Duas Mãos

Escrita porRay Dias
Revisada por Lelen

Capítulo único

  A primeira coisa que %Clara% fez quando percebeu que estava apaixonada foi procurar uma saída. Era quase uma regra dela. Quando alguém começava a chegar perto demais, ela recuava. Quando uma conversa ficava íntima demais, fazia uma piada dando um jeito de quebrar qualquer possibilidade de aproximação maior. Quando um abraço demorava mais do que deveria, era a primeira a se afastar.
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  E quando alguém começava a importar de verdade… Ela ia embora.
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  Por isso estava parada diante da porta do apartamento de %Daniel%, com a bolsa pendurada no ombro e a chave ainda entre os dedos.
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  — Você vai mesmo embora?
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  Ele perguntou encarando-a de um modo um pouco tristonho. Os dois haviam transado em mais uma noite de “amizade colorida”, mas a verdade é que tanto %Clara% quanto %Daniel% já sabiam que não era apenas casualidade. Sentimentos estavam se formando entre eles.
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  %Clara% fechou os olhos por um segundo. %Daniel% estava sentado no sofá, observando-a.
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  — Vou, %Dan%.
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  — Por quê? Você sempre fica e dorme aqui… Parece até que está fugindo.
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  %Clara% respirou fundo, e pensou: “Porque você me faz querer ficar”. Mas não disse.
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  — Acho que é melhor assim. — Ela suspirou novamente, mordendo o lábio e escorando o ombro no batente da porta quase como se estivesse buscando motivos para ficar.
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  %Daniel% se levantou devagar e caminhou até ela de modo sensual e brando. Não havia raiva no rosto dele. Nem desespero. Só aquela calma que, ultimamente, era uma das coisas que mais a assustavam.
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  — Melhor para quem, %Clarinha%?
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  Ela não respondeu. %Daniel% parou a poucos passos dela.
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  — Eu fiz alguma coisa que te chateou? Há semanas que você… parece sair fugitiva toda vez que a gente transa ou passa algum tempo juntos de forma mais… Íntima?
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  — Não. Não, %Dan%, não fez nada de errado. — Ela sorriu sem graça mordendo o lábio inferior.
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  — Então fui eu que fiz alguma coisa certa demais?
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  %Clara% soltou uma risada sem humor.
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  — É justamente esse o problema, %Dan%.
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  %Daniel% franziu a testa.
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  — Qual? Ter feito algo muito certo?
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  Ela finalmente olhou para ele.
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  — Você faz tudo muito certo. Eu só quero as suas duas mãos em mim o tempo todo, querido, quero as suas duas mãos em mim como se minha vida dependesse disso.
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  — Não estamos falando só de tesão, não é?
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  %Daniel% perguntou com os olhos brilhantes e um sorriso cafajeste. Ele conseguia lembrar da voz dela irritante sempre o lembrando: “Nada de apelidos fofos, não precisa dizer que me ama, aliás, não me ame! Não preciso ouvir que sou a sua número um, não quero ouvir falar da sua ex ou ser comparada a ela, nosso lance é menos conversa e muito mais toque físico!”.
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  O silêncio que veio depois pareceu grande demais para uma sala tão pequena.
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  — Eu gosto de você. Não é só tesão, e eu me sinto uma otária porque fui eu que impus desde o início um limite que eu mesma não consegui manter — ela confessou.
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  Era a primeira vez que dizia aquilo em voz alta. E, estranhamente, não se sentiu aliviada. Sentiu medo.
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  — Gosto de você mais do que deveria. Mais do que planejei. E eu não sei fazer isso, %Daniel%!
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  %Clara%, no ápice de tentar justificar suas emoções como se houvesse cometido um crime, falava de modo ansioso e gesticulava com as mãos de um jeito que dizia “se afaste”. %Daniel% a observou sair do batente da porta, a bolsa escorregando do ombro dela ao chão e a amiga caminhando em círculos pela sala pequena de um jeito quase evadido.
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  — Fazer o que, %Clara%? — %Daniel% perguntou calmo, tentando se aproximar dela. — Eu e você não estamos cobrando nada um do outro.
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  — Ficar! Essa coisa de ficar, eu não sei fazer isso, %Dan%! Eu… não posso fingir que não quero mais que nossos amigos e tudo o mais saibam que as suas duas mãos ficam ótimas na minha cintura! E que… Eu me pego pensando em coisas que nunca pensei com nenhum outro! E eu sei que você não está me cobrando nada, então me sinto culpada porque estou em outra página e…
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  %Daniel% se aproximou dela e a segurou pela cintura a abraçando e interrompendo aquele palavrório ansioso. %Clara% imediatamente deu um passo para trás.
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  — Ei, calma. Vem cá… %Clarinha%, sou eu! Não precisa sair correndo e não diga que é culpada por....
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  — Eu sempre faço isso — ela interrompeu ele e continuou explicando ao sair do abraço de %Daniel%: — Quando percebo que alguém pode me machucar eu vou embora antes.
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  — E você acha que eu vou machucar você?
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  — Não. Não é o que eu quis dizer… — Ela apertou a chave na mão. — Acho que você pode me machucar, não que vá.
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  %Daniel% ficou em silêncio. Depois estendeu uma das mãos, não para puxá-la. Só deixou a mão ali, entre os dois.
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  — Eu não posso prometer que nunca vou machucar você, %Clara%. Assim como você também não pode prometer isso.
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  Ela levantou os olhos.
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  — Mas posso prometer que, se alguma coisa acontecer, a gente conversa antes de fugir.
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  Ela olhou para a mão dele. Era uma coisa tão pequena, tão simples. Tão bonita entre dois amigos que já tinham uma relação de cumplicidade e confiança antes do sexo. E talvez fosse justamente isso que tornava tudo tão difícil.
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  %Clara% tinha passado anos esperando grandes garantias. Promessas. Certezas. Alguma espécie de contrato que dissesse que, se ela entregasse o coração, ele estaria seguro. Mas não existia contrato, nem existia garantia. Existia apenas aquele momento: a mão dele e a escolha dela.
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  Devagar, %Clara% colocou a própria mão sobre a dele. %Daniel% fechou os dedos ao redor dos dela, e ela sentiu os olhos arderem.
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  — E se eu me arrepender? E se não for tão bom como parece na minha cabeça?
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  — Você me conta e não sai correndo. E eu te conto tudo, %Clarinha%. A gente já é franco um com o outro na cama, na amizade, não tem por que não ser se… for amor.
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  — E se eu ficar com medo?
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  — Você me conta também.
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  — E se eu quiser fugir?
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  Ele sorriu.
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  — Aí você pode me dar cinco minutos para tentar convencer você a ficar. Até porque, %Clara% %Medeiros%… Essa história de que não estamos na mesma página que você falou minutos atrás é mentira. Eu estou completamente apaixonado por você também.
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  Ela riu. Dessa vez de verdade. Então %Daniel% segurou a outra mão dela, estava firmemente segurando as duas mãos de %Clara%. Ela olhou para os dedos entrelaçados e apesar de tanto tempo juntos, naquele momento, era estranho. Ela esperava sentir que estava presa quando acontecesse aquilo com alguém, mas não. Pela primeira vez, não parecia uma prisão. Parecia a melhor escolha.
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  %Clara% deu um passo para perto de %Daniel%, encostou a testa no peito dele e respirou fundo.
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  %Daniel% não prometeu que jamais iria embora, e não precisava. Apenas continuou segurando suas mãos. E %Clara% entendeu que talvez se entregar não significasse deixar de ter medo. Talvez significasse apenas parar de deixar que o medo decidisse por ela.
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  — %Daniel% %Souza%?
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  — Hum?
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  Ela apertou os dedos dele.
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  — Eu ainda estou com medo do que isso pode se tornar.
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  Ele beijou de leve o topo de sua cabeça.
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  — Eu sei.
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  %Clara% sorriu contra a camisa dele.
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  — Mas eu só quero as suas duas mãos em mim o tempo todo, querido. Se um dia você tirá-las, é melhor colocar elas de volta bem rápido. Porque dessa vez, quando me deu vontade de fugir, eu decidi ficar.
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Fim.

Capítulo único
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Liv
  E quando alguém começava a importar de verdade… Ela ia embora." Leia mais »

a diva apaixonadíssima já

Liv
  — Não. Não, %Dan%, não fez nada de errado. — Ela sorriu sem graça mordendo o lábio inferior." Leia mais »

ai diva, vc também precisa aprender a falar sobre seus sentimentos né

Liv
  — Eu gosto de você. Não é só tesão, e eu me sinto uma otária porque fui eu que impus…" Leia mais »

amém que ela abriu o jogo

Liv
  — Aí você pode me dar cinco minutos para tentar convencer você a ficar. Até porque, %Clara% %Medeiros%… Essa história…" Leia mais »

LINDOOOOS

Liv

Ai, adorei a fic, Ray!
Adoro romances e amizades coloridas, feliz que eles conversaram <3

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