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História NÃO RECOMENDADA PARA MENORES ou PESSOAS SENSÍVEIS.

Esta história pode conter descrições (explícitas) de sexo, violência; palavras de baixo calão, linguagem imprópria. PODE CONTER GATILHOS

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Dice’n’Roll

Escrita porSoldada
Revisada por Lelen

CAPÍTULO 01

Tempo estimado de leitura: 29 minutos

  %ELLA% • ANTES.
  Casa dos Williams, Hawkins.

  Apertou com um pouco mais de força do que o necessário o freio de sua bicicleta quando os gritos familiares finalmente alcançaram seus ouvidos por sobre o martelar intenso da música que ouvia. Puxou com uma pequena aspereza no gesto, sentindo uma mecha de seu cabelo se enroscar na estrutura de metal dos headphones, apertando os lábios ao apoiar seus pés no chão, meio desequilibrada com a parada brusca. A princípio franziu o cenho, surpresa, o desconforto pairou como uma sombra projetada em sua visão periférica, enroscando-se em um aperto sufocante ao redor de seus ombros e pescoço, em sua garganta, pareceu criar-se um nó pesado, incômodo, seus lábios, de repente, estavam secos demais, quase borrachudos, e seus olhos se estreitaram. Não era incomum chegar de seu trabalho de meio período e se deparar com uma briga alta acontecendo a todo vapor nos terrenos de sua casa. Os vizinhos, a essa altura, já deveriam ter se acostumado com o incômodo que sempre era causado devido as discussões ávidas e acaloradas entre seus pais; mas algo estava estranho aquele dia. Havia malas na entrada da porta.
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  As vozes e os gritos altos da discussão eram potentes o suficiente para penetrar por seus ouvidos, sobrepondo-se ao ritmo pontuado de Luftballons de Nena. Os olhos de %Ella% por um breve momento se perderam na entrada de sua casa, sem saber ao certo o que fazer com todas as informações que se deparara de completo supetão. Estacionado entre a garagem da entrada da casa de dois andares de seus pais, encontrava-se o familiar Ford Mustang azul metálico de treinador Harrison, com o motor ainda ligado e com o mesmo atrás do volante. Algo que não era apenas estranho, mas suficientemente desconfortável, porque, até onde ela sabia, nunca haviam sido amigos próximos de Harrison, pelo contrário. O treinador costumava ser uma criatura cruel, especialmente com %Ella% durante suas aulas, a verdade é que ela tentava se esforçar para ser coordenada e acompanhar as aulas, mas sempre parecia que ele estava indo muito rápido, ou que, de alguma forma, ela era seu alvo de recriminações. Havia tentado conversar com sua mãe sobre isso, mas ela desconsiderou seu apelo com um gesto desdenhoso de cabeça e um comentário de: “você é sensível igual ao seu pai”. Após isso, %Ella% passou a guardar para si a constante importunação que sofria nas mãos do treinador do colégio. Mas agora, a visão dele ali enviou uma onda gélida de preocupação e medo por sua corrente sanguínea, fizera seu peito se apertar e sua respiração se tornar um arfar contido, baixinho. As mãos, agora geladas, estavam suando, trêmulas, e, em seus ouvidos, podia ouvir o martelar constante de sua pulsação, insistente, irregular e intenso. Pois não era só  dentro do carro que se encontrava figura de seu tormento, mas igualmente, as familiares malas amarelas que ela reconhecera imediatamente como as de sua mãe. Estavam acopladas dentro do porta-malas, amontoadas, mas presentes, mas não somente isso, havia caixas de papelão também, como se estivesse ocorrendo uma mudança.
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  %Ella% prendeu a respiração, arregalando seus olhos, engolindo em seco, assustada. Lançou um olhar desconfortável na direção de seus vizinhos, tentando colocar todas as peças daquele quebra-cabeça no lugar, prendendo a respiração com força: senhora Jackson estava fingindo ler algum folhetim jogado a frente de seu jardim, espiando de soslaio a presença do carro do treinador e a discussão que ocorria entre seus pais. Os Johnsson estavam preparando-se para a viagem que sempre faziam: Charles Johnsson trabalhava no centro, administrava algo importante ou fazia parte de uma subsidiária de uma empresa grande da Califórnia então estava sempre enfiado naquele terno desalinhado e esfarrapado, com a gravata igualmente escura ajustada ao pescoço avermelhado; Lisa Johnsson costumava participar dos afazeres na igreja todas as manhãs, impecável em seu vestido florido rodado como o de uma dona de casa dos anos 50, eram de segunda mão, dizia %Aurora% sempre que o via, com um tom de conspiração desde o dia que %Ella% havia questionado a irmã mais velha por que diabos senhora Johnsson usava sempre vestidos como se tivesse saído de algum programa de TV de época. Christopher e Florence, os gêmeos dos Johnsson, estudavam no primeiro período da Hawkins High, e o pequeno John Anthony havia acabado de entrar no primário; assistiam a cena com os cantos dos lábios curvados com aquele típico desdém que ela havia se habituado a observar nos rostos dos membros da igreja que sua mãe fazia tanta questão de frequentar. Como se fossem piadas, como se houvesse algo de ruim neles que os tornassem inferiores.
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  %Ella% podia ver como seguravam suas risadas desdenhosas, ou como Lisa a havia encarado com uma expressão que parecia misturar-se com compaixão e pena. O que quer que fosse, %Ella% sentiu rastejar por sua pele como vermes, contorcendo-se, pegajosos e desconfortáveis, fazendo-a prender a respiração e querer se encolher o máximo que conseguisse até que ficasse invisível. Os Wong cortavam errado a grama do quintal, os olhos do senhor Wong pareceram estreitar-se, um bufar desdenhoso, e um sorriso depreciativo, como se parecesse sentir satisfação. O solitário Joe, com o tapa-olho e o cigarro pendendo por sua boca estava sentado na cadeira de balanço dele, parecendo perdido em seus próprios pensamentos. A barba bem aparada, os olhos azuis intensos estreitados, compenetrados na cena que transcorria entre os pais de %Ella% e o escândalo de seus gritos. %Ella% saltou da bicicleta hesitante, encolhendo os ombros ao aproximar-se lentamente da entrada de sua casa, tentando entender o que diabos estava acontecendo.
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  Seus olhos desviaram-se da entrada onde seus pais discutiam, apontavam o dedo, para fixar-se brevemente no semblante satisfeito quase orgulhoso do treinador Harrison, a presunção estampada em sua face fazendo o estômago de %Ella% revirar-se em cambalhotas dolorosas e nauseantes, o gosto amargo da bile pareceu tornar-se pungente em sua língua, enquanto ela exalava quase superficialmente tentando se lembrar de que deveria continuar respirando. Foi somente quando viu %Aurora%, com o rosto avermelhado pelas lágrimas, a maquiagem borrada e com a própria mala sendo carregada com mãos trêmulas, atravessando o jardim em uma linha reta em direção ao carro de treinador Harrison que %Ella% finalmente entrou em pânico. Os olhos %obsidianas% arregalaram-se, o guidão da bicicleta escapou de suas mãos, o walkman enroscou-se no guidão direito, arrancando bruscamente de sua cabeça os fones, e estilhaçando-se na calçada bruscamente, passando completamente despercebido por ela ao correr em direção de %Aurora%.
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  — %Aura%? — %Ella% chamou hesitante a princípio, mas quando a irmã mais velha sequer se deu ao trabalho de reagir ao seu chamado, %Ella% se desesperou um pouco mais. Gelo correu por suas veias como lascas afiadas, dilacerando tudo em seu caminho enquanto sua garganta se apertava um pouco mais. Um nó se formou ali, doloroso e restritivo, os olhos se encheram de lágrimas que não iriam escorrer por seu rosto, enquanto sua expressão tornou-se ainda mais confusa. Mas que diabos...? — %Aurora%! — %Ella% gritou, praticamente correndo para agarrar o braço da irmã mais velha.
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  Alcançou-a antes que entrasse no carro do treinador Harrison ofegante, assustada e tremendo. %Aurora% virou-se bruscamente, puxando seu braço para longe do toque de %Ella% como se este queimasse. %Ella% arfou baixinho, surpresa com a reação visceral de sua irmã, algo dentro de seu peito pareceu partir-se ao dar um passo para trás, e tensionar a mandíbula não querendo chorar. %Aurora% não era uma pessoa ríspida, ao menos não com ela, era sua única amiga naquele mundo aterrorizante, e encarava-a agora como se ela fosse o problema.
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  — O que está acontecendo? Eu fiz alguma coisa? Me desculpa, eu juro não era minha intenção, me diz o que fiz e eu prometo que vou consertar! É sobre a blusa azul? Eu juro que compro outra, prometo, só… fala comigo, %Aura%, por favor, o que tá acontecendo? — %Ella% desesperou-se, suas palavras atrapalhando-se enquanto tentava segurar outra vez o braço de %Aurora%. Para seu alívio ou então culpa, o rosto da irmã pareceu se contorcer um pouco mais, como se apenas ouvi-la falar, dor tivesse lhe atingido com força. %Ella% olhou ao seu redor desesperada, procurando por alguma resposta ao seu redor, alguém que pudesse lhe explicar o que diabos estava acontecendo, mas não havia ninguém, %Ella% estava sozinha. Completamente sozinha desta vez. Soltou um pequeno gritinho assustado, encolhendo-se quando seu pai arremessou um vaso com força contra a entrada da casa. Os olhos assustados dela repousaram no homem, observando-o completamente absorto não apenas em sua própria fúria, mas igualmente preso em sua própria dor.
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  Ela sentiu sua garganta doer mais, o nó pareceu crescer até tornar-se sufocante ao perceber com horror que, de todo o tempo que havia conhecido o pai, desde pequena, nunca o havia visto chorar — nem mesmo quando sua avó paternal havia falecido alguns anos atrás —, mas agora havia lágrimas escorrendo pelo rosto avermelhado dele, os cabelos desalinhados, enquanto sua mãe soltava uma risada cruel, enfurecida. De todas as brigas que ela havia presenciado entre os dois, de todas as discussões que %Ella% presenciou, ou simplesmente tentaria escutar através da porta enquanto %Aurora% tentava separar a mãe do pai, aquela parecia ser a pior. Não eram compatíveis, %Aurora% e %Ella% sabiam perfeitamente, na verdade, já fazia um tempo que %Ella% questionava ao pai indiretamente sobre divórcios, tentando enterrar uma pequena semente de que talvez essa fosse a coisa certa a ser feita, mas Charlie era uma pessoa teimosa, se não mesquinha o suficiente para condenar-se a uma vida miserável com a mãe de %Ella%. E no fundo, %Ella% percebeu que, mesmo após todas as coisas cruéis que haviam dito um para o outro, todas as acusações e brigas, Charlie ainda assim a amava. 
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  Mas sua mãe o desprezava. 
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  — Por favor, %Aura%, só me diz… — %Ella% soluçou, implorando quando a irmã mais velha puxou seu braço com força. A surpresa e o choque enviaram uma onda de náuseas e tremores por seu corpo, sem conseguir entender o que diabos havia mudado tanto em algumas horas que sua melhor amiga agora a odiava com tamanha intensidade. — Por favor, por favor… — implorou desenfreadamente, as palavras escorrendo de sua boca como água, desesperada para alcançar a irmã mais velha. Para conseguir agarrar-se àquela fina linha tênue que as conectava, que sempre havia sido parte de sua vida, mas… mas essa conexão sequer ainda estava ali?
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  — Pergunte a seu pai — cuspiu entre dentes, agressiva de uma forma que não condizia com a %Aurora% que ela conhecia. %Ella% soltou seu braço imediatamente, encolhendo-se. Desta vez, não a impediu quando a viu entrar no banco de trás do carro do treinador Harrison. Ela piscou as lágrimas que se acumulavam ao redor de seus olhos %obsidianas%, tentando manter a calma, e falhando miseravelmente. Ela deu alguns passos para trás, abraçando a frente de seu corpo ao voltar a linha de seu olhar na direção da mãe e do pai, observando-a finalmente afastar-se a passos rápidos, marchando em uma linha reta em direção ao carro do treinador Harrison. 
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  — Mãe? Aonde você… — A chamou, hesitante, tentando acompanhá-la, mas Evelyn a ignorou completamente. Abriu a porta do carro como quem já estava acostumada com o gesto, e então fechou a porta bruscamente. %Ella% assistiu com surpresa e desolação quando percebeu o que estava acontecendo.
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  Não foi nada do que a mãe poderia ter dito, foi o que ela fez. O gesto instintivo, familiar ao repousar a mão esquerda nos cabelos de treinador Harrison, acariciando as mechas com tamanha familiaridade e intimidade que %Ella% sentiu seu estômago se contrair,  o espasmo enviando uma onda amarga de bile a sua boca, saliva se acumulou ali em um prenúncio do vômito que estava por vir. Ainda assim, obrigou-se a engolir, dando alguns passos para trás, encarando em choque o carro do treinador Harrison funcionar e avançar rua a frente, não demorando a desaparecer. %Ella% engoliu em seco, passando os dedos por seus cabelos, coçando ansiosamente o couro cabeludo, enquanto voltava-se na direção do pai, buscando pelas respostas não ditas, e ela não demorou muito para encontrar a confirmação pela maneira com que seu pai, furioso e absorto em sua dor, parecia estar se despedaçando em tempo real. %Ella% tentou chamá-lo, tentou caminhar até ele, mas ela e Charlie eram muito parecidos para seu próprio bem, e não foi uma surpresa quando ele apenas entrou em sua picape, e acelerou, dirigindo para longe na direção oposta a qual sua mãe havia partido com o amante e %Aurora%. 
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  %Ella% ficou ali, no jardim, sozinha, lentamente absorvendo a informação dolorosa de que a família funcional que outrora tivera havia, finalmente, encontrado seu ponto de ruptura. Por um longo tempo ela ficou parada ali em frente de sua casa, não soube dizer por quanto tempo o fez, só percebeu que era o momento para se mover outra vez para recolher suas coisas da calçada e entrar em casa quando velho Joe repousou uma mão em seu ombro esquerdo, gentilmente, guiando-a em direção à sua casa com um tom de voz compreensivo e gentil. Os outros vizinhos já haviam se dissipado, alguns cochichavam entre si, rindo baixinho com todo o drama que havia ocorrido em tempo real, outrora mais compassivos pareciam apreensivos, não só por Charlie, mas por %Ella%, igualmente. Tudo o que ela conseguia pensar, todavia, era que estava sozinha, e que precisava retirar sua bicicleta da calçada antes que alguém pudesse reclamar outra vez de sua bagunça.
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  Foi somente durante o jantar, enquanto ela cortava metodicamente o tomate para o macarrão a carbonara que estava fazendo com o auxílio de Joe, que ela percebeu que estava tremendo. Percebeu como sua respiração estava irregular e curta, como prendia inconscientemente a própria respiração e só percebia como ficava zonza, e como ao soltá-la, ela adquiria uma crescente rápida e curta. Era como se tentasse respirar o máximo que conseguisse, mas o músculo, espasmódico, se contraísse e a impedisse. Como se estivesse respirando superficialmente, incapacitada de sugar a quantidade necessária de ar que precisava para aliviar a pressão em seu peito. Seu coração martelava contra sua caixa torácica dolorosamente, expandindo-se e contraindo-se como se ela estivesse correndo, como se estivesse em perigo. E de alguma forma, sua mente pareceu concordar com isso. %Ella% sentiu como se estivesse prestes a morrer, sua cabeça pareceu ficar mais leve, e tudo começou a desfocar, seus ouvidos ficaram abafados, como se ela estivesse debaixo d’água, enquanto o tremor tornava quase impossível para ela segurar a faca. Suas mãos formigavam, e por um segundo ela achou, com completo horror, que havia perdido seu tato. 
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  Mas Joe não pareceu perceber, muito concentrado em explicar de maneira prática e direta a %Ella% o que havia acontecido: sua mãe estava tendo um caso com o treinador Harrison, não era um caso recente de poucos meses, mas uma traição que vinha acontecendo já fazia quatro anos, mas foi somente agora que ela havia decidido deixar Charlie, porque descobriu que estava grávida. No meio da discussão, de acordo com a fala baixa e direta de Joe, a mãe de %Ella% havia jogado as cartas na mesa e revelado que %Aurora% não era filha de Charlie, e Charlie enlouqueceu ali. Então, de repente tudo pareceu fazer sentido; as vezes que sua mãe defendia treinador Harrison mesmo quando %Ella% implorava para que escrevesse alguma nota para a coordenação pedindo para que ela parasse de frequentar as aulas, a maneira fria e ressentida com que %Aurora% havia dito a ela “pergunte a seu pai”, como Charlie parecia estar quebrando de dentro para fora antes de desaparecer rua abaixo, provavelmente seguindo para o Hideout beber até esquecer seu próprio nome. Como costumava fazer sempre que discutia com a mãe de %Ella%. 
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  Tudo o que a garota conseguiu dizer para Joe, todavia, foi um sussurrado “me desculpa” antes de encolher-se e enterrar o rosto em suas mãos. Chorou quietinha, sem fazer barulho algum sobre o prato de macarrão com almôndegas intocado. Velho Joe não ficou ali para consolá-la, %Ella% viera a compreender rapidamente que o velho homem, embora gentil e protetor com relação a ela, não era exatamente sentimentalista, e pouco suporte emocional encontraria ali. Acabou mais uma vez sozinha, chorando até a hora de dormir sem saber como consertar aquilo, e sentindo-se culpada. Repassou a noite inteira todas as discussões que havia tido com %Aurora%, todos os comentários enviesados que havia respondido sua mãe, todas as tentativas de conexão com a mãe que a mais velha havia ignorado; %Ella% sempre tivera a estranha sensação de que sua mãe não a suportava, era sempre crítica demais, dura demais com %Ella% de uma forma que não era com %Aurora%. Se %Aurora% tirasse uma boa nota, então ela era celebrada e não a entenda mal, %Ella% adorava preparar as comemorações dos sucesso de %Aurora%. 
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  Admirava-a tanto que chegava a doer. Sabia quais eram seus bolos preferidos, e fazia questão de ajudar a convencer o dono do dinner preferido de %Aurora% a deixar uma mesa reservada para comemorar a conquista da irmã mais velha. Mas %Ella% só ganhava um bufar de sua mãe, uma carícia orgulhosa de Charlie em sua cabeça, desordenando seus cabelos, e um abraço apertado de %Aurora%. Ela não sabia exatamente o que fazia de errado, mas foi ali, naquela noite solitária na casa de seu pai que %Ella% percebeu que deveria ter algo muito errado consigo mesma, algo ruim, nojento. A matemática parecia simples em sua cabeça: se uma pessoa dizia que havia algo de errado com ela, então talvez essa pessoa estivesse equivocada sobre si; se muitas pessoas lhe diziam que havia algo de errado com ela, então, muito provavelmente havia razão. E %Ella% havia visto o desprezo nos olhos de sua mãe, na maneira com que o sorriso presunçoso do treinador Harrison havia se curvado para cima sempre que a via no ginásio, no ressentimento quando %Aurora% a encarou antes de entrar no carro do treinador Harrison. 
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  Algo deveria estar errado com ela. Algo ruim. Talvez fosse sua natureza, talvez fosse quem ela era de fato, no fundo de tudo. Talvez ela fosse o monstro ali. Por ser tão ríspida às vezes, por contestar e falar de volta com seus pais. Se ela tivesse sido mais quieta, mais obediente talvez nada daquilo tivesse acontecido. Talvez ela merecesse aquilo sim: ficar no escuro, sozinha, encolhida em sua cama tocada apenas pela pequena penumbra da luz da lua que penetrava pelas cortinas de um rosa claro delicado que as cobria. Seu coração se contraiu apertado em seu peito, sentindo uma raiva descomunal começar a se instalar ali, quente e sufocante, mas mais do que isso era o profundo nojo que sentiu por si mesma. 
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  %Ella% sempre tivera consciência de que não era o suficiente, mas agora sentia desprezo, nojo de si mesma por ter se permitido acreditar que merecia algo em sua vida. Não, ela não merecia nada se não a solidão, a escuridão que a cobria, a tristeza que a sufocava. 
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  Não dormira aquela noite. A noite em claro pareceu apenas piorar seu humor na manhã seguinte, até tentou forçar-se a comer, mas não conseguiu passar de uma torrada e talvez metade de uma maçã que foi descartada imediatamente no lixo quando ouviu o grunhido do pai vindo da garagem. Encontrou-o apagado ao lado de sua picape, a garagem aberta, e o carro ainda funcionando. Não sabia que horas ele havia chegado naquela manhã, mas reconhecia que não havia nada que ela pudesse fazer para acordá-lo, estava apagado, completamente vulnerável, estatelado no chão, roncando alto, fedendo a álcool e vômito. %Ella% uniu as sobrancelhas, apertando os lábios, ao caminhar em direção a picape, subiu no banco do motorista, desligando o carro, e então fechou a porta, seguindo para a entrada da garagem e tentando fechá-la da melhor forma possível sem riscar por acidente a picape do pai. 
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  Os braços já estavam ardendo pelo esforço quando ela caminhou descalça de volta ao pai. Colocou-se de cócoras ali, franzindo o cenho ao observá-lo por um momento em silêncio. Ele parecia completamente perdido, completamente quebrado. Olheiras arroxeadas se formavam ao redor de seus olhos, e ele estava fedendo profusamente suor, vômito e álcool. Tinha alguns machucados espalhados por seu corpo, os nós dos dedos estavam sangrando, e a mão esquerda ainda agarrava o pescoço da garrafa vazia. Não era uma garrafa pequena. Ela, hesitante, estendeu sua mão na direção dos cabelos do pai, afastando-os de sua testa sentindo seu coração se apertar. Suspirou baixinho, assentindo para si mesma, empurrando com toda sua força seu pai para colocá-lo de barriga para cima, percebendo que ele estava tão bêbado que nem havia resistido ao gesto. Resmungou alguma coisa baixinho, amargo e com um riso entristecido, mas não era sequer coerente o suficiente para ter formado uma frase. 
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  Com um grunhido ela apoiou a cabeça dele em seu ombro, passando os braços ao redor de seu peito largo, tentando erguê-lo. Sabia que não conseguiria carregá-lo até seu quarto, sabia que o peso dele era duas vezes maior do que o seu, mas isso não a impediria de tentar arrastá-lo até a sala, para sua poltrona, onde ele pelo menos poderia dormir um pouco mais confortável do que largado no chão. E foi o que fez. Arrastou-o com cuidado, tentando não o machucar, e então com toda a força que tinha e mais um pouco, o colocou em sua poltrona, ajustou as almofadas ao redor dele para que não machucasse as costas e a cabeça, e então agachou-se ao lado dele, desfazendo os sapatos e arrancando-os junto com as meias e repousando-os ao lado da poltrona, antes de ir para cozinha. 
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  Deixou uma caneca de café forte sobre a mesa de centro na sala a frente de seu pai antes de sair, atrasada, para a escola. Correu até o ponto de ônibus, mas acabou chegando um minuto mais tarde, então não tivera outra escolha senão correr de volta para casa para pegar sua bicicleta e pedalar o mais rápido que conseguia. Quando chegou na escola, a aula já estava na metade e ela recebeu uma bela advertência do senhor Scout. %Ella% nunca havia recebido uma advertência, tentava ser o mais impecável em seus estudos tentando chegar a um passo de quem %Aurora% era, então sentiu a pressão das lágrimas em seus olhos, e o desejo de contestar a reprimenda, mas então apenas se silenciou, assentindo, ao sentar-se em sua mesa de costume. Encolheu-se sobre seus livros e caderno, focada em apenas passar o dia da melhor forma que conseguia. Durante o almoço, %Ella% apenas comprou uma pizza com aparência questionável da cantina, buscando com o olhar por %Aurora%. 
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  Encontrou-a no lugar de sempre, sentada com alguns dos alunos do último ano, conversando e rindo como se tudo estivesse bem, como se nada tivesse acontecido. %Ella% tentou forçar um sorriso para %Aurora%, acenando na direção dela. Mas quando os olhos de sua irmã mais velha se encontraram com os dela, algo gélido percorreu a corrente sanguínea da garota, percebendo de novo aquele olhar ressentido. O riso de %Aurora% morreu em sua garganta e sua expressão se tornou tempestuosa. Levantou-se abruptamente da mesa que se encontrava sentada, disparando para fora da cafeteria, enquanto as amigas de %Aurora% fuzilaram %Ella% com irritação e incômodo. %Ella% piscou, surpresa e em choque, fechando a mão imediatamente e repousando-a contra seu peito, observando sua outrora melhor amiga desaparecer pelos corredores da escola, os olhos marejando com a nova dor afiada que se enroscava por seu coração como vinhas afiadas e profundas, abaixando sua cabeça imediatamente, desejando poder sumir dali.
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  Tentou fazer-se invisível, disparando para fora da cafeteria, na direção oposta de onde %Aurora% havia disparado. Obrigando-se a engolir o nó que se formou outra vez em sua garganta, unindo as sobrancelhas, repreendendo-se por ter ousado cumprimentar sua irmã mais velha. Escondeu-se no restante do horário do almoço no banheiro, tentando limpar as lágrimas de seu rosto, enquanto comia a pizza, mas nem fome poderia dizer que sentia. Forçou-se mesmo assim a engolir a comida, antes de jogar metade no lixo, encolhendo-se contra o vaso fechado, implorando para que ela acordasse daquele pesadelo, ou para que ela desaparecesse. Céus sabiam o quão desesperada para desaparecer sentia-se. Sempre tivera a sensação de inadequação, de que só conseguia fazer as coisas erradas, que estava sempre cometendo algum erro, mas dessa vez, ela sentiu um desespero maior, quase sufocante, que a fez implorar em silêncio para que, seja lá o que existisse, fosse deus, fosse energia, a retirasse dali. Que a fizesse desaparecer, porque sua existência doía mais do que sua morte. 
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  Sua breve salvação foi Chrissy Cunningham e as outras cheerleaders. Quando as aulas finalmente acabaram e a prática se iniciou, %Ella% sentiu-se ao menos livre por alguns minutos para divertir-se com suas amigas e praticar as rotinas de sempre. Foi Chrissy quem gentilmente a puxou de canto, perguntando com um olhar preocupado se estava tudo bem, que %Ella% parecia aérea aquele dia. %Ella% sentiu o impulso de lhe contar o que estava acontecendo, mas então o olhar de %Aurora% pesou em seus ombros, e ela sentiu-se aterrorizada. E se ela contasse a Chrissy e as outras meninas o que havia acontecido, se ela fosse sincera e elas a olhassem da mesma maneira que %Aurora% havia lhe encarado mais cedo? E se elas também a odiassem tanto assim? E se %Ella% também as contaminar assim? Então, movida pelo medo e a insegurança crescente, %Ella% forçou um sorriso doce para Chrissy apenas murmurando que estava bem, que seu incômodo era apenas a detenção que teria que cumprir depois da prática. 
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  Chrissy não pareceu acreditar, estreitou os olhos, observando-a por um momento, mas ainda assim enroscou seu braço no de %Ella%, caminhando juntas em direção ao banco onde as outras meninas discutiam os planos para aquele fim de semana. Uma festa aconteceria na casa de Chase, e %Ella% sentiu-se feliz quando Megan a incluiu nos planos delas. Ficou marcado de que %Ella%, Chrissy e Amber se arrumariam na casa de Megan, e então iriam junto com Jason, o namorado de Chrissy para a casa de Chase. Se algo desse muito errado, Megan e Amber iriam seguir para a casa de Vivian, e %Ella%, Chrissy e Olive iriam seguir para a casa de Chrissy. %Ella% prontificou-se de deixar avisado aos pais das meninas de que elas fariam uma festa do pijama na casa dela, ciente de que Charlie não estaria em casa, ou trabalhando, ou bebendo todas no Hideout, então a pequena mentira para participar da festa poderia ser encoberta. 
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  Ficou feliz de ver como elas haviam se animado com sua tentativa de ajudá-las. Ficou feliz por ser incluída, ainda que por um breve momento. Quando o sinal ecoou finalizando o período letivo, %Ella% suspirou pesado pegando sua mochila e marchando em direção a sala de aula em que ficaria confinada pelos próximos trinta minutos, permitiu-se sentir todo o peso que de repente começava a se projetar em seus ombros. Viu quando %Aurora% deixou a sala com suas melhores amigas, rindo e planejando um passeio para o shopping. Dessa vez, quando os olhos de %Aurora% se voltaram em sua direção, %Ella% tratou de desviá-los imediatamente, unindo as sobrancelhas, encarando seus sapatos brancos, impecáveis, com desinteresse, e agarrando sua mochila com um pouco mais de força, virando para a esquerda para entrar na sala que senhor Scout estava a esperando apenas para se deparar com uma figura estranha e inconveniente na porta.
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  %Ella% prendeu a sobrancelha franzindo o cenho um pouco mais ao erguer a linha de seu olhar e deparar-se com os olhos castanhos escuros mais intensos que ela havia visto. Cabelos longos e desalinhados pendiam por seus ombros, eram cacheados e tinham franja, camadas irregulares. Estava fedendo a algo ácido, pungente e que fez o nariz dela franzir quase imediatamente, mas ela se esforçou para não fazer careta, temendo deixá-lo desconfortável. A blusa preta e branca com a logo “Hellfire Club” e o desenho de um demônio estampado um pouco mais abaixo, era ocultada por sua jaqueta jeans meio esfarrapada, com inúmeros bottons e patches incluindo um da banda W.A.S.P. e do Metallica. %Ella% quase sorriu, reconhecendo os nomes por causa do velho Joe. Percebeu rapidamente que eram inúmeros bottons e patches de bandas e achou a coisa mais legal que já havia visto em sua vida. Tinha um sorriso bonito, até charmoso, apesar de sua persona rockstar maluco com inúmeros anéis ao redor dos dedos, tatuagens e expressão blasé.
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  — Parece que você errou o caminho, princesa, as cheers ficam do outro lado lá — ele disse com um tom de voz condescendente, e %Ella% bufou, em outra época ela teria o respondido com um comentário sarcástico, talvez até tivesse apenas girado em seus calcanhares e marchado para longe, mas bem… com tudo o que estava acontecendo, %Ella% apenas apertou os lábios, forçando um sorriso entristecido para ele ao dar de ombros singelamente.
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  — Estou aqui porque tenho hora marcada com o carrasco — ela murmurou meio sardónica, meio pesarosa, abrindo um sorriso divertido apesar de seu tom entristecido para o garoto à sua frente. Então, piscou, endireitando-se, lembrando-se dos modos e etiquetas que sua mãe sempre insistia em ensiná-la, então estendeu sua mão em um cumprimento formal ao estranho. — Sou %Ella%. %Ella% Williams, é um prazer te conhecer… — %Ella% pausou por um momento sugestiva, dando espaço para que ele se apresentasse também, se assim desejasse.
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  Ele pareceu surpreso com o gesto dela. Tão surpreso que teve que piscar algumas vezes e olhar ao seu redor, em direção onde seus outros três amigos encontravam-se sentados, estes com aparências semelhantes à do garoto a sua frente, mas com suas individualidades ainda intactas, antes de voltar a encarar %Ella% com um quase sorriso surpreso.
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  — Eddie — ele pronunciou-se por fim, %Ella% assentiu, com um sorriso sincero. — Eddie Munson. — Os dedos calejados e ásperos dele, envolto pelos anéis únicos com caveiras e elementos quase esotéricos, enroscaram-se com os dela, aceitando o cumprimento formal. %Ella% sorriu para ele, agitando sua mão uma única vez, um toque firme. 
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  — É um prazer te conhecer, Eddie Munson — ela disse por fim, antes de soltar sua mão e passar por ele, em direção à mesa de frente para a de professor Scout. 
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  Nota da Autora: o próximo capítulo é no POV do Eddie, a gente vai ficar indo e voltando ok? Presente é no ponto de vista do Eddie, passado é no da %Ella%, ok? A intenção não é uma história muito grande aqui, talvez uns 20 capítulos, 25 no máximo, e o foco é o relacionamento dos personagens; é uma AU onde a parte de ficção científica de Stranger Things não acontece (o lance do Will desaparecer, a Eleven etc ainda acontece aqui, e tem o motivo para isso, mas não é por causa do demogorgon e etc, ok?) Peço perdão pela demora para atualizar aqui, me perdi no cronograma e quando vi passou muito tempo, e desde já, muito obrigada por ter lido até aqui ♥️

CAPÍTULO 01
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Lelen

GENTE, MAS QUE FAMÍLIA MEQUETREFE É ESSA. TÔ OFENDIDÍSSIMA COM A AURORA, QUERO DAR UNS TAPÕES NA CARA DESSA “MÃE” E QUERO ENFIAR O SOCÃO NA CARA DO TREINADOR. SEUS BANDICU.
E quem sofre no meio disso tudo? A MENINA QUE TEM NADA A VER COM A HISTÓRIA E SÓ QUERIA PAZ.
Agradecendo aos céus pela Chrissy, será que conseguimos proteger ela nesse AU? E EDDIE, MEU AMORZINHO, VOCÊ VAI SER O RAIOZINHO DE SOL MAIS INESPERADO NESSA HISTÓRIA, EU SEI QUE VAI <3

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