Dopa(mine)


Escrita porIlaneCS
Editada por Lelen


Capítulo 5 • O primeiro encontro

Tempo estimado de leitura: 25 minutos

(POV: %Agatha%)

  Enterrei o pé bem fundo na areia quentinha e me espreguicei. O mar imenso e azul neon na minha frente fazia todos os meus problemas ficarem pequenininhos e distantes, quase inexistentes. Nem mesmo a preocupação com o rombo financeiro, a ameaça de falência ou o esmagador peso do futuro da O’Brien Group me alcançariam naquelas águas tão magníficas nas quais eu estava prestes a entrar.
  Bastaram algumas ligações feitas pelo %Mackenyu% para que assim, num passe de mágica (e no encanto de algumas transações bancárias), nós estivéssemos no resort mais caro e exclusivo da Ilha de Zakynthos, na Grécia, com acesso facilitado à praia remota de Navagio, também conhecida como meu lugar favorito no mundo. Em questão de poucas horas, meu noivo fez contato com um piloto executivo, fretou um voo particular, cuidou das reservas em quartos separados e fez de tudo ao seu alcance para me tirar do estresse de Nova York por alguns dias e relaxar meu pescoço travado. Era um ato muito lisonjeiro, no entanto, ele mesmo cortou a fantasia de perfeito cavalheiro quando pediu que, em troca, eu usasse o menor biquíni que eu tinha.
  E eu estava mesmo usando um biquíni minúsculo. Pensando no bronzeado, é claro. Não no %Mackenyu%.
  Por mais que eu estivesse precisando daquele escape, o fato de a iniciativa ter partido do meu noivo metido a engraçadinho me atordoava. Mais que isso, fazia eu me perguntar onde o esforço dele estava verdadeiramente concentrado: em me torcer de raiva ou em me agradar. Havia horas, como aquela, em que as duas coisas pareciam ambivalentes, porque o %Mackenyu% que me tirava de tempo com suas gracinhas era o mesmo que articulava uma operação tática para me levar a uma enseada paradisíaca e digna de um roteiro de Cinquenta Tons de Cinza.
  Tirei a saída de banho soltando ar pelo nariz. Um bilionário que se aproximava de mim por um contrato era bem Cinquenta Tons de Cinza. A diferença era que, em vez de sombrio e distante, %Mackenyu% era implicante e galanteador, uma combinação bem fácil de aborrecer e encantar, tudo ao mesmo tempo. Eu nunca sabia o que esperar dele e isso fazia a mulher controladora em mim gritar de desespero.
  O problema era que ele também fazia a mulher em mim gritar de prazer. E aquela mulher que se deu ao desfrute de uma noite irresponsável, que rasgou as costas dele em carne viva e sussurrou alguns absurdos ao pé do ouvido era uma mulher que só ele conhecia.
  Coisa, é claro, que ele nunca poderia saber. Se ao menos passasse por aquela cabeça de vento que ele tinha sido a melhor transa da minha vida, ele ficaria ainda mais insuportável. O efeito que ele teve sobre mim na única noite que tivemos juntos deveria ser mantido em segredo pelo bem da minha sanidade mental e da integridade física dele — embora ali, assistindo de camarote ele remover de si a camisa leve e exibir o peitoral todo dividido, tudo o que eu conseguisse pensar era em arranhar aquele tanquinho.
  Contei seis gomos na barriga, mas não sabia se tinha contado certo porque ele logo baixou o cós da bermuda e as entradas altas e marcadas ficaram em evidência. Lindas. Expostas. Convidativas.
  %Mackenyu% sabia muito bem o homem que era e isso era perigoso.
  — Assim você vai me deixar tímido, docinho. — ele mostrou os dentes brancos e alinhados.
  — Como se você não estivesse adorando. — afrouxei o rabo de cavalo para aliviar a dor de cabeça que ele era especialista em causar. — Todas as pessoas da ilha estão olhando pra você.
  — Não é pra mim que estão olhando. — ele me mediu de cima a baixo. — Belo biquíni, aliás.
  — Foi um pedido de um fã. — passei o dedo entre os nós em volta dos meus quadris, apertando a parte de baixo.
  — Bom, se você estiver aceitando mais pedidos, eu gostaria de um topless. — ele acompanhou o movimento. — Não sou um cara ciumento.
  Revirei os olhos instintivamente, mas a risada rouca que eu ouvi dele me provou que a manobra tinha perdido o efeito e, em vez de censurá-lo, a minha reação o deixava satisfeito. Felizmente, a belíssima paisagem grega diante de mim merecia mais atenção que a capacidade de %Mackenyu% me irritar, então eu mexi na bolsa, procurando o filtro solar e transferindo um pouco da minha agitação para o objeto inanimado, fazendo o produto escapar em excesso quando o apertei.
  %Mackenyu% tentou disfarçar a risada dessa vez, mas falhou.
  — Você se diverte às custas do meu sofrimento, não é? — tentei administrar a quantidade exagerada de protetor.
  — Eu queria me divertir do outro jeito, mas você não deixa. — ele tomou minhas mãos delicadamente, tirando o excesso de filtro delas e passando o conteúdo pelo peito nu. — Eu tenho uma teoria: você não teve ninguém depois de mim. É por isso que você anda tão estressada.
  — Você me enlouquece. — apertei as têmporas com as mãos brancas, desenhando uma linha na área. — Você move céus e terra para me trazer nesse paraíso, mas se esforça o dobro para me aporrinhar. Você me confunde, %Mackenyu%.
  — Você também me confunde, %Agatha%. — ele encaixou as palmas nas laterais do meu rosto e esfregou minha testa gentilmente, espalhando o produto pela minha face avermelhada. — Você aceitou se casar comigo para ajudar sua família, e eu estou cumprindo a minha parte, mas parece que não importa o que eu faça, você ainda não confia em mim. Está sempre na defensiva, reativa, esquiva… Eu sei que deve ter um milhão de coisas passando pela sua cabeça, mas isso não vai funcionar se não houver confiança.
  — Confiança é um exercício meio difícil para mim. — admiti.
  — Não precisa ser cega nem absoluta. — ele terminou de passar o protetor. — Só me dê um chão para pisar.
  As palavras de %Mackenyu% eram fortes e poderiam soar ásperas, mas o toque aveludado dele no meu rosto aliado ao tom de voz macio trouxeram a suavidade que a situação requeria. Ele tinha um jeito modulado de falar e usava uma cadência serena, sempre a mesma, com um timbre constante que, a princípio, eu confundia com indiferença, mas que, agora, me transmitia segurança. Eu gostava de segurança. Quem não? Segurança era, na verdade, uma condição essencial e imprescindível a qualquer relacionamento. Ou, no nosso caso, a qualquer negócio.
  Inspirei bem fundo, desativando todos os meus escudos internos. %Mackenyu% me escaneou inteira e, quando ele me encarava intenso com aqueles olhos escuros, até a minha alma ficava transparente e legível. Eu não ficava confortável com essa vulnerabilidade, com a abertura que ele abria à fina força na minha armadura, mas meu cérebro condicionado a pensar de modo prático me apontou os fatos. E os fatos eram que ter legalizado minha autoridade na frente do tio Morgan e ter me proporcionado aquela viagem eram provas do comprometimento de %Mackenyu% comigo. Ele merecia o chão que estava pedindo.
  E eu me senti a pior pessoa na face da Terra ao lembrar que ele só teria onde pisar por exatamente um ano. Mas eu logo disse a mim mesma que o plano secreto do divórcio depois da recuperação da O’Brien Group não era uma jogada suja, e sim a minha garantia. Era o chão que eu tinha para pisar.
  Sacudi a cabeça, tentando me livrar do meu devaneio e do longo silêncio que ele tinha causado. Voltei a pegar o tubo do protetor abandonado na mesa e o pressionei contra o peitoral moreno, obrigando %Mackenyu% a segurá-lo enquanto eu me deitava na espreguiçadeira.
  — Você quer confiança. Bom, eu confio que você não vai me deixar ter uma insolação às vésperas do meu casamento. — me arrumei de bruços e desfiz o nó do biquíni na base das minhas costas.
  %Mackenyu% aceitou o pedido implícito e agachou-se ao meu lado, controlando a respiração quando me viu arquear um pouco o trapézio para arrumar os seios esmagados contra o trançado. Começou seu trabalho massageando suavemente as minhas costas, passando também pela parte de trás dos meus braços, e cobriu cuidadosamente a pele que já se mostrava sensível. Talvez tenha sido a exposição prévia ao Sol. Ou talvez fosse apenas o efeito que o toque dele me causava. O que eu sabia com certeza era que as mãos imprimiam uma pressão gostosa e relaxante, que ganhava mais graus de risco à medida que ele descia pela curva da minha lombar, encontrando o limite da calcinha.
  — Eu assumo a partir daí, obrigada.
  — Tem certeza? — ele reclamou, mas parou imediatamente. Era bom saber que ele era capaz de parar quando eu pedia.
  — Sim. Agora outra camada. — ordenei. — Não quero ficar queimada.
  — Por quê? Seu vestido de noiva vai ter um decote nas costas?
  — Não vai ter vestido de noiva. — suspirei.
  — Um casamento nudista? — ouvi quando ele espremeu o tubo novamente, começando a aplicar de baixo para cima dessa vez. — Eu topo.
  — Eu vou usar um vestido normal. — ignorei a piadinha. — Quero que o nosso casamento se pareça exatamente com o que é: uma transação.
  — Uau. Cuidado para não derreter com todo esse calor da ilha, rainha do gelo.
  — Não se ofenda com minha falta de apego aos detalhes. — pedi, anestesiada pelo movimento das mãos dele. — Nós mal nos conhecemos e vamos dividir um teto em alguns dias. É muito para processar.
  — Estamos carregando o mesmo peso, %Agatha%. — ele chegou aos meus ombros. — Mais um motivo pra você se abrir pra mim. — um risinho cínico. — Sem piadinha de duplo sentido, eu juro.
  — O que você sugere? Uma sessão de terapia de casal para falarmos sobre nossos sentimentos?
  — Ou um jantar, para começar. — ele limpou as mãos numa toalha e armou outra espreguiçadeira, sentando-se na ponta.
  — Um encontro? — lidei como pude com a visão das coxas torneadas quando ele puxou o calção de banho. —  Sério?
  — Acho que é justo, já que nós não tivemos um.  — ele cruzou os dedos embaixo do queixo, percebendo a barba nascente. — Não se preocupe, não vou fazer nada romântico. Nem vou puxar a cadeira pra você.
  — Contanto que você não me faça cair de bunda no chão.
  —  Ótima forma de chamar minha atenção para a sua bunda. — ele arqueou uma sobrancelha.
  — Não sabia? Esse é o meu maior objetivo na vida. — disparei, sarcástica. — Oh, %Mackenyu%, por favor, por favor, olhe pra minha bunda!
  — Já que insiste-
  — Para de olhar pra minha bunda! — quase me levantei.
  — Eu paro se você aceitar meu convite.
  — Eu aceito. — cedi. — Considere um voto de confiança.
  — Vou esperar até o fim da noite pra te beijar, prometo.
  Derrotada, rolei os olhos. Mais uma para o contador do %Mackenyu%.
  — Às vezes eu penso que você tem um desafio pessoal de me tirar do sério, sabia?
  Ele levantou-se (um verdadeiro espetáculo), preparando-se para correr em direção ao mar, não sem antes me presentear com uma piscadela e mais uma provocação.
  — Então você anda pensando em mim?

👰🏻‍♀️

  O vento da costa soprava agradavelmente, balançando meus cabelos que ainda tinham cheiro de sal mesmo depois da lavagem. Me arrependi por uma fração de segundo por ter escolhido um vestido de alças finas e não ter levado um casaco, mas, em minha defesa, %Mackenyu% não tinha me avisado que o restaurante que ele reservou para o nosso jantar era a céu aberto.
  Uma excelente escolha, aliás, porque o céu da ilha não era um céu comum. Tinha pinceladas de ouro mesmo quando anoitecia, o que lhe conferia uma imagem única de roxo e dourado salpicado de estrelas visíveis. A lua imensa, refletida nas águas do Mar Jônico, tremulava nas ondas calmas que faziam um som delicioso quando quebravam. Tudo era leve, harmônico e até o ar era mais fácil de respirar.  A atmosfera morna, resultado do Sol intenso aquecendo a areia o dia todo, deixava o clima ameno e presenteava todas as bochechas com um rubor natural adorável.
  No rosto dele, eu precisava admitir, ficava uma gracinha. Especialmente depois que ele se livrou da barba que ele notou estar grande demais mais cedo. %Mackenyu% cheirava à colônia fresca, vestia uma camisa branca de algodão e uma social azul claro jogada por cima, dobrando as mangas e deixando a tatuagem de flecha visível.
  A tatuagem me intrigava. Ele me intrigava.
  Navagio deixou ele mais bonito, bagunçou um pouco o cabelo comprido e embaçou o alinhado empresarial em que ele vivia metido, além de mostrar que a língua, sempre tão afiada, sabia falar outras coisas além de insinuações sexuais de quinta. Do meio para o fim da refeição, %Mackenyu% me contou brevemente sobre a vida que levava no Japão e tentou me ensinar algumas palavras no dialeto natal, obtendo um resultado desastroso que lhe arrancou gargalhadas.
  — É uma pena que você não seja fluente. — ele abriu a garrafa de vinho e nos serviu. — Eu escrevi meus votos em japonês.
  — Você escreveu votos? — congelei no meio do primeiro gole. —         Eu não, vai pegar mal pra mim!
  — Ainda dá tempo. — ele deslizou os lábios pelo vidro antes de beber. — Quero  que você me faça chorar, ouviu?
  — Vai ser muito emocionante quando eu disser o quanto eu te odeio na frente dos seus pais e dos seus irmãos.
  — O inglês deles é péssimo, eles não vão entender. — garantiu.
  — Não me tente. — cruzei as pernas. — Nós temos que fingir que estamos perdidamente apaixonados um pelo outro.
  — Então você nem vai precisar fingir.
  Rolei os olhos. Outra vez. Era mais forte do que eu.
  — Cinco. — %Mackenyu% disparou, vitorioso.
  — Cinco o quê?
  — Cinco vezes que eu te fiz rolar os olhos só hoje.
  — Quebrou seu próprio recorde. — propus um brinde. — Meus parabéns.
  — Obrigado. — as taças bateram uma na outra e %Mackenyu% passou um braço pelo meu colo, segurando firmemente a base da cadeira. — Mas tenta não rolar os olhos para o que eu vou fazer agora, tá?
  — O que está acontecendo? — fui vigorosamente puxada para mais perto dele, como se eu não pesasse nada.
  — Vê aquele cara sentado sozinho perto do bar? — %Mackenyu% soprou no meu ouvido, aproveitando a proximidade.
  — O que está com a peruca torta? — segui a direção dele e comentei maldosamente.
  %Mackenyu% riu num tom mais agudo que das outras vezes, bem perto do meu rosto, e o nariz dele raspou no meu perfil, que ele carimbou com um beijo fofo e inesperado.
  — Ele está tirando fotos nossas desde que chegamos. — ele continuou sussurrando.
  — Como é? Eu vou resolver isso agora. — tentei me levantar e %Mackenyu% prendeu meu pulso contra a mesa educadamente.
  — Deixa. Ele é jornalista, isso é bom para nós. Ajuda a construir nossa imagem enquanto casal. — ele deslizou pelas minhas juntas e segurou minha mão. — Agora entra no jogo.
  — Como você sabe que ele é da imprensa? — arrisquei uma olhada e brinquei com os brincos na orelha de %Mackenyu%, fazendo um carinho no lóbulo. — E se ele for só um maluco?
  — Ele já me fotografou algumas vezes enquanto eu corria em Greenwich Village. — ele conteve um arrepio. — E o maluco acabou de chegar.
  — Que maluco? — olhei em volta sem a menor discrição.
  — O que eu contratei pra te fazer uma surpresa.
  O dito maluco anunciou a si mesmo num volume inacreditável de tão alto para alguém que estava sem microfone. Usava uma roupa espalhafatosa, preta e vermelha, e estava acompanhado de outros dois com o mesmo figurino de Ligeirinho, cada um segurando instrumentos de corda e chapéus enormes, capazes de abrigar todos que estavam no restaurante de um tornado. Ele deu o primeiro dedilhar no violão, tirando dele uma nota limpa e alegre, e atraiu para si toda a atenção ao misturar os idiomas.
  — Buenas noches, damas y caballeros! Mi nombre es Iñaki e eu estou aqui esta noite com meus nobres companheiros mariachis para cantar para uma jovem muito especial! A bela %Agatha% O’Brien está na casa?
  Derreti no meu lugar quando o burburinho de vozes repetindo meu nome começou. Alguém apontou para mim e houve palmas, assobios e, de repente, eu era a atração do lugar. Meu rosto ficou em brasa e meu sangue fervilhou com os holofotes. Era óbvio que aquela viagem não seria perfeita e %Mackenyu% tinha um verdadeiro circo armado para me constranger.
  — Eu vou te matar, %Mackenyu% Arata. — apertei a mão dele com toda força que eu tinha. — Lenta e dolorosamente.
  — Adoro quando você me machuca. — ele fechou os olhos, sádico.
  — Sorte a sua que estamos em público. — falei através dos dentes trincados no sorriso mais falso da minha vida. — Eu disse que não queria escândalo e você me prepara uma serenata?
  — Não. Um trio de mariachis. — %Mackenyu%, ao contrário de mim, nunca sorriu tão sincero, prendendo o riso na garganta. — Você não ouviu a explicação?
  — Muy bien! — Iñaki aproximou-se gritando e até mesmo %Mackenyu% deu um pulo no lugar com o susto, pressionando o tímpano com a mão livre. — Señorita %Agatha%, %Mackenyu% lhe dedica esta canção de amor!
  Continuei forçando um sorriso, totalmente deslocada, e %Mackenyu%, que ainda tinha os dedos entrelaçados nos meus, beijou as falanges para esconder a risada. Os ombros enormes não mentiam, subindo e descendo do riso abafado, e Iñaki (aos berros, sempre aos berros) puxou a primeira estrofe de um bolero romântico em espanhol.
  Aparentemente, era a música mais comprida do mundo.
  Olhei os espectadores ao meu redor, que assistiam ao show dançando timidamente, colocando a mão no coração, ou mesmo ameaçando romper um choro. O evento parou o restaurante, os garçons deixaram de trabalhar e, quando eu terminei a varredura do ambiente, procurei o responsável por aquilo tudo, não encontrando %Mackenyu% no seu assento. Em vez de estar sentado ao meu lado, ele estava ajoelhado na minha frente, segurando uma caixa da Cartier com a pedra mais brega que já existiu: um diamante genérico, enorme e  sem personalidade alguma.
  — %Agatha% O’Brien… — ele começou, tomando minha destra.
  Ah, não.
  — Aceita se casar comigo?
  A pergunta foi encoberta por um grande soluço coletivo de expectativa. Os olhos inchados de %Mackenyu% estavam úmidos e bem-humorados, lacrimejando por toda graça que ele achou naquela situação tragicômica. A parte da tragédia, é claro, estava toda na minha conta, que estava sendo pedida em casamento na frente de um punhado de estranhos ansiosos e de um jornalista que já deveria estar com a matéria pronta para soltar em algum tabloide.
  Embora eu pudesse elencar ao menos doze motivos plausíveis para a minha infelicidade momentânea, o primeiro da lista era ter que reconhecer que %Mackenyu% estava certo. Nosso noivado precisava daquilo tudo, visibilidade, notoriedade, repercussão. E foi apenas por isso que eu ativei meu modo atriz e pus a mão na boca, fingindo surpresa.
  — Eu te odeio. — confessei baixinho, aproveitando a boca coberta, e em seguida respondi audivelmente. — Sim! Sim! Mil vezes sim!
  — Ela aceitou! — Iñaki anunciou a notícia feito um alto-falante e %Mackenyu% teve outro espasmo de susto. — Aplausos para o senhor e a senhora Arata!
  — Aqui, docinho. Considere um presente. — %Mackenyu% pôs o anel no meu dedo, ainda trêmulo pelos gritos do mariachi gasguito. — Um dia, se você se apaixonar por mim, eu te dou um anel que realmente signifique alguma coisa.
  — Se eu me apaixonar por você? — rebati, ultrajada.
  — Oh, me desculpe. Quando. Porque vai acontecer. Ou você acha que vai conseguir conviver comigo diariamente e resistir aos meus encantos? — ele piscou.
  — Eu não acho que vou conseguir conviver com você diariamente, pra começar.
  — Cuidado, %Agatha%. — ele beijou o anel. — A linha entre amor e ódio é bem tênue.
  — E eu posso usá-la pra sufocar você até a morte.
  — Espere o casamento, assim você herda a minha fortuna. — ele aconselhou e fez um sinal chamando o maître. — Uma rodada de champanhe, por favor. Na minha conta.
  — Champanhe! — a garganta potente de Iñaki repetiu e emendou outra música, enquanto %Mackenyu% se encolhia e resmungava em japonês.
  Ri de verdade pela primeira vez na noite. Quem diria que o conjunto de músculos e olhar intimidador ambulante tinha medinho de barulho? Quem diria que o jantar que estava condenado a ser péssimo para mim se transformou numa experiência divertida? Quem diria que, de alguma forma, eu nunca ia esquecer o dia em que %Mackenyu% pediu a minha mão?
  Dei de ombros. Se não fosse romântico, ao menos que fosse engraçado. E era.
  — O feitiço virou contra o feiticeiro? — observei meu noivo (mais oficial do que nunca agora) se retorcendo todo conforme Iñaki bradava.
  — Como pode todas as frases dele serem exclamativas? — ele massageou uma veia na testa, espantado.
  Iñaki prosseguiu com sua animação mexicana contagiando o restaurante, preenchendo a noite que foi regada a muita música e felicitações que recebemos de desconhecidos. Quando a dor de ouvido de %Mackenyu% beirou o insuportável, partimos em busca de um pouco de silêncio e decidimos retornar ao hotel caminhando. As ruas da ilha eram de calçamento e tinham casas charmosas de tijolo branco, plantas e flores por toda parte e uma temperatura que caía gradativamente, contrastando com as médias diárias.
  — Permita-me. — %Mackenyu% colocou a camisa social azul nos meus ombros e se ofereceu para carregar a minha bolsa.
  — Não precisa gastar seu cavalheirismo. — aceitei ambas as cortesias. — Você já me fisgou, lembra? — mostrei a aliança.
  — Prefiro garantir. — o celular dele tocou quando chegamos ao hotel. — Vai que você é uma noiva fujona e me deixa plantado no altar?
  %Mackenyu% esperou que entrássemos no saguão para atender, falando apenas o necessário à pessoa do outro lado da linha. Mesmo ocupado com a ligação, ele segurou as portas do elevador para que eu entrasse primeiro e seguiu respondendo ao telefone concisamente, até encerrar a chamada com um semblante bem satisfeito.
  — Era o Gordon, meu irmão. — ele explicou, apertando o botão da cobertura. — As fotos do noivado se espalharam e já estão valorizando as ações da Three Swords.
  — Eu fico feliz em saber. — segurei a mão dele. — Eu realmente fico.
  — Isso significa que eu posso dormir tranquilo, sem medo de você invadir meu quarto e me sufocar até a morte com o travesseiro? — ele olhou de canto para o gesto.
  — Boa ideia. — chegamos ao nosso andar. — Posso fazer parecer que foi um acidente.
  — Ok, agora você está me assustando. — ele segurou as portas novamente e me acompanhou até a minha suíte.
  — Obrigada pelo jantar, %Mackenyu%. — recostei na porta, pegando minha bolsa de volta para procurar o cartão de acesso. — E pelo trio de mariachis. E por me dar um anel que eu odiei.
  — Tudo conforme o meu plano. — ele encostou o braço malhado na soleira, me cercando.
  — Seu plano de me deixar maluca?
  — Meu plano de não tocar em nada que é especial pra você. — ele arrumou o pingente do meu colar.
  Congelei por alguns instantes, retendo o ar nos pulmões.
  Especial pra mim?
  Desde quando %Mackenyu% ligava para o que era especial pra mim?
  — O que você quer dizer com isso? — perguntei, acertando a respiração a muito custo.
  — Eu sei que você tem um vestido, uma cerimônia, um anel e um cara dos sonhos. — ele encarou o teto, desviando o olhar e enfiando uma mão no bolso. — E eu sei também que esse cara não sou eu. Não é justo pedir que você gaste os seus sonhos comigo.
  Mastiguei a frase dentro de mim. “Meus sonhos”. Fazia muito tempo que eu não olhava para eles. O casamento perfeito era um, mas eu mesma me encarreguei de enterrá-lo e esquecê-lo em algum lugar escuro do meu coração. Sim, era perfeitamente possível que eu me casasse de novo um dia, por amor e não por contrato, no entanto, aquele casamento ainda seria o primeiro. Sempre seria o primeiro e já estava fadado ao fracasso. Era um sonho manchado, maculado, com uma rachadura enorme. E mesmo assim, %Mackenyu% teve o cuidado de não aumentar o estrago e partir o que me sobrou.
  Foi quando me ocorreu um pensamento inédito: havia um homem ali. Uma alma, um coração pulsante, não apenas um corpo bem acabado e uma mente brilhante para negócios e para sexo. Era a primeira vez que eu enxergava %Mackenyu% e começava a mudar a ideia que eu tinha dele.
  — Estou surpresa por você não se achar o cara dos meus sonhos. — dei um passo para trás e esbarrei na fechadura eletrônica.
  — Em partes. — %Mackenyu% não recuou. — Tenho certeza de que sou o cara dos seus sonhos eróticos, por exemplo.
  E de volta à programação normal…
  — Tá vendo, %Mackenyu%? — bati no peito dele, indignada. — Por que você é desse jeito? Por que toda vez que eu estou começando a mudar de opinião sobre você, você vem e faz-
  Um beijo me calou. Um puta beijo, sem cláusula de contrato, sem burocracia, sem formalidades. %Mackenyu% me puxou pela gola da própria camisa e me colou ao tronco quente, me entregando uma língua ardente, dominadora e atrevida. Não havia espaço algum entre nós e o modo como ele se insinuava contra mim fez minhas costas acionaram botões aleatórios na fechadura, que apitou repetidamente. Nem mesmo o bipe foi suficiente para fazê-lo quebrar o beijo e ele encontrou uma solução mais criativa, enlaçando a minha cintura e me trazendo ainda mais junto, amassando meus seios contra o peitoral dele, que escapava da gola em v da blusa de algodão.
  — Faz… isso. — terminei a frase, arquejando.
  — Eu disse que ia esperar até o final da noite pra te beijar. — ele ofegou com a boca manchada do meu batom.
  Limpei o arco do cupido dele, a área mais atingida, contornando a saliência vermelha com o polegar e vendo pontinhos piscando pela tontura que o beijo me causou. %Mackenyu% se refez, confiante do seu triunfo, e eu me vi aturdida, sem lembrar sequer onde eu estava, segurando um cartão magnético que eu nem sabia mais para que servia.
  — Logo ali, senhora Arata. — ele indicou a minha porta. — Está entregue.
  — Boa noite, senhor Arata. — retribuí um pouco zonza.
  — Boa noite, %Agatha%. — ele começou a se afastar. — Mas se você quiser que seja boa mesmo, sabe onde é o meu quarto…

Capítulo 5
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