Dopa(mine)


Escrita porIlaneCS
Editada por Lelen


Capítulo 7 • A água-de-colônia

Tempo estimado de leitura: 38 minutos

(POV: %Mackenyu%)

  O sorriso que %Agatha% me deu quando a deixei na sala foi o mais indecifrável dentre todos que eu recebi dela. Minha esposa tinha pelo menos três maneiras distintas de sorrir e cada uma queria dizer uma coisa diferente. Aquele, entretanto, permanecia um mistério. Era aflito, mas nem por isso menos bonito, e também era genuíno, com um fundo de vulnerabilidade que, em vez de enfraquecê-la, a fortalecia. Ou então era simplesmente um sorriso de pânico depois de eu declarar tão casualmente que estava aberto a outras formas de ter os filhos que ela não sabia que eu queria.
  Eu jamais compreenderia a diferença entre gerar e adotar uma criança, assim como eu jamais entenderia o quão excruciante era para %Agatha% ter que lidar com essa impossibilidade, mas eu sabia que o fato de ela ter me confiado tamanha aflição apontava que estávamos no caminho certo. Ao menos eu esperava que sim. Eu queria acreditar que aquela confissão significava que ela pensava no que estava por vir, que ela projetava alguma perspectiva para nós. Que, aos poucos, o casamento fingido ganhava seus contornos de realidade e um futuro se delineava.
  A junção das empresas progredia (a passos de tartaruga, mas progredia) e depois de aliar-se a O’Brien Group, a Three Swords desfrutava de pequenos frutos de uma colheita que prometia ser bem farta: nomes influentes começaram a entrar em contato e portas começaram a se abrir para a nossa iniciativa. %Agatha%, por outro lado, aplicava o capital recebido com muita cautela, angustiada com a inércia do seu tio Morgan, que lhe dificultava o acesso aos livros de contabilidade e, consequentemente, às informações que poderiam apontar a causa inicial do buraco em que os O’Brien estavam metidos.
  O motivo da recusa tinha vários espectros e passava direto pelo ego ofendido do senhor antiquado e machista, que se negava a ter suas contas questionadas por uma jovem de 23 anos que, diga-se de passagem, já se provava muito mais competente do que ele. Minha opinião beirava o favoritismo e poderia soar tendenciosa, uma vez que se tratava da minha esposa, porém, não era um ponto de vista ou um achismo, era um fato. %Agatha% O’Brien Arata era brilhante e intuitiva e estava convencida de que as respostas para a ruína da companhia estavam no gerenciamento interno. Ela não pararia até descobrir a origem do vazamento e saná-lo.
  E a determinação dela me exercia um encanto inquebrável, que se estendia além do âmbito profissional e se alastrava por lugares cada vez mais íntimos da minha vida pessoal, inclusive pela prateleira do meu banheiro.
  Fazia um mês que eu não usava mais o meu Tom Ford. Além de evitar os espirros, %Agatha% preferia o frescor da água-de-colônia, coisa que eu, adepto de fragrâncias densas e marcantes, jamais teria considerado antes dela. Era uma cartela aromática que eu ainda estava aprendendo, cheiros que eu julgava sem graça e fracos de presença, mas que, para ela, eram instigantes. Eu não entendia direito. Os óleos eram muito suaves, a concentração era baixa e o perfume não poderia ser notado a quilômetros de distância. Qual o ponto em usar, afinal?
  “Você veste o perfume, e não o contrário”, ela explicava e eu não compreendia. Mesmo assim, eu cedi.
  Mais uma vez.
  Levantei subitamente, agitado ao perceber o quão facilmente eu me moldava às vontades dela. Como %Agatha% veio parar tão cedo embaixo da minha pele? Eu deveria tê-la sob meu domínio, não o contrário. Era o que eu fazia. Eu conquistava as coisas, as mais difíceis, e quanto mais desafiadoras, mais força eu encontrava para alcançá-las. Como %Agatha%, com o saldo de uma noite juntos e dois beijos trocados, estava tão perto de me domar?
  Quem sabe fosse esse o meu castigo por ignorar os sinais. %Agatha% inverteu nossas posições quando transamos e, como costumam dizer, quem vai por cima é quem dita as regras do relacionamento. Embora, no nosso caso, as regras estivessem todas registradas em contrato. O único poder que sobrava para ser disputado era apenas uma questão de quem faria o outro se render primeiro.
  Por mais que eu odiasse admitir, %Agatha% estava vencendo.
  Caminhei até a janela e afastei as cortinas, deixando a luz da lua invadir o quarto e achando graça da minha situação. Eu sabia muito bem ser só, mas, agora, só pra variar, eu não queria. O que eu realmente queria era fazer aquele casamento de contrato funcionar. Era quase uma questão de honra.
  Apesar de termos muito tempo pela frente, esse era relativo para nós de um jeito irritante. Tudo era cedo ou tarde demais para a nossa relação, sem meios-termos. Era cedo para termos um alicerce confiável e era tarde para a espontaneidade dos inícios. Pulamos etapas demais e agora estávamos num limbo, algum lugar entre ter uma química incrível e as incertezas do pouco tempo de convivência permeando.
  Voltei para o travesseiro, insone. A construção da base desse casamento exigiria muito de mim. %Agatha% valeria a pena?
  Meus instintos diziam que sim, mas minha cabeça gritava que eu deveria ser menos passional. Normalmente, eu saberia qual dos dois ouvir, mas em se tratando dela, era como navegar em águas turvas e desconhecidas.
  Felizmente, eu nunca tive medo de mergulhar.
  Flechas não voltam atrás.

⚔️

  O dia seguinte trouxe os primeiros sinais da primavera e uma %Agatha% mais leve, relaxada ao ponto de cantarolar na cozinha enquanto virava panquecas. O cheiro só não era melhor que a reboladinha fofa que ela dava ao se preparar para virar a massa, se sacudindo junto com a frigideira. A cena toda podia ter saído de um filme de comédia romântica, salvo pelo figurino da minha esposa que, em vez de uma camisa de botão minha e mais nada por baixo, estava completamente vestida e pronta para trabalhar.
  Mas era uma sexta-feira. E se eu me lembrava bem, %Agatha% me devia algo às sextas-feiras.
  — Eu não sei se você estava anotando o placar do nosso jogo de ontem, mas eu ganhei. — entrei na cozinha, desenhando a figura dela no ar. — Cadê você só de calcinha?
  — Primeiro de tudo, bom dia pra você também. — ela levantou a espátula e eu achei que ela fosse me bater com ela. — Segundo, eu não estava falando sério.
  — %Agatha%, eu sou um cara bem-humorado, mas tem certas coisas com as quais eu não brinco. — agravei o tom de voz e juntei o cenho. — Promessas envolvendo roupa íntima estão no topo da lista.
  — Ah, não. — ela fez um biquinho irônico. — Eu quebrei seu coração, Arara?
  — Para alguém que diz não gostar de trocadilhos, você até que tem muitos para o meu sobrenome.
  — É nosso, agora.
  Sorri sem perceber. %Agatha% não precisava adotar meu último nome ou fazer o café da manhã, mas essas tímidas escolhas, aparentemente livres de muita importância, adquiriam um significado maior quando ela usava o termo “nosso”. Por mais bobas que fossem, eu as entendia como avanços, passos frágeis de uma criança aprendendo a andar, meio cambaleante, mas com um destino em vista.
  Bom, era isso ou eu estava delirando, enxergando somente o que eu queria enxergar porque fui seduzido pela história dos meus avós sobre casar com o fogo baixo. Enquanto isso, sem a menor ideia das minhas divagações matinais, %Agatha% preparou-se para uma manobra mais arriscada que meus pensamentos esperançosos e agarrou o cabo da frigideira, afastando-a do fogo por indução na bancada.
  — Lá vai. — avisou, colocando a língua para fora e jogando a panqueca no ar para virá-la.
  — Uau. Eu me casei com uma ninja. — observei a panqueca voltando certinho para o apoio. — Que outros truques você sabe?
  — Que tal esses? — %Agatha% elencou as opções de cobertura. — Geleia de morango, mel e calda de chocolate. 
  — Parece ótimo, mas eu tenho um regime restrito. Isso tudo aqui não se mantém sozinho. — apontei para mim mesmo. — O único doce que eu posso ter  pela manhã é você, querida.
  — Não faz isso comigo, vai. — outro biquinho, dessa vez, manhoso. %Agatha% amassou levemente as panquecas empilhadas com a pontinha da espátula, orgulhosa da massa no ponto perfeito. — Elas ficaram super fofinhas, você tem que provar! Seu tanquinho vai sobreviver a um pouco de açúcar, eu tenho certeza.
  — Sabotando a minha dieta. — estalei a língua em reprovação. — Está tentando me transformar num marido relaxado e barrigudo pra ninguém mais olhar pra mim?
  — Sua barriga parece uma barra de chocolate de tão dividida. Fique tranquilo, as pessoas vão olhar.
  — E você vai? — escorei no balcão, jogando charme.
  Surpresa, %Agatha%. O único olhar que eu quero é o seu.
  — Já que você gosta de transitar pelas áreas comuns de cueca, eu acho que não tenho alternativa.  — ela foi até a geladeira, analisando rapidamente os itens e as sobras que Kira deixava separadas em potes herméticos. — E já que minhas panquecas foram cruelmente desprezadas, vamos para o plano B. Tem o bastante pra fazer uma bela omelete aqui. Algum pedido especial?
  — Vários, mas todos envolvem lambuzar você com alguma coisa.
  — Você quer parar de gracinha? — ela fechou a porta com uma indignação adorável. — Tô tentando te fazer um café da manhã pra agradecer pela nossa conversa de ontem.
  — Então agradeça. — instiguei, dando a volta no balcão e indo até ela. — Diga: “Obrigada, %Mackenyu%, você é um ótimo ouvinte e é muito gostoso também.”
  %Agatha% suspirou alto e, com um esforço visível, controlou seu rolar de olhos. Apoiei o braço na porta de inox atrás dela, prendendo-a contra o eletrodoméstico, e me deliciei com o atraso que ela deu na respiração. Porém, traído mais uma vez pela imprevisibilidade da minha esposa, eu, que esperava uma esquiva malcriada, recebi um beijo estalado no rosto em vez disso.
  Todas as vezes em que eu achei que tinha a %Agatha%, era ela quem me tinha.
  Era novo. Era excitante. Era perigoso.
  E era também um beijo grato demais para as minhas intenções no momento.
  — Você realmente fez eu me sentir melhor, então… — ela suspirou, vencendo a si mesma. — Obrigada, %Mackenyu%.
  — Não há o que agradecer. — senti meu rosto esquentando, o outro lado também pedinte. — Agora você diz o quanto eu sou gostoso e eu aceito aquela omelete.
  — Sabe, você gosta muito de falar sobre os meus muros, mas e os seus? — %Agatha% saiu do meu cerco e voltou a abrir a geladeira, tirando de lá o que precisava e transferindo pra mim a tarefa de segurar tudo. — Essas suas piadas são um mecanismo de defesa.
  — Ah, não. — arrumei os ovos, os legumes e o queijo na ilha da cozinha conforme ela ia me entregando. — Não sou tão profundo assim.
  — Tem certeza? — ela procurou outra assadeira entre as louças e pegou também a tábua de corte e o jogo de facas. — Depois de ontem, eu sinto que sei mais sobre você. A gente deveria fazer isso mais vezes.
  — A parte da conversa ou a parte em que você se jogou em cima de mim e tentou me atacar?
  O riso debochado que %Agatha% soltou ficou mais ameaçador quando ela retirou a faca do amolador e eu me vi refletido na lâmina perfeitamente afiada. Mesmo que eu corresse risco de morte ou mutilamento, o que ela esperava? Que eu fosse perder a chance de aporrinhá-la por ter sugerido trégua no nosso contrato? Eu não a deixaria esquecer disso tão cedo.
  — Ok, vamos deixar uma coisa bem clara. — ela segurou o cabo da faca com força. — Eu só fiz uma pergunta, e nem foi pra valer. — o objeto foi agitado no ar. — Eu teria você se eu quisesse.
  — Você me acha tão fácil assim? — por um instante, jurei que a vi mirar na minha jugular.
  — Acho. — %Agatha% sentenciou, colocando enfim o utensílio de volta na ilha e apontando a disposição dos ingredientes. — Agora, lave esses, corte aqueles e bata essas claras em neve.
  — E você vai fazer o que além de admirar meu belo traseiro enquanto eu cozinho? — dobrei as mangas da camisa, naturalmente inclinado a obedecer a série de ordens.
  — Eu vou coordenar. — ela pegou um avental de uma das gavetas nos armários e me estendeu. Um quê de alívio ao vê-la tão confortável e tão ciente de onde tudo estava na minha cozinha. Aliás, na nossa cozinha.
  — Achei que você que ia fazer o café pra mim. — arrumei o acessório na frente do tronco, vendo-a morder a parte interna das bochechas quando amarrei o nó com firmeza.
  %Agatha%. Amarrações. Possibilidades.
  — Mudei de ideia. Kira te acostumou muito mal.
  — Isso quer dizer que eu também vou ter que fazer meu próprio almoço?— comecei lavando os tomates.
  — Você deu sorte hoje, foi convidado para um almoço de negócios. — ela voltou a vasculhar a geladeira, escolhendo agora algumas uvas verdes. — Já ouviu alguma coisa sobre Alfred Mattia Chevalier?
  — O CEO da Chevalier Industries? — salivei de desejo pela fruta na boca dela. — Ele quer almoçar com a gente?
  — Com você, na verdade. Segundo a secretária que recebeu a mensagem, ele perguntou apenas pelo representante da Three Swords.
  Algo parecido com orgulho e satisfação me atravessou ao saber do convite. Alfred Chevalier era exatamente o tipo de perfil influente que queríamos atrair e um almoço com “o representante da Three Swords” significava que nossa marca individual já estava ganhando força e circulando entre grandes companhias. Era uma ótima notícia, porém, tanto a expressão quanto a entonação que %Agatha% usou refletiam uma pontada de descontentamento.
  — Ele é do ramo industrial, está interessado na metalurgia da Three Swords para modernizar os equipamentos. — ela continuou, lastimosa.
  — Por que você parece desapontada? — estranhei a chateação dela. — A O’Brien Group já tem uma parceria com o Alfred, certo?
  — Não o tipo de parceria que eu queria ter... — ela pinçou mais algumas uvas, suspirando.
  Foi quando o artigo que eu li sobre a Chevalier Industries saltou na minha memória junto com a foto que ilustrava a matéria: o próprio Alfred, que envelhecia tão bem como um vinho, com a barba grisalha mais épica e bem-feita que eu já tinha visto na vida.
  — Sério, %Agatha%? Você tem fetiche em caras muito mais velhos?
  — Se eles forem enxutos e charmosos como o Alfred, sim. — ela se justificou prontamente. — Além do mais, ele tem uma elegância italiana irresistível…
  — Ele também tem idade para ser seu avô. Ele não tem uma neta na casa dos vinte e poucos?
  — Laura, que se ofereceu gentilmente para me fazer companhia enquanto você conversa com o meu coroa dos sonhos. — mais um suspiro apaixonado e %Agatha% chegou mais perto de mim, trazendo consigo a vasilha de uvas.
  — Vocês são amigas? — abri a boca num pedido implícito.
  — Sim, e o namorado dela por acaso é meu advogado. Estudamos juntos na Saint Peter. — ela encaixou gentilmente a uva entre os meus dentes. — Viu? Eu sou quase da família.
  — Ah, é? — respondi de boca cheia. — Então por que você está casada comigo e não com o velho?
  — Porque ele olha pra mim do mesmo jeito que olha pra Laura. É uma pena. — %Agatha% enfadou-se. — Se eu tivesse uns anos a mais, eu poderia ser a senhora Chevalier.
  — É confiante assim na sua capacidade de fisgar um milionário?
  — Deu certo com você, não foi? — ela levou mais uma uva aos lábios, deslizando-a lentamente por eles.
  Não que eu precisasse, mas %Agatha% quis me dar uma amostra do seu poder de sedução ao desistir da fruta e me oferecê-la, agora premiada com o gosto dela.
  E pra isso ela fez questão de enfiar o dedo na minha boca.
  Mordi a oferta, lambendo a pele da uva e buscando na textura lisa algum resquício de %Agatha% que pudesse me saciar. Em vão. A fome que eu tinha dela era muito voraz para uma mísera uva beijada.
  — Alfred marcou às 13h, no Carbone. — ela continuou, alheia ao fato de eu quase ter entrado em combustão.
  — Você decorou até o nome do restaurante que ele escolheu. — terminei de bater as claras. — Quer ir no meu lugar?
  — Adoraria, mas não posso dar um bolo na Laura. Além disso, eu tenho um compromisso ainda mais divertido hoje: pressionar o tio Morgan sobre aqueles livros de contabilidade. — %Agatha% seguia me monitorando. — Coloque um pouco de manteiga na assadeira ou vai grudar.
  — Por que acha que ele tem resistido tanto em te entregar esses livros? — obedeci, pegando o pincel de silicone para untar a base.
  — Acho que ele se sente exposto. — %Agatha% ficou na ponta dos pés e espiou o andamento da omelete por cima dos meus ombros. — Os registros fiscais da empresa são responsabilidade dele, é bastante coisa, mas não é um trabalho tão difícil assim. Admitir que está falhando numa tarefa simples como essa é humilhante pra ele.
  — Ele não tem outras atribuições na diretoria?
  — Meu pai o afastou aos poucos  depois da morte da minha tia Agnes. — ela explicou enquanto me passava os outros ingredientes. — Morgan não ficou nada satisfeito com a decisão, mas ele não era acionista majoritário, então não teve escolha. Desde então, ele tem sido cada vez mais grosseiro, reativo… E tem bebido cada vez mais.
  — Eu achei mesmo que sentia cheiro de álcool toda vez que ele falava.
  — O cantil no bolso dele não te deu a dica?
  — Não prestei muita atenção nele quando fomos apresentados. — sorri, medindo-a. — Tinha uma visão melhor competindo.
  — %Adam%?
  — Vocês têm o mesmo nariz, mas eu ainda prefiro o seu. — pincelei a pontinha da cartilagem de manteiga e %Agatha% reclamou, bufando.
  — Termina isso logo antes que eu acabe cozinhando você. — ela se limpou, emburrada.
  Dei uma risada contida, saboreando a irritação dela, o melhor tempero para qualquer refeição. Depois de comer, o dia começou oficialmente com reuniões e planejamentos de metas para mostrar aos acionistas o aumento discreto e promissor dos lucros. A correria da jornada dupla, que me fazia cumprir horários em ambas as empresas, fez a hora do almoço e o meu compromisso com Alfred Chevalier chegarem num piscar de olhos.
  %Adam% havia me designado uma sala temporária na O’Brien Group, pensando no meu conforto e privacidade durante os dois dias da semana em que eu me dedicava exclusivamente ao expediente no meu novo empreendimento, no entanto, a sala da %Agatha% era o meu destino mais frequente ao longo do dia, fosse para perguntar algo, encher a paciência dela ou, como a motivação da vez, avisar que eu estava de saída para encontrar a sua paixão da terceira idade.
  A assistente na antessala já não se dava mais ao trabalho de me anunciar, limitando-se apenas a um aceno de cabeça positivo ou negativo para indicar se minha esposa estava ou não ocupada, porém, não encontrando a secretária no seu posto, adentrei o local e só me parei quando ouvi, através da porta encostada, uma voz feminina que eu não conhecia.
  — Você tem se virado sozinha esse tempo todo?
  — Sim. Mas por mais macio que meu travesseiro seja, Laura, não tem o mesmo efeito de um homem. — %Agatha% respondeu à amiga, que agora eu sabia quem era. — Você sabe como é.
  — O que eu sei sobre travesseiros é que o %Mingyu% me faz morder o meu, então eu realmente não tenho como te ajudar.
  — Vadia. Mas eu te invejo.
  — Alguma coisa sobre os asiáticos, né? — Laura sugeriu.
  Culpado por estar ouvindo, me preparei para sair, mas uma última confissão feita por %Agatha% fincou meus pés onde estavam — e lançou meu ego nas alturas:
  — É ele, Laura. O %Mackenyu% é a melhor transa da minha vida.
  Inflei o peito, envaidecido.
  Ah, senhora Arata. Eu vou fazer você repetir isso só pra mim. Ah, se vou.
  — Pobre %Agatha% O’Brien! — Laura desdenhou. — Casou com o seu pau perfeito, que pesadelo!
  — É um pesadelo! Temos um contrato que proíbe relações sexuais, esqueceu?
  — A não ser que vocês dois queiram! %Agatha%, esse é literalmente o seu problema mais fácil de resolver. Basta você estalar os dedos. Talvez nem isso.
  — Não vai ser tão fácil assim. Ele vai me fazer implorar e você sabe o quanto eu sou orgulhosa.
  Por acaso é seu primeiro dia como mulher? Jogue um charme, pare de usar sutiã, chame atenção para a sua boca quando estiverem conversando. Você sabe o que fazer pra colocar um cara na sua cama.
  — Hm... houve uma breve pausa.Eu não tinha pensado por esse lado.
  — Então comece a pensar.
  “Comece sim, por favor”, foi o apelo que quase escapou através do meu sorriso convencido e me fez decidir que era hora de interferir na conversa. Eu já tinha ouvido exatamente o que eu precisava ouvir.
  Atrapalho? tossi alto propositalmente e apareci na sala.
  Não dessa vez. %Agatha%,  levemente pálida, trocou um olhar rápido com a amiga. %Mackenyu%, essa é Laura Chevalier.
  Prazer em conhecê-lo, %Mackenyu%. uma moça toda tatuada me estendeu a mão.
  —O prazer é todo meu. — aceitei o cumprimento e me curvei no automático.
  — Isso é familiar. — Laura riu, voltando-se para %Agatha%. — %Mingyu% faz igualzinho.
  Eu gostaria muito de conhecê-lo. Deveríamos marcar um jantar entre os casais qualquer dia.
  — Nós adoraríamos receber vocês. — %Agatha% concordou e apanhou a bolsa. — Laura, você deveria levar o seu avô…
  — Não na frente do seu marido, %Agatha%! — Laura censurou.
  — Eu já dei essa batalha por perdida. — abri a porta para as duas, deixando Laura passar na frente e interceptando %Agatha% com um beijo rápido de despedida. — Divirta-se, querida. Vou sentir saudades.
  — Eu também, docinho. — %Agatha% rebateu, sarcástica, limpando o excesso do batom dela na minha boca.
  — Não se preocupe, %Mackenyu%, eu prometo que vou devolvê-la logo. — Laura anunciou, já na antessala. — Obrigada por me emprestá-la por essa tarde, aliás.
  Eu que agradeço, Laura. lembrei do valioso conselho que ela deu à minha esposa. Eu que agradeço…

⚔️

  Conforme os meses foram passando, a sexta-feira foi se tornando um dia mais difícil. Além da decepção que era %Agatha% ter me tomado o sonho das “sextas só de calcinha”, o cansaço acumulado durante a semana refletia no meu corpo indisposto, que lutava para completar minha rotina de exercícios físicos e me fazia demorar mais que o normal para cumprir as séries do dia.
  Eu detestava fazer cardio, mas era isso ou nada desde que a maneira divertida de queimar calorias havia sido suspensa. %Agatha% recusava-se a me pedir uma quebra no contrato e a greve de sexo imposta por esse capricho da minha esposa vinha pondo meus hormônios em fúria. A coisa estava ficando crítica e já afetava outras áreas da minha vida, me colocando a ponto de subir pelas paredes especialmente depois da revelação que eu ouvi por acidente. Saber que o sexo era tão bom para ela quanto era para mim e que o único motivo por não estarmos tirando proveito disso era o fato de %Agatha% ser mimada e geniosa era frustrante.
  Pressionei o botão da esteira, esperando minhas pernas se recuperarem conforme a rolagem desacelerava, e apertei o cabo de apoio com os dedos suados. Os calos nas mãos arderam, atestando a maior prova da gravidade do meu jejum sexual: para aliviar o estresse do tesão suprimido, eu passei a levantar o dobro de peso nos equipamentos e o aumento da carga me feriu as palmas, sobretudo a esquerda. A aliança também dificultava os exercícios, muito mais pelo medo de arranhá-la do que por qualquer outra coisa, e por diversas vezes me ocorreu o pensamento de tirá-la, afinal, eu treinava sozinho numa academia construída em casa…
  Mas eu preferia usá-la o tempo inteiro porque parecia incômodo não fazê-lo. Eu já estava habituado à joia, nutria certa afeição por ela e, além disso, ela fazia as pessoas me perguntarem sobre a %Agatha%.
  E a %Agatha% tinha se tornado recentemente um dos meus assuntos favoritos.
  Fiz um desaquecimento breve, sentado e descalço na frente do espelho, e os músculos tensionados pela corrida amornaram. Tirei a camisa encharcada, sentindo meu peito incendiar do meu próprio esforço, e enxuguei o suor com uma toalha que ficou tão encharcada quanto. A garganta seca pediu por um isotônico e eu fui até o frigobar, acabando com mais da metade da bebida num longo gole, quando tanto as luzes internas do refrigerador quanto as do restante da academia apagaram-se de repente.
  Contei alguns minutos mentalmente, esperando o estalo do gerador de energia acender tudo novamente, mas a luz não retornou. Em vez disso, foi o meu celular, esquecido perto de uma das máquinas, que iluminou uma parte do caminho ao receber uma chamada.
  — Tudo em ordem, Tyler? — perguntei assim que atendi, reconhecendo que o número que me ligava era da segurança externa da casa.
  — Acabamos de falar com a companhia de energia, houve uma pane geral na área e o gerador foi comprometido. O eletricista está a caminho, mas já adiantou que o religamento vai demorar algumas horas. — Tyler explicou, objetivo. — Alguma orientação, senhor?
  — Reforce a ronda e coloque alguém em todas as entradas — respondi de imediato. — Mande verificar a garagem também.
  Tyler confirmou a ordem e eu desliguei, surpreso com a minha reação. Uma queda de energia confirmada pela companhia elétrica não deveria ser motivo para tanto, por que eu estava tão preocupado?
  Era bem óbvio, na verdade. %Agatha%.
  A presença da minha esposa na mansão mudava a configuração de tudo, principalmente das minhas prioridades. Desde a chegada dela, fui tomado por um instinto de proteção novo, um senso de atenção que a mantinha sempre em algum lugar da minha mente e fazia eu me perguntar todo o tempo como ela estava, quais das suas eventuais necessidades eu poderia antecipar, se a geleia favorita dela estava em estoque na nossa despensa, enfim, detalhes aos quais eu não precisava me ater antes, mas que, agora, me ocorriam naturalmente.
  Mais que um dever conjugal, eu encontrava uma satisfação inigualável em cuidar da %Agatha%. Foi por essa razão que minha primeira ação foi procurar minha esposa pela casa mergulhada no breu e garantir que ela não estivesse precisando de nada — ao mesmo tempo em que eu torcia internamente para que ela precisasse de algo. Para que ela precisasse de mim.
  Subi as escadas e atravessei o corredor em direção ao quarto dela, me deparando com a porta fechada. Bati algumas vezes e, não obtendo resposta, arrisquei girar o trinco e entrar sem ser convidado, avisando da intromissão à medida que avançava pelo cômodo.
  — %Agatha%? Você está aqui? — continuei andando, seguindo com a luz do celular uma trilha de peças de roupa deixadas pelo caminho e ouvindo um barulho de água se movendo.
  Uma onda de calor súbita me esquentou de cima a baixo. O rastro do vestido, do sutiã e da calcinha pelo chão apontava outra porta, entreaberta e fracamente iluminada, do cômodo conjugado.
  %Agatha% estava no banho.
  Espreitando pela fresta, pude ver velas eletrônicas espalhadas pela cuba e pelo tablado da banheira, onde ela, imersa na água, recostava a cabeça numa toalha. De olhos fechados, cantarolava uma música reproduzida nos fones sem fio, movendo os lábios discretamente no ritmo que embalava o banho. Não reconheci a música, mas reconheci a dor fina que irradiou pela minha virilha, diferente da dor do pós-treino e muito, muito semelhante à dor da saudade.
  — %Agatha%? — recuei com bastante dificuldade e falei do lado de fora. — Desculpa entrar assim, mas eu preciso falar com você.
  — %Mackenyu%? — ouvi novamente o movimento da água. — É você?
  — Sim, sou eu. Olha, estamos sem luz, mas-
  — Eu não consigo te ouvir direito. — ela me cortou. — Você quer entrar?
  Se eu quero entrar e ver você molhada e reluzente numa banheira? Claro que eu quero.
  — Tem certeza? — falei no lugar. — Você não acha melhor eu-
  — Eu não ouvi nada! Entra logo!
  E lá estava eu novamente, obedecendo %Agatha% como um cachorrinho.
  Um cachorrinho excitado e completamente hipnotizado pela visão diante de mim.
  A água exalava um cheiro insinuante conforme %Agatha% se movia, lentamente, fazendo subir um perfume cítrico e revitalizante por entre as bolhas de sabão que cobriam a superfície e o corpo nu dentro dela. Avancei mais alguns passos, com os olhos fixos e sem pudor algum, e ela apoiou a mão na borda da banheira.
  A aliança tiniu baixinho contra o porcelanato e tirou de mim um sorriso. Assim como eu, ela também usava o tempo inteiro.
  Cerrei os punhos, nervoso. O pouco que as velas eletrônicas revelavam não era suficiente e o fato de %Agatha% estar escorada nas laterais da cuba redonda não me deixava ver tudo o que eu queria. Àquela altura, no entanto, as sugestões pareciam muito mais perigosas que a visão explícita e o aroma que envolvia todo o ambiente era tão convidativo e sensual que fez meu pulso acelerar.
  Doce ironia. Logo eu, que nunca fui fã de perfumes fracos…
  — O que houve? — ela quis saber, colocando os fones na parte seca do tablado de pedra que envolvia a banheira.
  — A energia caiu na casa toda. — guardei uma distância que considerei segura, deixando o celular na pia. — Eu só queria saber se você estava bem.
  — Obrigada pelo aviso, mas eu nem percebi. — %Agatha% apontou as luzes baixas das velas a pilha.
  — Parece que vai demorar um pouco pra voltar. — prolonguei o assunto como pude. Eu não queria me mover dali.
  — Tudo bem. — %Agatha% brincou com a água, mantendo um contato visual intenso. — Gostei do figurino. Um pouco curto e justo pra você, mas ficou bom.
  — Não é o meu favorito, mas ajuda na hora de malhar. — passei as mãos pelo short de compressão que, no momento, comprimia bastante coisa.
  — Céus. — ela ralhou, espirrando um pouco da água. — É sexta-feira à noite e você está se exercitando. Você deveria relaxar um pouco, sabia?
  — Alguma sugestão? — perguntei, cheio de intenções.
  — Um bom banho ajudaria.
  Meus músculos esquentaram outra vez. Era exatamente a resposta condicionada que eu pretendia, mas eu queria mais. Eu queria um convite claro, endereçado a mim, com meu nome no envelope e tudo.
  — Minha banheira não é tão legal quanto a sua. — observei.
  — Não tem hidromassagem?
  — Não tem você.
  — Nenhuma tem, a não ser a minha. — %Agatha% sorriu leve, orgulhosa. — Gostaria de se juntar a mim?
  — Se algum dia eu responder não pra essa pergunta, você tem minha permissão para me dar um tapa.
  — Só a título de informação, em quais as outras ocasiões eu tenho autorização para bater em você?
  — Você quer mesmo saber? — dei um meio sorriso, andando em direção ao chuveiro.
  %Agatha% rolou os olhos, mais uma vitória pessoal. Liguei a água morna para tirar o sal do suor antes de entrar na banheira, fervendo por antecipação, e o contato iminente me pôs trêmulo. De costas, removi a única peça que vestia e meu membro saltou para fora, rígido e dolorido de vontade. Passei a água pela nuca, respirando quente e descompassado, e meu corpo inteiro ardeu a ponto de implodir, de escapar pelas extremidades. Todo o sangue que correu para baixo me fez falta na cabeça e me deixou levemente tonto, me obrigando a encostar na parede e deixar a água correr pelas minhas costas.
  — Algum problema? — %Agatha% estranhou a demora.
  — Você acordou o meu amigo. — olhei para baixo e fechei a válvula do chuveiro. — Ele está bem feliz de te ver, não quero te assustar.
  — Não seja por isso, nós já nos conhecemos.
  Virei sob o olhar atento da minha esposa, que apertou a borda da cuba com força e se torceu discretamente, cruzando as pernas. Saber que eu era desejado fez meu órgão latejar e eu entrei na banheira de frente para ela, me encaixando no lado oposto e derramando água no processo. A temperatura me agradou de imediato, assim como a companhia, e eu deixei escapar um suspiro arrastado que fez %Agatha% quebrar bem na minha frente, fincando as unhas no próprio joelho e mordendo o lábio. Sorrimos, indecentes como parceiros de um crime. O que estávamos fazendo era “proibido” e ambos sabíamos onde as unhas dela iriam parar no final da noite.
  — Se importa?
  %Agatha% arrastou o pé pelo começo da minha barriga, numa descida cada vez mais arriscada em direção ao meu membro pulsante bem abaixo de si. Segurei o tornozelo, pressionando-o contra a minha rigidez, que agradeceu por aquele toque vibrando e ansiando por mais. Bem mais. Levei o pé dela de volta à altura do meu peito, suando de excitação prévia, e a deixei “pisar” nele conforme eu fazia a massagem que ela pediu tão descaradamente. Uma bela preliminar para enganar o corpo inquieto e sedento, a propósito, mas eu tinha pressa das vias de fato, intermediadas apenas pela camada fina da água e pelas pernas da %Agatha% entre as minhas, disputando espaço e me provocando ao mesmo tempo.
  — Você é bom nisso. — ela balbuciou, colocando os braços para fora da banheira e arqueando o pescoço.
  — Eu sou bom em muitas coisas. — rebati, aplicando pressão no calcanhar dela. — Já me chamaram até de “a melhor transa da minha vida”.
  Um riso desmedido ecoou quando %Agatha% reconheceu a autoria da declaração, mas também não investiu esforço algum em negar ou se defender. Em vez disso, ela relaxou a outra perna, esticando-a e encontrando mais uma vez a minha região dura, e passeou por ali de um modo torturante. Apertei o pé que eu massageava com as duas mãos, puxando-a para mais perto, e a manobra fez com que ela descolasse as costas da porcelana e movesse a água em meu favor, revelando os seios flutuando.
  A espuma diluída mostrava mais do que deveria e, de repente, a meia-luz se tornou uma aliada, valorizando-lhe as curvas banhadas pela atmosfera quente e sugestiva. %Agatha% não deu a mínima  para a ausência de cobertura no corpo, naquele ponto, a transparência lhe envaidecia, lhe conferia poder sobre a situação e, mais do que tudo, poder sobre mim.
  — Já faz bastante tempo desde que nos vimos assim, não é? — ela começou, baixinho.
  — Tanto que chega a doer.
  — Ah, é terrível. — %Agatha% me descobria por baixo da água com o pé livre. — Essa tensão que você não consegue acalmar… A pele indócil...
  — Eu sei o que você está fazendo, %Agatha%. — confessei, quase entrando em erupção com a brincadeira paralela.
  — E?
  — E eu vou deixar você fazer.
  %Agatha% avançou sobre mim como uma fera rodeando a presa antes de um ataque indefensável. Paralisado pelo transe em que ela me colocou, apenas assisti quando ela se arrumou no meu colo, deixando os seios ensaboados deslizarem pelo meu tronco úmido e livre de atrito. A tensão superficial da água exercia uma atração ainda maior sobre os nossos corpos, misturando-os um ao outro, fundindo-os numa confusão deliciosa e molhada, e eu cresci imediatamente ao senti-la resvalar o sexo sobre o meu.
  Antes mesmo que eu a penetrasse, ela tomou meus lábios num beijo tão voraz, tão desesperado e tão intenso que quase equivalia ao próprio ato em si. Bebi daquela boca entorpecente e irresistível, aceitando de bom grado que seria ela a condutora do nosso prazer, e %Agatha% desceu os quadris encaixando a si mesma no órgão pronto para recebê-la.
  Há muito tempo pronto para recebê-la.
  A dureza da água foi quebrada pela minha, nenhuma física era capaz de explicar a urgência que eu tinha de estar dentro dela. Qualquer resistência que o meio líquido pudesse exercer foi derrotada por um único movimento — preciso, apertado e devasso — da minha esposa montando em mim. %Agatha% sentava como bem queria, ditava a velocidade, controlava o ritmo e aprisionava o meu fôlego, me permitindo reavê-lo somente quando julgava necessário, breves segundos de ar, apenas, porque logo tornava a tomá-lo de mim em beijos cada vez mais obscenos.
  E se eu tivesse que escolher entre beijá-la e respirar, então eu morreria sufocado na boca dela.
  %Agatha% me manteve na sua deliciosa agonia, dividindo comigo a vertigem gostosa dos corpos se satisfazendo. Jogava o pescoço para trás, arrebatada, depois, como se voltasse a si, soltava um gemido prolongado, descendo e subindo sem nunca parar os quadris, freneticamente, enquanto a carne lhe fervia toda, fibra por fibra. O movimento indecente a punha ofegante, bamboleando a cabeça de um lado para o outro, e me impeliu também a me erguer e me empurrar contra ela, tomando pela primeira vez o domínio da situação.
  O grito do meu nome e o som imoral da água transbordando conforme eu a invadia foram os sinais de que ela se deixava vencer, sugando o ar que roubou de mim entre os dentes cerrados com uma força animalesca e instintiva. Nossos olhares se encontraram e houve um aviso não verbal de que eu estava muito perto de gozar, quando %Agatha% segurou as laterais do meu pescoço e me enterrou novamente na água rasa que restava na banheira, interrompendo nosso fluxo.
  — Agora não. — ela rogou, me beijando devagar para me convencer. — Eu preciso de mais.
  Uma pontada fulminante se espalhou por toda a minha extensão, puxando músculos e rasgando a pele, inconformada com a ideia de parar o que estávamos fazendo. Ao recobrar a consciência, meu cérebro afogado em libido finalmente entendeu que agora eu tinha %Agatha% exatamente na posição que eu queria e uma risada grave rompeu quando eu a coloquei na condição de submissão que eu tanto esperei.
  — Então peça.
  %Agatha% rangeu os dentes outra vez, impaciente, e soltou um urro baixinho, voltando a se insinuar sobre mim.
  — Peça, %Agatha%. — apertei a cintura dela, impedindo que ela sentasse e me cobrisse por completo. — Peça “por favor”.
  — %Mackenyu%… — sofreu, insatisfeita com apenas a ponta dentro de si. — Por favor…
  — Por favor o quê?
  — Me fode! — implorou. — Me fode, por favor!
  Levantei num impulso de força movido unicamente pela adrenalina do tesão, trazendo %Agatha% junto do meu corpo e nos colocando de pé. Ela choramingou alto e enrijeceu a postura quando nos desligamos, reclamando da ruptura violenta, e eu ignorei a falta lancinante que também senti para colocar o primeiro pé fora da banheira, forrado pela toalha felpuda que caiu em algum momento. Meu peito roçou pelo dela em agonia, deixando o sabão escorrer entre nós, e eu ajudei %Agatha% a sair da água, nos mantendo em cima da toalha por segundos (que pareceram uma eternidade) para nos secar o suficiente para andar sem causar um acidente. Guiei nossos corpos queimando em febre até a cama dela, onde a empurrei impetuosamente, e me joguei em seguida. Não eram necessários mais beijos. Não havia espaço para preliminares. %Agatha% deslizava embaixo de mim, suada e cheia de espuma, e eu, duro, a invadi, alucinado.
  — Era isso que você queria? — pressionei levemente o pescoço dela conforme me esforçava.
  %Agatha% prendeu o lábio inferior, recusando-se a responder, e apertou as pernas lisas em volta da minha cintura. Cego pela insolência, calibrei a força das mãos e acertei um tapa na nádega esquerda, fazendo-a me entregar um gemido agudo.
  — Eu te fiz uma pergunta, %Agatha%. — continuei, incansável. — Era isso que você queria?
  — Sim! — ela gritou, eufórica, e cravou as unhas nas minhas costas. — Isso!
  A água-de-colônia se misturava ao suor dela e se transformava num cheiro único, inebriante. Eu me empurrava com tamanha loucura e ela me recebia com tamanha paixão que a essência secreta se fazia revelada, acessada apenas no contato pele a pele, um privilégio de poucos. Desfrutei dela com adoração, venerando o corpo perfumado, e fui tomado pela sensação maravilhosa de descobrir um vício oculto, guardado só pra mim.
  Porque um perfume encorpado podia ser notado a quilômetros de distância, mas a água-de-colônia exigia a intimidade de dois corpos nus devorando-se em tudo.
  Ah, %Agatha%. Eu entendo agora.
  O tempo foi ficando mais manso a cada vez que ela repetia meu nome, meiga e suplicante, me arrastando cada vez mais fundo. O ápice se aproximava numa verdadeira contaminação de sentidos: o toque tinha gosto, o beijo tinha textura e o sexo tinha cor, as mais carnais e as mais vermelhas possíveis. Ali, no êxtase do alívio e da recompensa chegando, ela se saciou junto comigo, fazendo a perna tremer e bater contra a minha costela. Me derramei dentro dela num prazer grosso feito azeite, todo céu e pecado, e deixei no ouvido alheio uma verdade saída do meu âmago:
  — %Agatha% O’Brien, você é minha dopamina.

Capítulo 7
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