Dopa(mine)


Escrita porIlaneCS
Editada por Lelen


Capítulo 9

Tempo estimado de leitura: 62 minutos

(POV: %Agatha%)

  Já fazia bastante tempo desde a última vez em que eu tinha acordado com um braço musculoso em volta da minha cintura. Na verdade, eu não lembrava da última vez.
  O senso comum era pensar no sexo como o maior ato de intimidade de um casal, mas, para mim, havia várias outras coisas que atestavam cumplicidade e confiança entre duas pessoas e, portanto, eram mais difíceis de ter e de proporcionar. Dormir de conchinha era uma delas. Tomar um banho junto era outra. Era simplesmente surreal cogitar ter companhia em momentos de tanta exposição e vulnerabilidade, deitar ao lado de um cara e sentir segurança suficiente para ficar no estado inconsciente e indefeso de um sono profundo, ou conversar casualmente sobre o dia e a vida lá fora dividindo a mesma banheira... O fato era que %Mackenyu% Arata me deixava confortável nas duas situações e eu não sabia o que fazer com isso. A única coisa que eu sabia era que ele ficava muito, muito lindo quando dormia.
  Apesar do histórico de insônia (ou talvez por causa dele), o sono dele era pesado, denso, ferrado mesmo. Era estranhamente satisfatório assistir. Dormir bem era tão inédito para ele como dormir junto era inédito pra mim e me dar conta disso ao observá-lo só tornou aquele repouso ainda mais precioso e intocável, porque eu sabia o quanto ele precisava, enfim, descansar. E ele tinha escolhido fazer isso do meu lado, com o nariz enfiado na minha nuca e uma mão que me puxava instintivamente para mais perto, como se ele quisesse conferir de tempos em tempos se eu ainda estava ali.
  Para a minha surpresa, eu estava.
  Depois de abrir os olhos vagarosamente, não havia muito o que ver, até porque o que me envolvia naquela cama perpassava por outros sentidos além da visão. O cheiro de %Mackenyu% pairava por todo o lugar, o colchão era mais fundo no lado em que eu estava (prova de que ele tinha um lado de estimação e que tinha escolhido cedê-lo para mim) e a temperatura do ar-condicionado que ele regulou quando eu reclamei do frio aumentou o calor do corpo enorme, que cobria o meu de um jeito familiar e gostoso. Parecia saudade acumulada.
  E foi a saudade dele que me manteve aquecida durante a noite.
  Nós finalmente podíamos nos tocar sem culpa, sem intermediários e sem o pretexto de estar na frente de outras pessoas. Só nós dois, cedendo às vontades que custamos a admitir, aproveitando os toques e descobrindo as sensações que a nossa pele tinha guardado uma para a outra. A novidade em torno da situação toda era semelhante à embriaguez, me deixava mole e febril, como se eu tivesse acabado de entornar vários shots de tequila sem nada no estômago, só as borboletas. Mas eu não tinha bebido nada além do %Mackenyu%, e não tinha provado nada além dos beijos que se repetiram até os dois adormecerem — coisa que eu realmente fiz, quem sabe até melhor do que ele. Não era a primeira vez que eu dormia com alguém, mas era a primeira vez que eu descansava, queeume permitia ser abraçada, ninada, e isso tornava tudo bem diferente. %Mackenyu% baixava a minha guarda com doçura, me desarmava com a sua sinceridade e a sua vontade incansável de fazer aquilo dar certo apesar das minhas resistências. A verdade era que ele tinha conquistado, pacientemente, cada pedacinho de mim que ele desfrutava agora, e ele merecia o prazer daquela intimidade que eu nunca dei a ninguém.
  Do lado da cômoda, alguns livros empilhados disputavam minha pouca capacidade de leitura, que só serviu para identificar dois deles, um sobre MBA e outro em cujo título eu custei a acreditar: Conselhos Práticos Para Recém-Casados. Era doce e hilário na mesma medida, o que me dividiu entre abafar uma risada e deixar um beijo na mão morena que repousava no travesseiro. Acabei fazendo os dois ao mesmo tempo, cuidando para ser imperceptível e não acordá-lo, já que eu queria absorver mais daquele pequeno mundo particular que criamos. O Apple Watch dele mostrava que ainda eram 8 da manhã e um ícone piscava, sinalizando os quilômetros da última corrida e quantas vezes o coração dele bateu por minuto.
  Eu me perguntei sem querer se alguma delas foi por mim.
  Guardei o pensamento e voltei minha atenção para as pálpebras imensas que não deram sinal algum de despertamento mesmo depois que eu me mexi, virando dentro do abraço alheio para ficar de frente para o rosto relaxado, admirando os traços suaves e marcantes ali. O cabelo escuro escorria pelo travesseiro, um pouco bagunçado, mas numa aura imperturbada que fazia tudo nele ficar ainda mais bonito. O som da respiração dele era o único que atravessava o quarto ainda escuro graças ao blackout nas cortinas, e ele puxava o ar mais fundo algumas vezes, completamente calmo e sereno, talvez até sonhando, eu arriscaria dizer. Ele não estava roncando, mas era alto o bastante para ouvir. Era bom. Eu gostava.
  %Mackenyu% ressonou por mais alguns instantes e inclinou a cabeça num movimento sutil de quem estava acordando, testando o próprio corpo para decidir se iria acordar de uma vez ou se deixar vencer pelos famosos cinco minutinhos. Os cílios preguiçosos apertaram-se e meu reflexo foi fingir que estava dormindo para não ser pega em flagrante namorando todas as nuances do meu marido adormecido.
  Senti um toque leve afastar meu cabelo dos ombros e contornar meu perfil. Me movi minimamente em resposta, ronronando baixinho. %Mackenyu% fez uma manobra mais ousada, desenhando as minhas costas expostas e conseguindo um pequeno espasmo e um arrepio involuntário com isso. Fiquei indecisa entre bancar a irritada por ele ter interrompido meu sono falso ou confessar que eu estava gostando do carinho, então meu cérebro dorminhoco resolveu solucionar o impasse com uma provocação que saiu rouca, no momento em que ele beijou meus ombros descobertos pelo lençol.
  — Que horas você tirou minha blusa, %Mackenyu% Arata?
  — Hora nenhuma. — os lábios dele continuaram marcando minha pele nua. — Mas que bom que eu acordei pra ver.
  — Do que você tá falando?
  — Você tira a roupa enquanto dorme. Não sabia? — ele riu baixinho e quente no meu ouvido. — Acabou de entrar no top 3 das minhas coisas favoritas sobre você.
  — Você tem três coisas favoritas sobre mim?
  %Mackenyu% murmurou uma confirmação no meio dos beijos que ele seguia espalhando.
  — Pode me contar uma delas?
  — Pode dormir comigo outra vez? — ele rebateu com a voz amanhecida.
  — Esperto. — dei dois tapinhas no braço dele e me espreguicei em seguida, fazendo o lençol descer e revelar meus seios. — Muito conveniente pra você dormir com uma mulher que começa a se despir no meio da noite. Isso é, se fui mesmo eu e não você.
  — Ah, foi você sim. Quebramos o contrato, mas eu continuo te respeitando.
  — Então isso aí no meio das suas pernas é respeito? — denunciei que conseguia senti-lo na minha coxa.
  — Eu disse que te respeito, não que eu estou morto. — %Mackenyu% arrumou a confusão dos nossos corpos, ameaçando puxar o resto do lençol. — Aliás, você se importa se eu der mais uma olhada? Preciso de alguma coisa para pensar no banho. 
  Ri sem vontade, arqueando o pescoço na esperança de que ele entendesse que eu queria ser beijada ali.
  — Você realmente toma banho pensando em mulher pelada?
  — Eu faço tudo pensando em uma mulher pelada. — ele atendeu meu pedido implícito e encontrou a curva do meu pescoço.
  — Que romântico. Quando eu estiver na sua cabeça, coloca uma roupa em mim, por favor.
  — Receio que isso não vá ser possível. — ganhei o primeiro selar do dia. — Eu tenho a imagem de você nua tatuada no meu cérebro e posso vê-la quando eu quiser. Tudo que eu preciso fazer é me concentrar e… — %Mackenyu% fechou os olhos e assobiou. — Uou, lá está você!
  — %Mackenyu%!
  — Você não pode me impedir de fantasiar com você, %Agatha%. É meu direito como marido.
  — E onde isso está escrito? — apertei o rostinho amassado. — Naquele livro sobre casamento que você tá lendo?
  %Mackenyu% rapidamente levantou a vista num misto de desespero e frustração, voltando a se enterrar no meu peito logo na sequência.
  — Não era pra você ter visto isso…
  — Eu achei adorável.
  — Mesmo?
  — Sim. — comecei um cafuné que fez ele fechar os olhos outra vez. — Você é uma gracinha quando quer.
  — Que bom que o livro está funcionando. — ele beijou minha clavícula, aproveitando a liberdade dos nossos novos termos. — Eu só quero que a gente dê certo.
  Ele realmente queria, eu conseguia ver o fogo nos orbes inchados dele. Eu só não tinha entendido ainda o motivo. Se fosse pela simples fusão das empresas, %Mackenyu% não precisaria ter feito metade das coisas que ele fez vivendo comigo, era só se trancar no quarto dele e, quando ninguém estivesse nos observando, fazer de conta que eu não existia. Por que ele insistia tanto em nós? Era o desafio? Um capricho? Era… eu?
  — Por que você faz tudo isso? — disparei, chamando o olhar dele de volta ao meu.
  — Tudo o quê?
  — Tudo o que você fez até agora. — mantive o rosto dele nas minhas mãos, tentando enxergar através dele. — Você aceitou todas as mudanças que eu fiz na sua casa, você acatou minhas decisões na empresa, você teve todo o cuidado de não estragar o que era especial pra mim, você me levou no meu lugar favorito no mundo, você me defendeu das loiras enjoadas no restaurante e você… — precisei parar para respirar. — Você não saiu correndo quando eu te contei que não posso ter filhos. — suspirei e ele me olhou confuso, como se não tivesse feito nada demais. — Por que você investe tanto em mim, %Mackenyu%?
  O lábio inferior dele tremeu com a pergunta e eu ganhei um beijo na boca, o mesmo lugar em que ele me entregou a resposta.
  — Porque você é a primeira coisa que eu sinto em anos, %Agatha% O’Brien Arata.
  Eu quis retribuir, dizer que ele também agia em mim feito a dopamina num organismo cansado, mas as palavras fugiram da minha mente atormentada pelo remorso. %Mackenyu% estava completamente imerso naquela relação, lendo livros, apoiando minhas decisões, fazendo de um tudo para me deixar confortável. Tentando. E o que eu tinha feito por ele? Nada. Eu tinha uma rota de fuga secreta, uma saída quase covarde que eu adotei antes mesmo de saber se eu precisaria dela. O plano do divórcio em um ano deveria estar em andamento no exato momento em que %Mackenyu% me beijava e abria o coração dele para mim e pensar naquilo colocava um gosto ferroso na minha boca. De todas as coisas que eu antecipei no nosso casamento, de todas as medidas preventivas que eu tomei, de todos os cenários que eu imaginei para me proteger, a única variável com a qual eu não contava era que %Mackenyu% fosse lutar por nós.
  E foi bem ali, na nossa primeira manhã juntos, que eu decidi que eu também lutaria.

👰🏻‍♀️

  Chequei o celular pela milésima vez. Receber uma mensagem não me deixava tão ansiosa desde que Laura tinha ficado de me confirmar a compra dos ingressos para o cruzeiro dos Backstreet Boys. Agora era o namorado dela quem estava me causando aflição: fazia aproximadamente 20 minutos que eu tinha mandado mensagem para o %Mingyu%, meu advogado, dizendo que precisávamos conversar. Obviamente, ele não tinha respondido ainda e nem responderia tão cedo, uma vez que ele estava nas suas férias anuais na Coreia, mas isso não me impediu de ficar desbloqueando a tela freneticamente como se eu não tivesse mais nada para fazer.
  Acontece que eu tinha o que fazer, e muito, por isso virei o celular para baixo, procurando me convencer de que não era a minha urgência que aceleraria alguma coisa no universo e dando seguimento às minhas tarefas do dia. Tirando meu estado de agonia interna, parecia mais uma segunda-feira de trabalho comum na O’Brien Group, até %Mackenyu% surgir na minha sala com o meu café numa mão e um senhor engravatado do lado.
  — %Agatha%, podemos entrar?
  Assenti, reprimindo um sorriso ladino e vaidoso por ver meu marido (e também diretor da empresa) cumprindo sua atribuição extraoficial de trazer meu mocha quentinho da cafeteria do outro lado da rua.
  — Esse é o senhor Davis. — %Mackenyu% apresentou e eu reconheci o nome. — Ele marcou uma reunião de urgência conosco. %Adam% está a caminho.
  — Senhor Davis. — estendi a mão e indiquei um lugar para ele. — O auditor fiscal da investigação sobre o tio Morgan, certo? Eu não esperava recebê-lo hoje.
  — Peço desculpas pela falta de aviso, senhora Arata. — Davis sentou-se e %Mackenyu% trocou um olhar rápido comigo, brilhando por causa do “senhora Arata”. — Mas eu fiz avanços nas análises dos dados que dispensam quaisquer protocolos. Eu precisava avisá-los sobre o que está acontecendo.
  Não havia suspeitas de que havia algo muito errado com a contabilidade da O’Brien Group, no entanto, o tom de gravidade que a voz e o semblante de Davis assumiram eram mais preocupantes que o esperado, o que fez %Mackenyu% engolir em seco, um tanto incerto de seu lugar ali. Querendo ou não, aquela também era uma questão familiar, pois se referia a alguém que frequentava nossa casa, participava da ceia de Natal e de alguns almoços de domingo, e não meramente um funcionário ou acionista. Embora Morgan não fosse um parente sanguíneo, ainda havia uma certa consideração e apreço por ele, sentimentos que mantivemos apenas por conta da memória da tia Agnes, que infelizmente não teve a sorte de um marido digno. Ao que tudo indicava, Morgan era o pivô da falência da qual %Mackenyu% e a Three Swords estavam nos salvando, e o conteúdo daquela reunião mudaria o destino dele e do nosso arranjo familiar de um modo irreversível.
  — Perdi alguma coisa? — %Adam% apareceu pouco tempo depois, juntando-se a nós ao redor da minha mesa.
  — Eu vou direto ao ponto. — Davis cruzou as mãos firmes sobre o tampo de vidro enquanto %Adam% sentava-se. — Eu encontrei diversas irregularidades nos registros. Os números foram manipulados através da emissão de notas frias. Foram anos e anos de sangramento, e ele partiu daqui de dentro.
  Um silêncio tenso rapidamente tomou conta da sala, cortado por uma única palavra que %Adam% soltou entre dentes.
  — Morgan. — meu irmão me olhou, buscando a confirmação. — Por isso ele não queria que você colocasse as mãos nos livros, %Agatha%. Ele estava…
  — Desviando os fundos da empresa. Isso explica a falência iminente. — completei e dei um gole no café, que a situação toda fez descer amargo e frio.
  — Por que ele faria isso? — %Adam% franziu o cenho. — Morgan tem participação direta nos lucros. Se nós afundarmos, ele afunda junto.
  — Infelizmente, não. — Davis prosseguiu, visivelmente apreensivo, e %Mackenyu% apertou minha mão por baixo da mesa. — O dinheiro foi lavado e aplicado numa conta em nome dele no exterior, sob a fachada de uma empresa fantasma. É o clássico paraíso fiscal.
  — Uma empresa fantasma?
  — Ele fundou uma “companhia”. — Davis sinalizou as aspas com os dedos. — Vários depósitos foram feitos em benefício de uma empresa chamada Morgan Enterprises, todos com o dinheiro que ele vem rouband- — houve uma pausa para ponderação e Davis reconsiderou a escolha do termo. — Desviando de vocês.
  — Não vamos trocar miúdos, Davis. — %Adam% balançou a cabeça. — Podemos enfeitar, mas isso não muda os fatos. Tio Morgan esteve nos roubando esse tempo todo.
  — Nada que a gente já não suspeitasse. — respirei fundo. — Ainda assim, é difícil de acreditar. — procurei por %Mackenyu% sem perceber, carente da confiança que ele me passava. — O que ele pretendia? Quebrar a O’Brien Group? E depois?
  — Depois a empresa dele compraria a de vocês, transformando Morgan no único e legítimo dono. — Davis explicou, recostando-se na cadeira e apontando para %Mackenyu% num gesto incompleto. — Ele só não esperava que…
  — Que eu fosse fazer isso primeiro. — %Mackenyu% concluiu, ainda sem me soltar e agora alisando as falanges dos meus dedos. — A Three Swords absolveu a O’Brien, meu investimento arruinou os planos dele.
  — Bom, a fusão nos ganhou bastante tempo para fazer a investigação e ter provas suficientes para denunciá-lo. — Davis torceu os lábios no que parecia ser um sorriso de agradecimento. — Se a diretoria for unânime, como eu acredito que será, o Morgan vai parar na cadeia.
  — Acha que o papai vai concordar com isso, %Agatha%? — %Adam% coçou a testa. — Eles sempre tiveram suas diferenças, mas o Morgan ainda é o viúvo da irmã dele. Ele ainda é…
  — Família?
  A palavra nos atingiu como um soco e fomos nocauteados pela realidade. O ar irrespirável congelou nossas feições e a sensação de traição parecia ter se materializado bem diante de nós, cortante e dolorida. Por mais que a nossa relação com Morgan não fosse calorosa, por mais que não tivéssemos lembranças divertidas da infância e por mais que os atritos com o tio bêbado falassem mais alto que o parentesco, era difícil assimilar que, entre nós, na nossa família, havia um criminoso.
  Soltei a mão de %Mackenyu% para cobrir o rosto, totalmente vexada. A vergonha não era uma emoção que eu costumava manifestar, e senti-la me acertar tão cruelmente naquele momento era ter que lidar com o peso de um fracasso coletivo. Todos nós erramos. Todos nós confiamos na pessoa errada. E todos nós estávamos, agora, em débito com os Arata por terem desarmado a bomba-relógio que estava bem debaixo do nosso nariz.
  — %Agatha%… — %Mackenyu% envolveu as minhas costas rígidas, passando as mãos por elas em movimentos circulares. — Não se preocupe. Nós vamos resolver isso.
  — Nós… — repeti baixinho. — Você continua achando que meus problemas são nossos.
  — E são. Eu não casei com você só pelo seu lindo corpinho. — ele cerrou os olhos, indiferente à conversa paralela que %Adam% engatou com Davis. — Falando nisso, lá vem você outra vez. Olá, %Agatha% nua.
  — Não me faz rir agora, eu acabei de descobrir que meu tio é um ladrão. — fiz uma expressão confusa, meio sorriso e meio choro entalado.
  — Ei. — %Mackenyu% me levantou pelo queixo. — A %Agatha% que eu conheço vai saber exatamente o que fazer. Qualquer que seja a sua decisão, eu vou te apoiar. Você sabe.
  Eu sabia. Eu sabia tanto que eu poderia beijá-lo ali mesmo, porém a presença do meu irmão mais velho superprotetor e de um auditor fiscal matava o clima, que, a propósito, não era nada agradável. Uma avalanche de novos medos desbloqueados começou a desabar na minha mente, sendo o maior deles ter que contar aos meus pais que muito em breve os almoços de domingo com o tio Morgan teriam que ser transferidos para uma penitenciária.
  Dei outro gole no pior café da minha vida. O simples cogitar dessa punição soava como um exagero e eu tinha certeza de que meu pai, apesar de tudo, cuidaria para que a pena dele fosse domiciliar e reduzida, afinal de contas, ele era um viúvo atormentado pelo luto. Não seria essa uma ocasião que pedia um pouco de misericórdia? Quem poderia saber o que se passava dentro de alguém que perdeu uma parte de si? Cada um respondia de uma maneira diferente à dor e eu estava tentando o meu melhor para acreditar que a ganância que cegou Morgan era um desdobramento do sofrimento pelo qual ele havia passado, de modo que eu já estava achando tudo quase compreensível. Era “normal” se perder depois de ter perdido a esposa. Se eu perdesse o %Mackenyu%, eu também ficaria sem rumo.
  Solucei. Constatar isso naquele momento foi completamente inesperado.
  Mas não deixava de ser verdade.
  Conforme eu encarava o homem ao meu lado, a conclusão a que cheguei foi ganhando força e se transformando em uma certeza imutável. Quis pensar que a ideia de perder o %Mackenyu% era tão perturbadora porque eu estava apenas acostumada com ele, mas o que era o casamento se não acostumar-se ao outro? Incorporar alguém na sua rotina, esperar por ele na hora das refeições, lembrar de não adoçar o suco porque ele cortou o açúcar da dieta e achar isso um diagnóstico de loucura, mas, ainda assim, respeitar essa vontade? Eu estava, sim, acostumada ao %Mackenyu%, ao som dos passos pesados dele perambulando pela casa, à luz que ele acendia na sala quando não conseguia dormir, à janela do meu quarto que só ele sabia como desemperrar, às piadinhas infames, aos brincos de pino balançando e roçando pelo meu pescoço quando ele me beijava... Eu estava acostumada a tê-lo na minha vida e aquilo representava a maior prova de que eu tinha me apaixonado por ele.
  Eu queria ter notado em outro lugar, mas foi ali que eu notei.
  Eu me apaixonei pelo meu marido.
  — %Agatha%, você não me insulta há uns dois minutos e eu estou ficando preocupado. — %Mackenyu% me acordou da minha epifania.
  — Foram muitas revelações em pouquíssimo tempo. — confessei, mais assustada com a minha descoberta do que com a prisão em potencial de um membro da família. Um calor intenso misturado a um suor frio começou a irradiar atrás do meu pescoço e meu cabelo solto incomodou. — Pode pegar minha bolsa, por favor?
  — Por favor? — %Mackenyu% repetiu, dirigindo-se imediatamente até o sofá mais ao canto da sala, onde a bolsa estava. — Você não está bem mesmo.
  — Eu sempre sou educada com você. — protestei, recebendo a bolsa da mão dele. — Aliás, muito obrigada. — abri o zíper e comecei a vasculhar os milhares de cacarecos ali sem achar o único de que eu precisava. — Droga. Por que eu nunca lembro de pegar uma liga de cabelo?
  — Você quer uma água? — ele me observou improvisando um coque com uma caneta e me abanando em seguida. — Eu até espero você mandar eu fazer isso, já que você gosta tanto de dar ordens.
  O jeito como ele sorriu me fez derreter e apagou todas as luzes de alerta que costumavam piscar sempre que o assunto era relacionamento e o risco de me envolver. No meio daquele terremoto e de tantas notícias ruins, %Mackenyu% foi capaz de me tranquilizar, de cuidar de mim, e todas as pequenas e grandes coisas que ele fez por nós vieram à tona varrendo qualquer vestígio de dúvida quanto àquele casamento arranjado. Ele era bom demais para ser real, e esse sentimento de ter acertado todos os números da loteria me fez agarrá-lo pelos ombros e sacudi-lo.
  — De onde foi que você saiu, hein? — perguntei incrédula, ficando as unhas nos braços marcados pela camisa social e ganhando dele uma cara de confusão.
  — Fukuoka, no Japão. — foi a resposta estúpida e, droga, eu queria muito rir dela. — A propósito: ai! — ele reclamou com atraso.
  — Eu tô falando sério. — prendi o lábio inferior com os dentes como se aquilo pudesse me frear, mas foi inútil. — %Mackenyu%, eu acabei de perceber que-
  — Longe de mim atrapalhar os pombinhos... — %Adam% limpou a garganta e nos arrancou da nossa bolha. — Mas temos medidas importantes para discutir aqui e vocês estão deixando o senhor Davis constrangido.
  — Só porque eu estou velho e passado não quer dizer que eu não entenda as paixões de dois jovens recém-casados. — Davis deu um tapinha em %Adam% em reprovação, voltando-se para mim e %Mackenyu% em seguida. — Aliás, depois que tudo isso acabar, eu recomendo fortemente uma segunda lua de mel. Só lembro de ter visto vocês em jantares corporativos e isso não é nada bom. Confiem em mim, é preciso manter a chama acesa.
  O conselho de Davis fez minha alma retornar ao corpo e me dar conta de que uma reunião extraordinária na minha sala não era a hora nem o lugar certo para finalmente admitir que eu gostava do cara com quem eu tinha me casado. Me obriguei a me acalmar, concentrando as forças em traçar um plano prático para neutralizar a ação parasitária do Morgan, mas as palavras “segunda lua de mel” corriam como veneno pelas minhas artérias.
  As questões que se levantaram a partir daí fizeram faíscas acenderem nos meus neurônios descontrolados. Eu não conseguia tirar a vista de %Mackenyu%, deixar de reparar na manga da camisa sendo dobrada e nas mãos se movendo enquanto ele esboçava soluções e apontava caminhos. %Adam% concordava com todos, balançando a cabeça e sorrindo pra mim como se entendesse o que eu estava sentindo e aprovasse a minha condição de encantamento por ninguém menos que %Mackenyu% Arata. Quando Davis capturou a completa atenção do meu marido, %Adam% aproveitou para se aproximar de mim, jogando o peso do corpo dele contra o meu lateralmente e me empurrando de um modo inofensivo.
  — E você não queria se casar com ele.
  — Quê?
  — Não se faz de burra que não combina com você. — meu irmão provocou. — Quando o %Mingyu% souber que você desistiu do divórcio porque se apaixonou pelo %Mackenyu%, ele vai chorar de emoção.
  — Quem te disse que eu estou apaixonada pelo %Mackenyu%? — meu estômago gelou. Ainda era muito recente e muito surreal para verbalizar.
  — Você e os suspiros que você dá toda vez que ele faz alguma coisa.
  %Adam% bagunçou meu cabelo e eu acertei um peteleco na testa dele. Mesmo quando estávamos em ambiente de trabalho, ele não abandonava o posto de irmão implicante e por um instante eu achei que ele fosse me chantagear em troca do seu silêncio, como fazíamos quando éramos crianças. A nossa relação era o perfeito equilíbrio entre “eu poderia te matar agora mesmo” e “que bom que você me compreende”, e foi um verdadeiro alívio saber que meu segredo estava a salvo com alguém que eu amava tanto. Lá no fundo, %Adam% era a pessoa que mais desejava o sucesso daquele casamento, não por causa do futuro da empresa, mas por causa do meu futuro. A verdade era que eu podia ter me protegido com o plano do divórcio e com as cláusulas do contrato, mas a minha maior rede de segurança sempre foi o cabeçudo do meu irmão.
  — Tá feliz agora? Você tinha razão. — bufei.
  — Claro que eu tinha, eu sei mais das coisas do que você. — ele desarrumou meu cabelo outra vez.
  — Ok, vovô. Nossa diferença de dez anos te deixou muito mais sábio. — coloquei os fios de volta no lugar.
  — É a função do irmão mais velho. Eu vou na frente e aprendo sobre a vida para que a minha caçula teimosa não se ferre tanto. Se pelo menos ela me ouvisse…
  — Se pelo menos você não fosse tão chato…
  A defesa que %Adam% engatou entrou por um ouvido e saiu pelo outro, pois na mesma hora em que ele começou a tagarelar sobre a sua superioridade e experiência, minha visão periférica captou uma breve manobra ao fundo da sala: o senhor Davis entregando um envelope selado ao %Mackenyu%. Dei pouca importância ao acontecido, certa de que se tratavam de provas a serem analisadas, coisa que faríamos mais tarde, e Davis começou as despedidas como se estivesse recolhendo os espólios de uma guerra. Uma guerra que estava apenas começando.
  — Já que estamos todos na mesma página, fico no aguardo da próxima reunião assim que Arthur e Donna voltarem de viagem. — Davis foi apertando as mãos.
  — Obrigada, senhor Davis. — agradeci quando chegou minha vez. — Nós o manteremos informado.
  %Mackenyu% e sua gentileza inquebrável acompanharam o auditor até a saída, prolongando a conversa num volume baixo demais para ser entendido de onde eu estava. Ao dispensá-lo, fechou a porta atrás de si e escorou-se nela, assimilando os eventos daquele encontro antes de se voltar para mim e %Adam%, que alternava o olhar entre nós dois.
  — Agora que estamos a sós… — meu irmão fez uma careta. — Quanto ao que o senhor Davis disse, sobre uma segunda lua de mel…
  — Ah, não. — pressionei o estômago, notando que o rosto de %Mackenyu% estava levemente desbotado. — Não me diga que você quer ter “a conversa” com a gente, %Adam%.
  — Você é minha irmã, por isso e pelo bem da minha sanidade mental, eu resolvi acreditar que você e o %Mackenyu% estão apenas assistindo televisão juntos. — ele agitou a cabeça em repreensão. — O fato é que o senhor Davis levantou um ponto sobre o qual eu queria falar com vocês há um tempo.
  — Onde você quer chegar com esse papo, cunhadinho? — %Mackenyu% instigou, ainda sem muita cor.
  — Davis não é o único que está estranhando ver vocês apenas em compromissos formais. Os acionistas estão começando a suspeitar que foi um arranjo. — %Adam% baixou a voz. — Vocês precisam ser mais vistos como casal casado, e não como casal empresário, entendem?
  Eu e %Mackenyu% dividimos o mesmo suspiro seguido de um “oh” que despertou nossa memória. Exceto pelo noivado na Grécia, todos os nossos encontros, inclusive no restaurante do %Taz%, tinham acontecido em virtude de um negócio fechado ou de um convite oficial que precisávamos atender. Redes sociais eram um bicho de sete cabeças tanto para mim quanto para ele, de modo que a única evidência de que éramos um “casal casado” eram os teatros que fazíamos em ocasiões específicas da agenda empresarial. Ninguém nos via fora dela, fazendo aqueles programas de filmes melosos baseados em fanfics, e era de se esperar que nossa discrição causasse desconfiança.
  — Ele tem razão, %Agatha%. — %Mackenyu% cruzou os braços. — As pessoas nem imaginam que entre quatro paredes você não me dá sossego.
  %Adam% tossiu em pânico.
  — O que sugere que façamos? — contornei a piada naturalmente. Eu estava mesmo acostumada ao %Mackenyu%.
  — Mais programas públicos sem fins lucrativos, por assim dizer. — meu irmão propôs. — Que tal um hobby?
  — Podemos nos exercitar juntos. — foi a primeira opção do meu marido viciado em dopamina.
  — Talvez, mas a academia é um lugar privado. Precisamos de uma atividade em que vocês possam ser fotografados e virar notícia. Qualquer nota que sair numa coluna social já vai acalmar os ânimos e abafar esse burburinho.
  — E se a gente andar de bicicleta? — %Mackenyu% deu de ombros. — É público, é romântico…
  — Seria perfeito. Mas a %Agatha%-
  — Parece ótimo, vamos sim. — cortei, fuzilando meu irmão, que felizmente entendeu e se encolheu sem mais interrupções. %Mackenyu%, entretanto, estranhou a minha reação e eu me apressei para contorná-la. — %Adam% ficou preocupado porque sabe que eu não gosto muito de andar de bicicleta, é só isso.
  — Você não gosta? Acabou de ficar melhor ainda. — %Mackenyu% piscou e eu recorri ao velho hábito de revirar os olhos.

👰🏻‍♀️

  Fiquei extremamente feliz quando vi que haviam banquinhos no High Line Park, o jardim suspenso escolhido por %Mackenyu% para a nossa aparição pública não oficial. Preguiçosa e relutante com a ideia de exercício físico, coisa que deixava meu marido nas nuvens, resolvi me sentar e aproveitar alguns minutos de paz enquanto ele buscava as bicicletas no carro, retirando-as da parafernália instalada no teto do SUV que ele não me deixou dirigir.
  Eu não era uma pessoa muito diurna (especialmente levando-se em consideração que “diurno”, para %Mackenyu%, significava seis da manhã) e sempre acreditei que levantar assim que amanhecia só era bonito em livros de poesia, no entanto, o ar fresco da primeira brisa do dia era quase medicinal de tão bom, fato que eu constatei com certa raiva, porque significava que %Mackenyu% estava certo em gostar de acordar naquele horário. A última vez em que eu estive de pé tão cedo havia sido num dos muitos rompantes de meia-idade que meu pai atravessou, quando ele decidiu que seria uma boa ideia começar a pescar no lago da nossa casa de veraneio em Vermont e passou a nos levar até lá todos os finais de semana antes que eu e %Adam% ficássemos velhos demais para isso.
  O engraçado era que, apesar do mau humor por acordar de madrugada, a desculpa dele para nos reunir tinha funcionado e eu me lembrava com carinho dessas viagens. Vermont não ficava muito longe, mas já era aventura o bastante ficar espremida num carro com o excesso de bagagem da minha mãe, superpreparada para toda e qualquer situação, até mesmo as hipotéticas; meu irmão adolescente, ocupado em demonstrar sua rebeldia sem causa; e meu pai, cantando músicas e brincando de rimar para nos entreter das cinco horas e meia de trajeto para uma casa onde, como %Adam% costumava dizer, “nós veríamos as mesmas pessoas que víamos sempre num espaço ainda menor”. Meu pai apenas ria e me olhava pelo retrovisor, declarando sem palavras o óbvio: só nós dois queríamos mesmo ir.
  Claro que eu queria ir! Quer dizer, não era como se me faltasse afeto cotidiano nem como se meus pais me ignorassem durante os dias normais em Nova York, mas mudar o ambiente era praticamente nos forçar a ficar ainda mais na nossa própria companhia, fazer tudo sem a ajuda de empregados, dividir o mesmo cobertor grande, ver a mesma TV, sem mencionar o espetáculo cômico que era presenciar minha mãe tentando tratar o peixe esquisito que meu pai levou horas para capturar, fazendo cara de quem ia vomitar a qualquer momento. A risada cúmplice que eu trocava com meu irmão ao assisti-la se esforçar para transformar a gelatina aquática em um jantar decente ecoava na minha cabeça toda vez que eu acessava essas memórias.
  As refeições não terminavam numa visita ao hospital porque o intelecto feminino supera o masculino desde que o mundo é mundo e minha mãe, um passo à frente do marido em tudo, escondia no freezer da casa peixes e outros mariscos frescos que pudessem substituir, sem que meu pai soubesse, qualquer que fosse a criatura duvidosa de água doce que ele achava ter pescado. Se o velho Arthur e eu dividíamos o “só nós queremos ir”, eu e a sábia Donna dividíamos o “deixa ele achar que é mais inteligente do que nós”, enquanto ouvíamos com as feições mais cínicas do mundo a façanha que ele inventava para descrever sua vitória sobre o tal peixe. Depois de escapar de uma infecção intestinal, íamos para a varanda colocar os pés na grama, e até mesmo %Adam% saía do seu personagem revoltadinho quando meu pai pegava a bola do armário e anunciava que era a hora do futebol. O dia se fazia entre passes, faltas acusadas, risos e o som da corrente das bicicletas no último passeio da tarde antes de ir para a cama.
  Lembrar da bicicleta me causou um frio na barriga e me fez ficar levemente tensa com o programa público que %Mackenyu% e eu estávamos prestes a fazer. Primeiro porque, após a nossa quebra de contrato, era estranho fazer algo “fingido”. Segundo porque, se não havia mais contrato, significava que aquele era o nosso primeiro encontro de verdade. E terceiro e mais importante, porque…
  — Pronta? — %Mackenyu% apareceu na entrada do parque, onde eu o esperava, carregando as duas bicicletas tão facilmente como carregar duas maçãs.
  — Eu tenho escolha?
  — Sua empolgação é contagiante, docinho. — ele pôs as bicicletas no chão, apoiando-as no banco, e removeu um dos capacetes do compartimento, prontificando-se a colocá-lo em mim.
  — Eu deveria ter prendido o cabelo… — lamentei, deixando %Mackenyu% arrumá-lo para trás. — Mas eu nunca lembro de trazer uma liga.
  %Mackenyu% ergueu o pulso na minha frente, mostrando um elástico preto ao redor dele, acima do relógio.
  É, tinha isso também. Além de lindo, inteligente e de ter um corpo escultural, %Mackenyu% não perdia um detalhe sequer.
  — Eu lembrei pra você. — ele desprendeu a liga do punho e me virou delicadamente, encarregando-se ele mesmo de amarrar meu cabelo num rabo de cavalo baixo. — Peguei porque sabia que você estaria ocupada demais pensando em mim. — sussurrou no meu ouvido antes de me virar de volta e ajustar a alça do capacete embaixo do meu queixo, deslizando pelo meu rosto tão suavemente que parecia uma troca de carinho. — Depois você me conta se o %Mackenyu% da sua cabeça anda vestido ou não.
  Inferno. Agora que eu gostava dele, o gesto fofo falou mais alto que a gracinha.
  — Não testa o meu humor, você me fez acordar junto com o sol. — ameacei. — O paparazzi que %Adam% contratou espera fotos românticas, não vai ficar legal se eu te bater ou coisa parecida.
  — Ah, é. — %Mackenyu% olhou para baixo. — Eu tinha esquecido que era por isso que estamos aqui.
  A expressão e a postura dele desanimaram terrivelmente quando eu falei no paparazzi e só então eu ouvi como ele deveria ter ouvido. Minha falta de tato era ainda mais latente pela manhã e, sem querer, eu fiz estar com ele soar como uma obrigação. Em minha defesa, querer estar com %Mackenyu% também era uma novidade surpreendente dentro de mim, contudo, eu estava disposta a fazê-lo entender aquilo que, aos poucos, eu também estava aprendendo.
  — Eu vou te mostrar porque estamos aqui.
  Puxei o rosto dele na direção do meu, apoiando ambas as mãos na nuca tensionada, que logo relaxou ao contato com meus dedos entrelaçados nos cabelos úmidos ali. Inclinei a cabeça levemente para evitar que o capacete machucasse a testa dele, e lhe plantei um beijo demorado nos lábios mornos e prontos para mim. %Mackenyu% percorreu a sua rota favorita pelas minhas costas até os meus quadris, estreitando nosso abraço, e a língua dele disputou dominância com a minha, fazendo uma ideia absurda de transar no carro mesmo piscar como um letreiro luminoso na minha mente inebriada dele. Ele não me beijava com o tédio conjugal, nem como se fosse a primeira vez, muito menos a última. Ele me beijava como se fosse a sua única chance, a oportunidade de uma vida, com uma sede que eu não sabia explicar, mas que eu sabia — graças a Deus, eu sabia — como saciar.
  — Esse beijo não foi pelo fotógrafo, nem pela empresa, nem mesmo por você. Foi por mim. — ofeguei. — Eu te beijo por vontade, %Mackenyu%. Eu te beijo porque eu quero. Lembra disso, tá?
  — Teria sido muito mais romântico se você não estivesse parecendo um playmobil com esse capacete. — ele riu e eu, ultrajada, quis sair dos seus braços, sendo facilmente vencida e mantida na minha “prisão”. — Mas eu vou lembrar mesmo assim. — ele me selou.
  — Me larga. — pedi sem vontade. — Toda vez que eu sou legal com você, você faz uma palhaçadinha e eu me arrependo.
  — Você prefere um marido ranzinza que não te faz rir quando você quer ficar zangada? — ele esfregou o nariz na covinha do meu rosto, a evidência do riso que ele pontuou. — Eu já sei ler você todinha, senhora Arata. E eu adoro quando eu te ganho.
  — Vamos acabar logo com isso? — ralhei, impaciente com a rapidez com que ele me quebrava. — Eu não aguento mais olhar pra sua cara.
  — Então você deveria sentar nela. — %Mackenyu% me deu outro selar antes que eu pudesse responder, abafando nossas risadas.
  — %Mackenyu%! — olhei em volta, o parque começando a encher. — Se alguém escutar isso?
  — O máximo que pode acontecer é ficarem com inveja de nós. — ele apanhou a bicicleta, estudando a área. — Olha só, não tem subidas muito íngremes, mas a gente vai devagarinho, certo? Eu vou pedalar do seu lado, então se você quiser parar, você me avisa.
  %Mackenyu% subiu na bicicleta e eu não esbocei reação nenhuma (a não ser as bochechas ruborizadas ao ver as veias nos braços dele saltarem conforme ele acertava as marchas, ou as coxas torneadas apoiadas nos pedais e o peito quase explodindo na camiseta de compressão). Fora isso, eu continuei estática, olhando para a bicicleta como se ela fosse um problema de matemática.
  — O que foi?
  — Eu não sei andar de bicicleta. — resmunguei.
  — O quê?
  — Eu não sei andar de bicicleta, tá? — falei mais alto.
  — Então por que você concordou com isso?
  — Sei lá. — abri os braços e bati nas coxas. — Eu achei que tinha rodinhas.
  %Mackenyu% gargalhou, mas não qualquer gargalhada, foi daquelas gargalhadas que dobram a pessoa feito uma sanfona, fazendo-a balançar para frente e para trás na tentativa de cessar a risada. Acompanhei o episódio todo com ódio mortal, cogitando arrancar a aliança que brilhava na mão com que ele pressionava a barriga e fazê-lo engolir, porém, precisei disfarçar minha cara de fúria homicida ao ouvir os primeiros cliques nada discretos da câmera gigantesca do paparazzi.
  — Você já acabou?
  — %Agatha%… — ele enxugou o canto dos olhos, recuperando-se. — Por que você não me disse antes?
  — Eu queria evitar esse seu showzinho aí. — exasperei, notando que o abdômen dele, marcado pelo tecido, ainda se ondulava de riso preso.
  — Tudo bem. — ele respirou fundo, refeito. — Nunca é tarde, ok? Eu posso te ensinar.
  — Olha pra minha testa. Tá escrito que eu sou otária?
  — Não.
  — É porque eu não sou. Eu não vejo como me esborrachar no chão na frente do fotógrafo vai ajudar.
  — Eu não vou deixar você cair. — ele ficou sério novamente, trocando a bicicleta por mim e cercando a minha cintura com as duas mãos. — Confia em mim, tá?
  — Promete?
  — Prometo. — ele ergueu o mindinho para que eu enroscasse o meu.
  Selada a promessa, não havia mais nada a fazer senão encarar o desafio que eu vinha adiando desde os meus seis anos. Talvez eu devesse ligar para o meu pai e dizer que eu enfim tive coragem, uma vez que, quando eu era pequena, ele ansiava por esse dia. Em finais de semana alternados, orientação materna para que eu não me sentisse pressionada, papai me perguntava se eu queria tirar as rodinhas de treino e a resposta era sempre uma negação enfática. Não fazia sentido pra mim. Por que eu removeria algo que me dava apoio e me mantinha segura? Por que arriscar uma queda? Eu era apegada às minhas zonas de conforto e a tudo que me transmitia qualquer garantia, mesmo que fosse contra um simples joelho ralado. Aí, de repente, um japonês entrou na minha vida e me fez desativar as defesas que eu levei anos para construir, isso sem levantar nenhuma ofensiva, apenas me cercando de cuidado e de atitudes capazes de amolecer um coração, tipo o elástico no pulso.
  Foi no momento em que ele se afastou para guardar a bicicleta dele de volta no carro que eu me perguntei como o %Mackenyu% tinha conseguido me convencer. Eu tinha feito isso mesmo? Eu tinha concordado em subir numa coisa com duas rodas, projetada para cair, só porque ele disse que iria me amparar? Desde quando palavras eram suficientes pra mim?
  Apertei o rabo de cavalo, puxando duas pontas do cabelo, e endireitei o capacete. Desvendar como ele tinha vindo parar embaixo da minha pele não era importante agora. O importante era endurecer as minhas pernas já trêmulas e aprender algo novo. E eu nem estava falando de andar de bicicleta. Eu estava falando de confiar.
  — Esse é um grande passo na vida de uma criança. No seu caso, de um adulto. — ele pressionou minha orelha, acariciando o lóbulo. — Você quer mesmo fazer isso?
  — Eu achei que não, mas… Você me faz querer umas coisas que eu nunca pensei que fosse querer.
  — Isso se aplica só a esse caso específico ou você está falando de posições sexuais também?
  Soquei a placa tectônica que ele chamava de peito em represália. Minha pobre bicicleta foi levantada no ar como um pedaço de papel, carregada por %Mackenyu% enquanto ele procurava um lugar plano para a minha aula prática, encontrando-o a poucos metros dali, num espaço verde cujo tapete de grama  poderia suavizar a queda que eu já dava por certa. Passei a perna direita pelo selim, relutante com a ideia de tirar meus pés do chão, e %Mackenyu% verificou a altura antes que eu sentasse. Meus dedos suavam no guidão e eu tive medo, um medo escancarado que moveu meu marido a bater contra o couro da sela sonoramente para demonstrar seu governo sobre a bicicleta e, naquele contexto, sobre mim.
  — Eu tô te segurando, tá vendo? — ele passou a mão pelas minhas costas. — Sente meu braço atrás de você? — fiz que sim com a cabeça. — Eu não vou te soltar até você estar pronta. Vamos no seu tempo.
  Sorri. Se houve algo que fizemos desde que casamos, era ir no meu tempo. %Mackenyu% respeitou todas as estações que eu atravessei, esperou pacientemente por aquela que fosse propícia e, enfim, ela havia chegado. Agora, nossa primavera começaria com meus dois pés abandonando o chão, metafórica e literalmente.
  Encaixei o pé direito no pedal mais alto e dei o primeiro impulso sem muito equilíbrio. %Mackenyu% me escoltava pela parte traseira do selim e me ajudava a vencer o balanceio da bicicleta segurando o guidão junto comigo, impedindo que a haste metálica vacilasse e girasse o eixo da roda frontal sem necessidade. As mãos firmes dele me conduziram na primeira volta completa da corrente e a bicicleta andou timidamente para a frente, movendo-se devagarinho. Eram pouquíssimos centímetros, mas eram meus. Ou melhor, eram nossos.
  — Muito bem. — ele incentivou num volume baixo e orgulhoso. — Agora assuma o controle. Você sabe como controlar enquanto monta, é só imaginar que a bicicleta sou eu.
  — Não acredito que eu quero aprender a andar sozinha só pra poder te atropelar. — rebati, ainda pedalando com as pernas tais quais às do Bambi no gelo.
  %Mackenyu% soltou o guidão primeiro e antes que ele largasse o selim também, meu pé direito me freou instintivamente, arrastando-se na grama e inclinando a bicicleta para o lado. Cambaleei um pouco e fui salva pelo meu marido, que manuseou tanto a mim quanto ao veículo com maestria, evitando que os dois caíssem e presenteassem o paparazzi com uma foto vergonhosa. Ele soltou uma risada pequenininha, fazendo um ar quente bater contra meu rosto, e aproveitou a chance para me dar um beijo na ponta do nariz.
  — Não precisa ter medo, %Agatha%. Eu já disse que não vou deixar você cair.
  — Fala isso pra bicicleta. — me preparei para subir de novo. — Ela claramente me odeia.
  — É por isso que eu estou aqui. — %Mackenyu% reassumiu sua posição. — Você tava quase conseguindo, vamos.
  Repetimos a mecânica, mas, dessa vez, uma carga de adrenalina me energizou. Canalizei a sensação gostosa de liberdade que foi percorrer aquele mínimo trecho e logo voltei a serpentear na bicicleta, acertando o trajeto com a ajuda do meu marido, que já precisava iniciar uma corrida para continuar me acompanhando. Perdi a hora em que ele me soltou, mas soube que ele permanecia me seguindo pelo som dos brincos batendo um contra o outro conforme ele corria, mantendo-se por perto mesmo que não me tocasse mais. O vento ganhou efeito à medida que eu aumentava a velocidade, comandando o guidão e os pedais sem ajuda, e um sentimento de leveza tomou conta de mim, me lançando num estado de euforia inexplicável.
  Eu estava andando sozinha, mas a impressão era a de estar flutuando.
  O percurso que era reto passou a apresentar seus primeiros declives, desestabilizando a minha rota e afetando meu controle. O susto pela parte difícil do trajeto me impeliu a acionar o freio bruscamente e a parada repentina me obrigou a fincar os pés no chão novamente, saindo de cima da bicicleta e deixando que ela caísse para um lado e eu, para o outro. Numa fração de segundo, antes que a minha cara fosse de encontro à grama, %Mackenyu% me interceptou e se embolou comigo, pulando a bicicleta e me tomando nos braços a tempo de inverter nossas posições e me fazer cair em cima dele.
  — Eu consegui? — gritei, apoiada nos peitos amortecedores. — Eu consegui mesmo?
  — Conseguiu! — %Mackenyu% me esmagou num abraço. — Você andou sozinha!
  Eu poderia culpar a emoção pela conquista, mas eu não estava mais na fase de apontar culpados pelo meu impulso de beijar o %Mackenyu%, então eu o fiz em justiça à minha confissão de beijá-lo por vontade. Ele retribuiu mais alegre pelo feito do que eu, apertando meu tronco quase a ponto de me fundir com ele, e como se voltasse a si de um transe hipnótico, prendeu meu rosto com as duas mãos e o examinou com pressa.
  — Você tá bem? Se machucou?
  — Os airbags foram liberados a tempo. — bati no peitoral.
  %Mackenyu% tirou meu capacete e puxou meu pescoço, enfiando a mão por baixo dos fios do penteado frouxo e querendo soltar. O cheiro úmido da terra e das plantas nos encobriu e ele me entregou um beijo calmo, sem língua nem ânsia, apenas com o prazer do efêmero, saboreando o momento que, para nós, assumiu traços de eternidade quando ele soprou um segredo na minha boca.
  — Você me beija por vontade, %Agatha%. Eu te beijo porque eu preciso.

👰🏻‍♀️

  Minhas coxas ainda estavam assimilando o impacto do passeio. Depois de conseguir a primeira volta com sucesso, foi difícil querer parar e acabamos gastando o domingo inteiro no High Line Park sanando meu mais recente vício de andar de bicicleta. %Mackenyu% celebrou minha vitória, que também era dele, e ao voltarmos para a casa, as fotos que motivaram nossa saída já nem eram mencionadas. Foi como se a realidade tivesse sido congelada e nos dado uma trégua, neutralizando no intervalo de um dia todos os problemas que tínhamos que enfrentar.
  O banho gelado ajudou no processo de revigoração e aliviou as dores da pedalada, para as quais %Mackenyu% recomendou diversos remédios, um mais indecente do que o anterior, obviamente. Meu celular continuava sem a notificação que eu esperava e o assunto pendente do divórcio estava começando a me causar aflição. Em vez da resposta de %Mingyu%, tudo o que chegava era referente ao caso do tio Morgan: mais provas, mais protocolos, mais processos cabíveis e mais notícias difíceis de engolir, que me motivaram a abandonar o aparelho no andar de baixo, largando-o na mesa do escritório para tentar ficar longe daquele caos. %Adam% já havia atualizando nossos pais acerca do infortúnio e agora era apenas uma questão de tempo para destituir Morgan do cargo e colocá-lo à disposição da justiça. A propósito, de acordo com o último e-mail do senhor Davis, um mandato oficial estava sendo emitido e chegaria ao meu tio em semanas, possivelmente no endereço da empresa.
  Eu não gostaria de estar lá para ver. Na verdade, ultimamente, só havia um lugar onde eu gostaria de estar.
  Resisti durante o começo da noite, mas minha obstinação enfraqueceu no decorrer dela, não mais encontrando fundamento em ficar socada no meu canto, muito menos em dormir sozinha. A luz familiar do outro lado do corredor permanecia acesa, iluminando a fresta entreaberta, e me ocorreu que o fato de %Mackenyu% nunca fechar a porta do próprio quarto poderia ser um convite.
  Se não fosse, eu faria ser.
  Não vesti robe ou calcei pantufas, a coragem exigia que eu saísse descalça e com a roupa do corpo, do contrário, eu pensaria demais e cutucaria os bichinhos medrosos que roíam o meu crânio. Era mais um costume ao qual eu cedia, e ele foi tão viciante que eu só precisei de uma única exposição para querê-lo todas as noites: dormir com %Mackenyu% se tornou uma necessidade básica com status de luxo, e como eu não gostava de me negar nada, eu fui até o quarto dele resoluta, já com o punho em riste para me anunciar na porta.
  Mas a porta se abriu por completo antes que a minha sombra cruzasse a faixa de luz.
  — Eu vim ficar com você. — anunciei ao ver meu marido aparecer numa calça de moletom.
  — E eu estava indo te buscar.
  Qualquer filtro de pensamento se perdeu quando eu pus os olhos no cós baixo, propositalmente baixo. %Mackenyu% tinha aquelas entradas marcadas apontando um caminho que fazia garotas inteligentes ficarem burras, e eu estava muito, muito propensa a desligar meu lado racional quando ele me tomou em mais um beijo que me trouxe em definitivo para dentro do quarto. Ansioso pelas preliminares, %Mackenyu% arrastou a mão por trás das minhas pernas e subiu numa cadência torturante, tateando pela minha bunda na procura pela calcinha que não estava lá e prendendo um gemido na garganta.
  — Eu disse que vim ficar com você. — arfei, lânguida. — Não disse que era só pra dormir.
  A íris dele se adensou, escurecendo e me devorando além do tato, nos dirigindo até a cama sem partir o contato visual. Sentou-se primeiro, ciente do seu lugar e da minha preferência, e a submissão dele aumentou meu desejo de um modo que me causou tontura. Meu ventre vibrou, reverberando calafrios por toda a minha extensão como ondas que recuavam e avançavam apenas para ganhar mais força e me arrastar mais fundo, numa atração cega e visceral que fazia minha carne clamar pela dele. Para a minha felicidade, %Mackenyu% me satisfazia em tudo.
  Absolutamente tudo.
  — Vai ser assim na maioria das vezes. — coloquei o joelho ao redor dos quadris dele, insinuando onde eu sentaria. — Se acostume.
  — Você está me ouvindo reclamar?
  — Eu só ouço você gemendo. — empurrei o tronco dele, fazendo-o deitar. — Eu adoro, a propósito. Caras não costumam fazer isso.
  — Eu não tenho outra escolha. — %Mackenyu% apertou a seda da minha camisola, deixando o tecido justo na minha pele febril. — Você fica linda quando está em cima de mim. — as mãos deslizaram rumo ao meu colo e circularam meus seios. — E eu nem preciso falar sobre esses dois aqui.
  O volume na calça dele ficou evidente e eu umedeci como consequência da sua rigidez, marcando o moletom da minha excitação prévia. %Mackenyu% sugou o ar entre os dentes e me levou ao encontro dos lábios ávidos, ao passo que nossas intimidades se reconheciam e pediam por menos camadas entre elas. Meu cabelo misturava-se ao suor que se acumulava na nuca e caía sobre a face sôfrega do homem abaixo de mim, que sequer reclamava do fato de não poder respirar direito. Impaciente, interrompi o beijo, desgrudando as mechas do pescoço molhado pelo calor típico que vinha junto com %Mackenyu%, e ele riu sádico quando eu finquei as unhas no seu abdômen para jogar o cabelo para trás com a mão livre.
  — Eu aprendo rápido. — ele levantou o punho, exibindo outro elástico preto.
  Puxei a liga e soltei sem aviso, fazendo-a chicotear contra o pulso acelerado dele, cujo reflexo foi revirar os olhos de prazer pela dor fina. Tirei o elástico e a mão dele descansou na fenda do meu decote, amassando o que pôde ali e me estimulando a rebolar discretamente em cima dele enquanto prendia o cabelo num coque alto. A camisola era a próxima da lista, e eu fiz questão de removê-la lentamente, dando oportunidade para que ele fizesse o mesmo com a calça que, conforme eu suspeitava pelo nosso atrito delicioso, não tinha mais nada por baixo.
  O comprimento aquecido encontrou meu caminho sensível quando eu sentei de volta, latejando contra meu sexo urgente. Encaixei a ponta dentro de mim, deslizando numa fricção que ardia e se aliviava sozinha, e a falta desesperadora que eu sentia foi preenchida conforme %Mackenyu% se perdia e se achava no meu interior. Iniciei o vai e vem, rebolando em ambos os sentidos, investindo o tempo que eu precisava para cobri-lo por inteiro na única ocasião em que não depender de camisinha era algo que trazia conforto. Senti-lo sem barreiras era libertador e, ao mesmo tempo, cativante, como se a ausência de algo nos permeando nos fizesse pertencer ainda mais um ao outro.
  A posse já não era mais uma disputa, mas, sim, uma cessão mútua. Na banheira, agimos por instinto; na cama dele, agíamos por sintonia, atendendo aos desejos subliminares, escondidos na intensidade dos movimentos e nos grunhidos que só nós dois sabíamos decifrar. Acelerei o ritmo, apressada pela recompensa, e por mais prazeroso que fosse quicar no colo dele, demorei mais do que o usual para atingir o êxtase, resultado inconsciente das preocupações pesando nos meus ombros. Levemente frustrada, choraminguei agudo ao abrir os olhos cerrados de tesão e notar que %Mackenyu% estava contendo a si mesmo para me garantir que eu chegasse lá. Ele não era nada egoísta na hora do sexo, coisa rara entre os homens, e essa característica aliada à subserviência com que ele me tratava fazia o orgasmo ir se tornando paupável ao ponto de me fazer salivar.
  Exausta, deixei que ele me impulsionasse para cima ao arquear os quadris e passei as mãos para trás, buscando apoio nas coxas endurecidas pelo esforço. Fora de controle, ele fechou o cerco na minha cintura e empurrou a si mesmo com um vigor que curou qualquer sintoma da fadiga muscular ou de formigamento. Era bom, não só pela biologia, mas pela afinidade que ultrapassava os limites dos nossos corpos. Quando %Mackenyu% estava dentro de mim, éramos um encontro de almas, ora no tempo de um, ora no tempo dos dois, ora no tempo dele, do jeito dele, com a fome dele, devastadora e impiedosa, que fazia eu me entregar por completo.
  Quando %Mackenyu% estava dentro de mim, eu não precisava pensar.
  Eu não precisava agir.
  Eu só precisava senti-lo.
  E eu o sentia difuso a uma fisgada violenta, aviso inconfundível do esperado ápice se aproximando, quando a agonia toda se desfez, espalhando-se pela minha pele como um bálsamo quentinho e revitalizante, um fervor que fortalecia e amansava meu corpo na mesma medida e relaxava os órgãos contraídos do pré-gozo, soltando nossas feições contorcidas numa expressão da mais pura satisfação e regozijo compartilhados, pois assim que eu gozei, %Mackenyu% prolongou meu orgasmo chegando junto e escorrendo no meu íntimo apertado.
  — De nada. — ele suspirou e eu continuei subindo e descendo, dessa vez pela respiração arquejada dele.
  — Cala a boca. — respondi debilitada. — Eu posso ter fingido.
  — O jeito que você grita o meu nome não mente. A sua armadura cai quando você geme pra mim, %Agatha% O’Brien Arata. — ele checou a própria arritmia segurando o peito com a mão da aliança.
  Saí de cima dele e me joguei na cama, vitimada pela vertigem e pelos espasmos involuntários que se repetiam pelos meus membros inferiores. O silêncio confortável e intrínseco pairou sobre nós, servindo de trilha sonora para a nossa completa recuperação, e assim que houve fôlego suficiente para falar, eu virei na direção dele, que ainda sustentava um sorriso aberto carimbado de orelha a orelha.
  — Posso fazer uma pergunta?
  — Claro.
  — Por que a tatuagem de flecha? — risquei o desenho no antebraço relaxado.
  — Eu sempre tenho um alvo.
  — Hm. — balbuciei, manhosa. — No que você está mirando agora?
  — No momento, em você. — %Mackenyu% abriu os olhos e me encarou até o âmago. — Quer tomar um banho comigo?
  — Sim, amor.
  Oi?
  Que porra foi essa, %Agatha%?
  — O que você disse? — %Mackenyu% alçou o tronco num pulo.
  — Sim, por favor.
  — Você me chamou de amor. — ele saltou sobre mim, prendendo meus pulsos contra o colchão.
  — Não chamei.
  — Chamou sim!
  — Não chamei, não tem uma gota de sangue no seu cérebro agora, você não sabe do que tá falando.
  — Você me chamou de amor, chamou sim! — ele distribuiu vários beijos pelo meu rosto e eu me agitei, indefesa.
  — %Mackenyu%!
  — Durma comigo. — ele parou subitamente, deixando a fala intrusiva escapar.
  — Você é maluco? — ri, catatônica pelo pedido fora de contexto. — Nós acabamos de fazer isso.
  — Eu estou falando de você dormir aqui, na minha cama, todas as noites. No meu quarto. — ele persistiu, ainda detendo meus braços e pernas. — No nosso quarto, aliás. — %Mackenyu% me liberou, sentando-se sobre os joelhos dobrados, esquecido da sua nudez e das marcas vermelhas que eu deixei nele. — Vem, %Agatha%. Eu deixo você mudar o que você quiser aqui.
  — Outra reforma? — ergui uma sobrancelha. — Tem certeza?
  — Eu não ligo, você pode até pendurar um pompom cor de rosa em mim e me obrigar a usar pijamas combinando.
  Levantei, analisando tudo por cima do nariz, contemplativa e calculando as vantagens. %Mackenyu%, na expectativa pelo meu veredito, acompanhava os desenhos que eu fazia no ar, como se estivesse armando uma conta, e mordia a parte interna das bochechas conforme me estudava com seu faro aguçado, querendo pescar qualquer pista que fosse.
  Tolinho. Como se existisse outra resposta possível para aquela pergunta.
  — Tá bem. — concordei, afinal. — Eu me mudo pra esse quarto.
  Fui derrubada novamente e coberta por mais beijos de comemoração. A animosidade foi diluindo aos poucos, amenizando-se em meio às conversas sobre as mudanças na decoração e a nova logística de arrumação do closet, para onde %Mackenyu% insistiu que eu transferisse todas as minhas peças e, com isso, anulasse qualquer possível desculpa para voltar ao quarto antigo. Fomos nos acalmando, rendidos ao doce torpor da nossa nova liberdade, do poder recém-conquistado de decidir por nós com base nos nossos sentimentos e no nosso querer, sem as amarras das cláusulas e sem as mordaças de um acordo forçado. Do fardo que abandonamos ali, sobrava apenas o cansaço por tê-lo carregado por tanto tempo, cansaço esse que foi se apoderando e nos vencendo, tornando o banho uma ideia quase abortada. 
  — %Agatha%… — %Mackenyu% me chamou num fio de voz. — É a dancinha que você faz quando as coisas saem do jeito que você quer, como você chama meu nome pela primeira vez no dia e os seus beijos na testa.
  — O que é isso? — quis saber, convicta de que ele estava delirando da fadiga.
  — Minhas três coisas favoritas sobre você.
  Meu marido apagou em seguida, deixando comigo o gosto de ternura pelas últimas palavras dele antes de cair num sono profundo, as quais eu acolhi com um beijo na testa para selar uma por uma na lembrança. A quietude que o abrandou passou para mim, me seduzindo com a proposta de um cochilo no meio daquela bagunça que nos tornamos e me persuadindo a adormecer. Não sabia qual textura era mais convidativa, se a derme caramelada dele ou se os lençóis macios ainda marcados e cheirando a nós, porém, atendi minha intuição de me aninhar no que parecia ser mais aconchegante, e era, sem dúvida, o peito exposto do homem que eu chamei de amor.
  “Amor”. Um vocativo que eu nunca pensei que conseguiria usar.
  Em outra época, a “gafe” me manteria insone e atacaria minha gastrite, então, conseguir dormir tranquilamente logo após cometê-la foi um choque — um choque maravilhoso, entretanto, um choque. A percepção do tempo enganou e nos mergulhou noite adentro num descanso que só se encerrou com os raios de sol deitando ouro no parapeito da janela, nos avisando do dia que começava apesar da falta de jeito com que adormecemos. A claridade baixa banhava o chão, ganhando alguns metros, contudo, surtindo pouco ou nenhum êxito, ganhou um aliado na missão de nos despertar: o alarme de %Mackenyu% soando no seu horário desrespeitoso de seis da manhã.
  — Desliga! — reclamei, dengosa. — Se esse negócio continuar tocando, eu não venho mais.
  — Bom dia, esposa. — %Mackenyu% já acordou fazendo o que eu pedi. — Dormiu bem?
  — Sim, mas eu quero dormir mais. — afofei o travesseiro que eu não lembrava de ter pegado.
  — Eu odeio quebrar o clima, mas é segunda-feira e o Davis precisa da nossa assinatura em aproximadamente 12 documentos...
  — Argh. — afundei a cara na fronha. — Eu ainda nem li todos os anexos que ele mandou. — tentei enxergar, resistente. — E você?
  — Eu ia, mas você não vai acreditar. — %Mackenyu% lançou seus braços em minha volta, me encurralando. — Uma gostosa invadiu o meu quarto e me jogou contra a parede, eu não tive escolha a não ser transar com ela até cair duro.
  — Uau! — fingi espanto. — Ela devia ser muito gostosa mesmo.
  — Ah, ela é. Mas é um pouco emocionada, sabe? — ele meteu o nariz no meu pescoço. — Me chamou de “amor” e tudo.
  Me debati debaixo dele em vão, envergonhada do meu ato falho e pretendendo negá-lo até a morte, porém, minha reação só comprovava o que eu tinha feito, e estava bem claro que %Mackenyu% não deixaria meu deslize cair no esquecimento. A manobra mais sensata era desviar do tópico e distraí-lo com um assunto de maior importância. 
  — O convite do banho ainda tá valendo? — afastei o cabelo dele para trás. — A gente toma uma ducha e vai pra empresa mais cedo olhar a papelada, pode ser?
  A sugestão foi aceita com %Mackenyu% levantando-se primeiro para preparar a água. Dividimos o chuveiro e as provocações de praxe, mais divertidas agora, e ele ficou pronto na brevidade cômoda masculina, necessitando apenas da água-de-colônia borrifada e de mais um elástico em cima do relógio para finalizar a arrumação antes de mim. Inconformada por vê-lo sem mais atribuições, tratei de delegar algumas, entre elas, buscar minha roupa e minha necessaire de maquiagem do meu futuro ex-quarto.
  — Mais alguma coisa, vossa alteza? — ele se debruçou na porta do banheiro, aparecendo no meu campo de visão pelo espelho onde eu me maquiava.
  — Meu celular está no escritório. — apliquei um batom nude escuro, espremendo os lábios. — Pode pegá-lo pra mim? Eu desço em cinco minutos.
  %Mackenyu% fez uma referência, zombando da minha mania de esbravejar ordens, e eu realizei os toques finais com algumas joias e apanhando a bolsa para encontrá-lo no gabinete com cara de biblioteca, único cômodo da casa que eu deixei intocado. Era um ambiente agradável para trabalhar e para pensar também, e não raro eu o utilizava com esse fim, inspirada pelos livros na estante de madeira nobre e pela acústica favorável, que impedia que o barulho lá de fora entrasse e que o de dentro fugisse.
  Desci as escadas salteando os últimos degraus, batendo meu salto contra o piso até o escritório, onde eu avistei o contorno de %Mackenyu% escorado em sua mesa, de costas. Fiz questão de chacoalhar os berloques da pulseira para não assustá-lo com uma entrada grosseira e fui chegando mais perto dele, emitindo tantos sons quanto pude. A princípio, estranhei a inércia alheia e minha intuição começou a gritar que havia algo ruim carregando a atmosfera, o que foi confirmado quando %Mackenyu% não esboçou nenhuma mínima reação à minha presença, permanecendo imóvel.
  — %Mackenyu%?
  Uma mudez talhante se concretizou.
  — %Mackenyu%, tá tudo bem? — insisti.
  Ele girou o corpo vagarosamente, revelando meu celular na sua mão. Os olhos dele, embora molhados, se assemelhavam a duas pedras, tão sólida e dura foi a forma como eles repousaram sobre os meus. Uma bruma de dor o transpassou num relance, como se ele tivesse sido atingido por uma lança invisível, e um pavor gelado partiu minha espinha, misturando-se à confusão que se instalou como um redemoinho crescente e destruidor entre nós.
  — Isso chegou assim que eu peguei. — %Mackenyu% me mostrou a tela e a mensagem na barra de notificação.
  A mensagem do %Mingyu%.
  — %Agatha%… — ele tirou meu nome do fundo das entranhas. — Você pretende se divorciar de mim?


  Alerta para o noticiário de atualizações: %Agatha% enfim descobriu o culpado pela falência da empresa, mas quem recebeu uma revelação ainda mais devastadora foi %Mackenyu%. Saiba qual em Dopa(mine).

Capítulo 9
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Lelen

Que tio Morgan receba tudo o que ele merece <3
E eu amo quando o homem fica todo bobinho pela mulher, mas esse final de capítulo foi tipo um tapinha na cara, assim, de leve HASOIDNASOIDNOI

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