Efeito Colateral


Escrita porJuliana M.
Editada por Natashia Kitamura


Capítulo 3 • %Ananya% & %Anthony%

Tempo estimado de leitura: 149 minutos

  %ANANYA%

  Entediada, deixei meu olhar vagar pelo céu azul-tóxico do verão que se estendia atrás do vidro blindado que revestiam a sala de reuniões no prédio da empresa %Bhasin%. Lutando contra o tédio que me consumia lentamente, respirei furtivamente enquanto assistia o desenrolar dos fatos que ocorriam na reunião daquele dia, ciente de que Ethan estaria fazendo uma merda sem tamanho se eu não estivesse ao seu lado.
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  Quando olhei no relógio em meu pulso, vi que já estava dez minutos atrasada e se eu não saísse daquela sala logo, me atrasaria para todos os compromissos do dia. Eu odiava atrasos, principalmente os meus.
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  – Ethan. – Sussurrei, inclinando-me até seu ouvido. – Posso ir embora?
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  – Você está pedindo autorização? – Ele me olhou com escárnio.
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  Corri os olhos pelo rosto dele rapidamente. Eu odiava admitir, mas Ethan era bonito.
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  – Não. Estou avisando que não vou limpar sua próxima bagunça. – Emiti, incisiva. Ele rolou os olhos, nem um pouco ofendido com a insinuação de que ele era um péssimo profissional. Ambos sabíamos que ele não era.
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  – Vaza, princesa.
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  Saí antes que meu salto 12cm afundasse no pescoço dele.
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  Informei ao meu estagiário impecável que estaria fora pelo resto do dia. Sem mais delongas, entrei no carro e saí da garagem um pouco acima do limite de velocidade, focada em atravessar a cidade o mais rápido possível. Tudo aquilo por um único motivo: manter intacta minha reputação de boa moça.
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  Eu sabia que tinha os meus defeitos – podia ser mimada, teimosa, exigente e, dependendo do dia, absurdamente inflexível –, mas desde que entendi que era inútil consumir qualquer coisa que não contribuísse para meu crescimento pessoal, venho tentando agir de acordo com o que se espera de alguém sensata. E, acima de tudo, sempre fui a favor de preservar boas relações.
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  No intuito de manter o espírito da “boa-vizinhança” e amizade com a família Buppha, me vi saindo no meio do expediente do trabalho e indo até a mansão da família onde seria realizado um brunch em comemoração ao trigésimo aniversário de Andreas.
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  O detalhe que tornava a situação um pouco mais complicada? Andreas era o meu ex-namorado.
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  Eu não via problema algum em ir à festa. Na verdade, estava ansiosa pelo Pad Thai que a mãe dele preparava como ninguém. Nosso término havia sido pacífico, quase burocrático, um acordo mútuo entre adultos civilizados. Foi consensual. Dois beijos na bochecha e um "te desejo o melhor".
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  Mas, ainda assim, havia algo de desconfortável na ideia de estar ali, cercada pela família que já foi quase minha. Por mais que tentasse manter a racionalidade, sabia que bastava um tropeço emocional para que aquela tarde cordial se transformasse num campo minado.
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  E como se a situação já não fosse complexa o suficiente, ela ganhou contornos ainda mais surreais quando desci do carro e vi Andreas à porta de um táxi, ajudando alguém a sair. E ali estava ela: Nina. Com um vestido branco de renda e sapatos de salto baixo, parecendo uma pintura fora de lugar naquele cenário.
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  Eu não fazia ideia do que ela estava fazendo ali.
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  – %Anya%? – Ouvi a voz de Andreas, franzindo a testa assim que me aproximei. Nina, ao lado dele, empalideceu na mesma medida em que corava. – O que você…?
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  – Seus pais ligaram. Avisei que eu viria. – Respondi, tentando soar despreocupada, embora meus olhos estivessem grudados em Nina. Ela me olhava como quem foi pega em flagrante, o tipo de expressão que alguém tem quando sabe que a explicação não vai ser suficiente. – O que você está fazendo aqui, Nina? Veio para o brunch?
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  Eu sabia que eles se conheciam. Claro que sabia. Mas não o bastante para justificar a presença dela ali, no aniversário dele.
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  – E-eu… – Ela começou, a voz trêmula. Os lábios finos se comprimiram, e a forma como evitava o meu olhar já dizia mais do que qualquer explicação. Ao lado dela, Andreas parecia igualmente desconfortável, o tipo de desconforto que antecede um desastre.
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  – Então, %Anya%… – Ele tentou começar, mas a frase morreu no ar.
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  Foi aí que eu vi. O movimento rápido, quase instintivo, dele pegando a mão dela. Os dedos se entrelaçando, como se aquilo fosse natural. Como se aquilo existisse há muito tempo.
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  Demorei meio segundo para entender. Outro para acreditar.
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  – Você só pode estar de sacanagem. – Murmurei, mais para mim do que para eles, sentindo o estômago afundar.
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  Em que universo minha melhor amiga estava envolvida com o meu ex e eu era a última a saber?
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  A raiva subiu, queimando sob a pele. Não era por ele. Ele podia muito bem seguir com a vida dele. Mas a Nina… ela devia ter me contado. Era o mínimo. O básico do contrato não escrito entre melhores amigas: contar sobre relacionamentos, pedir conselhos, dividir as dúvidas, as inseguranças. Mesmo que fosse com um desconhecido, quanto mais com o meu ex.
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  – Vocês estão juntos? – Perguntei, só para confirmar que não estava tendo uma alucinação. – Tipo… juntos juntos?
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  – A gente… ér… – Nina balbuciou, visivelmente perdida.
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  – Nina, por que você não me contou? – Falei mais baixo, sentindo a irritação crescendo.
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  – Eu não sei! Eu fiquei morrendo de vergonha, %Anya%! – Cobriu o rosto com as mãos. – Eu nem sei o que estou fazendo aqui! – Completou, fuzilando Andreas com o olhar.
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  – É meu aniversário, Nina. Eu queria que você estivesse aqui – Ele rebateu, e eu precisei me segurar para não revirar os olhos.
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  – Combinamos de ir devagar. – explicou Nina, olhando para ele antes de voltar o rosto para mim. – Estamos nos conhecendo.
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  Olhei de um para o outro, sentindo o peso daquela frase se instalar no peito. Ainda assim, ao encarar Nina, vi a culpa estampada no rosto dela – o nervosismo, o arrependimento – e isso me desarmou.
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  – Mas vocês já se conheciam. – Ressaltei, cruzando os braços e ajeitando a bolsa no ombro oposto, tentando recuperar um mínimo de controle.
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  – Sim, mas… ah, %Anya%, me perdoa! – Ela soltou, a voz embargando. Se aproximou rápido, segurando minhas mãos. – Eu tentei contar, juro. Fiquei nervosa com a sua reação, fui adiando… e agora…
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  Ela não terminou a frase, e nem precisava. Eu conhecia aquele olhar, era o mesmo de quando, aos quinze anos, ela quebrou o vaso preferido da mãe e passou três dias inventando histórias antes de confessar.
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  Senti a raiva se dissolver devagar, feito açúcar no café quente.
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  – Nina, eu não estou brava. De verdade. – E não estava mesmo. Nem podia. Não depois da semana retrasada, quando cometi meus próprios pecados libidinosos com ninguém menos que o irmão dela. Suspirei, tentando suavizar o tom. – É só que… eu merecia saber. – Falei, com um meio sorriso cansado. – Não assim, de surpresa, no meio de um brunch de família.
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  – Sim, a gente entende. – Andreas assentiu, apertando a mão de Nina num gesto reconfortante. – Apesar de que toda essa situação poderia ter sido evitada... se eu soubesse que você viria.
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  Ah, claro. Andreas nunca perdia a chance de suavizar a própria culpa. Era bem típico dele. Um dos pequenos hábitos que, ao longo do tempo, me fizeram perder o encanto.
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  – Eu não estou brava. – Repeti, firme. – E não me importo, de verdade. Só queria não ter descoberto isso segundos antes de passar por aquela porta. – Apontei para o portão branco, todo decorado, que levava à entrada da mansão. – Acho melhor eu ir embora.
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  – Não, quem devia ir embora sou eu. Você foi convidada. – Nina apressou-se em dizer, aflita.
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  – Não tem motivo para nenhuma das duas irem. – Andreas se meteu, tentando soar conciliador. – %Anya%, você é amiga da família... e minha amiga também. E Nina, você é minha... enfim, a gente consegue dar um jeito.
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  A parte do "dar um jeito" foi até bonitinha... se não fosse completamente falsa.
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  Spoiler: eles não deram um jeito.
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  Assim que pisamos no jardim amplo, todo cheio de relva e fontes, os pais de Andreas praticamente correram até mim, sorridentes, me abraçando com entusiasmo. E, pelo brilho nos olhos deles, dava para ver que esperavam que eu e o filho tivéssemos voltado a ser um casal.
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  "Má notícia para você, Sr. Buppha. Essa reconciliação está tão distante da realidade quanto seu filho está da decência... considerando que ele anda comendo minha melhor amiga." Mas é claro que guardei esse pensamento só para mim.
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  – %Ananya%, que alegria ver você! – A mãe de Andreas me puxou para um abraço caloroso. – Ficamos tão felizes que você veio!
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  – Eu não perderia a chance de comer seu Pad Thai por nada nesse mundo, Sra. Buppha. – Brinquei, forçando um sorriso amarelo.
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  Seguiu-se um silêncio constrangedor. Desses que gritam mais alto que qualquer palavra. Só então Andreas pareceu acordar do próprio torpor e, com um sorriso sem graça, apresentou Nina.
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  Os pais dele, como sempre, foram impecáveis. Gentis, educados, porém, o mesmo não podia ser dito do resto dos convidados.
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  Cada vez que Andreas tentava apresentar Nina a alguém, a cena se repetia: cumprimentos breves, olhares avaliativos… e, em seguida, a pessoa se virava para mim, como se o centro de gravidade da conversa estivesse em outro lugar. Nina, por sua vez, ia se encolhendo um pouco mais a cada tentativa frustrada, o sorriso se tornando um disfarce cada vez mais frágil.
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  Suspirei quando notei o olhar entristecido dela. Uma das tias de Andreas falava animadamente comigo, gesticulando com taça em punho, completamente alheia ao desconforto que pairava no ar.
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  A verdade é que eu nunca me considerei assim tão interessante. A família Buppha comprou a mansão ao lado da propriedade dos %Bhasin% quando eu tinha apenas dez anos. Foi ali que conheci Andreas. Sempre fui tímida, mas por frequentar as festas deles há tanto tempo – muito antes de imaginar qualquer romance com Andreas – acabei me tornando uma presença constante. Familiar.
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  Lembro das reuniões cheias de risadas, pratos exóticos e histórias trocadas com naturalidade. Com o tempo, mesmo sem perceber, fui me sentindo parte daquela família. As tias eram calorosas, quase maternas. E, por anos, isso me confortava. Mas naquela noite, a mesma empolgação que antes me aquecia agora trazia uma sensação estranha.
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  As memórias da infância se misturavam com a confusão atual e o carinho que sentia pela família se enroscava com um incômodo que crescia cada vez mais. A festa, embora bonita e vibrante, já não era um lugar confortável para mim.
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  Enquanto a mulher alta ria alto de alguma anedota que eu sequer ouvi direito, minha mente já estava longe dali. Porque eu sabia exatamente o que Nina estava sentindo.
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  Eu sempre estive naquele lugar, sorrindo por educação, tentando parecer confortável. É um tipo de humilhação sutil, que não grita, mas corrói aos poucos. Olhei para ela mais uma vez. Nina mexia distraidamente no guardanapo, o olhar perdido entre as taças e os risos que não a incluíam. E eu percebi que, por mais que tivesse motivos para estar magoada com ela, nada justificava deixar que passasse por aquilo sozinha.
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  Fui até a mesa principal, repleta de pratos tailandeses irresistíveis, e comecei a provar alguns petiscos enquanto observava, quase às escondidas, o movimento ao redor. A cena se repetia como um disco arranhado: Andreas apresentava Nina, o grupo sorria educadamente e, assim que eles viravam as costas, começavam os cochichos. Discretos, mas audíveis o suficiente.
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  Suspirei, balançando a cabeça com desaprovação e fiz um sinal discreto para que Nina viesse até mim. Ela não hesitou.
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  – Vamos sentar ali? – Sugeri, apontando para uma mesa mais afastada do agito.
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  – Isso é insuportável! – Andreas explodiu, aproximando-se com a testa franzida. – Juro, é como se fosse a primeira vez que trago alguém aqui. De repente, ninguém lembra das boas maneiras. – Calou-se abrupto ao avistar uma das tias se aproximando. – Oi, tia Papul!
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  – Andreas, meu querido! – Respondeu ela, com a serenidade de quem ignora climões. – Estão chamando vocês na estufa para as fotos. – E, como se a situação fosse a mais normal do mundo, fitou-me diretamente. – %Anya%, está pronta?
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  Minhas sobrancelhas se arquearam. Virei-me lentamente para Andreas, buscando em seu rosto um sinal de que ele também via o absurdo daquilo.
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  Era um apagão coletivo de memória, uma encenação social tão absurda que beirava o delírio.
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  – Só um minuto, tia. – Andreas fez uma cortesia vazia de conteúdo, segurou-lhe o braço e afastou-se com ela, esboçando um sorriso de diplomacia ensaiada.
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  Levantei-me em um movimento seco, empurrei a cadeira e alisei os vincos da saia midi.
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  – Vou ao banheiro. Resolvam isso.
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  – Como assim? – Nina perguntou, completamente perdida.
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  – Não sei, Nina. – Sussurrei, com a lâmina da acidez na voz. – Beijem-se, deem as mãos, anunciem que estão namorando... Façam alguma coisa. Porque se mais uma pessoa vier me cumprimentar como a "namorada" do Andreas, eu vou embora.
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  Sem esperar qualquer resposta, girei nos calcanhares e saí do jardim com passos firmes, meus saltos ecoando de forma brusca contra o caminho de pedra. Fui em direção ao banheiro social torcendo para não encontrar mais nenhum parente inconveniente no caminho (o que, naquela festa, era como pedir silêncio numa assembleia de condomínio).
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  O banheiro era tão sofisticado que mais parecia uma ala de exposição do Louvre do que um cômodo funcional. Móveis otomanos estrategicamente posicionados, velas aromáticas com nomes impronunciáveis e uma pia que devia ter sido desenhada por algum artista minimalista tailandês. Sinceramente, quem senta num banco estofado no banheiro de uma festa? Isso não me dava margem nem para fingir que estava odiando o lugar.
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  Lavei as mãos rapidamente e deixei a água escorrer pela nuca, numa tentativa meio desesperada de aliviar a tensão que se enroscava no meu pescoço. Me sentei em um dos bancos e saquei o celular da bolsa, mais por esperança do que por hábito.
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  Abri as mensagens, chequei ligações. E, claro, nada. Nem uma notificação, nem um emoji dado, nem uma indireta enigmática, isto é, nada com o nome que eu secretamente esperava ver.
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  %Anthony% %Campelli%.
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  Desde aquela noite de luxúria impulsiva e questionável lucidez, eu esperava por algum tipo de contato. Não precisava ser nada romântico. Eu teria aceitado até um "E aí, tudo certo com sua lombar depois daquele malabarismo técnico?". Mas ele não mandou nada. Nem um emoji.
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  Eu imaginava que depois de tudo, ele fosse me mandar uma mensagem constrangida, do tipo “desculpa, foi um erro”, ou um convite para jantar, como quem diz “vamos fingir que temos maturidade para lidar com isso”. Mas nada. O silêncio dele era ensurdecedor. E, pior, irritantemente educado.
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  O mais frustrante é que eu nunca tinha olhado para ele desse jeito, nunca. Por anos, %Anthony% era apenas o irmão da Nina. Advogado workaholic. Dono de um olhar que parecia sempre analisar as pessoas como se fosse apresentar um parecer jurídico depois. Um cara respeitável demais para qualquer fantasia.
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  E eu mantive esse pensamento até duas semanas atrás, quando ele me arrastou para o sofá do meu escritório e me fez repensar toda a minha vida sexual. Me pegou de jeito. Literalmente. No sofá do meu escritório. No sofá onde eu costumava revisar contratos e tomar cafés que já esfriaram. Aquilo foi... inesperado. E, honestamente, espetacular.
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  Uma fantasia que eu sequer sabia que morava dentro de mim até ser realizada com uma precisão que beirava o poético. Ou pornográfico. Dependendo do ângulo.
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  E foi por isso que ele deixou de ser o “irmãozinho da Nina” e virou %Anthony%. O homem que me fez perder o fôlego. O motivo pelo qual eu passei a encarar meu sofá como se ele escondesse segredos. Depois de dois anos com Andreas sem nem arranhar a superfície do que deveria ser prazer – e isso sendo gentil –, posso afirmar com a segurança de quem viu a luz no fim do túnel: eu gozei. A ponto de pensar naquele sofá com uma devoção quase religiosa.
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  Mas ele não ligou. Não mandou mensagem. Não apareceu. Nada. E o mais estranho era isso: %Anthony% sempre foi o tipo de cara que namora. Um homem disponível, emocionalmente acessível, interessado em conexões reais. E eu, bem… sempre me considerei o completo oposto.
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  Na noite passada, enquanto eu malhava de maneira obstinada (uma tentativa fútil de acabar com as calorias de desespero), um pensamento me pegou desprevenida. %Anthony% %Campelli%, o romântico incurável, o homem de relacionamentos sérios e compromissos firmados com flores e cafés da manhã... sumiu depois de me comer como se o mundo fosse acabar. Justo ele.
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  Se %Anthony% era esse cara acessível, o tipo de sujeito pronto para encontros românticos (eu o encontrei em um encontro às cegas, pelo amor de Deus!), namoros e até relacionamentos sérios, então por que diabos ele não me ligou? Eu não teria recusado um convite para um jantar, muito menos agora que, ao descobrir que Nina estava com o meu ex, eu passei a ter um crédito emocional enorme.
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  Talvez eu fosse só a transa impulsiva no fim do expediente. A melhor amiga da irmã. A distração rápida. O tipo de mulher que se esquece logo depois de uma noite mal dormida e alguns arranhões no sofá.
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  Na primeira semana, não me importei. Apenas revivia os momentos de lascívia que compartilhamos, e não vou mentir, me sentia quase bem com isso. Mas na segunda semana... bom, na segunda semana, a história mudou. Eu comecei a me questionar demais.
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  Será que eu transei cedo demais? Ele não havia gostado? Se havia gostado, por que não me procurou? O que eu fiz de errado? Eu não era interessante o suficiente para algo além do sexo? Ou pior, será que fui ruim no sexo?
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  Eu me estressei comigo mesma. Estava me questionando demais por um cara que não tinha sequer demonstrado o menor interesse genuíno por mim. %Ananya% %Bhasin%? Se questionando por um cara? Não, isso não era para ser assim. Não seria assim. Eu me recusei a ser essa pessoa.
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  Olhei o relógio: cinco minutos trancada no banheiro. Se ficasse mais tempo, iriam pensar que eu estava usando o banheiro por outros motivos. Respirei fundo e decidi voltar. Mas talvez devesse ter ficado.
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  Assim que pisei na grama artificial do jardim, todos os olhares se voltaram para mim, expressões de pena, como se eu fosse uma pobre alma abandonada no altar. Não sabia o que Andreas e Nina tinham feito, mas, pelo jeito dos olhares, eu tinha virado o espetáculo da noite: a ex-namorada coitada.
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  E, claro, os primos de Andreas – e outros parentes que eu jurava nunca ter visto – começaram a se aproximar, prontos para o interrogatório social de praxe. Perguntas invasivas, comentários passivo-agressivos, sorrisos falsos. Cada palavra me fazia perder mais a paciência.
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  E se para mim já era desconfortável, nem queria imaginar o que Nina estava sentindo ser o alvo direto de toda aquela hostilidade velada devia ser insuportável.
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  – Para mim, já deu. – Murmurei, sem nem olhar para ela. Eu não tinha energia para fingir civilidade.
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  – O que houve? – Nina perguntou, preocupada. Mas eu nem ouvi.
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  Fui até a mesa de centro, onde repousava uma abundância de petiscos e inutilidades de decoração, e peguei duas caixinhas de vidro vazias. Sem cerimônia. Enchi ambas de comida, como se aquele gesto pequeno fosse uma vingança simbólica. Depois apenas fiz um gesto vago para Nina, pedindo que me ligasse depois, e saí dali como quem foge de um incêndio.
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  Senti os olhares queimando minhas costas enquanto caminhava até a saída.
Na minha cabeça, todos eles diziam o que eu já estava pensando sobre mim mesma: idiota. Substituível. Ridícula.
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  Mas talvez o problema não fosse Andreas, nem Nina, nem a família de intrusos. Talvez fosse um certo advogado de olhos verdes que, mesmo depois de tantas promessas doces e palavras bonitas, ainda não tinha se dignado a me ligar.
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  Entrei no carro sem olhar para trás. Afundar no trabalho parecia a única maneira de manter o controle ou fingir que ainda tinha algum. Horas depois, depois de um longo desvio proposital pelo escritório da %Bhasin%, cheguei em casa exausta, com o corpo carregando o peso de um dia inteiro de frustração.
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  Fui direto para a academia no quintal; meu refúgio. Lá, como sempre, descarreguei tudo o que vinha me consumindo. Não que eu fosse uma fanática por academia, eu só precisava de algo que ocupasse a mente, que aliviasse o peso. Um jeito de não explodir. De continuar sendo… suportável.
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  Eu estava saindo do banho e já planejava ir para o escritório, quando meu celular tocou. Era uma ligação de Nina. Imediatamente, passei o dedo pela tela e atendi, sem pensar duas vezes. Se tinha uma pessoa na face da Terra com quem eu precisava conversar naquele momento, essa pessoa era Nina.
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  – Oi, %Anya%? – Ela falou do outro lado da linha, com uma voz que já indicava que algo não estava certo.
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  – Desembucha, Nina. – Fui direta, sem rodeios. – Como aconteceu? Como isso aconteceu?
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  – Ah, amiga! Você quer mesmo saber? Não vai ser estranho? – Ela hesitou, mas não me dei ao luxo de esperar. Coloquei o celular no modo alto-falante enquanto me vestia com um confortável conjunto de moletom. – Eu estou me sentindo tão mal, você nem faz ideia… – Nina soltou uma risada nervosa, daquelas que soam como um pedido de desculpa disfarçado.
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  Me sentei na cama, cruzei as pernas e comecei a trançar o cabelo com os dedos, tentando não demonstrar o quanto já estava tensa.
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  – Vamos, Nina. – Cortei o suspense, impaciente. Pausei a trança e encarei meu próprio reflexo no espelho, aquele olhar de quem já esperava o pior e só queria confirmar logo. – Estranho, para mim, é você não querer contar. Aconteceu enquanto a gente ainda estava junto?
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  – Não! Claro que não! – Ela respondeu com veemência. – Eu jamais faria isso com alguém, muito menos com você, %Anya%. Tá bom, vai… – Ela suspirou. E eu quase pude ver sua expressão do outro lado da linha: olhos fechados, testa franzida, lábio pressionado. A Nina culpada era quase uma caricatura dela mesma. – A gente se encontrou por acaso num Starbucks. Juro. Totalmente sem querer. Conversamos… Falamos de você, claro. Ele reclamou do jeito como você terminou. Acho que ficou ofendido.
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  – Se ofendeu por eu ter sido sincera?
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  – Você disse que estava entediada, %Anya%.
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  – E eu estava, ué.
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  – Mas essas coisas a gente não fala. Principalmente num término! – Nina protestou. – Mas enfim… aquele dia foi diferente, sabe?
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  Lá vinha ela com a voz sonhadora. Suspirei internamente. Nina sempre teve essa aura romântica e poética que colidia diretamente com a minha lógica prática e um tanto cínica. Não é que eu não acreditasse no amor, eu só acreditava menos em suas versões com trilha sonora e efeitos especiais.
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  – E aí você viu passarinhos amarelos e as baratas do bueiro começaram a cantar? – Zombei, com gosto.
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  – Deixa de ser debochada! – Ela gargalhou e eu acabei sorrindo também. – Nos reencontramos de novo numa rua próxima e... era para ser só um esbarrão. Mas acabamos ficando horas conversando. Ele pediu meu número. O resto é história.
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  – Eu preciso dar meu parecer? Porque eu não quero. – Fui honesta, sem floreios.
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  Não estava pronta para virar conselheira sentimental naquele enredo da minha melhor amiga com meu ex-namorado. Principalmente porque ele incluía o meu nome nos créditos iniciais.
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  – Eu só quero que fique claro que eu nunca começaria algo mais sério sem falar com você antes. – Disse, com a voz mais baixa. – A gente só saiu alguns dias, mas… Ah, %Anya%, eu gosto dele. Sempre o achei ótimo, mas agora estou enxergando de um jeito diferente. Às vezes, até esqueço que ele foi seu namorado. Ele é tão diferente do jeito que você descrevia. Faz sentido?
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  – Claro, ladki. – Respondi, com a voz mais suave. – Eu e você somos diferentes. O que não é bom para mim não quer dizer que não é para você também.
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  E isso era verdade. Mas ainda assim, uma pontinha lá no fundo me dizia que talvez eu não estivesse tão ok quanto fingia.
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  – Tive muito medo da situação se tornar mais do que complicada para a nossa amizade, achei que você fosse me odiar para sempre.
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  Suspirei, pensativa. Nunca fui do tipo que colecionava amigos. Os poucos que eu tinha eram os da época da faculdade, os obrigatórios da família e, fora da curva, Nina. Ela era a exceção. A minha exceção. Minha melhor amiga desde a adolescência, dessas que você olha e pensa: colocaria minha mão no fogo por ela. E, honestamente? Colocaria mesmo.
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  Eu conhecia Nina o suficiente para saber que, se tivesse cedido, foi depois de lutar contra esse sentimento até onde conseguiu. Como se tivesse escutado meu pensamento, ela disse: – Eu juro que tentei fugir disso, mas você sabe que eu nunca fui muito boa em esconder minhas vontades. – A voz saiu sincera, meio derrotada.
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  – E nem deveria, Nina. – Fui direta, porque não queria que ela se desculpasse por algo que, no fundo, sabia que não tinha sido feito por mal. – Não precisa se justificar. Você sabe que eu jamais te culparia por algo assim. Sei que você nunca seria maldosa comigo.
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  E era verdade. Mas também era verdade que era fácil dizer isso quando se tratava de Andreas. Ele já não despertava mais nada em mim. Nem raiva, nem saudade, nem aquele incômodo que a gente sente quando ouve o nome de alguém que já nos partiu em mil pedaços. Era indiferente. E ser indiferente tornava tudo simples.
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  Talvez, se fosse com alguém que ainda significasse alguma coisa, a conversa fosse outra. Eu provavelmente não estaria sendo tão madura, tão compreensiva, tão "boazinha".
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  – O que você acha que eu devo fazer?
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  – Como assim?
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  – Devo insistir nessa loucura? Ou é demais pensar que isso pode virar... sei lá, uma história de amor?
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  Ri baixinho, com ternura. Nina e suas fantasias de amor épico. A gente se equilibrava justamente por isso: ela via o romance, eu via o contrato. Ela enxergava o que podia florescer, eu só via o que podia dar errado.
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  – Nina, eu não sou a melhor pessoa para dar esse tipo de conselho... – Comecei, tentando ser delicada. – Mas acho que te conheço o suficiente para saber que, se você não estivesse completamente na dele, não se arriscaria. Não sou eu quem tem que dizer o que você tem que fazer. Você já tem de mim o que realmente importa.
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  – E o que é?
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  – Minha bênção silenciosa e um silêncio ainda mais comprometido. – Sorri de canto. – Mas precisamos estabelecer alguns limites, certo? Por exemplo: eu não vou fingir que esse relacionamento não existe, mas saiba que também não vou ser imparcial sobre absolutamente nada que envolva Andreas. Eu sou a última pessoa no mundo capaz de opinar com isenção.
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  – Concordo. Separação Igreja-Estado. Mas, se porventura, eu precisar de uma forcinha...
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  – Irei conceder porque sou uma total idiota por você, Nina. – Bufei, fingindo irritação.
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  – Ah, %Anya%, que sorte a minha ter você na minha vida! – Ela disse com uma doçura tão espontânea que fez meu peito amolecer. Gargalhou baixinho logo em seguida, aquele som leve que me fez sorrir sozinha.
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  Por um instante, me deu vontade de contar a ela sobre %Anthony%. De deixar escapar, de dividir a bagunça que eu mesma estava tentando organizar em silêncio. Quase consegui.
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  – Nina...? – arrisquei.
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  – Sim?
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  – Ér... o que você acha de jantar aqui amanhã? – Fiz uma careta automaticamente, sabendo o que aquilo significava.
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  Não só tinha engolido a verdade que queria contar, como também tinha me enrolado no mesmo fio que agora prendia Nina: o da omissão. E ainda por cima me comprometi com um jantar que não fazia parte de plano nenhum.
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  A hipocrisia às vezes tem gosto de vinho barato e biryani improvisado.
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– Ժ –

  Pior do que trabalhar no sábado era fazê-lo com TPM. Percebi que havia atingido o limite quando até o som das minhas próprias unhas batendo no teclado começou a me irritar. Fechei os olhos, respirei fundo e prendi o cabelo num coque alto, numa tentativa de conter o calor que parecia vir de dentro para fora.
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  "É TPM ou menopausa?", pensei, exasperada.
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  Levantei da cadeira, deixando o e-mail inacabado a piscar na tela. Caminhei até a janela e abri as cortinas de uma vez, permitindo que a luz do sol invadisse a sala e me atingisse em cheio. Imediatamente, senti algo dentro de mim se acalmar.
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  Aquela claridade me lembrou que, em algumas semanas, estaria na ilha que mais amo, comemorando meu aniversário no hotel dos meus sonhos, cercada apenas pelas pessoas que escolhi ter por perto. Era só uma questão de tempo.
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  – %Bhasin%? – A voz de Ethan, meu colega de trabalho e arqui-inimigo não-oficial, ecoou do outro lado da porta após três toques apressados.
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  – Ethan, é por consideração, amizade e pelo mínimo de sanidade que me resta, que eu te peço: saia por essa porta e não volte hoje. – Levei os dedos às têmporas, de olhos fechados, tentando manter a calma zen que o sol recém-trazido havia me dado.
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  – Eu só vim devolver algumas planilhas corrigidas. – Ele entrou com uma pilha de papéis nas mãos, todo formal.
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  – Você é o cara. – Meu humor melhorou instantaneamente. Planilhas corrigidas eram meu equivalente adulto de sorvete grátis.
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  – Você está bêbada?
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  – Quem me dera. – Revirei os olhos. – Vai sair para almoçar agora?
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  – Se você não for precisar mais de mim.
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  Dei uma olhada rápida pela mesa. Nenhuma crise de última hora, nenhum incêndio para apagar. Um milagre corporativo.
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  – Depende... você se importaria de me fazer uma massagem nos pés? – Perguntei com a maior seriedade que consegui fingir. Mas, honestamente? Se ele aceitasse, eu consideraria entregar a diretoria nas mãos dele.
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  – É por consideração e amizade que lhe aviso: isso é assédio moral. – Respondeu teatralmente.
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  – Saia da minha sala. – Apontei o dedo para a porta, fingindo irritação. Ou talvez nem estivesse fingindo.
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  E lá foi ele, deixando um rastro de bom humor e planilhas prontas para trás.
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  Voltei a me sentar na cadeira estofada e tirei meus saltos, apoiando os pés na mesa, sem me importar de estar vestindo uma saia que, apesar de comprida, estava mostrando demais as minhas pernas erguidas. Peguei meu celular e fiquei procrastinando nas redes até ser interrompida por uma ligação de Nina.
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  – Me dê boas notícias, por favor. – Implorei, jogando a cabeça para trás na cadeira e encarando o teto como se dali fosse brotar alguma solução divina. Aquela sala cercada por paredes de vidro me fazia sentir num aquário.
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  E eu, definitivamente, era o peixe palhaço.
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  – Alguém está irritada. – Nina comentou com a voz doce demais para o meu humor. – Você devia parar de trabalhar aos sábados.
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  – Alguém está de TPM, isso sim. – Informei, seca.
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  – Argh, você fica insuportável de TPM.
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  – Ligou para isso, Nina? Que felicidade falar com você.
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  – Não, sua chata. É que eu estou de “home office” hoje e...
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  – Hoje é sábado, é claro que você está em casa. – A interrompi, afiada.
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  – %Anya%! – Repreendeu com aquele tom típico de irmã mais velha, mesmo sendo mais nova. – Acabei fazendo um pouquinho mais de almoço do que deveria...
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  – Chego em quinze minutos. – Disparei antes mesmo dela terminar, provocando uma gargalhada animada do outro lado da linha.
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  Era isso. Bastava um prato de comida e Nina para o mundo parecer um lugar menos exaustivo.
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  Coloquei meu casaco, dei um jeito em meus cabelos, coloquei meus óculos escuros e fui imediatamente a caminho da casa dos %Campelli%. Antes de seguir, pedi encarecidamente aos meus colegas de escritório que não fizessem nenhuma merda sem resolução enquanto eu e Ethan estivéssemos fora. O cara me irritava, mas não dava para negar que o homem era o único que conseguia manter aquele lugar em ordem junto a mim.
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  Em poucos minutos, estacionei em frente à casa da Nina, genuinamente feliz por vê-la e ainda mais feliz por estar prestes a receber um almoço caseiro e gratuito.
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  Nina era uma cozinheira de mão cheia. Sua mãe, Anamelia, até tentou nos ensinar algumas receitas na adolescência, mas, como era de se esperar, só a Nina realmente absorveu alguma coisa. Eu, no máximo, sabia esquentar uma lasanha congelada sem causar um pequeno incêndio.
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  Conheci Anamelia três anos antes do diagnóstico tardio do câncer. Ela era do tipo que fazia piada com tudo e mantinha os filhos por perto como se fossem extensão do próprio coração. Nunca esqueci o jeito gentil com que me tratava.
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  Assistir Nina e %Anthony% perderem a única família que tinham, aos dezenove e dezoito anos, foi uma das experiências mais dolorosas que já testemunhei.
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  Mais difícil ainda foi ver Nina afundar em uma tristeza densa, quase palpável. Uma melancolia que não pedia licença, não tinha hora para ir embora. Eu ainda estava na faculdade e, sempre que podia, pegava um ônibus só para passar o fim de semana deitada ao lado dela na cama ou convencê-la, com jeitinho, a tomar um banho.
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  Essas memórias sempre apareciam quando eu voltava àquela casa. Mas, naquele dia, elas vieram com mais leveza. Talvez por vê-la bem, por saber que a vida, mesmo com seus golpes, às vezes oferecia uma trégua.
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  A depressão havia lhe roubado mais do que alguns anos. Levou o brilho da juventude, os planos para a faculdade, os pequenos sonhos que Nina havia guardado com tanto cuidado. Mas, agora, vê-la enfrentando tudo de frente, construindo uma nova rotina, reinventando a própria história… me deixava orgulhosa. Era como ver o sol voltando a nascer em um lugar que por muito tempo ficou encoberto.
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  Eu me sentia sortuda por tê-la. Talvez Nina fosse minha única amiga de verdade, mas, honestamente, era a única que eu precisava. Sabia que ela sentia o mesmo. Nunca nos cobramos perfeição, apenas presença. E, no fim das contas, acho que isso era o que sustentava tudo: a ausência de julgamentos e a abundância de suporte.
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  – Você acabou de salvar minha vida. – Disse assim que ela abriu a porta, segurando meu estômago como se aquilo fosse literal.
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  – Você me fez um jantar incrível na semana passada, era o mínimo que eu podia fazer. – Nina sorriu, e antes que eu dissesse qualquer coisa, encostei um beijo em sua testa, como quem agradece sem precisar falar. Segui direto para a mesa já posta. – Então, temos espaguete à matriciana e vinho branco… sirva-se à vontade. – Anunciou, com um tom gentil que parecia música aos meus ouvidos esfomeados.
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  – Agora sim, minha fé na humanidade foi restaurada. – Falei, puxando a cadeira com um entusiasmo que a fez rir.
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  – Exagerada. – Nina murmurou, mas o sorriso não deixava os lábios dela.
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  E, por alguns instantes, ali naquela cozinha cheia de aromas e memórias boas, tudo parecia em paz.
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  – Ah, Nina, eu amo tanto você. – Eu não fingi modos e esqueci as lições de etiqueta que Anjali %Bhasin% me ensinou e me joguei na mesa, agarrando pratos e talheres enquanto caia em cima da comida igual uma maluca.
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  – Céus, %Anya%! Quanto tempo você não come? – Nina riu, servindo-se uma taça generosa de vinho tinto que refletia a luz da cozinha como rubi líquido.
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  Enfiei uma garfada enorme de espaguete na boca, os sabores de alho e manjericão explodindo na minha língua como um pecado capital.
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  – Não me julgue. TPM. – Mastiguei com devoção. – Isso aqui... – Outra garfada, quase religiosa. – Eu juro que não te peço em casamento agora mesmo só porque dou valor ao sexo hétero.
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  – Que bom saber disso. – A voz grave atrás de mim fez cada célula do meu corpo congelar.
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  %Anthony%.
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  Engoli com dificuldade, junto com a vontade imediata de desaparecer. Meu corpo inteiro entrou em modo de alerta. Meu coração acelerou, minha pele arrepiou. Só aquela voz já era suficiente para me desestabilizar por completo.
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  – %Ananya% %Bhasin%. – Seus lábios curvaram-se naquele meio-sorriso que eu odiava. – É sempre um prazer vê-la.
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  Era a primeira vez que eu o via após aquele dia. E o cara pisca para mim, como se não fosse nada. Como se não tivesse beijado a minha boca desesperadamente semanas atrás. Como se não tivesse se enfiado em mim em cima do sofá da minha sala.
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  – Ah, %Anthony% também está em casa. – Nina anunciou, alheia ao terremoto que seu irmão acabara de causar no meu sistema nervoso.
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  – %Ant%. – Cumprimentei, pegando o copo de vinho da mão dela com a desculpa de engolir a comida, quando, na verdade, era só uma tentativa desesperada de me recompor. Sim, eu estava na casa dele, mas quantas vezes isso já aconteceu sem que eu sequer visse a sombra dele? – O prazer é sempre todo meu. – Retruquei, em um tom levemente provocador, mas evitei olhar diretamente para ele.
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  – Ei! Limites, por favor. – Nina lançou um olhar reprovador, fazendo careta.
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  Eu e %Anthony% nos entreolhamos, um sorriso cúmplice e contido nos lábios. Aquela troca silenciosa dizia tudo: tínhamos um segredo. Um bem sujo.
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  – Vou voltar para o quarto. Estou trabalhando. – Fez um carinho rápido na cabeça da irmã e me lançando um leve aceno, desapareceu pelo corredor. E eu fiquei ali, estática, fingindo normalidade.
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  %Anthony% e Nina tinham apenas dois de diferença, mas podiam passar como irmãos gêmeos tranquilamente. O tom da cor de cabelo deles era exatamente o mesmo, um castanho claro que muitos tentavam chegar através de pintura, mas só conseguiam manchas tingidas. Eles tinham o mesmo formato de rosto meio quadrado, o dele sendo mais evidente por conta do maxilar forte. Talvez a única coisa que os diferenciava eram os olhos.
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  Os olhos de Nina eram castanhos e profundos. Os olhos de %Anthony% eram verdes e límpidos. Uma porra de um pesadelo.
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  – Ok, logo estarei de saída. – Informou e ele apenas assentiu e entrou em seu quarto.
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  Voltei a comer normalmente assim que %Anthony% fechou a porta, forçando-me a esquecer completamente da presença dele ali, já que ele não pareceu ter ficado tão abalado com minha presença como eu fiquei com a dele.
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  – Vai para onde? – Perguntei, curiosa.
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  – Andreas me chamou para sair hoje. – Ela respondeu, com um leve rubor no rosto. – Cara, isso ainda é muito estranho.
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  – Não pense muito. – Aconselhei, sem tirar os olhos do prato. – Só fica estranho se você pensar demais.
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  Eu estava tão focada na comida que mal percebi o quanto estava com fome até me ver quase afogada naquele prato de macarrão. Estava prestes a me servir de novo, a fome tinha se apoderado de mim rapidamente.
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  – É, você tem razão. Aquele dia no aniversário... foi bem ruim. – Ela relembrou, a voz carregada de uma melancolia que não passava despercebida.
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  – Já faz semanas, Nina. – Respondi, sem muita paciência para o drama.
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  – Eu sei, mas aquele dia foi bem claro para mim. – Ela fez uma pausa, antes de olhar para mim com um olhar sério, quase desconfortável. – Por isso, chamei você aqui. Eu podia ter te ligado, mas talvez você queira me matar e queria te dar a chance de fazer isso pessoalmente. – Eu larguei o talher na hora e cruzei os braços, com a testa franzida. Será que aquele almoço estava realmente predestinado a ser sobre isso e não era só um simples convite? Nina, como se soubesse exatamente o que eu estava pensando, apressou-se a explicar: – Não foi planejado. Eu realmente exagerei na comida e como já estava querendo conversar com você…
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  – O que rolou, Nina? – Interrompi, impaciente.
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  – Eu e Andreas conversamos e ele me contou que vai estar no seu aniversário. – Ela observou minha reação, provavelmente esperando algum tipo de choque, então eu assenti lentamente, mas sem entender aonde ela queria chegar.
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  – E você tem um problema com isso? Eu meio que não tenho escolha, Nina. Os pais dele são amigos dos meus, eles também estarão lá. Seria estranho ele não ser convidado. – Tentei ser racional. Eu também achava estranho tê-lo lá, mas não conseguia impor essa decisão aos meus pais. Era uma luta perdida, os Buppha estariam lá, com ou sem minha aprovação. – Mas eu posso tentar desconvidá-los.
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  – Não, %Anya%, claro que não! Eu jamais pediria isso. Pelo contrário, eu acho que… eu não irei.
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  Eu fiquei em silêncio, pasma. Esperei que ela começasse a rir e dissesse que era brincadeira, mas, para minha surpresa, ela apenas abaixou a cabeça, triste. O ar ao redor ficou pesado. E, então, eu comecei a rir, incrédula.
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  – Fora de cogitação. – Afirmei, de forma firme, tentando esconder o desconforto que começava a crescer em mim.
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  – %Anya%... – Ela tentou argumentar.
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  – Fora de cogitação, Nina. – Repeti, a voz cheia de certeza.
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  – Você lembra o quanto foi bizarro no aniversário do Andreas? Imagina como vai ser no seu, que estaremos em uma ilha, e não só com a família dele, mas com a sua também! %Anya%, será terrível! – Lastimou, passando a mão no rosto. – Eu não quero que fique um clima horrível no seu aniversário. Você planeja esse final de semana o ano inteiro, é injusto.
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  – Exatamente, é injusto mesmo! Eu planejo o ano inteiro e você acha que pode não ir ao meu aniversário? – Exclamei, indignada. – Você foi em todos os anos, Nina! Não tem a menor graça sem você.
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  – Eu sei, amiga. – Nina soltou um suspiro pesado, como se a culpa a estivesse consumindo. – Tenho pensado nisso todos os dias. Eu já devia ter conversado com você sobre isso, mas não sabia como. Sou uma péssima amiga! – Ela lamentou, apoiando a cabeça nas mãos.
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  – Não, você não é. – Tentei tranquilizá-la, mas, na verdade, estava sentindo uma vontade de arrancar os cabelos dela. – Mas você será, se não for ao meu aniversário.
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  – Ah, %Anya%! – Exclamou, deixando escapar um gemido de frustração.
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  – Estou falando sério. Se você não for, eu não vou. – Levantei, carregando minhas louças sujas e indo em direção à cozinha, com raiva.
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  – Não enlouqueça, %Anya%, é sua festa.
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  – Você sabe bem que eu estou falando sério. – Respondi, sem hesitar.
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  Comecei a tirar os anéis, um a um, colocando-os com cuidado sobre o balcão de mármore. Em seguida, deslizei as pulseiras pelos punhos, sentindo o metal frio arranhar de leve a pele quente. A pia já estava cheia de pratos empilhados, talheres mergulhados na espuma e um cheiro suave de detergente de lavanda que tomava o ar. Suspirei.
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  Aquilo definitivamente não era o meu habitat natural.
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  Nina, do outro lado da cozinha, me observava com aquele olhar divertido que sempre reservava para os meus dramas domésticos.
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  – Vamos, madame. A água não morde. – Provocou, entregando-me a esponja.
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  Revirei os olhos, mas peguei o objeto, sentindo a textura áspera contra os dedos. O riso dela encheu a cozinha, leve e familiar, o tipo de som que me fazia esquecer por alguns instantes o peso do resto do mundo.
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  Foi com Nina que aprendi a fazer essas pequenas coisas: lavar pratos, estender roupas, preparar café sem queimar a língua no processo. Coisas simples, mas que, de algum jeito, me faziam sentir... normal.
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  Em casa, sempre havia alguém para cuidar de tudo e eu, envolta nesse conforto herdado, nunca precisei pensar em como as coisas realmente funcionavam. Nina achava isso um absurdo. “Vantagens de ser herdeira”, eu costumava brincar. Ela só me lançava aquele olhar que misturava carinho e reprovação antes de voltar a esfregar os copos, como se dissesse: você ainda vai me agradecer por isso.
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  – Tem algum outro motivo? – Perguntei, sentindo a tensão no ar.
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  Nina levantou os olhos, parecendo sair de um transe. – Hm? – Ela murmurou, confusa.
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  – Tem outro motivo pelo qual você não quer ir? – Insisti, observando-a atentamente.
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  Ela soltou uma longa respiração antes de finalmente responder.
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  – A verdade é que eu não sei se quero passar por isso de novo. Eu mesma já me julgo o suficiente por estar saindo com seu ex. Imagina ser julgada novamente pela sua família… E, sem ofensas, %Anya%, sua família é a porra de uma seita. – Ela me fez rir com sua observação, mas logo meu sorriso desapareceu, preocupada.
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  – Nina, você nunca perdeu nenhum aniversário meu. – Fiz um biquinho, uma expressão de falsa melancolia. – A situação não é tão séria assim. Além disso, se você e Andreas estão mesmo tentando ficar juntos, vamos precisar enfrentar isso de qualquer jeito.
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  – Eu sei. – Ela suspirou, reconhecendo. – Eu só queria não ter que escutar os comentários das pessoas. Às vezes, nem são maldosos, mas são aqueles comentários que me deixam péssima.
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  – Se houvesse um jeito de evitar isso... – Murmurei, tentando juntar os pedaços da minha frustração em algo que fizesse sentido.
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  – Acho que as pessoas só não comentariam se você também estivesse com alguém.
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  – Não entendi.
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  – Quando alguém começa um relacionamento novo, sempre rola aquela fase de fofoca, julgamento, sabe? Não é que os comentários parariam de vez, mas se você tivesse alguém ao seu lado, a pressão diminuiria. As pessoas não iam ficar tão obcecadas no fato de eu estar com o seu ex. Seria, sei lá, mais... normal. Eu sei que isso soa como uma ideia meio idiota, mas... – Nina observou, com um sorriso meio triste, como se tentasse aliviar o peso da conversa. – Mas não é como se você estivesse saindo com alguém.
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  Mas então, uma ideia atravessou minha mente, como um relâmpago, e antes que eu pudesse filtrar, a exclamei: – Quem disse que não estou?
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  Não. Eu não estava. Era mentira. Uma mentira saída direto do calor do momento, empurrada pelo ego ferido e pelo orgulho em recuperação intensiva. Eu não estava vendo ninguém. Mas a ideia de inventar um romance repentino parecia, por algum motivo, estrategicamente promissora.
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  Na pior das hipóteses, eu poderia dizer que o tal cara me deu um bolo e ficou por isso mesmo. O que não seria tão difícil de acreditar, considerando meu histórico desastroso. Mas aí Nina já estaria na ilha, envolvida na festa, tirando fotos com sombrinhas coloridas e coquetéis de guarda-chuvinha. E voltar atrás seria deselegante.
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  – E está? – Nina arregalou os olhos, mais chocada do que quando descobriu que eu não sabia usar a função “centrifugar” da máquina de lavar.
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  – Bom... tem um cara que eu estou vendo...
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  Não, não tinha um cara. Nenhum sequer. Os caras que eu mais via na semana eram meu pai e Ethan. E o cara que eu realmente queria ver não tinha ligado no dia seguinte.
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  – E por que você não me contou? – Quis saber.
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  – Talvez não seja tão sério. – Não era sério, pois não existia. – E se eu o convidasse para ir ao aniversário, você se sentiria mais confortável?
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  Nina se calou por um instante, seus olhos refletindo uma mistura de surpresa e consideração. Ela parecia estar processando tudo, ponderando as opções. A ideia de eu estar com alguém realmente a fez pensar. Eu sabia que ela estava se sentindo desconfortável com a situação e talvez fosse a única maneira de ajudá-la a superar isso.
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  – Anh, acho que sim. – Ela mordeu o lábio, claramente ainda insegura, mas aliviada pela possibilidade. – Poderia... me fazer sentir um pouco menos estranha, eu acho. Não resolveria tudo, mas talvez diminuísse os comentários.
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  Suspirei, fitando Nina com uma mistura de exasperação e compreensão. Era estranho, mas eu entendia.
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  – Então, está decidido. – Declarei, erguendo as mãos como quem sela um pacto. – Eu apareço com o meu cara, você chega de mãos dadas com o Andreas, e todo mundo finge que vive num conto de fadas. Com direito a fofocas, sorrisos falsos e espumante quente. – Fiz uma reverência exagerada, encerrando a fala como se fosse o fim de um espetáculo teatral.
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  Nina revirou os olhos e pulou do balcão, o vestido balançando levemente enquanto ela caminhava até mim.
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  – Você é impossível. – Murmurou, me puxando pelo braço em direção ao quarto. Segui, rindo baixo, até ela parar em frente ao espelho e começar a retocar o batom. A expressão dela mudou de divertida para preocupada. – Você tem certeza disso? Eu sei o quanto você odeia meter os pés pelas mãos. Quer mesmo levar esse cara? Não é cedo para apresentar à sua família? São exatamente essas decisões que te fazem surtar, %Anya%!
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  – Nina, você vive dizendo que eu devia me arriscar mais quando o assunto é amor, relacionamentos e essas outras bobagens que você acha românticas. – Deitei na cama, cruzando os braços e fazendo uma careta enquanto ela tentava ajeitar o delineador.
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  – Sim, %Anya%, mas dentro dos seus limites. Dentro da sua zona de segurança emocional, entende?
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  – Arriscar, por definição, é sair da zona de segurança. Se não for para dar uma leve pirada no processo, nem vale a pena.
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  – Eu só não quero que você se machuque. Já basta eu estar causando essa confusão toda…
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  – Nina, você não está causando nada. Eu só quero que você esteja lá, comigo.
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  – E esse cara? Você acha que ele vai topar? Ele é legal? Como você vai explicar isso pros seus pais? Ai, %Anya%… – Ela gesticulava tanto que quase derrubou o frasco de perfume.
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  – Fica tranquila, amiga. Vai dar tudo certo. Confia em mim. – Garanti, mesmo sabendo que aquilo era mentira.
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  É claro que não ia dar certo. Mas eu também não pretendia esticar a farsa além do necessário. Meu “namorado” terminaria comigo um dia antes da festa e pronto. Nina nunca mais ouviria falar dele, meus pais fingiriam que entenderam e todos seguiríamos em frente.
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  Conversamos por mais alguns minutos, rindo de hipóteses absurdas sobre o encontro, até o celular dela vibrar sobre a cômoda. A tela iluminou o nome de Andreas.
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  – Ele chegou. – Disse Nina, com um suspiro que misturava nervosismo e empolgação. – A gente conversa depois? Eu só preciso ter certeza de que você está mesmo bem com isso.
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  – Claro. Eu digo o mesmo. E avise para Andreas que não há problema algum em vocês irem juntos para a Ilha. – Nina assentiu e esticou a mão em minha direção, pronta para se despedir, mas eu neguei com um aceno rápido da cabeça. – Eu vou ficar. – Murmurei, tentando soar casual, como se não fosse nada demais.
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  – Como assim? – Nina parou no meio do corredor, franzindo o cenho, como se eu tivesse acabado de falar em outro idioma.
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  – Eu vou… – Fiz um gesto vago com o queixo em direção ao quarto de %Anthony%, evitando encará-la por tempo demais.
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  A reação dela foi instantânea e digna de um Oscar. Os olhos se arregalaram, a boca se abriu num “o” silencioso e eu quase vi as sinapses se chocando dentro da cabeça dela, criando novas e dramáticas teorias. Se eu não estivesse com o coração acelerado, teria rido.
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  – %Anthony%? – Ela perguntou, num tom entre a incredulidade e o medo de estar certa.
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  Assenti. Tecnicamente, o gesto só queria dizer “sim, é com ele que eu quero falar”. Mas Nina, sendo Nina, fez conexões muito mais explosivas.
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  – O cara com quem você está saindo é… o %Anthony%?
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  Pisquei. Uma vez. Duas. Meu olhar alternava entre o rosto chocado dela e a porta do quarto dele. Eu ia negar. De verdade. Estava a um segundo de fazer isso. Mas, antes que a palavra saísse, algo clicou.
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  A ideia.
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  Surgiu de repente, atrevida, audaciosa, como uma faísca que cai num barril de pólvora.
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  %Anthony% fingindo ser meu namorado.
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  Só por um fim de semana. Só até tudo se acalmar.
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  Meu cérebro disparou num turbilhão de planos e possíveis desastres e logo a linha entre genialidade e idiotice ficou perigosamente borrada.
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  – E-eu… – Balbuciei, tentando acompanhar meus próprios pensamentos enquanto sentia a ideia tomar forma.
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  Nina me observava com o mesmo olhar de quem acabou de testemunhar um plot twist da própria vida. E, sinceramente, eu entendia. Eu também não sabia o que diabos estava fazendo.
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  Enquanto eu buscava palavras, ela pareceu processar toda a informação de uma vez. Vi seus olhos se estreitarem, o maxilar travar e então ela explodiu.
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  – Que merda é ess… – Resmungou, jogando a bolsa no chão e marchando até o quarto. Bateu à porta com força, sem parar de me encarar, como se eu tivesse acabado de pousar de uma nave espacial. – Eu não sei se estou entendendo.
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  – Eu disse que estava saindo com um cara. – Dei de ombros, fingindo inocência.
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  – E esqueceu de mencionar que esse cara era o meu irmão?!.
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  – Sim…? – Murmurei, sem um pingo de convicção. Naquele instante já não tinha certeza do que estava dizendo, fazendo ou até sendo. Nina deu um giro brusco, decidida a ir até a porta, mas puxei o braço dela antes que alcançasse a maçaneta.
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  – Não! Espera! Deixe me falar com ele primeiro. Ele… não queria apressar as coisas. Você sabe como ele é: introspectivo, fechado… – Tateei na memória qualquer detalhe que pudesse dar verossimilhança àquela desculpa improvisada.
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  Ela parou, me observando como se eu fosse uma lunática temporária.
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  – %Anya%, você está falando sério? – Disse, incrédula. – Puta merda. Eu vou matar ele! – Estremeceu, puxando-se para frente; eu segurei seu braço com força.
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  – Shhh, Nina! Por favor! – Supliquei, quase ajoelhando, segurando-a pelo pulso. – Me deixa falar com ele primeiro. Não posso ter você batendo na porta dele antes de eu explicar. Por favor…
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  Ela me encarou, olhos faiscando entre fúria e preocupação.
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  – Como você teve coragem? – Perguntou, ainda sem entender.
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  – Porque o seu irmão é um gato, você sempre disse isso. – Forcei um riso curto.
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  – O Andreas me espera. – Disse ela, respirando fundo e olhando para a bolsa. – Eu vou, mas, %Anya%, a gente precisa conversar depois. Você precisa me explicar tudo: quando, como… meu Deus, você e o %Anthony%?
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  – Eu sei. Eu também não acredito. – Resolvi sorrir, mesmo que o sorriso fosse de plástico. – Vai dar certo.
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  Nina bufou, pegou a bolsa e apontou para a porta como quem marca um destino inevitável.
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  – Isso é ridículo. Absurdo. Um delírio completo. – Resmungou, saindo, ainda balançando a cabeça como quem tenta se livrar de um pesadelo mal escrito.
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  Ela fechou a porta atrás de si com passos apressados. Fiquei ali, sozinha no meio do quarto, com o coração batendo alto e a sensação clara de que tinha acabado de embarcar numa loucura da qual talvez não houvesse volta.
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  – Que porra eu acabei de fazer? – Murmurei, esfregando o rosto com as mãos, borrando a maquiagem sem dó.
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  A ideia, no papel, até tinha algum charme. O problema era a execução e, obviamente, o elenco. Se eu não conseguisse convencer o %Anthony% a encenar justamente no fim de semana do meu aniversário, eu estava perdida. Fugir já não era opção: Nina certamente iria direto ao quarto dele assim que saísse; eu precisava me adiantar.
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  Então, numa dessas fagulhas que nascem do desespero, uma possibilidade se acendeu no meio do caos mental. Já havíamos fingido ser um casal antes; não éramos íntimos, é verdade, mas a convivência havia sido civilizada o suficiente para tornar plausível uma encenação.
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  Bastaria dizer que éramos apenas amigos e omitir, com classe, qualquer história embaraçosa sobre o sofá do meu escritório.
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  Podia funcionar. Contanto que eu engolisse a verdade inconveniente: ele não estava interessado em mim. Nem de leve. E, estranhamente, isso tornava a ideia menos desesperada e, de certo modo, mais estratégica. Tê-lo no meu aniversário seria uma desculpa perfeita para ficar por perto sem parecer uma histérica, uma chance disfarçada de fazê-lo me ver de verdade.
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  Claro que o plano era patético – um castelo de cartas levantado sobre “e se” e “vai que…” – e bastava um único sopro errado para tudo desabar.
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  Eu precisava de duas coisas: fingir confiança como se fosse verdade e tirar %Anthony% do casulo por quarenta e oito horas.
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  Dois dias. Um retiro entre desconhecidos. Uma ilha. Um lugar onde ele não tivesse como escapar. Só isso. Simples na teoria, suicida na prática. Mas, naquele instante, parecia a única jogada sensata.
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  Ah, droga.
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  Passei a mão na blusa, tentando alisar qualquer ruga que eu sabia que não existia e comecei a caminhar até o quarto dele. O som do meu salto no chão ecoava como um lembrete da tensão crescente dentro de mim. Quando cheguei na porta de madeira, bati levemente, o som abafado demais, quase como se eu quisesse disfarçar minha ansiedade.
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  “Pode entrar”.
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  Respirei fundo, sentindo a garganta seca. %Anthony% era tranquilo, educado, previsível. Não havia motivo para o meu coração martelar assim. Mas esta era a primeira vez que eu ficaria sozinha com ele de novo. E não no meu escritório, sob minha regras. E sim no território dele. Entre suas coisas, seu cheiro, seu espaço.
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  Onde eu não tinha controle algum.
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  – Oi, %Ant%. – Ele estava debruçado sobre a mesa, rodeado por papéis espalhados, com a expressão cansada no rosto. Usava um moletom confortável e óculos de grau, tão à vontade que quase me deu vontade de abraçá-lo.
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  – %Anya%? – Ele levantou a cabeça, claramente surpreso me vendo ali. Apertei as mãos nervosamente, sentindo um calor subir pelo peito. Vê-lo assim, tão perto, me trouxe uma onda de lembranças que eu preferia evitar. – O que foi? Quer ajuda com a Matriciana? – Ele retirou os óculos, ainda com um sorriso descontraído. Eu, sem saber o que fazer com as mãos, tirei os óculos escuros da cabeça e comecei a mexer neles de forma ansiosa.
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  – Eu vim falar com você. – Mordi os lábios, tentando controlar os nervos. Ele franziu a testa, desconfiado, e se levantou, mas não deu um passo na minha direção.
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  – Aconteceu alguma coisa? – Sua voz estava séria, o olhar atento.
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  – Não, mas… ér… na verdade… – As palavras saíam emboladas. Ok, %Anya%, foco. Respira. Você é uma executiva, tem que se portar como tal. Não gagueje. Ele é um advogado. – %Anthony%, eu fiz uma merda.
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  – Você matou alguém? – %Anthony% piscou, um sorriso torto começando a se formar nos lábios. Sua expressão misturava incredulidade e diversão e eu não sabia se ficava aliviada ou mais nervosa.
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  – Não, mas talvez você mate… – Murmurei, baixinho, olhando para os lados, como se esperasse que alguém ouvisse. – Então… aconteceram algumas coisas e eu… – Travei. Novamente. Eu estava ali, diante dele, prestes a confessar um erro ridículo, e minha mente parecia completamente paralisada. %Anthony% me olhou, a paciência visível nos olhos e isso me deu coragem para continuar. – Ok, vou ser direta. Falei para a Nina que nós estamos juntos e que você vai para o meu aniversário no final do mês, na ilha.
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  – Você fez o quê?! – Os olhos dele se arregalaram de surpresa, a expressão passando por uma mistura de descrença, confusão e preocupação. Ele não parecia saber se ria ou se ficava sério e isso me deixou ainda mais desconfortável.
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  – Eu disse para Nina que estamos juntos e que você vai pro meu aniversário na ilha. – Soltei de uma vez, a vergonha apertando meu peito feito um nó. Evitei encará-lo, meus olhos baixaram para as mãos enquanto começava a roer uma unha sem pensar, um gesto automático para disfarçar o tremor na voz.
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  Deixei de fora a parte essencial: aquilo tinha nascido de um impulso cego, não de um plano racional. E escondi a verdade mais importante: no fundo, havia uma ponta de intenção em me aproximar dele.
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  Por ora, parecia mais sensato manter qualquer jogo de sedução, consciente ou não, completamente fora do roteiro.
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  – Eu entendi, não sou idiota. – Ele resmungou, passando a mão pelo rosto. – Por que você fez isso?
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  Eu me vi ali, tendo que explicar para um advogado, uma mente analítica e afiada, que aquela decisão estúpida saiu de um momento de confusão, um impulso que eu ainda não entendia muito bem. Respirei fundo, me recompus e decidi ser sincera, o que mais eu poderia fazer?
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  – Nina e Andreas estão juntos. – Comecei a falar, mas fui imediatamente interrompida por ele.
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  – Seu ex-namorado? – Ele perguntou, os olhos estreitos, como se estivesse tentando decifrar o que eu estava dizendo. Eu assenti com a cabeça, confirmando. – É, vocês são… modernas. – Ele disse, com um tom irônico.
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  – Não é nada disso. O que importa é que ela não queria ir ao meu aniversário porque Andreas vai estar lá, e somos um ex-casal, vai ser estranho para ela… – Expliquei, começando a me sentir mais aflita à medida que ia soltando as palavras. – Então eu disse que não tinha problema algum, pois já estava até com outra pessoa. E ela deu a ideia de que eu levasse essa pessoa, assim ninguém ia ligar se ela estivesse com meu ex-namorado. O problema é que…
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  – Deixa eu adivinhar, não existe essa pessoa. – Ele respondeu, entediado, sem sequer mudar a expressão.
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  – Bom, não existia. Mas, teve uma noite no Baston, algumas semanas atrás, eu meio que comecei a namorar um cara aí… – Falei, tentando dar um tom descontraído, lançando um sorriso amarelo em sua direção. %Anthony% me encarou minuciosa e silenciosamente por uns três segundos antes de dizer um sonoro “não” e virar as costas, voltando a sentar na cadeira. – Ah, %Anthony%, por favor!
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  – Está maluca, %Anya%? Isso vai dar maior confusão. – Me aproximei dele quase correndo. Com a movimentação, meus óculos caiu e, antes de apanhá-lo no chão, apertei as unhas no ombro dele. – Ai! Você me beliscou?! – Perguntou sem acreditar que eu simplesmente tinha apertado a carne do seu braço entre minhas unhas.
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  – Você me deve isso! – Falei, já completamente alterada. Eu podia jurar que até bati o pé no chão, como fazia quando tinha cinco anos de idade.
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  – Pelo quê? – Ele me olhou, ainda incrédulo.
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  – Aquele dia no Baston! – Eu disse, quase sem saber se estava falando sério.
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  A verdade é que eu inventei essa desculpa impulsivamente só para não dizer que ele me devia mesmo era por não ter ligado ou mandando mensagens depois de transar comigo.
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  – Você fingiu ser minha namorada por uma hora em um restaurante e agora quer que eu passe quatro dias em uma ilha fingindo namorar com você e ainda quer que eu esconda isso da minha irmã? A conta não bate, %Bhasin%! – %Anthony% respondeu, com a voz baixa e irritada, claramente não gostando de onde a conversa estava indo.
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  – O tio Martinez vai estar lá! Se eu aparecer com outro cara, você vai sair como idiota e eu como vagabunda! – Tentei novamente, lançando uma última cartada, esperando que ele se sensibilizasse com a situação.
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  – Eu não ligo. Não vou parar minha vida para me enfiar numa confusão de adolescentes com você. – A expressão dele endureceu, os olhos brilhando com uma raiva contida. – Você é inacreditável. Você inventa uma mentira para a sua amiga e agora espera que eu salve você dessa situação que você mesma criou?! – Ele balbuciou, quase indignado.
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  Esbravejei, furiosa, enquanto pegava os óculos que eu mesma havia chutado para debaixo da cama. No entanto, ao me abaixar, fui surpreendida. Não havia nada perdido por lá. Nenhuma meia velha, nenhum objeto esquecido. Normalmente, homens não são tão organizados, mas, aparentemente, %Anthony% era uma exceção.
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  Debaixo da cama, em vez da bagunça comum, havia uma pilha de papéis cuidadosamente empilhados. Minha curiosidade superou a irritação, e, sem pensar muito, puxei os papéis para mais perto.
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  Foi quando o sangue gelou em minhas veias. Eram cartas. Cartas de aviso de pagamento, daquelas que só chegam quando a situação começa a apertar. Eu conhecia bem esses papéis. Uma delas estava aberta, e bastou uma rápida olhada no cabeçalho para confirmar: cartas de despejo.
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  Meu coração apertou e a irritação deu lugar a um misto de incredulidade e preocupação.
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  “Não faz sentido. Esse apartamento é deles, não é alugado”, pensei, franzindo a testa. Fiquei um momento imóvel, ainda ajoelhada no chão, antes de me levantar e voltar minha atenção para ele.
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  – O que você…? – Perguntou, virando-se.
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  Ergui o envelope pardo e observei a palidez se espalhar pelo seu rosto, seus olhos arregalando em um misto de surpresa e apreensão. A reação dele não deixou dúvidas de que ele sabia exatamente o que significava o conteúdo da carta.
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  – Me dá isso. – Ele pediu, a voz tensa, quase ríspida.
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  – O que é isso, %Ant%? – Perguntei, a preocupação crescente.
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  – Não é nada, não é da sua conta, devolve! – Ele retrucou, tentando manter a calma, mas com um toque claro de raiva.
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  – A Nina sabe disso? – Perguntei, sem conseguir esconder o receio na minha voz.
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  – Não, e você não vai contar. Me dá isso, %Anya%! – Tentou puxar as cartas de minha mão, mas fui rápida o suficiente para desviar. Não seria fácil me livrar disso de vez, mas queria ganhar tempo para organizar a ideia que estava se formando na minha mente. – Você não devia ter mexido nas minhas coisas! Eu juro por Deus, %Ananya%, se a Nina souber disso por você…
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  – Eu não vou falar nada, calma. – Tentei acalmá-lo, mas o lado impulsivo dentro de mim falou mais alto. – Mas acho que posso ajudar.
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  Ele piscou algumas vezes, tentando processar minhas palavras. Então, soltou uma risada curta e sarcástica, balançando a cabeça como se aquilo fosse uma piada de mau gosto.
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  – Vocês, ricos, são engraçados. Acham que podem tudo. – Ele disse, quase com desprezo.
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  – É porque, normalmente, nós podemos. – Respondi, com um tom de obviedade, sem perder a confiança.
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  – Eu não preciso de caridade, %Anya%. – Ele afirmou, puxando as cartas de minha mão com firmeza.
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  – E quem disse que é caridade? – Retruquei, decidida a virar o jogo. – Pense nisso como uma oportunidade de emprego.
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  Foi aí que comecei a usar minhas melhores habilidades de negociação.
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  – Espera, é isso mesmo que eu estou pensando? Você está me oferecendo dinheiro para…? – %Anthony% parecia perplexo, claramente não esperando essa proposta e, provavelmente, não acreditando muito no que eu estava sugerindo. Seus olhos estavam semicerrados, analisando-me com desconfiança.
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  – Viajar comigo no final de semana e, talvez, fingir que estamos saindo. Não precisa ser nada muito sério, só o suficiente para convencer a Nina de que estamos juntos. – Abaixei a voz, tentando tornar a proposta mais palatável. – E, quem sabe, a gente resolve isso.
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  – Se isso é um emprego, isso me torna o quê? Um prostituto? – Debochou, de braços cruzados.
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  – Não, eu não estou pagando para fazer sexo com você. Estou pagando seu aluguel para que você finja que estou fazendo sexo com você.
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  – Ah, além de caridade, eu nem vou ficar com a parte boa? – Pareceu meio indignado e ergui uma sobrancelha, surpresa com o tom que ele usava.
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  – Não estou entendendo, %Anthony%. Você quer o papel de prostituto ou não? Além disso, se fosse o caso, você já teria recebido o pagamento. – Murmurei, abaixando a cabeça, me arrependendo do que disse assim que terminei a frase. – Antes que você pergunte, isso não tem nada a ver com... o que aconteceu.
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  Achei necessário deixar isso claro. Para ele e para mim mesma.
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  %Ant% balançou a cabeça, claramente impressionado com a minha proposta audaciosa e então passou a mão pelo cabelo bagunçado. Ele soltou um longo suspiro antes de olhar para mim, resignação e aborrecimento refletida em sua expressão.
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  – %Anya%, sobre aquele dia… – Começou a falar, dando um passo em direção a mim, coçando a cabeça.
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  “Ah, meu Deus, ele vai me dar um fora. Um pé na bunda antes mesmo de termos algo”, pensei. Eu nunca tinha levado um fora antes, nunca fui rejeitada, sequer tive encontros o suficiente para ter sido rejeitada.
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  – Eu não quero falar sobre isso, %Ant%. – Respondi rapidamente, negando com a cabeça e dando um passo para trás. No fundo, eu queria falar, mas senti que precisava me proteger da humilhação que seria ser dispensada por %Anthony% enquanto pedia um favor a ele. – Olha só, eu quero a Nina no meu aniversário e faço quase qualquer coisa para isso, até mesmo entrar em um relacionamento falso com você.
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  Assisti esperançosa %Anthony% desviar o olhar, parecendo pensativo. Ele ficou quieto por alguns momentos, considerando minha proposta e pesando as opções em sua mente. Ele parecia estar contemplando seriamente, apesar do absurdo de toda a situação.
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  – %Anya%, você está maluca.
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  Ele fixou os olhos nos meus como se procurasse vestígios de sanidade. Meu sorriso se alargou. Eu já tinha ganhado essa batalha antes mesmo dela começar.
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  – Do que você precisa? – Minha voz soou mais firme do que eu esperava, embora os dedos tremessem levemente ao segurar o envelope.
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  %Anthony% fez aquela pausa calculista que eu já conhecia bem, os olhos escuros avaliando cada possível reação minha antes de responder. Quando finalmente falou, foi com a calma de quem negocia um contrato de negócios: – Não é óbvio? Dinheiro.
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  O ar entre nós pareceu ficar mais pesado.
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  – Quanto? – Minha voz baixou meio tom, a brincadeira dando lugar à negociação séria.
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  – Trinta mil.
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  – Trinta mil?! – O envelope quase escapou dos meus dedos quando puxei de volta, abrindo-o com movimentos bruscos. Os números no papel confirmavam minha suspeita, cada parcela era consideravelmente menor que isso. – Eu vou pagar quantas parcelas disso, %Anthony%?
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  Ele inclinou a cabeça, quase divertido com minha reação.
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  – Cinco. Uma para cada dia que eu passarei preso naquela ilha paradisíaca sua. – Abri a boca para reclamar, mas ele ergueu um dedo para me silenciar. – Vamos ver... Cinco dias convivendo com seus amigos ricos que me olham como se eu fosse o garçom, numa ilha onde não posso fugir, fingindo que não vejo como você me observa quando acha que não estou olhando... – Seus olhos escuros brilharam. – Acho que estou sendo generoso.
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  Engoli seco. É, ele tinha um ponto.
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  – Vinte. – Contrapropus, surpresa com minha própria ousadia.
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  – %Anya%, isso não é leilão.
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  Baixei os olhos para o envelope novamente, os números dançando diante de mim enquanto fazia os cálculos. Trinta mil. O preço da minha dignidade ou da minha obsessão. O valor que pagaria para ter %Anthony% como enfeite em minha festa de aniversário.
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  – Você é um aproveitador. – Cuspi as palavras enquanto cruzava os braços com força, sentindo o tecido do meu vestido amassar sob meus dedos.
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  – Não, sou empreendedor. – Deu de ombros. Me observou atentamente antes de perguntar. – E se eu disser que não?
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  – Como eu já falei seu nome para Nina, só precisarei dizer que nós terminamos e não precisamos mais ter contato algum.
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  – E quanto às cartas?
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  Ah, era isso. Ele estava com medo de que eu falasse sobre a dívida.
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  – Eu não tenho nada a ver com isso. – Dei de ombros, simplesmente. – Estou oferecendo dinheiro como troca, não como suborno. E se sequer pensou nessa possibilidade, só o mostra o quanto você não me conhece.
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  – Calma, juíza! Eu não disse isso. – Eu vi em sua expressão que ele estava esperando uma tentativa de extorsão da minha parte. Isso me entristecia, provava o quão pouco ele me conhecia e o quanto ele não tinha interesse em descobrir mais sobre mim. – Como é ter tudo que quer, %Anya%?
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  – Às vezes, é um pouco cansativo. – Respondi, sarcástica.
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  – Eu preciso pensar. – Ele olhou para baixo, encarando as cartas em suas mãos.
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  – Ok, você tem meu número. – Alfinetei. Não consegui me conter. Ele ergueu o olhar, provavelmente notando o tom ácido em minha voz e, provavelmente, não entendeu nada. – Mas saiba que quando Nina chegar, ela vai interrogá-lo de maneira furtiva e, provavelmente, violenta. Ela não aceitou muito bem.
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  – Como assim?
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  – Eu falei que estava saindo com você e ela surtou.
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  Nina sempre reclamava quando eu fazia comentários sacanas relacionados ao seu irmão, mas eu nunca pensei que fosse sério.
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  – Essa história está vindo cheia de contras e apenas um pró. – Resmungou, novamente. Peguei o óculos que ainda estava no chão. – Vai acabar sobrando para mim, eu já consigo sentir.
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  – %Ant%, eu não lhe pediria se não fosse importante. – Afirmei, com firmeza. – Eu preciso ir, ainda tenho que voltar para o trabalho. Você… – Hesitei quando notei que %Anthony% me encarava atentamente. – Pensa com carinho, por favor. – Dei um sorrisinho, virando a cabeça, tentando ser a mais meiga possível. – É só um final de semana, você só tem que estar lá, nem vai precisar fazer muita coisa. Comida, bebida e hospedagem de graça, uma ilha paradisíaca… Fala sério, %Anthony%, é um ótimo trato.
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  – Como eu disse, vou pensar. – Ele informou, um tanto pensativo. – A gente conversa na segunda.
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  – Segunda?
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  – Sim, eu não trabalho aos domingos. – Emitiu, engraçadinho. – O capitalismo faz a gente se meter em cada uma… – Murmurou e virou de costas, voltando a pegar sua caneta e papéis, acenando como um claro sinal de que não me queria mais ali.
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───────◇───────

  %ANTHONY%

  Eu nunca fui bom em fingir ser o mocinho. Essa pose de homem íntegro, acima de qualquer erro, nunca colou para mim. Mas naquele mês… eu ultrapassei a linha. Virei exatamente o tipo de pessoa que eu jurava não ser: mentiroso, dissimulado, covarde quando mais importava.
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  Sentia vergonha desse lado, mas também me recusava a deixar que ele me engolisse por completo. No fim, eu sempre encontrava uma justificativa – um propósito racional, uma causa maior – que tornava cada decisão moralmente aceitável. Pelo menos na minha cabeça.
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  Mesmo assim, admitir que havia algo de frio, quase cirúrgico, nas minhas escolhas recentes… me dava um incômodo que eu não sabia nomear.
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  Depois do almoço preparado pela Nina, subi para o quarto e me forcei a focar no trabalho. Tinha uma réplica à contestação para terminar antes de segunda. Era um caso importante, o tipo que podia consolidar meu nome dentro do escritório. Fazia pouco tempo que eu tinha saído do andar dos estagiários – aquele formigueiro de despachos, carimbos e cafeína – e conquistado uma mesa no setor de gestão estratégica.
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  Três andares acima, outro mundo. E eu sabia que não tinha chegado lá apenas por mérito. Meu estômago embrulhava sempre que lembrava disso.
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  A verdade era simples e nojenta: eu devia minha promoção a um relacionamento falso.
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  Não sei em que momento aceitei aquele acordo. Talvez tenha achado que seria fácil. Talvez tenha me convencido de que não era tão errado assim, de que, se o resultado final fosse justo, os meios se justificariam.
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  O plano parecia infalível na minha cabeça. Primeiro, eu ganharia a confiança da %Anya%. Contaria parte da verdade, o suficiente para parecer sincero. Depois, quando o terreno estivesse seguro, eu criaria alguma história para Davi. Algo convincente, algo que me permitisse sair do plano sem levantar suspeitas. E, se tudo desse errado – se as provas viessem à tona e o jogo acabasse – eu ainda tinha uma última carta: assumir o golpe, mas inverter a narrativa.
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  Dizer que tudo fazia parte de uma armadilha maior para expor outro crime contra os %Bhasin%. Afinal, quem se sacrifica pela família sempre ganha perdão.
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  Eu tinha pensado em tudo. Cada detalhe, cada escape.
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  Até vê-la naquela noite.
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  E, de repente, o plano inteiro deixou de fazer sentido.
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  A situação saiu do meu controle rápido demais e, quando me dei conta, eu estava preso entre as pernas torneadas de %Ananya% %Bhasin%. E eu não me arrependia disso, só lamentava o timing terrivelmente errado.
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  Depois daquela noite, encenei com perfeição a farsa de um relacionamento ideal com a sobrinha do chefe. E foi engraçado – e um tanto revoltante – perceber como os olhares mudaram para mim. Era como se eu tivesse subido num pedestal invisível. Os comentários sobre minha "promoção relâmpago" pipocavam pelos corredores, sempre acompanhados de sorrisos enviesados e insinuações não ditas.
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  Para eles, eu não era um profissional competente. Era só alguém que pegou o atalho certo. E isso me embaraçava mais do que eu queria admitir. Mas esse embaraço – e qualquer sombra de tristeza que ousasse me perseguir – sumiu no exato instante em que o novo salário caiu na minha conta.
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  Ainda assim, fora do escritório, eu me sentia um tolo. Um imbecil. Um canalha.
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  Toda vez que %Anya% surgia nos meus pensamentos, o arrependimento vinha como um soco. Eu não transei com ela por interesse. Não fiz aquilo para tirar vantagem. Pelo contrário. Durante aquele tempo juntos, eu esqueci completamente o plano sujo de Martinez. Mesmo assim, o fato de ter ido tão longe, sabendo que havia concordado com aquela loucura, me corroía por dentro.
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  Pensei inúmeras vezes em ligar para %Anya%. Porém, qualquer aproximação minha não seria apenas minha. E isso me consumia, uma inquietação que me apertava o peito, como se estivesse tentando me lembrar de que minhas intenções já vinham manchadas.
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  Talvez por isso eu estivesse me dedicando tanto ao caso que me foi designado. Meu desempenho precisava ser impecável. Irrefutável. Eu precisava mostrar que minha presença ali valia mais do que qualquer barganha. Que minha carreira podia, sim, ser construída por mérito. No fundo, minha estratégia era clara: construir uma reputação sólida o suficiente para me sustentar quando o inevitável acontecesse.
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  Porque, no momento em que eu dissesse a Martinez que não podia cumprir o que ele me pediu… tudo iria desmoronar. E eu sabia bem: ele não era o tipo de homem que aceitava fracassos.
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  Tirei os óculos, esfregando o rosto, sentindo que meus pensamentos novamente iriam até a culpada por toda aquela confusão.
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  Nada disso teria acontecido se %Anya% não tivesse inventado um namoro para Davi naquele dia do Baston.
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  De vez em quando, eu tentava sentir raiva dela por isso e até repensava sobre a ideia de influenciá-la errado. Porém, eu sentia o cheiro de jasmim e o barulho da chuva daquela noite vindo da minha mente criativa e dinâmica e desistia de tudo de novo. Peguei o celular em cima da mesa e repeti o mesmo ato que fizera das últimas vezes. Procurei o nome de %Anya% na lista de contatos, mas não consegui ligar.
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  Suspirei, jogando o celular na mesa e voltando a olhar para a tela do computador, mas uma voz arrancou minha atenção completamente para fora de meu próprio quarto.
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  – Você acabou de salvar minha vida. – Escutei, longe.
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  Era a voz de %Anya%.
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  Instintivamente, corri para trás da porta, tentando captar cada sílaba, desejando a confirmação de que era ela de verdade. Não era possível que, depois de pensar tanto nela, a indiana tivesse se materializado ali, no meio da minha rotina. Percebi que não conseguia ouvir mais nada, então decidi caminhar até a cozinha, fingindo buscar um copo de água.
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  – Céus, %Anya%! Quanto tempo você não come? – Nina comentou, rindo ao observar a amiga devorar a comida sem cerimônia.
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  – Não me julgue. TPM… Isso aqui… – %Anya% gesticulava, ainda mastigando. – Nina, juro que não te peço em casamento agora porque dou muito valor ao sexo hétero.
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  – Umm, que bom saber disso. – Murmurei, e depois acrescentei, tentando soar casual: – %Ananya% %Bhasin%, é sempre um prazer vê-la.
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  Arregalei os olhos, consciente de que tinha reagido sem pensar. Era inacreditável como meu corpo parecia fora do meu controle.
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  Ver %Anya% com os cabelos presos em um rabo de cavalo, vestindo mangas compridas que não davam espaço para imaginação, era completamente diferente de tê-la visto descabelada, corada, satisfeita. Balancei a cabeça, tentando afastar as imagens que insistiam em invadir minha mente, e me aproximei da geladeira.
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  – Ah, %Anthony% também está em casa. – Nina comentou, apontando para mim.
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  Pobrezinha, ela não fazia ideia do que se passava.
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  – %Ant%… o prazer é todo meu. – O tom provocante de %Anya% me atingiu de repente. Congelei atrás da porta da geladeira, engolindo em seco, incapaz de reagir de outra forma.
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  – Ei… limites, por favor.
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  Fechei a geladeira e busquei o olhar de %Anya%. Ela mantinha um sorriso contido nos lábios, que eu não consegui decifrar por completo. Neguei levemente com a cabeça, tentando não sorrir, e acenei para avisar que iria ao quarto. O caminho até lá pareceu interminável. Queria voltar, me sentar à mesa e conversar com ela, mas para Nina, não tínhamos esse tipo de intimidade. E, entre nós, de fato, ainda não tínhamos.
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  Na hora seguinte, tentei muito me concentrar nos papéis em minha frente. Porém, acabei fazendo algo que prometi a mim mesmo que nunca faria. Mandei mensagem para Victor, meu colega de trabalho.
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  E se eu falar para Martinez que eu e %Anya% terminamos?
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  Em alguns minutos, Victor respondeu:
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  Você vai ser demitido.
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  Victor era o único do meu andar que falava comigo. Tudo bem, nossas conversas vinham recheadas de insultos e provocações, mas ainda assim, almoçávamos juntos quase todos os dias. Num fim de semana, depois de uma semana especialmente infernal no trabalho, acabamos atravessando a rua para tomar uma cerveja naquele bar simples e modesto em frente ao prédio.
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  Fiquei surpreso pois não imagina que um cara como Victor frequentava um bar tão simples e modesto, mas no fundo, – bem no fundo –, Victor era mais do que um cara que se importava com roupas caras e de marca. Ele também gostava de cinema, de trabalhar e de cerveja quente.
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  Naquela noite, depois de muita cerveja e umas doses generosas de uísque, nós discutimos. Victor me acusou de ser complacente com todos os privilégios que vinha recebendo por causa da minha "namorada". E eu, com raiva de mim mesmo, não consegui fazer outra coisa além de concordar. Foi aí que contei sobre o acordo que Martinez propôs. Victor achou aquilo sensacional.
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  A verdade é que eu precisava desabafar. Não podia contar nada a ninguém, já que as pessoas mais próximas estavam diretamente envolvidas. Victor apareceu na hora certa, no lugar certo – ou errado, dependendo do ponto de vista – e escutou meus lamentos com uma empolgação quase perversa.
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  Obviamente, omiti a parte mais delicada: o fato de %Anya% não ser minha namorada, mas sim, uma amiga da minha irmã.
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  “Isso é maldade, você sabe que fazer isso com sua própria namorada é loucura. Mas cara, se você conseguir... Genial, você vai ser um gênio!” exclamou, surpreso com a situação desagradável em que eu estava preso.
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  Consegui me concentrar no trabalho por alguns minutos até ser interrompido por batidas tímidas na porta. Levantei a cabeça, surpreso. %Anya% estava ali.
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  – %Anya%? O que foi? Quer ajuda com a Matriciana?
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  – Eu vim falar com você. – Desci o olhar para os lábios que ela mordia excessivamente.
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  – Aconteceu alguma coisa?
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  – Não, ér… na verdade, e-eu… – %Anya% estava gaguejando, algo que era completamente fora de seu personagem. %Ananya% %Bhasin% não gaguejava, ela falava graciosamente. – %Anthony%, eu fiz merda.
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  Eu também, %Ananya%. Eu também.
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  – Você matou alguém? – Brinquei para esconder o quanto estava envergonhado.
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  %Anya% não fazia ideia da missão indecorosa que o tio havia me imposto. Ainda assim, eu me sentia envergonhado por estar ali, de frente para ela.
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  E então havia aquela noite.
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  Por mais que eu tentasse enterrar a lembrança, ela voltava com força, insistente, como uma ferida aberta que se recusava a cicatrizar. Era impossível não pensar na ordem dos acontecimentos: a proposta de Martinez veio primeiro. E, logo depois, veio ela.
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  Mesmo sabendo que %Anya% não tinha absolutamente nada a ver com os planos sujos do meu chefe, eu não conseguia evitar a sensação de que, de alguma forma, eu havia me aproveitado dela. Essa ideia me corroía por dentro. Me fazia sentir menor. Sujo.
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  Ela permaneceu em silêncio por um instante, como se ponderasse as próprias palavras. Então respirou fundo.
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  – Não, mas talvez você mate… Então… aconteceram algumas coisas e eu… - Assenti devagar, sinalizando para que ela continuasse. Sinceramente? Nada do que ela dissesse poderia ser pior do que o que eu estava escondendo. – Ok, vou ser direta. Falei para a Nina que nós estamos juntos… – Ela parou por um segundo, esperando minha reação. – E que você vai para o meu aniversário no final do mês, na ilha.
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  – Você fez o quê?!
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  – Falei para a Nina que nós estamos juntos e que você vai para o meu aniversário na ilha.
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  – Eu entendi, não sou idiota. Mas… por que você fez isso? – Passei a mão pela nuca, tentando processar aquela informação sem parecer tão confuso quanto estava.
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  %Anya% soltou um suspiro curto, como se também estivesse tentando entender as próprias motivações.
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  Começou explicando que Nina estava namorando seu ex-namorado. Aquilo me pegou de surpresa. Era a primeira vez que eu ouvia falar que minha irmã estava em um relacionamento e, pelo visto, com alguém do passado de %Anya%. Eu teria que conversar com ela sobre isso depois, com calma.
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  %Anya% continuou, dizendo que Nina havia mencionado que não queria ir à festa de aniversário dela naquele ano. Segundo ela, ficaria sem graça de aparecer ao lado do ex da amiga. A situação toda soava como um daqueles enredos complicados de novela, mas, pela expressão de %Anya%, aquilo era real e desconfortável para as duas.
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  A famosa festa de %Ananya% %Bhasin%. Todo ano, eu ouvia falar dela, porém, apesar de tantos comentários, eu nunca havia sido convidado oficialmente. Sabia que, se quisesse, provavelmente conseguiria entrar. Mas não era do tipo que aparecia sem convite direto da anfitriã. Ainda mais sendo ela.
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  E mais do que uma festa, eu sabia o que aquilo significava para minha irmã. Nina contava os dias para essa viagem. Amava aquele final de semana na ilha da herdeira %Bhasin%. Era o evento que ela mais aguardava no ano.
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  – Então eu disse que não tinha problema algum, pois já estava até com outra pessoa. E ela deu a ideia de que eu levasse essa pessoa, assim ninguém ia ligar se ela estivesse com meu ex-namorado. O problema é que…– %Anya% mordeu o lábio, e sua voz saiu mais baixa. – O problema é que…
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  – Deixa eu adivinhar, não existe essa pessoa.
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  – Bom, não existia. Mas, teve uma noite no Baston, a algumas semanas atrás, eu meio que comecei a namorar com um cara aí… – Minha expressão se transformou da confusão inicial para um entendimento gelado. %Anya% não estava apenas sugerindo que mantivéssemos a farsa, ela queria ampliá-la, arrastando minha irmã, meus amigos e toda a família para dentro do teatro. Era um risco inaceitável. Não precisei pensar muito para dizer ‘não’. – Ah, %Anthony%, por favor!
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  A voz dela tinha aquele misto de súplica e manipulação que eu conhecia bem. Ignorei.
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  – Está maluca, %Anya%? Isso vai dar a maior confusão. – Minhas palavras saíram cortantes, sem espaço para negociação. Eu não precisava de mais um enrosco com ela. Já estava metido até o pescoço tentando me desvencilhar de um acordo sujo e perigoso que, de alguma forma, também a envolvia. Antes que eu pudesse dar outro passo, ela avançou até mim, impaciente, e apertou meu braço com as unhas afiadas. – Ai! Você me beliscou?!
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  – Você me deve isso!
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  – Pelo quê?!
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  – Aquele dia no Baston!
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  – Você fingiu ser minha namorada por uma hora em um restaurante e por conta disso quer que passe quatro dias em uma ilha fingindo namorar com você e ainda por cima quer que eu esconda isso da minha irmã? A conta não bate, %Bhasin%!
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  – O tio Martinez vai estar lá! Se eu aparecer com outro cara, você vai sair como idiota e eu como vagabunda!
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  Fiquei em silêncio por um segundo. Por fora, mantive a carranca de indignado. Por dentro, comecei a considerar a proposta.
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  Na verdade, aquilo podia funcionar. Aquela poderia ser minha oportunidade de matar dois coelhos com uma cajadada só. Estar na festa com %Anya% me daria a chance perfeita para tentar convencê-la, com calma, de que o plano do Martinez era absurdo. E se ela, com o bom senso que eu sabia que tinha, recusasse colaborar, eu poderia voltar para o Martinez e dizer que, pelo menos, tentei. Tentei mesmo. E ele teria visto com os próprios olhos.
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  Além disso, aquilo me permitiria observar tudo de perto, manter %Anya% segura e, com alguma sorte, encontrar uma brecha para desarmar toda a farsa.
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  Mas eu precisava pensar. Pensar de verdade, sem o olhar afiado dela me atravessando e sem a pressão daquela conversa.
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  Enquanto me perdia nessa linha de raciocínio, não percebi o movimento ágil de %Anya%. Quando levantei os olhos, ela já estava no canto do quarto, segurando uma das cartas de despejo que eu escondia embaixo da cama.
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  Meu estômago afundou. Vi seus olhos percorrerem o conteúdo da carta e, logo depois, me encararem.
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  – A Nina sabe disso?
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  – Não. E você não vai contar. Me dá isso, %Anya%! – Tentei tomar a carta da mão dela, mas ela foi mais rápida, desviando com facilidade. Eu poderia ter insistido, forçado a situação, mas não queria machucá-la. Além do mais, ela já tinha lido. O estrago estava feito.
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  – Você não devia ter mexido nas minhas coisas! Juro por Deus, %Ananya%, se a Nina souber disso por você… – A ameaça saiu entre dentes, tentando esconder o nervosismo que me corroía por dentro.
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  – Eu não vou falar nada, calma. Mas acho que posso ajudar. – Ela me olhou com aquela expressão que misturava compaixão e desafio.
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  Por um segundo, não entendi. Mas então caiu a ficha.
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  %Anya% não era parente de sangue do Martinez, mas com certeza havia sido moldada pela mesma escola. Fria, prática e acostumada a resolver problemas com o que nunca lhe faltou: dinheiro.
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  – Vocês, ricos, são engraçados. Acham que podem tudo.
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  – É porque, na maioria das vezes, podemos mesmo. – Retrucou, com um sorriso debochado.
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  – Eu não preciso de caridade, %Anya%.
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  – E quem disse que é caridade? Pense nisso como... uma oportunidade de emprego.
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  – Espera. É isso mesmo que eu estou entendendo? Você está me oferecendo dinheiro para...
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  Fiquei estático por um segundo. Aquilo era inacreditável. %Anya% estava mesmo tentando me comprar? Me subornar? E o pior: a proposta fazia sentido. Era tentadora. Mas também era um tapa na cara.
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  – Viajar comigo no final de semana e, talvez, fingir que estamos saindo. Não precisa ser nada muito sério, só o suficiente para convencer a Nina de que estamos juntos. – Explicou, como se falasse de uma tarefa simples, como regar plantas ou alimentar um gato.
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  – Se isso é um emprego, isso me torna o quê? Um prostituto?
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  – Não, eu não estou pagando para fazer sexo com você. Estou pagando seu aluguel para que você finja que estou fazendo sexo com você.
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  – Ah, além de caridade, eu nem vou ficar com a parte boa?
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  – Não estou entendendo, %Anthony%. Você quer o papel de prostituto ou não? Além disso, se fosse o caso, você já teria recebido o pagamento. Antes que você pergunte, isso não tem nada a ver com... o que aconteceu.
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  – %Anya%, sobre aquele dia... – Comecei, sem saber exatamente aonde queria chegar.
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  Eu não queria pedir desculpas. Não me arrependia. Mas me culpava. Pela situação. Pelo contexto. Por ter deixado tudo acontecer daquele jeito. E odiava não saber se, em algum nível, eu havia me aproveitado dela.
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  – Eu não quero falar sobre isso, %Ant%. – Cortou, firme. – Olha só, eu quero a Nina no meu aniversário e faço quase qualquer coisa para isso, até mesmo entrar em um relacionamento falso com você. – Deu de ombros como se aquilo fosse a coisa mais racional do mundo.
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  – %Anya%, você está maluca... – Murmurei, negando com a cabeça. Mas, no fundo, já estava curioso.
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  – Do que você precisa?
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  – Não é óbvio? Dinheiro.
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  – Quanto?
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  Parei. Tentei fazer as contas de cabeça, lembrar o valor exato da dívida, mas meu cérebro estava em pane, dividido entre a proposta absurda e o olhar firme de %Anya%.
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  – Trinta mil.
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  – Trinta mil?! – %Anya% exclamou, sua voz carregada de surpresa. A reação dela foi quase como um soco no estômago. Eu estava começando a me sentir como um idiota por ter entrado nessa negociação. Mas a verdade era que ela mesma tinha lançado a oferta. Eu não podia dar para trás agora, mas ainda assim, um mal-estar se formou no fundo da minha garganta. – Eu vou pagar quantas parcelas disso, %Anthony%? – Ela perguntou com a calma que sempre a acompanhava, uma calma quase irritante diante da situação.
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  Notei que, ao contrário de Davi – a quem eu estava conseguindo enrolar há semanas com respostas evasivas e justificativas bem ensaiadas –, %Anya% era inteligente, perspicaz e tinha um raciocínio rápido que não dava margem para erros ou para aquelas pequenas brechas nas quais eu normalmente me apoiava para manipular uma conversa.
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  – Cinco. Uma para cada dia que eu passar naquela ilha com você. – Minha voz saiu mais seca do que eu queria. Fui direto, sem enrolação. Contava os dias com os dedos. – Cinco dias convivendo com seus amigos ricos que me olham como se eu fosse o garçom, numa ilha onde não posso fugir, fingindo que não vejo como você me observa quando acha que não estou olhando... Acho que estou sendo generoso. – Arrematei, tentando brincar com a situação, mas eu sabia que estava sendo sincero em parte.
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  Ela me olhou com aquela expressão indecifrável e fez um pequeno movimento com a cabeça, quase como se estivesse processando as palavras. Por um segundo, achei que ela fosse retrucar com algo mais ácido, mas ela respondeu com a mesma calma de sempre.
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  – Vinte. – Disse, com um sorriso torto no rosto.
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  – %Anya%, isso não é leilão. – A resposta saiu de mim mais impaciente do que eu queria. A sensação de estar sendo negociado como uma mercadoria me incomodava e eu não conseguia disfarçar a irritação.
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  – Você é um aproveitador. – Ela não teve medo de me apontar, com uma leve risada nos lábios, como se estivesse se divertindo com a situação.
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  – Não, sou um empreendedor. – Tentei manter a postura, me convencendo de que o que estava fazendo não era tão vil quanto ela achava. Afinal, era um acordo mútuo, certo? Eu só estava tentando encontrar uma oportunidade, mesmo que fosse em um cenário completamente sujo. Aproveitador? Parasita? Picareta? Não. Eu estava sendo um empreendedor visionário, que procurava uma saída em meio ao caos. – E se eu disser não? – Perguntei, mais por testar o terreno do que por real desejo de recusar. Queria ver até onde ela iria para me convencer.
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  – Como eu já falei seu nome para Nina, só precisarei dizer que nós terminamos e não precisamos mais ter contato algum.
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  – E quanto às cartas? – Levantei uma sobrancelha, sentindo que a conversa estava indo para um ponto que eu não esperava. Mostrei os papéis, aqueles documentos que me assombravam, e tentei analisar o olhar dela.
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  – Eu não tenho nada a ver com isso. – Ela deu de ombros, como se o problema das cartas fosse completamente irrelevante. – Estou oferecendo dinheiro como troca, não como suborno. E se sequer pensou nessa possibilidade, só o mostra o quanto você não me conhece. – As palavras dela eram duras, mas não houve raiva nelas. Era mais como um confronto de realidades.
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  – Calma, juíza! Eu não disse isso. – Levantei os braços em defesa, mas, por dentro, eu sabia que ela estava certa. Eu realmente pensei que ela estivesse tentando me subornar de alguma forma. Respirei fundo e me senti ridículo. Não só estava caindo nas artimanhas de alguém rico pela segunda vez no ano, como agora eu estava começando a entender que minha visão sobre pessoas como %Anya% era mais errada do que eu imaginava. – Como é ter tudo o que quer, %Anya%? – Perguntei sem pensar, tentando entender o que estava acontecendo ali, o que ela realmente queria.
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  Ela deu uma risada curta, uma risada cheia de sarcasmo, e seu sorriso parecia misturar tanto a empatia quanto o desgosto.
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  – Às vezes, é um pouco cansativo. – Ela respondeu com sinceridade, mas havia uma camada de amargor em suas palavras que eu não esperava.
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  – Eu preciso pensar. – Fui sincero.
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  Eu não tinha como tomar uma decisão ali, não sem examinar as opções. Mas, no fundo, eu já sabia a resposta. Eu estava mais perto de ceder do que eu gostaria de admitir.
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  – Ok, você tem meu número. Mas saiba que quando Nina chegar, ela vai interrogá-lo de maneira furtiva e, provavelmente, violenta. Ela não aceitou muito bem.
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  – Como assim?
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  – Eu falei que estava saindo com você e ela surtou.
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  – Essa história está vindo cheia de contras e apenas um pró. – Assisti %Anya% se abaixar para pegar os óculos no chão e desviei o olhar rapidamente quando notei que estava olhando fixamente para as pernas expostas dela. – Vai acabar sobrando para mim, eu já consigo sentir.
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  – %Ant%, eu não lhe pediria se não fosse importante. – Afirma com convicção. – Eu preciso ir, ainda tenho que voltar para o trabalho. Você... Pensa com carinho, por favor. É só um final de semana, você só tem que estar lá, nem vai precisar fazer muita coisa. Comida, bebida e hospedagem de graça, uma ilha paradisíaca… Fala sério, %Anthony%, é um ótimo trato.
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  Era um ótimo trato, sim. Mas eu também tinha um outro trato em andamento e envolvia diretamente %Anya% e a família %Bhasin%. Aceitar aquilo seria atestado de mal cartismo desprezível, mas droga, eu precisava de dinheiro. Desesperadamente.
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  – Como eu disse, vou pensar. – Informei, sério. – A gente conversa na segunda.
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  – Segunda?
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  – Sim, eu não trabalho aos domingos. O capitalismo faz a gente se meter em cada uma… – Murmurei meus pensamentos em alto e bom som.
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  Virei de costas, voltando para a cadeira e acenei. Quando voltei a olhar, %Anya% já não estava no mesmo ambiente que eu. Encarei a porta fechada por alguns minutos antes de tirar os óculos do rosto com força e jogar sobre a mesa. Passei a mão pela face, angustiado.
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  Eu sentia que tinha sido encurralado por todos os lados e estava cedendo a todos eles. Além de me sentir como uma marionete nas mãos de gente com mais dinheiro que eu, também sentia que estava sendo forçado a direção e ações indignas. Entretanto, no fundo, eu sabia que não podia culpar ao mundo e me deixar de fora disso.
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  No fundo, eu sabia que essa não era uma batalha só contra %Anya%, ou contra Martinez. Era contra mim mesmo. E eu estava perdendo.
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  Meus olhos se encheram de lágrimas, e eu tentei disfarçar, mas não consegui. A memória da minha mãe, sempre tão firme, falando que nenhuma pessoa era fraca se seu caráter fosse forte, me atingiu com a força de um soco no estômago.
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  Eu devia ser um péssimo exemplo disso. Porque, no momento, me sentia completamente fraco.
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– Ժ –

  Na segunda-feira, tudo o que eu queria era me jogar na cama e esquecer o trabalho, os processos, a tela do computador, até o celular. Queria apenas me afundar no travesseiro e acordar no dia seguinte fingindo que a rotina não existia. Mas, como sempre, havia a tal da responsabilidade: era meu dia de preparar o jantar.
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  As pastas empilhadas sobre a mesa me encaravam, exigindo atenção, mas ignorá-las seria fácil. O mesmo não podia ser dito sobre o jantar da Nina. Isso, definitivamente, não podia ser deixado de lado.
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  Antes que começasse a me afundar nas próprias lamentações, fui direto para o banho. Quando saí, vesti uma bermuda de algodão e um moletom preto. O cansaço ainda pesava nos ombros e uma pontada incômoda na cabeça anunciava a chegada de uma enxaqueca. Em vez de procurar um remédio, decidi que uma garrafa de cerveja gelada seria um analgésico mais convincente.
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  Nina costumava chegar mais tarde nas segundas e quintas, por causa das atividades extracurriculares, e esses dias automaticamente se tornavam meus turnos oficiais na cozinha.
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  Ao abrir a geladeira, encontrei um resto de espaguete sem molho guardado em um recipiente transparente, e, naquele instante, algo dentro de mim se lembrou de %Anya%. Eu havia prometido que falaria com ela, que resolveria as coisas entre nós, mas a exaustão me consumia, tornando o simples ato de agir praticamente impossível. Queria não pensar nela, não queria lidar com a bagunça que minha vida havia se tornado.
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  O dia no escritório foi o ápice. Algum idiota comentou que o chefe tiraria folga para viajar para o aniversário da sobrinha que as engrenagens começaram a girar. Não demorou muito para que todos ligassem os pontos.
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  As piadinhas começaram tímidas, mas ganharam força ao longo do dia, até que parecia que cada mesa ao meu redor tinha alguém rindo às minhas custas. "Então, já arrumou a mala para as férias com o chefe?" ou "Vai aproveitar para pedir um aumento durante a festa de aniversário, hein?" Essas eram as mais leves. A cada comentário, meu sangue fervia mais.
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  À medida que o dia avançava, percebi que as piadas não eram apenas sobre o suposto favoritismo por parte do chefe. Era como se todo mundo acreditasse que minha vida pessoal e profissional eram uma grande barganha, que eu estava jogando algum tipo de jogo. Isso me irritava mais do que deveria, talvez porque, no fundo, eu sabia que não era totalmente mentira.
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  O que Martinez estava fazendo comigo, o que ele me forçava a fazer, não era mais um jogo.
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  Ele sabia muito bem o que tinha nas mãos (provas de fraude, documentos capazes de destruir qualquer chance que eu tivesse de seguir com minha vida do jeito que a conhecia). O que ele queria, no fundo, era que eu me envolvesse nisso. Se eu não jogasse o jogo dele, ele usaria aquelas provas e as consequências disso me perseguiam constantemente.
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  Eu até tentei ignorar, acreditei que, de alguma forma, aquilo tudo ia se resolver sozinho, que ele ia esquecer, mas sabia que isso não ia acontecer. Eu não podia continuar vivendo na corda bamba, tentando convencer todo mundo de que tudo ia se ajeitar sem que eu fizesse nada.
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  Então, tomei uma decisão. Eu ia fazer o que Martinez queria. Com o favor a %Anya%, eu limparia a minha parte, conseguiria quitar a dívida da casa e garantiria que ela ficasse sem mais cobranças.
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  Não pensei nas consequências naquele momento. Não podia. Eu já estava fundo demais nessa lama e, se tentasse sair, acabaria afundando ainda mais. Então, sim, aceitei.
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  Peguei o celular no bolso, objetivando mandar mensagem para %Anya%, mas fiquei surpreso em encontrar uma mensagem de texto dela.
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  Estou chegando.
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  Passei a mão pelos cabelos úmidos, respirando fundo. Ela estava vindo. Fui até o banheiro, retirei os óculos de grau, coloquei as lentes e fui terminar de preparar o jantar.
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  %Anya% estava ali, buscando uma confirmação. Uma confirmação que, na verdade, eu já tinha. Mas, mesmo assim, ainda me sentia inquieto. Olhei ao redor do apartamento, como se buscasse algo que me garantisse que eu estava fazendo a escolha certa. Mas, no fundo, sabia que não havia mais volta.
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  %Anya% descobrir a minha situação financeira era um pesadelo. Mas não tinha muitas opções. O apartamento de 122m² que minha mãe comprou com tanto esforço e suor de trabalho, um lugar onde moramos a vida inteira, sempre teve um valor sentimental muito maior que o material. A ideia de perdê-lo por pura teimosia e erro seria um golpe doloroso demais para mim e, principalmente, para Nina.
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  E %Anya%… com ela, seria o dinheiro mais fácil que eu já teria na vida.
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  Abri a porta da sacada, uma pequena área que reformamos juntos. A brisa fria da noite entrou no apartamento, como uma tentativa de trazer um pouco de frescor ao ar carregado de preocupação. Olhei para o cenário ao redor mais uma vez, suspirei e procurei, de algum jeito, algum sinal de que estava fazendo a coisa certa.
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  Nunca desejei tanto que o fantasma de mamãe aparecesse ali.
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  Alguns minutos depois, o interfone tocou. O porteiro informou que uma certa %Ananya% %Bhasin% estava aguardando. Deveria ser um porteiro novo, já que fazia anos que %Anya% não era parada na portaria. Respondi rapidamente que ela poderia ser liberada e, após deixar a porta aberta, corri de volta para a cozinha, apressando-me a mexer nas panelas.
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  – Caramba, que cheiro bom! – A ouvi exclamar assim que entrou, anunciando sua chegada. Mas os sons de seus saltos batendo contra o piso de madeira já haviam chegado até meus ouvidos antes mesmo de ela aparecer em meu campo de visão.
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  – O mesmo espaguete, mas não sou tão caprichoso quanto Nina. O molho é só de muçarela. – Comentei, sem tirar os olhos das panelas.
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  – Ou seja, é macarrão com queijo. – Ela respondeu, o tom provocador em sua voz. Eu a olhei, fingindo indiferença, e ela sorriu de lado, com aquele sorriso travesso que só ela sabia dar. A brisa ficou mais forte de repente, e %Anya% virou-se, olhando para a sacada. Seu sorriso se expandiu. – Ah, eu amo esse lugar. – Ela correu animada em direção à sacada integrada à cozinha e se jogou no sofá de dois lugares.
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  Não consegui evitar o sorriso. Era uma reação involuntária. O jeito como ela se movia, como sempre, com tanta confiança e graça, me fazia sorrir, mesmo quando eu tentava manter o foco. Como sempre, ela estava de saia. O conjunto de saia plissada e blazer cor-de-rosa era tão típico de %Anya%, tão perfeito para ela, que parecia até engraçado. Ela parecia saída diretamente de Clueless, como se fosse uma personagem criada para a tela.
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  Droga, %Anya% era tão bonita que tornava as coisas ainda mais complicadas para mim. Como eu poderia me sentir realmente arrependido pela noite no escritório?
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  – Você mora em uma mansão, %Anya%. O que minha sacada de dois metros tem de tão diferente? – Zombei, enquanto me concentrava em preparar o molho.
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  – É confortável. – Deu de ombros e olhou para o lado de fora, como se estivesse assistindo a coisa mais interessante do mundo. – Além disso, eu gosto de como a vista daqui dá para outras casas. Do meu quarto, eu só vejo escuridão e alguns prédios distantes.
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  – É claro que não há nada em volta, você mora em um condomínio do tamanho de um parque nacional. – Recordei, sarcástico.
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  – Como você sabe? Nunca foi lá. – Desdenhou.
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  – Eu já dei carona para Nina até sua casa algumas vezes, obrigada por notar. Quer beber alguma coisa? – Ofereci e ela disse que queria apenas água.
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  – Cadê a Nina? – Olhou em volta, buscando sinais da presença de minha irmã.
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  – Ela costuma chegar tarde nas segundas.
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  – E o que falaremos quando ela chegar? – Perguntou, olhando-me ansiosa. – %Ant%, vamos lá! – Pediu, impaciente.
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  Eu quase conseguia ouvir a voz de Davi Martinez em meu ouvido, no dia em que ofereceu o acordo.
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  “Não estou dizendo que será fácil, mas que valerá a pena”.
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  Suspirei dolorosa e profundamente.
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  – Quando você menos esperar eu vou estar sentado na sala de jantar com o Sr. %Bhasin%, usando dhoti e comendo curry.
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  Ela deu um gritinho empolgado, correu até mim de um jeito engraçado por conta dos saltos e pulou em meus ombros, abraçando-me fortemente. Tentei me esquivar, mas não consegui conter a ação de meu próprio corpo e minhas mãos foram instintivamente para sua cintura, mas assim que senti um pedaço da pele dela em meus dedos, me afastei rapidamente.
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  Eu definitivamente não queria – e nem devia – testar meus limites quando se tratava de %Ananya%. Já tinha sido difícil o suficiente não ir atrás dela no dia seguinte àquela noite. Passei o dia inteiro tentando me convencer de que manter distância era a decisão certa.
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  – Ah, não sei por que estou tão feliz de gastar trinta mil por você. – Ela comentou, se afastando, cruzando os braços em uma falsa pose de indignação. – Espera aí, desde quando você sabe o que é dhoti?
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  – Eu fiz meu dever de casa. – Respondi, tentando conter o sorriso. Ela riu e voltou ao sofá da sacada. – Se isso é um trabalho como qualquer outro, é bom que eu esteja qualificado.
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  Para mim, era exatamente isso. Um trabalho. Como qualquer outro que já aceitei na vida. E em todos eles, eu gostava de me sentir preparado, saber onde estava pisando.
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  – Muito obrigada, %Ant%, de verdade. Eu sei que parece uma besteira, mas isso é importante para mim.
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  Fiquei em silêncio por um instante, mas a pergunta que não consegui fazer no sábado finalmente escapou.
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  – Por que você está fazendo isso? – Murmurei, mantendo os olhos nas panelas por mais tempo do que o necessário. – Você precisa tanto assim da Nina?
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  Reduzi o fogo do fogão até quase apagar a chama e fui até a sacada.
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  – A questão não é precisar dela. Eu conseguiria levá-la de qualquer forma. Ela é sensível o suficiente para não me deixar sozinha no meu aniversário. – %Anya% falou com um tom mais calmo, como se já tivesse refletido sobre aquilo antes. – Mas se ela não estiver confortável o suficiente para curtir a festa, então não vale a pena. A Nina ama a ilha Sundar. E eu amo a Nina. Então, se para deixá-la bem e confortável eu preciso de você lá... então que seja.
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  No fundo, nós dois sabíamos que minha decisão de aceitar tudo aquilo também girava em torno da mesma pessoa: Nina. Ela era o ponto de conexão. O elo. O que nos empurrava para esse acordo esquisito, mas necessário.
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  – Seria realmente o fim do mundo ela não ir ao seu aniversário? – Perguntei, sem conseguir evitar.
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  Ela desviou o olhar, como se precisasse pensar na resposta. Ou talvez só quisesse escolher bem as palavras.
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  %Ananya% tinha um rosto delicado, mas marcante, provavelmente por causa das origens indianas que carregava com tanto orgulho. Era bonita como qualquer atriz de cinema. Naquele dia em especial, seus cabelos pretos caíam soltos em camadas suaves ao redor do rosto e era visível que ela não usava maquiagem alguma. Eu conseguia ver as manchinhas e sardas espalhadas ao redor do nariz. Seus cílios longos piscaram algumas vezes antes de ela se virar para mim.
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  – Nina é minha única amiga de verdade, %Ant%. – Sua honestidade que me pegou de surpresa. – Pode ser egoísmo, pode ser mimado da minha parte... mas eu preciso dela. – Deu de ombros, como se aquilo fosse óbvio. – E, além disso, ela ama os meus aniversários. Ver ela ficar de fora ou não aproveitar por conta de comentários idiotas dos outros seria injusto demais.
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  Assenti em silêncio, mas, ao contrário do que esperava, senti mais frustração do que alívio.
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  O jeito como %Ananya% era capaz de se doar por Nina me deixava admirado e, de certo modo, mais disposto a aceitar seu pedido. Mas também tornava tudo aquilo mais difícil de digerir. Ela não tinha segundas intenções, não estava usando ninguém. Diferente de Davi... e, no fundo, diferente de mim também.
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  Porque eu sabia o que estava em jogo. Ir àquele aniversário significava concluir minha missão. Significava dar o último passo do acordo com Martinez. E no fim das contas, quem sairia ganhando com tudo isso era eu. Só eu.
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  %Anya% só queria passar o aniversário ao lado da melhor amiga. Eu queria dinheiro.
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  – Ela não me falou nada. – Comentei, tentando não soar magoado. – Desde que você saiu daqui no sábado, a Nina não tocou no assunto comigo. Não disse uma palavra.
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  – Jura? Comigo, ela fez um milhão de perguntas. – %Anya% respondeu, pensativa.
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  – Que tipo de perguntas?
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  A verdade era que, desde que Nina voltou para casa naquele sábado, ela não demonstrou raiva. Mas também não disse uma palavra sobre o que tinha ouvido. Ela simplesmente... se calou. E esse silêncio estava me consumindo.
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  – O básico. Como começou, por que começou, onde começou...
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  – E o que você disse?
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  – A verdade. – Franzi o cenho, imediatamente tenso. A "verdade" dela incluía a nossa... reunião particular? Será que ela contou tudo? – Eu disse que nos encontramos no Baston, jantamos juntos, blá blá blá... – Fez um gesto com as mãos, como se o resto fosse irrelevante. Mas continuou me deixando na dúvida. – Posso te fazer uma pergunta? Como isso aconteceu? As dívidas, todo esse aperto... você sempre foi tão organizado.
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  Soltei uma risada fraca, sem graça, e me recostei na lateral da porta da sacada, cruzando os braços.
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  – A vida aconteceu. – Comecei, dando de ombros. – Eu hipotequei a casa para conseguir um empréstimo e acabei não conseguindo pagar as parcelas corretamente. Não consegui o dinheiro no tempo certo e o banco acabou acumulando. – Expliquei, suspirando baixo e envergonhado.
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  – Posso perguntar o porquê do empréstimo?
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  Hesitei em responder, preocupado com a simplicidade que %Anya% conseguia fazer perguntas difíceis sem pesar o clima. E ainda mais preocupado com a facilidade que %Anya% parecia ter em conseguir coisas de mim.
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  Pensei novamente, avaliando as consequências de contar a verdade para %Anya% sobre a Universidade. Mas, pensando bem, ela queria tanto o bem de Nina quanto eu. Não haveria problema. Além disso, eu vinha tentando manter uma postura de honestidade com ela (pelo menos, tanto quanto a situação me permitia) e, convenhamos, isso ainda rendia um bônus: melhorava a minha imagem diante dela. Se eu fosse aberto, talvez ela deixasse de me ver como alguém desesperado por dinheiro por motivos banais.
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  – Eu pago a Universidade onde a Nina estuda e você sabe bem o quanto aquelas mensalidades são absurdas. Foi por isso que aceitei me colocar nessa confusão toda com vocês. Quer dizer, com você. – Fiz uma breve pausa, respirando fundo antes de continuar. – Quando minha mãe morreu, eu assumi tudo: o apartamento, a faculdade da Nina, as contas, o dia a dia. Tentei de verdade. Fiz horas extras, peguei trabalhos paralelos, vendi o que podia… mas nada era suficiente. Se eu não der um jeito de pagar a dívida com o banco, Nina vai descobrir que o dinheiro da casa está indo para a faculdade, e ela largaria tudo. Eu não posso permitir isso.
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  %Anya% ficou me olhando por um tempo, abrindo e fechando a boca como se estivesse tentando encontrar as palavras certas. Depois suspirou, estalou a língua e, sem aviso, me deu um soco no ombro, forte o bastante para me fazer recuar um passo.
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  – Ai! Por que fez isso? – Reclamei, esfregando o local atingido.
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  – Porque achei que você fosse dizer que estava endividado por causa de jogo e farra, que saco!
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  A expressão ultrajada dela me arrancou um riso genuíno, o primeiro do dia. E, por um instante, o peso nas minhas costas pareceu um pouco mais leve.
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  – Eu sou idiota, mas nem tanto. – Retruquei, ainda rindo, tentando massagear o ombro. – E, por favor, me dá um pouco de crédito. Jogo e farra? Eu mal saio de casa.
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  – Isso é o que todos dizem. – Ela rebateu, o cenho franzido, mas os lábios ameaçando um sorriso. – E ainda vem com esse discurso de mártir… “Ah, fiz tudo pela minha irmãzinha”.
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  – É a verdade. – Respondi, mais calmo. – Eu só não queria que ela tivesse que carregar o peso da minha burrice.
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  Por um momento, o silêncio entre nós se tornou quase palpável. %Anya% me observava como se estivesse avaliando cada palavra, cada gesto e talvez estivesse mesmo. Seus olhos perderam a ironia habitual e, por um instante breve, pareceram mais gentis, quase compreensivos.
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  – Você é um idiota... decente. – Disse ela, por fim, num tom baixo, sem a mesma acidez. – Um idiota decente.
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  Sem pensar muito, desviei o olhar, tentando esconder meu embaraço. Levantei-me e fui direto para a cozinha, na esperança de encontrar algum refúgio entre panelas e pratos. Mas ela veio atrás. Surgiu na porta poucos segundos depois, encostada no batente, observando em silêncio.
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  – Quer ajuda? – Ofereceu, com a voz mais suave.
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  – Não precisa. – Balancei a cabeça.
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  Ela não insistiu. Ficou ali, quieta, mas presente. A cozinha, que já era pequena por si só, parecia ainda mais apertada com ela por perto. E, ao mesmo tempo, estranhamente mais aconchegante.
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  – Posso jantar aqui? – Perguntou, quase tímida. Ergui os olhos em direção a ela.
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  – Achei que você já tivesse se convidado. – Disse, com um sorriso de canto. – Vou esperar a Nina para jantar, mas se quiser comer antes, fica à vontade.
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  – Hmm... posso esperar também? – Sorri, dessa vez mais abertamente. Havia algo encantador na maneira como ela pedia permissão para coisas tão simples.
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  – Você parece cansada. – Comentei, notando as olheiras e o semblante exausto dela. Me aproximei novamente e sentei ao seu lado no sofá novamente.
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  – Muito trabalho.
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  Meus olhos baixaram até seus pés. As tiras finas das sandálias pareciam pressionar demais a pele, que estava visivelmente inchada.
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  – Caramba, seus pés estão inchados. – Observei, sem pensar.
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  – Usei os saltos errados hoje.
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  – Saltos errados causam isso? – Perguntei, genuinamente surpreso.
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  – Eu tenho retenção de líquido, %Anthony%. Obrigada por trazer isso à tona!
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  Ela olhou para os próprios pés e, em seguida, para mim. O olhar mudou – de ofendida para irônica – e um sorriso preguiçoso surgiu em seus lábios. Então, com um simples movimento dos olhos, apontou para os pés como quem não dizia nada, mas queria tudo.
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  Revirei os olhos, soltando um suspiro exagerado, já entendendo perfeitamente o recado.
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  – Você está achando mesmo que vou massagear seus pés?
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  – Você que comentou que eles estão inchados... achei que fosse um comentário construtivo. – Retrucou, inocente, mas o brilho travesso nos olhos dela entregava tudo.
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  Puxei os seus pés para cima de minhas próprias pernas de maneira pouco delicada, mas ela não se importou, comemorou, batendo palminhas e se aconchegando no sofá.
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  – Massagens eu cobro à parte – Informei, tentando manter o tom leve enquanto começava a apertar seus pés com certo cuidado.
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  – Eu pago sem problema nenhum. – respondeu ela, com um sorriso preguiçoso e provocativo, como se soubesse exatamente o efeito que aquelas palavras teriam em mim.
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  Eu não sabia fazer massagem, então apenas fiquei deslizando de forma hesitante pelo calcanhar e mexendo nos dedos pequenos e gordinhos que mal cabiam na sandália. Ainda assim, a reação dela foi… inesperada. %Anya% reclinou o corpo no sofá e soltou um suspiro baixo, entrelaçado com um som quase imperceptível de alívio que me fez travar a mandíbula.
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  Ela fechou os olhos por um instante e, quando voltei a pressionar um ponto na lateral do pé, soltou um som abafado, quase um gemido. Um arrepio subiu pela minha espinha e eu fiquei completamente desconcertado.
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  – Anh… você trabalha com o quê, afinal? – Pigarreei, puxando assunto no desespero de fugir dos pensamentos pouco apropriados que começavam a se formar na minha cabeça.
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  – Eu sou contadora, %Ant%. Obrigada por se importar com isso só agora, depois de sei lá, uns quinze anos? – Disse, sarcástica, mas com um sorriso no canto da boca que não deixava espaço para ofensa.
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  Revirei os olhos, meio envergonhado. Não era como se eu tivesse obrigação de saber. Ela nunca foi exatamente acessível. A verdade é que aquela era provavelmente a primeira vez que trocávamos mais do que três frases seguidas. %Anya% sempre orbitou ao redor da minha vida por causa da Nina, mas sem nunca realmente fazer parte dela.
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  – Achei que você fosse formada em Economia.
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  – E sou. Mas a empresa precisa mais de uma contadora do que de uma economista
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  Só de ouvir "empresa da família", uma pontada incômoda me atravessou. E aí estava o motivo exato pelo qual eu nunca me aproximei. O velho ranço com herdeiros acomodados, o tal do caminho pavimentado sem esforço. Aquilo sempre me deu nos nervos.
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  – Deve ser conveniente. – Soltei, num tom que não consegui disfarçar completamente.
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  – Conveniente?
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  – Trabalhar na empresa da família. Aposto que nunca teve que mandar currículo ou suar numa entrevista maldosa.
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  – Ah, claro. Porque trabalhar com a família é sempre um mar de rosas, né? Todo mundo se ama, se respeita, ninguém tenta te sabotar... – Fiquei quieto. Ela tinha um ponto. – Posso ser privilegiada, mas sou bem competente, viu?
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  – Não foi isso que eu disse – Tentei argumentar, mesmo sabendo que talvez tivesse sido exatamente o que insinuei.
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  – Tudo bem. Se eu fosse você, provavelmente pensaria o mesmo. Ainda mais conhecendo o meio como a gente conhece. – %Anya% deu uma risadinha, como se já tivesse escutado aquela mesma ladainha mais de uma vez. – Ninguém sobrevive no mercado financeiro sendo medíocre, %Anthony%. Nem mesmo quem tem o sobrenome certo. Você sabe quantos incompetentes de berço de ouro ocupam cargos que não merecem? A diferença é que, quando uma mulher chega lá, todo mundo corre para achar um motivo que não seja competência.
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  Eu engoli em seco. Não sabia o que responder, e, por um momento, fiquei perdido nas palavras dela. Eu a olhava, mas o que ela disse reverberava em minha cabeça de uma maneira que eu não queria admitir. Ela estava certa.
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  Porque, no fundo, eu sabia que aquela cobrança tinha mais a ver comigo do que com ela. O quanto eu tinha lutado para chegar aonde estava, o quanto ainda lutava, e o quanto me incomodava ver pessoas menos preparadas subindo mais rápido, com mais facilidade. Era uma raiva silenciosa que eu carregava, como se o mundo estivesse sempre dando oportunidades para os outros, enquanto eu tinha que lutar a cada passo.
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  – Ah, eu faço ideia sim, você pode ter certeza. – Minha voz saiu baixa, mas carregada de sinceridade.
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  Meritocracia? Eu já não acreditava nessa falácia há muito tempo. A verdade era que quem não tinha as conexões certas estava sempre um passo atrás, não importa o quanto se esforçasse.
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  – Seu chefe é um desses caras, não é? – Abri a boca, mas antes que eu pudesse responder, ela continuou. – Ah, acho que nunca perguntei: o que você falou para ele depois daquele problema com a sua promoção?
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  Aquela pergunta caiu sobre mim como um peso.
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  – Nada. – Minha voz saiu quase num sussurro.
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  – Como assim? Você só... aceitou? – O tom de %Anya% estava mais suave agora.
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  – Eu tentei recusar, mas ele meio que me forçou a aceitar. – Passei a mão pelos cabelos, tentando dar alguma explicação que fizesse sentido. – Ele me colocou para resolver problemas acima do meu nível, então, no final, eu não tive muita escolha.
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  – Então, para o tio Davi, nós ainda somos um casal? – %Anya% arqueou as sobrancelhas, com uma leve provocação nos olhos.
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  Eu hesitei, o que já era um sinal claro de que estava me deixando levar pela conversa mais do que deveria. Mas, ao mesmo tempo, ela estava me fazendo pensar, questionar as coisas que eu estava apenas empurrando para baixo. Eu só não sabia até que ponto isso me afetava.
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  Não respondi imediatamente. Em vez disso, dei um aceno silencioso com a cabeça, o suficiente para que ela soubesse que, sim, ainda estava nesse jogo.
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  %Anya% ficou em silêncio por um momento, observando-me com atenção. Eu podia ver que ela estava refletindo sobre tudo o que eu acabara de dizer e percebi que ela realmente queria entender.
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  – Isso faz você ser uma pessoa ruim? – Perguntou, com uma sinceridade que me desconcertou completamente.
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  Não era provocação. Era pior: Genuína curiosidade. Como se ela tivesse vasculhado minhas noites insones e encontrado a dúvida que me corroía.
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  – Eu me faço essa pergunta todos os dias. – Respondi finalmente, com uma voz rouca, como se as palavras tivessem sido arrancadas de mim. Eu sentia a pressão subindo pela garganta, como se fosse impossível respirar. – E, às vezes, eu não tenho resposta.
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  O silêncio que se seguiu foi espesso, mas não hostil. %Anya% apenas me observou, como se estivesse tentando decifrar algo que eu mesmo não conseguia entender. A troca de olhares entre nós foi interrompida quando escutamos o barulho das chaves sendo jogada em alguma superfície e olhamos para trás, encontrando Nina nos encarando de forma perplexa.
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  O cômodo ficou em silêncio por um instante enquanto %Anya% e eu nos encaramos, nossos olhares rapidamente se voltando para Nina. Ela entrava na sala carregando uma bolsa em um braço, livros no outro, e uma expressão que dizia "não sei o que está acontecendo, mas definitivamente não estou preparada para isso."
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  – Oi, amiga! – %Anya% cumprimentou com um sorriso grande e animado, como se estivéssemos em uma reunião de amigas e não em uma cena extremamente desconfortável.
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  – Oi, irmã. – Segui o exemplo, tentando esconder a leve ansiedade, fazendo o possível para parecer natural.
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  Nina nos olhou de um jeito que só ela conseguiria, com aquele olhar de quem descobriu que o mundo realmente pode ser mais estranho do que ela imaginava.
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  – É, eu não vou me acostumar com isso. – Ela falou com um suspiro, se aproximando com uma expressão de quem estava prestes a presenciar o apocalipse.
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  – Estamos esperando você para jantar.
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  O olhar de Nina foi direto para os pés de %Anya%, onde minhas mãos ainda descansavam como se fosse algo perfeitamente normal. Eu precisei me conter para não rir. De todas as namoradas que já havia apresentado para Nina, %Anya% provavelmente era a mais inesperada.
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  – Está com fome? Eu fiz espaguete com molho de muçarela. – Perguntei. %Anya% afastou as pernas de mim e se levantou do sofá, indo até Nina. Ela esticou os braços, recebendo um abraço meio apreensiva.
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  – É só macarrão com queijo. – Eu não pude evitar um sorriso divertido apareceu no meu rosto quando ouvi o deboche de %Anya%.
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  Nina sentou-se à mesa com um suspiro, e %Anya% foi atrás, se acomodando ao meu lado. Enquanto eu servia o prato para a duas, Nina não parava de nos olhar, tentando compreender a estranheza daquela situação.
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  – É estranho ver vocês dois juntos, é um casal que eu nunca imaginei que fosse acontecer. – Nina disse, enquanto começava a mexer com a comida como se fosse a coisa mais interessante do mundo.
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  – Tipo, você e Andreas? – %Anya% perguntou, com uma provocação leve no tom.
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  Nina levantou a cabeça de forma rápida, fuzilando %Anya% com o olhar.
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  – Não me ataque para se defender, %Ananya%. Você está pegando o meu irmão!
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  – Engraçado, porque ele não parece estar reclamando. – %Anya% arqueou uma sobrancelha, o canto da boca curvando num sorriso debochado.
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  Nina arregalou os olhos, como se tivesse acabado de ouvir a coisa mais indevida do mundo, e puxou o prato da minha mão com tanta força que quase o derrubou.
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  – Chega! – Resmungou. Eu e %Anya% trocamos um olhar rápido, o tipo de olhar que dizia nós dois sabíamos que ela ia reagir assim. – Vamos só jantar, por favor – Nina continuou, tentando se concentrar na comida. – Não quero imaginar nada que envolva vocês dois.
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  E, claro, foi impossível conter o riso. Assim que ela deu a primeira garfada, %Anya% soltou uma risadinha e eu a acompanhei, porque a cena toda parecia saída de uma comédia doméstica. Nina bufou, e nós rimos ainda mais.
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  Durante o jantar, contamos novamente a história inventada sobre o início da relação, o que não passou de uma verdade mal contada. Falamos, principalmente, sobre as coincidências dos encontros as cegas e o encontro no Restaurante Baston.
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  Nina parecia prestes a iniciar uma nova rodada de perguntas. Eu já podia ver o brilho investigativo surgindo em seus olhos, mas %Anya%, com aquela destreza irritante e irresistível de sempre, foi mais rápida.
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  – Não foi mais ou menos assim com o Andreas também? – Perguntou, apoiando o cotovelo na mesa e exibindo um sorriso que era pura malícia.
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  O nome bastou para silenciar o ambiente. Nina piscou algumas vezes, avaliando se valia a pena entrar nessa discussão e, pelo jeito, concluiu que definitivamente não. Fingiu um sorrisinho e mudou de assunto.
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  Entre risos contidos, olhares desviados e comentários inocentes que escondiam muito mais do que diziam, o clima começou a se desfazer um pouco. O ar ainda estava carregado, mas havia uma trégua silenciosa ali, como se, de alguma forma, todos tivéssemos decidido dar uma folga uns aos outros.
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  Após o jantar, finalmente, eu me retirei para o meu quarto, ansioso para descansar e descarregar todo o estresse acumulado. Não demorou muito, no entanto, até Nina invadir minha paz, como se estivesse de plantão esperando o momento certo.
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  – A coisa mais estranha do meu ano foi chegar em casa e encontrar você e %Anya% de casalzinho no sofá. – Ela comentou, sem cerimônia, entrando no quarto e interrompendo meus pensamentos.
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  – Eu ia dormir, Nina. – Apontei para o cobertor que já estava sobre mim, como se isso fosse um argumento convincente para ela me deixar em paz.
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  – Parece que você foi enlaçado para valer, não é? – Nina cutucou meu ombro, com aquele olhar curioso e cínico. Eu levantei o olhar e a encontrei apoiada no queixo, me observando atentamente, como se eu fosse a peça central de um documentário sobre mistérios da vida.
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  – O que posso fazer? Como resistir a %Anya%? – Soltei a frase com um tom irônico, como se a situação fosse mais simples do que parecia. Mas no fundo, eu sabia que aquela era uma pergunta verídica e pertinente.
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  Era difícil dizer não àquela mulher.
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  – É estranho como eu nunca pensei em você e %Anya% juntos, mas agora, depois de ver vocês dois, não consigo mais imaginá-los separados. – Nina comentou, com um sorriso meio intrigado. "Minha pobre irmã, mal sabe que está falando sobre um casal inexistente", pensei, tentando manter a calma. – Você está nessa de verdade, %Ant%?
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  A pergunta veio carregada de curiosidade e a sensação de estar em um canto apertado aumentou.
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  Eu simplesmente odiava mentir, e mentir para Nina era ainda pior. Ela conhecia meu comportamento, sabia quando eu estava escondendo algo, e naquele momento, o peso da mentira me sufocava.
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  – Acho que sim, Nina. – Refleti por um instante, tentando organizar as palavras. – Não sei muito bem o que estou fazendo, estou apenas seguindo o fluxo. %Anya% é mais diferente do que eu pensei. Ela é... legal.
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  Era a verdade, pelo menos em parte. O pouco que tinha conhecido de %Anya% me fez perceber que ela não era exatamente a pessoa que eu imaginava. Mais do que isso, ela me surpreendeu de uma maneira que eu ainda não conseguia processar completamente.
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  – %Ant%, por que você não me contou? – A voz dela soou triste, quase como se estivesse ferida. – Nunca escondemos nada um do outro, e de repente, você começa a sair com minha melhor amiga e acha que está tudo bem não me contar?
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  Eu me senti como um idiota e o arrependimento bateu forte. Me sentei, pegando sua mão, meu coração apertado pela culpa de tê-la deixado triste.
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  – Eu sei, Nina. Me desculpa, de verdade. – Respirei fundo, tentando ser o mais sincero possível. – Mas, essa história toda com a %Anya% foi uma surpresa para mim. Eu não esperava, nem eu sei como tudo aconteceu. E, na real, eu nem sabia como te contar. Foi tudo muito rápido.
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  Havia mais que eu queria dizer, mais que eu estava tentando esconder. Mas eu sabia que, naquele momento, a única coisa que eu poderia fazer era tentar suavizar a situação e manter a paz. Eu me sentia como um malabarista, equilibrando as mentiras e os fatos enquanto tentava não deixar tudo cair.
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  – Então, afinal, vocês estão sérios sobre isso? – Nina perguntou, a curiosidade cintilando nos olhos. Era impossível não notar. E, claro, ela tinha toda a razão.
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  Eu também ficaria intrigado se estivesse no lugar dela. Eu e %Anya%, que mal trocávamos palavras, de repente estávamos… namorando.
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  Desde o meu último relacionamento – com Kiara – eu não havia me entregado a nada sério. Seis meses se passaram desde então. Talvez o maior intervalo da minha vida sem alguém ao meu lado. E, ainda assim, não sentia medo. Nunca senti.
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  Nunca tive receio de me apaixonar. Gosto, desejo e amor sempre pareceram naturais para mim, quase instintivos. Minha mãe costumava brincar, dizendo que eu era um “fã do amor”. Ela não estava totalmente errada. Apesar da aparência controlada, séria e ponderada que eu exibia na maior parte do tempo, havia um lado meu que se rendia facilmente aos sentimentos, que florescia sem esforço, que se deixava levar.
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  E isso não me incomodava. Nunca se tratou de dependência emocional; nunca fui do tipo que reprime desejos ou emoções. Eu acreditava que amar valia a pena. Não apenas pelo prazer ou pela companhia, mas porque havia algo essencial, quase vital, em se permitir sentir profundamente.
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  – Eu não sei, Nina. A gente vai tentar. – Escolhi minhas palavras com cuidado, mas sabia que, no fundo, não eram inteiramente verdadeiras.
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  – Bom… – Ela se levantou, soltando um suspiro que parecia carregar o peso daquela conversa. – Não sei como estão as coisas entre vocês, mas vou te dizer o mesmo que %Anya% me disse quando contei sobre o Andreas: não vou escolher lados. Você é meu irmão, mas ela é minha melhor amiga. – As palavras saíram calmas, ponderadas, e por um instante me peguei observando cada gesto, cada pausa calculada. Senti um alívio silencioso – Nina não tentava me empurrar para nenhum lado, nem me julgar. – Só… não se matem, tá?
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  – É difícil de acreditar, mas a gente até se entende. –
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  Com %Anya%, apesar de tudo, havia uma estranha sintonia que resistia ao caos. Algo que, contra todas as expectativas, simplesmente funcionava.
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  – Notei isso hoje, mas ainda me soa estranho. – Ela admitiu e a incredulidade em seus olhos era quase tangível. – Então… você vai mesmo para a ilha? Para o aniversário?
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  – Vou, sim. Por livre e espontânea pressão. – Um sorriso me escapou, breve e involuntário.
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  – Anos tentando te convencer a ir a um aniversário dela, sem sucesso. E agora… olha você, indo como… tipo, primeira-dama? – Nina soltou uma risada.
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  Aquela gargalhada me atingiu em cheio. Era a risada de nossa mãe, viva e leve, ecoando no presente como um fantasma familiar.
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  Eu sabia que estava longe de estar satisfeito com o rumo da minha vida, mas aquele sorriso... aquele sorriso bastava. Se mantê-lo ali significava continuar errando o caminho, que fosse. Eu seguiria assim mesmo. Sem calcular demais, sem olhar para trás.
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  N/A: Pois é, olha eu aqui de novo! 😅 Tô chegando com a minha segunda longfic, um projetinho que tá comigo desde 28 de dezembro de 2022. Só agora criei coragem de postar, mas já tá quase 80% pronta. Toda vez que abro o arquivo acabo mudando uma coisinha ou outra, mas no fim das contas a essência tá firme e forte
  EC tá vivíssima nos meus arquivos faz tempo e eu amo taaanto escrever, sempre que quero esquecer do mundo real, é para ela que eu corro
  Espero muito que vocês curtam e que me acompanhem mais essa vez! ✨

Capítulo 3
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