Capítulo 3
Rosana acreditou estar tendo uma alucinação, afinal, quais as chances de o italiano “
maledeto” que tinha arruinado suas chances de sucesso na empresa estar bem ali no mesmo cinema onde ela havia ido com a sua irmãzinha e ainda passando na sua frente para comprar os ingressos! Realmente, ele era muito abusado! A herdeira não queria brigas, mas não se aguentou. Em meio a um pigarro, ela comentou:
— Então quer dizer que além de arruinar projetos alheios, você também é fura fila?
Matteo olhou para trás reconhecendo a voz.
—
Buona sera, signorina Rosana — Sua voz saiu fria, enquanto ele lutava para não dar um sorriso, afinal, mesmo sendo irritada e impulsiva, Matteo precisava admitir que a jovem tinha seu charme.
— Não me venha com essa. Primeiro você me humilha na frente dos outros acionistas fazendo meu projeto ser negado e agora ainda passa na minha frente no cinema? — Ela cruzou os braços.
Matteo pediu licença à moça do caixa e caminhou até a garota de cabelos castanhos e olhos cristalinos.
— E o que a
signorina vai fazer? Jogar pipoca em mim? Como jogou café? — indagou perto o suficiente para que ela pudesse sentir sua respiração.
— Para a sua
informacione,
io no furei
la fila, eu já estava
qui, ma tive que atender o telefone e pedi à gentil moça do caixa para
guardare il mio lugar.
— É verdade — confirmou a moça do balcão, pelo visto escutando a conversa, que não era muito difícil considerando o volume da voz angelical do italiano marrento.
Rosana suspirou em desânimo.
— Tudo bem, vai lá terminar de comprar o seu ingresso, não quero mais problemas.
Contudo, antes que Matteo pudesse se encaminhar de volta à bilheteria, Angélica retornou curiosa…
— Rosana, que gritaria foi essa? Eu consegui escutar lá do balcão. Ah, quem é seu amigo?
— Angélica, ele não é meu amigo.
—
Piacere. Tu sei una bella ragazzina.
A herdeira caçula arregalou os olhos confusos, enquanto colocava um pouco de pipoca na boca.
—
Ragazzina, o que é isso?
— Significa menininha, minha irmã — explicou Rosana de maneira paciente.
— Ah, sim. Mas eu já sou uma pré-adolescente. — A fala fez os dois adultos caírem na risada
—
Ecco, mi dispiace! Io sono Matteo, molto piacere! — Prazer, espera, Matteo? Rosana, por acaso esse é o italiano de olhos brilhantes de quem você falou? — A herdeira mais velha sentiu as bochechas corarem e uma vontade imensa de desaparecer.
— O quê? De onde você tirou isso, Angélica? — A voz de Rosana saiu em tom de ameaça. — Crianças, elas têm cada uma.
— Já disse que não sou criança e não inventei nada, essas foram as suas exatas palavras.
Matteo caiu na risada com a discussão das duas irmãs e no fundo ficou contente de saber que Rosana achava seus olhos brilhantes, afinal o italiano pensava o mesmo da garota que tinha jogado café em sua cabeça mais cedo, não podia negar.
— Certo, agora vocês já se conhecem, mas agora deixa o Matteo comprar o ingresso dele, está bem?
— Espera, ele está sozinho? Cadê a sua namorada?
Foi a vez de Matteo corar, enquanto colocava as mãos no bolso pensando em como responder à pergunta indiscreta.
—
Io non ho una namorata, segnorina.
— Sério, bonito desse jeito?
— A senhora me acha
bello? — indagou Matteo.
— Claro, e a Rosana também, não é, Rosana?
Ao chegar em casa com certeza a jovem teria uma longa conversa com sua irmãzinha sobre discrição e comportamentos constrangedores.
— Muito bem, Matteo, se puder ir logo, o nosso filme já vai começar.
— Espera, pelo visto você não vai ter tempo de comprar pipoca. Quer um pouco da nossa? — Angélica esticou o pacote em suas mãos.
— Que filme você vai assistir?
Matteo demorou um pouco para dar a resposta.
— Não brinca! A gente também. Quer dizer, a Rosana queria assistir uma comédia romântica chata e melosa, mas eu convenci ela. Ah, eu tive uma ideia, por que vocês dois não compram os ingressos juntos e o Matteo senta com a gente, já que ele está sozinho?
Outra vez Rosana quis esganar a irmãzinha.
— Eu não sei se o Matteo vai querer, Angélica.
— Ah, por favor. Vai ser legal ter alguém que veio assistir ao mesmo filme que eu por vontade própria do meu lado para variar. O que me diz, Matteo?
O rapaz suspirou vendo que não havia outra opção, ele não podia desapontar Angélica, até porque ela o lembrava muito de sua própria irmã. O problema seria ficar perto de Rosana por tanto tempo. Quando viu a garota pela primeira vez na empresa, ele sentiu seu coração bater mais forte desde o divórcio, com seus cabelos marrons ondulados presos em um rabo de cavalo e seus olhos azuis cristalinos, a jovem chamou sua atenção, por isso, quando a viu de cabeça baixa, foi até lá oferecer ajuda. Mesmo que ela tenha sido grossa depois e ele tenha passado a tarde tentando tirar todo o café do cabelo, o italiano não podia negar que de certa forma se sentia atraído por ela. Porém, Rosana havia deixado bem claro que o odiava. Matteo não queria ter falado mal do projeto dela, mas precisava defender seus interesses, mesmo que isso custasse a oportunidade de conhecer a garota melhor e de afastá-la para sempre.
Contudo lá estavam os dois prestes a entrarem na mesma sala de cinema acompanhados da irmãzinha dela. Talvez ele tivesse a chance de mostrar a Rosana que não era o carrasco que havia humilhado mais cedo.
Assim, os jovens caminharam em direção à bilheteria e pediram três ingressos. Ambos tiraram a carteira no mesmo instante.
— Não, imagina, eu trouxe dinheiro para isso.
— Rosana,
per favore, me deixa fazer isso, é o mínimo depois de hoje.
Novamente, a herdeira mais velha conseguiu enxergar gentileza nos olhos brilhantes do italiano.
— Tudo bem, mas é a última vez.
— Até porque duvido que iremos ao cinema juntos de novo, não é?
Matteo sentiu uma dor em seu peito quando as palavras de Rosana ecoaram em seus ouvidos.
—
Ecco. — Ele colocou um sorriso falso nos lábios.
Enquanto caminhavam para a sala, Rosana pensava em como era estranha a sensação de ter mais alguém na tradicional sessão de cinema, até porque sempre havia sido só ela e Angélica por tanto tempo. Bom, a jovem tinha certeza de que se sua mãe estivesse viva estaria ali também, mas como infelizmente não era o caso, ela quem se encarregava de garantir à caçula momentos de diversão com uma figura feminina.
—
La tua sorella é uma graça! — Matteo interrompeu seus pensamentos.
— A Angélica é um doce de menina e você gosta do mesmo filme que ela — Provocou fazendo o italiano dar uma risada.
—
Ecco, mas eu ainda acho Lisa Belinha melhor do que comédias românticas. — Matteo cruzou os braços devolvendo a brincadeira na mesma medida.
— Não me surpreende que você não goste, afinal, para apreciar um belo romance é preciso ter sensibilidade, algo que pelo jeito você não tem. Como chamou meu projeto mesmo, ah é, uma piada. — Matteo suspirou cansado.
—
Ma io ho olhos brilhante,
non e vero? — provocou fazendo o coração de Rosana sair pela boca.
— Você é mesmo muito abusado. — Rosana torceu para que ele não reparasse em suas mãos trêmulas.
—
Cierto. Já vi que a
signorina não vai me perdoar tão cedo, mesmo
io tendo dito que
non era nada pessoal,
ma será que podemos assistir a esse filme em paz, pela tua
sorella.
Rosana pensou enquanto mexia nos cabelos. Uma forma inconsciente de exibir seus cachos para o italiano de olhos brilhantes que estava ao seu lado, mas se alguém perguntasse, ela nunca iria admitir que ainda se sentia atraída por ele.
— Tudo bem, temos um acordo! — A herdeira esticou a mão.
— Ótimo! — Matteo a cumprimentou sem saber que um simples toque de mão era capaz de fazer os pelos de seu corpo se arrepiarem por inteiro.
A sala de cinema, como esperado, estava lotada por meninas da idade de Angélica ansiosas por ver o filme da Lisa Belinha. Em meio às fileiras, os três encontram seus assentos. Antes de mais nada e com medo de ficar ao lado de Matteo por duas horas, Rosana foi logo indagando:
— Angélica, você quer sentar no meio? — Ela lançou um olhar discreto para a irmã que dizia: Por favor, aceite.
Contudo, a pré-adolescente, ao invés de concordar, exibiu um sorriso malicioso antes de responder:
— Rosana, você sabe que eu me dou melhor no canto e você vem sempre comigo, hoje quero ficar perto só do Matteo!
Pela quinta vez naquela noite ela quis esganar a garotinha de cabelos negros que parecia fazer de propósito. A herdeira mais velha então, vendo que não teria escolha, deu um longo suspiro.
— Tudo bem, como você quiser… — Sua feição, todavia, mostrava que teriam uma longa conversa quando chegassem em casa.
Assim ela sentou ao lado do italiano maldito que havia destruído seus sonhos mais cedo, mas tinha um sorriso angelical e olhos brilhantes, ela não podia negar.
— Eu acho que ela faz de propósito — cochichou para Matteo, enquanto sentia o cheiro de café que ainda estava impregnado em seu cabelo.
— O que,
signorina? — Matteo a encarou de volta enquanto comia um pouco de pipoca oferecida por Angélica.
— Ela sabe que não te suporto e por isso me fez sentar ao seu lado. — Ela cruzou os braços. — Droga, eu quero um pouco de pipoca também e vai ser difícil pegar.
—
Non seja por isso,
signorina Rosana.
Matteo enfiou a mão no pote de Angélica e apenas alguns segundos depois, estendeu o punhado de pipoca em direção a Rosana.
Outra vez Matteo exibiu sua gentileza, quase a fazendo se esquecer da humilhação que o mesmo a havia feito passar mais cedo, contudo, Rosana não era assim de ceder tão fácil, até porque, seu sonho valia muito mais do que dois ingressos para cinema e um punhado de pipoca.
Com receio, Rosana esticou as mãos fazendo elas tocarem as de Matteo. Suas mãos eram quentes e macias, por alguns segundos ela imaginou como seria passar aquelas duas horas sentindo todo aquele calor, mas logo voltou a si e depois pegou as pipocas de maneira lenta.
—
Grazie — cochichou não disfarçando o sorriso.
—
Non há de que,
signorina.
— Por favor, para com esse negócio de
signorina, não sei, parece coisa do século passado, me chama só de Rosana, eu prefiro.
Foi a vez dos lábios de Matteo se levantarem em alegria, talvez não fosse tão impossível derreter aquele coração de gelo afinal.
—
Cierto, só Rosana, eu gosto, é um nome bem bonito.
O poder que o italiano tinha de fazer suas bochechas queimarem, se mostrava cada vez mais infalível.
— Minha mãe escolheu quando eu nasci, ela era louca por rosas! — exclamou enquanto se deliciava com as lembranças da mãe a levando para passear no jardim e ver todas as flores que desabrochavam sob suas cuidadosas mãos.
—
Que bello e dove stai la tua mamma? Rosana sentiu uma pontada no peito com a pergunta.
— Ela… se foi, quando eu era bem novinha. — A garota de cabelos castanhos se limitou a responder.
Matteo arregalou os olhos enquanto fitava os olhos tão belos, mas tristes, de Rosana. Pelo visto, falar da mãe era um assunto bem doloroso, ele podia imaginar o que a jovem ao seu lado havia sofrido. Perder seu pai foi a maior dor que sentiu em toda a vida. De alguma forma, ele se identificava não somente pela perda de Bartolomeu, mas também porque já que sua mãe Leonora e a irmãzinha Paola, haviam ficado na Itália e queria consolá-la, afinal, por algum motivo não suportava ver aqueles lindos e hipnotizantes olhos verdes daquele jeito, não, queria vê-los alegres, em uma festa ou quem sabe depois de um beijo apaixonado… Agora ele estava sonhando demais,
—
Io sento, Rosana, Io Non sapevo.
— Tudo bem. Obrigada. Mas e os seus pais?
—
Mio padre no estai mas e tre Noi… — Eu estou sabendo… e sinto muito — afirmou se lembrando das revelações de seu pai.
Matteo arregalou os olhos e lançou um olhar malicioso que era bastante sedutor.
—
Grazie, no ha sido facile, ma então lá segno… quer dizer, tu já
pergontato de me por aí?
— Eu… bom não vá se achando, italiano, mas e o resto da sua família?
—
Se han quedado en Italia — afirmou nem sequer lembrando da tela à frente.
— Nossa, deve sentir muita falta deles.
—
Si io sento molta falta della mia mama e de la mia sorellina.
In Verità Io Io ho escolhido questo film perché mia sorella is gostar… Rosana ouvia admirada, mesmo com apenas duas frases, dava para perceber o quanto Matteo se importava com seus entes queridos e o quanto sofria por estar longe deles, de certa forma esse lado família do italiano era fofo. Por um instante ela se sentiu mal por ter zombado de sua escolha.
— Mas se todos estão lá, porque você veio para o Brasil?
Matteo suspirou tentando afastar as lembranças de Giuliana chorando enquanto arrancava o anel de seu dedo. Vê-la partir fez seu coração doer e sua vida parecer sem sentido, afinal era louco pela esposa, mas esta preferiu deixá-lo por uma aventura…
— Tudo que
Io poso desire é que eu precisava de um recomeço…
Contudo, antes que Rosana pudesse responder, Angélica virou para o lado com uma cara fechada.
— Ei, vocês dois, eu estou tentando prestar atenção no filme aqui.
A fala fez Matteo e Rosana caírem na risada de uma maneira leve.
Matteo a encarou fascinado pensando há quanto tempo não ria daquela maneira. Angélica era uma garota doce que o lembrava sua irmãzinha de diversas maneiras e Rosana, essa ainda era um mistério, mas um mistério que ele teria um enorme prazer em desvendar
—
Mi dispiace bella ragazza, vamos a guardare il film, non è Rosana? — O italiano pegou mais um punhado de pipoca.
A garota o fitou de uma maneira diferente, parecendo enxergar novamente o homem gentil que a havia incentivado mais cedo, não alguém que arruinou seu sonho e por algum motivo a luz dos olhos de Matteo pareciam ainda mais reluzentes aí em meio à escuridão.
—
Ecco! — afirmou ela gastando o pouco que conhecia da língua italiana.
Mesmo sempre tendo gostado de viajar, a garota nunca havia se interessado em aprendê-la, mas naquele momento tudo que mais desejava era ser fluente.