre acabava rindo com ele.
Olhei para o relógio, passava das 16h, decidi ligar para minha mãe, que atendeu após o quarto toque, mas não disse nada. A ligação ficou em silencio por um segundo já que nenhuma das duas queria ceder e ser a primeira a falar.
– Segui meus planos para o dia. – Mamãe... – Suspirei, frustrada. – Por que você ligou para o escritório de %Anthony%? As pessoas levam seus trabalhos a sério, sabia?
– Eu disse que iriamos almoçar juntos hoje e nós vamos. – Emitiu taxativa. Antes que eu abrisse a boca para reclamar, a mulher continuou: –
Estou no saguão, no mesmo lugar. Desça imediatamente ou irei sozinha até o escritório de Martinez. – Argh! – Exclamei irritada, jogando o celular na mesa com força. – Ela é tão... Argh!
Eu sabia que não tinha escolha. Assim como eu, minha mãe também não desistia de seus planos facilmente, sabia que a mulher era inabalável e não descansaria enquanto não concretizasse o plano de sair comigo e %Anthony%. Entretanto, eu também sabia que, assim como eu e Maa, %Anthony% também era quase inflexível.
– Finalmente, %Anya%! – Ouvi a voz esganada de %Anthony% pelo celular. –
Pode me explicar que porra está acontecendo? Martinez está em cima de mim como um gavião, proibindo a todos de me dar trabalho. Sua mãe ligou e agora tudo está uma confusão aqui. – É... Eu preciso da sua ajuda.