Capítulo 4 • A Flecha
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(POV: %Mackenyu%)
Os primeiros raios de Sol do dia banharam meu corpo suado dentro da calça de moletom e da camisa de compressão. A corrida que começou pela madrugada surtiu o efeito esperado, os músculos das minhas coxas estavam aquecidos e meu cérebro estava mergulhado em dopamina.
Dopamina. Substância relacionada ao sistema de recompensa, química básica do corpo humano: eu tenho um desejo, eu sacio o desejo, a dopamina é liberada e, com ela, a sensação de prazer. O problema era que o efeito passava rápido demais e eu estava constantemente em busca de um estímulo para desencadear a reação. Naquela manhã, por exemplo, foi preciso correr alguns quilômetros para consegui-la e acalmar minha mente agitada com a proximidade do casamento.
Já havia uma data marcada, um dia aleatório do calendário, sem significado ou relevância. Apenas mais um dia qualquer, quando duas pessoas assinariam um contrato e passariam a morar juntas por uma “causa maior”. Qualquer esforço meu no sentido de tornar esse evento um pouco mais romântico foi vetado pela própria %Agatha%, me restando apenas a resignação à vontade dela. Ela não queria desperdiçar o vestido ou a cerimônia dos sonhos com alguém que ela mal conhecia, era justo. Porém, infelizmente para mim, isso também significava eu nunca veria a lingerie especial eleita para a noite de núpcias.
Assim como eu também nunca veria o destino perfeito para a lua de mel. Ou teria uma primeira dança, votos de casamento e outros pormenores com os quais eu não imaginava que eu me importava tanto.
Porque eu nunca tinha parado para pensar neles.
E, sinceramente, era melhor não pensar. O melhor era correr.
Literalmente, é claro. Até porque a mudança da %Agatha% estava praticamente feita e não havia como voltar atrás. Eu não queria voltar atrás. Desistir não era do meu feitio e a flecha tatuada no meu antebraço era um símbolo desse meu traço de personalidade. Eu sempre fui destemido e me lancei intensamente em tudo: nos estudos, no trabalho, na vida e, em breve, no casamento.
Sem volta. Como uma flecha.
Os efeitos da última decisão na qual eu me joguei de corpo e alma já começavam a refletir na minha Fortaleza da solidão. Não que eu quisesse me comparar ao Super-Homem: eu não tinha poderes sobre-humanos e também não usava óculos. Além do mais, a minha Fortaleza da Solidão deixaria de ser solitária dentro de uma semana, exatamente. %Agatha% já tinha começado a se instalar aos poucos, se habituando, se espalhando… Arrumou um bocado aqui, outro tanto ali, mudou pequenas coisas de lugar, trouxe flores e tentou se caber e se reconhecer naquele espaço totalmente novo.
Já a minha ficha, essa caía devagar, a cada remessa de roupas e outras bagagens que os carregadores traziam. Mas como tudo cheirava a %Agatha% e eu gostava do perfume dela, a mudança não me incomodou.
Ah, sim. Minha casa, agora, tinha perfume de mulher.
Um perfume cujo rastro eu já sabia seguir. O fato de o cheiro da %Agatha% (e seus milhares de pertences) ter chegado antes dela me deixou familiarizado com a presença da minha futura esposa e com o toque feminino que veio junto. Kira também já havia aceitado de bom grado a sua nova patroa, com quem trocava amabilidades e até mesmo suas receitas super secretas. Estava ganha, afinal, e era seguro dizer que era só uma questão de tempo até ela preferir %Agatha% a mim.
Ri sozinho da última parte e encerrei a corrida assim que o Sol nasceu por completo, tirando a blusa no meio do caminho de volta para casa. O entorno arborizado do Greenwich Village era um bom local para praticar exercícios ao ar livre, embora, às vezes, um paparazzi ou outro surgisse em busca de um flagrante de algum famoso que morava pela região. Como eu não era uma celebridade mundial, podia correr sem camisa com certa tranquilidade, sabendo que, no máximo, ganharia uma nota tímida numa página sobre empresários. Percorrido o caminho de volta, abri o portão automático e o segurança externo pôs a cabeça fora da guarita quando ouviu o motor:
— De pé tão cedo, senhor Arata? — ele cumprimentou. — Quantos quilômetros hoje?
— Cinco e uns quebrados. — pressionei o Apple Watch. — Meu melhor tempo até agora.
— Ficando em forma para a noiva, não é? — ele ergueu o dedo anelar.
Foi quando uma lembrança súbita me assaltou de repente: a aliança. Eu ainda não tinha comprado a aliança.
Enxuguei o suor da testa, fria de nervosismo, e entrei em casa digitando orientações no celular. Ainda estava absurdamente cedo, mas uma ligação da minha assistente mencionando meu nome conseguiria abrir a Cartier a caminho do trabalho, onde eu era cliente VIP por ser um comprador assíduo de relógios. Uma ducha depois, me vesti e peguei o Tom Ford num ato falho, parando o movimento no segundo grande susto do dia. Por mais que os espirros da %Agatha% fossem adoráveis, eu não queria ser a causa desse incômodo em particular. Só desse. Eu fazia questão de todos os outros, inclusive daquele que eu estava prestes a causar, obrigando-a usar uma joia que ela odiaria.
— “Diamante é a pedra mais brega que existe”. — entrei no meu carro relembrando, em voz alta, a frase dela quando fomos oficialmente apresentados. — Pois bem, docinho. Adivinhe qual você vai ganhar?
Parecia maldade, mas, no fundo, era uma gentileza disfarçada. Afinal de contas, %Agatha% não queria gastar nada de significativo comigo, por isso eu entrei na Cartier aberta exclusivamente para mim com um único critério de escolha em mente: o preço.
— Senhor Arata. — a vendedora loira acionada para me receber puxou o blazer para baixo, evidenciando o decote. — É um prazer recebê-lo.
— O prazer é todo meu, querida. E desculpe por tê-la tirado da cama a essa hora. — sorri, fazendo-a corar.
— Imagina! — uma jogada de cabelo. — Quando sua assistente ligou, eu fiz questão de vir pessoalmente.
A loira se torceu toda atrás do balcão bilionário, afetando a voz e enfeitando demais os movimentos. Assisti a cena achando graça de como teria sido fácil conquistá-la nos meus dias de solteiro, que estavam no seu iminente fim. Um fim que seria publicamente anunciado numa coluna social assim que eu oficializasse o noivado com o diamante mais caro da Cartier.
— Tomei a liberdade de separar alguns relógios da coleção nova. Acredito que serão do seu gosto.
— Eu adoraria vê-los outro dia. — me inclinei no balcão. — Hoje eu estou à procura de um anel de noivado.
O semblante da moça caiu e ela murchou mais rápido que uma planta sem água. Forçou um sorriso destreinado ao saber que eu era um homem comprometido e, consequentemente, uma opção a menos no mercado de ricos cobiçados que compravam ali, e logo arrumou o blazer de volta para cobrir o colo exposto.
— Oh. Meus parabéns! — ela cumprimentou, sem graça. — Nesse caso, me acompanhe, por favor. Fale-me mais sobre a sua noiva. — pediu enquanto caminhávamos para a seção de joias femininas. — De que tipo de peça ela gosta? Corte princesa, com arabesco, cravejado…
— Diamantes. — respondi, simplista.
— Temos vários modelos-
— Então traga o maior, querida. — interrompi as explicações.
Um solícito “como quiser, senhor Arata” foi acompanhado dos saltos batendo no piso, apressados em cumprir o meu desejo. O dinheiro, além de abrir as portas das lojas de grife, tinha também a mágica propriedade de tornar o mundo inteiro um lugar prestativo e de dentes acesos para mim e para as minhas vontades. Aquela loira, que ganharia uma boa comissão com a venda milionária, só estava ali por um capricho meu, jurando que eu era um cara apaixonado tentando expressar meu amor em quilates. Convicta do meu sentimento (mensurado apenas pelo valor da joia), ela perguntou se eu queria a aliança encostada em ouro ou platina, se eu queria gravar alguma coisa, se eu estava ansioso com os preparativos… Mas o único preparativo do qual eu era encarregado estava sendo comprado ali, à vista, e já se encontrava devidamente embrulhado na embalagem fina que a loira me entregou.
Restava, agora, “fazer o pedido”.
Que nada mais era do que colocar o anel no dedo da %Agatha% e deixá-la sair por aí exibindo, a muito contragosto, a pedra mais brega do mundo.
Peguei o pacote e tracei o itinerário mentalmente, planejando a melhor rota até o prédio comercial da O’Brien Group, onde eu, a convite do meu cunhado %Adam%, era esperado para conhecer as instalações e a dinâmica do meu próximo investimento. Como o meu dia tinha começado adiantado e o trânsito estava favorável, eu cheguei ao meu destino antes do previsto, mantendo a fama da pontualidade impecável dos Arata que surpreendia %Adam%.
— Rigor britânico no horário. — ele apertou a minha mão calorosamente quando entrei no saguão. — Obrigado por vir, %Mackenyu%.
— Obrigado por convidar. — retribuí o cumprimento.
O interior da O’Brien Group era de tão bom gosto quanto o exterior, a arquitetura do local refletia a proposta da empresa, misturando a solidez da tradição com a fluidez da modernidade num ambiente funcional e bem organizado. A estrutura familiar na composição da diretoria transmitia um certo conservadorismo, que atraía acionistas com esse perfil, e esperava-se que a fusão com a Three Swords trouxesse sangue novo aos negócios. Era para isso que eu estava ali, afinal.
Mas eu estaria me enganando se dissesse que aquele era o único motivo.
— %Agatha% vai se juntar a nós? — perguntei e %Adam% chamou o elevador privativo.
— Estamos indo encontrá-la agora. — ele pressionou o botão, fechando as portas. — Aliás, ela mesma teria vindo recebê-lo, mas houve um imprevisto.
— Se ela estiver muito ocupada, eu posso voltar depois. Não quero causar nenhum problema.
— De modo algum. — %Adam% sorriu irônico. — O problema está lá na sala dela.
Franzi o cenho, esperando o desenrolar do comentário que veio num tom lastimoso. %Adam% meneou a cabeça e, apesar de não haver mais ninguém presente, olhou para os lados, baixando o volume da voz.
— Eu deveria evitar falar sobre isso, é um assunto delicado. — começou, receoso. — Mas me sinto na obrigação de adiantar que você vai encontrar alguma resistência entre os membros da diretoria.
Suspirei. Um investidor saído literalmente do outro lado do mundo era uma notícia capaz de causar, no mínimo, desconfiança numa sociedade como a O’Brien, que só aceitava membros consanguíneos ou em matrimônio. Por mais que minha adesão ao grupo fosse financeiramente benéfica, minha parcela nas ações tomaria a porcentagem de alguém e, na selva corporativa dos investimentos, ninguém gostava de perder dinheiro.
— Eu já esperava por isso. — encarei o teto. — Uma empresa é como um organismo e, no momento, eu sou um corpo estranho. É natural que haja rejeição.
— Bom, da parte dos nossos acionistas, eu garanto que não haverá. Para eles, não importa de onde o dinheiro venha, desde que tenha algum. Já na diretoria, por outro lado, alguém pode se sentir ameaçado com a sua presença.
— Alguém? — repeti, relembrando quem eram os diretores: o próprio %Adam%, meus futuros sogros Arthur e Donna, %Agatha% e...
— Morgan Michaels. — %Adam% completou meu pensamento. — Ele ficou com as ações da sua falecida esposa, nossa tia Agnes, mas, ainda assim, o percentual dele não chega perto do meu ou do da minha irmã, os herdeiros legítimos. Ele já não estava nada satisfeito com o fato de a %Agatha% ter feito 21 anos e finalmente poder assumir o lugar dela na diretoria, o casamento só deixou ele ainda mais infeliz.
— Faz sentido. — concordei. — Na condição de cônjuge, o capital que eu aplicar será da %Agatha% também, aumentando ainda mais o poder dela na empresa. É um motivo e tanto para o titio não gostar de mim.
— É. Mas ele não gosta de ninguém. — %Adam% esfregou as têmporas e deixou uma pequena risada escapar.
— Ele sabe que o casamento é arranjado, não é? — perguntei, prevendo problemas.
— Infelizmente, sim. Mas não há nada que ele possa fazer além de ser extremamente desagradável com você. Coisa que ele é com todo mundo e sem esforço.
Ponderei por um breve momento e as portas abriram numa sala impregnada com o perfume que eu já conhecia. Respirei fundo, acalmado pelo cheiro e pela conclusão a que cheguei com aquela breve conversa com %Adam%. De fato, o que o velho amargurado poderia fazer? Não havia prova alguma “contra”nós, afinal, não estávamos infringindo nenhuma lei, apenas cumprindo um acordo comum. Meu cunhado tinha razão e mostrou-se cortês ao me alertar, e também ao segurar as portas para que eu saísse do elevador, fazendo sua última consideração:
— Torço sinceramente para que isso não faça você mudar de ideia.
Entrei na sala tocando meu próprio braço, coberto pela camisa social, e apertei a tatuagem escondida ali como um amuleto da sorte.
— Sabe o que eu gosto sobre as flechas, %Adam%?
O rapaz que tinha o mesmo nariz que a %Agatha% apenas me olhou, aguardando o contexto da pergunta retórica.
— Flechas não voltam atrás.
%Adam% bateu no meu ombro em resposta e anunciou nossa chegada, chamando a visão de %Agatha%, atrás da sua mesa, e de um senhor sisudo à frente dela. Ela levantou-se, andando em nossa direção, e foi acompanhada pelo mal-humorado em quem eu não prestei a menor atenção.
Porque %Agatha% estava especialmente bonita naquela manhã.
Os cabelos, trançados de um jeito meio arrumado e bagunçado ao mesmo tempo, tinham fios soltos caindo pelo rosto afilado e com uma leve maquiagem. No pescoço, um colar de ponto de luz fazia par com os brincos, e um bracelete elegante balançava no pulso à mostra pela manga que ela puxou.
— Oh, bom dia, senhores. — %Agatha% adiantou-se, saudando o irmão com um toque descontraído que parecia ter sido combinado na infância e abraçando-o em seguida. — Batata. — ela errou meu sobrenome propositalmente.
— Zombando de um sobrenome que logo será seu? — aceitei o abraço que %Agatha% estendeu a mim, que apesar de sincero, foi rápido demais para o meu gosto.
— Você não está usando Tom Ford! — ela reparou quando nos soltamos, e a surpresa fez ela esquecer de rebater minha provocação.
— Qualquer coisa pela minha doce noivinha.
Ganhei o que prometia ser o primeiro sorriso verdadeiro de %Agatha% (além, é claro, daqueles que ela me deu enquanto eu a invadia no nosso primeiro e inesquecível encontro). A lembrança rapidamente despertou minha pele e elevou minha temperatura corporal, mas o terceiro homem no local tossiu alto e trouxe minha mente de volta.
— %Mackenyu%, conheça nosso tio Morgan. — %Agatha% apresentou. — Ele é conselheiro administrativo e em breve vai nos conceder total acesso aos livros de contabilidade. Assim você vai ficar a par de tudo que acontece aqui. — o velho murmurou para essa parte. — Certo, tio?
— São décadas de dados, %Agatha%. Duvido que o rapaz esteja interessado em analisar todos os nossos números. — Morgan rosnou e se dirigiu a mim, oferecendo uma mão áspera. — Sei que você tem a própria empresa para administrar, não vai querer desperdiçar muito do seu tempo conosco, eu presumo.
Como eu previa: o organismo expulsando o corpo estranho.
— Nenhum dos meus negócios é desperdício de tempo, senhor Morgan. — rebati, sem me deixar intimidar, e ele chacoalhou minha mão bruscamente. — Além disso, meu investimento foi feito diretamente nas ações da %Agatha%. Qualquer pedido dela é uma ordem para mim.
O olhar que eu e minha noiva trocamos naquele momento foi a perfeita representação da parceria que prometemos um ao outro no nosso jantar de apresentação. %Agatha% soube ali que eu endossava as decisões dela, respaldando-as como se tivessem partido de mim mesmo, e eu sabia que, futuramente, ela agiria do mesmo modo comigo. Era o combinado, e eu estava cumprindo a minha parte, o que me fez ganhar dela um agradecimento desenrolando pelos lábios sem som, uma palavra apenas, muda, lançada só para mim.
O “obrigada” foi seguido de um piscar discreto. Era a nossa primeira confidência.
⚔️
Apesar dos esforços de Morgan em encurtar a minha visita, os irmãos O’Brien empenharam-se em não se deixar vencer pela má vontade do tio, que somente nos acompanhou para suprir a ausência de Arthur e Donna: o primeiro, ocupado com uma reunião de caráter urgente; e a segunda, com os cuidados do buffet para o casamento. Ao final do dia, depois de um maravilhoso jantar sem a presença do velho, %Agatha% quis passar na nossa casa e arrumar a última caixa que chegou.
Nossa casa. Ainda era surreal dizer.
Enfiada no quarto e compenetrada na organização das suas coisas, ela sequer percebeu quando eu escorei na porta, admirando o resultado da reforma e a delicadeza com que ela, descalça e com a trança do cabelo desfeita, dobrava e guardava as suas roupas. Roupas essas que me arrancaram um sorriso ladino e involuntário.
— Você quer ajuda? — ofereci.
— Sério? Pra guardar minhas calcinhas? — ela balançou uma peça de renda.
— Ou pra tirar a que você estiver usando agora, você quem sabe.
%Agatha% teve alguma dificuldade para virar o pescoço e me responder com seu rolar de olhos costumeiro, demonstrando com o movimento travado os sinais inegáveis do seu cansaço físico e mental. A tensão que acometia o pescoço rígido, que ela pressionava repetidamente, não era a tensão divertida que eu causava nela com meus comentários de duplo sentido ou com o insistente apelido, mas, sim, uma tensão motivada pelo estresse de muitos problemas para resolver. Eu me compadeci da exaustão dela, cuja causa eu conheci de perto durante o nosso dia juntos, e decidi que o certo a se fazer era deixá-la em paz.
No entanto, “deixá-la” era um movimento um pouco difícil para mim, eu precisava admitir. Especialmente quando ela estava daquele jeito, visivelmente sobrecarregada com as responsabilidades no trabalho, a mudança, o casamento e a lida com o tio Morgan, que se comportava como uma criança birrenta e fazia questão de dificultar a vida dela na empresa. E foi observando esse cenário que eu percebi que garantir o bem-estar da %Agatha% era importante para mim. Tão importante que fez uma ideia acender na minha cabeça.
— Qual o seu lugar favorito no mundo?
— O quê? — ela arqueou uma sobrancelha.
— Me conta, %Agatha%. — entrei no quarto. — Se você pudesse estar em qualquer lugar agora, onde seria?
— Por que isso agora? — ela tentava entender.
— Responde.
Tomei a peça que ela dobrava das mãos dela, esquecendo por um momento que era íntima. Os cílios dela bateram e ela me olhou com estranheza por eu estar bancando o cara legal e tentando engatar uma conversa. Ou talvez por eu estar fazendo um questionamento aleatório enquanto segurava uma calcinha minúscula.
— Tá. — ela cedeu, por fim, desconfiada. — Meu lugar preferido é a praia de Navagio.
— Perfeito. — puxei meu celular para dar mais uma “missão impossível” para a minha assistente, pedindo agora que ela entrasse em contato com meu piloto de jatinho particular. — Nós vamos pra lá. Agora.
— Como é?
— Arrume as malas. — percebi que eu ainda estava segurando a calcinha enquanto digitava. — E coloca essa, por favor, eu adorei.
— Você enlouqueceu, foi? — %Agatha% tomou o tecido de mim e me deu um leve tapa no dorso em repreensão. — A gente não pode largar tudo aqui e simplesmente ir pra Grécia.
— Por que não?
— Como por que não? — ela indagou, ultrajada. — Esqueceu que daqui a uma semana a gente tem que se casar? E, depois disso, arrumar o caos que vai ser a fusão das nossas empresas?
— Exatamente. — segurei o rosto dela, sentindo as bochechas quentes e obrigando-a a parar e me olhar. — %Agatha%, tudo o que nós dois fizemos nos últimos meses foi pelos outros. Jogaram um peso enorme nos nossos ombros e nós fomos nobres o suficiente para aceitar, mas o fato é que agora você está cansada e eu estou cansado. — inspirei pesado. — Vamos fazer algo por nós. Nós merecemos. Nós devemos, na verdade.
O peito alheio subiu e desceu, normalizando a respiração de %Agatha%, que me olhou querendo saber se aquela proposta era mesmo séria. Busquei o fundo dos seus olhos ao oferecer a confirmação que ela queria, fitando o belo rosto preso entre as minhas mãos firmes e dispostas a entregar o mundo inteiro diante daquela mulher de tanto brio. Esperei que ela processasse o que eu tinha acabado de sugerir e fui surpreendido quando escutei:
— Você tem razão.
— Como é que é? — soltei %Agatha% e encaixei dois dedos no meu próprio lóbulo. — Eu ouvi você dizer que eu tenho razão?
— Não se acostume. — ela se moveu, levantando o perfume consigo. — Você não vai ouvir isso de novo.
— Então está decidido. — esfreguei as mãos, vitorioso. — Vamos antecipar nossa lua de mel, docinho.