Dopa(mine)


Escrita porIlaneCS
Editada por Lelen


Capítulo 1 • El Diablo

Tempo estimado de leitura: 11 minutos

(POV %Agatha%)

  A reunião extraoficial com o advogado dispensava todas as formalidades corporativas e burocráticas com as quais eu lidava o tempo todo. Kim %Mingyu% foi meu colega de faculdade e Laura Chevalier, sua namorada desde então, acabou se tornando uma grande amiga, um elo que nos fez trocar uma sala de escritório cinza por um delicioso jantar no apartamento dos dois.
  — Não é tão ruim, %Agatha%. — %Mingyu% coçou o queixo enquanto Laura colocava o café na mesa. — A proposta é clara, vocês vão morar juntos, mas em quartos separados. Aqui diz que você vai se mudar para a casa dele, você concordou com isso?
  — Ele tem uma puta casa em Greenwich Village. A Sarah Jessica Parker e o Tom Cruise moram lá, é claro que eu concordei.
  — Ok, boa vizinhança. — %Mingyu% assobiou. — Aqui também diz que vocês não terão obrigações conjugais um com o outro. E por obrigações conjugais eu quero dizer…
  — Eu sei o que você quer dizer. — interrompi, me servindo. — Consumar o casamento.
  — É isso que preocupa você, %Agatha%? — Laura perguntou, sentando-se ao lado do namorado. — Que ele tente algo sem a sua permissão?
  — Se ele tentar, eu corto o negócio dele fora.
  — Não precisa castrar o japonês. — %Mingyu% fechou as pernas quando juntei os dedos  imitando uma tesoura. — Um casamento é, antes de tudo, um contrato. Os atos sexuais precisam ser consentidos por ambas as partes, é implícito.
  — Então deixe explícito. — dei o primeiro gole no café e estalei a língua.
  — Já está. Há uma cláusula irrevogável. — ele abriu a cópia cheia das suas anotações no notebook e virou a tela para mim. — Se o %Mackenyu% tocar em você sem que você queira, o contrato está desfeito e ele perde o posto na O’Brien Group e também na Three Swords. 
  — Jura? — aceitei um dos biscoitinhos que Laura empurrou na minha direção, examinando o texto. — Eu não tinha chegado nessa parte.
  — Sendo assim, eu preciso avisar que o mesmo vale pra você. — %Mingyu% abriu a boca e Laura colocou um biscoito nela. — Nada de partir pra cima do rapaz.
  — Essa não. Será que eu vou conseguir me controlar? —  ironizei, achando a cena dos dois nojenta e fofa ao mesmo tempo.
  —  Quem sabe? — Laura insinuou. — Ele pode ser irresistível, você já viu ele?
  —  Não e nem quero. Vou ter muito tempo para olhar para a cara do meu maridinho quando casarmos. — cruzei os braços, assistindo Laura alimentar o filhote gigante. — Fala sério, Laura, ele tem dois metros e quase trinta anos, ele sabe comer sozinho.
  — Homens são bebês grandes, amiga. — ela fez um carinho no cabelo de %Mingyu%, que balançou a cabeça concordando e fazendo um bico. — Você vai descobrir isso quando se apaixonar por um.
  Revirei os olhos, rindo do casal. Toda a história do casamento, do contrato e do divórcio iminente estava acontecendo rápido demais. Eu ainda não tinha tido tempo sequer de ficar triste por não estar apaixonada pelo meu futuro marido. Não que eu me considerasse uma pessoa ultrarromântica, do tipo que coloca biscoitinhos na boca do namorado, mas a fala de Laura despertou um incômodo aqui dentro, um receio que eu me obriguei a ignorar. Nunca imaginei que eu me casaria, mas eu tinha certeza de que, quando acontecesse, seria por amor.
  — Vai acontecer, %Agatha%. — Laura apoiou o próprio rosto nos dedos tatuados, como se lesse a minha mente. — O %Mingyu% me contou sobre os cálculos do %Adam%. Isso vai acabar logo e você vai ter todo tempo do mundo para conhecer alguém que ame.
  — Por que você não assumiu os negócios da Chevalier Industries, hein, Laura? — apertei a mão que ela me estendeu na tentativa de me confortar. — Se você estivesse à frente da empresa da sua família, eu me casaria com você para salvar a minha.
  — É ruim, hein! — %Mingyu% reclamou e puxou sutilmente a cadeira da namorada para mais perto dele.
  — Meu avô está solteiro. — Laura deu de ombros. — Se ele estiver interessado em investir, eu marco um encontro com vocês dois.
  Demos uma risada uníssona e meu peito carregado ficou mais leve. Apesar do pouco tempo que tive para processar os últimos eventos, decidi encarar tudo aquilo como uma solução para os problemas da O’Brien e não como uma sentença para mim. Ficamos até mais tarde acertando o contrato e entramos em contato com %Adam%, o mediador entre nós e os Arata. O jantar de noivado (que nada mais era que uma ocasião para que eu conhecesse a cara do %Mackenyu% antes de me mudar com ele) ficou marcado para o dia seguinte.
  — Já que você está oficialmente noiva… — Laura levantou-se e me puxou pela mão. — Vamos escolher um belo vestido.
  — Não vai ter um belo vestido, Laura. — ela continuou me puxando casa a dentro. — Vamos assinar lá no escritório mesmo.
  — Eu não tô falando do seu casamento, tô falando da sua despedida de solteira. — chegamos ao corredor e %Mingyu% ficou pelo caminho, entrando no escritório.
  — E desde quando vai ter uma? — seguimos para o quarto deles.
  — Desde agora, eu acabei de decidir. — Laura me arrastou até o closet dela, me deixando de frente para uma fila de vestidos expostos. — Escolhe o mais curto que eu tiver.
  — E você escolhe o mais comprido que tiver, hein, Laura! — %Mingyu% berrou do outro cômodo e foi encoberto pelos gritinhos de empolgação de Laura quando me viu colocar um tubinho vermelho na frente do corpo.
  — Excelente escolha. — Laura aprovou e pegou o celular, mandando áudios para as amigas e chamando-as para a minha, quem diria, despedida de solteira.
  — Serviu, mas… — me olhei no espelho depois de trocar minha calça de alfaiataria e minha blusa canelada pelo vestido ali mesmo. — Tá marcando a minha calcinha.
  — Então vai sem. — Laura piscou e o celular dela começou a explodir de mensagens respondendo ao convite.
  Ela era a amiga certa para uma boa noitada. Antes de ser gentilmente amarrada pelo namorado, Laura Chevalier tinha, digamos, uma reputação na Saint Peter, a universidade em que estudamos. Ela sempre foi a garota popular de quem todos queriam se aproximar, frequentava as melhores festas e ficava com os caras mais bonitos. Preocupado com o ritmo intenso das farras da neta, o avô dela, milionário dono da Chevalier Industries, resolveu contratar um segurança particular para ficar de olho na baladeira. Necessitado de um emprego que ajudasse a cobrir as despesas de intercambista, Kim %Mingyu% aceitou a vaga. E o resto da história se desenrolou de um modo previsível, mas não menos bonito: os dois se apaixonaram.
  Balancei a cabeça e puxei a calcinha por baixo do vestido, escondendo-a na minha bolsa. Não era hora de amolecer com a história de amor bem sucedida, tampouco de me lamentar pela minha situação. Era hora de sair com a Laura e as amigas dela para algum clube noturno de Manhattan e cometer uns erros por lá.
  — Satisfeita? — dei uma voltinha para Laura, exibindo o vestido, enquanto ela se enfiava também em um outro, preto e aberto nas costas.
  — Vou ficar ainda mais se você me prometer que vai se divertir hoje. — ela pediu ajuda com o zíper. — Essa noite, você não tem esse peso todo que está carregando, você só tem que dançar, curtir e-
  — E achar uma bunda pra eu amassar. — fui até a penteadeira dela e escolhi um batom da mesma cor do vestido.
  — Esse é o espírito. — ela gargalhou, surpresa e satisfeita, e voltou ao celular para mandar mais um áudio. — Deni, amiga, onde que é aquele clube cheio de tailandês sem camisa?
  — Ei, Laura! — %Mingyu% voltou a gritar do escritório. — Nem pensar!
  — É brincadeira, amor. — Laura riu. — Eu quis dizer onde que é a igreja…
  Acabou que o pequeno escândalo que %Mingyu% deu antes de sairmos foi em vão, porque o tal clube de tailandeses pelados estava fechado para uma reforma e mudamos a programação para um bar ali perto, com bastante música, bastante bebida e bastante gente. As amigas da Laura eram maravilhosas e, apesar de ter acabado de conhecê-las, elas me ajudaram a me soltar e aproveitar a noite. Depois de muita dança e dos primeiros shots, caminhei até a ilha do bar e assobiei para chamar a atenção do bartender:
  — Um El Diablo, por favor! — chamei o atendente na outra ponta da ilha, que entendeu meu pedido apesar do barulho da música e das pessoas. Era um daqueles bares cheios de malabarismos e ele preparou o drink com muita firula, deslizando o copo pelo balcão depois de pronto.
  Minha boca estava seca e eu me preparei para apanhar a bebida lançada, mas a trajetória foi interrompida por uma mão masculina que a interceptou no meio do caminho, tomando-a num movimento rápido e preciso, sem derramar nenhuma gota.
  — Ei! — empurrei algumas pessoas e fui até o intrometido. — Com licença, mas esse drink aí é meu!
  O rapaz nem se deu ao trabalho de me olhar, apenas deu um gole na minha bebida e apoiou um dos cotovelos no balcão, fazendo um gesto para o bartender.
  — Outro El Diablo pra esquentadinha aqui. — ele solicitou, entediado. — Na minha conta.
  — Esquentadinha é a senhora sua mãe. — rebati. — E eu não preciso que você me pague nada!
  O estranho entornou a tequila num longo gole e a camisa dobrada nas mangas revelou uma tatuagem discreta de flecha no antebraço. O rosto, virado de perfil, carregava um nariz grande demais, olhos inchados e bem escuros, e uma boca pequena e rosada, acompanhada de uma marca de barba feita recentemente. Ele olhava para tudo com cara de nada, balançando os três brincos de pino da orelha esquerda a cada vez que arqueava o pescoço, e já parecia estar se divertindo com a minha irritação, esboçando um sorriso de canto.
  — Você quer o drink ou não quer? — ele continuou sem me olhar.
  — Não de você. — ensaiei sair de perto, impaciente com a falta de contato visual, a mesma que me fez dar meia-volta. — Ah, é muito rude falar com as pessoas sem olhar na cara delas, sabia? Não custa nada ser educado. — disparei.
  — Também não custa nada ser um otário. — ele me olhou pela primeira vez, de cima a baixo. — Mas é muito mais divertido.
  Exalei um ar quente, fumaçando de raiva, um tanto pela audácia do abusado e um tanto pelo fato de não conseguir sair de perto dele. Alguma coisa me prendia ali, na atmosfera hipnotizante que ele criou com a voz grave, com o perfume instigante e com o mistério da tatuagem, que eu me perguntava internamente se era a única. Havia notas de ironia carregando os poucos gestos que ele se dignava a fazer, era de um marasmo irritante, uma indiferença quase charmosa. Enfim, o mau-humor que só funcionava em homens muito bonitos feito ele.
  — Aceita o drink, é meu pedido de desculpas. — ele deliberadamente desviou o olhar. — Além do mais, vai relaxar você.
  — Eu não estou tensa. — respondi, tensa.
  — Seus ombros e seu tom de voz dizem o contrário. — ele continuava examinando o fundo do copo como se tivesse ouro dentro.
  — Você mal me olhava há dez segundos e de repente começou a analisar minha linguagem corporal? — ergui uma sobrancelha.
  — Na verdade, eu estou olhando você desde que você entrou. — ele umedeceu os lábios e me encarou, intimidador.
  Dessa vez, fui eu quem tive que desviar.
  — Sua abordagem não é lá das melhores. — alfinetei.
  — É mais eficiente do que você imagina. — senti o olhar dele insistindo e queimando. — Eu te irritei, isso me torna memorável e diferente dos outros três caras que já deram em cima de você. De um jeito ou de outro, você vai ficar pensando em mim.
  — Agora você sabe o que eu penso? — procurei me recompor.
  — Aposto que sim.
  Tomei o copo da mão dele, derrotada. Ele era um cretino, mas eu não podia negar que, das opções que tinham me aparecido até então, ele era a mais deliciosa. E a flecha pairando solitária no braço enorme estava me enlouquecendo de curiosidade. Digitei uma mensagem rápida para Laura e virei o que sobrou da tequila antes que desse tempo de me arrepender.
  — Quer me tirar daqui? — chamei com as intenções mais erradas possíveis.

Capítulo 1
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Lelen

Amo essas histórias de casamento por contrato HEHHEHE
E quem não deve ser esse rapaz do bar, não é mesmo?
Amei ter uma fic com o Mackenyu, fazia um tempo que tava querendo ler uma, agora tenho ❤
Esperando a att 😍

Betiza

UAAAAAAAAAAR, ILANE DO CÉU! EU DEI UM GRITOOOOOOO! graças a deus você voltou a escrever, eu amo tanto tanto tanto a sua escrita, juro por Deus! To louca no próximo capítulo já

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