Capítulo 10 • Catarse
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(POV: %Mackenyu%)
“Oi, %Agatha%. Você ainda está planejando se divorciar?”
A mensagem que eu li por acidente tinha muitas camadas, cada uma mais dilacerante que a outra. Apurei a vista, quem sabe eu tivesse entendido errado. Não tinha. O contato salvo como %Mingyu% K, o amigo e advogado pessoal da %Agatha%, escreveu a sentença sem sombra de dúvidas e com um verbo definitivo ao final: divorciar. As palavras “ainda” e “planejando” eram as que me trituravam com mais impiedade, moendo pedacinho por pedacinho da minha alma despedaçada. “Ainda” dava a ideia de permanência, de persistência, de ideia tida há muito tempo e mesmo depois dele, não descartada. “Planejando” era a prova do premeditado, do intencional, da fuga em andamento, e os dois termos juntos assumiam requintes de crueldade.
Crueldade que partiu da mulher na minha frente. A mulher que ontem me chamou de amor.
A mulher que eu amava.
Ela estava diante de mim com os olhos estampados de susto, encarando a pergunta que eu lancei no ar como se ela tivesse criado corpo e tomado a forma de um bicho-papão. O atraso pela resposta era devastador, consumia tudo ao redor num borrão, sugando qualquer esperança remanescente de que aquilo fosse um puta mal-entendido para dentro do buraco negro aberto no meu peito. “Ainda está planejando se divorciar?”... Há quanto tempo ela planejava isso? De onde veio essa ideia? Qual era minha parcela de culpa nessa decisão que ela tomou sozinha, se tudo o que eu fiz até aqui foi me dedicar a ela como eu nunca havia feito antes?
Não havia nada que eu quisesse mais que a %Agatha%. Meu desejo por ela nascia das minhas entranhas.
O silêncio na sala deixava as palavras da mensagem ainda mais altas, golpeando a minha cabeça feito estacas de ferro. %Agatha% reteve o ar nos pulmões e calculou até mesmo a maneira de se mover, enfrentando o chão que sumia debaixo dos nossos pés como uma placa fina de vidro prestes a se partir em mil estilhaços. Trépida como eu não estava habituado a vê-la, aproximou-se da mesa medindo o tom e a respiração errada, e embora alguma parte obtusa do meu cérebro quisesse me fazer recuar, outra parte, carente e dominante, me fazia permanecer ali, à espera dela.
— %Mackenyu%…
Uma dor física atravessou meu peito. Pela primeira vez, ouvi-la chamar meu nome me causou uma estranha sensação de esmagamento.
— %Mackenyu%, eu-
— Você premeditou isso, %Agatha%? — minha voz saiu sem licença, baixa e sofrida.
— No início, sim. — os olhos dela foram se inundando conforme ela chegava mais perto. — No início. — enfatizou. — Porque eu precisava me proteger.
— Se proteger de quê? — uma mistura de frustração e impotência tomou conta do meu corpo. — De mim?
— Sim! — %Agatha% pareceu tornar a si, reagindo mais energicamente. — De você, dos acionistas, dessa porra de situação toda. — ela feriu os lábios, mordendo-os. — %Mackenyu%, por favor, tenta entender. A gente nem se conhecia…
— Mas a gente se conhece agora. — embarguei. — Por que você não me contou sobre isso?
— Porque não importa mais! — ela segurou minhas mãos sobre a mesa e o toque dela me acalentava e me arranhava igual. — Eu desisti dessa ideia absurda! Por isso a mensagem do %Mingyu%.
— E como eu devo me sentir, %Agatha%? — minha garganta rompia em agonia. — Como eu devo me sentir sabendo que esse tempo todo você escondeu isso de mim?
— Eu precisava de um plano. Você não tinha um? — ela apertou meus punhos, esperando arrancar deles algum gesto de compreensão que a acalmasse. — Nem passou pela sua cabeça o que fazer se isso não desse certo?
— Não. — mantive o tom inalterado. — Em nenhum momento. Eu estava ocupado demais focado em tentar, %Agatha%. Eu disse que queria tentar. Eu estive tentando esse tempo todo.
No instante seguinte, uma onda de raiva começou a surgir e eu me esforcei para não soar hostil. Não sabia se era pela dor ou pela impressão da traição ficando real demais, sabia apenas que eu pensava nela, pensava na história que eu achei que construímos juntos, em cada pequeno detalhe que agora estava manchado e insípido. Pensava violentamente, a ponto de saltar as têmporas, de fervilhar as lembranças desconexas e me turvar os sentidos com uma sensação incômoda de ser um estranho na minha própria vida. Quase um ano se passou desde que eu tinha içado as velas e me lançado ao mar e só agora eu descobria que não tinha ancorado em lugar nenhum.
— Quando eu te vi naquele salão, quando fomos apresentados, eu fiquei tão feliz. — confessei, incapaz de me desvencilhar das palmas quentes. Eu precisava de contato com a pele dela mesmo que aquilo equivalesse à tortura no momento. — Eu achei que estávamos em sintonia, que queríamos a mesma coisa. E você já estava pensando em partir.
— Eu estava me defendendo. — %Agatha% soluçou, me soltando apenas para envolver meu rosto. — Tem ideia do quão assustador aquilo tudo era pra mim?
— Se eu tenho ideia? Eu estava na mesma situação que você! — juntei as duas mãos perto do meu coração batendo descontroladamente. — Mas em nenhum momento eu arquitetei uma trapaça. Em nenhum momento eu menti pra você. Pelo contrário, %Agatha%, eu te contei sobre meus medos. Eu dividi coisas com você que eu nunca dividi com ninguém. E você deixou eu fazer isso. Você deixou eu me…
— O quê? — ela me empurrou levemente, agarrando o colarinho da minha camisa. — Eu deixei você o quê?
Você deixou eu me apaixonar por você.
— Você me deixou tentar. — foi o que eu consegui dizer.
A essa altura, as lágrimas já fugiam apressadas das íris amendoadas e %Agatha% as secava com força, ofendida pela própria vulnerabilidade. Vê-la refém da sua catarse era tão confuso quanto esclarecedor, porque representava uma ilustração precisa e doída de onde nós dois estávamos naquele relacionamento — e eu estava sozinho. Como eu sempre estive. Como eu sempre me senti. Sozinho como a vez em que meu pai esqueceu de me buscar na plataforma ferroviária em Fukuoka, sozinho como quando eu me mudei para Nova York e quis aprender algum instrumento para disfarçar o silêncio da casa e o quão fodidamente sozinho eu estava. Sozinho.
Embarcando sozinho num trem que nunca deixou a estação.
Tocando sozinho um violão sem cordas.
— Não fale como se eu tivesse cometido um crime, %Mackenyu%. — %Agatha% quebrou meu devaneio, amassando a gola da camisa numa demonstração clara da angústia que lhe pungia o semblante. — Eu nunca quis enganar você. Você é a última pessoa do mundo a quem eu queria machucar.
— Então por que eu sinto meu peito rasgando? — sussurrei.
— Meu amor… — %Agatha% rogou e voltou ao meu rosto.
A declaração passou direto pelos meus ouvidos, impregnando meu coração e guardando-se ali como um sopro, um breve alívio na busca pelo antídoto no mesmo frasco que continha o veneno. Como era possível que a cura partisse da mesma pessoa que machucava? %Agatha% me cortou na camada mais funda da derme, ainda assim, só ela podia me sarar, e ouvi-la se referir a mim como amor, como meu, era o início promissor da regeneração de que eu necessitava. A cadência de alento que ela imprimiu ainda ecoava na minha cabeça dolorida quando as portas do escritório abriram-se abruptamente e alastraram um odor fétido de álcool barato, denunciando a última pessoa que eu esperava ver ali.
— Tio Morgan? — %Agatha% virou-se, incrédula.
O velho trôpego balançou o casaco, endireitando a postura embriagada. Minhas vísceras embrulharam no ato e meus músculos enrijeceram, bombeando o sangue numa velocidade agressiva pelas veias fervendo, resposta neurológica à ameaça que era a presença daquele homem na minha casa. %Agatha% desgrudou-se de mim, já arriscando alguns passos na direção do tio, e eu a detive num rompante, com um movimento seco que lhe causou estranheza.
— %Agatha%, terminamos. — falei com firmeza no ouvido dela. — Saia, por favor.
— O que é isso? Eu não vou a lugar nenhum.
— Eu acompanho você. Vamos. Agora.
Catatônica pela expulsão repentina, ela paralisou por completo e eu não tive outra escolha a não ser puxá-la pelo braço, colando-a ao meu tronco e impelindo-a até a saída. Levá-la embora daquela sala se tornou meu hiperfoco, condicionando todas as minhas ações para o fim urgente, ao qual ela resistia sem entender a aspereza com que estava sendo tratada por mim. No entanto, não havia tempo para elaborar uma justificativa sem aterrorizá-la ainda mais e, em certo ponto, eu já atendia ao impulso de empurrá-la com veemência, tomando apenas o cuidado de ficar entre ela e a nossa visita indesejada, pois depois de ver o tio dela agitando estupidamente o casaco, eu precisava tirá-la dali nem que fosse por força bruta.
Porque ela não notou a princípio…
Mas Morgan estava armado.
— Você pode até estar com raiva de mim, %Mackenyu%, mas esse não é você. — ela me estudou, afligida, e o medo por ela não estar me reconhecendo quase me matou.
— %Agatha%, por favor. — implorei entre dentes. — Sai daqui.
— Ah, não. — Morgan sacou a arma. — Ninguém vai sair.
%Agatha% congelou ao meu lado, perdendo toda vascularização na face, que embranqueceu em questão de milésimos de segundo. Era nítido que ela nunca tinha visto um revólver de perto na vida, muito menos estado na mira de um. A situação de perigo iminente me colocou numa condição de automatismo e frieza que só poderia ser explicada pelo instinto de protegê-la a qualquer custo, nem que para isso eu renunciasse a minha segurança em nome da integridade dela. Meu cérebro começou a liberar uma dose maciça de adrenalina, preparando o corpo para uma possível reação de luta ou fuga, e as pupilas dilatadas tentaram absorver o máximo de informações possível sobre o ambiente, ampliando minhas percepções de cada detalhe da cena. Minha visão periférica expandia-se captando até os menores movimentos: o brilho metálico da arma, o reflexo da luz em seu cano, o tremor na mão do homem armado e uma ideia fixa se repetindo por cada fibra do meu ser:
— Aqui, Morgan. — chamei o gatilho com dois dedos. — Aponta a arma pra cá.
— %Mackenyu%! — %Agatha% sibilou quase inaudível, agarrada ao meu braço. — Não!
— Seja homem uma vez na vida, Morgan. — ignorei a repreensão e movi o primeiro pé para deixá-la totalmente atrás de mim. — Aponta a porra da arma pra cá, seu covarde filho da puta!
— Para com isso! — as unhas dela abriam minha carne, manifestação do pânico. — Ele está armado, por que irritá-lo ainda mais?
— Pra ele mirar em mim e não em você.
Era a resposta natural e óbvia. Atrair a ira dele e tirar a %Agatha% da jogada.
— Os dois podem parar de cochichar? — Morgan sacudiu a arma. — É irritante.
A manobra desajeitada fez minhas vias neurais dispararem, ligando todos os meus centros de decisão. O medo, agora norteador da missão de defender minha esposa, me enviou sinais em uma rapidez vertiginosa, incitando o reflexo instintivo de me colocar como escudo diante dela, aproveitando a mínima brecha entre um piscar de olhos e outro de Morgan, cada vez mais lentos pelo efeito da bebida.
— Morgan, seus negócios são comigo. — passei um braço para trás, segurando-a, e coloquei o outro na frente do tronco em sinal de rendição. — Eu garanto que vou concordar com todos os seus termos se você me deixar tirar a %Agatha% daqui.
— Pra ela ir correndo chamar a segurança lá de fora? Aliás, eu trocaria de pessoal se fosse você. Eles me deixaram entrar sem revista. — o velho manteve o revólver apontado e fez aspas com a mão livre. — Eu sou “da família”.
— Não se dê tanta importância assim, você é só um agregado, feito eu. — explanei, enfatizando a repulsa por me comparar a ele e canalizando a raiva alheia em mim. — Vamos deixar a %Agatha% fora disso e fazer um acordo. Só nós dois.
— Você acha que eu sou estúpido? — Morgan bateu na própria testa com o cano da arma e %Agatha% chorou alto, chamando a atenção dele. — Hein, %Agatha%? Você acha que eu sou estúpido? Você, seu irmão, seu pai, sua mãe, essa maldita família inteira, todos acham que eu sou estúpido?
Ele estava transtornado, e não apenas pela bebida. Aquele espelho distorcido refletia uma parte traumatizada dele e, por esse motivo, extremamente volátil e perigosa. O clima mudava a cada instante, carregado por um passado inteiro de ressentimentos que o velho despejava sobre nós como ácido corrosivo e, em estado de alerta máximo, minha musculatura reagia a todos os estímulos, desde o barulho do metal da arma até os microgestos de tensão no rosto enfurecido. Calculei minhas vantagens com uma racionalidade tirada não sei de onde, concluindo que seus pontos fracos eram o desequilíbrio físico e mental, além da coordenação motora comprometida pelos litros de uísque ingeridos antes daquela péssima decisão. Seria relativamente fácil imobilizá-lo, o barulho do tombo faria a segurança externa correr até a sala, no entanto, havia um agravante muito mais potente que a tontura que o acometia: Morgan não tinha nada a perder. Eu tinha. Eu tinha tudo a perder. Metade do meu coração estava ali, batendo fora de mim, pulsando atrás do meu corpo e choramingando contra as minhas costas arqueadas.
%Agatha% era o meu preço impagável. A minha condição inegociável. Eu faria qualquer coisa por ela.
— Diga o que você quer. — mudei a abordagem. — Mas abaixe a arma.
— Primeiro, você vai parar de me dizer o que fazer. Esse seu arzinho de quem dá as cartas é um saco. — Morgan avançou, apertando o cabo com as duas mãos. — Aliás, você tem sido um pé no meu saco desde que chegou aqui, sabia? O grande %Mackenyu% Arata, salvador da pátria! Fodido do caralho! Estava tudo indo tão bem!
Certo. Ele estava puto comigo. Isso era bom. Tão bom que ele nem percebeu que eu me aproximei timidamente.
— Morgan, nós ainda podemos interromper a investigação se-
— Eu já mandei calar, japinha de merda! — ele rosnou, salivando de ódio que escorria pelos cantos da boca murcha. — Como você veio parar no meio disso, afinal? Mesmo agora, que eu só queria dar um sumiço na minha sobrinha, aí está você, se colocando como escudo! Tudo isso pra quê? Pra conseguir comer ela depois? Não precisava de tanto trabalho! Ela faria isso de graça!
A raiva primitiva e pura quase me venceu pela primeira vez, me colocando à beira de romper o fio da razão. A área da sala diminuiu drasticamente, convergindo unicamente para a figura do ofensor e me fazendo esquecer por um lapso de memória a arma de fogo envolvida. O desejo de revidar cresceu no meu estômago e entalou minha traqueia, dificultando qualquer fluxo de pensamento e me levando mais e mais na direção do cano em riste, apontado para o meu peito.
— Tira o nome da minha mulher da sua boca imunda ou mesmo arranco. — o furor no meu tom de voz era novo até mesmo para mim.
— Que medo! Eu estou armado, seu idiota.
— Você vai atirar, Morgan? E o que você acha que vai acontecer depois? — %Agatha% resolveu falar e eu acordei do meu transe de cólera, esticando o braço para mantê-la atrás de mim. — Você não vai sair impune. Sua arma não tem silenciador, existem câmeras e seguranças lá fora.
Morgan gargalhou rouco e ensandecido, tossindo ao final da sessão de escárnio.
— Depois eu que sou o estúpido. Você ainda não entendeu, não é? Tudo tem um preço, até o silêncio das pessoas. Provas podem ser adulteradas, basta fazer a ligação certa. — ele recuperava o controle sobre si lentamente. — Como você acha que eu encobri o caso das notas frias por tanto tempo? Como você acha que eu escondi a verdade sobre a insuportável da sua tia, a Agnes? É muito fácil forjar um atestado de óbito. — a arma voltou a subir, dessa vez, na altura entre as minhas sobrancelhas, junto com a vista de Morgan. — Mas você já sabia disso, não é, %Mackenyu%?
— Sabia? — %Agatha% desbotou o pouco de cor que tinha recuperado. — Do que ele está falando? O que aconteceu com a tia Agnes?
Eu queria ter olhado para ela, queria ter segurado a mão dela antes de derrubar o peso do mundo sobre os seus ombros, mas eu não podia arriscar quebrar a vigília sobre Morgan. A verdade podia ser uma faca de dois gumes na maioria das vezes e, assim que %Agatha% me interpelou sobre o blefe do tio, a lâmina voltou-se para mim. Ambos estávamos escondendo coisas um do outro, mas eu pretendia que minha omissão fosse temporária, porque não havia jeito sutil de dizer o que precisava ser dito ali.
— No ano em que sua tia morreu, as notas emitidas não foram para a empresa fantasma do Morgan. — mantive o velho no alvo enquanto revelava. — Davis achou estranho, então nós fizemos uma investigação paralela. Cruzamos as referências e descobrimos que o pagamento foi feito para um falso legista, que emitiu um atestado de óbito mentiroso. — engoli em seco, arriscando um olhar vital. — Não foi sucídio, %Agatha%. Foi assassinato.
%Agatha% tentou repetir a última palavra, mas ela ficou presa num soluço de pavor. A pergunta subsequente ficou suspensa naquela atmosfera irrespirável, apontando a resposta evidente que empunhava a pistola.
— Você matou a tia Agnes. — ela deduziu, atônita. — Por quê? Por que você fez isso?
Estarrecida, %Agatha% quis partir para cima do tio, me encontrando como barreira intransponível. Ao se dar conta do nosso contato pele a pele, ela recobrou a consciência e os acontecimentos começaram a se embaralhar visivelmente na sua mente confusa, fazendo-a oscilar entre o pesar profundo por mais um crime de Morgan e sua completa desolação por eu ter retido a informação.
— Por que você não me contou? — ela me fitou, abismada, administrando o luto tardio.
— Eu não fazia ideia de como.
— Você me acusou enquanto escondia isso de mim, %Mackenyu%? — ela tentou sair do meu cerco, sem sucesso. — Um plano infeliz abortado e a morte da minha tia são equivalentes pra você? E você? — ela voltou-se para Morgan, repudiando-o. — Como você pôde fazer isso?
— Vamos pular essa parte? — Morgan engatilhou a arma. — Essa em que vocês fingem que não sabem porque eu fiz o que eu fiz? Foi pelo dinheiro, sobrinha querida! O vil metal! — ele riu quebrado. — Coisa que você sempre teve sem merecer enquanto eu tinha que me contentar com as sobras. O casamento foi a minha entrada na mina de ouro dos O’Brien, quando eu não precisava mais do bilhete dourado, eu joguei ele fora!
— Você é um monstro! — %Agatha% gritou. — Como você foi capaz?
— Eu vou te dizer como eu fui capaz! Vocês me fizeram capaz! Anos de descrédito, de funções ridículas, de humilhação! Anos na sombra daquela mulher desprezível! Eu matei a Agnes. — ele enunciou cada letra. — Depois eu espalhei a cena, coloquei as digitais dela na arma e simulei um suicídio. Claro que um perito saberia a verdade, então eu comprei o laudo do legista.
— Esse é o seu grande plano? — desdenhei. — Entrar aqui, nos matar, depois sair andando tranquilamente para encomendar laudos falsos?
As soluções de Morgan beiravam à ingenuidade de tão simples e passíveis de erro, de modo que qualquer criança de oito anos saberia apontar as falhas daquele plano. Era evidente que ele não poderia atirar num espaço confinado e monitorado como o escritório da mansão sem denunciar a si mesmo como autor do disparo e do crime passional, mas ele não parecia nada preocupado com o próprio destino. O álcool e o rancor moeram o seu julgamento, a única coisa que lhe movia era a tara de apertar o gatilho, onde o indicador já se posicionava, sedento pela vingança porcamente articulada, cuja gasolina era a fúria e nada mais.
— Faça um favor e saia da frente, Arata. — Morgan calibrou o revólver. — Eu vou começar pela %Agatha%.
— Eu mato você com as minhas próprias mãos antes que você encoste um dedo nela. — espumei.
— O teatrinho ainda não acabou? Até onde você vai pra defender a putinha da sua mulher?
Os contornos perderam definição. %Agatha% se debatia internamente para me conter, puxando um fio invisível sem exercer tração alguma, apenas a sua vontade de impedir que eu continuasse chegando mais próximo ao tio, numa intercessão tamanha que eu conseguia ouvir seus pensamentos. E eles me diziam, alto e claro, para não saltar sobre o velho e a arma.
Mas eu saltei.
Então um estampido de tiro perfurou meus tímpanos e o cheiro de pólvora invadiu a sala.