Capítulo 2 • %Anthony%
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Cheguei ao vigésimo arrependimento do dia. O primeiro? Ter colocado os pés fora da cama.
Sexta-feira de fim de mês. Para um grupo seleto do escritório, aquilo era quase um ritual sagrado e, por alguma ironia do destino, eu agora fazia parte da congregação.
O templo escolhido? Baston, um restaurante francês que se levava a sério demais, onde uma entrada custava mais que meu salário inteiro.
As más línguas diziam que o lugar era de um dos sócios anônimos da firma, o que explicava por que nossas extravagâncias eram magicamente debitadas em uma conta fantasma qualquer. Confesso: esse foi meu único consolo naquela noite. Saborear um prato que valia meu mês de trabalho, fingindo com cara séria que eu também pertencia àquela pequena máfia de ternos bem cortados.
Agora, o que foi arrependimento? Tudo o que vinha depois.
Quando entrei na empresa, cheio de gás e ingenuidade, eu sonhava em fazer parte da "panelinha". Aqueles advogados experientes, que riam entre si como se tivessem acabado de ganhar mais um processo ou mais um milhão. Eu achava que os jantares seriam uma espécie de clube secreto de mentes brilhantes, onde se discutiriam estratégias jurídicas revolucionárias, precedentes históricos, talvez até Shakespeare.
A realidade era um circo de dez homens entre os quarenta e sessenta anos — metade deles forçando a voz para soar mais grave, a outra metade forçando o córtex cerebral para disfarçar a demência precoce — empanturrando-se de foie gras enquanto disputavam quem contava a piada mais sexista ou o caso de assédio mais "engraçadinho". E eu ali, entre um gole e outro de uísque caro que nunca compararia com o próprio dinheiro, rindo por educação, me perguntando em que momento da minha vida eu achei que pertencer a isso seria um sinal de sucesso.
Depois de receber o convite pela primeira vez, faltar estava fora de questão. Recusar seria um verdadeiro "suicídio social". Eu nunca mais seria escolhido para os casos importantes e perderia a chance de construir conexões significativas. Assim, lá estava eu, aproveitando a comida e bebida gratuitas e, ao mesmo tempo, massageando meu próprio ego.
— Esse é um Armani 2018, minha mulher escolheu, mas eu não vejo problema em não usar grife, de verdade. — Victor comentou, segurando a taça com a mesma pose afetada de um crítico de vinhos em crise de identidade. Era um dos homens mais desagradáveis do escritório e responsável por metade das piadas maldosas envolvendo meu nome. — Você não precisa se sentir mal por isso.
— Não me sinto. — Respondi, virando o copo de uísque com vontade. Pedi o mais caro da casa, o tipo de bebida que eu só tomaria de graça e queimei a garganta como se fosse minha forma silenciosa de protesto.
Usei jeans preto e um blazer azul marinho porque era funcional. Tinha passado o dia resolvendo pepinos de última hora, entrando e saindo de salas como se o escritório fosse um tabuleiro de War. A última coisa que eu queria era um terno de modelagem duvidosa esmagando minha dignidade junto com o resto da anatomia. Se isso me colocava um degrau abaixo de Victor Armani 2018, ótimo.
Estava em uma reunião com um colega quando, por volta das seis da tarde, fomos liberados. Diferente da maioria dos meus colegas de andar, recebi mais uma convocação para o Baston. A quinta vez. Já não era mais surpresa, era praticamente uma maldição recorrente.
Minhas suspeitas eram claras: ou me odeiam e se divertem me diminuindo, ou me amam... e também se divertem me diminuindo. Ambas as opções me desagradavam em igual medida. Sabia que terminaria a noite com um gosto amargo na boca e a garganta ardendo de tanto engolir piadas atravessadas, palavras entaladas e vontade de mandar todo mundo ir à merda.
Desde que saí da faculdade, dei sorte — ou azar, dependendo do ponto de vista — em conseguir bons lugares para trabalhar. O escritório jurídico
Wolf, Davies & Martinez é um deles. Trabalhar na área tributária nunca foi meu sonho, mas pelo salário que eles pagam, eu faria até faxina no local com esmero. E, como todo emprego que paga bem demais para ser verdade, aquele lugar era um verdadeiro inferno travestido de prestígio.
Meu chefe direto era Davi Martinez, um dos advogados mais ricos do país. Ganhou notoriedade (e milhões) defendendo o Estado num escândalo de sonegação fiscal que envolvia regularização territorial. Cínico, impiedoso, sempre com aquele sorriso de canto de boca que só aparece em gente que nunca teve que parcelar um boleto.
As primeiras piadas me envolvendo partiram dele, e seus funcionários, ainda que tão lascados quanto eu, seguiram o exemplo como bons cordeiros tentando provar que são lobos. Nem na época do colégio sofri tanto bullying e assédio moral quanto no meu ambiente de trabalho atual. A diferença é que, naquela época, pelo menos os valentões não usavam terno da Hugo Boss.
— Diga-me, %Campelli%. Você é casado? — A pergunta do Lopez caiu na mesa como um pedaço de carne crua.
A mesma. Toda. Maldita. Semana.
— Não, Lopez — Respondi, rodando o copo de uísque entre os dedos. — Por quê? Está interessado?
Funcionou. As risadas explodiram como sempre. Naquela mesa, piadas homofóbicas eram como moeda corrente: todo mundo usava, ninguém questionava o valor.
— Você sempre sozinho... — Lopez continuou, esfregando as mãos como se estivesse prestes a anunciar um veredito. — Vão começar a pensar que você, como posso dizer... aprecia a companhia masculina.
O coro de gargalhadas foi tão previsível quanto patético. Respirei fundo, sentindo o gosto metálico da raiva na língua. Não era a dúvida sobre minha sexualidade que me envenenava. Era a forma como eles usavam isso como arma.
Quase soltei um "sim" só para vê-los engasgar. Quase lancei um "você nunca sabe" com tom de desafio. Mas minha vida já era um jogo de xadrez onde eu movia peças sob mira. Então apenas balancei a cabeça e ri, o som mais vazio que já saiu da minha garganta.
— Você não precisa saber de tudo na minha vida, colega. — Falei, levando o copo de uísque até a boca, tentando engolir todas as palavras que eu realmente queria gritar.
— Resposta típica de quem está no armário! — Lopez berrou, triunfante.
Alguém bateu na mesa. Outros imitaram. Um circo de macacos de terno.
- E você, Lopez? Tem tanta familiaridade com o armário assim? Que obsessão é essa? — Retribuí o desafio, e logo a pequena faísca virou alvo da mesa inteira, até do Martinez, meu chefe, que parecia sempre esperar o momento exato para que eu mostrasse o meu pior lado.
— Por que você não vai até o bar e traz umas doses para gente? — Lopez disparou, claramente controlando a raiva. E pelo tom, ficou claro que aquilo não era um pedido, era uma ordem disfarçada.
— Como quiser, patrão. — Respondi, sarcástico, e me levantei da mesa, dando-lhe uma piscadela, não só por provocação, mas porque já estava cansado daquela merda toda.
Caminhei até o bar, o movimento já um pouco turvo pela mistura de raiva e álcool. O uísque começava a perder o sabor, mas eu continuava bebendo sem fazer careta, sinal de que estava na hora de parar. O que fiz, então? Pedi mais um drinque.
— Um Bourbon para mesa nove... e sete doses de tequila. — Pedi ao barman, sentindo que estava indo longe demais. Mas quer saber? Se era para afundar, que fosse com classe.
A paciência já tinha me deixado fazia tempo. Eu só queria esquecer que aquela noite existia. E se fosse para beber, que fosse na conta deles. Eu merecia isso. Só isso.
— Uísque e tequila juntos? Quer um atestado de óbito de presente? — A voz ao lado me pegou desprevenido.
Virei devagar e encontrei %Ananya% sentada no balcão, com um mojito pela metade e um iPad equilibrado no colo. A visão dela me fez rir por dentro. De todas as pessoas que eu esperava encontrar ali, ela definitivamente não estava na lista.
— Sexta-feira, %Anya%. Você sabe como é... — Respondi, me aproximando.
— Segunda vez em menos de vinte e quatro horas, %Anthony%? Vou começar a achar que você está planejando esses encontros “acidentais”. — Fez as aspas no ar com os dedos, sem tirar os olhos da tela, mas a provocação estava ali, viva, clara.
— Droga, você me descobriu.
A noite anterior tinha sido uma surpresa daquelas. Eu conhecia %Ananya% há anos. Ela era a melhor amiga da minha irmã desde a escola, mas bastou um jantar para destruir boa parte das ideias que eu fazia dela.
Descobri uma mulher calma, modesta, divertida. Muito diferente da imagem meio distante que eu tinha.
— Isso aí que você pediu parece suicídio. — Comentou, dando uma olhadela para os pedidos que o barman começava a preparar.
— E você? Pensei que não bebia. — Apontei com o queixo para o copo dela.
— Não bebo mesmo. Mas o Billy aqui faz um mojito sem álcool melhor do que muito bar por aí, não é, Billy? — Ela sorriu para o barman, que apenas balançou a cabeça, como quem estivesse acostumado com aquele charme todo.
Ela voltou os olhos para mim. E eu, pela primeira vez naquela noite, me senti fora daquele inferno. O caos do jantar, os comentários idiotas, o peso de sempre... tudo pareceu ficar em silêncio por alguns segundos.
%Anya% — ou %Ananya%, quando precisava assinar documentos ou intimidar desafetos — era o tipo de pessoa que fazia o "desleixo elegante" parecer uma arte. Seus cabelos castanhos viviam em permanente estado de rebeldia, nem lisos nem cacheados, mas num meio-termo que sugeria ou um estilo deliberado ou uma rendição filosófica aos fios. Quase nunca usava maquiagem, exceto um batom borrado que desaparecia após o primeiro café.
Mas havia um detalhe crucial: %Anya% não precisava se esforçar.
De estatura média, mas dona de uma postura ereta e confiante, passava a impressão de ser mais imponente do que realmente era. Ela carregava uma espécie de elegância natural, que muitas vezes me dava motivo para implicar, mas raramente soava esnobe ou forçada. Só quando o mundo exigia — jantares beneficentes, festas de embaixador, aquelas ocasiões em que o sobrenome "%Bhasin%" precisava brilhar — que ela surgia em seus vestidos caríssimos e sapatos de marca, maquiagem forte e presença estonteante.
E ela sempre foi assim, desde a época da escola. Mesmo com algumas espinhas no rosto e aquele jeito ainda meio infantil de quem não tinha pressa de crescer, havia algo nela que destoava. Uma maturidade silenciosa, uma presença que chamava atenção sem esforço. Era o tipo de pessoa que, mesmo quieta, fazia a sala inteira notar sua existência.
Ignorar %Anya% era impossível. E resistir ao encanto dela era quase impensável. Eu sei disso porque já fui um dos que tropeçaram nessa armadilha. Fácil, sem nem perceber.
— Cadê sua sombra? — Perguntei, escorando-me no balcão ao lado dela. — Minha irmã não está acoplada em você? — Provoquei, vendo-a revirar os olhos com um sorrisinho.
— Infelizmente, não. Vim direto do trabalho e parei aqui para beber algo e revisar umas coisas. — Apontou o iPad e, em seguida, se virando de vez para mim. — E você?
— Estou com o pessoal do trabalho. — Não consegui disfarçar a careta e ela riu da minha indiscrição.
— Eles são tão divertidos assim? — Ironizou.
— Bom, estou aqui há apenas uma hora e, desde então, já fui chamado de homossexual, carente, indigente e, aparentemente, ser solteiro também é um defeito. — Seus cabelos caíram do coque baixo com a movimentação e eu sorri com a visão.
Quando %Anya% estava com os cabelos soltos, ela voltava a ser a garota que eu sempre via passar no corredor da escola com Nina e a imagem era nostálgica para mim.
— Você descreveu todos os ambientes corporativos existentes. Quer saber? Você merece essa tequila. — Apontou quando o barman deixou o copinho com um prato de limão e sal em sua frente. — Eu pago!
— %Ananya% %Bhasin%, senhoras e senhores! Achei que você nunca ofereceria. — Comemorei, pegando o copo e virando em minha boca, sem utilizar o limão ou o sal. — Eu acho que mereço uma para cada xingamento e humilhação que já passei hoje.
— É tão ruim assim? — Perguntou, solidária com o meu infortúnio.
— Se eu disser que não, estarei mentindo. — Fui sincero.
Naquele instante, eu assinaria minha demissão com tinta do próprio sangue. Mas quando a fúria baixava e eu encarava a realidade nua e crua, uma verdade dolorosa surgia: aquele inferno de egos e sarcasmo era, ironicamente, o solo mais fértil para minha carreira.
O trabalho não tinha nada da poesia que eu imaginara na faculdade, eram horas engolindo sapos em reuniões e noites dissecando cláusulas escondidas em contratos que ninguém lia. Alguns dias eu me via parado no metrô, questionando cada escolha que me trouxera até ali.
— Onde você trabalha, afinal?
— No escritório da Wolf, Davies e...
— Martinez! — Completou, me interrompendo. — Davi Martinez é seu chefe? Aquele troglodita é meu tio!
Gelei por completo. Eu estava prestes a incitar muito ódio diretamente para um familiar do homem?
Um suspiro escapou dos meus lábios antes que eu pudesse conter quando %Anya% explicou que ele era seu “tio” por conveniência social. Nem sangue nem afeto.
— Eu já estava aqui, imaginando como faria para fingir que ele é o melhor patrão do mundo à sua frente, mas agora estou tranquilo.
— Pode ficar tranquilo, não precisa fingir. Eu o conheço bem demais para saber o quão desagradável ele pode ser. Na última vez que nos vimos, ele teve a brilhante ideia de me perguntar se eu usava "burca porque já era impura”.
— Devo acrescentar “racista” à lista de adjetivos que tenho para descrevê-lo? — Questionei seriamente, mas ela pareceu achar engraçado.
— Com certeza. Ele está vindo para cá, disfarça. — Ela interrompeu a própria fala e pigarreou, bebericando seu copo. Me recompus, alterando minha postura também, como se não estivesse sentindo a dose de tequila cintilando em cada ponto do meu corpo.
— %Anya%! — Ouvi a voz de trovão do idiota ressoar por trás de mim.
— Titio! — Ela exclamou de maneira afetada e eu agradeci por estar de costas para o homem, assim ele não me viu revirar os olhos teatralmente. Mas %Anya% viu e chutou meu pé ao descer do banco para ir cumprimentar Davi.
— O que está fazendo aqui sozinha? — Ele desviou o olhar e me encarou, confuso.
— Não estou sozinha, veja só.
— Ah. Que ótimo. Se conhecem?
— Sim, a bastante tempo, devo frisar. — Ela explicou e eu sorri de boca fechada, segurando-me para não rir ou fazer algo que entregasse o teor alcoólico pós tequila pura.
— Ah, isso explica! Se eu não conhecesse bem o %Campelli% aqui, até ficaria preocupado.
É claro que eu não passaria intacto. O veneno na voz dele era nítido, até mesmo para %Anya%, que costumava estar alheia às provocações diárias que eu enfrentava. Ela ergueu uma sobrancelha, surpresa, e me lançou um olhar rápido. Desviei, um pouco envergonhado.
Ser humilhado na frente de gente que eu mal conhecia era uma coisa. Mas diante de alguém como a %Anya%, que me conhecia desde sempre, aquilo se tornava muito mais difícil de engolir. As piadas e risadas que eu normalmente deixava passar ganhavam outro peso quando partilhadas com alguém que fazia parte da minha história.
— Não entendi. — Ela pontuou e eu engoli em seco.
Ótimo, abriu uma brecha para o homem destilar ainda mais veneno em mim.
— %Anthony% é meio que nossa mascote na empresa. Não representa ameaça alguma. Como poderia, não é mesmo? — Riu maldosamente.
Arfei, desacreditado. Ele simplesmente não tinha decoro algum.
— %Anthony% realmente não oferece mal algum. Foi por isso que eu o escolhi.. — Emitiu com a voz tão firme, intensa e intransigente que eu imediatamente lembrei que %Anya% era rica. Esse tom de voz eu só encontrei em pessoas ricas. — Você não contou? — %Anya% virou-se para mim, que franzi o cenho, confuso com o que ela queria de mim no momento.
— Anh, não. — Murmurei, totalmente incerto.
— Por que não? O problema, tio, é que eu não sei se %Anthony% me leva a sério. — Ela se aproximou, abraçando-me pela cintura e eu travei completamente ao perceber quais eram suas intenções.
— Não sabia que você estava namorando, %Anya%.
— A verdade é que estou à espera de um pedido, tio, se é que me entende. — Deu uma piscada, sorrindo dramática. Ótimo, além de inventar uma história maluca, ela ainda me descreveu como um imbecil. — Titio, você pode nos dar licença por uns segundos? — Pediu com uma classe e elegância inigualáveis.
— É-é claro Vou deixar vocês dois pombinhos conversarem. %Anthony%, você quer que eu leve isso? — Apontou para o balde com vinho e uísque preparado pelo garçom e que eu deveria levar para a mesa.
De repente, Davi Martinez tornou-se gentil. Sem esperar pela resposta, ele pegou a bandeja e se dirigiu de volta à nossa mesa. Fiquei totalmente descrente do que acabara de acontecer.
— Você enlouqueceu? — Murmurei para ela, virando de costas para as pessoas de minha mesa, que agora encaravam a situação após ver o chefe chegar com uma bandeja.
— Ele é petulante e cínico, e ainda te tratou mal. — Explicou, cruzando os braços, parecendo irritada.
— Ele sempre me trata assim.
Claramente a mulher era sua própria chefe e não sabia como lidar com os desafios do proletariado.
- %Anya%... Eu não permito, eu sobrevivo. Ele é meu chefe. Paga minhas contas. Eu não tenho muitas opções. Ótimo, já era. Ele vai me demitir, me ferrar. Nunca mais vou pegar um caso na vida.
— Relaxa. É bem possível que você seja promovido.
— Eu conheço homens como ele. Cresci cercada deles. Davi não valoriza competência, valoriza imagem. Agora que acha que você está comigo, isso te torna útil. Ele pode ser tóxico, mas sabe fazer política. Vai querer você por perto. Meu pai sempre diz: “Eu não inventei o jogo, só aprendi a jogar.” E, sinceramente, eu sou ótima jogadora.
Como nos desenhos animados, uma lâmpada se acendeu em minha mente. %Anya% estava absolutamente certa. O ego do homem jamais deixaria passar a oportunidade de ter um de seus funcionários supostamente relacionados a uma pessoa de família abastada.
— Obrigado por me defender, de verdade... Mas, sinceramente, não vale a pena. Eu sei lidar com ele. Não é grande coisa. Tá... não sei se você acabou com minha carreira ou salvou minha vida, mas... — Refleti, assustado. — Valeu, %Anya%. Eu acho...
— Vou ao banheiro enquanto você decide se me agradece ou me mata.
Informei que voltaria para a mesa e ela disse que passaria lá para se despedir. Caminhei de volta ao meu lugar, tentando evitar olhar para Davi. No entanto, meu olhar encontrou o dele por um instante e a surpresa no seu rosto era clara. Ele ficou em silêncio, mas a tensão era palpável.
Tentei desviar o olhar rapidamente, mas o peso de sua presença me fazia sentir como se estivesse sendo examinado de perto. Enchi o copo com mais uísque, na tentativa de aliviar a ansiedade, embora soubesse que não resolveria nada. O que aquilo significava? Ele estava irritado? Preocupado? Ou apenas em busca de algo para me desestabilizar?
A conversa à mesa continuava, mas eu não conseguia focar em nada além de Davi, que não tirava os olhos de mim. O que isso significava? Que ele iria me matar? Ou me demitir por supostamente estar comendo a sobrinha dele?
— Sim, os restaurantes estão cada vez mais distantes do centro...
— É, isso se dá pela população que...
— A quanto tempo você e %Ananya% estão juntos? — A voz de Davi cortou o fluxo da conversa, interrompendo até os sons de talheres batendo.
Todos na mesa se calaram instantaneamente, virando-se para nos observar. Onze pares de olhos estavam fixos em mim e o peso da pergunta ecoou de maneira constrangedora. Eu me senti congelado por um momento, o coração batendo forte no peito. Eu não sabia o que responder e meu silêncio só fez a situação mais desconfortável.
— %Campelli%. — Ele insistiu, a voz mais firme, como se pressionando para obter uma resposta. — Há quanto tempo você e minha sobrinha estão juntos e por que eu só soube disso agora?
— Nós nos conhecemos há um tempo, senhor. Estudamos juntos. — Pigarreei, olhando ao redor e vendo todos observando Davi com uma curiosidade que beirava a inveja, talvez até desconfiança.
— Estudaram juntos? — Davi riu, claramente cético, e recostou-se na cadeira. — Você estudou no Guardins? — A pergunta foi carregada de desdém.
O Guardins era uma escola de elite, conhecida pelas mensalidades altas e pelos alunos de famílias ricas.
Martinez assentiu pensativamente, os dedos tamborilando no braço da cadeira. Cada batida ecoava como um tique-taque de bomba relógio. Não expliquei que minha vaga no Guardins veio com o suor da minha mãe, que enquanto esses herdeiros brincavam de polo, ela esfregava os mármores da mansão do diretor. Que eu estudava com livros usados enquanto ela lavava a roupa íntima dessas mesmas pessoas que agora me olhavam com um misto de curiosidade e desdém.
O homem de cabelos castanhos — cujo nome eu me recusava a aprender — soltou um risinho que me fez ver vermelho por um segundo.
— Ah, então a princesa está se divertindo com plebeu. Que fofa. — Zombou.
Senti meu sangue ferver, mas mantive os punhos fechados sob a mesa e encarei o homem, que eu nem sabia o nome.
— Você não respondeu à pergunta — Martinez insistiu, colocando as mãos sobre a mesa e se inclinando para frente. — A quanto tempo?
— Qu... Cinco meses — Gaguejei, os números saindo aleatórios como dados jogados. Que pesadelo!
O silêncio que se seguiu foi tão espesso que ouvi o gelo derretendo nos copos. Todos os olhos se voltaram para Martinez, conhecido por demitir funcionários como quem descarta guardanapos usados.
Então, como um trovão, ele gargalhou.
—
%Anthony% %Campelli%! Quem diria! Pegou a herdeira %Bhasin% no laço! Você é mais esperto do que eu pensava! — Ele riu, bebericando o seu copo, e eu sorri de forma tensa.
Tentei manter a compostura, respondendo educadamente às perguntas e aceitando os tapinhas nas costas, mas a cada momento me sentia mais desconfortável. Quando Carlos, um cara alto e musculoso, se inclinou para mais perto de mim e deu um tapinha nas minhas costas, meu estômago se revirou.
— Então, você está namorando a garota de ouro, hein? — Ele perguntou com um tom de escárnio.
— É, acho que estou... — Respondi, forçando um sorriso, tentando controlar a raiva.
— Sorte a sua! Ouvi dizer que ela vale
uma fortuna... — Comentou, tomando um gole do copo e eu franzi a testa, incrédulo com o que acabara de ouvir.
Como alguém poderia ser tão desprezível?
Logo em seguida, o som dos saltos de %Anya% ecoou no ambiente, batendo contra o chão com uma leveza, mas ao mesmo tempo com uma força que parecia querer chamar a atenção. Levantei os olhos e a vi se aproximando, elegantemente, com um vestido preto simples, que terminava um pouco abaixo dos joelhos.
Contive um sorriso enquanto meus olhos desciam, involuntariamente, para suas pernas. %Anya% tinha um caso de amor com saias que beirava o obsessivo.
Longas até o tornozelo, curtas o suficiente para fazer os padres da cidade rezarem por sua alma. Plissadas. Retas. Calças jeans? Shorts? Essas eram raridades arqueológicas. Se eu fechasse os olhos agora, conseguiria contar nos dedos todas as vezes que a vi vestindo algo que não fosse aquelas malditas saias que me deixavam igualmente fascinado e irritado.
Minha boca secou enquanto eu me lembrava, quase à força, do meu papel naquela farsa. Desviei o olhar por um instante, tentando recuperar o controle, e foi o suficiente para vê-la se aproximando da nossa mesa.
Todos os olhos se voltaram para ela; as conversas masculinas se dissolveram no ar, substituídas por olhares de admiração. Eu, no entanto, senti algo mais complexo: uma mistura incômoda de irritação e fascínio.
— Vejo você em casa depois? — Perguntou, assim que me levantei.
Havia um convite silencioso em seus olhos, um sinal claro de que queria que eu entrasse no jogo. Mas a maneira como ela se aproximou me paralisou. Preso àquela proximidade, tudo que consegui foi acenar com a cabeça, devagar, tentando disfarçar o efeito devastador que ela causava em mim.
Ela sorriu com a minha resposta, satisfeita, ainda assim, havia um brilho malicioso em seus olhos. Antes que eu pudesse reagir, inclinou-se mais, puxou-me pelo braço e selou a cena com um beijo rápido, estalado. Eu não precisava olhar em volta para saber: todos estavam observando.
— Titio, sempre um prazer revê-lo. Espero vê-lo no meu aniversário. Boa noite, rapazes. Juízo! — Ela disse, se afastando com um sorriso.
Ela deixou o ambiente com uma naturalidade imbatível, como se o mundo ao redor fosse apenas um cenário sob seu controle absoluto. E, sendo honesto, se ela quisesse algo de mim, eu provavelmente daria sem hesitar.
Todos na mesa a acompanharam com os olhos. Esforcei-me para sorrir, sem ter certeza de como deveria reagir. Levei o copo aos lábios, tentando encontrar calma no próximo gole, mas sabia, no fundo, que nada do que eu dissesse ou fizesse ali seria suficiente para mudar a forma como eles me viam.
Foi então que a voz de Davi cortou a mesa, baixa e afiada. Até aquele momento ele observava em silêncio, com o sorriso contido de quem usa cordialidade como disfarce. Senti o ar gelar e por horas carreguei o desconforto daquela frase.
— Ora, ora... parece que alguém aqui ganhou na loteria e esqueceu de avisar o resto da turma.
— Ժ —
Com a feição intrigada, tamborilei os dedos na mesa, tentando entender o que diabos estava acontecendo naquele recinto.
Desde que coloquei os pés no escritório naquela segunda-feira, tudo parecia… fora do lugar. Primeiro, minha mesa. Estava limpa. Limpa demais. Nada de pilhas de documentos, nada de recados rabiscados ou pastas amontoadas esperando despacho.
Olhei ao redor. As baias vizinhas estavam do jeito de sempre: abarrotadas, bagunçadas, com aquela aparência caótica que fazia parte do nosso cotidiano. Franzi o cenho, desconfiado. O que estavam tentando me dizer com aquilo?
Na tentativa de afastar pensamentos pessimistas — como, por exemplo, uma possível demissão disfarçada de gentileza —, decidi que um café cairia bem antes de encarar o que quer que estivesse por vir. Caminhei até a copa com passos contidos, esperando o silêncio costumeiro ou, no máximo, um murmúrio abafado. Mas assim que entrei, fui surpreendido.
Cinco pessoas estavam ali. E, para meu total espanto, todas me cumprimentaram.
Aquelas mesmas figuras que, durante meses, mal levantavam os olhos quando eu passava, agora me ofereciam sorrisos cordiais e acenos. Um deles até me chamou de “%Anthony%”. Nunca me chamavam pelo nome.
A caneca em minha mão quase escorregou. Algo definitivamente estava errado.
Antes que eu conseguisse responder, Victor — meu colega obcecado por grife — entrou na saleta e, com a autoridade de sempre, mandou todo mundo sair. Surpreendentemente, obedeceram. Levantei uma sobrancelha, dividido entre rir e ficar irritado. O tom autoritário, o peito inflado, tudo nele me dava nos nervos.
— Victor, sempre gentil. — Ergui a xícara num brinde sarcástico.
— Corta essa, %Campelli%. Você conseguiu me surpreender.
Inclinei a cabeça, avaliando-o.
— Do que diabos você está falando, babaca? — Franzi a testa, misturando irritação e confusão. Victor revirou os olhos e avançou um passo, as mãos cerradas em punho.
— Se envolver com a sobrinha do chefe foi baixo até para você.
A ficha começou a cair. As pessoas me tratavam diferente por causa desse romance de fachada com a %Anya%?
— Nem todo mundo é tão ganancioso quanto você, Victor. — Rebati, sentindo a irritação crescer.
— Então me conta: toda essa paixonite pela sobrinha do Martinez não tem nada a ver com o sobrenome dela? — Ele sorriu com ar melífluo.
— Até semana passada eu nem sabia que eles se conheciam. E, para ser justo, não são parentes.
— Não sei se você é um azarado esperto ou um burro sortudo. — Ele suspirou, passando a mão pelo rosto, e apontou para o bolso como se aquilo explicasse tudo.
— Se você só veio me xingar, eu volto para minha mesa. — Resmunguei, impaciente.
— Tá, tá… como conheceu ela? — Insistiu.
— Por que esse interrogatório?
— Ela é amiga da minha irmã. Nos conhecemos na escola. Sem mistério.
Então ele agiu: o celular apareceu como arma, tela virada para mim,
00:03:22 piscando em vermelho. Estava gravando.
— Martinez mandou verificar seu conto de fadas. — Parou a gravação com um clique escarninho. — Eu, honestamente, estou cagando.
O café amargou na garganta.
— Que babaca. — Murmurei, esfregando as têmporas. Era cedo demais para lidar com esse tipo de insanidade. — Você devia ser ator.
— Meus pais não deixaram. — Deu de ombros.
Pela primeira vez, Victor pareceu… humano. A resposta soou sincera, e por um instante, me lembrei que ele era, no fim das contas, apenas outro funcionário preso naquele circo corporativo.
— Se eu fosse você, inventava uma desculpa e ia logo falar com ele. O gordo está se roendo para te chamar. — Concluiu, meio conselho, meio provocação.
— Eu só não entendo o que ele ganha com isso. Por que esse interesse todo no relacionamento de um funcionário qualquer?
— Sua namorada é uma %Bhasin%, %Campelli%. — Victor respondeu como se estivesse explicando algo óbvio demais. — Ele me disse com essas palavras. Martinez é viciado em dinheiro. Se vê uma oportunidade de se infiltrar no meio de gente rica, ele se joga sem pensar duas vezes. Não importa como, com quem, nem o quanto vai manipular no processo.
Fiquei em silêncio por um segundo, absorvendo aquilo. E então veio a pancada. Aquela verdade suja que escancara tudo. O motivo dos olhares tortos, dos sorrisos falsos, do tratamento repentinamente cordial.
— E arriscar meu emprego por isso? — Ele balançou a cabeça, como quem se diverte com a ingenuidade alheia. — Acorda, %Campelli%. Todo mundo aqui dança conforme o Martinez assovia. Até você.
Não consegui rebater. A pior parte era admitir que ele tinha razão. Martinez nos controlava sem que a gente percebesse, com medo, com promessas, com chantagens veladas. Victor virou-se para sair, mas hesitou ao alcançar a porta. Deu meia-volta, como se tivesse lembrado de algo importante. Seus olhos brilharam com aquela malícia irritante que ele nunca fazia questão de esconder.
— Sabe, %Campelli%? Quando eu disse que você era um sortudo burro, eu não estava brincando. Mas acho que você merece os parabéns, você conseguiu.
— Consegui o quê, Victor? — Suspirei, cansado, sabendo que o que viria a seguir seria uma atrocidade ou uma grande surpresa.
— Ah, vamos lá. Primeiro: a mulher é gata. Eu vi. Com os dois olhos e um pouco de inveja. Segundo: rica. Pesquisei o sobrenome dela e, meu amigo, aquilo ali é um PIB de um país pequeno. E terceiro... — Sorriu como quem vai soltar a cereja do bolo. — ...ela é sobrinha do chefe. Quer dizer, tecnicamente não é, mas isso não importa. Você realizou o sonho fetichista de todos os caras daqui! Ele não tem filhas mulheres, mas saber que um de nós conseguiu comer a sobrinha já o suficiente.
Eu abri a boca para responder, mas nada — nem minha voz, nem um pensamento coerente — veio em seguida. A percepção me atingiu como uma tonelada de tijolos e senti uma mistura de descrença e raiva. Victor deu um tapinha no meu ombro, um sorriso malicioso no rosto.
Eu queria dar um soco nele, mas sabia que não valia a pena.
Com isso, ele saiu da cozinha, me deixando sozinho com o zumbido incômodo dos meus próprios pensamentos. Encostei na parede, tentando controlar a respiração e organizar o turbilhão que se formava dentro de mim. A ideia de que uma simples brincadeira fora do ambiente de trabalho, numa sexta-feira despretensiosa, pudesse ter se transformado numa bola de neve corporativa era quase absurda. E, no entanto, lá estava eu, vivendo exatamente isso.
Lavei a xícara de café com movimentos automáticos, ainda processando tudo o que Victor havia dito. Voltei para minha mesa como quem anda no piloto automático. Tentei me forçar a focar nos despachos que estavam acumulados, como se a rotina pudesse me oferecer algum tipo de alívio ou controle.
Entretanto não consegui me concentrar por mais de cinco minutos seguidos.
Depois da sexta-feira caótica no Baston e da manhã tensa naquele escritório, eu esperava que o pior já tivesse passado. Talvez, no fundo, quisesse acreditar que tudo voltaria ao normal com o tempo. Mas foi ali, naquela tarde aparentemente comum, que percebi o quanto tinha subestimado o impacto de %Ananya% %Bhasin% na minha vida.
No final do expediente, quando a maioria dos colegas já começava a recolher suas coisas, ouvi meu nome ecoar no corredor. Chamado direto à sala de Davi Martinez.
Não seria honesto dizer que não fiquei nervoso. Fiquei. Meu estômago revirou. Meu coração acelerou. Eu nunca tinha entrado naquela sala. Nunca tive qualquer contato direto com o chefão, além de um aceno vago ou uma instrução breve nos corredores.
Até a última sexta, Davi Martinez mal sabia meu nome. Agora, de repente, ele queria falar comigo. E eu sabia que, quando Martinez queria falar com alguém, não era por acaso. Era porque ele já sabia exatamente o que queria tirar da conversa.
Enquanto eu atravessava o escritório, caminhando até a sala de Martinez como se caminhasse com uma pilha de pedras nos ombros, senti os olhos dos meus colegas de trabalho em mim. Alguns me olhavam com admiração, outros com inveja, mas todos pareciam curiosos sobre o que aconteceria no escritório de Martinez.
Tentei não deixar que seus olhares me alcançassem, focando no caminho à frente e me preparando mentalmente para o que quer que me esperasse.
Finalmente, cheguei à pesada porta de carvalho que levava ao escritório de Martinez. Hesitei por um momento, respirei fundo e bati na porta, fazendo o som ecoar pelo escritório.
— Senhor? Mandou me chamar?
— %Anthony%. — Ele nunca antes tinha me chamado assim. — Fecha a porta.
— Algo errado? — Perguntei, controlando a respiração.
Ele me observou dos pés à cabeça, como se estivesse avaliando um animal em leilão. Seu olhar era quase predatório.
— Pelo contrário. Não sei se notou, mas apreciei bastante o seu relacionamento com minha sobrinha. —
“Jura, velho? Acho que ninguém percebeu”, pensei, contendo o sarcasmo. — Sou amigo da família %Bhasin% há anos e, mesmo não sendo de sangue, considero-me parte da família. — “
Sanguessuga.” — Agora que você sabe da minha ligação com os %Bhasin%, precisamos conversar sobre negócios.
Respirei fundo. Estava pronto para recusar o que quer que fosse. Não queria me envolver com nada vindo de Davi Martinez. Mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele abriu uma pasta sobre a mesa e começou a tirar uns papéis.
O nome "Adit" brilhou em letras douradas no documento.
“Proposta de Fusão — WDM Corp & %Bhasin% Group”. Meu estômago deu um giro. Inclinei-me para dar uma olhada. Pareciam contratos, ou algum tipo de proposta... ou talvez os dois.
— Senhor, sabe que eu não tenho qualquer influência sobre os %Bhasin%, certo? — Falei, com cautela, tentando não soar provocativo.
Eu mal conhecia aquela família. Eu mal conhecia %Anya%!
— %Anthony%, tsc, tsc... — Levantou-se com ares teatrais e deu a volta na mesa imponente e se aproximou de mim. — Você ainda é um menino no mundo dos negócios, garoto. — Tentei argumentar, mas ele me cortou com um gesto. — Vou te contar uma história breve. Kapur %Bhasin% é um velho amigo meu. Quase um irmão. Mas é um tolo quando se trata de dinheiro. Perdeu tudo por causa de uma americana e agora vive como um pobre coitado no centro de Mumbai. Mas o irmão dele, Adit... ah, esse sim é um homem impressionante...
Kapur. Era o pai da Kiara. A minha
verdadeira namorada %Bhasin%. Ou ex, sei lá. Naquele momento, essa era a menor das preocupações.
Continuei ouvindo, surpreso com o quanto Martinez sabia sobre aquela família. Ele falava com tanta propriedade que parecia íntimo da árvore genealógica dos %Bhasin%. Não consegui evitar a pergunta silenciosa que surgiu na minha cabeça: será que ele sabia também que meu relacionamento com %Anya% era uma mentira?
Talvez, se Kiara ainda usasse o sobrenome da família, esse jogo teria começado antes. Mas não era dela que Davi queria se aproximar. Nem de %Anya%. O que ele cobiçava ia além do sobrenome. Ele queria Adit %Bhasin%.
— Adit é o presidente atual da %Bhasin% Company. O único daquela família que nunca caiu nos meus encantos. Ele me odeia. — Foi ali que tudo fez sentido. — %Anthony% %Campelli%, tenho uma proposta para você.
Eu podia ter dito não. Podia ter me levantado, mandado ele se ferrar e saído com o pouco de dignidade que ainda me restava. Mas não fiz nada disso.
Eu tinha contas. E não eram simples. Eram buracos cada vez mais fundos, que nenhuma rescisão contratual seria capaz de cobrir. Dívidas que envolviam minha irmã, minha mãe... Coisas que não se resolviam com princípios. Então me calei.
Travei a mandíbula, empurrei qualquer resquício de moralidade para o canto mais escuro de mim mesmo e encarei Martinez, fingindo uma indiferença que eu não sentia. Em seguida, largou a caneta com um estalo seco e me encarou.
— Sabe por que eu te chamei aqui, %Campelli%?
— Imagino que tenha a ver com minha vida pessoal, já que virou pauta por aqui.
— "Vida pessoal". — Ele soltou uma risada curta, debochada. — Engraçado ouvir isso de alguém que tratou a minha empresa como se fosse a sua conta bancária pessoal.
— Eu não faço ideia do que o senhor está falando.
— Tsc, tsc... — Ele se levantou devagar. Sua sombra caiu sobre mim como uma ameaça silenciosa. — Vamos ao que interessa. Você me dá acesso aos %Bhasin%… — apontou para um documento sobre a mesa, onde lia-se claramente
Vice-Presidente Sênior — …e eu esqueço que você desviou duzentos e oitenta e sete mil reais da empresa.
O tempo parou. O tique-taque do relógio na parede bateu como martelo dentro da minha cabeça.
Ele ligou o laptop e, segundos depois, minha própria voz preencheu a sala:
“Usa o fundo de reserva, depois eu resolvo.” Era a gravação do dia em que Nina quase perdeu a bolsa. Eu tinha feito o que precisava. O que achei que ninguém descobriria.
— Dois crimes. — Disse, contando nos dedos, como quem explica algo a uma criança. — Apropriação indébita e fraude contábil.
Virou o monitor em minha direção. Um e-mail meu para o contador. Depois, uma planilha com movimentações suspeitas. Números alterados. Datas incoerentes. E então, uma pasta com e-mails impressos.
— Você pediu para adulterar os registros. Por e-mail. — Abriu a última gaveta e puxou um pen-drive prateado. — E aqui dentro... está tudo. Relatórios originais. Gravações. Até uma ligação com o financeiro. — Jogou o pen-drive sobre a mesa. Ele deslizou lentamente até parar bem à minha frente. — Você usou verba da empresa para pagar a faculdade da sua irmã. Para impedir o despejo da sua mãe. Coração generoso, %Campelli%. Pena que isso ainda é crime.
Meus olhos correram do contrato para o pen-drive. E então, finalmente, para o rosto dele.
— Que você convença sua namoradinha a abrir caminho. Fazer com que ela fale com o titio. Me entregue documentos, cláusulas, contratos... qualquer coisa que possa desgastar o velho Adit. Com o material certo, eu compro. Ou destruo.
Trinquei os dentes. Permaneci em silêncio. Martinez se aproximou mais um passo e deu dois tapinhas no meu rosto, como se estivesse acariciando um cachorro obediente. Peguei o pen-drive com a mão trêmula. Ele não desviou o olhar, sorria com a calma de quem já havia vencido.
— Feche a porta quando sair.
E eu fechei. Com a alma mais pesada do que qualquer contrato já assinado.
— Ժ —
Saí da sala de Davi Martinez com a cabeça girando. Era como se ele tivesse despejado uma tonelada de informações diretamente no meu cérebro, à força, sem qualquer cuidado com os estragos. Eu andava no automático, sem realmente enxergar o caminho até minha mesa. Sentei na cadeira como quem desaba. Ainda sentia o peso daquele pen-drive no bolso, como se ele tivesse o poder de me afundar ou me salvar, dependendo do próximo passo.
Baixei os olhos para o celular na minha mão, e antes que pudesse pensar duas vezes, abri o aplicativo de mapas. Meus dedos se moveram sozinhos.
Fiquei olhando para o trajeto traçado no visor, como se ele fosse me responder alguma coisa. Como se, de algum jeito, o GPS pudesse me dar um rumo moral também.
Não demorei a chegar ao prédio comercial da %Bhasin%. Ele ficava próximo de onde eu trabalhava e o trajeto podia ser feito em vinte minutos ou menos. O céu já estava escuro, o expediente havia terminado e havia grandes chances de eu estar ali à toa. Ainda assim, me lembrava de Nina comentar que %Anya% costumava sair tarde do trabalho. Resolvi arriscar.
Entrei no imponente edifício e segui direto para o andar dela. O local estava quase vazio, a maioria dos funcionários já havia ido embora. Caminhei até a recepção e informei que procurava por %Ananya% %Bhasin%. O atendente fez uma ligação breve e, para meu alívio, liberou minha entrada.
Poucos segundos depois, cheguei ao último andar do prédio luxuoso e ao sair do elevador, deparei-me com um único rapaz sentado atrás de uma mesa simples. Ele parecia jovem — talvez um estagiário — e seu crachá dourado deixava claro seu cargo: "secretário".
— Olá, boa noite — Cumprimentou, mas sua expressão cansada sugeria que eu era a última pessoa que ele queria atender naquela noite, ainda que não fizesse ideia de quem eu era. — Posso ajudar?
— Boa noite. Sou %Anthony% %Campelli%. A %Ananya% ainda está aí?
— O senhor tinha horário marcado? — Perguntou, abrindo a agenda sobre a mesa.
— Não. Sou apenas um amigo. Ela está?
Sabia que sim. O porteiro não teria me liberado se ela já tivesse ido embora. E, de onde eu estava, conseguia ver a luz vazando pela fresta da porta. Nela, a placa dourada exibia seu nome completo, seguido do título em letras discretas:
Diretora Financeira.
— Vou verificar. Um segundo. — O rapaz suspirou, levantando-se como se carregasse cinco pedras nos bolsos. Ele bateu à porta com leveza e, após um breve diálogo que não consegui ouvir, voltou e assentiu com um gesto preguiçoso. — O senhor pode entrar.
Agradeci rapidamente e me aproximei da sala, desviando o olhar dos quadros elegantes que decoravam o corredor.
O escritório de %Anya% era amplo, moderno e sofisticado. Uma parede inteira de vidro revelava a cidade iluminada lá fora. À esquerda, uma estante embutida abrigava livros organizados, uma pequena televisão e alguns objetos decorativos. A mesa de trabalho era normal, com duas cadeiras à frente. Um sofá branco e uma mesinha de apoio completavam o ambiente.
— Oi, %Ant%. — Ela sorriu ao me ver, levantando-se da cadeira e vindo em minha direção.
Deus sabe o quanto eu tentei não encarar suas pernas. Juro que tentei. Mas ela usava uma saia lápis escura e uma blusa com alças finas que deixava os ombros à mostra e insinuava mais do que mostrava. A própria definição de uma mulher poderosa — e completamente fora do meu alcance — em um ambiente corporativo.
E, claro, ela percebeu o exato momento em que meus olhos desceram por seu corpo. Seu sorriso teve um canto ligeiramente erguido. Sutil o suficiente para me fazer questionar se não era coisa da minha cabeça.
— Oi, %Anya%. Desculpa aparecer assim, sem avisar. Eu só… vim.
— Está tudo bem? — Perguntou, com um cuidado que me desmontou um pouco. — Você nunca veio aqui antes.
— Aconteceu uma coisa... — Caminhei até o sofá branco. Sentei devagar, tentando parecer relaxado, mas por dentro, meu coração ainda batia no ritmo descompassado da última conversa. — Fui promovido.
— Uau… que... que legal, %Anthony% — Respondeu com um sorriso hesitante, forçado. Tentava soar empolgada, mas seus olhos já buscavam a segunda camada do que eu estava prestes a dizer. — Parabéns?
— Vou te dar um tempinho para juntar as peças — Murmurei, afrouxando a gravata e recostando no sofá. Observei o rosto dela se transformar: da confusão à desconfiança... até chegar no choque.
— Não. — %Anya% balançou a cabeça, como se rejeitasse a ideia antes mesmo de digeri-la. — Não pode ser.
— Davi? — Ela deu um passo à frente, a voz mais tensa, como se já soubesse a resposta. — Por favor, me diz que isso não tem a ver comigo.
— Infelizmente… tem tudo a ver com você.
Ela soltou uma risada nervosa, seca. Depois se calou, como se estivesse tentando absorver o que acabara de ouvir.
— Eu não acredito. — Disse, num tom mais baixo, quase para si mesma.
O gosto amargo da conversa que tive mais cedo ainda pesava na minha garganta. Eu não sabia se era indignação, vergonha ou algo entre os dois. Talvez um pouco dos dois.
Quando entrei naquela sala, não fazia ideia de que sairia de lá tão indignado. Davi Martinez não só passou por cima de qualquer senso de ética, ele pisoteou. Disse absurdos que jamais poderiam ser repetidos, especialmente para %Anya%.
A cereja do bolo? A sugestão dele de que eu a engravidasse.
Engravidasse. Como se ela fosse uma jogada estratégica em uma partida suja de xadrez corporativo.
E, ainda assim, a parte que mais me corroía era o fato de que ele achou que eu aceitaria. Como se fosse natural. Como se fosse fácil. Como se ele soubesse que, no fundo, eu poderia ser comparado. O mais humilhante?
Ele não estava completamente errado.
%Anya% se afastou, balançando a cabeça. Levantou-se da mesa e começou a andar de um lado para o outro, os saltos ecoando no piso impecável. Passou uma das mãos pelos cabelos, os dedos tensos, inquietos.
— Martinez está obcecado. E não é por você. Nem por mim. É pelo seu pai. Ele quer entrar na %Bhasin% a qualquer custo.
O tio de %Anya% não era conhecido por jogar limpo e sua nova oferta não fugia à regra. Não era segredo que ele vinha tentando se infiltrar nas empresas dos %Bhasin% há tempos, buscando uma brecha para posicionar-se estrategicamente em uma das divisões mais influentes. E agora, com minha suposta proximidade com %Anya%, o homem viu a oportunidade perfeita e mais fácil de inserir-se no setor jurídico por meio da diretora de finanças.
“Eu já tenho um plano, só quero uma chance, sei que com um simples caso lá dentro, consigo me instaurar lá dentro como uma praga”, me recordei das palavras frias do homem.
— Tudo. Documentos, acesso, brechas legais. Mas, mais do que isso… ele quer você. Não no sentido pessoal — Apressei-me a explicar, para evitar mal-entendidos —, mas como porta de entrada. Ele sabe que o Adit confia em você. E que, em tese, você confia no seu “namorado”.
Ela franziu o cenho, piscando devagar, como se começasse a montar o quebra-cabeça.
— Você está me dizendo que ele quer que eu entregue informações? Usando você como isca? — Não respondi. Apenas a encarei. E o silêncio entre nós falou mais do que qualquer palavra. — Ele te ameaçou? É por isso que você está aqui?
Inclinei levemente a cabeça, desviando o olhar.
— Davi Martinez nunca pede. Ele impõe. — Ela assentiu devagar, os olhos ainda cravados em mim. Estava desconfiada, tentando decifrar o que eu dizia e, mais ainda, o que eu não dizia. — Ele quer coisas específicas... Cópias de contratos. Cláusulas confidenciais. Acha que, com a documentação certa, pode derrubar o Adit... ou comprá-lo.
— Isso é crime, %Anthony%.
— Eu sei. Mas o Davi não liga para legalidade. Ele só quer resultado.
O silêncio caiu de novo. A cidade, lá fora, visível através da parede de vidro, parecia distante, alheia.
— Por que você está me contando isso?
A verdade que não disse: Porque o pen-drive com as provas queima meu bolso como um carvão em brasa. Porque preciso que você me odeie o suficiente para ficar longe, mas não tanto para me denunciar.
— Porque eu preciso que você esteja atenta. Que se proteja. E que entenda que... se alguém aparecer querendo esse tipo de informação, não vai ser coincidência.
— E o que você vai fazer?
Gostaria de ter a resposta. Mas, por enquanto, só tinha dúvidas.
— Ainda estou tentando descobrir.
%Anya% assentiu devagar. E, mesmo sem confiar completamente, ela entendeu. Porque %Anya% era inteligente. E, acima de tudo, corajosa.
— Não acredito nisso. Não acredito que ele está tentando usar você assim. É tão covarde, tão baixo. — A voz de %Anya% estava cheia de raiva, seus olhos queimando enquanto ela olhava para mim. — Não consigo acreditar, é um absurdo! É ridículo! — Indignou-se, balançando a cabeça.
— Ele disse que sabia que a %Bhasin% já não era apenas uma montadora há tempos. E que não entendia por que nunca conseguiu se tornar sócio — Contei, tentando manter o tom neutro. Mas meu sangue ainda fervia só de lembrar.
Repassei a %Anya%, com exatidão, cada palavra que Martinez dissera. Não omiti nada... ou quase nada. Usei os mesmos termos que ele, as mesmas expressões. Se antes ele já tinha poucas chances de conseguir alguma parceria com os %Bhasin%, agora eu havia enterrado de vez qualquer possibilidade.
— É claro que ele nunca conseguiu! O imbecil é um asno quando se trata de finanças. E, além disso, é sujo. Se é que você me entende. — Ela passou a mão pelos cabelos, balançando a cabeça, como se lutasse para entender como aquilo tinha escalado tão rápido.
— O trabalho dele é uma farsa. Não é segredo para ninguém. Ele passa a perna em investidores, mente nos relatórios, manipula os números. A %Bhasin% teria mais prejuízos do que lucros se se envolvesse com um cara desses.
Ela parou por um segundo, respirando fundo.
— Bom… tirando o fato de que a promoção que eu sonhei por anos surgiu por conta de uma mentira... — Ironizei, antes de me dar conta do que havia deixado escapar.
A expressão dela mudou. Da indignação para um misto de culpa e decepção. %Anya% abaixou os olhos, e por um segundo, tudo que ela carregava explodiu em silêncio. Me xinguei mentalmente. A culpa não era dela. Nenhuma parte disso era.
— Me desculpa, %Ant%. De verdade. Eu nunca imaginei que… — Ela começou a dizer, atropelando as próprias palavras. Mas eu a interrompi também.
— Você não tem culpa, %Anya%. — A voz saiu mais firme do que eu esperava. — Você só tentou me ajudar. E deu certo, no fim das contas. Consegui a promoção. E o respeito do meu chefe.
— Tenho certeza de que você merecia a promoção, apesar dessa maluquice do tio Davi. — Tentou me reconfortar, tocando meu ombro que, mesmo de forma leve, deixou minha pele em alerta, mesmo por debaixo da camisa e do paletó.
— Eu espero que sim, %Anya% — Murmurei, pesaroso. — Pensei seriamente em pedir demissão hoje… mas eu tenho contas para pagar.
O olhar dela se tornou um espelho incômodo: cheio de decepção, raiva, frustração. Tudo junto. Ela estava genuinamente abalada por tudo aquilo, talvez até mais por mim do que pelo próprio Martinez. E isso só tornava tudo ainda mais difícil de engolir. Eu me odiava por ter me envolvido com aquilo, por ter permitido que ele me usasse. Por, de alguma forma, ter deixado que isso nos envolvesse.
Meus pensamentos foram interrompidos por batidas na porta.
%Anya% se levantou e eu a acompanhei com o olhar. Não por malícia — eu não era um pervertido —, mas porque ela era linda. Linda de verdade. E havia algo nela que tornava impossível não olhar. A forma como ela caminhava, confiante, como se soubesse exatamente quem era. Aquela saia justa... deixava seu corpo num formato quase irreal.
Eu podia jurar que a curva da sua bunda parecia um coração perfeitamente desenhado.
— Senhorita, seu jantar chegou. Devo...? — O rapazinho disse, hesitante. Me preparei para levantar, imaginando que aquele era meu sinal para ir embora, mas ela se virou antes que eu dissesse qualquer coisa.
— Ainda não, mas eu já estava indo para casa.
— Aqui tem mais do que o suficiente para nós dois, %Anthony% — Pegou a sacola das mãos do estagiário. — Me ajuda aqui? — Me apressei para tirar o peso das mãos dela, pegando as sacolas. — Obrigada, Pat.
— É… na verdade, eu queria saber se… — Começou ele, parecendo meio nervoso. Mas %Anya% logo o cortou, rindo.
— Ah, o seu encontro! Me desculpa, você devia ter me avisado. Pode ir, Pat. Está liberado, não se preocupe.
— Obrigado, senhorita. E… não é um encontro. — Retrucou, envergonhado. O que só arrancou mais risadas dela.
— Claro que não. — Piscou provocante para o rapaz antes de fechar a porta.
Se ela piscasse assim para mim… bom, seria meu fim. Eu, fraco como era para mulheres como %Anya%, passaria dias lembrando daquela piscada.
— Tem certeza de que não estou atrapalhando? — Perguntei, ainda meio sem jeito. — Você deve ter trabalho a fazer.
— Eu te coloquei numa confusão, %Ant%. O mínimo que posso fazer é te oferecer um jantar. Você gosta de yakissoba?
Assenti, já ajudando a tirar os potes plásticos da sacola.
— De qualquer forma, se você ainda está aqui a essa hora, deve ter uma pilha de coisas para resolver.
— Eu sempre tenho. — Respondeu com um meio sorriso, dando de ombros. — Por que está de óculos?
— Esqueci minhas lentes — Devolvi o gesto, também encolhendo os ombros. Achei curioso ela ter notado um detalhe tão pequeno.
Ela ligou a TV num jornal qualquer, apenas para ter um som de fundo e seguimos arrumando as coisas juntos. Conversamos mais um pouco sobre Martinez, sobre meu trabalho. A mesa de centro ficou lotada. Era comida demais para uma pessoa só e o cheiro do yakissoba era simplesmente irresistível. Pensei no arroz requentado me esperando em casa e decidi que, dessa vez, eu não fingiria educação.
Eu nunca tive intimidade com %Ananya%. Desde os tempos de escola, éramos pouco mais que conhecidos. Se alguém me dissesse que um dia eu estaria sentado no chão do escritório dela, numa segunda-feira à noite, compartilhando um jantar improvisado — e delicioso —, eu pediria data, hora e localização. Não porque duvidasse. Mas porque, sinceramente, não iria querer perder isso por nada.
— E ele é seu estagiário à…?
— Dois anos — Respondeu, deixando os hashis dentro da embalagem vazia. — Ele é ótimo. Estou preocupada agora com o contrato dele chegando ao fim. Você é advogado, me diz: o que acontece se eu mantiver ele aqui por mais alguns anos?
— Se após a formatura dele, ele não receber bonificações, salários e um contrato específico para área dele, você vai ser processada.
— Não posso só pagar uma multa e seguir com ele? — Ela fez um biquinho, distraída.
Foi a primeira vez naquela noite em que senti, de verdade, vontade de beijá-la.
— Pelo menos você tem a Nina. Ela com certeza te visitaria na prisão. — %Anya% riu e eu a acompanhei. Olhei para a parede de vidro ao nosso lado, onde nuvens carregadas tomavam o céu. Se eu forçasse a visão, podia ver as primeiras gotas de chuva começando a cair. — Tem algo no seu rosto… acho que é molho.
Ela corou levemente, pegando um guardanapo. Mas antes que pudesse usá-lo, me aproximei e peguei de sua mão. Com cuidado, limpei o canto de seu queixo. Ela permaneceu imóvel, me deixando fazer aquilo. Por um segundo, nossos olhos se encontraram e o tempo pareceu parar.
Minha mão ainda repousava em seu rosto, um segundo além do necessário, quando ela quebrou o silêncio com uma pergunta inesperada: — Você é um bom advogado?
— A-acho que depende da área. Sinceramente, acho que seria melhor se tivesse mais chances de… trabalhar de verdade. Ultimamente só faço relatórios e despachos. Nada meu, sempre dos outros advogados. Me sinto mais estagiário que advogado. — Hesitei, então soltei com um sorrisinho: — Acho que fiz um mau negócio em recusar a proposta do Martinez.
— Não! Você não está à venda, %Ant%. Nós não estamos. — Apontou o dedo para mim, firme. — Você é bom em direito corporativo?
— Oh, não! Vai me obrigar a dar consultoria de graça, não é? — Brinquei, fingindo exaustão.
Ela riu e se levantou, indo até a mesa. Voltou com uma pasta nas mãos e um sorriso travesso no rosto.
— Era nisso que eu ia trabalhar agora. Mas está lotado de palavras difíceis e “juridiquês” que me dão sono. E veja só que sorte: tem um advogado sentado no chão do meu escritório… e o melhor, ele parece cheio de boa vontade.
— A dívida entre nós só aumenta.
Não percebi o quanto aquela frase podia soar dúbia — ousada até — até sentir o silêncio que se formou logo depois. O clima mudou. Pesou. Quando a olhei por cima da lente dos óculos, ela já me encarava, séria… ou talvez só concentrada. Eu não sabia ler direito o que via ali. Só sabia que estava ficando difícil desviar o olhar.
Um trovão forte nos assustou, fazendo com que ambos virássemos para a janela ao mesmo tempo, vendo a chuva desabar lá fora.
— Contanto que a gente consiga se ajudar...
Fraco para mulheres. Fraco para ela. Assenti, abrindo a pasta no colo, folheando lentamente as páginas. Qualquer desculpa para não a encarar mais.
Voltamos a nos sentar no sofá. Apesar de espaçoso e confortável, ele tinha apenas dois lugares, o que fez com que nossos corpos ficassem inevitavelmente próximos. Senti o ombro de %Anya% encostar no meu. Um toque leve, quase nada, mas ainda assim, parecia que o atrito entre nossas peles gerava faíscas.
Ela usava uma blusa sem mangas, e eu, embora já tivesse tirado o paletó, ainda vestia uma camisa social grossa demais para que pudesse sentir verdadeiramente sua pele. Mas só a ideia de estarmos encostados já fazia minha respiração oscilar um pouco.
Ouvi o barulho do controle da TV em suas mãos, depois o som dos dedos deslizando pela tela do celular. Ela parecia distraída, dividida entre os aparelhos. Eu, por outro lado, não conseguia me dividir nem por um segundo. O caso em minhas mãos exigia atenção e de fato era interessante, uma causa praticamente ganha para a companhia de energia que a %Bhasin% havia contratado.
Mas por mais que tentasse focar nas cláusulas, nos argumentos, na jurisprudência possível, havia algo muito mais difícil de ignorar do que um erro processual ou um parecer mal escrito: %Anya%. Sentada ao meu lado, com aquele calor sutil irradiando de sua pele, com aquele perfume leve que parecia se misturar ao som da chuva do lado de fora, ela parecia uma distração calculada e inevitável.
— Posso comer sua tortinha? A minha já acabou. — Ela me perguntou com um sorriso travesso, e eu, sem hesitar, assenti, pegando a tortinha de chocolate da mesa e entregando a ela. Ela a pegou, parecendo satisfeita. — E então?
— Você precisa de um advogado. — Sugeri, tentando manter o tom sério.
— Acho que preciso. — Ela respondeu, me olhando com um brilho nos olhos que fez minha garganta apertar um pouco. Aquela olhada parecia proposital e o jeito como ela falou fez com que eu me sentisse à beira de um jogo. Mas, antes que pudesse me perder mais, ela continuou. — Pode continuar.
— É sério, mulher. Vocês precisam de um advogado. Com mais um pouco de provas contratuais, a companhia ganha a causa. — Dei uma risada, quase aliviado, mas ainda preocupado com a gravidade da situação.
— Me fale de números, %Anthony%. Quanto eu vou gastar com isso? — Ela perguntou, voltando à sua postura pragmática e firme, como se a conversa fosse algo totalmente normal.
Isso me fez sorrir, não pude evitar. O pessoal de exatas tem essa característica, não é? Tudo é mais objetivo.
— Exatamente eu não sei, mas deve envolver algo acima de cinco dígitos, com certeza. — Falei, tentando ser o mais realista possível.
— Entendi. Amanhã vou contatar o advogado daqui. O que devo falar? — Ela perguntou, e naquele momento, virou-se completamente para mim, com o corpo voltado na minha direção. Ela mordia a torta de morango de maneira simples, que não devia ser tão provocadora, não devia ser tão convidativa. Mas era.
— Bom, inicialmente, a companhia vai se negar a fazer muita coisa sem um mandado judicial. Eles irão recorrer ao sigilo contratual, então vocês devem ir preparados para isso. Existem juízes que podem autorizar alguns planos por meio de editais, mas… — Eu ia continuar, quando percebi o sorriso leve de %Anya% se transformando em uma risada contida. — O que foi? — Perguntei, surpreso com a mudança de expressão dela.
— Acabei de lembrar de você na época da escola. Parecia um menininho, todo sério, e agora você se tornou um advogado de verdade. Que coisa, não é? — Ela disse, a risada ainda na voz, fazendo com que eu me visse tentado a rir junto.
— Eu também lembro de você na escola, %Anya%. Não somos de anos tão diferentes, não. — Falei, sem conseguir evitar o sorriso. Mas, ao dizer isso, um sentimento estranho se formou no meu peito. Nostalgia, sim, mas também um certo espanto. Não pude deixar de me perguntar como é que eu, %Anthony%, um simples ex-colega de escola, estava ali, sentado ao lado de %Ananya% %Bhasin%. — Na verdade, você é mais velha que eu, não é? — Questionei, como se de repente, a verdade estivesse saindo sem querer.
— Apenas um ou dois anos, %Anthony%! — Ela rebateu, com o tom de voz exasperado e, ao mesmo tempo, divertido. — Os anos me conservaram bem, é claro.
Com um movimento quase teatral, ela jogou o cabelo para trás, como uma verdadeira princesa. Aquilo foi o suficiente para fazer com que eu caísse em uma risada. Eu não era um cara de muitos sorrisos e risadas, eu sempre parecia mais sério do que gostaria, mas %Anya% me deixava leve e confortável o suficiente, ocasionando assim alguns sorrisos despretensiosos em mim.
— Os anos te ajudaram, %Anya%. — Comentei, rindo da atitude presunçosa dela. %Anya% sabia exatamente o efeito que causava em mim e não fazia questão alguma de esconder isso. — Sabe, lembro distintamente de você ser a garota nerd e reservada da escola. Ainda tem um rosto de menina, seus cabelos cresceram pouca coisa... mas mesmo assim, você está mais bonita do que nunca. — Deixei meus olhos correrem por seu rosto sem nenhuma tentativa de disfarce.
As bochechas dela coraram levemente, mas seus olhos ganharam um brilho travesso que me fez perceber que alguma resposta já se formava na sua mente. Ela se inclinou para frente com uma suavidade quase ensaiada, apoiando o queixo na mão e me lançando um olhar que misturava provocação e leveza.
— Oh, por favor. Você faz parecer que eu era uma completa nerd reclusa. Está dizendo que continuo igualzinha a dez anos atrás? — O sorriso nos lábios dela deixava claro que ela entendeu meu ponto, mas preferia rebater com desdém fingido. — E você? Era o quê? O bad boy sempre metido em confusão?
— O que você chama de "bad boy", eu chamo de "mal compreendido". — Me recostei no sofá com um ar de falsa modéstia. — Nina sempre diz que você é a pessoa mais tímida que ela conhece. E que você sempre foi uma criança quieta. Mas eu nunca te vi assim. Pelo contrário, desde os seus quinze anos, sempre achei você segura demais para uma adolescente. Parecia que já sabia quem era.
Tentei puxar da memória uma imagem da %Anya% adolescente, mas não consegui. Era como se a versão atual dela dominasse completamente meu pensamento, sufocando qualquer lembrança do passado. A presença dela agora era intensa demais. O passado se desfazia diante dela.
— E você não sabia? — Ela ergueu a mão devagar e, com o dedo indicador, empurrou meus óculos de volta para o lugar, no alto do meu nariz. O gesto parecia casual, ou talvez nem tanto. Mas o efeito foi imediato.
— Com quinze anos? Ninguém sabe, %Anya%. — Tentei manter a compostura, mas o toque sutil me pegou desprevenido. — Você sempre soube o que queria. E, sinceramente? Acho que até hoje a gente só finge que sabe quem é. No fundo, está todo mundo só interpretando um adulto, enquanto por dentro continua aquele adolescente de quinze anos tentando entender leis tributárias e o mercado financeiro.
— Eu sempre achei você seguro de si. Até convencido demais, para idade que tinha. — Ela disse, com uma expressão que misturava lembrança e provocação.
— Tudo fachada. Não para impressionar colegas ou namoradinhas. Mas pela minha mãe. Pela Nina. Elas precisavam de alguém forte e eu tentei ser isso. — Quando meus olhos se abriram de novo, percebi o quanto estávamos próximos naquele sofá. — Eu era só um moleque tentando entender quem era. Você, por outro lado… sempre pareceu ter tudo sob controle.
— Nem tudo foi exatamente planejado. — Ela desviou os olhos por um momento e suas bochechas coraram de novo. Foi rápido, mas eu vi. Pela primeira vez, um resquício de timidez escapou. — Eu, definitivamente, não planejei estar compartilhando o jantar com você, %Anthony%.
Um sorriso puxou os cantos dos meus lábios ao perceber uma pitada de vulnerabilidade em suas palavras. Havia algo desarmado ali, quase imperceptível, e não pude evitar me perguntar se ela também estava sentindo o mesmo puxão estranho que eu sentia. Era uma sensação leve, mas insistente, como se uma tensão silenciosa pairasse entre nós, aguardando para ser reconhecida.
— A vida nos leva a lugares inesperados, não é? — Notei que ela levou as mãos ao cabelo, tentando prendê-lo, provavelmente. Mas os segundos passavam... e uma das mãos continuava lá. — Tudo certo aí? — Perguntei, tentando não rir ao ver a expressão concentrada dela.
— Na verdade, não. Minha pulseira ficou presa no cabelo. — Ela resmungou, claramente irritada com a situação.
Ofereci ajuda... e no segundo seguinte, me arrependi.
Ela virou de costas devagar, inclinando levemente a cabeça para o lado para me dar acesso ao cabelo preso. A pulseira, de correntes finas e delicadas, tinha se enrolado em uma mecha. Era um emaranhado pequeno, mas exigia cuidado. Aproximei meu rosto sem perceber, os dedos se movendo devagar, tentando desfazer o nó metálico entre os fios.
A pele da nuca dela estava à mostra, morna, e o cheiro do seu perfume era discreto, mas presente. Algo entre flores e conforto. Me concentrei na tarefa, ou tentei. O problema era que meu coração parecia bater alto demais, como se pudesse denunciar que algo dentro de mim estava mudando.
— Você está tenso. — A voz dela veio baixa, quase como uma constatação divertida.
— Estou tentando não arrancar um pedaço do seu cabelo, %Anya%. — Respondi no mesmo tom, tentando disfarçar o quanto minha proximidade com ela estava me afetando. — É uma tarefa perigosa.
— Claro. Perigosíssima. — Ela sorriu de leve, sem virar o rosto, mas eu vi o canto dos lábios se levantar.
Continuei concentrado, até que, com um movimento cuidadoso, consegui soltar a pulseira. Meus dedos tocaram levemente a pele da nuca dela por um segundo a mais do que o necessário. Ela percebeu. Eu também.
— Está cheio de grampo aqui. — Murmurei enquanto tentava entender a estrutura instável do penteado.
— Técnica de sobrevivência. Três reuniões seguidas, um café derramado e nenhum espelho.
— Pronto. — Falei, mais baixo do que pretendia. Depois de libertar o último fio da pulseira, deixei minha mão pousada na nuca dela por um segundo a mais do que o necessário. Um toque sutil, mas intencional. — Tenta agora — Ela puxou o braço devagar, testando, e depois com um movimento rápido quando percebeu que estava livre. — Viu? Deu certo.
Num gesto automático, passei a mão por seu ombro nu para remover os fios cortados que haviam caído ali. Não imaginei que o contraste entre minha mão quente e a pele fria dela fosse causar uma reação tão clara. %Anya% virou levemente o rosto em minha direção, mas não se afastou. Continuávamos ali, próximos, presos em algo invisível. Por reflexo, me inclinei um pouco mais.
— Obrigada. Eu disse que precisava de um advogado. — A voz dela foi baixa, quase um sopro, e ainda assim vibrou diretamente em meu estômago, despertando um nervosismo primitivo.
— De nada. Mas, se posso dizer, acho que você vai precisar de mais do que um advogado... considerando seu talento natural para se meter em encrencas. — Ela revirou os olhos, um sorriso quase contido surgindo no canto dos lábios. — Continue revirando os olhos assim e eles vão acabar ficando presos.
— Estou quase contratando você como meu advogado pessoal.
— Quase? Eu venho dando conselhos jurídicos de graça esse tempo todo e você ainda está no “quase”? O que mais preciso fazer para convencer você de vez? — ergui uma sobrancelha.
— Ah, você não quer saber como me convencer... acredite.
Minha mente se encheu, num piscar de olhos, com possibilidades que eu preferia não detalhar. Me forcei a manter a compostura, mas não consegui esconder o sorriso enviesado. Ela era ousada, segura e isso me agradava mais do que eu gostaria de admitir.
— Isso foi um desafio? Porque, se foi, saiba que eu nunca recuo diante de um.
— Sim. E não tenho grandes restrições quanto aos meios que uso para conseguir o que quero.
Não era exagero. Eu conhecia bem minhas armas, elas sempre me levaram longe. Mas cada conquista vinha acompanhada de um peso que, cedo ou tarde, eu teria que carregar sozinho.
— Tem certeza de que quer entrar nesse jogo, %Ant%? Eu posso ser bem implacável quando quero. Convivo com homens e lobos todos os dias. Sei me virar.
— Não duvido. Mas posso garantir que não sou como nenhum deles.
— E o que te faz diferente?
— Bem, para começar, não tenho muito senso de moralidade. — Continuei, sem rodeios. — E, se quer saber, tenho um talento especial para fazer as pessoas me darem o que eu quero, ainda que sem perceber.
Sabia que aquilo poderia soar quase intimidador, mas estava longe de ser uma confissão cheia de culpa ou arrependimento. Era apenas uma verdade sobre mim, uma das várias que eu não fazia questão de esconder, apesar de sentir vergonha com alguns aspectos mais brutos da minha personalidade.
— E... o que você quer agora?
Esse era o problema — um dos muitos — com %Anya%. Ela não se intimidava. Nem por um segundo.
— Você não tem ideia do que eu quero agora.
Quando seu corpo se virou ainda mais e nossos olhos se encontraram, percebi que o que estava prestes a acontecer era inevitável. Eu iria beijar %Ananya% %Bhasin% e ela iria deixar.
Vi meu desejo refletido nos olhos dela e, percebi, com um certo alívio carregado de tensão, que ela sentia exatamente o mesmo. Aquele magnetismo entre nós não era unilateral. Ela também estava sendo puxada para mim, com a mesma força crua e inevitável.
Já não havia espaço para dúvida, muito menos para recuo. Se eu pensasse demais, poderia vacilar. Então, sem dar a mim mesmo essa chance, estendi a mão e segurei seu queixo com delicadeza, guiando seu rosto para cima, em direção ao meu. Os olhos de %Anya% abandonaram os meus e desceram lentamente até minha boca. Quando ela fechou as pálpebras, uma onda de satisfação atravessou meu corpo. Não de maneira arrogante, mas como se, enfim, algo fizesse sentido.
Uma vontade quase infantil de comemorar me invadiu. E eu soube, com todas as certezas possíveis, que a única forma aceitável de comemorar aquilo era encostando meus lábios nos dela.
A atmosfera em volta de nós parecia carregada, nem sequer havíamos nos tocado de fato, e tudo já queimava.
Puxei-a para mais perto, aprofundando o beijo, minha mão deslizando do seu queixo para a nuca, segurando-a firmemente contra mim. Passei os lábios nos dela, subi por suas bochechas, passei pela mandíbula e voltei para seus lábios, tudo isso para tentar gravar a textura macia de sua pele.
Tentei ser o mais atencioso possível, pois não sabia quando teria essa oportunidade de novo. Mas %Anya% não estava com tanta paciência e capturou meus lábios rapidamente. Não demorou muito para que eu perdesse o controle, puxando-a pela cintura e virando o seu corpo de frente para mim.
Aquilo não estava certo. Eu precisava me afastar imediatamente. Era um erro acontecendo, principalmente em um momento como aquele. Se fosse em qualquer outro dia, eu não pensaria duas vezes, mas naquele dia, especificamente, estava tudo estranho, incerto e anormal.
— Me pare. — Pedi num sussurro rouco, minha respiração pesada. Deslizei a mão pela perna dela até alcançar os pés, retirando seus sapatos com calma, como se isso adiasse o inevitável. — %Anya%, me pare, por favor.
Passei as mãos sob seus joelhos e a puxei para o meu colo. A saia apertada limitava seus movimentos, mas suas coxas apertando minha cintura pareciam um convite impossível de ignorar. %Anya% afastou os lábios dos meus, sem desviar o olhar, e seus dedos encontraram o nó da minha gravata, desfazendo-o com precisão.
Mas eu não podia. Não queria. Permaneci imóvel, deixando que ela conduzisse. Quando puxei sua saia para cima, senti seu corpo pressionar ainda mais contra o meu e soltei o ar com um som quase desesperado.
— Ainda dá tempo de fugir... — Murmurei, a voz carregada de um último traço de lucidez.
— Mas eu não quero fugir.
Soltei um gemido fraco quando senti seus mamilos duros contra minha camisa, os quadris buscando os meus com uma urgência que me desarmava por completo. Eu já sabia: não iria parar enquanto não estivesse dentro dela. E ela queria o mesmo.
— Espera... Aqui não. — Disse, lançando um olhar rápido para a porta.
— Vai ser rápido. — Prometi, já a colocando contra o sofá com certa pressa.
— Isso é loucura... — Falou, mas seus dedos já estavam abrindo os botões da minha camisa.
Sem motivo algum, nós tínhamos pressa. Com rapidez e vontade, minha camisa foi para o chão junto a saia de %Anya%. As respirações ofegantes se misturaram enquanto nos beijávamos de forma voraz. O jeito como ela movia o quadril em cima de mim era satisfatório, mas seria melhor se estivéssemos sem as camadas de roupas nos cobrindo.
Nem o som das trovoadas do lado de fora do edifício tirou nossa atenção. Eu sentia meus lábios inchados, meu corpo ardia e até minhas pernas estavam bambas, mesmo que eu estivesse sentado.
Se antes era %Anya% quem parecia tomada pela pressa, a dinâmica mudou no instante em que senti suas mãos deixarem meus ombros e irem direto para o cós da minha calça. A urgência agora vinha de nós dois. Era palpável e quase desesperada. Desci os beijos pelo seu pescoço, absorvendo o cheiro adocicado da sua pele, e fui até a borda da calcinha preta que cobria sua intimidade. Levantei os olhos em direção ao rosto dela, procurando por qualquer sinal de hesitação. Mas o que encontrei foi a confirmação silenciosa que eu precisava: um leve aceno com a cabeça e o quadril erguido para me ajudar a tirar a peça por completo.
Sorri, satisfeito. Era real. Estávamos ali, juntos, conscientes do que aconteceria a seguir.
Levei a mão até sua intimidade exposta, roçando levemente com os dedos e encontrei exatamente o que esperava: Tão pronta quanto eu. E, sinceramente, se esperássemos mais um segundo sequer, eu não conseguiria aguentar. Logo, eu estava dentro de %Ananya% %Bhasin%, estocando em seu interior com uma urgência crua, quase juvenil.
Era como reviver a sensação de adolescência mal resolvida, o tipo de desejo que nasce quando a melhor amiga da sua irmã passa por você sem sequer notar sua existência… e, mesmo assim, algo dentro de você queima.
Agora, porém, ela estava ali. Em meus braços. Sob meus toques.
Agarrei seus quadris com força, sentindo meus dedos afundados na carne macia. Sua respiração estava quente e pesada contra seu pescoço enquanto ela gemia baixinho e apertava meu corpo com as mãos, sem decidir onde tocar. O som estalado dos quadris se chocando um contra o outro deixava a atmosfera na sala exorbitante e ardente.
Era a melhor segunda-feira chuvosa da minha vida.
%Ananya% %Bhasin% não se importava em ficar por cima, sentando-se em meu membro de maneira graciosa e altamente satisfatória de assistir. Eu acariciava sua cintura enquanto assistia os seios fartos dela se moverem quase para fora da camiseta. Ela apoiava as mãos no sofá atras de mim, rebolando em um ritmo delirante.
Rapidamente (e vergonhosamente), não demorou para que eu sentisse que meu ápice estava próximo e foi ainda mais rápido quando %Anya% sussurrou em meu ouvido que estava
“quase lá”. Senti os lábios dela ferozmente em meu pescoço quando voltei a deitá-la no sofá. Não diminui a velocidade em que já estava. Assisti %Anya% jogar a cabeça para trás e gemer deliciosamente. Saí de dentro dela quando percebi que estava próximo de ejacular. Iria me afastar e lidar com aquilo sozinho, mas %Anya% foi mais rápida e envolveu meu membro com uma mão, massageando de maneira rápida e deliciosa, e logo, me desfiz em suas mãos.
Após limpar a mão na própria saia, %Anya% levou os dedos aos longos cabelos negros e, com a calma de quem tentava reorganizar a própria lucidez, prendeu-os em um coque frouxo. O silêncio que se seguiu foi denso, entrecortado apenas pela nossa respiração ainda descompassada.
Quando nossos olhares se cruzaram de novo, ambos soltamos uma risada abafada, nervosa, descrente, quase desesperada.
— O que diabos a gente acabou de fazer? — Murmurei, levando a mão ao cabelo e penteando-o para trás, como se isso pudesse me trazer algum controle da situação. Uma mistura sufocante de felicidade, culpa e pânico percorreu meu peito, tudo ao mesmo tempo, tudo de uma vez só.
Meu Deus. Eu tinha acabado de transar com %Ananya% %Bhasin%.
E por mais que uma parte de mim gritasse que aquilo tinha sido incrível... tudo o que eu conseguia pensar era no tamanho do problema que isso traria. Um grande, grande problema.
— Ժ —
Quando cheguei em casa, já passava da meia-noite. Estranhei ao ver as luzes da sala ainda acesas. Normalmente, àquela hora, a casa já estaria mergulhada no silêncio. Tirei o paletó e o joguei por cima da cadeira. Estava prestes a largar as chaves na mesa quando minha mão parou no ar. No sofá, Nina estava deitada, com alguns papéis espalhados sobre o peito e ressonando suavemente.
Olhei para o relógio e avaliei a situação. Deveria deixá-la ali, em paz no próprio cansaço, ou acordá-la para dividir a loucura que eu acabara de cometer naquela noite?
— Nina? — Murmurei, tocando de leve seu ombro. — Você tem um quarto, sabia?
— Nossa, eu apaguei! — Exclamou, ainda sonolenta, esfregando o rosto com as duas mãos. — Tenho muita coisa para estudar, mas esse sono está me vencendo... — Resmungou, parecendo exausta. — Acho que vou precisar da sua ajuda com um relatório...
Quando decidimos seguir a mesma profissão, nunca imaginamos que o Direito consumiria tanto da gente. As conversas que antes giravam em torno de sonhos, viagens e planos de futuro agora se resumiam a prazos, recursos e audiências. Um amontoado de termos jurídicos substituindo o que um dia foi intimidade de irmãos.
Enquanto ela falava, comecei a mexer nas correspondências espalhadas pela mesa, separando o que iria para o lixo do que ainda merecia atenção. Ela comentava algo sobre jurisprudência e análise técnica, mas minha atenção foi capturada por um envelope destacado com um “AVISO” em letras vermelhas. Meu coração bateu mais forte. Sem pensar muito, escondi o envelope no meio dos outros papéis, fechei tudo em um maço só e os enfiei na mochila.
— Deixa em cima da mesa e eu dou uma olhada para você. — Murmurei, solícito, tentando manter a voz firme. — Eu vou pro meu quarto, preciso de um banho. Vai descansar, Nina.
Passei a mão pelos cabelos castanhos enrolados dela com carinho, num gesto automático e protetor. Depois, segui pelo corredor em silêncio, sentindo o peso da noite inteira acumulando nos ombros. Assim que entrei no quarto, tranquei a porta com cuidado e me recostei nela por um segundo, inspirando fundo.
A primeira coisa que fiz foi abrir a mochila. Vasculhei rapidamente até encontrar o envelope marrom. Minhas mãos tremiam um pouco quando o retirei, como se o papel fosse mais pesado do que realmente era. Sentei-me na beira da cama e o abri com cuidado, já esperando o pior.
A carta era objetiva. Fria. Quase cruel.
“Este é o penúltimo aviso referente ao atraso do pagamento do aluguel do imóvel. Em caso de inadimplência persistente, os %Campelli% serão notificados judicialmente. Favor regularizar a situação com urgência.” Meus olhos percorreram as linhas mais de uma vez, como se uma releitura pudesse suavizar a gravidade da mensagem. Mas o significado continuava o mesmo: estávamos por um fio. Um único aviso nos separava de uma ação judicial. E eu não tinha a menor ideia de como resolver aquilo.
Um misto de preguiça e cansaço ameaçou me derrubar, mas eu sabia que tinha que concluir alguns trabalhos ainda naquela noite. O plano era mergulhar no computador até a madrugada, mas antes disso, optei por um banho relaxante para tentar recuperar um pouco da energia e clareza que eu sabia que precisaria.
Joguei os papéis na cama e olhei novamente para o espelho. O reflexo me encarava e a sensação de que eu não tinha mais controle sobre nada, nem sobre mim mesmo, era insuportável.
Enquanto tirava a camisa, algo no espelho chamou minha atenção. Um grande ponto avermelhado sobressaía na minha clavícula, visível mesmo sob a luz fraca do quarto. Me aproximei do espelho e, ao inclinar o pescoço, vi que não era apenas um. %Anya% tinha me deixado com vários chupões. Respirei fundo e soltei uma risada baixa, ainda incrédulo com o que havia acontecido horas atrás.
Aquilo era um lembrete físico do quão longe eu tinha ido e de quão errado tudo parecia agora.
Além de esconder da Nina a real situação da nossa vida financeira, agora eu tinha um novo segredo: transar com a melhor amiga da minha irmã. Que belo irmão, %Anthony%. Um verdadeiro exemplo. E, para piorar tudo, ainda tinha o acordo com Martinez. O maldito acordo que me prendeu nesse jogo sujo e me fez cruzar limites que eu nunca imaginei que teria coragem de ultrapassar. Ele me ameaçou, claro. Disse que, se eu não cumprisse o que foi combinado, as consequências seriam terríveis. Ele sabia onde mexer, sabia como me pressionar.
Era por isso que eu fazia tudo aquilo. Por Nina. Pela mãe. Pelo apartamento minúsculo que era tudo o que tínhamos. Mas no silêncio do banheiro, com o cheiro do perfume caro da %Anya% ainda grudado na minha pele, uma verdade doía mais que todas as ameaças: Eu já não sabia mais se estava salvando minha família... ou apenas afundando todos nós juntos.
Mas, como se isso não fosse suficiente para me fazer perder o sono, havia outro detalhe ainda mais absurdo naquela equação caótica: %Ananya% era prima da Kiara. Sim,
a Kiara. Minha ex. A mulher com quem tive um dos relacionamentos mais intensos, e que, apesar de todos os nossos desencontros, ainda considerava a melhor namorada que já tive.
Passei a mão pelos cabelos, tentando organizar os pensamentos, mas só piorei a bagunça mental.
Se Kiara descobrisse o que aconteceu, ela provavelmente me riscaria da vida dela de vez. E não que eu estivesse nutrindo alguma esperança de reconciliação, mas também não gostava da ideia de ser odiado por alguém que já me conheceu tão bem. E, sinceramente, talvez eu merecesse o desprezo dela agora.
Minha relação com Kiara era, no mínimo, intensa. Ao longo da minha vida, tive várias namoradas, mas, estranhamente, sempre que alguém toca no assunto de relacionamentos amorosos, ela é a primeira a surgir na minha mente.
Kiara foi memorável. Foi um furacão que surgiu em minha vida em uma noite de sexta-feira e essa comparação nunca me pareceu tão apropriada.
Kiara era como uma noite de sexta-feira, cheia de promessas e possibilidades, trazendo consigo a excitação do inesperado. Desde o primeiro instante, estar com Kiara era como mergulhar em um turbilhão de emoções. O frio na barriga que sentia ao seu lado era inconfundível. Ela me proporcionava frio na barriga, ansiedade, coração acelerado, da melhor forma possível. E também da pior. Gostávamos de festas, bebidas alcoólicas, de ir ao cinema nos sábados, jantar comida italiana nas quartas-feiras e transar ao ar livre.
A %Bhasin% perdida — ela sequer usava o sobrenome %Bhasin% tamanho horror a ser relacionada com a família poderosa — começou a negar o cinema nos sábados, recusou pasta italiana, ia a festas sozinha, voltava bêbada e sem muita paciência.
Eu amava Kiara, amava seu espírito livre, sua maneira única de ver o mundo e frequentemente me via construindo uma família ao seu lado. A ideia de um futuro juntos era reconfortante. No entanto, havia um paradoxo em nosso relacionamento que só fui notar quando estávamos próximos do nosso fim.
A vida que eu sonhava para nós era, para ela, uma prisão. Ela queria aventuras, surpresas, e, na busca por um relacionamento mais sereno, percebi que não conseguia satisfazer esse desejo dela. O que eu via como estabilidade e segurança, para ela, parecia ser uma forma de estagnação.
Essa diferença fundamental entre nós começou a criar um abismo que, por mais que eu tentasse preencher com carinho e dedicação, parecia apenas aumentar com o tempo.
Nada era simples com Kiara, mas na época, não parecia complicado. Entretanto, depois de muito tempo refletindo, tentando buscar uma falha própria em meu relacionamento, percebi coisas que nunca tinha percebido. Uma delas era a quantidade de álcool que consumíamos juntos. Não que isso fosse, por si só, um problema, mas frequentemente nos víamos apagando no sofá antes mesmo de o dia terminar, mergulhando em uma névoa de bebidas que parecia mascarar as conversas e momentos mais significativos entre nós.
Às vezes, eu tinha a impressão de que estávamos sempre buscando validação em aventuras cotidianas, como se a emoção momentânea de uma festa ou a companhia de amigos fossem suficientes para preencher um vazio que não conseguíamos reconhecer.
Não demorou muito para que começássemos a conversar sobre um possível tempo separados. Desde então, nunca mais voltamos a ser um casal.
Eu compreendia que essas dificuldades fazem parte da vida e que relações amorosas não garantem a permanência. No nosso caso, percebia que talvez não fôssemos tão saudáveis ou felizes quanto pensávamos. Eu não gostava de sentir falta de Kiara, eu tinha amor-próprio o suficiente para fingir não querer estar com uma pessoa que não queria estar comigo. Mas esses sentimentos são difíceis de controlar e de evitar.
Tudo só piorava quando chegava o sábado de noite e eu queria ir ao cinema. Mas sozinho não tinha graça.
Após um banho mais demorado que eu havia planejado, voltei para a mesa bagunçada e, antes de começar a finalizar todo o trabalho que levei para terminar em casa, peguei a carta de aviso em cima da escrivaninha novamente. Suspirei, frustrado, e me joguei na cama, sentindo vontade de gritar contra o travesseiro.
A carta, mais uma entre tantas que recebi, acabou seguindo o mesmo destino das anteriores: eu a empurrei para baixo da cama, onde ela se misturava com o resto das promessas não cumpridas e das decisões erradas.
Todos os dias eu me sentia o maior burro de todos os tempos por ter deixado a situação chegar nesse ponto. Era um pensamento que não me abandonava, ecoando em minha mente como um mantra de autocrítica.
Eu sabia que precisava fazer algo, entretanto, a cada dia que passava, esse "algo" se tornava mais difícil. Aquelas cartas de aviso, os olhares desconfiados da Nina, a pressão de Martínez, as consequências de uma mentira em cima da outra... tudo parecia um peso insuportável. Mas, no fundo, eu também sabia que não poderia continuar empurrando tudo para debaixo da cama, assim como eu fazia com a carta.
Suspirei mais uma vez, virando de lado e afundando o rosto no travesseiro. O som da minha respiração pesada parecia se misturar com os pensamentos turbulentos, criando um emaranhado de frustrações e inseguranças.
Como cheguei até aqui? Onde foi que tudo começou a desmoronar? Eu já não tinha respostas para nada. E talvez essa fosse a parte mais assustadora de tudo: não saber o que fazer e não saber mais quem eu estava tentando enganar.
Ser filhos de mãe solteira nos ensinou a amarrar os sapatos antes de aprender a soletrar "abandono". Nina e eu sempre fomos responsáveis e maduros. Entretanto, tivemos um contratempo impiedoso e cruel em nossas vidas: Aquela mancha roxa no braço da mamãe que não era hematoma.
A palavra soava como um veredito mesmo antes do diagnóstico oficial. E quando ela partiu, nos deixou um legado amargo: O apartamento minúsculo cheio de seu cheiro ainda preso nos sofás e as dívidas que se multiplicavam como ervas daninhas.
Após o grande baque, nós sofremos de forma intensa, já que ambos éramos bastante apegados à nossa mãe. Porém, foi Nina quem desabou completamente após o ocorrido. Minha irmã transformou-se num fantasma que arrastava seus lençóis pelo corredor. Durante um ano, eu deixava pratos de comida na porta do quarto dela e os recolhia intocados no dia seguinte. Até que numa quinta-feira comum, Nina decidiu que queria estudar novamente, queria fazer faculdade de Direito, assim como eu.
Foi uma surpresa e tanto. Num dia qualquer, em meio à rotina silenciosa e sem esperança, Nina simplesmente saiu do quarto depois de um ano inteiro de reclusão. Eu não tinha mais expectativas quanto à sua melhora, mas ali estava ela, diante de mim, dizendo que queria fazer algo da vida.
Naquela noite, abri o laptop e revisei nossas contas pela centésima vez. Foi quando percebi que meu objetivo não era mais quitar hipotecas ou organizar dívidas. Meu propósito agora era garantir que minha irmã tivesse a chance de recomeçar, de transformar a dor que a paralisou em algo que desse sentido à nossa tragédia.
Os números não mentiam: ou eu pagava a faculdade dela, ou salvávamos o apartamento. Não dava para ambos.
Foi então que vi — realmente vi — a conta secreta da WDM Corp no extrato. Aquele fundo de reserva que ninguém mexia.
287.604,32 dormindo lá, enquanto minha irmã definhava.
Foi ali, entre planilhas e boletos, que nasceu minha maior loucura.
Tá, e minha maior burrice também.
Nina agora era graduanda em Direito, uma das melhores da turma, prestes a se formar com louvor. Mas para que ela chegasse até ali, eu precisei agir como um político corrupto: fiz desvios de verba. Primeiro pequenos. Depois, maiores. Sempre com a mesma mentira que contava a mim mesmo: era temporário. Eu ia resolver tudo.
Achei que ninguém jamais descobriria. Que aquele momento desesperado passaria despercebido como tantos outros. Mas Davi Martinez sabia. O desgraçado tinha tudo.
Planilhas com movimentações suspeitas, e-mails trocados entre mim e o contador com pedidos de alteração. Datas incoerentes, registros manipulados, relatórios originais. Até gravações de ligações com o setor financeiro. Toda a trilha da minha destruição estava reunida, compactada naquele pen-drive.
Assim, tudo mudou, mas não como eu esperava. Martinez não queria justiça. Não estava interessado em me denunciar. Pelo contrário. Eu era útil demais para isso. Uma peça menor que havia escorregado, perfeita para ser manipulada.
Enquanto eu desviava quantias modestas para tentar manter minha família de pé, ele fazia o mesmo e em escalas muito maiores, há anos. Com a frieza de quem já sabia como apagar rastros.
No fim, meu erro foi a desculpa ideal. Tornei-me refém. E ele, dono de cada prova contra mim, deixou claro que eu não devia apenas dinheiro. Devia silêncio. Obediência. Lealdade. Esse foi o verdadeiro início do nosso acordo.
Eu sabia que estava jogando sujo. Mentir para Nina sobre a real situação financeira era uma afronta direta ao que nossa mãe sempre acreditou sobre família e honestidade. Mas o peso de cuidar dela era mais forte do que qualquer remorso.
E, no fundo, eu não podia negar: o olhar de Nina ao falar sobre sua carreira ainda era uma das poucas coisas que me traziam alguma luz. Ela se tornara a mulher que minha mãe sonhou: era determinada, forte, inteligente, capaz de caminhar com as próprias pernas. E eu, como irmão, faria qualquer coisa para garantir que ela chegasse lá. Mesmo que isso significasse sacrificar o que restava de nós. Mesmo que, aos poucos, eu estivesse destruindo o futuro que tentei proteger.
O que parecia uma solução temporária logo se revelou um caminho repleto de armadilhas.
Uma pasta fina passou por baixo da porta. Levantei-me da cama, peguei o material e logo reconheci o título impresso na primeira página:
"A Ética na Advocacia Moderna". Naquele instante, uma sensação desconfortável se instalou no peito. Eu me sentia um péssimo companheiro para Nina. Mentir para a minha irmã era, sem dúvida, uma das partes mais cruéis da minha rotina. Todas as manhãs seguiam o mesmo ritual agonizante, como se eu estivesse preso a um ciclo de culpa do qual não conseguia escapar.
Nina sempre surgia animada, tagarelando sobre um artigo interessante, um caso jurídico inusitado ou sobre uma aula que mal podia esperar para assistir. E então vinha a parte mais difícil: mentir.
Ela perguntava sobre as contas com aquele tom de preocupação suave e eu respondia com a tranquilidade de quem já se acostumou a enganar:
“Está tudo sob controle. O apartamento? Quitado mês que vem. Não, não venda seus livros, guarda pro estágio." A cada vez que desviava a conversa ou inventava alguma desculpa para evitar o assunto das nossas finanças, porque eu conhecia minha irmã. Sabia que, se descobrisse a verdade, largaria a faculdade sem pensar duas vezes. Se jogaria no primeiro subemprego que aparecesse, qualquer coisa para tentar nos tirar da lama.
Essa ideia me deixava em pânico. Eu não permitiria. A educação dela era minha prioridade absoluta. Nina era minha prioridade.
Apesar de ser dois anos mais velha do que eu, sempre senti que cabia a mim protegê-la. Esse instinto só se intensificou depois da morte da nossa mãe. Crescemos vendo aquela mulher forte enfrentar cada obstáculo que a vida lhe impunha e isso me moldou de uma forma que nunca mais pude desfazer. Eu não tinha mais família. Não conhecia meu pai. Tudo que me restava era Nina e aquele apartamento velho que agora parecia desmoronar sobre nós.
Foi nesse impulso desesperado de manter minha irmã estável, sã, segura e, acima de tudo, feliz, que acabei fazendo algo do qual não me orgulhava.
Aceitei a proposta maldita de Davi Martinez.
E, por mais inconsciente que tenha sido, por mais que eu tenha tentado me convencer de que estava apenas ganhando tempo, a verdade é que o plano começou a funcionar já naquela mesma noite.