Capítulo 3 • Reforma indesejada
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(POV: %Mackenyu%)
Uma furadeira insistente e irritante foi o meu despertador naquela manhã. A reforma do futuro quarto da minha doce noivinha começou em tempo recorde, no dia seguinte ao que nos conhecemos.
Os negócios iam mal. Os O’Brien tinham pressa.
Mas a pressa deles era boa para nós da Three Swords. Estávamos ansiosos por aquela fusão, já que o mercado americano era muito restrito no nosso segmento, muito imperialista, muito fechado, muito preconceituoso, muito… estadunidense. Empresas estrangeiras não tinham o mesmo prestígio nem as mesmas oportunidades de crescimento que as nacionais e os Arata tentaram, por anos, expandir nosso domínio para esse lado do globo. Meu pai me preparou, fazendo questão de que eu estudasse e vivesse em Nova York, no entanto, nem toda a preparação do mundo comprava a cartela de clientes fiéis e poderosos da O’Brien Group.
Por isso a solução do casamento.
Por isso eu estava engolindo aquela reforma indesejada junto com uma aspirina, sem água, no seco.
Por isso eu estava reformando também meu futuro inteiro.
O barulho me obrigou a levantar da cama antes das oito e antecipar todo o meu dia. Minha velha companheira insônia e seus sintomas que eu conhecia tão bem haviam piorado significativamente desde que eu tive que lidar com a carga emocional de um casamento repentino. Tudo estava mudando demais em tempo de menos: minha casa, minha rotina, minha vida…
Tudo saindo do singular e indo para o plural. Tudo deixando de ser meu e se tornando nosso.
Casamento era isso, certo?
Ou, pelo menos, foi o que me ensinaram.Era de se esperar que eu seguisse o exemplo que tive em casa, já que o casamento dos meus pais, feliz e duradouro, aconteceu por conveniência. A verdade é que esse é um arranjo muito comum quando se tem muito dinheiro e quanto se é asiático, então, quando me propuseram usar o matrimônio como moeda de troca, eu não me espantei. O que não significava, entretanto, que eu não estivesse nervoso pra caralho.
E o motivo do nervosismo? Digamos que, sendo um cara de 26 anos bonito e milionário, ter uma esposa não estava na minha lista de prioridades.
Apesar de aquela união ter fins meramente corporativos, no final do dia, era o que eu teria: uma esposa. Uma mulher para cuidar, amar e respeitar até que a morte nos separe. Uma mulher cujos sinais de sua presença já se faziam tangíveis (e audíveis) na casa em que, até ontem, eu morava sozinho. %Agatha% ia se mudar logo e, como ela não ia dormir comigo, estava transformando meu antigo quarto de hóspedes, praticamente demolindo-o e construindo outro no lugar. Exigiu inspeção imobiliária, dedetização, o inferno e o diabo a quatro, e enquanto a princesa se ocupava em escolher papéis de parede e artigos de decoração, eu tinha que ficar com o ruído insuportável da quebradeira no meu ouvido.
— Você é um frouxo, %Mackenyu% Arata. — falei para mim mesmo no espelho, ao cuspir a espuma da pasta de dente. — Nem casou e já está deixando ela mandar em tudo.
A furadeira cessou e deu lugar a marteladas, que foram ficando mais longe conforme eu ligava o chuveiro no máximo e abafava o som da reforma num banho. A água estupidamente gelada golpeou minhas costas e me lembrou dos arranhões que eu ganhei na transa e que ainda não tinham sarado. Deixei escapar um único nome, o da culpada pelos rasgões, como uma maldição lançada sobre mim mesmo:
— Ah, %Agatha% O’Brien! — ri, ensandecido.
Havia muitos meios de se driblar a tensão, mas ser um homem reduzia as opções a praticamente uma só. O cérebro masculino tinha suas vantagens, a hombridade era cômoda e fácil, até. A frase “eles só pensam naquilo” talvez fosse a mais verdadeira sobre nós porque, no meio de todo aquele estresse pré-nupcial e de uma obra em andamento, a resposta do meu corpo foi acelerar meu pulso e mandar sangue para baixo, dando sinais de vida e rigidez entre as minhas pernas. Tudo por causa de uma simples ardência como gatilho. Tudo por causa de uma simples lembrança. Tudo por causa dela.
Sim. A mera visão da %Agatha% O’Brien embaixo da minha pele, gemendo com a boca entreaberta, me enchia de tesão e de saudade.
A parte da saudade me surpreendia, na verdade. A princípio, eu achava que depois da foda ela seria esquecível, contabilizada como mais uma conquista de bar, ou, nas palavras dela, “o último erro que eu cometi”.
Mas eu não a esqueci.
Tampouco achei que ela fosse um erro.
As interações que tivemos foram poucas, mas marcantes o suficiente. Eu já a admirava só pelo fato de ela assumir a responsabilidade de salvar a empresa da família sem titubear; descobrir quem ela realmente era só adicionou uma nova camada de fascínio à situação. A palavra era essa, fascínio. Eu estava fascinado pela %Agatha%. Não a conhecia muito, mas, do pouco que eu conhecia, eu gostava. Ela tinha fibra, vontade, gana. Nas duas vezes em que nos encontramos, deixou bem claro o que queria e quem era. Mostrou a que veio, me usou como quis, e fez questão de que eu soubesse disso quando saiu sem me dizer o nome, quando me deixou com as costas marcadas e a cueca manchada de batom num quarto de luxo.
É claro que uma única noite era pouco para aprendê-la de fato. Ela ainda era um mistério a ser desvendado, um lugar secreto onde eu fui parar vendado, de mãos atadas e sem saber como. %Agatha% era uma estranha que me concedeu o maior ato de intimidade quando me permitiu desfrutar do corpo dela — do maravilhoso corpo dela —, e todas as sensações daquele sexo ficaram impressas na minha memória e na minha pele viciada. Eu não parava de pensar no som da respiração entrecortada, nem na cara de prazer, a mais linda que eu já tinha visto. Eu não parava de pensar em como ela preferia ir por cima, porque a perna dela tremeu mais quando ela gozou assim...
E eu não parava de pensar em tê-la de novo. Mas, obviamente, ela teria que consentir.
Ela teria que querer.
Ela teria que me pedir.
E foi com esse cenário mental que eu diminuí a água, decidido a me aliviar sozinho.
⚔️
Vesti uma das minhas melhores camisas sociais pensando em qual perfume usar, quando o toque do meu celular ecoou pelo quarto. Era uma ligação de um número que eu não tinha registrado ainda, mas a voz do outro lado da linha era inconfundível. Tinha um tom de irritação que eu adorava ouvir.
E era em quem eu estava pensando no chuveiro minutos atrás…
— %Mackenyu%? — %Agatha% perguntou assim que atendi.
— Uau. — pus a ligação no viva-voz para terminar de me aprontar. — Quanta frieza pra falar com o seu futuro marido. Precisamos de um apelido carinhoso, baby.
— Bom dia pra você também, docinho. — ela disparou, sarcástica.
— Docinho. — repeti. — Eu gostei. Agora tenta mais uma vez, sem a ironia.
— Você já saiu de casa? — %Agatha% me ignorou.
— Ainda não. — analisei meus vidros de perfume enquanto falava. — Por quê?
— Estava pensando em passar aí antes do trabalho para ver como vai a reforma.
— Ah, docinho, se você está com saudades de mim, não precisa ficar inventando desculpas. — me decidi, enfim, por um musk amadeirado. — É só aparecer.
O suspiro de impaciência que ela soltou me arrancou um sorriso triunfante. Deu pra sentir os olhos dela rolando.
— Eu posso ir ou não?
— É claro que pode, essa casa também vai ser sua. — borrifei o perfume nos pulsos. — Mas venha no personagem. Kira está aqui.
— Kira?
— Ficou com ciúmes? — sorri outra vez.
— Da sua babá? Essa é boa.
— Kira não é minha babá, ela é minha diarista barra cozinheira. E ela só vem aqui duas vezes na semana.
— Babá. — ela insistiu.
— Como você sabe sobre a babá? — sacudi a cabeça. — Sobre a Kira?
— Eu fiz meu dever de casa. Se vamos brincar de marido e mulher, esse é o tipo de coisa que eu preciso saber, não acha?
— Andou me estudando? — arrumei os brincos. — Que esposa dedicada!
— Guarda o açúcar pra quando estivermos na frente da Kira, por favor. A propósito, como eu faço pra ela ir com a minha cara? Preciso que ela goste de mim.
— Me cubra de amor e elogios. Kira sempre quis me ver casado com uma mulher que cuide de mim tão bem como ela.
— Ou seja, uma babá.
— O que o meu docinho gosta de comer no café da manhã, hm? — foi a minha vez de mudar de assunto. — Kira com certeza vai me perguntar.
— Não sabe as preferências da própria noiva na cozinha? — %Agatha% desdenhou.
— Eu só sei as preferências dela na cama. Ela gosta de-
— Geleia de morango. — cortou. — Eu gosto de geleia de morango.
— Interessante. Pra eu passar em você ou pra você passar em mim? — minha imaginação voou depressa.
— Pro café da manhã, idiota. — ela pronunciou tudo com um ranço que me arrancou uma risada silenciosa. — E um suco de laranja.
— Idiota? O que aconteceu com o docinho?
— Troca o suco por um café bem forte, por favor. O dia mal começou e você já está me dando dor de cabeça.
— Você também, graças à sua reforma. — deixei o quarto e passei pelo corredor, o barulho aumentando a cada passo que eu dava. — Está ouvindo a trilha sonora?
— Vai acabar logo. É só todo mundo me obedecer.
Lá estava, a %Agatha% mandona que me deixava tão fascinado.
Eu não via a hora de amansar aquela fera.
— Como quiser, senhora Arata. — desci as escadas. — Sua entrada já está liberada lá na portaria. Vem logo, eu estou faminto.
%Agatha% desligou com um “ok, tchau” e eu aproveitei para salvar o contato dela como “docinho”: um belo toque para enriquecer a farsa do nosso relacionamento.
Ou mais um item para a lista de coisas que irritavam a dona do apelido. Essa opção, obviamente, era a que mais me satisfazia.
Segui o cheiro delicioso de café e massa de bolo e encontrei a doce senhora que, há anos, era responsável por mim. Kira cuidava da minha alimentação, das minhas roupas e até da minha saúde, testando todas as receitas possíveis de chás calmantes para me ajudar a dormir, coisa que eu não fazia muito bem desde que tinha saído do Japão, há um bom tempo.
Eu sabia exatamente quando a insônia tinha começado. Eu tinha 18 anos e fui mandado para um país estranho, longe dos meus irmãos, dos meus pais e dos meus velhos amigos. Os novos que eu tentava fazer não duravam muito, porque ser herdeiro de um império como a Three Swords me distanciava das pessoas “normais” e atraía aquelas interessadas apenas no meu dinheiro. Depois de alguns meses tentando qualquer tipo de conexão verdadeira, eu me deparei com o triste fato de que eu estava condenado a ser sozinho.
Mas eu me acostumei bem rápido com isso. Eu só precisava me anestesiar com algumas doses rasas e momentâneas de dopamina.
As mulheres com quem eu ficava e os caras com quem eu andava nas baladas eram só um paliativo, uma medida superficial para sedar um terrível caso de solidão extrema. Quando a farra acabava e quando a mulher que eu trouxe da festa ia embora, quem continuava comigo era a insônia, me lembrando que meu coração estava mais seco a cada dia.
Mais que isso, meu coração estava calado. O que não era exatamente uma coisa ruim agora que eu estava prestes a me casar numa decisão puramente racional, com alguém por quem eu não estava apaixonado.
Pelo menos não ainda.
A ideia de paixão para a nossa cultura era bem diferente da concepção ocidental, que tinha a paixão como algo avassalador, fatal, instantâneo. Nós pensávamos diferente. Meus avós uma vez me explicaram que os ocidentais se casam “com o fogo alto”, ou seja, no auge da paixão, com o relacionamento em chamas, fervendo da empolgação máxima. O problema é que o fogo alto se consome muito mais rápido e logo se apaga, baixando até se extinguir e virar uma fumaça morna.
E todos sabem que “morno” é uma sentença de morte para um casamento.
Por isso, nós, orientais, casamos “com o fogo baixo”. No nosso entendimento, é preciso acender o fogo, aumentá-lo dia após dia e, principalmente, mantê-lo. Alimentando a fonte do jeito certo, cultivando atitudes e observando detalhes, o amor construído e forjado no calor contínuo durará para sempre.
Bom, tudo isso segundo os meus avós. Eu não fazia ideia de como era amar alguém. Eu nunca tinha tentado de verdade.
O amor era uma entrega mais assustadora que a solidão.
— Me lembre de agradecer à sua noiva por essa adorável reforma no quarto de hóspedes. — Kira me despertou e começou a me servir como de costume: reclamando. — Agora, além de você, eu tenho uma fila de trabalhadores para alimentar. Pintor, marceneiro, decorador, pintor… que tanta gente é essa?
— Você disse pintor duas vezes. — aceitei o café. — Gostou dele, foi?
— Cala a boca e começa a comer. — ela colocou as frutas e o iogurte que eu gostava na mesa. — Meu ponto é: pra que ela precisa arrumar um quarto que ela nem vai usar? Ela vai dormir com você!
Engasguei com o gole. Com exceção de nós mesmos e nossos familiares mais próximos, ninguém fazia ideia de que o meu casamento com a %Agatha% era arranjado. Acontece que a falência iminente da O’Brien Group ainda era um segredo de estado, uma informação confidencial que deveria ser mantida assim a todo custo. Se os acionistas descobrissem que a Three Swords investiu numa empresa afundando, lá se ia o prestígio deles e a nossa credibilidade. Era preciso manter as aparências, fazer os outros acreditarem que o nosso casamento era motivado pelo nosso fogo altíssimo, e não pelo interesse mútuo nos negócios.
— Ela tem muita coisa. — contornei. — Roupa, bolsa, sapato… Vai ter que usar o quarto de hóspedes como closet.
Kira deu de ombros, acreditando na desculpa.
— Você vai ficar só no café? — ela olhou meu prato vazio. — Com aquele tanto de peso que você levanta na academia? Tá querendo morrer?
— Eu vou esperar a %Agatha%, ela vem tomar café comigo.
Cruzei os braços, prevendo a virada dramática de Kira. Ela fungou alto, emocionada, e sequer tentou disfarçar a cara de choro.
— Sabe, depois de tantos anos vendo você comer sozinho, é uma alegria finalmente colocar outro lugar à mesa. — a confissão dela foi tão genuína que eu quase me senti mal por estar envolvendo-a naquilo tudo.
— Então você não está arrasada por me perder para outra mulher?
— Eu estou surpresa que você tenha conseguido uma mulher, já que eu nunca vi nenhuma aqui!
Kira tinha razão, nenhuma das minhas “namoradas” tinha conseguido a proeza de ser apresentada a ela, ou de dividir um momento tão íntimo como um café da manhã, a primeira refeição do dia. Era uma escolha consciente. Não queria ninguém tocando na solidão com a qual eu estava tão acostumado.
Acomodado, na verdade. Estar sozinho era familiar e seguro.
Mas %Agatha% O’Brien estava chegando para me tirar da minha zona de conforto.
—Temos geleia de morango, Kira? — perguntei enquanto ela posicionava as louças. — É a favorita da minha noiva.
— “Noiva”. — Kira bufou. — Não sei que noivado é esse que ainda não teve nem anel nem pedido.
Tive outra pequena indigestão e o café quase voltou mais uma vez. %Agatha% tinha sido bem enfática quanto a odiar diamantes e a ideia de um pedido cafona e espalhafatoso, mas fazê-lo era uma parte importante da trama. Assim como a Kira, outras pessoas iam nos perguntar sobre esse momento, iam querer ouvir a história, iam pedir para ver a aliança…
Se as pessoas queriam um show, então eu daria isso a elas. E à minha doce novinha, que detestaria cada segundo.
Ri sozinho enquanto voltava à xícara, sentindo um gosto doce no sentido literal e figurado. Deixar %Agatha% O’Brien irritada era a cereja no topo do bolo.
— Você acabou de me dar uma ótima ideia, Kira…
A campainha tocou e impediu que Kira, curiosa e intrometida, fizesse um interrogatório sobre o meu plano. Em vez disso, ela se apressou em abrir a porta para %Agatha%, que se apresentou toda confeitada e polvilhada de açúcar. Eu ainda não tinha visto esse lado extremamente simpático dela, tudo o que ela tinha para mim era sarcasmo e uma certa raiva inofensiva.
Ao que parecia, eu a deixava à flor da pele. E eu achava aquilo muito divertido.
— Bom dia, docinho. — levantei para recebê-la com um abraço e um beijo no rosto que ela teve que aceitar porque Kira estava olhando. — Dormiu bem? Sonhou comigo? — segurei ela pelo queixo.
— Sempre, docinho. — ela fechou os olhos e formou um círculo perfeito com a boca antes de dar um espirro.
Pequenininho e fofo. Fofíssimo.
— Oh, querida, está resfriada? — Kira lamentou, já preocupada feito uma mãe com a moça que acabara de conhecer.
— Não, tudo bem. — %Agatha% espirrou mais uma vez. — É só alergia.
Kira recomendou um de seus famosos chás cura-tudo e se enfiou na cozinha para prepará-lo. Assim que ela sumiu de vista, %Agatha% me empurrou e coçou o nariz.
— Você tá usando Tom Ford?
— Só pra você. — confirmei, assistindo a pontinha do nariz dela ficar vermelha.
— Eu tenho alergia a esse perfume. — ela revelou. — Joga fora ou você vai ficar viúvo antes do casamento.
— Adoro quando você manda em mim. — provoquei.
— Falando em mandar, se importa de me acompanhar até o quarto?
— Se você quiser, eu dispenso a Kira e nós fazemos aqui mesmo.
— A obra, %Mackenyu%. — %Agatha% respirou fundo, estressada. — Eu quero ver a obra.
— Os operários estão no intervalo. — observei a movimentação do lado de fora da casa, nos fundos. — Mas você pode inspecionar tudo e gritar com eles depois. Por aqui, por favor. — indiquei o caminho e subimos.
%Agatha% entrou no quarto analisando todos os detalhes com um rigor quase militar. Testou as luzes (ela mandou trocar as frias por quentes), avaliou a pintura já seca e sem cheiro forte e, depois de muito procurar do que reclamar, finalmente achou, apontando uma bucha de parafuso na parede.
— Aqui. — ela indicou. — Eles furaram no lugar errado. Eu disse mil vezes que quero o espelho do outro lado.
— Tenho certeza de que deve ter uma explicação para isso. — disse da porta.
— Tem, eles são homens. — %Agatha% alternou o olhar entre a parede “certa” e as ferramentas no meio do quarto vazio. — Eu dei muitas ordens e homens não entendem mais de uma coisa ao mesmo tempo.
— Ainda assim, eu acho que… — parei de falar quando %Agatha% decidiu pegar um martelo e um prego, entrando também no quarto atrás dela. — Ei! Larga isso, você pode se machucar.
— Não se preocupe, docinho. — a voz dela ecoou e ela caminhou até a parede com os utensílios. — Eu sei usar isso, só quero marcar o lugar certo.
— %Agatha%, esses caras são profissionais, se eles não furaram onde você pediu deve ser porque-
A primeira martelada encobriu meu protesto, mas %Agatha% não se deu por satisfeita. Continuou enterrando o prego na parede até atingir um cano, que estourou e começou a derramar água.
— Porque existe um bom motivo. — completei, vitorioso.
%Agatha% soltou um pequeno grito, incrédula e enfurecida. A água era corrente, o que fazia com que ela escapasse numa velocidade e quantidade bem grandes mesmo para um furo tão pequeno, e eu me deliciei assistindo minha noiva se desesperar para conter o acidente.
— Para de rir, vem me ajudar! — ela tentava, sem sucesso, tapar o buraco com as mãozinhas pequenas e delicadas.
— É pra parar de rir ou pra te ajudar? É que eu sou homem, não entendo mais de uma coisa ao mesmo tempo.
— %Mackenyu%! — ela resmungou, já com a camisa de seda encharcada.
— Sempre molhada e pedindo por mim.
— Você é impossível. — o jato esguichou bem na altura do rosto dela, deixando-a ainda mais zangada. — Inlidável.
— Acho que essa palavra não existe. — me aproximei, rindo.
— Acabei de inventar. — uma mecha de cabelo molhada grudou na testa dela. — Significa impossível de lidar. Vou colocar num dicionário como sinônimo para “%Mackenyu%”.
— Você bem que mereceu esse banho, sabia? — afastei o cabelo dela dos olhos, colocando-o atrás da orelha. — Mas aguenta aí que o seu maridinho vai te ajudar.
Comecei a desabotoar a blusa de baixo para cima e %Agatha% tentou ficar alheia à abertura que expôs meu peito e abdômen, mas quando eu me livrei totalmente da peça, despindo os braços da manga comprida, ela falhou em segurar um suspiro e errou o ritmo da respiração.
Pelo visto eu não era o único com saudade.
— É sério isso? — ela acompanhou meu movimento.
— Desculpa, você prefere deixar seu quarto virar uma piscina? — amassei a camisa contra o vazamento.
%Agatha% não respondeu, somente recuou um passo, colocando-se atrás de mim enquanto eu segurava a água. De todas as ações que eu esperava que ela tomasse naquele momento, ela escolheu uma para a qual eu não estava preparado.
Sem aviso, ela deslizou os dedos finos pela base das minhas costas, subindo até o meu trapézio e me provocando um arrepio. Tremi com o toque, reconhecendo e gostando dele, e uma gostosa sensação de vertigem começou a tomar conta de mim.
— O que houve com as suas costas? — ela contornou os arranhões cicatrizando.
— Você. — ri nasalado. — Não se lembra?
— É. Eu não pretendia lembrar. — ela parou o carinho e meu corpo achou ruim.
— Você é tão romântica! — zombei. — Agora vai lá fora, avisa a Kira e fecha o registro. Vai.
— Não usa esse tom comigo! — %Agatha% me deu um tapa no mesmo lugar que ela tinha acabado de alisar.
— Calma, nervosinha. Esfria essa cabeça. — soltei uma parte do tecido e deixei outro jato de água esguichar nela.
%Agatha% deu um pulo e esfregou o rosto bem devagar, decidindo como reagiria à brincadeira: relevando ou deixando o demônio sair.
Era hi-lá-rio vê-la possessa.
— Nós não vamos sobreviver a isso. — ela sentenciou.
— Ah, vamos sim, a água não vai alagar tudo. — sorri. — E se acontecer, eu sei nadar.
%Agatha% saiu batendo os pés e eu soltei uma sonora gargalhada. Ela tinha cometido o erro de se revelar cedo demais, eu já sabia direitinho como enlouquecê-la. Talvez eu tivesse um talento natural para tirá-la dos eixos e aquilo me dava cólicas de riso.
Levou poucos minutos para %Agatha% e Kira fecharem o registro e eu poder soltar a parede, contemplando o quarto semi-inundado. Antes que eu conseguisse pensar em como enxugariam aquilo tudo, %Agatha% reapareceu na porta com uma cara de cachorrinho arrependido e abandonado na chuva.
Meus lábios se torceram e explodiram em mais um ataque de riso quando a vi.
— Eu te odeio. — ela puxou a toalha que trazia no ombro.
— Obrigado. A propósito, você está linda. — dei meu sorriso mais galanteador.
%Agatha% revirou os olhos e arqueou o pescoço, enxugando algumas gotinhas acumuladas no colo. Era um gesto irresistível, e um decote mais irresistível ainda.
— Por que não tira uma foto? — ela percebeu meu estado hipnótico e me jogou a toalha. — Vai durar mais tempo.
Sequei as mãos e meti uma delas no bolso da calça, procurando meu celular.
— Não se atreva! — ela me repreendeu.
— Desculpa. — pisquei, esfregando o peito sob o olhar atento. — É que eu já estou ficando acostumado a obedecer você.