2 • AFTER
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Nós nos alimentamos do tempo
e o tempo se alimenta de nós.
- Autor desconhecido
Agência Time After Time
Algum lugar da Noruega, inverno de …
Para Lady Sakura, não existe terapia melhor que ficar sentada em frente a sua bancada de ferramentas, com toda a sua atenção voltada às partes dos relógios que consertava. A cada missão dos agentes do tempo, era necessário que a diretora da agência fizesse uma inspeção minuciosa nos objetos em questão.
— Milady?! — A voz da assistente Joy a despertou de sua concentração.
— Sim — disse ela, mantendo o olhar na minúscula peça que pegava para encaixar no relógio que montava.
— Ele está gritando na Memory — disse a mulher, se referindo ao prisioneiro que haviam capturado.
— Tirem-no de lá e o levem à sala de interrogatório — ordenou a diretora, finalizando a montagem do objeto em sua mão. — Irei em dez minutos.
— Aqui não existe o tempo, senhora — indagou a assistente, confusa pela colocação da mulher.
— Eu sei. — Lady Sakura voltou o olhar para ela, com um sorriso de canto no rosto, demonstrando estar satisfeita por mais um relógio em perfeitas condições.
Logo a assistente Joy assentiu com suavidade no olhar e se retirou do escritório. Sakura levantou-se de sua cadeira e se espreguiçou um pouco, algumas dores musculares ficaram mais evidentes, afinal, havia passado um longo tempo a portas fechadas concentrada em seu trabalho.
— Acho que preciso de um banho — sussurrou ela com um suspiro cansado depois, sabendo que teria um dia cheio de tarefas e estressante.
Apesar da agência se localizar em um ponto estratégico em que o tempo não afetava, seus trabalhos externos lhe demandavam muita energia que lhe causava desgastes. O momento que Sakura mais julgava precioso em seu dia era sim quando sentia a água quente tocar seu corpo em um banho relaxante e acolhedor. Um tempo que não permitia ninguém lhe tirar.
— Lady Sakura — disse o agente Jung, assim que avistou a diretora em frente à sala de interrogatório.
— Como ele está? — indagou ela, interessada na situação mental do prisioneiro.
— Como se nada tivesse acontecido — respondeu o homem prontamente. — Não sabemos o que ele fez, mas ele passou tempo demais com o relógio para descobrir como bloquear suas memórias.
A diretora respirou fundo ao ver pelo vidro de separação o homem sendo jogado na cadeira e preso por algemas pelos seguranças.
— Bom dia, Charles… — A voz de Lady Sakura fez o corpo do rapaz ter calafrios. — Estou feliz por sua presença aqui.
— Milady. — Ele forçou firmeza na voz, porém, seu olhar de medo era nítido.
— Vou lhe perguntar apenas uma vez. — Ela manteve seu tom autoritário e firme. — O que fez com o meu relógio?
— Por que me pergunta se sabe onde ele está? — retrucou Charles com ousadia. — Afinal de contas, a senhora sempre sabe de tudo.
Seoul, outono de 2015
— Olha só quem chegou no horário hoje. — O tom irônico de Kim, soou pela cafeteria, chamando a atenção de sua irmã que estava em uma das mesas próxima à vidraça.
— Bom dia, para você também, gerente Kim. — %SooHyuk% manteve seu tom baixo, deixando sua atenção se voltar para a pessoa que iluminava seu dia com apenas um sorriso.
— Pare de ser tão dura com ele, %EunJi%. — Hani manteve o sorriso singelo e meigo no rosto, enquanto o olhava. — Deveria ser grata por ter um funcionário que aguente seu mau-humor.
Hani riu baixo, fazendo o rapaz rir junto, porém com discrição. Já %EunJi%, revirou os olhos, pois não tinha paciência para aquele romance proibido de k-drama que a fazia vomitar. Kim conseguia ver com nitidez a sinceridade por parte dele, porém, conhecendo sua irmã, tinha suas dúvidas, já que em toda a sua infância, Hani sempre demonstrou certos traços de ambição e falsa modéstia. E agora, para a gerente da cafeteria, era um tanto quanto difícil imaginar que a irmã gostasse de verdade do funcionário sem família e dinheiro.
— Ele é quem deveria ser grato por ainda ter um emprego. — Kim, voltou sua atenção para a tela do computador. — E espero que hoje não venha nenhum amigo para tomar café de graça.
— Não saiu de graça, gerente Kim — retrucou ele.
— Mas é claro que não. — Ela voltou seu olhar para ele novamente, fria e inexpressiva. — Eu jamais permitiria.
Logo, %EunJi% se afastou do balcão e deu o primeiro passo para se retirar.
— Preciso conferir o estoque, então tome conta do caixa — ordenou, num tom mais suave e baixo.
%SooHyuk% bateu continência em brincadeira, arrancando algumas risadas de Hani, que esperou até a irmã desaparecer do seu campo de visão para enfim fazer seu comentário.
— Como você consegue trabalhar com a %EunJi%? — indagou a garota, tentando imaginar como eram suas manhãs e tardes ali. — Ela é tão séria e mandona.
— Digamos que já me acostumei — brincou %Hyuk%, piscando de leve. — Você não veio tomar café ontem.
— Sim… Eu precisei chegar mais cedo na fisioterapia. — Sua voz baixou o tom, assim como seu olhar, que pareceu triste de repente.
— O que aconteceu? — %Hyuk% arrastou uma cadeira e se sentou próximo a ela, pegando sua mão para a confortar. — O que o médico disse?
— Que eu vou ficar bem, e que logo poderei retirar o gesso, mas… — A mulher tentou reprimir as lágrimas no canto dos olhos, chateada por sua condição física.
— Mas? — insistiu ele, já se preocupando.
— Não vou poder voltar a dançar — explicou Hani relatando as palavras definitivas do médico. — O acidente prejudicou uma das minhas vértebras, e mesmo conseguindo andar, não será como antes, terei que contar com o apoio de uma bengala e não vou poder dançar mais.
A primeira lágrima escorreu no rosto da menina, que de imediato foi acolhida por um abraço forte e carinhoso de %SooHyuk%. Ele sabia que não podia fazer nada por ela, e mesmo se houvesse alguma possibilidade cirúrgica, nem mesmo tinha dinheiro para si, quanto mais para ajudá-la.
— Eu lamento… Queria poder ajudar — sussurrou ele ao se afastar um pouco e limpar as lágrimas da moça com o guardanapo.
— Tudo bem, eu já estou me acostumando com a ideia. — Ela respirou fundo e forçou um sorriso. — A companhia me ofereceu uma vaga como professora na academia, pelo menos posso ensinar outras bailarinas.
— Não será a mesma coisa — disse ele num tom baixo, tendo o balançar da cabeça dela assentindo em concordância.
— O que importa é que de todas as pessoas que me conhecem, você foi o único além da minha família que não me abandonou — comentou Hani, mantendo a gratidão nos olhos. — Obrigada.
— Não precisa me agradecer, sabe o que sinto por você, Hani. — Ele voltou seu olhar para as mãos que seguravam as da moça. — Ainda que eu não possa me aproximar… Meu coração vai continuar inclinado a você.
O sorriso se manteve no rosto dela.
— Eu sei, e isso me deixa feliz… — Hani tocou de leve no rosto de %Hyuk%, o fazendo olhá-la. — Tenho certeza que em breve meu pai vai se acostumar com a ideia, e finalmente poderemos ser um casal de verdade.
— Estou sonhando com isso… — O rapaz sorriu de volta, com certa timidez.
Em um momento de ousadia, %Hyuk% se aproximou um pouco mais de Hani, até seus rostos ficarem a milímetros de distância. Por ter muito respeito pelo senhor Han, o rapaz nunca havia se aproximado tanto da mulher quanto naquele momento, o que fez seu coração acelerar ainda mais.
— Eu disse para cuidar do caixa. — Logo a voz de Kim cortou o clima do ambiente, fazendo-os se afastarem de imediato.
— Obrigada, Kim, por estragar nosso momento — disse Hani, ao virar sua atenção para a irmã.
— Deveriam agradecer que sou eu e não nosso pai. — Ela deu de ombros lançando o olhar de ordem para seu funcionário.
Assim que %SooHyuk% entendeu o recado, se afastou de Hani, piscando de leve para ela, e retornou a sua função. As mesas precisavam ser organizadas para que a cafeteria pudesse finalmente virar a placa da porta e ser aberta ao público.
Ao final do expediente, %Hyuk% ficou alguns minutos no vestiário reflexivo pelo aparecimento repentino do amigo no dia anterior. Por mais que quisesse se esquecer, Kim estava sempre o lembrando do expresso que descontaria do seu salário da semana. Porém, sentado na banqueta, ao abrir sua mochila, avistou o relógio estranho que tinha jogado ali dentro no dia anterior.
— Havia me esquecido de você — sussurrou ele, ao pegar o objeto e tirar da mochila. — Por que tem tantos botões? E por que o Charles te deixou para trás?
Muitas perguntas invadiram sua mente, até que sentiu estar sendo vigiado. Levantando sua cabeça, percebeu Kim na entrada do vestiário com seus olhos fixos no objeto em sua mão.
— Deseja alguma coisa? — indagou ele, guardando rapidamente o relógio de volta na mochila.
— Apenas vim buscar minha bolsa — respondeu ela, disfarçando sua curiosidade e mantendo a seriedade em sua voz. — Já que ainda está aqui, apague as luzes quando sair.
— Sim, senhora. — Assentiu %Hyuk%, apenas observando-a pegar o que havia ido buscar e se retirar novamente.
Um suspiro profundo e o rapaz se levantou da banqueta, ajeitando a mochila nas costas. Toda a volta para casa, ele se sentiu incomodado pelo silêncio de Kim na porta do banheiro e seu olhar curioso para o relógio. Ele sabia que a gerente chata e mal-humorada tinha um hobbie peculiar de colecionar relógios de diversos tipos.
— Acho que preciso de férias. — Ele riu baixo, ao adentrar sua kitnet. — Me sinto cansado…
Jogando sua mochila no sofá, continuou seguindo até o banheiro para tomar uma ducha e finalmente relaxar o corpo. Por mais que estivesse precisando de uma boa e longa noite de sono, %Hyuk% havia passado algumas horas com sua atenção voltada ao relógio que segurava em sua mão. Tentava entender o motivo que levou o amigo a deixar o objeto sob seus cuidados, além de não conseguir esquecer o olhar preocupado que Charles mantinha se atentando ao que acontecia em sua volta.
Será que havia roubado de alguém, ou mais uma vez se meteu em dívidas de jogo? Um longo suspiro e o rapaz finalmente soltou o objeto colocando na mesa de cabeceira, se espreguiçando um pouco e levantando da cama para se aproximar da janela que deixou aberta. Mesmo no frescor do outono, sua minúscula kitnet ainda lhe transmitia a sensação de quente e abafada, talvez pela localização ou pela noite não ter nenhuma brisa. Parecia que as árvores e o tempo não se moviam como deveriam.
— Que estranho… — sussurrou ele, ao observar um carro parado do outro lado da rua.
Vagamente com a sensação de o ter visto próximo à relojoaria quando foi buscar a encomenda do amigo, e mais ainda, quando encerrou seu expediente na cafeteria. O rapaz esfregou os olhos com as mãos e balançou a cabeça, talvez estivesse cansado demais para ficar vendo coisas e inventando teorias da conspiração em sua cabeça. Mais um espreguiço, ele retornou à cama e novamente pegando o relógio, o escondeu debaixo do travesseiro antes de se render ao sono.
O restante das horas de sono foi tranquilo inicialmente, até que um vento frio adentrou a janela, chegando até a cama. %Hyuk% logo acordou e sentiu-se estranho, como se estivesse sendo vigiado. Antes mesmo que o rapaz pudesse assimilar o que estava acontecendo, foi repentinamente atacado por um homem encapuzado.
— Onde está o relógio? — indagou o homem com o tom rude e ríspido, enquanto tentava estrangulá-lo.
— Quem… é… você? — %Hyuk% se debateu em cima da cama, tentando se soltar do homem para se salvar.
Em instantes de agonia, o rapaz conseguiu impulsionar de leve seu corpo para alcançar o abajur ao lado, o lançando na cabeça do homem, aquilo o tonteou segundos suficientes para que %SooHyuk% pudesse derrubá-lo no chão e pegar o relógio embaixo do travesseiro para sair correndo.
Sem entender o motivo daquele ataque e menos ainda o porquê de o homem estar atrás do relógio, %Hyuk% continuou correndo pelas ruas sem direção certa para onde ir. Temendo colocar mais alguém em risco pelas loucuras do amigo, descartou a possibilidade de bater na porta do senhor Han e continuou seguindo em direção contrária. Quanto mais ele corria, mais sentia que estava sendo seguido por mais pessoas.
— O que aconteceu?! — sussurrou ele, ao parar por um momento e respirar fundo.
Segurando o relógio em sua mão, %SooHyuk% olhou para ele tentando digerir tudo o que tinha lhe acontecido em um curto espaço de tempo. Após um breve momento contemplando a beleza do objeto em seus mínimos detalhes, por curiosidade, ele apertou um dos botões laterais. Algo que o rapaz nunca imaginou viver lhe aconteceu ao ser transportado misteriosamente pelo relógio para rua lateral do prédio onde morava.
Inicialmente, %Hyuk% sentiu-se zonzo pela viagem, porém, ao perceber onde estava, sua mente ficou ainda mais confusa por não entender como tinha aparecido ali. Logo, sua atenção se voltou para frente avistando três homens de terno preto virando a esquina e o identificando. Dois passos para trás, tentando não se desesperar e já pensando em como sairia daquela situação, o rapaz sentiu uma mão segurar seu pulso e o puxar para correr na direção contrária.
— Apenas corra! — A voz de Charles o fez sentir um pouco mais de alívio mesmo diante do perigo.
Certamente pelo amigo ter voltado, mesmo também estando com a cabeça a prêmio. Correndo mais alguns quarteirões, sem saber a direção certa, %Hyuk% sentiu-se cansado e parou.
— Charles, no que se meteu?! — perguntou ele, retomando o fôlego.
— Me desculpe, irmão, não queria te colocar nessa, mas é o único em quem confio — respondeu ele, com o olhar temeroso. — Onde está o relógio? Você está com ele, não é?
— O que tem nesse relógio? E como eu apareci na rua de casa se estava do outro lado da cidade?! — indagou %Hyuk%, com sua mente fervilhando de perguntas e surtos.
— Eu não posso te explicar agora, mas preciso te tirar daqui. — Charles pegou o objeto da mão do amigo e deu dois giros no botão superior.
— O que está acontecendo? Como viemos parar aqui? — Novamente em surtos internos, %Hyuk% indagou ao outro rapaz. — Somos amigos, irmãos, me explica em que você nos meteu.
— Esse relógio é especial, ele pode nos fazer viajar no tempo ou nos transportar para qualquer outro lugar da terra em nosso tempo — o amigo foi explicando em poucas palavras, ainda concentrado no objeto em sua mão. — Eu roubei ele de um lugar chamado
Time After Time…
Charles ergueu o olhar para o amigo.
— É de suma importância que ele não volte para a sua dona — disse ele, com o olhar desesperado — ou ela vai me matar.
— Ela quem? — %Hyuk% estava confuso e ainda incrédulo pelas palavras do amigo.
— Lady Sakura — respondeu o outro, engolindo seco, ao se lembrar da frieza da mulher. — A diretora da agência.
— Charles… — %SooHyuk% avistou os perseguidores novamente alertando o amigo.
O homem que estava no centro já levantou a arma, apontando para eles. Em um piscar de olhos que o som da arma denunciou o disparo, Charles apertou o botão do relógio em sua mão e colocou rapidamente na mão do amigo, o transportando para outro lugar. Como a passagem do ponteiro de um segundo para o outro, %Hyuk% apareceu no depósito da cafeteria onde trabalhava.
— Charles… — sussurrou ao olhar ao seu redor e ver que o amigo havia ficado para trás. — O que está acontecendo?!
O olhar dele voltou-se para o relógio em sua mão mais uma vez, a bala havia acertado o objeto, quebrando o vidro protetor, levando assim a perda do ponteiro maior que marca a hora. De repente, o barulho de trovão soou do lado de fora do edifício e o som da chuva pôde ser ouvido, algumas vozes foram surgindo no corredor, funcionários novatos que tinham sido convocados para limparem a cafeteria antes do turno iniciar.
— Quero todos concentrados em manter este lugar o mais limpo e impecável possível. — A voz de ordem de Kim, era inconfundível.
No susto do girar da maçaneta na porta, %SooHyuk% voltou sua atenção para o relógio e deu algumas voltas no segundo botão, sem ao menos entender o que estava fazendo. No mesmo instante que a porta se abriu, o botão do relógio foi acionado o transportando para o lugar menos esperado por ele.
Com algumas tossidas e sentindo o coração acelerado, o rapaz se deu alguns instantes para colocar sua mente em ordem e não enlouquecer no processo, até que um carro literalmente desgovernado passou por ele, capotando em seguida. No impulso para ajudar a vítima ele deu impulso para correr até o carro, que havia parado de cabeça para baixo. No trajeto, por uma fração de segundo, o olhar de %Hyuk% voltou-se para o lado, permitindo-o ver um rosto conhecido caminhando na direção contrária, com o olhar sereno transbordando tranquilidade.
— Gerente Kim — disse ele, num tom baixo, porém no volume necessário para que ela também ouvisse.
Entretanto, a garota continuou caminhando, pois sabia que ele iria atrás dela.
O tempo é tão cruel.
- Spring Day (봄날) / BTS