Capítulo Um • %Ananya%
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Eu, %Ananya% %Bhasin%, achava, no mínimo, interessante – e ultrajante – assistir como os homens pareciam ter tanta dificuldade em ouvir as palavras das mulheres, mesmo quando elas estão em maior número em uma reunião. É surpreendente como eles conseguem se recusar a ouvir os pontos de vista femininos com facilidade, como se as vozes das mulheres fossem naturalmente menos relevantes ou audíveis. Fico me perguntando se isso está relacionado a fatores biológicos ou se é, de fato, uma questão cultural profundamente enraizada.
Eu nunca tive uma postura misândrica, mas comecei a considerar pesquisar mais sobre o tema após uma experiência frustrante: passei quatro horas em uma sala de reunião com sete homens que, deliberadamente, pareciam ignorar as cinco mulheres presentes. A cada intervenção feminina, eles fingiam não ouvir ou rapidamente mudavam o foco, como se nossas opiniões fossem menos relevantes.
Embora eu tivesse uma condição financeira bastante privilegiada, ser uma mulher e ainda por cima, marrom, era motivo suficiente para ser ignorada e desvalorizada em inúmeras situações. A frustração era constante. Mesmo ocupando uma posição de chefia, eu tinha que enfrentar esse tipo de comportamento por parte da população masculina. Sentia que, para ter minhas opiniões levadas a sério, eu precisava elevar o tom de voz, o que não só ia contra minha natureza, mas também era mentalmente exaustivo.
– Rapazes, peço um minuto de silêncio, por favor. – Mal a frase saiu da minha boca, o dedo indicador de um deles ergueu-se como uma faca, ordenando meu calar. Minhas sobrancelhas arquejaram, lentas, enquanto meu olhar – afiado como vidro quebrado – perfurava o homem. Antes, porém, captei os olhares das mulheres à mesa: alguns cheios de fogo, outros de medo, porém, todas me olhavam com estima e esperança de que eu fosse capaz de acabar com aquele desagrado todo. – Senhores, por favor!
Meu corpo ergueu-se da cadeira como um veredito. Fiquei em pé, plantada como uma sentinela, enquanto meus olhos varriam a mesa até que o último murmúrio agonizasse no ar. Infelizmente, aquele silêncio súbito não era respeito, era apenas rendição. O silêncio finalmente se instalou e eu respirei fundo antes de começar a destacar meus apontamentos.
–Observo muitas demandas, mas poucas resoluções concretas. –Eu odiava ter que assumir o papel de chefe, de verdade, mas naqueles momentos, era necessário que eles me vissem no papel de líder, não de herdeira. – Dos dez pontos discutidos hoje, apenas a proposta da senhora Spencer trouxe uma solução viável, que, lamentavelmente, não recebeu a devida consideração. Reitero que a diversidade de perspectivas é um valor institucional desta empresa. Planos serão avaliados por mérito, independentemente de quem os apresenta.
O silêncio que se seguiu foi interrompido pelo senhor Dane, cujo tom desafiava sem confrontar diretamente: – Com todo respeito, diretora, a implementação do plano Spencer exigiria realocação de recursos que...
–Três critérios, senhor Dane. – Interrompi com suavidade. – Eficiência, custo-benefício e alinhamento estratégico. Se sua objeção não contemplar esses fatores, sugiro que a formalize para análise posterior. Spencer! – Chamei e ela, prontamente, levantou-se.
– Com uma equipe enxuta de seis colaboradores, divididos em...
–Aprovado. – Declarei antes que as justificativas técnicas fossem sufocadas por novos debates.– Senhora Spencer liderará o projeto. Dúvidas operacionais devem ser dirigidas a ela. – Fechei minha agenda com decisão e olhei em meu relógio de pulso, notei que já estava quase no fim da outra reunião em que eu deveria estar. – Quero uma pessoa na análise de custos variáveis. Posso deixá-los nas mãos de Alana ou temos mais algum empecilho? – Novamente, apenas murmúrios. – Para mais reclamações e possíveis dificuldades no plano de Alana, falem diretamente com ela ou me enviem por e-mail suas considerações. – Olhei diretamente para o velho Dane, que resmungou bravo.– E com fundamentos, por favor!
Com um breve aceno de despedida, dirigi-me à saída. Ao passar por Alana, pressionei-lhe levemente o ombro, suficiente para transmitir apoio sem afetar sua autoridade recém-estabelecida. Seu sorriso em resposta foi contido, mas os olhos brilhavam com aquela rara combinação de gratidão e determinação que só os verdadeiros talentos exibem ao receberem oportunidades merecidas.
Era a primeira vez que deixava uma mulher da equipe com tamanha responsabilidade, mas ela parecia mais do que pronta para assumir a missão e acatar a oportunidade. Descobriríamos no final do mês se o plano mensal de Spencer seria um sucesso ou não, mas, pelo menos, eu tinha feito minha parte declarando apoio ao meu núcleo feminino da equipe de contabilidade.
Caminhei pelo curto corredor de piso de carvalho e respirei fundo antes de entrar na sala de Ethan, meu parceiro na direção do setor financeiro. Ethan era um cara engraçado quando queria, eu costumava dizer que nós éramos “frenemies”, ou seja, amigos e inimigos na mesma medida. Ele me irritava profundamente e eu o adoecia, como ele mesmo costumava dizer. Mas Ethan era talentoso, não tinha como negar. Por isso, ele foi o único que aceitei dividir a direção financeira da %Bhasin% Associados.
Também foi o único funcionário da empresa que eu já havia praticado alguns atos libidinosos.
Foi uma estupidez sem tamanho. Eu cometi o erro de convidá-lo para meu aniversário do ano passado e após muita bebedeira, provocações e uma brincadeira idiota de verdade ou consequência, acabei me agarrando com Ethan atrás de uma árvore no jardim principal do hotel. Aconteceu uma única vez e nós fizemos um pacto silencioso de nunca mais falar sobre aquilo, nem entre si, nem com terceiros.
Ele apenas acenou com a cabeça quando me viu chegar, sem parar de digitar algo e conversar com a tela do computador, provavelmente preparando alguma objeção cáustica aos meus últimos relatórios. Sentei-me próxima a ele, mas afastada da câmera do eletrônico. Não demorou muito para que eu percebesse que Ethan estava enrolando aquela situação além do necessário.
“Nós iremos comprar os novos softwares de qualquer jeito, por qualquer preço, para quê barganhar ainda mais?”, avaliei mentalmente,
“Céus, esses caras daqui acham mesmo que meu tempo não é dinheiro”. Balançando os braços com discrição, comecei a chamar a atenção de Ethan por trás das telas. Ele ergueu os olhos com visível incômodo, pediu licença aos investidores do outro lado da videoconferência e me encarou com um tédio que quase transbordava pela tela, antes de silenciar o microfone.
– Ethan, feche o negócio. – Murmurei, enquanto guardava meus papéis na bolsa-pasta, pronta para sair dali o mais rápido possível.
Eu já havia enfrentado duas reuniões longas naquela manhã e outras três me aguardavam. Eu só queria ir para a quietude e tranquilidade da minha sala. Ou pelo menos, dez minutos longe de argumentos masculinos travestidos de estratégia.
– Podemos conseguir por menos.
Revirei os olhos. Estava exausta demais para bancar a chefe insuportável outra vez, mas, ainda assim, vesti esse figurino pela última vez no dia.
– Estou de saída. Quero os contratos prontos para revisão sobre minha mesa quando eu voltar. – Disse com firmeza.
– Ethan, temos capital suficiente para pagar essa
bagatela. – O interrompi antes do homem começar suas lamúrias que não faziam sentido para mim, uma pobre mulher determinada a chegar em sua sala antes do horário do almoço.
– %Anya%, eu só estou sendo cauteloso. – Ele rebateu, como se explicasse pacientemente para uma criança.
– Não se preocupe. Cautela é meu trabalho. – Peguei o relatório que eu mesma havia finalizado na madrugada anterior, com todas as análises e projeções já revisadas e entreguei direto em suas mãos. Como Alana Spencer, eu também sabia muito bem o que estava fazendo. – Já fui cautelosa por você.
Saí da sala sem olhar para trás. Eu era confiante, mas não o bastante para encarar o olhar fulminante que Ethan provavelmente estava me lançando naquele momento.
Infelizmente, trabalhar em um escritório com mais de dez homens significa, quase inevitavelmente, ser rotulada de arrogante. Mas a verdade é que essa "arrogância" nada mais é do que um mecanismo de sobrevivência. Se você vacilar, se demonstrar qualquer sinal de vulnerabilidade, eles sentem o cheiro. E quando sentem, não hesitam: te devoram viva. É por isso que, às vezes, eu precisava me impor além da conta – falar mais firme, mais alto, mais direto – só para ser ouvida.
Claro que isso me custava olhares enviesados e comentários sussurrados em reuniões.
Ethan, apesar de – nos raros momentos em que baixava a guarda – ser divertido, era o tipo de cara que vivia tentando me podar, como se estivesse o tempo todo numa competição velada que só ele participava. Sempre querendo pensar à frente, falar mais rápido, parecer mais inteligente. E, é claro, nunca perdia a chance de me lembrar que ele sabia o que estava fazendo. Como se eu não soubesse.
O que me deixava mais irritada nem era o comportamento dele em si, era o fato de ele ignorar completamente o detalhe de que eu era neta do dono. Netinha do patriarca. Herdeira da dinastia %Bhasin%. Pelo amor de Deus, o que aconteceu com o respeito pelo bom e velho nepotismo capitalista?
A história da %Bhasin% começou bem antes de qualquer um desses engravatados aparecer com suas planilhas de Power BI. Logo após a Segunda Guerra Mundial, num porão sujo em alguma rua esquecida de Mumbai, meu bisavô Jampur %Bhasin% inventou uma broca metálica de pouco mais de dez centímetros para ajudar um vizinho a montar um carrinho de mão. A peça, que mal chamava atenção, acabou se tornando um marco no automobilismo.
Dada, que não era nenhum bobo, enxergou ali uma oportunidade. Começou a vender a tal broca para fabricantes de carros de corrida, alguns pequenos, outros bem grandes, tipo a McLaren e a Peugeot. Foi o suficiente para consolidar a %Bhasin% no mercado por décadas.
A cada vez que alguém em algum canto do mundo decidia usar a broca patenteada pelo meu
Dada, um depósito generoso pingava na nossa conta. Era quase poético.
Claro que os tempos mudaram. Hoje, o setor busca por materiais mais leves, mais rápidos, mais tecnológicos. A %Bhasin% já não está no topo da lista, mas ainda mantém um bom lugar entre os grandes. O suficiente para garantir conforto à nossa família e estabilidade à empresa. Nossa filosofia sempre foi clara: lucro e segurança acima de ambição desenfreada. E sinceramente? Eu preferia assim.
Isso me dava liberdade. Eu podia trabalhar sem me arrastar até a exaustão, ao contrário de outras empresas onde os executivos pareciam estar a um passo do colapso nervoso. E, melhor ainda, podia me dar ao luxo de manter alguns pequenos vícios.
Como comprar Louboutins. Só por diversão.
Como uma das diretoras financeiras da empresa, minhas responsabilidades iam muito além de revisar relatórios e corrigir planilhas no automático. Havia dias, como hoje, em que eu precisava negociar contratos, contratar serviços externos ou até supervisionar a venda de alguma unidade do grupo. Cada decisão fazia parte de uma engrenagem maior: o crescimento estratégico da empresa.
Além disso, eu e Ethan éramos responsáveis por criar e revisar estratégias, coordenar equipes e manter a saúde financeira do negócio. E, justiça seja feita, apesar das nossas divergências ocasionais, nós éramos uma dupla eficiente. Quase todas as estratégias que traçávamos davam certo. Modéstia à parte, éramos bons.
Apesar de meu mestrado em Contabilidade e Estatística deixar claro que meu maior defeito era ser uma grande nerd indiana, eu deveria ter escutado meus pais e ter feito alguma faculdade que envolvesse gestão de pessoas, mas fazer o quê, gosto de números.
Cheguei à minha sala quase correndo, saboreando o gostinho da liberdade, mesmo que por apenas alguns minutos. Mal fechei a porta e já arranquei as sapatilhas dos pés como se fossem algemas, jogando-me no pequeno sofá. Eu já tinha esgotado toda a minha cota de energia antes mesmo do fim da manhã, tudo o que eu queria era me desligar do mundo.
Ficar ali, jogada no sofá, jogando Candy Crush e vendo vídeos aleatórios recomendados pelo algoritmo do Instagram. Foi exatamente o que fiz, durante uma hora inteira. Uma hora que eu insisti em fingir que era meu horário de almoço, mesmo não tendo comido absolutamente nada.
A verdade é que eu só queria, por pelo menos sessenta minutos, não pensar em dinheiro, planilhas, estratégias, contratos ou qualquer coisa que justificasse o depósito no fim do mês. Só uma hora em que eu pudesse simplesmente existir, sem precisar produzir nada. Nada além de talvez uma pontuação ridícula no Candy Crush.
Eu queria ter nascido para ser herdeira, não uma trabalhadora. Daquelas legítimas, com vocação mesmo. Há herdeiros que nasceram para serem herdeiros.
Minha mãe, Anjali, por exemplo, tinha a palavra
herdeira estampada em cada célula do corpo. Ela vivia em função disso, como se fosse um cargo oficial com benefícios e plano de carreira. Minha prima Kala também herdou esse talento. Meu primo Abu? Outro exemplo vivo de como é possível passar uma vida inteira entre brunches e partidas de tênis sem sentir um pingo de culpa.
Já eu... Eu nasci com os genes trabalhadores do meu dada Jampur, e, infelizmente, nenhuma inclinação natural para tardes ociosas em clubes de campo. Enquanto eles dominavam a arte de não fazer nada com maestria, eu sonhava com o luxo de não ter que justificar cada segundo do meu dia com produtividade.
O toque do celular me despertou de um cochilo involuntário. Atendi sem nem olhar a tela, pelo toque exclusivo, já sabia exatamente quem era.
– Estou dormindo. – Murmurei, ainda de olhos fechados.
–
No meio do expediente? Duvido muito! – A voz debochada de Nina veio carregada de desconfiança e sarcasmo, como sempre.
Nina %Campelli% era minha melhor amiga desde os dezesseis anos. Estudante de direito, linda, com a pele parda, traços finos e um cabelo cacheado de dar inveja até em comercial de shampoo. A gente se conheceu quando fui transferida para a escola dela no meio do ano letivo. Eu era a garotinha indiana deslocada e ela foi a única que me recebeu com um sorriso no rosto.
Desde então, éramos inseparáveis (na medida do possível, claro, considerando nossas rotinas insanas).
– Quando você começar a trabalhar, vai entender do que eu estou falando. – Resmunguei, me espreguiçando e sentando no sofá enquanto bagunçava os cabelos. – O que você quer?
–
Grossa.
Eu queria escutar sua voz… – Revirei os olhos e fiquei em silêncio, esperando a retratação daquela desculpa idiota. –
Tá, nem eu acreditei nessa. – Nina soltou uma risada divertida. –
É que a gente tinha combinado de jantar hoje, lembra? Mas eu não vou poder ir. – Nina! – Reclamei, sentindo o incômodo se instalar. – É o terceiro jantar que você cancela. Eu quase não a vi esse mês. O que está acontecendo?
–
É–ér… eu sei, %Anya%. – Nina gaguejou, e eu quase pude vê-la do outro lado da linha enrolando o dedo em algum cachinho perdido das suas longas madeixas, como sempre fazia quando estava nervosa.
–
E–eu também não posso… – Bufei, frustrada. –
Eu juro que vou compensar você! – Ela apressou-se em dizer, como quem tenta evitar uma bronca. –
Posso fazer um almoço para você no sábado que vem, que tal? – Ela sugeriu como se eu tivesse alguma opção além de aceitar.
Os sumiços de Nina tinham se tornado frequentes. Eu já vinha notando isso há alguns dias. Claro, nem sempre a gente conseguia se encontrar toda semana, mas nos esforçávamos para, pelo menos, manter nossa tradição quinzenal. A minha rotina insana e a vida de estudante dela nunca foram as mais compatíveis, mas sempre dávamos um jeito.
– Não é como se eu tivesse escolha, né, doutora? – Brinquei. – Como você está,
ladki? – Chamá-la de menina em hindi era quase um código nosso. Ela sempre ria quando eu fazia isso.
–
Um pouco nervosa com as provas… Coisas de universitário, você sabe como é. – Respondeu com uma risadinha leve, mas com um fundinho apreensivo.
– Nina, você está mais do que pronta. Não é como se você não fosse a mais inteligente da sua turma.
Do outro lado da linha, ela riu. E, por um momento, senti que tudo estava em seu devido lugar. Fazer Nina rir era meu pequeno grande propósito. Eu ia continuar, mas três batidas secas na porta me interromperam. Nina também ouviu.
– Acho que o trabalho está te caçando, %Anya%. Vai lá ser incrível! A gente se vê no sábado? Me levantei do sofá e fui em busca dos meus sapatos, sabendo bem o que aquelas batidas impacientes na porta significavam. Meu tempo de paz tinha acabado. A %Bhasin% me chamava de volta para o furacão de responsabilidades que, entre resmungos e suspiros, eu fingia odiar… mas, no fundo, adorava.
– Pode entrar. Oi, Kacey.
– Oi, eu trouxe café. – disse Kacey, levantando os dois copos como se fossem troféus, com um sorriso animado no rosto.
Kacey era uma daquelas pessoas que você conhece no trabalho, troca meia dúzia de palavras na hora do almoço e, quando menos espera, já está contando segredos enquanto toma cerveja barata no sofá da sala. Era uma loirinha magra, com energia de sobra e sempre disposta a dar risada. Nosso convívio aumentou bastante depois que ela foi promovida no setor de publicidade e tivemos que participar juntas de um workshop enfadonho promovido pela direção geral.
– Você acaba de salvar meu almoço. – Murmurei, aliviada, e a abracei de leve antes de dar um longo gole no café expresso.
– Ué, você ainda não almoçou?
– Nem tempo, nem coragem de levantar daqui.
– Estava um burburinho danado no refeitório hoje... Falaram que a Alana foi nomeada como encarregada do mês e que foi você quem bateu o pé por ela. – Disse, sentando ao meu lado com o tom cúmplice de quem traz uma fofoca fresca. – Isso aí, girl power! – Completou, erguendo o braço e mostrando o bíceps em alusão a figura histórica da mulher feminista.
– Ah, não foi nada demais. Você sabe como o povo adora exagerar. – Dei de ombros. Como se apoiar outra mulher no ambiente de trabalho fosse uma grande revolução feminista, e não o mínimo de decência humana. – E aí, o que temos para hoje?
– De fofoca? Hmm… – Kacey tamborilou os dedos no queixo, dramatizando a busca mental por informação. – Ah! Carl, do jurídico, está traindo a esposa.
– Pela terceira vez! E, aparentemente, com uma estagiária nova, que nem sabia que ele era casado.
– Meu Deus, esse homem está sempre em modo autodestruição. Ele devia colocar isso no currículo.
Era nesses pequenos momentos com Kacey que meu dia se equilibrava. O caos continuava lá fora, mas por alguns minutos, sentadas no sofá com café e conversas fúteis, parecia que tudo dava um tempo de respirar.
– Pois é, dessa vez com a ruivinha da secretaria. Paolo conseguiu uma nova campanha publicitária. E... ah! Eu vou a um encontro hoje. – Kacey disse, empolgada, com aquele brilho nos olhos que só quem está apaixonada sabe ter.
– De novo? – ergui uma sobrancelha. – Olha só, resolveu sair da abstinência, hein?
– Já estava mais do que na hora. – Ela deu de ombros. – Andy, o cara com quem estou saindo, me pediu para levar uma amiga para um amigo, tipo um encontro duplo. Mas falei para ele o quanto é difícil encontrar alguém disponível tão em cima da hora. Até conversei com a Lina do quarto andar, mas ela disse que não podia ir hoje.
– Encontro às cegas, Kacey? Isso funciona? – Perguntei, curiosa, mas também com um toque de ceticismo. Nunca tinha acreditado muito nessa história de encontros às cegas.
– Foi assim que eu conheci o Andy. É o nosso terceiro encontro e até agora está tudo bem. – Ela sorriu. – Quer tentar?
Engasguei com o café e comecei a tossir, espantada com a sugestão de Kacey.
Eu não ia a um encontro desde o meu término de namoro, e algo me dizia que um encontro duplo, com um cara que eu nunca vi na vida, não era exatamente o tipo de experiência que eu precisava para voltar à “vida ativa”.
– Nem pensar, me parece a maior roubada. – Refleti em voz alta, enquanto Kacey tirava o celular do bolso e começava a digitar rapidamente.
– Pronto, já está marcado. – Ela disse, com um sorriso travesso.
– O quê?! – Gritei, quase arrancando o celular dela da mão. Li a mensagem que ela acabara de enviar:
“Tudo certo para hoje? Vou levar uma amiga, avise ao %Anthony%.” – Ficou maluca, loira? Eu disse que não! Isso é loucura.
– Como você sabe se nunca foi em um encontro duplo? E, além disso, faz quanto tempo que você não sai de casa e vai a um encontro de verdade?
– Eu não sei, Kac, talvez alguns meses. – Respondi, ainda em choque. – Mas ir a um encontro arranjado com um cara que nunca vi me parece tão, sei lá, anos 90.
– A primeira vez que fiz isso achei uma loucura. Tipo, existe o Tinder! – Ela riu, lembrando do que parecia uma época distante. – Mas depois percebi que é muito mais agradável e divertido do que pensamos. O que me diz?
– Eu digo não. – Reafirmei, sem hesitar, como se fosse uma questão de sobrevivência.
Encontros previsíveis já eram um desafio para mim, então lidar com algo totalmente imprevisível? Nem pensar. Isso definitivamente estava fora de cogitação.
– %Anya%. Eu já confirmei com eles, você vai ter que ir. – Kacey insistiu, batendo as unhas na tela do celular com a mesma determinação de sempre.
– Você não disse meu nome nem nada, Kac. Procure outra pessoa, garanto que será melhor. – Respondi, já cansada dessa conversa, mas Kacey não estava nem aí. Ela levantou do sofá, jogou o copo de café vazio na lixeira e se encaminhou para a porta. – Ué, aonde você vai? Vai me deixar falando sozinha? – Chamei, indignada.
– Preciso trabalhar, a chefe aqui é você. – Ela brincou, jogando um sorriso travesso por cima do ombro. – Tente se animar para hoje.
– Passo aqui às oito. Esteja pronta.
– Não tenho roupa! – Olhei para baixo, para meu vestido sem graça de ambiente corporativo. – Você espera que eu vá em um encontro usando isso?
– Não era você que não ia? Por que a preocupação com a roupa então? – Antes que eu pudesse responder, ela desapareceu pelo corredor, deixando apenas um
"Te vejo às oito, beijos!"ecoando no ar.
Eu fiquei lá, sentindo uma onda de irritação me percorrer. Balancei a cabeça, ainda incrédula com a habilidade de Kacey. Como diabos aquela loirinha tinha me enrolado tão fácil?
A ideia de me expor a um encontro com alguém completamente desconhecido, especialmente em um dia de semana, era algo que ia contra meus hábitos normais. No entanto, por algum motivo, eu estava bastante tentada a ir.
Sentada em minha mesa de trabalho, rodeada por relatórios trimestrais, fui atingida por uma realidade incômoda: eu era a única no grupo sem histórias divertidas para contar nos happy hours.
"Alguém já ouviu falar do novo sistema de classificação de despesas que implementei?" não era exatamente o tipo de assunto que fazia os olhos das pessoas brilharem de empolgação.
E, sejamos sinceras, até eu mesma preferia ouvir as histórias de encontros desastrosos, os beijos inesperados, ou os "quase lá" que deixavam todo mundo suspirando de desejo. Eu
adorava essas fofocas. Vivia vicariamente através dos "quase lá" alheios, das paixões repentinas, dos desastres amorosos que faziam todos rirem. Enquanto isso, minha contribuição para as conversas se limitava a... auditorias bem-sucedidas.
Foi pensando em dar um pouco de entretenimento para as poucas amizades que eu tinha, que, pouco antes das oito da noite, decidi me preparar. Com um suspiro resignado, me arrastei até o banheiro do escritório, meu kit de maquiagem minimalista em mãos. O batom vermelho era meu único toque de ousadia em meio a toneladas de neutralidade corporativa.
Quanto ao resto? Bem, meu vestido cinza-tijolo continuaria tão emocionante quanto um relatório de despesas, mas os saltos pretos guardados na gaveta – aqueles reservados para clientes particularmente chatos – ao menos me fariam sentir um pouco menos... %Anya% %Bhasin%, Diretora Financeira, e um pouco mais %Anya%, mulher de 29 anos que ainda sabia se divertir.
A cabeça loira de Kacey surgiu como um raio solar contra minha porta de vidro fumê. Antes que eu pudesse protestar novamente, estávamos mergulhadas no trânsito caótico do centro. Durante o trajeto, passei o tempo todo reclamando do modo traiçoeiro como Kacey tinha conseguido me convencer a estar ali, em uma situação que eu nunca teria imaginado.
Chegamos quase atrasadas devido ao trânsito caótico do horário de pico e logo fomos em direção à mesa reservada no andar superior do local.
– Olha, aquele ali é o Andy. E ao lado dele, está o seu cara. – Kacey apontou, entrelaçando o braço no meu.
Senti minha ansiedade pulsar de forma inconveniente ao olhar para os dois homens, que estavam a alguns metros de distância. Normalmente, eu não tinha problemas com homens e nunca ficava nervosa, mas desde o meu término, uma insegurança constante havia se instalado em relação à minha vida amorosa e todas as minhas relações íntimas.
– Meu cara. – Murmurei, descrente, ao ouvir a forma como ela me apresentou o meu acompanhante da noite.
Os dois estavam conversando perto do bar e da mesa reservada para o grupo. Conforme nos aproximávamos mais, o rosto de Andy ficou visível para mim, mas o tal "meu cara" ainda estava de costas, e eu não conseguia vê-lo. Kacey deu uma corridinha animada até o rapaz e o abraçou, empolgada.
– Desculpe o atraso. Congestionamento. – Ela explicou, sorrindo.
– Sem problemas, acabamos de chegar. – Ele se virou para mim e estendeu a mão, sorrindo. – Oi, sou Andy. Esse aqui é o %Anthony%.
Virei meu corpo ao mesmo tempo que ele, estendendo a mão para cumprimentá-lo, mas recuamos assim que, finalmente, nossos olhos se encontraram.
– %Ant%! – Exclamei, surpresa, arregalando os olhos.
%Anthony% %Campelli%. O irmão mais novo de Nina. Uma presença insistente em todas as fotos amareladas da minha adolescência. Sempre ali, nos cantos das lembranças, com aquele sorriso e olhar que parecia enxergar mais do que deveria.
– Ué, vocês se conhecem? – Andy perguntou, surpreso.
– Há mais de dez anos. – %Anthony% suspirou antes de me puxar para um abraço rápido. – Oi, %Anya%.
– Como você vem a um encontro e sequer pergunta o nome de quem vai ser seu par? – Reclamei, insatisfeita. – Teríamos evitado essa situação se você tivesse sido decente.
– Você fez exatamente a mesma coisa! Sabia que vinha me encontrar?
– Sabia que viria encontrar um %Anthony%. Existem milhões! Qual sua desculpa?
– E daí? Sabe quantas mulheres se chamam %Ananya%?
– Na Índia? Muitas. Aqui? Menos de vinte. – Respondi com um sorriso irônico, cruzando os braços, desafiando-o.
–
Estatisticamente improvável! – Andy riu, interrompendo nosso duelo de olhares. Ele se inclinou para Kacey, sussurrando algo em seu ouvido. Eu e %Anthony% nos entreolhamos rapidamente, mas logo voltamos a atenção ao casal à nossa frente.
– Bom, já estamos aqui, vamos jantar. Kac, você pode pegar aquela mesa para nós? – Andy pediu à loira, que olhou rapidamente para mim, buscando uma confirmação antes de se afastar. – Escutem, estive pensando... Já que vocês se conhecem, tem problema se sentarmos em mesas separadas? Eu queria ficar um pouco sozinho com a Kacey.
– Sem problemas, cara. – %Anthony% garantiu, apertando o ombro de Andy, em um gesto amigável.
– Eu só quero jantar. – Dei de ombros, lançando um olhar de soslaio para %Anthony%, os braços ainda cruzados. – Já estamos aqui mesmo.
Claro. A típica provocação de %Anthony% %Campelli%. Desde os tempos da escola, ele implicava comigo e com minha condição financeira, sempre com aquelas piadinhas baratas sobre eu ser mimada ou metida demais para o meu próprio bem. O pior? Ele nem estava totalmente errado.
– Atrevido. – Respondi, empurrando de leve seu ombro ao passar por ele, tentando disfarçar o sorriso que ameaçava escapar.
Fomos guiados pela recepcionista até o espaço externo do restaurante, uma grande sacada no segundo andar com mesas espalhadas e uma vista surpreendentemente bonita da cidade. Apesar do barulho constante do trânsito lá embaixo, o ar fresco e o brilho dos postes conferiam um charme meio caótico à cena.
– Então... – Ele puxou minha cadeira com um gesto cuidadoso, quase antiquado. – Já que estamos condenados a jantar juntos...
– "Condenados" é a palavra certa. – Resmunguei, afundando na cadeira. Meus saltos bateram no pé da mesa, num ritmo impaciente. – Você podia ter perguntado.
– E você podia ter dito não para Kacey.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. Eu mexia no guardanapo, enrolando as pontas entre os dedos, envergonhada demais para puxar assunto. Sabia que minha timidez não me deixaria tomar a iniciativa, e, por sorte ou misericórdia, %Anthony% percebeu isso. Suspirou como quem aceita um fardo divertido e quebrou o silêncio com casualidade.
– Então... quer dizer que os %Bhasin% agora andam frequentando encontros às cegas? – A provocação veio com um sorriso enviesado.
– Assim como os %Campelli%, pelo visto. – Respondi, folheando o cardápio em busca de qualquer coisa que me distraísse da curva do sorriso dele.
– Ah, mas nós %Campelli% sempre fomos românticos incuráveis. – Havia uma pontinha de ironia ali, mas ele manteve o tom leve. – Já vocês, %Bhasin%...
– %Ant%, não faça eu me arrepender de pagar esse jantar para você. – Levei a mão à testa, massageando as têmporas como quem precisa de paciência extra.
Tudo isso enquanto tentava ignorar o fato inegável de que %Anthony% %Campelli% estava ainda mais bonito do que eu lembrava.
Na verdade, ele sempre fora bonito. Mas, de uns tempos para cá, parecia ter descoberto isso e decidido usar como arma. Eu dizia isso de forma completamente imparcial, claro. Só mencionava o fato ocasionalmente para Nina, só para irritar. Ela detestava que eu comentasse sobre o quanto o irmão estava gato. E, por isso mesmo, eu não perdia a oportunidade.
Meus olhos traíram-me, escorregando para seu rosto, que havia evoluído de "bonitinho" para algo perigosamente atraente nos últimos anos.
– Tá bem, fico quieto. – Ele ergueu as mãos em rendição, mas o olhar permaneceu desafiador. – Afinal, não é todo dia que tenho a honra de um encontro com a grande %Ananya% %Bhasin%. – Jogou as palavras com aquele tom casual demais para ser só brincadeira.
– Deixou de ser um encontro no momento em que você nem se deu ao trabalho de perguntar meu nome, bonitinho. – Lancei um olhar afiado por cima do cardápio, tentando ignorar o calor súbito nas bochechas.
– Se eu tivesse chegado aqui sabendo que você era
você, ainda contaria como um encontro? – Ele apoiou os cotovelos na mesa, me encarando. Ergui o rosto, arqueando uma sobrancelha. – %Ananya% %Bhasin%... – Murmurou, como se saboreasse o nome.
– Você tem um fraco pelo sobrenome %Bhasin%, isso é óbvio. – Estendi o cardápio na direção dele, desviando o olhar. Precisava de um escudo visual contra aquele olhar charmoso demais. – Espero que você deixe claro para Kiara que tudo isso foi um grande mal-entendido.
Observei seus ombros enrijecerem no exato momento em que ele passou os olhos pelo cardápio. O silêncio que se seguiu foi incômodo.
%Anthony%, além de irmão da minha melhor amiga, era também o namorado da minha prima, Kiara. Nina e Kiara, que se conheceram através de mim, se encontraram em uma festa, onde %Anthony% também estava presente. Nina os apresentou e o resto é história. Eu sabia que eles estavam juntos desde então, mas nunca me importei.
Além de não ligar para %Anthony% e seus casos de amor recorrentes, eu e Kiara tínhamos uma relação...
fraternalmente venenosa, digamos assim. Ela me irritava desde sempre. E eu, por minha vez, fazia questão de continuar retribuindo o carinho.
– Sobre a Kiara... – Ele começou, e eu logo pensei:
Lá vem bomba. – A gente terminou. Já tem alguns meses, para falar a verdade.
– Oh. Desculpa, %Ant%. Eu não sabia. – Foi sincero. Eu realmente não fazia ideia.
Nina sempre comentava o fato dos dois serem um casal inseparável e perfeito, o que me causava repulsa. Não por %Anthony%, claro. Eu nunca tive nada contra ele, %Ant% sempre foi educado e gentil comigo, meu problema sempre foi Kiara.
Kiara e sua síndrome de pobre menina rica. Kiara e sua vontade de sempre ser ou parecer superior a mim. Kiara e seu nariz perfeito e arrebitado.
– Tudo bem, sem problemas. Achei que você soubesse. – Ele levantou o braço e chamou a garçonete. – A Nina não comentou?
– Comentários sobre a vida da Kiara entram por um ouvido e saem pelo outro. – Revirei os olhos de forma tão escancarada que ele riu. Se ele quisesse falar mal dela, estava liberado. Aliás, seria um presente.
– Ah, é! Vocês se odeiam. – Ele deu uma risadinha leve, enquanto a garçonete se aproximava e anotava nossos pedidos.
– Eu não odeio ninguém. – Dei de ombros. – Ela é que não sabe lidar com as dores e delícias de ser uma %Bhasin%. – Balancei os cabelos de forma teatral.
– %Anya%, você é orgulhosa demais para o seu próprio bem. – Ele balançou a cabeça, ainda rindo.
– Quem disse isso? Kiara? – Ele assentiu, mastigando um pedaço de sua tortilla. – Ela não sabe nada sobre mim.
%Anthony% pareceu ponderar sobre a minha afirmação por um segundo.
– Na verdade, nenhum de nós sabe nada um do outro.
Não tive como discordar. Aquela era, de fato, a primeira vez que eu trocava mais de dez palavras seguidas com %Anthony%, mesmo com todos os anos de convivência indireta. Tudo o que eu sabia sobre ele vinha de comentários soltos da Nina. Quanto à Kiara... bom, ela nunca demonstrou o menor interesse em me conhecer de verdade, então eu também nunca fiz questão de deixá-la entrar na minha vida.
– Posso perguntar o que aconteceu? – Soltei, antes que meu bom senso me impedisse. Soou intrometido, mas meu espírito fofoqueiro já estava na frente, todo empolgado com o possível plot twist daquele casal que parecia inabalável.
– Eu também não sei. – Ele suspirou, pensativo, antes de continuar. – Ela pediu um tempo. Depois, pediu mais um tempo. E mais outro. E quando eu achei que a pausa fosse acabar, ela só disse que não sentia mais o mesmo por mim.
– Sinto muito. Você merecia uma explicação melhor.
– Nah, você só está dizendo isso porque é a Kiara. – Ele soltou uma risada baixa, negando com a cabeça.
– Sim, óbvio! – Rimos juntos. – Mas, sério, é melhor não comentar nada disso com ninguém. Se a Kiara descobrir que a gente jantou junto, mesmo sem planejar, vai surtar. Vai dizer que eu corri atrás de você. Não é que eu me importe com a opinião dela, mas... estou sem tempo – e paciência – para lidar com as grosserias dessa garota.
– Quando começou? – Perguntou de repente, com uma sobrancelha arqueada. Franzi o cenho, sem entender de imediato. – Esse ódio mútuo entre você e a Kiara.
Fiquei em silêncio por alguns segundos, realmente pensando na resposta. E quando falei, fui tão honesta que nem eu mesma esperava.
– Quando a gente cresceu... e ela ficou mais bonita do que eu.
%Anthony% soltou uma gargalhada tão espontânea que eu quase me assustei. Era a primeira vez que eu o via rir daquele jeito.
Kiara sempre foi pequena e bonita, com um rosto delicado, poucas expressões faciais. Delicada e graciosa, do jeito que minha mãe sempre sonhou que sua única filha fosse. Mas a mãe de Kiara era americana e, além dos traços indianos fortes, ela herdou o nariz delicado e europeu.
Se minha mãe quisesse uma filha com beleza de capa de revista, teria caçado um estrangeiro também, como o pai de Kiara fez. Mas não. Ela escolheu Adit %Bhasin%, o mais indiano dos indianos. O resultado? Eu nasci grandalhona, com cabelo demais, expressões fortes e uma aparência orgulhosamente indiana. E tudo bem. Ou quase.
Aos dezenove, tomei uma decisão que muitas meninas indianas – ou, pelo menos, algumas – sonham em tomar: coloquei silicone. Nada exagerado, só o suficiente para aposentar, de uma vez por todas, a reputação de "%Anya%-sem-peito" que me perseguiu por toda a adolescência.
Eu achava que não adiantava nada ter quadril e coxa se o decote parecia um campo plano. Então dei uma ajudinha ao meu corpo nesse pequeno "defeito de fábrica". A cintura, eu consegui resolver na base da academia e da dieta. Mas peito... peito só no bisturi.
A gora, quase chegando aos trinta, eu não me arrependia da mamoplastia, mas talvez, hoje em dia, não colocaria. A moda dos peitos naturais – que não tinha naquela época – me atraiam bastante, porém, não dá para negar que eu amava ver como minhas roupas sempre vestiam bem no decote, não importava o tipo de corte.
– Você não pode estar falando sério. – %Anthony% arqueou uma sobrancelha, descrente.
Claro que havia muito mais por trás da história, mas eu não estava nem um pouco inclinada a abrir o jogo com alguém que, até pouco tempo, dormia na mesma cama que minha arqui-inimiga.
– Acredite ou não, foi assim que tudo começou. Isso... e o fato de que ela me chamou de fascista quando comecei a trabalhar na %Bhasin%.
– Uau. – Ele soltou uma risada surpresa. – Que extremo.
Observei seu rosto enquanto o garçom nos servia os pratos. Ele parecia genuinamente intrigado e talvez um pouco impressionado.
– Pois é. Inacreditável que ela nunca tenha te contado sobre as nossas brigas épicas. – Falei, com um toque de dúvida. Eu conhecia Kiara o suficiente para saber que, se tivesse tido a chance de me pintar como a vilã da história, ela teria feito isso com prazer e riqueza de detalhes.
– Ela comentou algumas coisas, sim. Mas, sinceramente? Nunca acreditei cem por cento. – %Anthony% sorriu. – Você não me parece ser fascista... só rica. – Mordi o lábio, tentando conter o sorriso que ameaçava escapar. Não consegui. Abaixei a cabeça e comecei a mexer na comida, fingindo concentração no prato enquanto sentia o calor subir pelas bochechas. – Estou curioso. O que fez você topar um encontro às cegas? Você não é do tipo que faz essas coisas.
– E como você sabe o que eu faço ou deixo de fazer? – Rebati, lançando um olhar de soslaio.
– Acho que sei o que você
não faz. Ou o que
costuma evitar. – Ele deu de ombros, mas coçou a cabeça ao perceber que talvez estivesse errado. – Pode ser só impressão, mas você não parece ser muito fã desse tipo de programa.
– Eu também achava que você não fazia coisas assim... meio incomuns para os tempos modernos. Mas veja só: cá estamos nós.
– A vida fica mais interessante quando a gente tem histórias diferentes para contar. – %Anthony% falou com um encolher de ombros despreocupado, e eu assenti, surpresa por concordar. Enquanto eu tinha pensado nisso apenas por um momento naquela tarde, %Anthony% parecia viver por esse lema há anos. – Além disso, vai ser divertido contar para Nina como eu acabei num encontro com a melhor amiga dela.
Minha expressão deve ter denunciado o pânico que me atravessou.
– Se a Nina descobre isso, ela me apaga da vida dela em dois segundos. Você sabe o quanto ela é superprotetora com você.
– O que, aliás, é totalmente sem noção. – %Anthony% rebateu, fazendo uma careta que o deixou com cara de garoto emburrado. – E além do mais... não é um encontro de verdade.
Ah. É mesmo, pensei, mordendo por dentro da bochecha, um pouco envergonhada por ter esquecido desse detalhe por alguns minutos.
– Bom, não vamos brincar com fogo... – Tomei um gole da bebida, tentando disfarçar o fato de que minha boca estava seca demais e aquilo não tinha nada a ver com comida apimentada.
– Tem medo de se queimar, %Ananya% %Bhasin%?
%Anthony% continuou comendo como se nada estivesse acontecendo, mas seu tom provocativo causou um arrepio sutil pelo meu corpo. Os olhos verdes de %Anthony% cintilavam em minha direção despretensiosamente e isso já era o suficiente para que eu me questionasse se aquele não-encontro era uma má ou boa ideia.
– Não tenho medo da queimadura em si, – Respondi, pousando o copo na mesa – só dos
efeitos colaterais que ela pode causar.
– Ժ –
No dia seguinte, precisei de uma força sobrenatural para controlar meu próprio impulso e avidez por fofoca e não contar a Nina sobre a coincidência maluca na noite passada envolvendo seu irmão.
Jantar com %Anthony% foi mais leve e divertido do que eu esperava. Nunca havíamos passado tanto tempo a sós, mas foi surpreendente perceber como a conversa fluiu com naturalidade, como se fôssemos velhos amigos (embora, na prática, fôssemos apenas conhecidos de longa data).
Ao final da noite, percebi uma mudança no modo como ele me olhava.
%Anthony% me tratava com certa ironia, carregando um toque sutil de desprezo. Eu sabia o motivo: minha conta bancária bastante generosa. Ele sempre pareceu nutrir um preconceito silencioso com a minha origem privilegiada.
Mas depois do jantar mexicano que compartilhamos, aquele olhar dele estava diferente. Menos indiferença, algo havia suavizado naquele olhar que antes era carregado de julgamento. E, por mais que fosse sutil, talvez até uma ponta de curiosidade.
Passei a manhã inteira revisando relatórios de todos no escritório. Era um trabalho cansativo por si só, e o fato de que cinquenta por cento dos relatórios estavam simplesmente errados só tornava tudo pior. Normalmente, eu corrigiria todos os erros sozinha, mas dessa vez, os equívocos eram tantos que me recusei a assumir tudo. Em vez disso, devolvi os relatórios errados aos seus respectivos autores.
Estava exausta e uma vontade desesperadora de tomar um mojito se apossou de mim. Em geral, não era muito chegada ao álcool, mas o mojito... Eu bebia mesmo só em um dia específico: o meu aniversário.
Eu sempre amei aniversários. Não apenas o meu, mas especialmente o meu. Celebrar o meu próprio dia era algo que eu adorava. Desde os meus dezesseis anos, meus pais alugavam um hotel em uma ilha para que eu comemorasse com amigos e familiares.
Este ano não seria diferente. A ilha de Sundar, onde sempre acontecia a festa, era um local especial, com um hotel pertencente a um amigo íntimo dos meus pais, o que transformava a comemoração no evento do ano. Mas, como tudo que é grandioso, essa celebração exigia muito planejamento e paciência. Felizmente, essas eram duas coisas que eu sabia fazer bem.
Ao final do expediente, no caminho de casa, passei em frente ao restaurante Baston e me lembrei que, por causa da minha frequência no local por conta de Andreas, acabei me tornando amiga dos garçons. Não pensei duas vezes antes de estacionar e entrar. Encontrei Billy, que sempre me mimava com as bebidas não alcoólicas, mesmo que não estivessem no cardápio.
O restaurante estava lotado, como sempre nas sextas-feiras, com pessoas à procura de distração. Dei sorte de encontrar um dos banquinhos estofados do bar livre e corri para me sentar. Tirei meu iPad da bolsa e comecei a organizar a planilha de quartos reservados para os meus convidados, já imaginando os preparativos finais da festa.
Deveria ser fácil, afinal, eu organizava um setor inteiro em uma empresa. No entanto, meus avós, orgulhosos imigrantes de Mumbai tiveram quatro filhos, quinze netos e dois bisnetos, ou seja, toda e qualquer festa de família se tornava um verdadeiro Holi Festival em plena Deli.
Enquanto tateava a tela do iPad, não pude deixar de sorrir, imaginando a bagunça que seria quando meus primos se reunissem.
Senti a cabeça pesar um pouco, resultado do tempo de exposição à tela, mas me forcei a finalizar as planilhas que ainda faltavam. A distração foi suficiente para me pegar de surpresa quando uma voz surgiu do além, fazendo-me saltar do banco.
– Um Bourbon para a mesa nove, por favor. E uma dose de tequila.
Primeiro, achei a voz atraente e, logo em seguida, reconhecível. Eu conhecia aquela voz. Levantei a cabeça e me inclinei no banco para enxergar o rosto por trás do corpo de ombros largos. Me estiquei no banco, espiando por cima do ombro e lá estava ele. %Anthony%, de perfil, com aquele jeito desleixado de quem já estava no terceiro drink.
– Uísque e tequila juntos? Quer um atestado de óbito de presente? – Soltei, inclinando-me para trás na cadeira. Ele virou a cabeça, parecendo surpreso ao me ver ali, sentada e o observando com um olhar travesso.
– Sexta-feira, %Anya%. Você sabe como é. – Apoiou o queixo na mão, o cheiro amadeirado de seu perfume misturado ao Bourbon.
– Segunda vez em menos de vinte e quatro horas, %Anthony%? Vou começar a achar que você está planejando esses encontros “acidentais”. – Fiz as aspas no ar com os dedos, mantendo o olhar brincalhão.
– Droga, você me descobriu. – Ele sorriu de lado, claramente se divertindo com a situação.
Trocamos algumas palavras enquanto eu fingia que não estava observando como a luz do bar acentuava seus ombros enquanto ele se inclinava no balcão. %Anthony% me contou que, diferente de mim – que já estava acostumada a frequentar restaurantes sozinha – ele estava ali com seus colegas de trabalho. Dei uma risada ao ver a careta que ele fez ao contar isso, parecia totalmente involuntária.
– Eles são tão divertidos assim? – Perguntei, curiosa.
– Bom, estou aqui há apenas uma hora e, desde então, já fui chamado de homossexual, carente, indigente e, aparentemente, ser solteiro também é um defeito. – Soltei mais uma risada, observando sua pose enfezada, que, embora claramente frustrada com as acusações, ainda carregava um sorriso forçado. – É, estou me divertindo para caramba.
Meus dedos hesitaram no elástico do cabelo quando senti os fios escaparem do coque. Por um instante, considerei recolocá-los no lugar, mas deixei que caíssem sobre meus ombros como uma decisão silenciosa. Eu me sentia mais bonita assim. E, embora me recusasse a examinar muito de perto o motivo, sabia que aqueles olhos verdes – agora observando meus cabelos com um interesse que fazia meu pescoço queimar – tinham tudo a ver com isso.
%Anthony% %Campelli%. Solteiro.
A informação girava em minha mente como uma placa de neon piscante.
%Anthony% estar solteiro era uma verdadeira surpresa. Eu conhecia todas as namoradas dele. Ou pelo menos parecia que sim, considerando que ele tinha mais relacionamentos do que a população de Mumbai. Mas, apesar disso, ele nunca foi o tipo cafajeste.
%Anthony% não só respeitava seus relacionamentos, mas era lembrado por ser genuinamente gentil, atencioso e fácil de se apaixonar. Ele acreditava no amor em sua essência, em todas as suas formas, e se entregava a cada experiência com uma intensidade que só alguém romântico poderia ter.
– Você descreveu todos os ambientes corporativos existentes. Quer saber? Você merece essa tequila. Eu pago!
Ele ficou surpreso por um segundo, mas logo um sorriso convencido apareceu em seu rosto. Um sorriso confiante e irresistível.
– %Ananya% %Bhasin%, senhoras e senhores! – Ele exclamou, divertido. – Achei que você nunca ofereceria. – Ele virou o copo de tequila com rapidez, de uma forma meio... viril? %Anthony% %Campelli% estava um homem muito bonito, ou era impressão minha?
“Céus, eu preciso transar?”, pensei, assustada com a direção dos meus próprios pensamentos. – Eu acho que mereço uma para cada xingamento e humilhação que já passei hoje.
– Se eu disser que não, estarei mentindo. – Admitiu, visivelmente frustrado, mas com um toque de humor na voz.
– Onde você trabalha, afinal?
Eu sabia que Nina já havia me contado, mas a verdade é que nunca prestei muita atenção ao nome.
– No escritório da Wolf, Davies e...
– Martinez! Davi Martinez é seu chefe? Aquele troglodita é meu tio!
%Anthony% engasgou com o gole de uísque, os olhos arregalando-se como se eu tivesse confessado parentesco com o Voldemort.
Olhei em volta pelo restaurante, admirando a elegância do ambiente refinado e iluminado. Meu olhar parou em uma mesa longa, onde alguns homens de terno estavam reunidos. Não demorou para que eu avistasse Davi Martinez, sentado no centro, com um semblante autoritário e um sorriso de canto de boca que nunca me enganava.
– Davi Martinez é seu tio? – %Anthony% perguntou, a expressão dele era de puro espanto. E foi impossível não rir diante da surpresa dele. –Tio de verdade?!
–O quase-tio mais persistente do mundo, – Concluí, fazendo aspas no ar.– Sabe aqueles amigos da família que viram 'tio' por pura insistência? Pois é. Só faltou ele trazer uma certidão de nascimento falsificada.
%Anthony% parou por um segundo, aparentemente refletindo sobre o que eu disse, antes de soltar um suspiro exagerado de alívio. Ele colocou a mão no peito como se tivesse acabado de escapar de um grande susto.
– Eu já estava aqui, imaginando como faria para fingir que ele é o melhor patrão do mundo à sua frente, mas agora estou tranquilo. – Ele deu uma risada, tentando disfarçar o desconforto.
– Pode ficar tranquilo, não precisa fingir. Eu o conheço bem demais para saber o quão desagradável ele pode ser. Na última vez que nos vimos, ele teve a brilhante ideia de me perguntar se eu usava "burca porque já era impura". Era só um sári.
O rosto de %Anthony% mudou imediatamente. O sorriso brincalhão desapareceu e ele me olhou com uma expressão de desprezo evidente.
– Sério? – Ele perguntou, a voz tingida de incredulidade. – Que tipo de...
coisa é esse cara?
– É exatamente isso que eu sempre pensei. – Respondi, com um meio sorriso, tentando suavizar a gravidade da situação. – Davi tem esse jeito... peculiar de achar que o mundo gira em torno da visão estreita dele. E, sinceramente, ele
realmente acredita que suas opiniões são verdades universais. Não se engane, ele tem uma coleção infinita de preconceitos disfarçados de conselhos.
– Devo acrescentar “racista” à lista de adjetivos que tenho para descrevê-lo? – %Anthony% fez uma careta, visivelmente incomodado.
– Com certeza. – Confirmei, ainda de olhos atentos. Minha varredura pelo restaurante chamou a atenção do homem careca, que logo começou a andar em nossa direção. – Ele está vindo para cá. Disfarça.
– %Anya%! – Davi Martinez praticamente bradou o meu nome antes mesmo de se aproximar completamente.
A voz grossa e arrastada já entregava o estado em que ele se encontrava. Quando finalmente chegou perto, sua presença se impôs com um bafo etílico que podia ser sentido a um metro de distância. Ele não estava bêbado o suficiente para desmaiar ou causar um escândalo, mas aquele tipo de embriaguez que tornava tudo mais... incômodo.
Tentei sorrir, mas meu desconforto era evidente para qualquer um com olhos minimamente atentos. A verdade é que eu nunca gostei muito do tio Davi. Ele era amigo de longa data do meu tio – irmão do meu pai – e frequentava nossas festas desde que eu era pequena, mas nunca tivemos intimidade de fato. E se o meu papa, sempre tão educado e ponderado, deixava claro que não gostava dele, quem era eu para contrariar?
– Titio! – Exclamei, exagerando no tom infantilizado da voz. Aquela personagem mimada sempre funcionava como armadura social. Ao meu lado, %Anthony% revirou os olhos de maneira dramática e sua ironia foi tão expressiva que quase ri. No impulso, chutei seu tornozelo discretamente sob o balcão.
– O que está fazendo aqui sozinha? – Perguntou, apoiando-se no balcão com uma lentidão calculada, mas falha, como se quisesse parecer casual, mas estivesse lutando contra a própria gravidade.
– Não estou sozinha, veja só. – Completei, com um sorriso forçado.
Era evidente que essa era a única razão para ele ter se aproximado. A curiosidade o corroía por dentro desde que nos avistou conversando. Davi nunca resistia a uma chance de exercer controle, nem que fosse só para marcar território em espaços onde ele achava que sua presença deveria ser sentida.
– Ah, que ótimo. – Davi comentou, tentando manter um sorriso no rosto, mas sua expressão deixava claro que ele não se sentia tão entusiasmado assim. – Se conhecem? – Davi perguntou, com aquele tom casual forçado de quem já vinha remoendo a pergunta desde que nos viu juntos.
– Sim, há bastante tempo, devo frisar. – Respondi com doçura exagerada, pousando uma das mãos no ombro de %Anthony%. Ele me lançou um olhar de surpresa, franzindo o cenho em confusão.
Davi nos encarou com intensidade, como se pudesse extrair a verdade com os olhos.
– Ah, isso explica. – Disse, balançando a cabeça lentamente. – Se eu não conhecesse bem o %Campelli% aqui, até ficaria preocupado.
Semicerrei os olhos, desconfiada do que ele queria dizer. Mas bastou o modo como ele sorriu, torto e satisfeito, para eu entender a insinuação. E senti o estômago revirar de repulsa.
Olhei para %Anthony%. Ele desviou o olhar imediatamente, desconfortável. Não só por mim, mas também por ele. Era óbvio que Davi estava sendo hostil, disfarçando o veneno em sarcasmo.
– Não entendi. – Falei, seca.
– %Anthony% é meio que nossa mascote na empresa. Não representa ameaça alguma. Como poderia, não é mesmo?
Eu e %Anthony% nos entreolhamos, incrédulos. Ele parecia querer enfiar a cabeça dentro do copo. E eu... bem, eu tinha um talento quase incontrolável para reagir por impulso diante de injustiças.
%Anthony% e eu nunca fomos íntimos, mas havia respeito, sustentado pela minha amizade com Nina. Esse pacto silencioso nos mantinha ligados. Quando percebi os olhares debochados vindos da mesa dele, uma ideia surgiu. Rápida, certeira e capaz de calar aqueles sorrisos.
E irônica, considerando o contexto da noite passada.
– %Anthony% realmente não oferece mal algum. Foi por isso que eu o escolhi. – Abandonei o tom mimado de minutos atrás e usei minha voz firme, a voz que eu usava em audiências e reuniões. Davi ergueu uma sobrancelha, intrigado. Virei-me ligeiramente para %Anthony% e perguntei, com uma inocência ensaiada: – Você não contou?
Por dentro, eu implorava:
Não estraga. Vamos, %Anthony%, só uma vez, entra na dança comigo. Me ajuda a deixar esse babaca desconcertado. – Anh... não...? – %Anthony% respondeu, visivelmente confuso, mas com uma fagulha de entendimento nos olhos.
– Por que não contou? – Continuei, encostando de leve na lateral de sua cintura, como se o toque pudesse lhe passar confiança. Não tive coragem de apertar. Tocar %Anthony% daquele jeito, mesmo que fosse atuação, me deixou estranhamente tímida. – O problema, tio, é que eu não sei se %Anthony% me leva a sério...
– Não sabia que você estava namorando, %Anya%. – Davi retrucou, com a voz grave, lançando um olhar fulminante para %Anthony%.
– Pois é. A verdade é que estou à espera de um pedido, tio, se é que me entende. – Pisquei de leve. A mentira saíra com uma facilidade assustadora. E, ao contrário do que imaginei, não senti culpa. Só alívio por ver o desconforto brotando no rosto de Davi. – Titio... será que pode nos dar licença por alguns segundos?
Davi revirou os olhos, obviamente não acreditando na minha mentira. Ainda assim, riu e levantou as mãos, teatral, como se estivesse se rendendo.
– Claro, claro. Vou deixar vocês dois pombinhos conversarem. – Disse com escárnio antes de se afastar com passos lentos, lançando mais um olhar crítico para %Anthony%.
Assim que ficamos a sós, o ar pareceu mudar de densidade. O silêncio que se instalou foi incômodo por um segundo, não por causa dele, mas por mim. Eu tinha acabado de fingir que estávamos em um relacionamento. E, apesar de ter sido por um bom motivo, agora me sentia absurdamente exposta.
– Você enlouqueceu? – %Anthony% murmurou, olhos arregalados, a voz oscilando entre pânico e riso.
– Ele foi petulante, cínico e ainda te tratou mal. – Cruzei os braços, sentindo a indignação pulsar na pele.
– Ele sempre me trata assim. – Retrucou, como se isso bastasse.
– %Anya%... Eu não aceito, eu sobrevivo. Ele é meu chefe. Paga minhas contas. Eu não tenho muitas opções. – Passou as mãos pelo rosto com força, bagunçando ainda mais o cabelo castanho. Estava à beira do desespero, perdido... e, para meu azar, bonito demais até nesse estado. – Ótimo. Já era. Ele vai me demitir. Me ferrar. Nunca mais vou pegar um caso. – Resmungou, mais para si do que para mim.
– Relaxa. É bem possível que você seja promovido.
– Eu conheço homens como ele. Cresci cercada deles. Davi não valoriza competência, valoriza imagem. Agora que acha que você está comigo, isso te torna útil. Ele pode ser tóxico, mas sabe fazer política. Vai querer você por perto. – Notei o medo em seu olhar e acrescentei: – Meu pai sempre diz: “Eu não inventei o jogo, só aprendi a jogar.” E, sinceramente, eu sou ótima jogadora.
%Anthony% me encarou por um instante longo, como se tentasse me decifrar. Então, soltou um riso curto, quase resignado.
– Obrigado por me defender, de verdade. Mas, sinceramente, não vale a pena. Eu sei lidar com ele. Não é grande coisa. – Respirou fundo, mais leve agora. – Tá... não sei se você acabou com minha carreira ou salvou minha vida, mas... valeu, %Anya%. Eu acho.
– Vou ao banheiro enquanto você decide se me agradece ou me mata. – Anunciei, num tom despreocupado.
Recolhi minhas coisas do balcão e segui até o banheiro, sentindo o peso da tensão apertar minha nuca e meus ombros. Joguei um pouco de água fria no pescoço, como se isso fosse suficiente para lavar a situação caótica que eu mesma tinha provocado. Respirei fundo algumas vezes, tentando reencontrar meu eixo.
Dei um aceno rápido para Billy e paguei a conta, deixando uma gorjeta generosa. Ele retribuiu com um sorriso cúmplice. Com passos firmes, atravessei o bar em direção à mesa onde os homens ainda conversavam. %Anthony% foi o primeiro a me notar e enquanto eu me aproximava, nossos olhares se cruzaram.
– Te vejo depois? – Murmurei, parando bem perto dele. Nós estávamos tão próximos que eu senti o cheiro dele me envolver e como se fosse um gatilho, senti vontade de beijá-lo. E sabe o que eu fiz? Beijei. Ok, não chegou a ser um beijo, mas foi um selinho demorado o suficiente para que eu sentisse a forma exata dos lábios dele contra os meus. – Ótimo, me liga.
A mesa inteira nos observava em silêncio. Olhei para cada um deles, todos me observando com uma expressão mista de espanto e admiração, incluindo %Anthony%. Homens podem ser incrivelmente previsíveis, mas ainda assim conseguem inflar um pouco o nosso ego. Satisfeita com o efeito causado, virei para Davi e, com um sorriso, me despedi: – Titio, é sempre um prazer revê-lo. Espero vê-lo no meu aniversário. Boa noite, rapazes. Juízo.
E então simplesmente me virei e fui embora.
Por que, veja bem, por trás da minha timidez sempre houve uma coragem discreta, paciente, que aparecia quando eu mais precisava e que me permitia ocupar espaço com uma confiança talvez ensaiada, mas convincente o bastante para enganar qualquer um.
Sim, eu era tímida. Sim, eu carregava consciência de classe. Eu era uma herdeira mimada que adorava atenção? Absolutamente.
Nada me divertia mais do que desestabilizar homens que acreditavam que o mundo girava ao redor deles e que se julgavam superiores a mim só por serem homens.
– Ժ –
–
%Ananya%, não corra na escada! – Ouvi a voz grossa de meu pai soar de algum cômodo distante de onde eu estava.
– Não estou correndo! – Rebati, gritando de volta.
Eu ainda morava com meus pais e não, isso não era um problema. Nunca foi. Como filha única, morar com eles numa casa grande mais parecia um arranjo cinco estrelas com café da manhã incluso, lavanderia express e afeto ilimitado.
Meu quarto e meu escritório ocupavam praticamente o terceiro andar inteiro, então dava até para dizer que eu tinha meu próprio apartamento, só que com gente lá embaixo que me amava incondicionalmente e fazia biryani quando eu tinha um dia ruim.
Pois minha mãe, Anjali, podia ser muita coisa, mas nunca tinha me negado um biryani sequer.
Meus pais são indianos, o que, na teoria, significaria superproteção nível hard, do tipo que rastreia o GPS do filho e já tem três pretendentes engatilhados caso o namoro atual fracasse. Mas os meus não seguiam esse roteiro. Eles preferiam fingir que eram o clichê só para manter a tradição viva entre os parentes, mas por dentro eram surpreendentemente tranquilos.
Claro que de vez em quando rolava uma chantagem emocionalzinha básica. Um “você podia jantar com a gente hoje, seu pai até botou a camisa florida que você gosta”. E lá ia eu, vencida pela fofura e pela promessa de samosas.
Então sim, ainda morar com eles e ser, com todas as letras, filhinha de papai e mamãe, era um privilégio com gosto de lar. Uma dessas bênçãos que a gente finge que não valoriza para manter a pose, mas que, no fundo, sabe que é um dos maiores confortos da vida adulta.
Adentrei a grande cozinha em busca de ingredientes para um pequeno jantar fácil e rápido, mas como acontecia quase toda noite, eu desisti no primeiro contratempo e procurei por um restaurante na lista de delivery que eu deixava escondida em uma das gavetas do armário embutido. Fui para a sala de estar enquanto fazia meu pedido e encontrei meus pais no cômodo.
– Ok, você pode acrescentar quatros samosas? – Pedi para a atendente enquanto fazia um sinal de espera com as mãos em direção aos meus pais. – Obrigada. Ah, Deus abençoe o delivery! – Brinquei, me jogando no sofá.
– Como se nossa cozinha não tivesse todos os ingredientes para você fazer samosas. – Mama reclamou enquanto se olhava no longo espelho grudado em uma das paredes. Ela usava um vestido preto que poderia ser considerado simples, mas por cima, ela usava um sári amarelo e rosa lindíssimo, combinando com os ornamentos em seu cabelo preto.
– Temos os ingredientes, mas não temos a mão de obra.
– Como se não tivéssemos empregados... – A mulher rebate, mas eu ignorei, ligando a televisão e começo uma busca pelos canais. Sentado em uma poltrona, meu pai passava os olhos de maneira rápida em seu celular até que notou que eu o olhava, esperando que ele sorrisse de volta.
Meu papá era meu melhor amigo. Gostava de bancar o severo, o patriarca indiano tradicional que fazia cara feia para os erros e levantava a sobrancelha para qualquer ousadia, entretanto, bastava estarmos em casa, longe do olhar dos outros, para que Adit %Bhasin% deixasse cair a máscara e revelasse o coração doce por trás do bigode meticulosamente aparado.
Ele, em mais de uma ocasião, me defendeu da minha mãe como um escudo humano, com frases épicas como: “
Anjali, ela só cortou o cabelo, não declarou guerra ao país”. Com ele,a intimidade vinha natural.
Com minha Maa... bem, a história era outra. Eu me sentia como uma funcionária em avaliação constante.
Era como atravessar um campo minado: eu sabia que minha dificuldade em me abrir com Anjali %Bhasin% não era culpa dela, mas da minha certeza de que, antes de qualquer confissão, viria o veredito. Ela me amava – disso eu nunca duvidei – mas amava ainda mais o ideal de filha perfeita que criou em sua cabeça, e, para a infelicidade de ambas, essa filha não era eu.
Aos dezoito anos, abandonei o script
dela e segui o
meu, com teimosia e um pouco de cafeína: formei-me com honras em Economia, emendei dois mestrados e ainda cogitava um doutorado. Mas, mesmo no dia da minha formatura – aquele que deveria ser o ápice do meu triunfo pessoal – tudo o que consegui de minha mãe foi um olhar de quem parecia estar diante de uma exposição entediante de planilhas. Um misto de tédio, decepção e, talvez, um pouco de repulsa.
Mas, apesar da convivência tensa, havia um tipo de afeto entre nós. Um cuidado que não se dizia, mas se notava em pequenos detalhes, como o chá que ela deixava no meu quarto quando eu virava a noite estudando ou a forma como mandava flores no meu aniversário, mesmo depois de uma discussão.
Porque, no fundo, Anjali me amava. Só não sabia demonstrar isso sem parecer que estava prestes a demitir alguém.
– Estão arrumados. – Comentei.
– Temos aquele jantar de comemoração ao título, lembra? O que você deveria ir e recusou o convite? – Sorri amarelo em direção a ela. – Tem planos para hoje, filha?
– Por que eu teria, maa? – Levantei a cabeça, desviando o olhar da tela da televisão e encarei meus pais, arrumados de maneira fina e elegante demais.
– Bom, é sexta–feira. – Respondeu. Deu uma batidinha no ombro de Adit, forçando-o a ficar de pé e arrumando sua gravata.
– E desde quando eu saio nas sextas?
– É verdade,
djan. Ela não sai nunca, muito menos nas sextas. – O homem zombou, mexendo no bigode.
– Ei! – Reclamei, puxando uma almofada e joguei em sua direção. – Para ser sincera, hoje eu dei uma passada no Baston. Encontrei o tio Davi, inclusive. – Papá rolou os olhos com a menção ao nome do homem, fazendo com que eu e mamãe déssemos risadas com a reação negativa. – Além do mais, o que tem de errado em gostar de ficar em casa?
–Absolutamente nada, Madhu.– Minha mãe respondeu, mas os olhos dela percorreram meu moletom manchado de café como se fosse um crime de guerra. –Seu pai só está implicando. Mas não pense que isso significa que não nos preocupamos. – E então veio a cutucada habitual. –Você pelo menos saía quando namorava o Andreas.
Ah, claro. O Andreas. Quase um ano separados e minha mãe ainda o trazia à tona como quem esfrega sal em uma ferida cicatrizada. Não era nem por saudade dele, eu suspeitava, mas pela conveniência que ele representava: um namorado de pedigree, de bom gosto e que me levava para jantares caros com nomes impronunciáveis no menu.
–Ah, sim, nossas aventuras épicas... Jantares em lugares onde uma salada custa um rim, seguidos de filmes russos de cinco horas sobre camponeses filosofando na neve. Uma verdadeira orgia de emoções. – Respondi, fingindo entusiasmo.
Até hoje não sei o que era mais entediante: ele ou a filmografia de Tarkovsky.
–O ponto é que você saía. Agora? Nem seus amigos aparecem. Nem a Nina, que adorava vir aqui...
–Trabalho todos os dias, sabia? E, pasme, gosto da minha própria companhia. Isso é tão anormal assim?
Ela suspirou, erguendo as mãos em rendição falsa e saiu da sala com um olhar que dizia "estou desistindo de você".
Meu pai, que observava tudo do sofá com a mesma expressão que usava para assistir debates políticos, se aproximou em silêncio. Passou a mão pelos meus cabelos como fazia desde que eu era pequena, num gesto que ainda conseguia me desarmar.
–Não há nada errado em preferir solitude,
madhu.–A voz dele era tão morna que doía. –Só nunca confunda isso com solidão.
Virei-me para encarar seus olhos escuros, onde sempre havia respostas: –E como eu faço essa diferença?
– Se a paz do silêncio começar a parecer barulho, se o conforto da sua companhia começar a pesar... é hora de olhar mais fundo. Solitude é escolha. Solidão, às vezes, é um pedido de ajuda.
As palavras dele ecoaram em minha mente, e percebi que, embora eu estivesse satisfeita em minha solidão, havia uma linha tênue entre estar confortável sozinha e sentir-se isolada.
Foram esses os sentimentos que encontrei dentro de mim naquela noite, depois que
papá saiu pela porta, deixando no ar não só o cheiro suave do incenso que ele tanto gostava, mas também todas aquelas reflexões que ele, com poucas palavras, havia despertado.
Aquela tinha tudo para ser apenas mais uma noite rotineira, daquelas em que o silêncio pesa um pouco, mas não o suficiente para incomodar. No entanto, ele me fez pensar. E pensar demais nunca foi minha atividade favorita.
Naquela noite, depois do jantar, abandonei qualquer tentativa de ser produtiva e segui direto para o quarto. Me livrei do salto, do brinco, do dia. Tomei um banho demorado e, já de camisola, sentei no canto da janela antes de engolir os dois comprimidos de sempre.
As luzes da cidade brilhavam ao longe, tímidas por trás dos muros altos e dos jardins bem cuidados da nossa casa. Eu não via muito dali, mas o suficiente para sentir uma paz que só vem quando a gente observa de longe aquilo que não precisa tocar. Fiquei ali por um tempo, sem pressa, apenas respirando como quem espera que alguma resposta venha com o vento.
Mas naquela noite, nenhuma resposta veio. Só o sono e um vazio que eu ainda não sabia nomear.
Talvez fosse uma questão de hábito. Tem gente que cultiva peculiaridades muito mais excêntricas. Eu, por outro lado, era só uma mulher caseira e pacífica, com um gosto peculiar por listas de tarefas, chá de camomila e silêncio. E, sinceramente? Eu estava bem com isso. Conhecia meus limites, minhas prioridades e a maturidade me trouxe o conforto de saber exatamente o que eu queria da vida ou o que eu definitivamente não queria.
Ainda assim, havia noites – como aquela – em que a solidão se sentava comigo no parapeito da janela, cruzava as pernas e começava a me encarar em silêncio.
Não era como se eu nunca me perguntasse se havia algo de errado comigo ou com o rumo que eu estava tomando. E eu sabia – ainda que não gostasse de admitir – que o término com Andreas tinha tudo a ver com isso.
Andreas Buppha e eu tínhamos terminado há pouco mais de um ano. E aquele seria nosso primeiro aniversário separados. Nos dois anos de relacionamento, fomos mais companheiros do que apaixonados, mais cúmplices do que íntimos. As famílias estavam em festa desde que dissemos “sim” para aquele namoro. Ou melhor, desde que não dissemos “não”.
Andreas era o sonho de qualquer mãe de classe alta: atlético, educado, absurdamente bonito e com cabelos tão sedosos que eu suspeitava de um pacto com alguma entidade capilar. Tinha o charme dos que leem Foucault por prazer, bebem vinho como quem julga rótulo e citam Tarkovski em conversas casuais.
Mas, sendo bem honesta? Nem sempre eu queria uma conversa refinada. Às vezes, eu só queria comentar o novo reality da Netflix em paz, rir de memes ruins, comer miojo na panela e ter vontade de arrancar a roupa de alguém. E com Andreas… nada disso acontecia.
A vida sexual, por exemplo, era... simbólica. Tão simbólica que, em dois anos de namoro, o clímax foi mais emocional do que físico e aconteceu uma única vez. Andreas era lindo, musculoso, gentil... e zero tesão. Não dava para explicar.
Era como ter um quadro do Michelangelo pendurado na sala e nunca poder tocar.
Mas não posso negar que, ainda assim, ele foi um bom namorado. Me ajudou em momentos difíceis, me apoiou em crises familiares e profissionais e demonstrou um carinho genuíno, mesmo que sempre com uma certa frieza elegante. Não foi meu primeiro amor, mas foi, com certeza, o mais funcional. E talvez por isso fosse tão estranho não sentir falta dele. Eu não sentia falta
dele. Sentia falta de
ter alguém. E sexo. Eu sentia muita falta de sexo. Aquele espontâneo, divertido, sem filtro de luz ou trilha sonora conceitual.
Olhando para as horas em meu relógio de parede, vi que já era quase uma da manhã. E, como todo ser humano que já perdeu o sono em pleno início de sábado, comecei a imaginar a vida dos outros. Um clássico. O que será que estavam fazendo as pessoas que eu conhecia?
Será que a Rebeca finalmente tomou coragem de mandar mensagem para o ex ou ainda estava deitada com a cara afundada no travesseiro e um filme dramático rodando em loop? Será que o Andreas estava em algum restaurante conceituado tomando um vinho que parece suco de beterraba e discutindo teorias existencialistas com gente igualmente bonita e sem olheiras? A minha prima que casou por conveniência social estaria dormindo de lado, as costas viradas para o marido que não amava?
E será que alguém também estava olhando para a cidade pela janela, exatamente como eu?
Foi quando, entre tantos pensamentos confusos, enquanto me enfiava entre os lençóis e afundava a cabeça no travesseiro tentando convencer meu cérebro a desligar, um nome surgiu com um brilho inesperado:
Me peguei imaginando como teria sido o restante da noite dele. Teria voltado para casa resmungando sobre a minha teimosia? Teria feito uma videochamada para algum amigo para contar sobre a aberração que conheceu? Ou teria simplesmente me esquecido assim que saiu da minha rua e voltado à sua vida normalmente?
Suspirei. Apesar do travesseiro não responder às minhas perguntas existenciais, naquela noite, ele me ofereceu um silêncio mais gentil. Um silêncio com nome, sobrenome… e olhos verdes.