Capítulo 8 • Beijos na testa
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(POV: %Mackenyu%)
— %Mackenyu%?
A voz da %Agatha% foi a primeira coisa que eu ouvi antes mesmo de abrir os olhos. Nu, pesado e dormente, afundei na cama bagunçada, úmida de espuma de banho e outras coisas que atestavam o que tínhamos feito. Anestesiado pelo torpor do sono que ainda tomava conta de mim, murmurei um gemido sem sentido, não me dando sequer o trabalho de me mover. Minhas costas, deitadas no fino lençol de elástico — a única peça de cama que resistiu ao nosso sexo instintivo —, sentiram a ardência familiar das unhas que voltaram a rasgá-la. A pele foi despertando aos poucos, preguiçosa, recuperando-se do cochilo profundo que, pelas minhas contas, havia sido de meia hora, mas uma meia hora revigorante, como há muito eu não dormia.
— %Mackenyu%, acorda! — minha esposa me sacudiu. — Nós estamos atrasados.
— O quê?
— São nove horas!
Impossível.
— Nove horas? — tateei pelo travesseiro, cego pela luz ignorante do dia óbvio. — Tipo, nove horas da manhã? Eu dormi tudo isso?
— Nós dormimos. — %Agatha%, um borrão de astigmatismo sentado na beira da cama, tentava colocar um dos brincos e me cutucava com certa força. — Levanta, a gente tem que trabalhar.
— Mas… — esfreguei os olhos e puxei um pedaço de lençol para me cobrir. — Hoje é sábado.
— Nós marcamos reunião com aquele representante de Los Angeles, eu esqueci totalmente! Não podemos deixar o cara esperando!
Ela pôs o celular no ouvido com a impaciência de quem estava tentando pela enésima vez, numa representação quase caricata das girl boss bem-sucedidas e sem paciência para flores e chocolates. E como uma atividade por vez não bastava e soava um enorme desperdício de tempo, %Agatha% tentava fechar a pulseira no punho direito enquanto sustentava o telefone com o ombro, deixando-o cair na cama com um urro de frustração pela chamada não atendida. O colo vermelho acusava uma espécie de alergia leve, provavelmente desencadeada pelo calor da movimentação intensa de um atraso, e o hidratante mal espalhado se acumulava na fenda entre os seios, sustentados por um sutiã básico.
Mas nada sobre a %Agatha% era básico. Até o creme acetinado na pele irritada parecia uma coisa de outro mundo.
— Claro que quando eu mais preciso do %Adam%, ele evapora. — ela bufou. — Mas na hora de ser inconveniente e atrapalhar meu primeiro encontro, ele estava lá!
Franzi o cenho e levantei, ainda resistente, amarrando o lençol na cintura.
— Você levou seu irmão no seu primeiro encontro?
— Ele deveria me dar uma carona, mas quando descobriu que marcamos no cinema, ficou com medo do que Chad Williams poderia fazer com a irmãzinha dele numa sala escura. — ela soltou um começo de palavrão para a pulseira que não fechava.
— E o que Chad Williams fez com você numa sala escura? — pedi o pulso dela num gesto que disse “vem aqui” e coloquei o acessório com algum desgosto pelo nome revelado.
— Nada, %Adam% empata-foda estava lá, você não prestou atenção?
— Eu ainda nem acordei. — reclamei, apertando as têmporas.
— Então acorda! Se a gente correr, ainda dá tempo de colocar a culpa no trânsito. Tyler dirige, eu já mandei ele pegar as chaves. Lave o rosto, vista uma camisa, uma calça e seja breve! Não quero o tio Morgan com aquele bafo de uísque no meu ouvido me dando sermão sobre horário!
%Agatha% não esperou terminar as próprias frases e saiu andando em direção ao banheiro, alvoroçada, falando rápido e dando mais ordens pelo caminho. Bocejei alto, perdendo algumas delas e prevendo uma dura repreensão por isso mais tarde, no entanto, sabendo que era inútil queimar os dois neurônios funcionais que eu tinha prestando qualquer atenção ao que ela dizia. Fora o fato de eu ter acabado de acordar e meu corpo letárgico ainda estar processando como raios eu consegui dormir tanto tempo, a silhueta que se esgueirava na cuba e arrebitava uma bunda redondinha bem ao alcance da minha palma era uma visão criminosa.
Criminosa sim, porque não havia outra palavra que pudesse descrever %Agatha% de lingerie borrifando colônia em si mesma, tingindo os lábios com um balm vermelho que ela passava eroticamente com os próprios dedos, arrumando a calcinha minúscula (o som indecente do elástico estalando…) e decidindo como usaria o cabelo, jogando-o pra lá e depois pra cá, prendendo-o acima da nuca, simples assim. Bem na minha frente. Bem depois de termos feito amor.
Quis enfiar a cabeça na privada na hora.
“Fazer amor…”
Não foi isso que fizemos.
Se tivéssemos “feito amor”, eu seria o primeiro a acordar e ficaria assistindo %Agatha% dormir mais um pouco. Eu afastaria o cabelo dela dos olhos e lhe contornaria o perfil, e ela se moveria minimamente em resposta, ronronando baixinho. Então, eu faria uma manobra mais ousada, desenhando as costas expostas dela e conseguindo um pequeno espasmo e um arrepio com isso. %Agatha% despertaria meio irritada, sem saber se gostava do carinho ou se tinha raiva de mim por ter interrompido o seu sono. Ela me diria alguma provocação com a voz rouca e eu começaria a rir, beijando os ombros descobertos pelo lençol…
Se tivéssemos “feito amor”, ela ainda estaria enroscada nos meus braços. Se tivéssemos “feito amor”, eu mesmo teria cancelado aquele compromisso idiota apenas para “fazermos amor” de novo.
Peguei uma das escovas de dente novas do armário e apertei o tubo de pasta de um jeito tão descolado da realidade que foi preciso dar uma breve conferida se aquilo era mesmo creme dental e não, sei lá, protetor solar. O falatório sem pausa de %Agatha% ecoava insistente e, embora as palavras fossem direcionadas a mim, o olhar dela estava voltado para o espelho, onde eu também me obriguei a fixar os olhos para ter algum contato visual enquanto ela tagarelava sobre tudo no mundo, menos sobre a mancha roxa que eu descobri no meu pescoço.
A origem do hematoma era igualmente prazerosa e indiscutível. A culpada pelo ato, munida agora de uma máscara de cílios, abria a boca involuntariamente para aplicar o produto e só por isso cessou seu monólogo e se permitiu respirar. Assistindo-a absorta em sua tarefa, a lembrança nítida dos beijos e dos toques continuava me dominando, abrindo espaço apenas para os comandos simples de gargarejar a água e cuspir a espuma de menta, como se aquilo pudesse expulsar também a fantasia impregnada no meu cérebro.
Por mais que “juntar as escovas de dente” tivesse um quê confortável de ironia, não era a manhã seguinte que eu imaginava ter depois de casado. A transa impulsiva que nos fez pular a parte do preservativo (já que o risco de gravidez ou de alguma doença não existia) terminou com ambos caindo num sono tão profundo de exaustão que sequer houve tempo para uma conversa de travesseiro, ou um beijo de boa noite na testa…
Joguei a água no rosto dessa vez, rindo sozinho.
Eram subestimados, os beijos na testa.
— %Agatha%… — me enxuguei rapidamente, decidido. — Você não acha que devemos conversar? Sobre ontem?
— O que tem pra conversar?
Que tal como nós dois ficamos depois disso? A noite de ontem não mudou nada? O que eu faço com essa marca de mordida que você deixou no meu pescoço? E o seu cheiro na minha pele, %Agatha%? Como eu esqueço dele? Como eu durmo agora sem você?
— Nada. — suei frio. — Eu só queria saber se você está bem.
— Eu estou ó-t-i-m-a! — ela fechou a embalagem do rímel e bateu com ela no meu peito descontraidamente. — Dopamina em dia. Muito obrigada, aliás. — piscou.
Piscou e saiu.
Definitivamente, não fizemos amor. Fizemos biologia.
E %Agatha% já era capaz de seguir com as próprias pernas enquanto eu ainda podia senti-las roçando pelas minhas.
⚔️
Mãos apertadas e mais alguns pedidos de desculpas pelo atraso depois, o tal representante de Los Angeles saiu da sala de reuniões tentando o melhor que pôde para controlar os pulinhos de alegria. A proposta foi tão boa que ele até fez vista grossa para o meu hematoma, cuja gola da camisa, por mais que eu puxasse, não conseguia cobrir. %Agatha% riu todas as vezes que me viu arrumar o estrago com os mesmos dentes que fizeram a obra de arte, agora pintada de um violeta avermelhado num fundo meio verde ou azul, enfim, uma cor que não tinha nome.
Mas tinha dona.
As unhas não eram mais as únicas demarcadoras de território e minha esposa se mostrava mais do que feliz com o mapeamento que vinha fazendo do meu corpo, criando sua própria cartografia no que ela achou ser uma terra sem lei. Bom, da minha parte, não haveria resistência. Se ela queria fincar as bandeiras da sua exploração pela minha pele, se ela queria plaquinhas com o seu nome num terreno dócil e suscetível, se ela queria brincar de exercer o controle, então, sim, eu a deixaria descontar subconscientemente, com mordidas, arranhões e o que mais ela quisesse, a raiva que ela sentia por todas as coisas que não podia controlar de verdade.
Eu deixaria qualquer coisa desde que ela me tocasse e essa necessidade era novidade para mim.
Ao menos na empresa, diante de um público que acreditava que éramos pombinhos apaixonados, eu podia me dar o gosto desse contato. Alisar o joelho dela por baixo da mesa, acompanhá-la com a mão apoiada na base das costas ao transitar pelo prédio, entrelaçar os braços nas caminhadas mais longas, quem sabe até arriscar um beijo na testa.
Ri mais uma vez. Aquele estava sendo um tema recorrente.
Eram subestimados, os beijos na testa.
— Perfeito. — %Agatha% assobiou, olhando para o contrato assinado com a tara de um adolescente de 14 anos. — E com a taxa de juros lá embaixo. Como você fez isso?
— Eu posso ser bem encantador, docinho, você deveria saber.
— Eu nem vou discutir. — ela bateu os papéis e pôs a mão nos quadris como se duvidasse de mim. — Ainda não acredito que você conseguiu um convite pra inauguração do restaurante que ele comprou. Sabia que já tem fila de espera? A lista é exclusivíssima, nem a Laura conseguiu.
— Como é mesmo o nome do lugar?
— The Baratie.
— Nome esquisito. — torci o nariz. — Aposto que a comida também é. Nunca ouvi falar de um chef especialista em crustáceos.
— Eu só conheci uma pessoa que sabia temperar aqueles bichos malucos do fundo do mar sem deixar tudo com gosto de borracha...
— Desde que não sirvam o Bob Esponja e o Patrick, eu vou ficar bem.
%Agatha% soprou uma risada, interrompida apenas por uma presença impossível de ignorar e um cheiro tão detestável quanto.
— Pelo visto, o casal reverteu o atraso e salvou o dia. — Morgan anunciou-se com um hálito de um álcool muito forte para aquela hora da manhã.
— Mais do que isso, fechamos com muita vantagem. A porcentagem ficou-
— Os detalhes da sua supercompetência não me interessam, querida sobrinha. Eu só vim buscar uma cópia do contrato para registro.
Antes que eu pudesse vestir minha armadura reluzente e sair em defesa da donzela moralmente ofendida, %Agatha% se encarregou de me informar que aquela era uma batalha sua ao menear a cabeça e me impedir de falar. E de mandar o velho para o quinto dos infernos.
— Eu mesma faço isso, tio. Eu anexo aos relatórios anteriores que você ficou de me entregar. Onde estão?
— Ainda insistindo em analisar as contas, %Agatha%? — ele amargou. — Está tentando mostrar para o papai que você é capaz?
— Meu pai sabe muito bem que eu sou capaz. A maior prova disso é que eu estou aqui fechando os contratos, e não você.
A quinta série dentro de mim quase assobiou “Ouch! Morgan saiu ferido!”, mas eu me contive. A segunda reação, no entanto, foi a mais difícil de segurar, porque havia algo na postura incisiva e no modo como %Agatha% casualmente girava seu salto agulha contra o porcelanato que me deixava estranhamente excitado. Morgan, por sua vez, ignorou a cortada e sacou o frasco metálico da cintura com dedos grosseiros e amarelados, provavelmente pela nicotina, o vício que costumava acompanhar o alcoolismo. Deu um gole impaciente na bebida e, como se ela não tivesse surtido o efeito desejado, esfregou a boca com desgosto, desistindo da cópia pela qual era responsável e deixando a sala.
— A maioria das pessoas fica mais agradável quando bebe. — observei, vendo %Agatha% dar a volta na mesa e se aproximar devagarinho. — Não funciona com o seu tio.
— Funciona com você? — ela parou a poucos centímetros de mim, calculando como arrumar minha gola. — Adoraria te ver bêbado um dia.
— Pra você poder se aproveitar do meu lindo corpinho? Achei que você gostasse de mim pelo meu cérebro.
— Eu gosto de você pelo seu potencial de ganhos. — ela sorriu de canto, brincando com o botão aberto. — E você tem olhos legais.
— Então você admite que gosta de mim?
— Só o necessário.
Até mesmo os meus ossos tremeram. Não dava pra ir correndo colocar Careless Whisper pra tocar num alto-falante, mas já era um começo. Eu bem cogitei cantarolar o refrão ou fazer alguma piadinha que a irritasse, mas o elogio repentino e o modo como os caninos dela apareceram devagarinho entre a boca vermelha denunciaram que ela estava prestes a me pedir algo.
— O que você quer, %Agatha%? — vi através dela. — Qualquer coisa. Eu faço.
— Por que acha que eu quero alguma coisa? — ela puxou meu colarinho e só então eu percebi que ela ainda não tinha me soltado.
— Porque você está sorrindo igual ao Coringa. — olhei para as mãos dela apoiadas no meu peito.
Mais um território conquistado, a propósito.
— Essa situação com o tio Morgan se prolongou demais. — %Agatha% fechou os olhos e suspirou. — Eu preciso agir.
— Qual o plano?
— Eu quero investigá-lo. Oficialmente. Mas para uma intervenção desse nível, eu preciso que toda a diretoria seja unânime.
Não era necessário ser um vidente para saber o que Donna e Arthur, meus sogros, e %Adam%, meu cunhado, pensariam de um inquérito interno sobre Morgan. A rusga entre eles ficou bem evidente todas as vezes em que a diretoria se reuniu para decidir algo e, se eu conhecia a mulher diante de mim (e eu estava começando a achar que conhecia), com certeza a espertinha já teria posicionado pais e irmão ao seu favor antes de falar comigo. Como minha mãe costumava dizer, quando se tratava dos negócios, %Agatha% “não dava ponto sem nó”.
Infelizmente para ela, eu também não.
— Você só depende do meu voto. — decretei.
— Sim, de certa forma-
— Não, não foi uma pergunta. — balancei o indicador. — Você está nas minhas mãos.
Eu consegui ouvir os pensamentos dela na hora e eram mais ou menos assim: “eu vou arrancar esses três brincos, a tua orelha e te fazer engolir tudo”.
— Você quer mesmo ir por esse caminho? — perguntou, inquieta.
— Só até você admitir que precisa de mim.
— Você disse que faria qualquer coisa! — a mimada me deu um empurrão inofensivo.
— Eu faço, mas eu quero ouvir você dizer.
Dei a volta na mesa, fazendo questão de me sentar na “cadeira do chefe”. Assistir %Agatha% O’Brien Arata lutar contra si mesma e perder era sempre um espetáculo que merecia ser apreciado de camarote.
— Tá. — ela debruçou-se sobre o tampo, fervendo como um vulcão. — Eu preciso de você, %Mackenyu%.
— Interessante. — cocei o queixo. — E por que você precisa de mim?
— Porque eu não tenho escolha.
— Uh, resposta errada. — levantei e ameacei sair.
— Ok, ok! — nossos corpos se chocaram quando %Agatha% me interceptou no meio do caminho. — Eu preciso de você porque você é um administrador brilhante.
— Brilhante e bonitão? — arrisquei.
— Brilhante e bonitão. — ela concordou.
— E bom de cama também?
— E bom de cama também.
— Agora tudo junto, do início?
— Eu preciso de você, você é um administrador brilhante, bonitão, bom de cama e um marido incrível. Satisfeito?
O ato falho me desarmou por completo. %Agatha% não percebeu a confissão que fez.
%Agatha% não percebeu que admitiu sem querer que me achava “um marido incrível”. Ela achava?
Minha vontade era de tascar um beijo nela ali mesmo, de segurá-la pelo rostinho pequeno e sacudi-la, dizendo: “por que você me maltrata tanto, sua criaturinha geniosa por quem eu estou fatalmente atraído? Por que eu consigo tirar 200 kg de ferro do chão, mas não consigo tirar os seus 60 kg da minha cabeça?”
Foi quando a palavra “contrato”, escrita em algum papel em cima da mesa, surgiu e me acertou como um chute nas bolas. %Agatha% me quis ontem, na banheira, mas ela me queria hoje, ali, naquela mesa? O fato de termos infringido uma cláusula do contrato anulava todo o resto e nos dava a liberdade para beijos espontâneos? Eu não tinha a menor ideia. A regra era não fazer nada sem que ela pedisse, mas ela pediu, então isso queria dizer que eu poderia tê-la quando quisesse agora? Porque eu queria tê-la, toda hora. Só não sabia dizer se era por um princípio de paixão ou se era por ela, de certa forma, ser proibida pra mim, dado que desafios e conquistas sempre foram o meu grande tesão. Em todos os cenários, minhas mãos estavam atadas e eu odiei cada segundo daquela rara ocasião em que eu não podia fazer o que eu queria.
Claro que não todos os segundos. A frase “você é um marido incrível” ainda ecoava nos meus ouvidos e a gentileza acidental foi mais que suficiente para me motivar a cutucar o nariz arrebitado na minha frente e dizer:
— Comece a investigação, eu vou te dar todo apoio. Mais alguma coisa que eu possa fazer por você, sua alteza?
%Agatha% aproveitou nossa proximidade e jogou os braços por cima dos meus ombros, me chamando para um abraço.
— Use gola alta hoje à noite. — sussurrou no meu ouvido.
O “pedido” me causou um calafrio e uma vontade inexplicável de atendê-lo. A necessidade de mandar, ou melhor, de mandar em mim, qualquer ordem que fosse, era tão natural para a minha esposa quanto respirar. Mesmo nos dias da semana, quando ela dispunha de um assistente e vários estagiários se estapeando pela vaga, quem tinha que buscar o café dela era eu. Na cafeteria do outro lado da rua, no horário mais movimentado e com os adicionais mais difíceis de lembrar. %Agatha% espiava pela janela da sua sala, esperando o exato momento em que a fila estivesse quilométrica, para aparecer dizendo que queria um mocha (com espuma à parte, chocolate meio amargo e outros duzentos fricotes…)
Fingia reclamar só para não perder a pose. Depois que a fila andava, que o atendente finalmente entendia todos os detalhes do pedido e que eu conseguia atravessar a rua equilibrando tudo e sem ser atropelado, ela sorria com a cara mais lavada do mundo e me soltava um “obrigada, docinho”.
Esse agradecimento, eu odiava admitir, me fazia balançar o rabinho de tão feliz, rabinho esse que eu estava ansioso para balançar novamente, brigando com o relógio para mostrar que obedeci mais uma ordem: usar a roupa que ela exigiu. E quando a hora de sair para o jantar chegou, eu fiz tudo do jeitinho dela, colocando inclusive a água-de-colônia.
Quem sabe ela gostasse do cheiro. Ou quem sabe ela me jogasse um biscoito e afagasse a minha cabeça dizendo que eu era um bom menino.
A gola alta caiu bem, apesar de um peitoral todo marcado chegando antes de mim fugir um pouco do meu estilo discreto. Cobri tudo com um blazer enquanto %Agatha%, ao contrário do que eu pretendia, exibia ostensivamente o seu decote, amplo o suficiente para atrair um predador ou um recém-nascido faminto.
— Parece que eu vou ter alguma competição aqui. — inflei o peito quando ela surgiu.
— Onde? — ela me olhou de cima a baixo. — Eu prefiro os meus.
— Eu sinceramente prefiro os seus também.
Tomei um soco no bíceps, um pouco mais forte que o de costume, e a pugilista riu e disparou na dianteira, achando que eu não pensaria muito na dor se a bunda dela estivesse dançando dentro do vestido em direção à garagem. E ela achou certo.
— Posso levar o Audi? — pediu, escorando-se na lataria.
— E eu vou de passageiro princesa?
— Por favor! — ela atacou com a jogada infalível de cruzar os braços na frente do corpo, espremendo os seios um contra o outro.
Não tinha como dizer não para a mais primitiva e universal fantasia masculina: uma gostosa num carrão.
— Não arranha o meu bebê. — joguei as chaves que %Agatha% apanhou no ar e entramos.
Os pedais a confundiram um pouco no início e ela estancou na saída, colocando meu coração na garganta. Ela segurava a direção como uma boia de salvamento, a postura rígida, procurando acostumar-se ao ritmo da máquina e, sem perder muito mais tempo em entendê-la, simplesmente começou a conduzi-la aos trancos e barrancos, saindo da garagem desastrosamente, mas com a audacidade que lhe era nata.
%Agatha% era prática e assertiva o tempo todo. Nada de aproveitar a maciez da embreagem ou de sentir o vento no rosto, o importante era chegar ao destino, mesmo que fosse cantando pneu e trucidando meu motor no processo.
— Jesus. — roguei baixinho no quarto solavanco da noite.
— Shhh, fica quieto.
— Eu estava quieto quando você avançou aquele sinal vermelho, agora eu tô com medo de morrer. Ou pior, de arranhar meu Audi.
— Para de ser exagerado. — o câmbio tremeu, pedindo engrenagem. — Nunca fez uma barbeiragem no trânsito?
— Só quando eu tinha 15 anos e peguei o carro do meu pai escondido.
— Rebelde. — acusou.
— Pelo menos eu não fui ao cinema me agarrar com Chad Williams. — resmunguei.
— Eu já disse, nada aconteceu com o Chad no cinema. — ela reforçou com um cansaço divertido e desviou os olhos da estrada por um instante. — Só depois, na festa de formatura.
— Safada. — devolvi.
— Olha quem fala! O que você fez na sua festa de formatura?
— Fiquei em casa.
%Agatha% meteu a marcha errada e eu tive outro princípio de AVC.
— Fala sério!
— Pergunte ao Gordon. — apertei a tira do cinto de segurança, apreensivo.
— Não posso confiar no seu irmão, ele vai confirmar qualquer história sua. — ela enfim engatou a marcha certa.
— Pelo andar da carruagem, a única coisa que ele vai precisar confirmar é o meu testamento. Onde foi que você aprendeu a dirigir, hein?
— Eu tenho uma pergunta melhor, por que você não foi ao baile?
— Meu par terminou comigo no dia anterior. — falei sem importância.
Dessa vez, %Agatha% brecou o carro e a freada brusca me fez descolar as costas do assento.
— %Agatha%, mas que porr-
— Ela te dispensou!? — a voz dela subiu uns três tons, tamanha foi a incredulidade, e agarrou o encosto do meu banco com as unhas estourando no estofado novinho. — Você, %Mackenyu% Arata, tomou um fora? — as buzinas fizeram-na lembrar que havia trânsito e ela voltou a “dirigir”. — Balela. Aposto que destruía corações por aí.
— Obrigado pela parte que me toca, mas na escola a única coisa que eu destruía era a matemática. — me ajeitei, tenso, rememorando os oito dígitos do meu seguro de vida. — Eu era um típico nerd asiático, ela só queria passar nos exames finais e…
— Quando ela conseguiu o que queria, ela te largou. — ela completou no automático e um relance vazio e indecifrável passou pelo seu semblante na hora, rápido como um relâmpago.
— Acabou sendo uma coisa boa. — segurei a alça no teto do carro e pisei repetidamente no meu freio imaginário. — Por causa disso, eu mudei o cabelo, o guarda-roupa, comecei a malhar…
— Isso que eu chamo de glow up. — %Agatha% assobiou e derrapou por uma curva sem ligar a sinaleira. — Pena que não nos conhecemos antes, eu era bem popular no colégio. Eu poderia ter te levado ao baile, sabia?
— Você nunca olharia pra mim. Eu não era Chad Williams, o capitão do time de futebol.
— Como sabe que ele era o capitão do time de futebol?
— Ele ficou com você no baile, certo? O capitão do time sempre fica com a garota mais bonita da escola.
— E como sabe que eu era a garota mais bonita da escola? — ela ruborizou, deixando transparecer que estava lisonjeada.
— Porque você ainda é a garota mais bonita de qualquer lugar. — falei com uma certeza científica. — Vamos ser francos, senhora popular, se tivéssemos estudado na mesma escola, você nem ia saber da minha existência. Eu vivia enfiado no clube de xadrez.
— Bom, para a sua informação, eu também jogava xadrez. — mais uma parada repentina, finalmente, na frente do restaurante de nome estranho. — E eu chutaria a sua bunda com tanta força que você ia ficar chorando por um mês inteirinho.
— Chute o nerd, todo mundo faz isso. Mas adivinha quem tem a garota mais bonita da escola agora? — pisquei.
— Xeque-mate. — os berloques da pulseira dela arranharam o painel. — Quer que eu abra a porta pra você, docinho?
— Achei que você nunca fosse perguntar, querida.
O manobrista mudou de cor quando abriu a porta do motorista e deu de cara com uma mulher deslumbrante em vez de um empresário careca e engomado, coisa que havia aos montes ali. %Agatha% desceu e contornou o Audi, destravando a minha porta e oferecendo a mão para me ajudar. Aceitei, derretido pelo sorriso dela e zonzo pelos flashes de alguns fotógrafos da imprensa local na frente do estabelecimento, que acharam que nossa inversão de papéis inusitada renderia uma nota descontraída na coluna social.
— Sorria, senhora Arata. — escoltei minha esposa pela cintura marcada. — Vamos vender felicidade.
%Agatha% posou para as câmeras juntando as duas mãos no meu ombro e ajustando a personalidade para o modo público de casada, ao passo que eu, que detestava fotos, tiraria um milhão delas apenas para envolver o corpinho pequeno demais e descoberto demais para a temperatura que fazia lá fora.
— Aqui, docinho. — removi o blazer, colocando-o sobre ela. — Melhor assim?
— Boa jogada. — ela esticou o pescoço, olhando ao redor. — Mas os fotógrafos não viram.
— Não fiz para eles verem. — indiquei o caminho. — Eu sou um cavalheiro.
Nos conduzimos até a recepção, onde alguém tirou meu blazer da %Agatha% e nos levou com mil simpatias aos nossos lugares. O ambiente era cativante, apesar dos tons de azul e branco remeterem de um modo muito óbvio à especialidade do chef: frutos do mar. As paredes adornadas por quadros com ilustrações marítimas e peças decorativas inspiradas no oceano, âncoras de bronze e cordas de veludo, dialogavam com os lustres imitando redes de pesca, que iluminavam suavemente as mesas, dispostas de forma espaçosa e intimista.
Eu achei tudo bem brega, mas esperei o maître terminar de nos acomodar para dizer.
— Decoração náutica, que original.
— Levaram o tema muito a sério. — %Agatha% ergueu uma sobrancelha e indicou outra mesa do salão com a cabeça. — Está cheio de piranhas.
Segui o olhar dela e vi, no ângulo paralelo ao que estávamos, várias cabecinhas de cabelos loiros acompanhadas por vários cabeções com cabelo nenhum. O grupo de seis pessoas, aparentemente três casais, gesticulava calculadamente e inspirava falsidade de longe, medindo sorrisos e palavras.
— Conhece eles? — perguntei enquanto o maître nos entregava os cardápios e saía à francesa.
— Só as mulheres. — %Agatha% analisou. — Da Saint Peter.
— Quem são?
— Garotas loiras demais da fraternidade legal demais que eu era morena demais e inteligente demais para entrar.
— Você pode não ter entrado na fraternidade, mas fisgou o milionário mais jovem e mais bonito. — arrisquei mais uma olhada. — Os delas estão caindo aos pedaços.
%Agatha% riu, escondendo o rosto atrás do menu. Eu me sentia nas nuvens quando conseguia fazer as covinhas saltarem.
— Enfim, espero que elas não me vejam. Não quero que nada estrague meu jantar. — ela procurou pelo maître, que prontamente surgiu de volta para anotar os pedidos.
Abrimos com uma seleção de ostras frescas acompanhadas de um vinagrete de frutas cítricas que, a princípio, não me animou em nada. Isso porque eu achava que ostras eram trabalho demais para comida de menos. Sem falar que não havia nada de apetitoso numa coisa servida na carcaça do próprio animal — um animal que era uma gelatina mole dentro de um esqueleto de cálcio duro e cortante. Nem era preciso experimentar para saber que aquilo tinha gosto de minhoca
— Prova. — %Agatha% pediu quando viu minha careta para o prato.
— Dizem que ostras são afrodisíacas. — cutuquei uma delas, relutante. — É por isso que você quer que eu coma a meleca do oceano?
— Tem um monte de proteína nisso aí, você que é viciado em academia vai gostar. Prova logo pra eu poder dizer “eu te avisei”.
— Tá, mas se eu ficar todo aceso e excitado, a culpa vai ser sua.
— E quando não é? — %Agatha% me serviu a concha e eu aceitei mais desconfiado que um bandido interrogado pela polícia.
Para a minha surpresa, a carne macia e cozida no ponto certo tinha um sabor suave, que lembrava a água do mar. O gosto salgado e intenso que desceu pela minha garganta era melhor do que eu imaginava e, mesmo que eu tentasse mentir, meus olhos arregalados e fascinados entregariam tudo.
— Eu te avisei. — ela cantarolou.
— Avisou sim, e você fica tão sexy quando tem razão.
— Esse é o ponto, docinho, eu sempre tenho razão.
Foi a minha vez de rir largado e pedir a cartela de vinhos para regar o jantar que já prometia ser mais do que agradável. Em meio à loucura do trabalho e dos dias sem fim no escritório, era revigorante ter um tempo de qualidade com a minha esposa, disputando-a apenas com uma lagosta grelhada ao molho de ervas finas em vez de acionistas estressados e um tio Morgan causando problemas. Era maravilhoso assisti-la gesticular, falar, mastigar, enfim, ser ela mesma, reclamando que mal conseguia respirar de tanto que comeu.
— Eu não sei como você vai entender isso, mas eu quero me casar com essa lagosta. — saboreou a última garfada.
— Que bom que você falou primeiro. Ia ficar estranho pra mim.
— Sério? O mesmo cara que odiava crustáceos?
— Eu sei admitir quando estou errado. — bebi o Chardonnay. Pelo menos ter a %Agatha% como piloto no carro da morte me permitia o prazer de Dionísio. — Na verdade, eu gostei tanto que vou chamar o chef aqui para cumprimentá-lo pessoalmente. — fiz um sinal para o maître buscar o responsável.
O local não era o melhor em termos de paisagismo, mas a qualidade da comida e do atendimento eram inquestionáveis. Demorou o equivalente a um gole para que as portas da cozinha se abrissem do outro lado do salão e um rapaz de cabelo descolorido dentro de um dólmã azul-marinho começasse a andar na nossa direção, esbanjando um sorriso muito fácil e muito aberto. Conforme ele se aproximava, era possível distinguir tatuagens nos antebraços, expostas pelas mangas dobradas, e as mãos enfiadas nos bolsos como se elas não servissem para mais nada na Terra além de cozinhar. Eu teria reparado em outros fatores, como as mulheres acompanhadas de seus maridos quebrando os pescoços para admirar a figura masculina que se destacava, mas senti %Agatha%, trêmula, apertar meu joelho por baixo da mesa e tirar meu foco da figura sorridente para ouvi-la dizer de queixo trincado as palavras mais amargas da noite:
— Alerta de ex-namorado.
A lagosta quase voltou.
— O quê?
— Aquele é %Taz% Skylar, meu ex-namorado. — ela continuou rápido e entre dentes, antes que ele nos alcançasse. — Eu terminei com ele há alguns anos.
— Quantos anos? — tentei manter a cara de paisagem quando percebi que ele vinha sorrindo o caminho inteiro exclusivamente para %Agatha%.
— Não muitos. — ela seguia explicando a história com o maxilar travado e acenando para o chef. — Ele ficou arrasado.
Eu também ficaria, mas, àquela altura, eu já o odiava.
— Por que terminaram?
— Quando %Taz% me conheceu, ele tinha uma vida inteira planejada, %Mackenyu%. — ela respirou pesado. — Uma vida que não me cabia porque envolvia filhos. Ele não sabia da minha condição e eu não queria interferir nos planos dele, então eu terminei.
— Você nunca contou a verdade?
%Agatha% simplesmente meneou a cabeça.
— E por que você contou pra mim?
Ela entrelaçou os dedos nos meus e me encarou no fundo dos olhos.
— Porque você me pediu pra te deixar tentar. — %Agatha% me apertou mais forte. — Eu estou deixando.
Engoli em seco, tentando entender o que tinha acontecido naqueles quarenta segundos tão densos e sabendo que seria impossível assimilar algo, uma vez que o chef já estava a alguns passos de nós. Zonzo pelo vinho e pelo contexto fornecido, resolvi me ater aos fatos concretos, e um dos fatos concretos era que, assim que levantamos juntos, a atenção de %Taz% foi direto para as nossas mãos dadas. Apenas nesse momento o sorriso incansável enfraqueceu, mas não durou muito tempo.
— Bonita! — ele cumprimentou em espanhol e abriu os braços para %Agatha%. — Fiquei tão feliz quando soube que você estava aqui!
— Oi, %Taz%! — ela aceitou o abraço e eu desviei a vista. — O que você está fazendo aqui em Nova York? Pensei que estivesse no paraíso das Ilhas Canárias!
— Eu estava, mas vim abrir minha primeira filial do Baratie! — ele anunciou envaidecido.
— E quando é que vai embora? — deixei escapar e ganhei uma cotovelada na costela. — Eu quero dizer, quanto tempo vai passar conosco?
— Alguns meses, até a cozinha se estabelecer e começar a funcionar sem mim. — ele se dignou a me olhar por um átimo, finalmente se dando conta de que eu era uma pessoa e não um acessório. — E aí eu vou voltar de vez para a Espanha, já que… — %Agatha% tornou a ser o centro da visão dele. — Já que eu não tenho mais motivos para ficar.
Como é que é, %Taz% Mania?
— %Taz%, conheça meu marido, %Mackenyu% Arata. — %Agatha% cortou a tensão e nos apresentou oficialmente.
— Prazer em conhecê-lo. — ele estendeu a mão e eu achei que ela ficaria melhor se continuasse no bolso dele. De preferência, bem longe da %Agatha%.
— Igualmente. — retribuí o cumprimento. — Parabéns pelo restaurante, eu e minha mulhertivemos uma ótima experiência.
— Muito obrigado. E parabéns pelo casamento, eu li nos jornais. — ele voltou a rondar %Agatha% como um pitbull desejando um pedaço de carne. — Aliás, eu fiquei um pouco confuso com a notícia. — a fala veio recheada de ressentimento e acompanhada de uma olhada por cima do nariz. — Achei que você não estivesse pronta para um compromisso tão sério, mi bonita. O que mudou?
— Eu mudei. — %Agatha% soltou casualmente. — A vida me surpreendeu.
— Do mesmo jeito que você me surpreendeu naquela banheira de hotel em Canárias?
Senti o golpe, que ganhou requintes de crueldade quando os olhos de vidro do homem-peixe brilharam vividamente, como se ele estivesse ali, ao vivo, repassando o filme do encontro na banheira na cabeça. Um desarranjo generalizado me fez suar frio e eu me esforcei para vencê-lo e não demonstrar a onda de ciúme que se apoderava de mim, mas era incômodo demais pensar que %Agatha% e o diabo da Tasmânia tiveram uma experiência similar à nossa. É claro que eu não era ingênuo a ponto de achar que ela nunca tinha feito algo “menos convencional”, mas eu fui tolo o suficiente para acreditar que aquele sexo na água tinha sido uma coisa só nossa, enquanto, na verdade, era também um capítulo do passado dela que eu preferia não saber.
Mas agora eu sabia, e eu tinha que administrar aquela informação.
— Isso não vem ao caso agora, %Taz%. — %Agatha% interveio com uma risadinha, voltando a procurar pela minha mão. — O que eu quero saber foi o que você colocou naquela lagosta, estava divina! — ela recostou a cabeça no meu ombro. — Meu marido não é muito fã de frutos do mar, mas hoje ele mudou de ideia, não foi, querido? — um carinho inesperado no meu rosto me fez virar a cabeça e olhar para ela, que me plantou um selar bem rápido nos lábios formigando de vinho.
Toma essa, cozinheiro.
As mãos do loiro de farmácia voltaram para os bolsos e o semblante adquiriu traços leves de desânimo. O assunto, de repente, tornou-se neutro e entramos num tópico mais seguro, desviando da gafe que ele cometeu de propósito. Por mais imaturo que fosse, o fato de %Agatha% encontrar maneiras diferentes de me tocar e me incluir na conversa bem nas fuças do cabeça de bagre me dava um sentimento infantil de superioridade e deixava a minha testosterona gritando “é, mexilhãozinho, eu ganhei a sereia”.
A sensação era boa. Muito boa. E ficou melhor ainda quando a conversa se encaminhou para os finalmentes.
— Foi bom te ver, %Taz%. — %Agatha% começou as despedidas, oferecendo uma mão que o cara de camarão vencido beijou e demorou a soltar.
— Foi melhor ainda ver você. — galanteou e depois me estendeu as patas outra vez. — E %Mackenyu%. Que bom que eu finalmente descobri quem roubou minha bonita.
O “bonita” não me irritou, porque %Agatha% era bonita mesmo, em espanhol, em japonês e até em latim... O problema era o “minha”. O “minha” me deu nos nervos.
— Não vejo a %Agatha% como algo a ser roubado, mas, sim. Fui eu. — exagerei na pressão do aperto de mão dessa vez. — Boa sorte na Espanha.
Assisti o cozinheiro se afastando com um prazer inigualável, torcendo para que ele nunca mais voltasse do inferno tropical de onde tinha saído; já %Agatha%, agora de braços cruzados, me estudou por completo com uma feição pouco amigável.
— Nossa, hein. Deu pra sentir o cheiro dos hormônios daqui. Só faltou você fazer xixi em mim pra demarcar território.
— Eu me segurei, o Chardonnay me deixou bem apertado. — a bexiga reclamou da garrafa que tomei. — Pode me dar licença por um minuto?
— Seja rápido, o %Taz% pode voltar pra me roubar de você e me levar pras Ilhas Canárias.
— Acho que ele vai ter que entrar na banheira castelhana dele sozinho. — tentei fazer soar como uma piada, mas uma nota de amargura fugiu e eu apressei o passo para o toalete para encobri-la.
Na pia (e é claro que a cuba tinha a forma estúpida de concha), umedeci a mão para esfriar a nuca, enrijecida desde a interação catastrófica. Eu detestava me sentir daquele jeito, enciumado, “ameaçado” e, principalmente, bancando o bobão. Ter um ex e ter transado com ele numa banheira ou sei lá onde não deveria ser motivo para tanto desconforto e eu comecei a questionar a origem disso. Não demorou muito para entender que a chateação toda vinha de uma expectativa que eu mesmo criei, e a revelação maliciosa do platinado arranhou alguma coisa dentro de mim.
E outra coisa arranhou, lá fora, tão alto que foi possível ouvir do banheiro masculino.
Um pouco mais à frente, no corredor que dava acesso aos lavabos, as loiras que %Agatha% reconheceu mais cedo conversavam (ou melhor, cacarejavam) animosamente entre si, fora das personagens centradas e elegantes nas quais estavam na frente dos maridos. Normalmente, nada ali me despertaria reação alguma a não ser tédio, mas o nome citado foi quase um convite para escutar o assunto alheio.
— Você viu a %Agatha%? — a primeira começou. — Continua com a mesma cara de abuso da faculdade.
— Eu vi! E você, hein, Brittany? — a loira número 2 falou para a número 3. — Ainda queria bancar a legal e falar com ela!
— Eu odeio ela também, só achei que seria educado dar os parabéns pelo casamento!
— Casamento muito suspeito, né? Feito às pressas… Aposto que ela tentou dar o golpe do baú. Que outro motivo aquele homem maravilhoso teria para se casar com %Agatha% O’Brien?
— Ela sempre se achou muito espertinha. Talvez ela seja mesmo, fisgando uma delícia daquelas. Eu comeria ele todinho de hashi.
— Você comeria qualquer um justamente porque não tem quem faça isso com você em casa.
— E você tem? Casar com velho milionário dá nisso. Ganhe dinheiro, perca uns orgasmos. A gente se vira como pode.
— Nem me fala. Watson não levanta mais nem com a pílula azul.
— Pelo menos o seu ainda tenta. O Rogers só dura meio minuto, depois vira pro lado e dorme.
— Enquanto nós passamos fome, a pele da desgraçada da %Agatha% está reluzindo. Acham que ele gosta mesmo dela?
— Claro que não. O visco deve ser injeção de colágeno. Aquele cara é areia demais pro caminhãozinho dela.
— Eu ainda me pergunto como ela conseguiu.
— Golpe da barriga. Com certeza foi golpe da barriga.
O festival de futilidade não tinha feito meu sangue ferver até a última alfinetada. Fazer comentários maldosos sobre uma ferida que minha esposa carregava, mesmo que poucas pessoas soubessem dela, era sórdido demais. Além disso, todos os encontros inconvenientes que aquele jantar tinha proporcionado me levaram a me inclinar às encenações do nosso joguinho de aparências. Ouvir a conversa da turma da cirurgia plástica amplificou minha vontade de dar o troco e me fez sentir na obrigação de “vingar” a mulher que estava comigo; mais do que isso, de mostrar que eu queria estar com ela. E quando meu lado competitivo se sentia estimulado, o diabinho no meu lado esquerdo não descansava até conseguir me seduzir.
O anjinho levou vantagem na disputa, repetindo “não vale a pena” como um mantra hipnótico, e eu passei pelas três sem que elas me percebessem ou desconfiassem que eu estava ouvindo (o que não foi muito difícil, já que elas estavam obcecadas demais consigo mesmas para notar qualquer coisa). De longe, depois de fazer o papel de espião e vencer a luta moral, avistei %Agatha% em pé ao lado da nossa mesa, pronta para sair — e ansiosa para botar as mãos no Audi outra vez.
— Nem faz essa cara que você não tem escolha. — ela me recebeu com a palma estendida. — Está alcoolizado.
— E ainda dirigiria melhor que você. — me deixei ser guiado até a área externa.
Na calçada, na parte coberta por um toldo, a movimentação constante dos manobristas era feita com muito cuidado e discrição. A fachada do restaurante, com um grande portão de ferro forjado e um letreiro luminoso exibindo o nome do estabelecimento (o nome muito feio do estabelecimento), aos poucos foi se enchendo de clientes que, assim como nós, aguardavam seus carros. Entre os que esperavam, as loiras 1, 2 e 3 e seus respectivos carecas chegaram, pondo-se a uma distância considerável de nós, porém não o suficiente para permitir que continuássemos nos ignorando mutuamente. %Agatha% empalideceu, visivelmente desconfortável com a ideia de ser abordada por pessoas que não tinham nada de genuíno para oferecer, e eu entendi o desespero. Lidar com gente oca por dentro fazia parte da vida social que nosso mundo demandava e o que eu li na pálpebra trêmula dela ao ver a gangue das siliconadas malvadas chegando foi um pedido de socorro estampado.
— Elas estão olhando pra cá?
— Fixamente. E cochichando.
O anjinho (coitado!) ainda gritou “não desça ao nível delas!”, mas o diabinho me convenceu a colar a boca no ouvido da %Agatha% e sugerir:
— Quer dar um showzinho?
— Sempre. — ela sequer titubeou. — O que você tem em mente?
Dispensei as explicações e coloquei o plano em ação. Assim que o manobrista estacionou o carro e devolveu as chaves para %Agatha%, eu não perdi tempo e a amassei contra a lateral do veículo, enfiando as mãos por baixo do cabelo dela e envolvendo-a num beijo explícito demais para um lugar público e com plateia. Pedi passagem com a língua, caminho conhecido por nós, que nunca obedecemos regras de etiqueta na hora de beijar, e continuei massageando o pescoço dela através dos fios soltos que se emaranhavam nos meus dedos, bagunçando as ondas que ela gastou horas fazendo com babyliss.
O batom que ela retocou depois do jantar foi parar na minha boca, borrando-a de um modo obsceno, e respirávamos como dois alunos pegos em flagrante nas arquibancadas do ginásio, tomados de adrenalina. Puxei o lábio inferior dela com os dentes para sensibilizar o beijo, que já fazia um barulho ofegante e por pouco não se enquadrou como atentado ao pudor, e por fim, sorri embevecido, certo de que agora as loiras teriam um bom motivo para falar. E de que eu teria mais uma coisa para pensar no chuveiro…
— Vamos logo pra eu poder tirar esse vestido de você, docinho. — apalpei de mão cheia a bunda imprensada contra o Audi.
— Querido! Não na frente das pessoas! — %Agatha% limpou os cantos da boca e arrumou o cabelo, fingindo só então ter tomado conhecimento dos nossos espectadores atentos. — Ah, oi, meninas! Como vão?
Cada loira respondeu um “oi” mais xoxo que a anterior.
— Desculpem por isso, eu adoraria bater papo, mas eu preciso ir. — minha esposa puxou o vestido, me olhando atravessar até meu lado da porta. — Sabem como é, eu tenho um marido insaciável.
Eu já estava dentro do carro quando %Agatha% entrou trôpega e bateu a porta, golpeando o volante com soquinhos de empolgação.
— Caramba, isso foi demais! — ela me acertou um tapa sonoro na coxa. — Por que você não me avisou do plano?
— Napoleão Bonaparte foi avisado do inverno russo? — esfreguei a perna. — Tática de guerra, meu bem.
— Você viu a cara delas? — gargalhou alto.
— Para quem tem aqueles velhos caquéticos como parceiros sexuais, um beijo assim é o equivalente a um filme pornô. — apreciei a animação dela, tão grande que a fez arrancar sem afivelar o cinto. — Eu juro que vi a loira número 2 cruzar as pernas.
— Qual delas era a loira número 2? — ela perguntou ao mesmo tempo em que procurava de onde vinha o bipe do sensor.
— E faz diferença? — avancei no gancho do motorista e puxei a fita na frente do corpo dela, travando-a.
— Não faz! Eu me sinto tão bem! — ela pisou sem dó no acelerador.
— Será que você pode se sentir bem dentro do limite de velocidade? — minha vista embaçou quando o ponteiro do velocímetro subiu.
— Eu te chamaria de estraga prazeres, mas depois disso, eu não consigo.
— Teria sido a noite perfeita se não fosse o cozinheiro de sotaque atravessado. — disparei sem vontade.
— Chef. E você mesmo admitiu que ele tem talento.
— Tem que ter talento pra fritar peixe?
%Agatha% soltou um “uau” mudo e formou um biquinho manchado soprando a queimadura.
— Ele te chateou pra valer, não foi?
— Nah. — bufei. — Só achei desnecessário ele mencionar o episódio da banheira. Pensei que tinha sido uma coisa nossa. — olhei pela janela e vi meu próprio reflexo espelhado no fumê. Se estivesse chovendo (e se a %Agatha% não fosse uma maníaca na direção), seria a cena perfeita de um clipe triste.
— Não sabia que isso era importante pra você. — %Agatha% ponderou após um instante. — Ter coisas que fossem só nossas.
— Eu também não sabia. — minha voz foi morrendo ao confessar.
— Nesse caso, obrigada por me contar. Prometo levar isso em consideração daqui pra frente.
— Deixa eu adivinhar. — me voltei para ela. — Isso quer dizer que você está me deixando tentar?
— Não. — nossos olhares se cruzaram profundamente. — Isso quer dizer que eu também estou tentando.
⚔️
Abafei um grito no travesseiro. Tinha raiva da minha cabeça que não parava nem na hora de deitar, do meu corpo que não sabia descansar e reagia à inércia com uma dormência insuportável e da cama que não me deixava confortável em posição nenhuma. Dormir era complicado. Não deveria, era só fechar os olhos e ficar parado. Por que eu não conseguia? Não era uma habilidade que vinha instalada de fábrica em todo ser humano?
Deixando a indignação usual de lado, era preciso admitir que parte da agitação naquela noite em específico se devia a uma série de acontecimentos, com o espanhol pirateado cabeceando a lista e as palavras da %Agatha% no carro seguindo o primeiro colocado. Dizer abertamente que estava tentando era um progresso para alguém naturalmente cauteloso como ela. Tentar implicava se colocar em posição de vulnerabilidade, ficar suscetível ao erro, e %Agatha% não gostava de errar. Tentar tirava as rodinhas de treino da bicicleta, não oferecia garantia de retorno e exigia uma certa exposição.
Eu sabia bem. Eu tinha passado a vida inteira tentando. Eu estava tentando ser o orgulho do meu pai, eu estava tentando sustentar um império inteiro sem suar, eu estava tentando vencer a insônia e eu estava tentando transformar um casamento arranjado num final feliz, porque, afinal de contas, se a vida te der limões, você sabe, faça uma limonada e a porra toda.
Limonada metafórica à parte, eu nem sabia se podia chamar de “minha” a vida vivida em função dos outros, gasta para agradar terceiros e ser conveniente em todas as ocasiões. Talvez por isso eu quisesse tanto que aquele casamento desse certo: porque eu queria uma vida minha. Algo construído por mim. Limões espremidos com cubos de gelo, folhas de hortelã e uma camada de açúcar na borda do copo. É, era isso, uma vida minha, fresquinha, feita na hora. Ácida também, porque às vezes a vida tinha dessas, mas aí você faz uma careta, bebe tudo e descobre que, bem lá no fundo, o gosto é doce.
Porque é sua vida.
E a minha estava misturada a de outra pessoa, uma pessoa que dormia do outro lado do corredor e tinha um beijo viciante, um gosto viciante, um cheiro viciante e outras várias qualidades que poderiam causar dependência química.
Eu seria capaz de numerar os atributos da minha esposa de mentirinha até amanhecer, mas duas batidas na porta interromperam minha divagação. A visita, que só podia ser dela àquela hora da madrugada, me pôs de pé num rompante, imaginando que as ostras nojentas tinham causado algum mal-estar ou, num cenário muito melhor, surtido o tal efeito afrodisíaco, no entanto, quando eu atropelei a mim mesmo para abrir a porta, o que eu vi foi uma %Agatha% saudável e não excitada vestida num baby doll do tamanho da minha sanidade.
— %Agatha%? O que você está fazendo aqui?
— A posição sexual mais perigosa de todas. — ela entrou sem esperar pelo convite. — Seja gentil, tá? Vai ser a minha primeira vez.
— Do que você tá falando?
— Eu vou dormir de conchinha com você. — anunciou, puxando a ponta do cobertor e analisando o espaço disponível. — Você tem um lado de estimação?
Dei de ombros.
%Agatha% se acomodou na cama, testou a fofura do travesseiro e não gostou do resultado, pegando mais um e juntando os dois atrás das costas, inclinando-se para ver se estavam do seu agrado. Remexeu-se ainda mais um pouco e eu segui com a mão congelada na maçaneta da porta, aguardando a ordem de deixá-la aberta ou fechada, conforme a preferência da nova inquilina (com jeito de proprietária) do cômodo.
— Me explica de novo que eu ainda não entendi. — optei, enfim, por fechar a porta.
— Você ficou chateado com o %Taz% e o lance da banheira, então eu vou te dar uma coisa que eu nunca fiz com ninguém.
Só deu tempo de colocar um joelho em cima da cama antes de paralisar outra vez.
— Você nunca dormiu de conchinha?
— Não. — ela afundou mais um pouco, achando um meio-termo entre sentar e deitar. — Eu guardei isso pra você. Vai ser a coisa só nossa que você queria.
Pular no colchão para expressar meu entusiasmo não era uma opção porque %Agatha% apresentou a ideia como se estivesse dizendo que “acabou o pão” ou qualquer outra frase sem importância, então eu somente torci o rosto na melhor feição de indiferença que pude. Contudo, bastou fazer a primeira menção de engatinhar até ela que a linguagem corporal a traiu, deixando evidente que o nervosismo que subia pela minha medula espinhal a atingia em algum ponto também, obrigando-a a amassar as barras do lençol. O cheiro suave do amaciante subiu, impregnando o ar de aconchego e acolhimento, e minha cama, cenário onde eu era derrotado noite após noite, de repente tornou-se o lugar mais atraente e calmo que já existiu. Mas como tudo que é novo assusta e todo aquele conforto era novo, eu não soube o que fazer com as mãos nem com os espasmos causados pela falta de camisa e pela presença inesperada, tomando a pior das decisões e me parando numa posição curva e ridícula no meio do colchão.
— Não precisa fazer isso, %Agatha%. — precisava sim. — Não é muito confortável dormir comigo. — durma comigo, por favor.
— Ah, é, eu estou muito desconfortável no momento. — ela bocejou, camuflando o nervosismo. — Você quer ser a de dentro ou a de fora?
A de dentro, sempre a de dentro.
— Podemos alternar os turnos. — sorri fraco.
— Ótimo. — %Agatha% virou-se, apontando meu lugar. — Então a gente começa comigo usando esse peitão de travesseiro porque eu não gostei desses aqui.
Me arrumei ao lado dela, que facilmente se arranjou sobre o meu tronco nu e me abraçou o peito depilado e liso. Agradecendo internamente por ter escolhido o dia certo para raspá-lo (um costume que desenvolvi porque ajudava na aerodinâmica dos exercícios e atendia a minha vaidade), concentrei a respiração toda no diafragma para evitar um soluço de ansiedade. Apesar de cada fibra do meu ser aplaudir o enlace e %Agatha% ter aprovado a textura que a loção aloe vera deixou na região, eu tinha receio de me mexer, de relar a mão no lugar errado e fazê-la sair dali ofendida e me odiando por ter maldado as suas intenções, as quais, a julgar pela mansidão com que ela se movia em cima de mim, eram totalmente sinceras. Como todas as atitudes dela, afinal. Fosse sentando em mim descontroladamente ou apenas procurando um afago, %Agatha% era 100% investida em tudo que fazia.
Eu pensava em cada mínimo aspecto com tanta força que faltava oxigênio para as sinapses e logo mais seria possível sentir o cheiro da fumaça saindo pelas minhas orelhas. Quando o pé da %Agatha% subiu pela minha canela e ela descansou o joelho na altura da minha coxa, eu não soube como reagir nem à manobra, nem àquela leve fricção de um perfil muito aveludado e quentinho procurando se encaixar entre, sem falsa modéstia, músculos rígidos que não estavam acostumados a receber afeto. Foi por isso que, mesmo que fosse quatro de julho com todos os fogos da cidade de dentro de mim, eu me limitei apenas a levantar os braços como um boneco de posto de gasolina e esperar que ela ficasse à vontade.
— Você pode me abraçar agora. — ela arrastou o queixo pela minha pele. — Ou é a sua primeira vez também?
— Eu só estou um pouco nervoso. — continuei praticamente imóvel.
— Por quê?
%Agatha% ergueu a cabeça para me olhar e a mão dela, sutilmente apoiada no meu peito, atritava o ouro da aliança contra o meu mamilo, causando um arrepio gostoso pelo contato com a área sensível. Puxei o ar bem devagar, carregado com o frio na barriga que antecedia uma confissão, e decidi que aquela atmosfera de intimidade era o momento propício para ser visceralmente honesto.
— Porque quando estamos a sós, fora da nossa farsa, meu instinto continua sendo te tocar ou te beijar, %Agatha%. Principalmente desde que a gente… — me pausei com a lembrança e com o susto de quase ter dito “fazer amor”. — Desde que a gente ficou junto. Mas não se preocupe, eu não vou encostar em voc-
Os lábios dela me surpreenderam, selando a minha boca inquieta e anulando todos os argumentos que eu tinha para reafirmar que eu não faria nada que ela não quisesse. Eu teria ficado boquiaberto se não estivesse tão ocupado retribuindo a investida que me deixou atônito e extasiado na mesma proporção — com uma margem tendenciosa para o êxtase. Acontece que só %Agatha% conseguia suavizar, no intervalo de um dia, a transição nada tênue de um sexo biológico para uma sessão fofa de conchinha. E ela fez isso sem esforço nenhum, com um beijo impulsivo, definitivo, que dizia que ela já estava tão farta daquele contrato quanto eu. Um beijo transbordando de vontade, que fez minhas mãos criarem vida própria, atrevendo-se a deslizar por dentro da camisa fina e acariciar a curva sinuosa da lombar, aproveitando a chance tão generosamente ofertada para apreciar o que havia escondido ali.
— Não me assusta mais desse jeito. — ela partiu o beijo de repente, recobrando a consciência.
— De que jeito? — demorei a aterrissar.
— Dizendo que não vai encostar em mim.
A seriedade com que ela me fitou marcou a primeira vez que eu vi qualquer vestígio de temor nos olhos de raposa que ela tinha, sempre afiados e seguros, e o aparente pânico que minha fala despertou nela baixou-lhe a pressão timidamente. Esfreguei as mãozinhas geladas dela, encostando a boca nas falanges trêmulas para transmitir algum calor nelas, e fechei os olhos, crendo que a escolha atenuaria o impacto do que eu tinha para dizer.
— Eu não sei bem como agir agora que quebramos as regras, %Agatha%. — tive palpitações por toda parte. — Em que termos nós estamos?
— Nos nossos. — decretou com firmeza e os olhos voltaram a ser duas lâminas.
— Que seriam?
— Você não precisa da minha permissão toda vez que encostar em mim, %Mackenyu%. — %Agatha% se debruçou ainda mais e colocou meu outro braço na cintura fina com convicção. — Se um dia eu não quiser mais o seu toque, você vai saber.
— E como eu vou saber se você quer?
— Eu sempre quero. — sussurrou, presa no meu hálito, e me brindou com outro selar. — E como prova disso, eu vou deixar você me fazer cafuné até eu dormir.
— Foi você quem invadiu o meu quarto. — contornei as linhas do rosto dela com as pontas dos dígitos, como se uma trava tivesse sido removida do meu cérebro e eu estivesse autorizado a acessar todos os pedacinhos possíveis de %Agatha% O’Brien. — A missão de me fazer dormir é sua.
— Achei que você não conseguisse dormir de jeito nenhum.
Sorri meu maior sorriso.
— Eu consigo com você.
A partir daí, começamos a nos aninhar um no outro, descobrindo nossos pontos de junção, testando posições e abraços, todos eles, de lado, “coalinha”, de urso, até chegar à conchinha perfeita: eu, envolvido pelos bracinhos curtos e uma perna pendurada nos meus quadris, e %Agatha% atrás de mim lutando para abarcar tudo, respirando morno e risonho na minha nuca e deixando no meu ouvido seus desaforos deliciosos, bem baixinho (“você é grande demais”, “nisso que dá viver de frango e batata-doce”, “por acaso você tá treinando pra virar um Cavaleiro do Zodíaco?”)
— É sério que você nunca fez isso? — quis saber depois que ela encerrou o “reclame aqui”.
— Sim. — ela fungou atrás da minha orelha. — Estou me saindo bem como virgem de conchinha?
— É cedo pra dizer, eu vou precisar de mais provas.
— Você tá tirando vantagem de mim, %Mackenyu% Arata? — ela mordeu meu lóbulo em repreensão.
— Nem se eu quisesse, você é muito selvagem. — fui até o céu com a mordida.
A risada dela foi se esvaindo e se perdendo pelas paredes do quarto, dando lugar a um silêncio confortável que se instalou em sintonia com nosso fôlego ressonando mansinho, anúncio de uma noite bem-dormida. Mas eu não queria dormir, muito menos que a noite acabasse, eu queria desfrutar de tudo que eu pudesse daquela experiência inédita, finalmente, só nossa.
— O protocolo da conchinha dita que agora temos que trocar confidências. — joguei no ar, manhoso.
— Eu topo. — %Agatha% concordou num tom desperto e relaxado ao mesmo tempo. — Me diz alguma coisa sobre você que ninguém sabe.
— Uma vez eu empurrei meu irmão da escada e coloquei a culpa no cachorro. — foi o maior segredo que meus neurônios embriagados de %Agatha% conseguiram apontar.
— Eu tô falando sério.
— Eu também tô falando sério, eu nunca contei isso pra ninguém.
— E eu nunca contei que mergulhei o aparelho do %Adam% no aquário antes dele colocar na boca. — %Agatha% desenhava as veias nos meus braços enquanto falava. — Me dá os podres de verdade.
— Tá. Você quer artilharia pesada? — me virei dentro do abraço, deixando meu rosto abaixo do dela na esperança de ganhar mais beijos. — Então lá vai. Quando eu tinha 6 anos, eu roubei a peruca do meu tio e colei na cara pra fazer o papel de Moisés.
— O quê? — ela riu agudo.
— Era uma peça de Natal na escola.
— O que Moisés estava fazendo no Natal se no tempo dele Jesus nem tinha nascido?
— Eu sabia que tinha alguma coisa errada, o cristianismo não é muito popular no Japão.
— Mas as perucas eram? — %Agatha% mexeu nos meus brincos.
— Ah, sim. Meu ojisan nunca aceitou a calvície.
— Nem eu, não quero ficar casada com um careca. Se seu cabelo começar a cair, eu saio fora. Aliás, deixa eu ver essas entradas.
%Agatha% penteou meu cabelo para trás, vistoriando meu couro cabeludo e puxando os fios das laterais, conseguindo com isso não uma expressão de dor, mas um risinho fino de leveza que fez meu nariz franzir.
— Tudo em ordem por aqui. — foi o veredito dela.
— Então eu mereço um beijo de boa noite?
%Agatha% achou que sim. E o beijo veio. Demorado. Terno. Na testa.
O beijo veio como uma confirmação da nossa afinidade, cumprindo todas as promessas e superando todas as expectativas. A fama em torno do gesto se justificou no ato, e eu finalmente entendi o encanto sobre ele. Havia um elemento doce, calmante, especial. Era como selar um pensamento, tranquilizar uma mente cansada, jurar proteção.
Eram mesmo subestimados, os beijos na testa.
Ou então eles só eram bons assim porque vinham dela.
%Agatha% estendeu meu pedido, me beijando não só a testa, mas o rosto inteiro, espalhando vários beijinhos pela minha bochecha e queixo e terminando tudo com um beijo lento nos lábios. Suspirei, extasiado, a cara inteira ardendo de um jeito gostoso e o corpo tendo explosões involuntárias de dopamina, como se eu estivesse levando mil choquinhos ao mesmo tempo. O coração deu uma pirueta, uma cambalhota, um duplo-carpado e, por fim, se cansou e se rendeu, voltando a bater como deveria, embalado pelo carinho que %Agatha% fazia na minha tez. Uma tranquilidade temperava tudo, uma sensação de sono chegando e uma certeza de que eu dormiria bem.
Porque ela estava ali.
— %Agatha%… — balbuciei, querendo reiniciar toda vez que ela resvalava o mindinho pelo espaço entre as minhas sobrancelhas. — Eu gosto do jeito que você dá boa noite.
Ela me apertou brando em resposta:
— Então espera até você ver como eu dou bom dia…
Aquilo me adoçou a alma. Aquilo significava que, de manhã, ela ainda estaria aqui.