Capítulo 12 • Cura
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(POV: %Mackenyu%)
Eu finalmente estava me sentindo eu mesmo outra vez.
A dor ainda pulsava na região das costelas, meio adormecida, mas os analgésicos estavam sendo cada vez menos necessários e eu já conseguia tomar banho sozinho — embora eu tivesse escolhido omitir esse fato da minha esposa apenas para ganhar a companhia dela no chuveiro todas as vezes. Recuperei a destreza dos movimentos e até consegui autorização para retomar minha rotina de exercícios, muito mais leve agora, é claro, e com o devido acompanhamento. A pressão constante nas costas amenizou ao longo dos dias, habituando a minha carne ao que ela era antes, e a lembrança em relevo que rasgava a lateral do meu torso não era uma preocupação, mas sim uma prova de onde meu coração sempre esteve.
A cicatriz era a minha verdade. E meu coração estava com a %Agatha%.
Com a %Agatha% e com o pedacinho de nós dois que estava dentro dela.
Depois que repetimos o exame e confirmamos o resultado, decidimos não contar a ninguém sobre a descoberta mais doce das nossas vidas, pelo menos por enquanto. %Agatha% tinha algumas reservas, um resquício de medo pela condição de saúde que, mesmo depois de comprovada como inexistente, ainda conseguia assustá-la e preocupá-la quanto à segurança do bebê. Era completamente compreensível, uma vez que anos de dor não se apagavam facilmente, mas o nosso pequeno milagre já desenhava em nossos corações um amor capaz de vencer qualquer coisa.
E uma barriguinha tímida já queria aparecer. Linda, linda.
— Ei, deixa eu te ajudar com isso. — caminhei em direção à barrigudinha. — Você não pode pegar peso.
— Nem você, mas não se preocupe. — ela deixou uma caixa no chão. — São só os meus travesseiros.
— Achei que você ia usar esses daqui. — puxei %Agatha% para um abraço e beijei o topo da cabeça dela, mantendo-a aninhada no meu peito.
— Eu vou. Mas daqui a pouco esse pacotinho que você colocou em mim não vai me deixar deitar e eu vou ter que dormir sentada.
— Bom, sentar é a sua posição favorita…
A versão grávida da %Agatha% desbloqueou um novo rolar de olhos, mais demorado, impaciente, e acompanhado de um suspiro alto bastante característico, que acusou o feito mesmo que eu não pudesse ver seu rosto. Felizmente, meu comentário não foi suficiente para fazê-la partir nosso abraço, que era muito mais importante que a minha piada, e as mãozinhas pequenas cercaram minha cintura, demonstrando a verdadeira preocupação da minha esposa no momento. Os dedos trêmulos foram subindo devagarinho à procura da marca na costela e, ao achá-la, ela desenhou a fenda com cuidado, errando a respiração com um soluço anunciando o começo de um choro.
— Shhh. — abracei mais forte, afagando os fios da nuca dela. — Já passou, amor. Não foi nada.
— Como não foi nada? — %Agatha% levantou o rosto. — Eu te meti nessa enrascada, foi tudo culpa minha-
Não esperei que ela concluísse o pensamento e o interrompi com um beijo manso, tentando persuadi-la do contrário sem palavras. Os lábios dela, mornos e nervosos, formigaram contra os meus em busca de consolo, que eu ofereci sem pressa alguma. Não havia culpa a ser designada além, é claro, daquela cabível ao malfeitor, e essa já estava sendo aplicada graças à competência de %Mingyu%. O que restava agora era cuidar para que a gestação da minha esposa ocorresse da maneira mais tranquila possível, cercá-la de todos os cuidados, todos os carinhos, todo o amor que eu retive nas cláusulas do contrato que não existia mais.
— Ainda dói muito? — ela fungou, circulando suavemente ao redor da área.
— Quase nada. Mas antes em mim do que em você. — recolhi a mão dela e beijei as pontas dos dígitos. — Não pensa mais nisso, tá?
%Agatha% me encarou com os olhos marejados e um vinco no cenho provou que ela não conseguiria atender meu pedido. Desfiz o nó na testa dela com um carinho no espaço entre as sobrancelhas e ela fechou os olhos, erguendo o perfil na espera de mais um beijo. Sorri sem perceber. Aquele tinha virado nosso código secreto, nossa resposta não condicionada, nosso instinto. Em qualquer que fosse a situação, nosso ímpeto era tocar um ao outro, era ler na pele alheia tudo que não conseguia ser dito, era abraçar com todos os sentidos. O beijo dela era sempre a solução.
— E se toda vez que você pensar nisso, você me der um beijo? Que tal?
— Não precisamos mais de nenhuma desculpa para nos beijarmos. — ela ficou na ponta dos pés e me selou a boca. — Mas eu concordo.
Ficamos parados no centro do quarto que agora era nosso, encarando aquele cenário como a tela da nossa história. A tempestade que enfrentamos e que nos guiou até ali finalmente começava a assumir contornos de calmaria, e as coisas da %Agatha% foram encontrando seu lugar no guarda-roupa, no banheiro, na penteadeira que ela instalou no canto… E mais do que tudo, o lugar dela na cama, do lado esquerdo, que a deixava dormir no ângulo perfeito para ser encaixada nos meus braços.
— Aquela caixa é a última. — ela apontou os travesseiros esquecidos no chão. — Se for desistir, a hora é agora. Você ainda quer que eu me mude pra cá?
— Hm, deixa eu ver. — desci pelos braços dela, segurando as duas mãos. — Nós somos casados, vamos ter um bebê, eu levei um tiro por você, não sei… Talvez não estejamos prontos para algo tão sério como dormir no mesmo quarto.
— Será que estamos indo rápido demais? — ela forçou uma cara de pensativa.
— É um grande passo, vamos dividir tudo, até as gavetas... — aproximei a boca do ouvido dela, sussurrando. — Eu vou saber onde as suas calcinhas moram.
— Então talvez eu não deva usar mais nenhuma.
— Eu gosto muito dessa ideia.
O sexo durante a gravidez poderia ser um tabu, mas a minha urgência e meu desejo pela minha esposa falavam muito mais alto do que o mito risível de que a relação sexual poderia machucar o bebê — além disso, eu estaria mentindo se dissesse que não notei o aumento nos quadris e nos seios da %Agatha% e que isso não triplicou meu tesão por ela, — porém, três batidas na porta cortaram a manobra ousada que eu estava prestes a fazer por baixo do vestido que ela estava usando.
— Musuko?
A voz que surgiu me chamando em japonês atravessou mais que a minha audição, revirando alguma coisa dentro das minhas entranhas. Não era como das outras vezes em que eu tinha escutado aquele vocativo, meio frio, distante, quando eu chegava até mesmo a duvidar se aquela palavra tão doce era mesmo para mim. Não. Daquela vez, havia algo diferente na forma como Shinichi Arata, meu pai, me chamou de filho.
Talvez fosse a minha paternidade recente, ou quão sensível eu estava depois de assitir minha vida inteira passando diante dos meus olhos nas horas em que eu fiquei suspenso da realidade no hospital, o fato era que ver meu pai, sempre tão altivo e distinto, hospedado na minha casa e me aguardando no corredor com os pés descalços, totalmente à vontade, me aqueceu de certa forma. Fazia tempo que eu não o via em roupas confortáveis, com um semblante tão destravado e uma entonação tão calorosa, receptiva, de guarda baixa. Era agridoce. Por mais que a ausência dele tivesse pesado no meu coração durante anos a ponto de me tornar alguém insone, a presença dele ali, agora, claramente abalado por quase ter me perdido surtia uma espécie de efeito curador, um remédio tardio, mas, ainda assim, bem-vindo.
Meus pais haviam resolvido prolongar a estadia e aproveitar o acidente como uma oportunidade de passar mais tempo conosco e conhecer a %Agatha% melhor. Não faltavam assuntos nem tópicos para conversa, mas especialmente entre mim, meu pai e nosso relacionamento mal resolvido latente, havia muito mais do que poderia ser falado. Homens, no entanto, não costumam desbravar suas dores. Homens japoneses, então, são ensinados a enterrá-las e a sofrê-las em silêncio. Eu nunca disse ao meu pai o quanto sangrei com a falta dele, assim como eu também não disse o quanto estava aliviado por tê-lo ali ao meu lado, semanas depois de ter sangrado literalmente. Esse acúmulo de coisas não ditas parecia estar pairando sobre nós como uma nuvem densa que romperia em chuva mais cedo ou mais tarde, e a ansiedade nos olhos dele em falar comigo indicava que as águas viriam mais cedo do que eu pensava.
— Eu vou deixar vocês sozinhos. — %Agatha% soprou baixinho, caminhando até a porta e passando pelo meu pai no caminho. — Senhor Arata.
— Pode me chamar de Chiba. — ele acenou com a cabeça, derretido pelo sorriso dela.
— Como quiser, senhor Chiba. — ela piscou.
E então meu pai fez algo que ele não costumava fazer com tanta frequência: ele riu. Um riso gostoso, acompanhado de um japonês misturado com o inglês enrolado, tentando explicar para %Agatha% que o objetivo era fazê-la parar de chamá-lo de senhor. A cena me arrancou um riso tímido também, porque assistir o velho e duro Chiba se desmontar com os encantos da %Agatha% era a mais pura comprovação do velho ditado: tal pai, tal filho…
Aparentemente, ela tinha um dom natural para enfeitiçar os homens Arata.
E eu me rendi por inteiro.
— Ela está radiante. — meu pai decretou assim que %Agatha% saiu da nossa vista. — De quanto tempo ela está?
Senti uma pontada na cicatriz e um entalo na garganta.
— Tempo? — tossi. — Como assim de quanto tempo?
— Musuko… — ele repetiu, sorrindo pequeno. — Eu sei que ela está grávida, eu já vi isso. Três vezes.
— Pai… — balbuciei.
Ele chegou mais perto, apertando meu ombro apreensivamente, como se quisesse me abraçar e não soubesse como. Apenas aceitei a investida, colocando a minha mão sobre a dele, enrugada pelo tempo, mas ainda com a firmeza da qual eu me lembrava tão bem. Os olhos, por sua vez, vacilaram por um instante, e eu percebi que ele estava me estudando de uma maneira diferente, não mais com o crivo exigente que buscava o sucessor perfeito para a Three Swords, aquela visão aguçada que me demolia para me moldar de acordo com as suas expectativas altíssimas. Não era o olhar inquisitivo, obcecado em apontar as minhas falhas e corrigi-las, não era o olhar endurecido que criou uma barreira entre nós. Meu pai estava, naquele momento, enxergando pela primeira vez algo que era invisível até para mim mesmo.
Foi quando a paternidade, enfim, me encontrou.
— Eu vou ter um filho. — anunciei num fio de voz. — Eu vou ser pai.
— Você já é um. — ele me apertou com mais força e me sacudiu um pouco. — Já tem uma semente sua no mundo.
O silêncio entre nós se arrastou, enquanto o peso da nossa declaração se acomodava no ar. Uma lágrima quis se formar sozinha no canto do meu olho e antes que eu pudesse me envergonhar dela, antes que eu conseguisse pensar que ela poderia ser uma demonstração de fraqueza, meu pai me puxou para junto de si e me deu o abraço que eu esperei por quase uma vida.
— %Mackenyu%, meu filho… — ele finalmente disse. — Seja melhor do que eu fui pra você. Seja melhor do que eu.
Eu não sabia o que responder. As palavras estavam presas, entrecortadas por um misto de medo, rancor, alegria e saudade. Era uma combinação muito intensa e difícil de tragar, mas o calor das mãos grossas do meu pai batendo nas minhas costas amaciava a mistura de sentimentos. Receber o afeto atrasado dele me fez entender que todas as dúvidas e todos os temores que naturalmente tomaram conta de mim eram, na verdade, muito simples de resolver.
Se eu quisesse mesmo ser um bom pai, eu precisava perdoar o meu.
— Eu... vou precisar de você, pai. — foi tudo o que eu consegui dizer.
— Você vai? — ele gaguejou, segurando meu rosto pelas laterais. — Depois de como eu falhei com você, você… Você ainda me quer por perto?
A lágrima que eu tentei segurar escapou, rápida como uma fugitiva.
— Eu preciso. Eu estou assustado. Muito feliz, mas assustado. — me apressei em enxugar o filete salgado do queixo. — E eu sei que você deve me achar um fraco por dizer isso, mas-
— Você é tudo, menos fraco, %Mackenyu%. — ele rebateu com o pigarro típico de quando ele estava emocionado e não queria aparentar. — Na verdade, você é mais corajoso do que eu. Eu não levaria um tiro pela maluca da sua mãe.
Bati os cílios repetidamente. Ele estava fazendo uma… piada?
Bom, os dentes querendo aparecer entre os lábios contorcidos indicavam que sim, mas quem poderia imaginar que eu tinha herdado minha veia cômica justamente do meu pai?
— Isso não é verdade. — me permiti rir.
— Não, não é. Eu atravessaria o fogo pela sua mãe. E por você e seus irmãos. — o poderoso Shinichi puxou o ar com força e voltou a me encarar com sua convicção inabalável. — É o que um homem faz, ele protege e cuida. — ele apontou a marca na minha costela, quase orgulhoso dela. — Isso que você fez pela mulher que você ama, filho, é a maior prova de que você vai ser um bom pai.
Inspirei. Meu pai tinha razão, eu amava a %Agatha%.
Era tão óbvio assim?
Claro que era. Eu não podia me ver quando olhava para ela, mas eu tinha certeza que eu fazia uma cara de cachorrinho faminto e por pouco não colocava a língua para fora pedindo carinho. Meu pai certamente notou o meu fascínio pela %Agatha% desde o primeiro dia e eu certamente não era tão bom em fingir as coisas quanto eu pensei que fosse. Descobrir que ele sempre conseguiu enxergar através de mim e das minhas intenções me fez ter ainda mais fé nas palavras dele, que saíram tão verdadeiras como eu nunca tinha visto antes.
— Você sempre soube que era ela, não é?
— Sim. Mas eu quis deixar você descobrir sozinho.
Meu pai deu um passo à frente e a presença dele ocupava todo quarto. Os pontos dissolvidos na minha costela pulsavam à medida que ele se afastava, pinicando muito mais pela ansiedade do que pela leve dor do pós-operatório. A reconciliação era uma situação inédita para nós dois, o que nos deixou um tanto sem reação, sem saber direito quais seriam as próximas palavras, os próximos gestos, até que um impulso me moveu a confessar meu pensamento mais feliz até então.
— Amanhã eu vou ouvir o coração do bebê.
O velho quebrou, bem na minha frente.
— Não, filho. — ele sorriu brando. — Você vai ouvir o seu coração batendo fora de você.
⚔️
%Agatha% reclamou que o gel estava muito gelado e que o aperta-aperta da enfermeira dava vontade de ir ao banheiro, tudo para disfarçar o quanto ela estava nervosa. Eu estava muito mais nervoso que ela, mas não tinha nenhuma desculpa para justificar meu estômago se revolvendo nem a tremedeira involuntária, que arrancava risinhos discretos da médica e da auxiliar.
— Talvez tenhamos que verificar o coração do papai também. — a médica notou meu pé balançando compulsivamente, já segurando o transdutor para dar início ao exame.
Fiz que “não” com a cabeça, mas até que não era uma má ideia.
— Você tá quase tendo um piripaque no primeiro ecocardiograma e ainda fica falando em ter o próximo… — %Agatha% relaxou brevemente, divertida com a minha inquietação.
— Mas é claro, no próximo eu já vou saber como é, então eu vou estar mais tranquilo. — rocei o nariz no dela e ganhei um selinho que conseguiu me acalmar um pouco.
— Podemos começar?
%Agatha% pressionou a minha mão e deu o sinal verde para a doutora, inspirando fundo assim que a médica deslizou o aparelho pela barriga saliente de oito semanas. O monitor começou a projetar as imagens borradas e o som de líquido sendo remexido tomou conta do consultório, um barulho indiscernível que lembrava a sensação de um mergulho, uma submersão tão incrível que respirar deixava de ser importante.
Na verdade, eu tinha escolhido não respirar. Quando os contornos escuros começaram a se desenhar na tela, eu imediatamente retive o ar nos pulmões para que nada no mundo fosse mais alto que as batidas do coração do nosso filho.
E nada era. Nada no mundo era mais alto, ou mais bonito, ou mais perfeito que o coraçãozinho fazendo tum-tum. Inclinei um pouco a cadeira e deitei a cabeça ao lado da %Agatha%, dividindo com ela o mesmo fôlego para sentir plenamente os batimentos fortes e compassados sendo reproduzidos ali. Eu quis dizer o quanto eu amava os dois, mas não queria que minha voz se sobrepusesse à melhor música do mundo, então eu deixei um beijo na testa dela que falou por mim.
Meu pai tinha razão. Era o meu coração batendo fora do meu peito.
— Muito bem. Tudo certo por aqui. — a médica rompeu nossa bolha impenetrável, registrando dados no computador acoplado. Depois, ela moveu o transdutor mais para baixo. — Esse foi o primeiro bebê.
Aí sim meu coração parou por completo.
Primeiro…
Bebê?
— Primeiro? — %Agatha% moveu-se bruscamente. — Sim, esse é o primeiro. Nosso primeiro filho. Foi isso que você quis dizer?
— Oh, eu peço perdão. Achei que vocês já soubessem sobre os bebês.
Os…
Bebês?
— Não tem bebês não, doutora. — %Agatha% quis se sentar, mas foi impedida pela enfermeira, que procurava tranquilizá-la. — Nós só fizemos um.
— Acho que os bebês não foram avisados. — ela insistiu.
Bebês?
Mais de um?
Eu estava paralisado, todos os ossos, músculos e tecidos congelados. A médica ria contido, eram apenas mais notícias normais para ela, mas para nós, pais de primeira viagem, era como se a Terra tivesse perdido o eixo de rotação. Como se a gravidade tivesse sumido. Como se não houvesse mais chão, nem força nenhuma capaz de nos manter preso a ele.
Só havia a explosão de dopamina espalhando uma alegria violenta e contagiante pelas minhas veias.
— Então são gêmeos? — perguntei, enfim desprendendo a língua e sentindo o sangue faltar no corpo inteiro. — Tem dois?
— Tem três. — a médica apontou no monitor três vezes.
— O QUÊ? — %Agatha% deu um pulo na maca.
— Trigêmeos. — a ginecologista seguia completamente profissional, indiferente ao xilique. — Meus parabéns!
%Agatha% sequer me deu tempo para processar a informação, porque me agarrou pelo colarinho da camisa e me puxou impetuosamente, vermelha e agitada.
— Você colocou três crianças em mim, %Mackenyu% Arata? Isso quer dizer que daqui a pouco vão ter três bebês nadando aqui dentro como se eu fosse um piscinão coletivo?
— Amor, eu tô tão surpreso quanto você, mas você precisa se acalmar. — pedi, e a enfermeira saiu para buscar um copo de água (e quem sabe um sedativo).
— Não, você e seu pênis triplamente fértil estão uns dois bebês menos surpresos do que eu. — ela voltou a se deitar, apertando as têmporas.
— Calma, tá? — tentei tirar a pressão dela, suavizando o rosto com um carinho. — Em minha defesa, eu te falei que o mais velho da minha família sempre tem três filhos.
— Você não me falou que ia ter todos os três de uma vez só! São todos meninos, não é? — a essa altura, %Agatha% já não sabia se sorria ou se chorava. — Três meninos?
— Sim. — a médica confirmou, aproximando as imagens manchadas e cheias de pontinhos brilhantes. Mas os pontinhos podiam também ser resultado da vertigem que o impacto da novidade tripla me causou. — Três meninos fortes e saudáveis.
— Três japonesinhos… — %Agatha% balbuciou, me fitando com os olhos vidrados. — Três de… você.
— E de você também. — embarguei. — Eu espero que eles tenham os teus olhos, meu amor.
— %Mackenyu%… — ela sibilou, mordendo o lábio. — Estamos prontos pra isso, certo?
Encarei a íris dela, procurando ali no fundo castanho a resposta que ela me pediu. Não havia um manual que pudesse nos preparar para aquilo, aliás, a única certeza absoluta que eu tinha agora eram as três sementinhas de nós dois crescendo dia após dia, e por mais que elas ainda fossem do tamanho de uma frutinha framboesa, a sua simples e maravilhosa existência já era motivo suficiente para me fazer erguer o rosto da %Agatha% pelo queixo e ser capaz de confortá-la.
— Estamos sim. — sorri, genuíno. — Três ou trinta, não importa. Eu tô aqui por vocês.
%Agatha% estalou a língua, lutando para terminar as frases desconexas e parando os pensamentos na metade do caminho para enxugar uma lágrima.
— Como foi que isso aconteceu, hein? — ela perguntou, por fim, extasiada.
— Ah, você sabe como…
— Eu tô falando de como eu saí de infértil para fértil até demais, %Mackenyu%. — a barriga dela balançou com a risada e as imagens no monitor chacoalharam, me fazendo rir também.
— Isso eu posso explicar. — a médica aplicou mais uma camada de gel e %Agatha% soltou o ar pela boca, tentando amenizar o terremoto que a gargalhada causou nos trigêmeos. — Você relatou no seu histórico que recebeu um diagnóstico equivocado de endometriose, certo? Por causa disso, você tomou medicamentos para tratar uma esterilidade que não existia, o que otimizou suas chances de fecundação múltipla. É muito comum gravidez de gêmeos depois de tratamentos assim. Ou, no caso de vocês, trigêmeos.
Trigêmeos. O nome puxou um riso de felicidade pura rompendo pela minha garganta.
— %Mackenyu%, você tá rindo! — %Agatha% reclamou, mas continuava rindo também, com todo o cuidado que pôde. — É claro que você tá rindo, não vai ser você que daqui a alguns meses vai ter três cabecinhas rasgando a sua-
— Eu te amo. — cortei o rompante dela, inebriado por aquele sonho criando vida diante de mim. — Eu te amo ferozmente. Vocês ouviram? — olhei para baixo. — Eu amo vocês quatro.
— Nós também te amamos.
Ela suspirou, encostando a cabeça no meu peito e ancorando-se em mim, enquanto eu passava o braço pelas costas dela para transferir o calor que emanava do meu corpo num abraço. Eu abracei não só a minha mulher, mas todo o meu mundo infinito e particular.
Eu abracei a minha cura.
Eu abracei a minha fonte inesgotável de dopamina.
E naquela hora, nada mais me doía.