Dopa(mine)


Escrita porIlaneCS
Editada por Lelen


Capítulo 6 • O casamento

Tempo estimado de leitura: 33 minutos

(POV: %Agatha%)

  De volta a Nova York, eu sentia que um pedaço de mim tinha ficado em Navagio, amassado contra uma porta de quarto de hotel e sugado num beijo inesquecível. Alguma parte minha ainda estava ali, perdida e zonza com a investida que %Mackenyu% fez.
  E que eu não resisti.
  Minha pele, enfeitiçada pela lembrança, ainda guardava o ardor do toque que perdurou por dias na minha boca. O cheiro de água de colônia misturado à maresia despertava minha memória olfativa e subia sem explicação alguma, evocando tudo outra vez: a gola da camisa roçando pelo meu colo, a mão forte que me segurou pela cintura e me manteve de pé quando minhas pernas enfraqueceram, os lábios que ficaram com a sensação de alto relevo…
  Eu queria colocar a culpa em Navagio. Na praia romântica, no mar encantador, na magia que envolvia a ilha.
  Mas a culpa era do %Mackenyu%. E um pouco minha também.
  — Pronta, querida? — minha mãe me perguntou e me chamou à realidade.
  Solucei. Se “estar pronta” fosse estar maquiada, segurando um modesto buquê de camélias e vestida de off white então, sim, eu estava pronta.
  Ah, é. Era o dia do casamento.
  Branco não era uma opção, não por causa do mito da pureza, mas porque a cor simbólica parecia piegas para o nada romântico salão de conferências B da O’Brien Group, onde o contrato seria assinado diante de seletos convidados. Cheguei a reconsiderar as flores, já que não haveria cortejo ou entrada especial, no entanto, eu precisava delas como suporte emocional, apertando os caules cortados para conter a ansiedade.
  — Estou pronta. — respondi, resoluta, encarando a porta do salão. — Já estão todos aí?
  — Sim, inclusive o juiz de paz. — meu pai confirmou, me escoltando gentilmente pelo braço.
  — Ah, finalmente. — %Adam% entreabriu a porta e pôs metade do corpo para fora. — %Agatha%, se você demorar mais dois segundos, o noivo vai ter uma síncope. Ele não para de andar de um lado para o outro, está me dando aflição.
  — Que gracinha. — mamãe riu. — %Mackenyu% está nervoso.
  Um calafrio percorreu minha espinha ao ouvir o nome em voz alta. Foi como um gatilho para me despertar de uma hipnose, uma palavra feita de fumaça, desmanchando como a névoa que se dissipa com os primeiros raios da manhã e me libertando do automatismo com o qual eu vinha fazendo tudo até ali. %Mackenyu% não seria mais um simples vocativo designado para o cara que usava um perfume que me dava alergia e cujo passatempo era me irritar. %Mackenyu% seria o meu vínculo, a identidade associada à minha, a lembrança sem nome que deixou de ser lembrança e que deixou de ser sem nome, porque agora estava prestes a atender por um signo mais profundo e juramentado por lei.
  Meu marido.
  — Se você está pensando em fugir, é melhor fazer isso logo.
  A silhueta que surgiu atrás de %Adam% era uma presença ainda mais poderosa que o nome, trajando um terno e uma camisa social que era mais um desafio para a minha sanidade. A aparência impecável, como sempre, contava com um detalhe que me arrancou um sorriso: %Mackenyu% usava, na lapela em volta dos ombros largos, um botão de camélia combinando com o meu buquê, sutileza tal que me fez maltratar as minhas pobres flores, espremendo-as a ponto de o sulco dos cabos amarrados por um laço de fita umedecer minhas mãos geladas.
  — E então? Você vai fugir de mim, %Agatha%?
  Um suspiro ficou preso na minha garganta ao vê-lo se aproximar de mim, fácil como respirar, e algo no timbre com que ele me chamou ecoou com maestria.
  Eu não vou fugir. Enquanto você disser meu nome nessa cadência encantadora e sensual, nem se eu quisesse.
  — Quem sabe? — falei no lugar. — Você está vendo a noiva antes do casamento, dizem que atrai má sorte.
  — Eu faço a minha própria sorte. — %Mackenyu% rebateu, liberando as flores ao me tomar pela destra e me beijar o dorso. — Você está deslumbrante.
  Enrubesci. Eu sabia como estava, mas, vindo dele, era diferente.
  — Senhor e senhora O’Brien. — ele cumprimentou meus pais. — Não se preocupem, ela estará em boas mãos.
  Meu impulso natural era dizer que homem algum me tinha nas mãos, para começar, porém o fato de eu estar me submetendo àquilo contrariava o meu posicionamento. Engoli o orgulho, banquei a donzela em perigo e entrei no salão, sob o olhar minucioso  da minha futura sogra, que me esmiuçou inteira com uma expressão tão simpática quanto ilegível. Certamente uma nora sem fluência no idioma e sem conhecimento das tradições e cultura japonesas não era o que ela queria, no entanto, assim como eu, ela estava sacrificando um desejo pessoal em nome de um bem comum. Era o que todos pareciam estar fazendo, aliás, por isso uma certa apatia tomava conta do ambiente.
  Exceto, talvez, pelo %Mackenyu%?
  O nervosismo que %Adam% observou era evidente no modo como meu noivo se mexia, agitado, e eu senti falta dos três brincos de pino que, com aquela inquietação toda, estariam chacoalhando junto com ele. %Mackenyu% considerou a ocasião séria demais para o acessório e eu lamentei a escolha. As joias faziam parte dele, deixavam ele charmoso, com um quê de rebeldia.
  — Te falta um pedaço. — comentei conforme andávamos na direção do juiz de paz. — Ou seus pais não sabem que você é radical e fez três furos na orelha?
  — Ah, eles sabem. Sobre os brincos, a tatuagem e o cara da máfia japonesa que eu matei. — ele brincou. — Eu só queria um ar mais conservador hoje, pra não deixar o pessoal do conselho chocado.
  — Uma pena.
  — Não gostou? Você prefere o bad boy?
  — Eu prefiro fechar logo esse contrato. — apressei o passo até o “altar”.
  — Você é tão sexy bancando a distante e insensível. — %Mackenyu% me deixou ir um pouco mais a frente. — Me faz subir pelas paredes.
  — Você quer que eu revire os olhos agora ou só depois do casamento? — a ambiguidade foi ficando mais evidente conforme a frase saía e %Mackenyu% deu um sorriso labial.
  — Por mim, nós mandamos todo mundo embora e eu faço você revirar os olhos ali mesmo naquela mesa. — ele propôs e eu me dei conta de que ele estava com uma visão ampla da minha bunda na hora.
  — Não sei. Parece meramente decorativa, não vai aguentar nós dois. — provoquei.
  — %Agatha%… — ele quase rosnou, rouco.
  — Sim, querido? — atendi, sorrindo para os convidados e entrando na farsa.
  — Nós vamos nos prometer muita coisa que não é verdade agora. — %Mackenyu% me fez parar de caminhar e eu me senti cativa no tom que ele usou. — Antes que isso aconteça, me prometa ao menos uma que é real.
  Era impossível especificar que parte do meu corpo começou a estremecer primeiro, até porque o tremor se espalhou rapidamente, lançado como um veneno na minha corrente sanguínea e tomando conta até dos meus pensamentos. Aquilo era possível? Um pensamento trêmulo? Quer fosse possível ou não, o fato era que eu vibrei de cima a baixo quando %Mackenyu% colou a boca carnuda no meu ouvido, suplicante:
  — Me prometa que você vai me deixar tentar.
  Minha cintura foi envolvida novamente pelas mãos, seguras da posse e seguras de si, deslizando facilmente pelo cetim do meu vestido. Eu quase me senti refém, mas, naqueles breves segundos, eu estava presa por vontade.
  — %Mackenyu%… — tentei começar.
  — Podemos dar início? — o oficiante se interpôs entre nós do nada.
  Salva pelo gongo.
  — Por favor, excelência. — %Mackenyu% tirou apenas uma das mãos de mim e nos posicionamos na frente da mesa.
  Consenti com um aceno. Depois disso, o discurso que o juiz de paz engatou foi em vão: a única coisa que tinha a minha atenção naquele momento era o pedido sem resposta que %Mackenyu% me fez, pairando pela minha mente agitada e alheia aos conselhos matrimoniais que o oficiante proferia. %Mackenyu%, ao contrário de mim, escutava tudo com dedicação devota, solene,  deixando transparecer que, mesmo envolto em burocracia e motivado por interesses financeiros, o casamento ocupava um lugar sagrado no coração dele.
  O coração dele, a propósito, era um terreno em que eu não pretendia pisar. Minha prioridade era ambos sairmos ilesos daquela experiência conjunta, sem ferir um ao outro de qualquer maneira que fosse.
  — %Agatha% O’Brien…
  — Aceito. — disparei no susto ao ouvir meu nome.
  — A noiva está ansiosa. — o juiz de paz fez todos rirem. — Admiro o entusiasmo, mas eu preciso perguntar primeiro.
  — Desculpe. — pedi baixinho. — É minha primeira vez casando.
  Mais risadas. %Mackenyu% estreitou ainda mais o nosso enlace e tomou um fôlego profundo, fechando os olhos à espera do sim que mudaria tudo para nós dois.
  — %Agatha% O’Brien, você aceita %Mackenyu% Arata como seu legítimo esposo?
  — Sim. — confirmei, e %Mackenyu% soltou o ar que segurava.
  — É de livre e espontânea vontade que você o faz?
  — Sim. — repeti, ainda mais enfática.
  — Pois bem. — ele inclinou-se para o homem ao meu lado. —%Mackenyu% Arata, você aceita %Agatha% O’Brien como sua legítima esposa?
  — Sim. Eu aceito.
  A Terra saiu do eixo e parou de girar quando eu ouvi a afirmação.
  — É de livre e espontânea vontade que você o faz?
  — Sim. — ele me fitou com um sorriso honesto. — Sim, é.
  — Perfeito. Diante das testemunhas, vamos às assinaturas.
  O juiz de paz me estendeu a certidão de casamento e eu assinei meu nome logo depois do de %Mackenyu%, observando a caligrafia firme e convicta dele, marcada no papel com o traço forte das letras. Era a primeira vez que eu o via escrever — ele era canhoto — e eu evitei pensar em quantas tantas outras coisas eu não sabia sobre ele. De que lado da cama ele gostava de dormir? O que era a tatuagem de flecha? Por que três brincos? O que a mãe dele cochichava em japonês? A mãe dele gostava de mim? Eu queria que ela gostasse?
  Silenciei as perguntas. Eu não teria as respostas e, mesmo que eu tivesse, era tarde. O oficiante já estava validando o documento e olhava para mim com uma cara de dúvida. Eu tinha perdido alguma coisa.
  — Como eu ia dizendo… — ele raspou a garganta. — Eu vos declaro marido e mulher. Agora pode beijar a noiva.
  Procurei por %Mackenyu% ao meu lado, que tinha os olhos ainda maiores e um semblante de preocupação. Ambos esquecemos por completo do detalhe do beijo, trocado diante dos nossos familiares e dos outros poucos presentes como “prova do nosso amor”. Era engraçado como as demonstrações falsas de afeto eram as mais difíceis. Um beijo devastador roubado na Grécia, tudo bem, mas o beijo selando o casamento, esse sim deixava ele tenso.
  Talvez porque o que era obrigatório não fosse tão excitante quanto o que era proibido.
  Ele articulou falar algo, mas a demora pela resposta criou um silêncio de expectativa que deixou o clima constrangedor, e eu percebi que a pior coisa a fazer no momento era não beijá-lo.
  — Ficou tímido de repente? — brinquei, amenizando a tensão, e me virei para ele esperando que ele entendesse o meu consentimento.
  — De jeito nenhum. Eu estava ansioso por isso.
  A última parte não pareceu uma farsa, mas sim uma confissão. A veia que saltou no pescoço dele denunciou a pressa e a respiração se adensou quando eu apoiei as mãos nos seus ombros malhados, arrumando o botão de camélia na lapela. %Mackenyu% conteve um suspiro antes de vencer a distância entre nós e avidamente encontrou meus lábios, latejando de vontade do beijo, que durou menos do que eu precisava. Não sei ao certo o que senti quando o selar se partiu, mas era qualquer coisa semelhante à ausência, à incompletude, à inconclusão. E o fato de ele não ter recuado um milímetro sequer do meu rosto foi o sinal que eu precisava para saber que ele também achava que aquele beijo não valeu. Foi quando eu parei de pensar e subi minhas mãos pela nuca dele.
  Eu o beijei novamente. Do jeito que eu queria dessa vez.
  %Mackenyu% retribuiu esquecendo de si e de todos que estavam ali, mas foi obrigado a se frear quando o fotógrafo gritou energicamente que já tinha feito umas oito fotos e estava “quase acabando o filme”. Bati os cílios, ofegante, e %Mackenyu% arrumou meu cabelo atrás da orelha, deslizando pelo meu maxilar e parando no meu queixo. Eu gostei do carinho mais do que eu deveria. Pior, eu gostava dos beijos mais do que eu deveria, e eu não podia me deixar ser tão vulnerável. Qualquer grau de envolvimento era perigoso, porque meu corpo era traiçoeiro quando se tratava dele, dos seus olhos ardentes e do seu galanteador modo de me tocar. A nossa afinidade física era inegável e eu mordi a parte interna das bochechas ao constatar que Laura estava certa. Seria muito difícil resistir à atração que eu sentia… pelo meu marido.
  — Guarda um pouco para a lua de mel, docinho. — %Mackenyu% piscou.
  —  Idiota. —  sussurrei.
  — Seu idiota. — ele mostrou a aliança. — Legalmente agora.
  A champanhe estourou junto com o ruído das palmas e a organização de poses e lugares para o momento das fotos oficiais começou. Permaneci de pé ao lado do meu novíssimo marido, assistindo as pessoas entrarem e saírem da foto entre flashes e felicitações que eu recebia com… alegria?
  Sim. Uma alegria frágil, recém-nascida, que surgiu ao contemplar aquele salão repleto de pessoas que me amavam — e alguns acionistas distantes. O perfume das minhas flores favoritas ganhava força conforme eu me movia, exalando o aroma encorpado de planta colhida e fresca, e, de repente, não era mais tão difícil ou assustador quanto eu achei que seria. A “festa” encerrou-se sem maiores dramas, exceto pelas mães, que pressionavam o canto dos olhos para limpar as lágrimas a todo instante, e Kira, muda e absorta, admirando o homem que ela conheceu ainda menino numa situação inédita, quando ele tinha que levar junto, para o lar onde até ontem ele morava sozinho, uma mulher.
  Eu.

👰🏻‍♀️

  As primeiras noites trouxeram a primeira barreira: a da estranheza. Foi uma fase facilmente vencida, breve, de modo que os cumprimentos sem jeito pelos corredores logo evoluíram para um “oi” mais caloroso e familiar e convites para dividir refeições ao final do dia. A relação que surgia  já se assemelhava ao companheirismo de colegas de quarto que toleravam a presença um do outro com certo conforto e graciosidade. Eu até aprendi a rir das piadinhas de %Mackenyu%, agora suportáveis, apesar de ser nítido o quanto ele preferia me ver irritada e rolando os olhos.
  Num balanço geral, tudo estava indo bem. O passar dos dias diluiu a tensão da cerimônia e o sentimento, agora, era algo similar ao que a gente tem antes de uma injeção intravenosa. Você fecha os olhos, cerra os punhos e espera por uma dor imensurável, mas recebe só uma leve ardência que, no final das contas, é um “mal” necessário.
  Embora eu não achasse que %Mackenyu% fosse um mal, ele era necessário. No trabalho, a Three Swords havia ligado os aparelhos respiratórios da O’Brien Group e prolongado a vida útil da empresa, lentamente dando sinais de sua recuperação. Em casa, %Mackenyu% era uma companhia agradável, por assim dizer. Sem falar que ele alcançava as prateleiras altas do armário e matava as aranhas do meu quarto.
  O problema era que, mesmo livre de aracnídeos, a hora de dormir continuava custosa. Meu corpo se negava a relaxar totalmente e me jogava num estado de alerta instintivo, alarmando meu cérebro que me presenteava com uma descarga de adrenalina e aquela sensação esquisita de “você não está em casa”. Além do mais, a pele reclamava, indócil e carente, sentindo a falta de calor humano.
  Eu precisava de dopamina.
  Fazia bastante tempo que eu não recebia visitas. E por mais que o impasse fosse facilmente contornado simplesmente batendo no quarto do lado, meu orgulho não me permitia dar esse gosto ao %Mackenyu% ainda. Se eu quisesse um sexo recreativo de emergência sem violar as cláusulas do nosso contrato, eu precisaria verbalizar e consentir com muita clareza. Dizer, querer, pedir. E se eu sabia algo sobre o %Mackenyu% é que ele sentiria prazer em me fazer implorar.
  Só que implorar não fazia muito o meu estilo, então eu optei por um anestésico. Levantei da cama sedenta por um gole de bourbon que, com sorte, me daria sono e me esfriaria as entranhas. Estava acostumada com o corredor, mesmo no escuro, e desci as escadas me apoiando no corrimão e confiando nas luzes da área externa, que projetavam um pouco de claridade dentro da casa. Apertei o robe quando meus pés tocaram o chão da sala e esfreguei os braços por causa de uma nítida queda de temperatura, cuja causa eu descobri dando uma rápida escaneada na sala e notando três coisas.
  Um: a janela estava aberta.
  Dois: apesar disso, %Mackenyu% dormia despreocupadamente no sofá.
  Três: ele não usava mais nada além de uma boxer preta.
  A barriga morena ondulava conforme a respiração pesada movia o peito torneado e completamente exposto. %Mackenyu% usava o braço como travesseiro, dobrado confortavelmente atrás da cabeça, e não parecia incomodado com o frio que atravessava o corpo seminu. Pelo contrário, a perna arqueada sobre o encosto do sofá revelava a postura de quem estava perfeitamente à vontade dentro da própria casa — tão à vontade a ponto de ter esquecido que havia mais alguém lá. Convencida de que minha perambulação noturna não o despertaria de um sono que parecia ser profundo, apenas removi a manta enrolada no pé dele, esticando-a antes de estendê-la sobre a pele levemente arrepiada pelo vento.
  — Você não quer que eu pegue um resfriado, que amor. — ele falou sem se mover ou abrir os olhos.
  — Jesus Cristo! — soltei o cobertor, sobressaltada. — Você dorme de olho aberto, por acaso?
  — Eu tenho insônia. — a expressão se manteve impassível. — Não durmo de jeito nenhum.
  — Então lembra de se cobrir na próxima vez que não estiver dormindo no sofá. — ralhei.
  — Se não gosta do que está vendo, pare de olhar. — ele esboçou um sorriso no canto da boca.
  — Não estou olhando nada. Eu só queria beber alguma coisa.
  — Está me pedindo permissão? — ele abriu um olho só.
  — Não.
  — Ótimo. — ele colocou o outro braço atrás da cabeça, arqueando a cintura fina demais para a quantidade de peito acima dela. — Porque isso não é uma prisão e eu não tenho a menor vocação para carcereiro.
  — Não se preocupe, docinho, você me deixa muito à vontade.
  — Não tanto quanto eu gostaria. — ele despertou de vez. — Estamos casados há duas semanas e você ainda não começou a andar por aí só de calcinha. Quanto tempo vai demorar até chegarmos nesse nível?
  — Bastante. — sentenciei. — Não nos conhecemos tão bem assim.
  — Nós já nos conhecemos biblicamente. — %Mackenyu% piscou. — Foi por isso que você não casou de branco?
  — Você notou, né? Achei que ia conseguir esconder o fato de não ser mais virgem. — caminhei sob o olhar atento do meu espectador, confuso ao me ver desviar do caminho da cozinha e abrir o armário de bebidas em vez disso. — Que foi? — escolhi o destilado de maior teor alcóolico. — Não achou que eu ia me dar ao trabalho de sair da cama pra tomar água, né?
  %Mackenyu% assobiou, elogiando a escolha.
  — Falando em cama, por que você está fora da sua? — ele quis saber.
  — Pelo mesmo motivo que você. — agachei para pegar um copo no compartimento de baixo. — Não consigo dormir.
  — Sou solidário com a sua dor. — ele espalhou-se outra vez no sofá. — Nem lembro qual foi a última vez que tive uma noite de sono completa.
  Me compadeci um tanto. Então não era apenas uma questão de sono sensível, perturbado pelos meus passos que, nas palavras dele mesmo, eram como o pouso de uma borboleta. %Mackenyu% tinha dificuldade para dormir. Tamanha que, pelo visto, ele apelava para tudo, tentando inclusive fazer isso em outros cômodos da casa.
  — Quão grave é a sua insônia? — resolvi pegar um copo a mais. — Você tem pesadelos? É sonâmbulo? Foi assim que você veio parar na sala?
  — Às vezes, não e não. — %Mackenyu% esclareceu, sentando-se no lugar próximo ao braço do sofá, conforme eu trazia a garrafa pelo gargalo e fazia o mesmo na poltrona ao lado dele.
  — Sinto muito pelos pesadelos. — abri o bourbon e servi duas doses, deixando o convite implícito ao colocá-las na mesa de centro. — O que mais eu não sei sobre você?
  — Intrigada, doce esposa? Não consegue ler minha mente?
  — Bom, vocês homens só pensam numa coisa, não é tão difícil. — empurrei a dose na direção dele.
  — Eu penso em outras coisas além de sexo. — nossos dedos encostaram quando ele aceitou o copo, me eriçando a espinha.
  Calma, %Agatha%. Foi só um toque acidental. Só um maldito toque elétrico e acidental.
  — Jura? — recostei de volta na poltrona. — No que você está pensando agora?
  — No que tem embaixo desse seu robe.
  — 1x0 para mim. — propus um brinde à minha vitória.
  — Ah, a propósito, não me diga. — %Mackenyu% soava desafiador, mirando minhas coxas sem discrição. — Eu quero adivinhar.
  O bourbon que eu escolhi tinha um fundo ácido, com notas de maçã e carvalho que espalharam um gosto picante no céu da minha boca outrora seca, intimidada pelo moreno escultural e parcialmente nu me fitando, faminto. Uma ideia me ocorreu, escorregadia e perigosa, mas me agarrei a ela mesmo assim.
  — Já que estamos acordados, eu proponho um jogo de adivinhação. — notei que o copo de %Mackenyu% permanecia intacto. — Você me diz um fato sobre mim que acha que é verdade. Se você acertar, eu bebo. Depois, eu digo um fato sobre você. Se eu acertar, você bebe.
  — E qual é o prêmio? — ele enfim entornou o líquido.
  — Se você acertar mais do que eu, você pode escolher um dia da semana pra eu andar por aí só de calcinha.
  — Às sextas-feiras. — ele bateu o copo na mesa. — Vai ser uma delícia.
  Eu estenderia a mão para selar o acordo, mas álcool e %Mackenyu% ao alcance da minha pele eram uma combinação arriscada, então eu centralizei os vidros e servi os dois para a rodada inaugural do jogo.
  — Ok. Eu começo. — esfreguei as palmas. — Você tem medo de barulho. No nosso jantar de noivado, você tremia toda vez que aquele mariachi falava.
  — Não tenho medo de barulho, eu tenho raiva. O cara falava gritando, me deu dor de cabeça. — ele redarguiu, um tanto ofendido.
  — A dor de cabeça fazia você se encolher todo e colocar as mãozinhas nos tímpanos? — recordei. — Você se assustava toda vez que ele abria a boca, bebe aí, seu bebezão.
  %Mackenyu% se deixou vencer e o segundo copo de bourbon pintou as pontinhas da orelha dele de rosa.
  — Sua cor favorita é vermelho. — ele afirmou sobre mim.
  — Eu odeio vermelho.
  — E o vestido que você estava usando quando nos conhecemos?
  — Não era meu.
  — Hm. — ele ponderou, abrindo os dois braços sobre o estofado. — Azul?
  — Eu vou morrer de sede se depender de você… — afundei na poltrona.
  — Já sei. — %Mackenyu% pulou para a beira do sofá. — Marfim.
  — Você usou três tentativas, não valeu.
  — Então deixe eu me redimir. — os brincos dos quais eu senti falta mais cedo balançaram, causando um ruído maciço que só joias legítimas faziam. — Você gosta de marfim, mas não qualquer marfim. É o marfim das camélias, suas flores favoritas.
  — Quem te contou que são minhas favoritas?
  — Você. Pelo jeito como você sorriu quando viu o botão no meu paletó. — ele puxou da memória e eu quase conseguia ver o fio da lembrança sendo desenrolado. — Eu não tinha visto você sorrir daquele jeito ainda. Uma covinha apareceu. — %Mackenyu% tocou minha bochecha com delicadeza. — Bem aqui. É muito bonito, %Agatha%. Quando você sorri de verdade.
  Bebi em silêncio, contemplativa. Aquilo me deu um vislumbre do interior dele. Quem sabe houvesse uma alma sensível ali dentro?
  Ou, quem sabe, fosse o uísque me amolecendo. Meu julgamento estava começando a ser afetado e eu precisava desempatar o jogo.
  — Você é o mais velho, sempre foi muito cobrado e pressionado, então você teve uma fase rebelde. — juntei minhas ideias embaralhadas pela bebida. — Foi quando você fez esses três furos aí na orelha. E a tatuagem de flecha.
  %Mackenyu% riu, tremulando o conjunto dos seis gomos na barriga. Seis. Eram seis? Eu nunca tinha a concentração necessária para contar.
  — Eu vou tomar meio gole porque é só meio verdade. Os três furos não foram rebeldia, foram uma homenagem.
  — Tá, deixa eu ver… — minha língua dava sinais de dormência. Dois copos de uísque praticamente puro e seus efeitos sedativos. — Three Swords. Três herdeiros de uma empresa… Você e seus dois irmãos?
  — Impressionante o que o seu cérebro faz mesmo afogado em bourbon. — %Mackenyu% levantou-se rapidamente e foi até a geladeira, tirando de lá duas garrafas de água mineral. — Existe uma espécie de lenda milenar na nossa família, vem desde o clã do qual descendemos. O três é muito emblemático para os primogênitos Arata. — ele explicou, voltando para o seu lugar e removendo a tampa de uma das garrafas, que me foi cordialmente oferecida. — Meu tataravô teve três filhos, que iniciaram a nossa empresa. E aí desses três, o mais velho teve três filhos homens. E assim por todas as gerações, até chegar no meu pai, que, adivinha?
  — Tem três filhos homens, todos homens! — solucei com o gole. — Você é o mais velho, é o próximo da lista!
  — É. — ele tomou a meia dose devida, aproximando-se o bastante para nossos pés esbarrarem sutilmente um no outro. — Um dia, eu posso acabar colocando três bebês em você.
  Eu duvido muito.
  — Você não vai conseguir nada de mim com esse seu pênis lendário e triplamente fértil. — neguei com a cabeça e a sala deu um giro. — Não posso parir três meninos.
  — E uma menina. Eu também quero ter uma menina.
  Chacoalhei a cabeça novamente, rápido demais para o uísque forte. %Mackenyu% queria quatro filhos. Quatro. Aquela era uma conta ainda mais difícil que a dos gominhos na barriga.
  Pior, era uma porta selada para mim.
  — Legal o seu projeto de família, mas ainda estamos jogando. — a água me recuperou para a próxima rodada. — É a sua vez.
  — Um fato sobre você, %Agatha% O’Brien. — %Mackenyu% serviu as doses, mais modestas que as minhas, mal chegando à metade do copo. — Você prefere ir por cima.
  — Já dormimos juntos. — minhas paredes formigaram. — Isso é bem óbvio.
  — Quer saber o que mais é óbvio? — ele me estendeu o copo, certo de que eu beberia. — O quanto você está com saudades de sentar em mim.
  Eu precisei cruzar as pernas.
  — É você quem ainda está pensando nisso. — pus o copo perto da boca, sem beber.
  %Mackenyu% estava um pouco embaçado e meu hálito denso fazia as palavras pesarem, dispersando-se no trajeto entre meu pensamento e meus lábios pulsando. Ele cheirava bem, mesmo que não vestisse perfume ou roupa, e um calor atrativo emanava suavemente do corpo com a textura macia de um pêssego e um sabor tão carnudo quanto.
  Tudo nele era tentação. E a voz intensa foi o arremate final, quando derramou feito mel nos meus ouvidos a última cartada do jogo:
  — Não tem nada embaixo do seu robe, não é?
  Certo. Certíssimo. Irrefutável.
  Tomei o bourbon que desceu feito fogo, inflamando meu corpo que ele agora sabia nu.
  — Digamos que eu quisesse violar uma cláusula do contrato. — arrastei o indicador pela garganta dele, descendo sem pedir licença. — O que você faria?
  — Num cenário em que você está sonolenta e levemente embriagada? — ele recolheu minha mão antes que ela chegasse ao destino entre as pernas dele. — Nada.
  — E num cenário em que eu estivesse sóbria?
  — Eu faria você pedir. Com todas as letras. — %Mackenyu% quebrou o contato e me  fez beber mais água. — Com as três palavrinhas mágicas.
  — Eu te odeio? — testei.
  — Ah, %Agatha%… — ele cantarolou, meio lastimoso. — Você e seus muros de defesa intransponíveis. Quando você vai me deixar entrar?
  — Os muros são bons pra você. — assegurei. — Existem coisas sobre mim que fariam você não querer ficar comigo.
  — Como o cara que atualmente está com você, eu não acredito.
  — Você não faz ideia. — prolonguei todas as sílabas da frase.
  — Então me faça ter.
  A euforia de outrora deu lugar a um vazio existencial e eu me senti volátil, fenômeno comum da ingestão de álcool que nos faz ir de zero a cem instantaneamente. Ou de cem a zero, naquele caso, negativo, subterrâneo. %Mackenyu% insistia em saber meus segredos, mas ele os suportaria? Eu achava que não. Havia momentos em que nem eu mesma suportava.
  Bom, mas foi ele quem pediu.
  — Ok, lá vai. — afastei até a ponta da poltrona e %Mackenyu% espelhou o movimento, apoiando os cotovelos sobre os joelhos e me olhando com uma atenção tão investida que eu quase esqueci que ele estava apenas de cueca. — O que você falou sobre ter filhos está girando na minha cabeça até agora. Eu-
  — %Agatha%, tudo bem. — ele pôs as mãos na altura do peito, num gesto apaziguador. — Nos casamos há alguns dias, essa conversa está um pouco adiantada.
  — Não, %Mackenyu%. Esse é o problema. Nós estamos terrivelmente atrasados. — expliquei, surpreendentemente calma. Talvez o fato de já saber há muito tempo o que eu estava prestes a revelar tenha amortecido um pouco a sensação de esmagamento.
  Não. Ela ainda estava lá.
  Sempre que eu falasse sobre isso, ela estaria lá.
  Eu não posso ter filhos. — despejei de uma vez antes que eu desmoronasse. — Eu sou incapaz de gerar.
  %Mackenyu% Arata, bem-vindo ao meu fundo do poço.
  Um oco pungiu no meu estômago. Oco, literalmente, seco e infértil feito um deserto. Minhas têmporas esquentaram, inchadas de arrependimento, e eu pisquei repetidamente, como se aquilo pudesse voltar o tempo num passe de mágica e me impedir de dizer, a troco de nada, o diagnóstico dolorido que eu recebi aos 18 anos. Não doeu tanto na época, na verdade, a jovem cabeça de vento que eu era não soube avaliar a fatalidade da notícia, era apenas um check-up de rotina que progrediu para “uma anomalia uterina” e a consequência definitiva disso. Consequência essa que me atingiu com requintes de crueldade conforme os anos avançaram. Friamente, em pequenas porções letais, como quando eu via crianças brincando no parque. Como quando eu segurei meu sobrinho no colo e vi que o nariz dele era igual ao do %Adam% (e, por conseguinte, ao meu). Como quando eu me dei conta de que os filhos do meu irmão, não os meus, seriam minha única extensão no mundo.
  Porra de bourbon. Eu planejava ficar casada por um ano. Por que caralhos eu estava confidenciando a minha maior fraqueza ao %Mackenyu%?
  A opacidade que dominou o olhar dele foi serena, beirando a docilidade. Uma reação inesperada, para dizer o mínimo. Eu me despi completamente, expondo a ferida mais escondida da minha alma, e em vez da repulsa que ela normalmente causaria, %Mackenyu% a aceitou com mansidão, acolhendo-a.
  — Eu não entendo. — ele soltou, baixinho.
  — Que parte? — inspirei profundo, me preparando para a explicação clínica da coisa.
  — A parte em que isso me faria não querer ficar com você.
  Soprei um riso quebrado.
  — %Mackenyu%, você ouviu o que eu disse? Endometriose. — chamei meu demônio particular pelo nome. — Eu posso me tratar, mas a chance de uma gravidez acontecer pra mim é ínfima. Você não acha que eu ser estéril é motivo suficiente para alguém não me querer?
  Ele tomou minhas mãos, sem hesitar em absolutamente nada.
  — Não.
  A palavra saiu límpida, imaculada, livre de qualquer vestígio de dúvida. Uma palavra curta e veemente, um “não” tão natural que fazia parecer que eu estava confessando uma travessura infantil em vez de uma limitação irreversível. Pela primeira vez, verbalizar a minha condição não me dilacerava.
  Pelo menos não tanto.
  %Mackenyu% moveu-se morosamente ao meu encontro, ajoelhando-se diante de mim carregado de ternura, as mãos sem me deixar nem por um momento. O medo e o alívio coexistiam no meu coração apertado, disputando espaço numa luta que ameaçava me partir ao meio, ao mesmo tempo em que o peso se fazia mais leve porque estava sendo dividido.
  — Isso é algo que visivelmente te dói. Eu lamento.
  — Eu nunca achei que fosse querer ser mãe. Até entender que eu não podia. Eu não me sinto menos mulher, eu só… — aceitei o amparo que ele me deu. — Eu só gostaria de ter a possibilidade.
  O nó no peito afrouxou depois de falar. Falar era antídoto.
  — Bom, existem outros meios de fazer isso e eu sou um cara aberto a opções. — %Mackenyu% apontou a saída facilmente. — Um dia, quando chegar a hora, nós vamos dar um jeito. Se for o que você quer, é claro.
  Nós.
  Nós vamos dar um jeito.
  Um casamento de 15 dias e %Mackenyu% estava se colocando em paridade comigo, assumindo um problema inteiramente meu como igualmente dele. Um casamento de 15 dias e ele já estava fazendo planos para os próximos 15 anos. Um casamento de 15 dias de 365, minuciosamente calculados.
  Baixei a cabeça, mortificada. Afinal, quem era o homem com quem eu me casei?
  — E quanto ao que você quer, senhor três meninos e uma menina? — sussurrei, atônita.
  — Eu já disse, %Agatha%. Eu quero que você me deixe tentar. — ele selou minha testa e se pôs de pé em seguida. Mais uma vez, fácil. — Não demore muito a ir pra cama, tá bem? Você precisa descansar.
  %Mackenyu% se preparou para me deixar a sós e eu, estarrecida, reprisei os fatos, incrédula do rumo que a brincadeira tomou. Elaborei mil terorias sem sentido, cada uma mais improvável que a anterior, me perguntando num relance de pensamento se meu marido era mesmo forjado de essência ou se tudo era uma teia muito bem tecida para me capturar e garantir o sucesso da fusão das empresas.
  Meu juízo de valor estava contaminado. Depois daquilo, eu não sabia de mais nada.
  — %Agatha%?
  — Sim? — assustei.
  — Obrigado por me deixar entrar. — ele agradeceu, tímido. — Prometo que não vou quebrar nada.
  Sorri, mas só eu sabia o quanto aquilo custou ao meu espírito abatido. Ao que tudo indicava, era eu quem tinha o potencial massivo de destruir tudo.

Capítulo 6
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Lelen

Iha que chegou o diaaa!
Esse Mackenyu é muito apaixonante, aceitamos na vida real HEHEEHEH
Os dois já apaixonandinhos, coisa lindinha <3
O que teremos agora, humm?

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